DAQUI:
quarta-feira, 26 de maio de 2021
morrem aos pares
Poetas das manhãs
no crepúsculo
dos dias
para sempre
guardados.
rios que correm
sem margens
na savana angolana.
.
LMC
MARIA ALEXANDRE DÁSKALOS
(1957-2021)
Nasceu em mim uma fonte
nada sabia dessa água
até encontrar as margens
desta escrita
que quis fosse lisa
como pedra mármore
***
Amendoeiras selvagens
em flor
a rasgar o verde
da mata de inverno.
Plenitude de maturidade
como relógio de areia
a marcar os quarenta anos.
***
Um homem ao crepúsculo
sabe que os poetas e as mulheres
percorrem as ruas da cidade
na peregrinação dificílima do amor.
Esperam-nos em caves secretas
ungüentos e odores tropicais
então, um homem tranqüilo torna fácil a nudez.
***
As velhas tias organizam velórios
e com o pêndulo do ocaso
invertem as rotas dos barcos
saídos do cais ao fim da tarde.
Ecos que já não lutam com ventos perigosos
de aromas marinhos
anseiam chegar à ilha para ver os pássaros
e
preguiçar na promessa de uma ilusão cumprida
Ao fim da tarde...
***
A alma é como a lavra.
Quando as nossas mãos voltam a desfiar.
O milho amarelo de ouro?
Que outras mãos que as nossas semeiam
O medo e o silêncio da morte?
Por que este frio? Por que tão longa a noite?
Como se faz o mundo? Quando começa o mundo?
***
O garoto corria corria
Não podia saber
Da diferença entre as flores.
O garoto corria corria
Fugia.
Ninguém lhe pegou ao colo
Ninguém lhe parou a morte.
***
E agora só me restam
os poetas gregos.
O silêncio diz - esquece.
E o espinho da rosa enterrado no peito
é meu.
Os deuses não assistiram a isto.
*
Maria Alexandre Dáskalos, poeta angolana, nasceu em Huambo, em 1957, filha do poeta e intelectual nacionalista Alexandre Dáskalos. Estudou nos colégios Ateniense e de São José de Cluny, formando-se em Letras. Em 1992, durante a guerra civil, mudou-se para Portugal, com a mãe e o filho. Atualmente, é jornalista na RDP África e mestranda em História Contemporânea. Publicou Do Tempo Suspenso (1998), Lágrimas e Laranjas (2001) e Jardim das Delícias (2003).
Arlindo do Carmo Pires Barbeitos
(1940-2021)
Arlindo do Carmo Pires Barbeitos, nasceu em Catete, Província de Icolo e Bengo, Angola, em 24 de Dezembro de 1940. Em 1961, foi obrigado a fugir de seu país por motivos políticos. Viveu na a França, Bélgica, Suíça, e Alemanha, onde cursou Antropologia e Sociologia na Universidade de Frankfurt. Tem doutorado em Etnologia e foi professor na Universidade Livre de Berlim Ocidental e na Universidade de Angola, para onde regressou em 1975.
No tempo/em que as pacaças entravam
no tempo
em que as pacaças entravam
pelos povoados
o vôo alvoraçado das perdizes
carregava sonhos
que
a mãozinha inerme de criança
feliz
agarrava ao lusco-fusco dos muxitos
no tempo
em que as pacaças entravam
pelos povoados
(Na leveza do luar crescente)
Oh flor da noite/onde todo o orvalho se perde
Oh flor da noite
onde todo o orvalho se perde
teus olhos
não são estrelas
não são colibris
teus olhos
são abismos imensos
onde na escuridão
todo um passado se esconde
teus olhos
são abismos imensos
onde na escuridão
todo um futuro se forma
oh flor da noite
onde todo o orvalho se perde
teus olhos
não são estrelas
não são colibris
(Angola Angolê Angolema)
"borboletas de luz"
borboletas de luz
esvoaçando
de cadáver em cadáver
colhem
o fedor dos mortos em
vão
e
pelos buracos da renda
dos dias
passam alacres
do mundo do esquecimento
ao país da indiferença
levando consigo
o pólen fatal
das flores da guerra
borboletas de luz
(Na leveza do luar crescente)
"oh alambique..."
oh alambique
de saudade
destilando
álcool de poesia
pára pára
oh alambique
de saudade
(Na leveza do luar crescente)
"imersa em sereno de lusco-fusco"
imersa
em sereno de lusco-fusco
e
suspensa em vazio
São-Tomé
carrocel de montanhas
carregador de nuvens
transportados de sonhos
irrompendo
de abismo de espuma
e
sumindo
em precipício de bruma
São-Tomé
suspensa em vazio
e
imersa em sereno de lusco-fusco
(Na leveza do luar crescente)
"na leveza do luar crescente"
na
leveza do luar crescente
sobe
a ilusão da felicidade
que
teu gesto distraído
me dá
como se
plumas vogando suaves
na brisa
fossem
vida de pássaro apodrecendo
na
leveza do luar crescente
(Na leveza do luar crescente)
"na transparência da tardinha"
na transparência da tardinha
que
impávidos imbondeiros sombreiam
cantar de galinha do mato
é
eco de um tempo
em
que ilusão e verdade
cirandavam alheias ao mundo
a esperança medrava verde
verde
como rebento de capim de outubro
na transparência da tardinha
que
impávidos imbondeiros sombreiam
(Na leveza do luar crescente)
"pela névoa de pesadelo"
pela névoa de pesadelo
a dor passa
clandestina
a fronteira dos instantes
e implacável
monta guarda
ao porão dos dias
ao contorno dos gestos
ao ruído das coisas
e
ao sentido das palavras
embaciadas
pela névoa do pesadelo
(Na leveza do luar crescente)
CARNAVAL CARNAVAL CARNAVAL
carnaval carnaval carnaval
guizos apitos dicanzas* gomas2** puitas*** e quissanges
vozes
vozes cantando berrando gritando chorando gargalhando
[e calando
papel riscado seda serapilheira peles e pele missangas pulseiras chapéus espelhinhos cacos de
[garrafas e outras coisas
vermelho amarelo verde azul
azul verde amarelo vermelho o céu e o sol
carnaval carnaval carnaval
olhos para o ar mãos sem nexo peitos em turbilhão ventres abobadados cus em assimetria e corpos jazendo gentes
gentes gingando bamboleando saracoteando
[massembando^ cambalhotando e dormindo
carnaval carnaval carnaval
poeira
poeira branca como fuba bombó***** cobrindo
crianças cães folhas mangas água e tudo
cheiro
cheiro de bode cheirando de lábios revirados e mijo
[das cabras
cheiro de bagre seco repousando na calma das quinda******
cheiro de catinga em nossos sovacos ardentes
cheiro de sentina que o vento traz das piteiras ao lado
[de cacimba
cheiro de chuva de ontem nas lavras sem ninguém
e cheiro de pólvora dum outro dia de fevereiro ainda
[por chegar
carnaval carnaval carnaval
feiticeiro velho que fala com jacaré
passeando lentamente de chucho no ombro e branco
brando vendendo vendendo carnaval carnaval carnaval
1 dicanza — chocalho.
goma — espécie de tambor.
pufta — cuíca
massembando — dançar a massemba (dança tradicional de Angola).
fuba bombó — farinha de mandioca.
Quinda - cesto
O JOÃO CAMBUTA QUE FORA MILITAR
O joão cambuta que fora militar tinha um apito da tropa
O Nando china que era mulato fez uma gaita de caniço
6 quinda - cesto
O Chico pernambucano que não era brasileiro mas que mancava da perna direita trouxe uma puíta* do avô caçador
O Tumba pastor porque era do sul
marcava ritmo com dois pauzinhos
O Pazito funileiro que vinha de Capolo
só tocava de assobio
mas não estragou a música.
*puita - inztrumento musical
A SOMBRA DA ARVORE VELHA DE MUITOS SOBAS
A sombra da árvore velha de muitos sobas.*
só cresceram muxitos**
O sussurrar encarcoleante dos surucucus d'areia
marcava dédalos efémeros
que os quissondes*** iam devorando
A sombra da árvore velha de muitos sobas só cresceram muxitos
*sobas – chefes tradicionais
**muxitos – arbustos
***quissondes – formigas grandes
BEIJO ATÉ A GARGANTA TUA BOCA PANTANAL
Beijo até à garganta tua boca pantanal
paradeiro obsidiano de sapos miasmas excrementos e
[orquídeas roxas
respiro teu halo mortífero de febres palustres
chupo tua língua dura
tronco de mulemba* carcomida
que sopro de mologe** zangado
fez tombar à água
em noite de trovoada seca
respiro teu halo mortífaero de febres palustres
beijo até à garganta tua boca pantanal
paradeiro obsidiano de sapos miasmas excrementos e
[orquídeas roxas
*mulemba – árvore de fruto comestível
**mologe - feiticeiro
sábado, 15 de maio de 2021
Ana Moura_ novo disco
Letra:
Passo os meus dias em longas filas
Em aldeias, vilas e cidades
As andorinhas é que são rainhas
A voar as linhas da liberdade
Eu quero tirar os pés do chão
Quero voar daqui p'ra fora e ir embora de avião
E só voltar um dia
Vou pôr a mala no porão
Saborear a primavera numa espera e na estação
Um dia disse uma andorinha
Filha, o mundo gira, usa a brisa a teu favor
A vida diz mentiras
Mas o sol avisa antes de se pôr
Eu quero tirar os pés do chão
Quero voar daqui p'ra fora e ir embora de avião
E só voltar um dia
Vou pôr a mala no porão
Saborear a primavera numa espera e na estação
Já a minha mãe dizia
Solta as asas, volta as costas
Sê forte, avança p'ra o mar
Sobe encostas, faz apostas
Na sorte e não no azar
terça-feira, 4 de maio de 2021
Filme "A Criada"
"Quando Jinlian por fim despiu a roupa, Ximen-Wing examinou o seu Portão de Jade, viu que era liso, branco como a neve, suave como jade. Apertado como um nó, dedicado como seda. Assim que afastou as cortinas de carne, o odor de vinho bem envelhecido emanou do interior e, sobre dobra após dobra, do interior de veludo avermelhado formavam-se contas de orvalho. O âmago era escuro e vazio, e, contudo, como se tivesse vida própria, estava sempre a contrair."
do filme "A Criada", de Park Chan-Wook
quarta-feira, 28 de abril de 2021
"O que ando a ler"
Germano Oliveira
Editor online
"Respeito muito a sorte, um dia a minha família quis meter-me no ciclismo e tive de fazer um teste com outros atletas, no fim da prova caí e bati com a boca no chão, o meu primeiro troféu no desporto foi lábios inchados para uns dias e um dente torto para a vida, que campeão, agora sempre que sorrio os outros podem ver como a sorte me sorriu mas nunca quis que os dentistas mexessem na minha sorte porque sempre que a escovo com o meu dentífrico quando me levanto de manhã e depois quando me deito à noite essa é a maneira que tenho de celebrar todos os dias a gratidão de ter a minha inteligência intacta: eu ia sem capacete no dia em que caí porque o ciclismo agora obriga a usá-lo mas naquele tempo não, portanto eu podia ter batido com a cabeça mas bati com a boca no chão, não sei como aconteceu mas sei que cair é um azar mas cair bem é uma sorte e eu cá prefiro negar coisas a dentistas do que depender de neurologistas, a vida é mesmo um milagre ainda maior quando o estado da cabeça continua no seu melhor, por isso respeito muito a sorte de ter um dente que se tornou torto e uma inteligência que se manteve direita, penso sempre nisso quando pego na minha escova de dentes e para mim tem beleza e conforto maiores que um sorriso perfeito, portanto deixem-me em paz dentistas que me querem pôr um aparelho, anos depois já era ciclista a sério e voltei a ter uma queda que me entortou outra parte do corpo mas tenho tanta sorte na minha sinuosidade e aprendo tanto com ela, veja bem: um dia fui treinar sprints na estrada de Entre-Os-Rios para depois ir competir à pista de Alpiarça, acabou mal, a corrente da bicicleta partiu-se e eu capotei, lembro-me de ver o mundo ao contrário enquanto andava à volta no ar e depois de não me conseguir levantar quando tentei sair do chão, foi assim que descobri pela primeira vez como dói cair depois de subirmos na vida e como custa ainda mais levantar-nos, mas voltando à história: nesta queda eu ia de capacete e ele estalou-se quando bati na estrada e a minha clavícula também, é uma agonia absurda mas de tudo o que se podia ter quebrado foi o osso do ombro que se articula com o esterno e o úmero que cedeu, o pescoço caiu bem as costas também e a cabeça idem porque graças a Deus o capacete, depois no hospital avisaram-me que iria caminhar torto durante umas semanas porque o ombro afetado tinha ficado temporariamente desnivelado, ainda hoje está porque fui a um endireita depois do hospital porque queria acelerar a recuperação mas devia era ter feito a fisioterapia que me recomendaram para curar lentamente a lesão, por isso respeito muito a sorte que só me deixou um ombro torto em vez de danos piores para me ensinar que há decisões de momento que têm consequências para a vida inteira, continuando: tive mais quedas entretanto, numa ganhei uma cicatriz na coxa quando deitei abaixo parte do pelotão ao cair numa curva com areia e fui entre todos aquele que se magoou menos e noutra fiquei com uma cicatriz debaixo do queixo quando bati a 50 à hora numa pessoa que atravessou a estrada sem olhar, às vezes penso na sorte que tive em todas as quedas graves porque ora aprendi filosofia ora anatomia mas nunca perdi o essencial que é a minha memória e imaginação e o meu juízo e raciocínio e a minha capacidade de abstração e conceção, o dicionário diz que isso tudo é inteligência e essa ficou-me sempre intacta nos meus desastres de bicicleta, não interessa a dimensão da inteligência mas sim que é a nossa, neste caso a minha, tive tanta sorte “e não há nada de mal nisso, o inimigo queixava-se de Napoleão por ele ter generais com sorte, ao que o imperador retorquia que não gostava de generais sem sorte”, isto é do João Lobo Antunes no prefácio do “De Profundis, Valsa Lenta”, é a história de quando o grande José Cardoso Pires teve um acidente vascular cerebral de gravidade muito acentuada, aconteceu assim e é contado pelo próprio:
“Janeiro de 1995, quinta-feira. Em roupão e de cigarro apagado nos dedos, sentei-me à mesa do pequeno-almoço, onde já estava a minha mulher com a Sylvie e o António, que tinham chegado na véspera a Portugal. Acho que dei os bons dias e que, embora calmo, trazia uma palidez de cera. Foi numa manhã cinzenta que nunca mais esquecerei, as pessoas a falarem não sei de quê e eu a correr a sala com o olhar, o chão, as paredes, o enorme plátano por trás da varanda. Parei na chávena de chá e fiquei. ‘Sinto-me mal, nunca me senti assim’, murmurei numa fria tranquilidade.
Silêncio brusco. Eu e a chávena debaixo dos meus olhos. De repente viro-me para a minha mulher: ‘Como é que tu te chamas?’.
Pausa. ‘Eu? Edite.’ Nova pausa. ‘E tu?’ ‘Parece que é Cardoso Pires’, respondi então”,
e a seguir ele levanta-se para ir tratar da higiene matinal e eu descubro a lê-lo que a minha escova de dentes fez coisas melhores por mim que a dele por ele,
“Tudo o que sei é que me pus ao espelho da casa de banho a barbear-me com a passividade de quem está a barbear um ausente - e foi ali.
Sim, foi ali. Tanto quanto é possível localizar-se uma fracção mais que secreta de vida, foi naquele lugar e naquele instante que eu, frente a frente com a minha imagem no espelho mas já desligado dela, me transferi para um Outro sem nome e sem memória e por consequência incapaz da menor relação passado-presente, de imagem-objecto, do eu com outro alguém ou do real com a visão que o abstracto contém. Ele. O mesmo que a mulher (Edite, chama-se ela mas nada garante que esse homem ainda lhe conheça o nome, que não a considere apenas um facto, uma presença), exacto, esse mesmo Ele, o tal que a Edite irá encontrar, não tarda muito, a pentear-se com uma escova de dentes antes de partirem de urgência para o Hospital de Santa Maria e o mesmo que, dias depois, uma enfermeira surpreenderá em igual operação ao espelho do lavatório do quarto”,
tenho uma pessoa na minha vida que sei que leu recentemente duas vezes este livro do José Cardoso Pires, esta minha pessoa teve um acidente de bicicleta mais grave que todos os meus porque quando se levantou não pôde negar coisas a neurologistas e aprendeu de maneira absolutamente pior que a minha quanto nos custa reerguer a vida depois de ela nos cair ao chão, eu tive sempre a sorte toda nas vezes que caí e esta minha pessoa teve toda a sorte nenhuma de uma só vez, respeito muito a sorte mas não entendo mesmo como ela se distribui, talvez eu tenha mais medo do que respeito pela sorte, enfim, esta pessoa da minha vida que caiu esqueceu-se de palavras nomes factos e memórias depois do acidente, o José Cardoso Pires descreve no “Valsa Lenta” em quem nos transformamos quando isso acontece:
“Sem memória esvai-se o presente que simultaneamente já é passado morto. Perde-se a vida anterior. E a interior, bem entendido, porque sem referências do passado morrem os afectos e os laços sentimentais. E a noção do tempo que relaciona as imagens do passado e que lhes dá a luz e o tom que as datam e as tornam significantes, também isso. Verdade, também isso se perde porque a memória, aprendi por mim, é indispensável para que o tempo não só possa ser medido como sentido”,
mais adiante no livro o José Cardoso Pires conta que chegou a ser noticiado que ele tinha morrido, “morte cerebral, foi com esta expressão que a Agência Lusa passou a notícia à imprensa para o outro lado dos muros do Hospital de Santa Maria”, mas o triunfo dele não foi ter ficado vivo mas ter voltado a ser a pessoa dotada que era antes do AVC, isso é que é ressuscitar: o diagnóstico inicial que lhe fizeram não fazia prever uma recuperação total, antevia-se uma perda permanente de faculdades intelectuais, mas a ciência é continuamente surpreendida pela instinto humano de preservação e superação - ninguém soube explicar de que maneira aconteceu mas ele recuperou subitamente, num dia era o Outro e no dia a seguir era o José Cardoso Pires, os médicos espantaram-se, “alguém me dá os parabéns como se tivesse sido eu o autor deste triunfo e um psiquiatra meu amigo expõe o fundamental da recuperação surpreendente, surpreendente, repetiu ele, que me tinha acontecido”, no prefácio do livro o João Lobo Antunes também conta a sua surpresa com a recuperação do José Cardoso Pires e é nessa reflexão que aparece o Napoleão mas tanto mais,
“É claro que lhe podia enunciar cientificamente os possíveis mecanismos pelos quais se operou a sua restitutio ad integrum. Não sei, nem para o caso importa muito, quais eles foram. Eu tenho duas outras explicações originais, uma talvez pouco científica, e a outra digna de mais madura reflexão.
A primeira é que você simplesmente teve sorte, e não há nada de mal nisso. O inimigo queixava-se de Napoleão por ele ter generais com sorte, ao que o imperador retorquia que não gostava de generais sem sorte, princípio para mim fundamental na prática da profissão.
A segunda é que a área que temporariamente você deixou à sede e à fome, e pela qual falava, lia e escrevia, tudo funções em que é exímio, era mais musculada que a do comum dos mortais. E isto não é treta, porque se sabe hoje que os donos do ouvido absoluto, que lhes permite a identificação imediata de qualquer som - e Mozart tinha-o, e de forma admirável -, têm a área auditiva do córtex cerebral indiscutivelmente hipertrofiada”,
respeito muito a sorte mas respeito ainda mais a inteligência, por isso estou hipertrofiado não de esperança mas da certeza de que a minha pessoa que caiu está agora a ser autora de um triunfo à maneira dela, nada surpreendente surpreendente para quem a conhece porque a área que ela deixou temporariamente à sede e à fome e pela qual falava, lia e escrevia, tudo funções em que é exímia, é mais musculada que a do comum dos mortais e isso não é treta porque ela é a campeã do halterointeligenciofilismo: a má sorte pode partir-nos a vida mas a inteligência pode consertá-la e tu, pessoa que caiu e que já vi entretanto de pé, tu és dona de uma força absoluta e tens uma inteligência que é inspiração e também a tua salvação - e se tiveres medo neste teu caminho, porque ter medo nem sempre é cobardia porque às vezes é somente inteligência, lê duas vezes a Clarice Lispector: “Naquela hora da noite conhecia esse grande susto de estar viva tendo como único amparo apenas o desamparo de estar viva. A vida era tão forte que se amparava no próprio desamparo”."
in: "Expresso Curto"
quinta-feira, 11 de março de 2021
Amor Afoito_ Ana Moura
Amor Afoito_ Ana Moura (do álbum "Desfado"
Letra
Dou-te o meu amor
se mo souberes pedir, tonto
Nâo me venhas com truques, pára
já te conheço bem demais
Dou-te o meu amor
sem qualquer condição, por ora
Mas terás de provar que vales
mais que o que já mostraste ser
Se me souberes cuidar,
já sei teu destino
Li ontem a sina,
a sorte nos rirá, amor
Se quiseres arriscar
não temas a vida
Amor, este fogo
não devemos temer
Dou-te o meu amor
em troca desse olhar, doce
Não resisto e tu tão bem sabes
Tenho raiva de assim ser
Tudo em mim, amor, é teu,
Dou-te o meu amor
sem qualquer condição, por ora
Mas terás de provar que vales
mais que o que já mostraste ser
Se me souberes cuidar,
já sei teu destino
Li ontem a sina,
a sorte nos rirá, amor
Se quiseres arriscar
não temas a vida
Amor, este fogo
não devemos temer
Dou-te o meu amor
em troca desse olhar, doce
Não resisto e tu tão bem sabes
Tenho raiva de assim ser
Tudo em mim, amor, é teu,
Podes tocar, não mordo
Sabes bem que não minto, tonto
Sabes bem que não minto, tonto
Meu mal é ter verdade a mais
Se me souberes cuidar,
já sei teu destino
Li ontem a sina,
a sorte nos rirá, amor
Se quiseres arriscar
não temas a vida
Amor, este fogo
não devemos temer
Se me souberes cuidar,
já sei teu destino
Li ontem a sina,
a sorte nos rirá, amor
Se quiseres arriscar
não temas a vida
Amor, este fogo
não devemos temer
Compositor: Nuno Figueiredo e Jorge Benvinda
Se me souberes cuidar,
já sei teu destino
Li ontem a sina,
a sorte nos rirá, amor
Se quiseres arriscar
não temas a vida
Amor, este fogo
não devemos temer
Se me souberes cuidar,
já sei teu destino
Li ontem a sina,
a sorte nos rirá, amor
Se quiseres arriscar
não temas a vida
Amor, este fogo
não devemos temer
Compositor: Nuno Figueiredo e Jorge Benvinda
domingo, 21 de fevereiro de 2021
Carmen Dolores diz...
Carmen Dolores diz "*Deixa-me ser tua amiga amor" de Florbela Espanca
Amiga
Deixa-me ser a tua amiga, Amor,
A tua amiga só, já que não queres
Que pelo teu amor seja a melhor,
A mais triste de todas as mulheres.
Que só, de ti, me venha mágoa e dor
O que me importa a mim?! O que quiseres
É sempre um sonho bom! Seja o que for,
Bendito sejas tu por mo dizeres!
Beija-me as mãos, Amor, devagarinho ...
Como se os dois nascêssemos irmãos,
Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho ...
Beija-mas bem! ... Que fantasia louca
Guardar assim, fechados, nestas mãos
Os beijos que sonhei prà minha boca! ...
Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas"
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021
Joan Margarit, RIP
11.Maio.1938 - 16.Fevereiro.2021
“O poema surge do interior do poeta, da sua própria vida, e ainda assim deve falar daqueles subtilíssimos sentimentos que não lhe pertencem a ele apenas, pois nesse caso seria um mau poema, na exata medida em que não poderia interessar a ninguém mais do que a si mesmo. Os poemas devem construir-se a partir de algo que, constituindo parte da vida do poeta, pertença igualmente à dos demais”
Joan Margarit,
prólogo, da tradução do catalão para português de “Misteriosamente Feliz”, pela Língua Morta, em 2015
terça-feira, 19 de janeiro de 2021
Quinteto Lisboa

Quinteto Lisboa
A história que o Quinteto Lisboa vem contar, é simples.
O Quinteto Lisboa é um projecto que surge a partir da cumplicidade de vários anos entre a dupla de compositores João Monge (letrista) e João Gil (músico e guitarrista) e de dois músicos de excelência, José Peixoto (guitarrista) e Fernando Júdice (baixista).
As vozes são de Paulo de Carvalho e Maria Berasarte.
O Quinteto Lisboa traz uma alma nova à música e pretendem marcar o “movimento” do que pressentem ser a “nova Música Urbana Portuguesa”, levando compositores e intérpretes a encontrar algo de novo dentro das suas raízes. O projecto é um grupo que nasce da vontade de trazer uma nova sonoridade à música portuguesa. Segundo os autores, “não é um projecto de fado, mas o QUINTETO jamais existiria se não houvesse fado”.
O disco homónimo é, de resto, testemunho desta missão. Ao longo de 15 canções, as vozes de Paulo de Carvalho e Maria Berasarte cruzam-se e descruzam-se, perdem-se e reencontram-se nos acordes delicados das guitarras de João Gil e José Peixoto.
“Pé Ante Pé” é o single de apresentação do “Quinteto de Lisboa”.
João Gil assina a composição desta letra de João Monge, a que Paulo de Carvalho empresta a voz numa interpretação única.
*****
AQUI: Armando Carvalheda recebeu, no estúdio 23, o Quinteto Lisboa, apresentando três temas.
Enquanto os músicos, que integram a formação, desvendavam o espírito subjacente à música que fazem.
Enquanto os músicos, que integram a formação, desvendavam o espírito subjacente à música que fazem.
Captação e gravação de Eric Harizanos.
Produção Ana Sofia Carvalheda.
QUINTETO LISBOA
Membros:
Maria Berasarte - Voz
Paulo de Carvalho - Voz
José Peixoto – guitarra clássica
João Gil – guitarra acústica
Fernando Júdice – baixo acústico
Alinhamento:
01. Fado Enamorado
02. Vai
03. Pé Ante Pé
04. Casa
05. Fado Açoriano
06. Atrás dos Meus Cortinados
07. Quase Oração
08. Fado Flor
09. Pregão
10. Bem Dizias
11. Memórias de Adriano
12. Confissão
13. Tão Tarde
14. Noite e Dia (Estranha Dança)
15. Depois da Chuva
sexta-feira, 15 de janeiro de 2021
Leonel Cosme
Morreu o escritor Leonel Cosme,
autor de "A Revolta"
Tinha 86 anos. As cerimónias fúnebres realizam-se esta sexta-feira.
Tinha 86 anos. As cerimónias fúnebres realizam-se esta sexta-feira.
PorLusa
Quando eu morrer ponham-me num museu
que o meu lugar é aí.
Coloquem na vitrina este letreiro:
“Espécie rara de tipo invertebrado
verdadeiramente fenomenal.
Fez poesia. Cursou a Faculdade. Sofreu
entre outras coisas, ausências de dinheiro,
e, como os humanos, pensou no Bem e Mal.
Chegou a convencer-se que era gente.
Mas morreu.
E por tudo isso que o fez diferente
dos outros invertebrados
veio parar à sala de um museu”
18-12-57
Quando eu me for
Seja um fim de tarde
Quando o sol já perde o fulgor
E já não arde.
Que me vá devagarinho
Suavemente
Como pétala de flor
A cair sobre o tampo
De uma mesa
Sem tristeza
Nem dor
Apenas como um eco
Que se cala.
03-03-08
"Há um tempo de chegar e um tempo de partir... Chegou a hora de o meu pai, Leonel Cosme, partir", escreve a filha Ariana Cosme, na sua página do Facebook.
Na publicação, Ariana Cosme recorda que o pai deixou escrito no seu último livro "Homo Sum: Tempo de Partir e Chegar" (no prelo na Unicepe) a sua última vontade: "Quando eu morrer quero apenas sobre a campa uma lápide ou tampa com o meu nome, pois ele diz o que eu valer (...)".
Leonel Cosme nasceu em Guimarães, em 1934, e viveu 30 anos em Angola, para onde partiu, em 1950, com a família.
Radicou-se naquela então colónia portuguesa, onde foi funcionário público e exerceu jornalismo, tendo regressado a Portugal em 1975.
Em 1982, voltou a Angola e ali permaneceu até 1987, ano em que regressou definitivamente a Portugal.
Prosseguiu, no Porto e em Lisboa, a atividade jornalística que já desenvolvia em Angola, na imprensa e na rádio, e, em 1990, retirou-se do jornalismo profissional para se dedicar à atividade literária, representada por colaboração em jornais e revistas da especialidade, obras de ficção e ensaio histórico-literário.
Publicou as novelas "Um Homem na Rua" (1958) e "A Dúvida" (1961), os contos "Quando a Tormenta Passar" (1959) e "Graciano" (1960), e ainda o livro de poemas "Ecce Homo" (1973).
No domínio do ensaio, publicou "A Separação das Águas - Angola 1975-1976", "Cultura e Revolução em Angola" (1978), "Agostinho Neto, a Poesia e o Homem" (1984), "Muitas são as Áfricas" (2006).
Escreveu ainda uma 'pentalogia', genericamente intitulada "A Revolta", iniciada na década de 1980, de que fazem parte títulos mais recentes como "A Terra Da Promissão" e "A Hora Final".
Em Angola, colaborou na revista Cultura, de Luanda (1957-1961), e no Boletim Cultural de Huambo, publicado na então cidade de Nova Lisboa (1948-1974) e foi um dos fundadores e diretor das Edições Imbondeiro, de Sá da Bandeira (hoje Lubango), onde prefaciou e publicou, em parceria com Garibaldino de Andrade, as que foram consideradas -- pelo conteúdo e pelo momento histórico da edição -- as mais importantes antologias da nova literatura angolana: "Contos d' África" (1961), "Novos Contos d'África" (1962) e "Antologia Poética Angolana" (1963).
Leonel Cosme é também o autor do catálogo da Primeira Exposição de Bibliografia Angolana (Sá da Bandeira, hoje Lubango, 1962), com cerca de 700 títulos distribuídos por seis áreas: História e Sociologia, Etnografia, Literatura e Ficção, Viagens e Narrativas, Vários Estudos, Antropologia.
Participou em congressos, seminários e colóquios, promovidos, designadamente, por institutos universitários de Portugal, do Brasil e de Itália.
segunda-feira, 21 de dezembro de 2020
...
A loucura, meu bem,
foi tentar agarrar o canto dos pássaros
e a nudez dos ramos,
a ouvir histórias do vento que passa.
Entender na imagem o murmúrio das folhas caídas, um manto de preces a proteger raízes.
Esta foi a loucura, meu bem,
querer oferecer-te numa imagem
a magnífica sinfonia das árvores.
E trazer aos teus olhos, nada mais,
que o silêncio que atravessa a ponte...
Sónia Micaelo
(Texto e imagem)
terça-feira, 15 de dezembro de 2020
Fascismo_Opinião
DAQUI: Germano Oliveira,
in Expresso Curto
"O QUE EU ANDO A LER
Sou filho de feirantes, à segunda tínhamos a feira de Espinho onde os meus pais conheceram o Germano Augusto de quem herdei esses dois nomes ao escolheram-no para meu padrinho quando nasci, foi uma circunstância que veio a ter uma coincidência - o restaurante que se tornou o meu preferido das minhas segundas-feiras de criança em Espinho chamava-se O Padrinho, a vida tem redundâncias tão bonitas; sou filho de feirantes, à terça não havia feiras para nós porque era dia de planear as seguintes e de fazer a contabilidade do que se ganhou nas anteriores mas à quarta era a feira dos Carvalhos, foi lá que o meu pai me deixou ir a uma loja subscrever a TV Cabo porque ele não tinha dinheiro para me levar ao mundo mas deixou que eu tivesse dezenas de canais para que o mundo se mostrasse a mim, a vida tem criatividades financeiras tão bonitas; sou filho de feirantes e à quinta era a feira de Pedras Rubras que tinha o nome do aeroporto que agora é Francisco Sá Carneiro e onde eu sonhava viagens naqueles aviões em que nunca pensei ter a possibilidade de entrar mas tive, a primeira vez que voei foi porque me tinha tornado atleta e era preciso um avião para me levar à competição e pagaram-me tudo, então o meu pai veio comigo para nos comovermos a voar sobre Pedras Rubras, a vida tem retribuições tão bonitas; sou filho de feirantes e às vezes não se ia a Pedras Rubras às quintas-feiras porque era necessário ir a Vigo comprar centenas de gomas e dezenas de brinquedos baratos para se venderem mais caros nas feiras de Portugal, eram excursões na camioneta do Sousa que seduzia sempre alguma mulher naquelas viagens, eu queria ser como o Sousa toda a gente queria, o Sousa era alto simpático elegante e conduzia depressa, a vida está cheia de Sousas que nos fazem querer ser mais bonitos; sou filho de feirantes e às sextas era a feira de Santana, enquanto o meu pai vendia bolos de teixeira eu metia-me dentro do velhinho minicamião Mitsubishi dele e fazia daquela cabine a minha feira do livro, Álvaro Magalhães Enid Blyton Ana Maria Magalhães Isabel Alçada, o mundo era uma aventura no Mitsubishi, a vida dá-nos memórias tão bonitas; sou filho de feirantes e ao sábados e domingos não se vendia nas feiras mas na Ribeira do Porto, a Rosa Manca e a Dolores eram as rainhas das vendas daqueles fins de semana e o meu pai o rei do pão, às vezes o Reinaldo Teles e o Pinto da Costa apareciam lá e chamavam Bento Padeiro ao meu pai e eu passei a fazer igual, em vez de pai chamava-lhe Bento, na verdade senhor Bento, sou um institucionalista desde cedo e a minha primeira grande instituição foi aquele padeiro-pai, a vida às vezes dá-nos laços de sangue tão fortes e bonitos.
Mas porque escrevo isto?, não há dramas nem convulsões no que expliquei até aqui, que interessa então?, “o homem moderno necessita de ruído, de excitação constante, quer satisfazer as suas necessidades. Como nos tornámos cada vez mais insensíveis, necessitamos de métodos mais grosseiros de satisfazer a nossa ânsia de estimulação. (...) Fomos intoxicados pela ideia de que tem de acontecer alguma coisa, estamos obcecados com a velocidade e a quantidade”, pois eu podia ter proporcionado isso se quisesse escrever sobre pistolas heroína roubos agressões detenções ou afins, as feiras onde cresci tinham disso tudo mas também o seu oposto, bondade solidariedade abnegação dignidade lealdade e qualidades afins, mas quando se cresce num contexto anormal procuramos ansiosamente agarrar-nos ao que há de mais normal, é uma questão de sanidade e sobrevivência, é escolher entre a serenidade ou a violência, e é por isso que qualquer detalhe banal se transforma num acontecimento fenomenal, a banalidade é tão subestimada então que se sobrestime, e é por isso que quando nos tornamos adultos depois disto ficamos tão necessitados do normal e ainda mais preocupados com o anormal, qualquer detalhe aparentemente inofensivo transforma-se num acontecimento repulsivo, veja isto que andei a ler:
a nossa constituição começa assim, “A 25 de Abril de 1974, o Movimento das Forças Armadas, coroando a longa resistência do povo português e interpretando os seus sentimentos profundos, derrubou o regime fascista”, é preciso chamar os regimes pelos nomes, fascista, isso, era fascismo sim, fascismo que na versão simplista dos dicionários online é “uma ideologia política ultranacionalista e autoritária caracterizada por poder ditatorial, repressão da oposição por via da força e forte arregimentação da sociedade e da economia”, mas há um partido que pretende mudar a nossa Constituição para que ela comece assim, “A 25 de Abril de 1974, o Movimento das Forças Armadas, coroando a longa resistência do povo português e interpretando os seus sentimentos profundos, derrubou o regime vigente”, reparem, o regime não era fascista mas vigente, o povo não mandou abaixo o fascismo mas o vigentismo, é uma suavização hostil feita de maneira subtil, “uma variante do fenómeno da negação é a ideia de que mudar as palavras também muda os factos”, não muda mas afinal trata-se de negacionismo estratégico, “em 2004, o eminente historiador americano e especialista em história do fascismo Robert O. Paxton publicou a sua notável obra The Anatomy of Fascism, onde sublinha que, no século XXI, nenhum fascista se designará a si próprio como tal”, portanto não o assumem agora tal como escondem os de outrora, não é atitude de gente livre, “a liberdade é a capacidade de um indivíduo se libertar da estupidez, do medo e do desejo, de utilizar a razão e de viver na verdade”, todas estas citações que tenho feito são de um livro que andei a ler, “O Eterno Retorno do Fascismo”, foi escrito pelo Rob Riemen e é uma edição de fevereiro de 2012 que parece sobre dezembro de 2020, “Paxton afirma que o fascismo, devido à sua angustiante falta de ideias e ausência de valores universais, assumirá sempre a forma e as cores do seu tempo e da sua cultura. Assim, o fascismo na América será religioso e contra os negros, ao passo que na Europa Ocidental será laico e contra o islão, na Europa do Leste católico ou ortodoxo e antissemita. A técnica usada é idêntica em toda a parte: um líder carismático, populista, para mobilizar as massas; o seu próprio grupo é sempre vítima (das crises, da elite ou dos estrangeiros); e o ressentimento orienta-se todo para um ‘inimigo’. O fascismo não necessita de um partido democrático cujos membros sejam individualmente responsáveis; necessita de um líder inspirador e autoritário ao qual se atribuem instintos superiores (as suas decisões não têm de ser justificadas), de um líder capaz de ser seguido e obedecido pelas massas. O contexto em que esta forma de política pode dominar é de uma sociedade de massas afectada pela crise que ainda não aprendeu as lições do século XX”, parece que não, há quem acredite que é possível moderar os vigentes ao trazê-los para responsabilidades governativas, eis outra história do século XX: “O facto de o fascismo ter chegado ao poder em Itália e na Alemanha deveu-se, em grande medida, à arrogância, bem como à cobardia e perfídia, das elites sociais. A arrogância, a sobrestimação do próprio poder, manifestou-se em 1932 quando, na Alemanha, o Bürgerliche Katholische Partei (partido católico) e o Deutschnationalen (partido nacionalista) se mostraram satisfeitos com a entrada no governo de Hitler e dos seus acólitos. Partiram do princípio de que, desse modo, o poderiam controlar e tirar partido dos erros que cometeria para o eliminarem politicamente. A cobardia e a perfídia manifestaram-se nos sociais-democratas alemães que, embora na oposição, lhe deram um voto de confiança por medo de perderem ainda mais votos. Na verdade, para todos os eleitores que não votaram em Hitler, e que foram a maioria, nenhum partido foi capaz de liderar a resistência contra o monopólio nacional-socialista. E isto teve tudo que ver com a deterioração das elites, que não tiveram coragem para defender os seus princípios e responsabilidades sociais”.
Na saída da autoestrada que me leva ao bairro onde vivo há dois cartazes políticos, são as minhas contrastantes mensagens de boas-vindas a casa, no primeiro o candidato presidencial do partido que acha que as Forças Armadas e o povo derrubaram o vigentismo em vez do fascismo diz que não tem medo do sistema, seja lá o que o sistema for, o segundo cartaz tem Francisco Sá Carneiro sorridente acompanhado de uma frase simples, “O meu sentimento? Define-se numa palavra: responsabilidade”, Sá Carneiro que considerava “essencial que os partidos, as pessoas, os movimentos, as associações assumam as suas responsabilidades e ponham de parte o clima de ataques demagógicos e irresponsáveis”, ele que acreditava que “a Constituição deverá consagrar os direitos fundamentais que aos portugueses foram negados durante o fascismo: liberdade de pensamento, de expressão, de reunião, de associação política e sindical, garantia da segurança pessoal, direito à educação, à saúde, à habitação”, repare como ele diz fascismo, o meu pai-padeiro viveu 34 anos disso e não de vigentismo, 34 anos é praticamente a idade que eu tenho sempre em liberdade de pensamento de expressão de reunião de associação política e sindical e com garantia da segurança pessoal e direito à educação à saúde à habitação, por isso: se o sistema é ter o que o senhor Bento não teve então eu admiro adoro amo extasio-me com o sistema, o sistema pode ter todos os defeitos mas há um que não tem, o sistema reconhece a diferença entre regime vigente e regime fascista, portanto: sou filho de feirantes mas também filho do sistema e às segundas terças quartas quintas sextas sábados e domingos quero usufruir da herança que o Movimento das Forças Armadas, coroando a longa resistência do povo português e interpretando os seus sentimentos profundos, me deixou ao derrubar o regime fascista - a liberdade, mas a liberdade verdadeira: “A 3 de outubro de 1940, Thomas Mann dá uma conferência no Claremont College, em Los Angeles, sobre ‘Guerra e democracia’. Já estava exilado há sete anos porque não conseguia viver na Alemanha hitleriana. Antes vivera mais de trinta anos em Munique, onde testemunhara o modo como o movimento fascista conseguira chegar ao poder graças, em parte, a um domínio total da falsidade: as palavras eram isoladas dos seus significados e reduzidas a meros slogans. Vira com os próprios olhos, primeiro nos cafés e nos salões, e depois nas ruas e nas concentrações, como o povo se deixara convencer da existência de um movimento político e de um líder que lhe convinha. Um homem pronto a dedicar a vida às necessidades, interesses e liberdade do homem comum, que exprimiria e defenderia os valores do povo alemão. E uma das razões que o levaram a acreditar nesse líder foi o facto de ele não pertencer à classe política, ao establishment, mas ser um autêntico homem do povo, que falava a sua linguagem. Com base nessa experiência, Thomas Mann adverte o público americano: ‘Permiti-me que vos diga a verdade: se um dia o fascismo chegar à América, chegará em nome da liberdade’”."
domingo, 22 de novembro de 2020
...
Quando prenderam os sociais-democratas, fiquei em silêncio: eu não era social-democrata.
Quando vieram buscar os sindicalistas, fiquei em silêncio: eu não era sindicalista.
Quando vieram buscar os judeus, fiquei em silêncio; eu não era um judeu.
Quando me vieram buscar, já não havia ninguém que pudesse protestar".
Martin Niemöller
segunda-feira, 9 de novembro de 2020
“I can’t breathe”_ Van Jones
AQUi:
“Pessoas que tinham medo de mostrar o seu racismo estavam a tornar-se cada vez mais maldosas para ti. E tu preocupas-te com os teus filhos e preocupas-te com a tua irmã. E já não podes ir ao Wallmart [hipermercado americano] e voltar ao teu carro sem que alguém lhe diga alguma coisa. E gastas tanta energia da tua vida só para te aguentares. E isto é importante para nós — apenas ter a possibilidade de alguma paz e uma oportunidade para começar de novo”.
“Não foi só George Floyd, foram muitas pessoas que sentiram que não podiam respirar”.
“Foi mais fácil ser pai esta manhã. É mais fácil ser pai. É mais fácil dizer aos teus filhos que o carácter importa”, começou por dizer enquanto a voz começava a embargar. “Importa! Dizer a verdade importa! Ser uma boa pessoa importa”.
“Foi mais fácil ser pai esta manhã. É mais fácil ser pai. É mais fácil dizer aos teus filhos que o carácter importa”, começou por dizer enquanto a voz começava a embargar. “Importa! Dizer a verdade importa! Ser uma boa pessoa importa”.
“Pessoas que tinham medo de mostrar o seu racismo estavam a tornar-se cada vez mais maldosas para ti. E tu preocupas-te com os teus filhos e preocupas-te com a tua irmã. E já não podes ir ao Wallmart [hipermercado americano] e voltar ao teu carro sem que alguém lhe diga alguma coisa. E gastas tanta energia da tua vida só para te aguentares. E isto é importante para nós — apenas ter a possibilidade de alguma paz e uma oportunidade para começar de novo”.
in: "Observador"
One, two
Steal my heart and hold my tongue
I feel my time, my time has come
Let me in, unlock the door
I never felt this way before
Steal my heart and hold my tongue
I feel my time, my time has come
Let me in, unlock the door
I never felt this way before
And the wheels just keep on turning
The drummer begins to drum
I don't know which way I'm going
I don't know which way I've come
The drummer begins to drum
I don't know which way I'm going
I don't know which way I've come
Hold my head inside your hands
I need someone who understands
I need someone, someone who hears
For you, I've waited all these years
I need someone who understands
I need someone, someone who hears
For you, I've waited all these years
For you I'd wait 'til kingdom come
Until my day, my day is done
And say you'll come and set me free
Just say you'll wait, you'll wait for me
Until my day, my day is done
And say you'll come and set me free
Just say you'll wait, you'll wait for me
In your tears and in your blood
In your fire and in your flood
I hear you laugh, I heard you sing
I wouldn't change a single thing
In your fire and in your flood
I hear you laugh, I heard you sing
I wouldn't change a single thing
And the wheels just keep on turning
The drummers begin to drum
I don't know which way I'm going
I don't know what I'll become
The drummers begin to drum
I don't know which way I'm going
I don't know what I'll become
For you I'd wait 'til kingdom come
Until my days, my days are done
And say you'll come and set me free
Just say you'll wait, you'll wait for me
Until my days, my days are done
And say you'll come and set me free
Just say you'll wait, you'll wait for me
Just say you'll wait, you'll wait for me
Just say you'll wait, you'll wait for me
Just say you'll wait, you'll wait for me
quarta-feira, 4 de novembro de 2020
“O nome da rosa” _Opinião
Opinião
Carmo Afonso
“O nome da rosa”
02.11.2020 às 9h53
https://expresso.pt/opiniao/2020-11-02-O-nome-da-rosa
Tivemos os Capitães de Abril que nos salvaram do fascismo e hoje novos capitães são precisos. Há jornalistas de investigação a estudar o Chega. Serão eles os novos capitães, os “William de Baskerville” de que dependemos?
Um homem estava em alto mar a nadar exausto. Era noite e estava frio. Não sabemos como foi ali parar. Não há nenhuma embarcação à vista, só escuridão e o som do movimento das vagas. O homem não tinha fé mas sabia que estava perdido. Rezou como último recurso. Gritou: “Meu Deus, salva-me!”
De imediato aproximou-se uma pequena embarcação com dois pescadores que lhe atiraram uma bóia. Foi salvo.
O homem não se esqueceu do pedido que havia feito a Deus mas, em vez de agradecer, novamente gritou:
“Hey, obrigado! Afinal não é preciso.”
Isto não é sobre intervenção divina, é sobre inconsciência. A este homem aconteceu um milagre e ele não o reconheceu. O “Vincent Vega” (John Tavolta) fez o mesmo e não lhe correu bem. Não vou falar outra vez do Pulp Fiction. Seria a terceira vez e poderia ser interpretado como uma fixação.
Agora já está?
Tá bem.
Falar de inconsciência a propósito do reconhecimento de um milagre é um paradoxo mas deve ser feito. Deve partir-se do pressuposto que um milagre aconteceu mas fazê-lo como exercício sem nunca perder de vista que é de um exercício que se trata. É importante admitir possibilidades e cenários, quanto mais extravagantes melhor, desde que não nos percamos no processo. É uma boa maneira de consolidar o que é certo. Agitar excessivamente a embalagem para depois o seu conteúdo assentar melhor.
Quero falar-vos de inconsciência e de trevas.
A humanidade tem a característica de entrar num movimento autodestrutivo ciclicamente. Não é por mal. É mais complexo que isso. A história mostra-nos que os períodos de trevas se repetem e que só são possíveis porque uma larga maioria da pessoas age tão inconscientemente como inconsciente foi o homem, que nadava em alto mar, no momento em que foi salvo. Há também uma pequena minoria que está plenamente consciente do que está a acontecer e que o deseja. E existe outra pequena minoria que está plenamente consciente do que está a acontecer e que tudo quer fazer para o evitar. No decurso do processo autodestrutivo é esta pequena minoria que mais sofre pois é tão difícil deter a outra pequena minoria como despertar a larga maioria que está inconsciente. No final, e quando não se consegue interromper o processo, morrem muitas pessoas mas dá-se o colapso civilizacional de onde tudo renasce.
Há vários períodos de trevas na história. São todos interessantes depois de terem acontecido mas tortuosos e sanguíneos para quem lá esteve. Grandes exemplos são a Idade Média, o período que antecedeu a Segunda Guerra Mundial e o do decurso da própria guerra e, em Portugal, o Estado Novo.
A este propósito lembro-me de um filme: “O nome da rosa”.
Hoje tinha de o fazer e, como uma peça no puzzle a que pertence, encaixa aqui.
Passa-se na Idade Média num mosteiro no norte de Itália. “William de Baskerville” (Sean Connery), é um monge franciscano e, com “Adso von Melk” (Christian Slater) - um noviço que o acompanha - visita o mosteiro com propósitos que se dissipam face à ocorrência de sucessivos assassinatos de monges. Sete monges em sete noites.
“William de Baskerville” repudia a teoria aceite e partilhada por todos os monges - a de que aqueles homicídios eram obra do Diabo – e dá início a um meticuloso processo de investigação. Acaba por desvendar a autoria dos homicídios: foi “Jorge de Burgos” (Feodor Chaliapin, Jr.), o monge mais velho do mosteiro. Desvenda também a causa: impedir a leitura da obra de Aristóteles que falava de comédia e de riso.
Apenas alguns monges tinham acesso à biblioteca. Os que se dedicaram a ler o livro de Aristóteles morreram envenenados porque humedeciam os dedos na língua para folhear páginas que continham veneno.
O autor dos crimes, na sua fuga, incendeia o mosteiro mas “William” e “Adso” conseguem salvar o livro.
Este foi o final feliz. Salvar o que estava criminosamente a ser censurado.
Fica o método racional, filosófico, lógico e detectivesco de “William”, que pôs em causa a interpretação dogmática e básica da realidade e fica também o seu humanismo, a compreensão da natureza humana, como mostrou a “Adso”, quando este se envolveu com uma rapariga pobre que se prostituía junto dos monges como contrapartida por uns pedaços de carne.
Há um outro aspecto magnífico no filme: é que todos os monges que morreram envenenados sabiam que estavam a transgredir quando liam o livro de Aristóteles e, mesmo assim, entregavam-se à tentação do conhecimento, à do riso e à da própria desobediência. Pecar numa biblioteca e não numa discoteca. A culpa vinha a seguir e o castigo afinal também veio. Pagaram um preço muito alto.
Os períodos de trevas continuam a assentar na cegueira e na inconsciência da maioria. Essas são algumas das condições necessárias para quem quer fazer vingar ideologias inimigas da humanidade. É o seu nome. Deve ser usado.
Este fim de semana tem-se falado, e até ao momento em que escrevo não foi contraditado, num possível entendimento entre o PSD, o CDS e o PPM para a governação nos Açores. Esse entendimento deverá ser alargado à Iniciativa Liberal, ao PAN e ao Chega. A disponibilidade do PSD para este acordo parece ser total e, não sendo ainda claras as exigências da Iniciativa Liberal e do PAN, a grande dificuldade parece partir do Chega que apresenta exigências difíceis de satisfazer. Sim, aparentemente o que nos separa de assistirmos ao primeiro entendimento entre o PSD – partido de Sá Carneiro que o definia como sendo de esquerda não marxista – e o primeiro partido fascista português com assento parlamentar, são as exigências de André Ventura.
Já agora: Essas exigências passam pelo apoio do PSD à revisão constitucional e o Chega estará disposto a abdicar de questões como a castração química, cenas da Idade Média. Muito bem.
Rui Rio tenta mostrar-se distante das negociações. Segundo o Expresso a posição do partido é que “O PSD/Açores tem autonomia e competência para definir a política regional e os procedimentos a seguir. A constituição ou não de um Governo Regional é da sua exclusiva competência.”
O PSD não perdeu só a vergonha, a coragem também se foi. Rui Rio, o político que tinha separado as águas do futebol das da política, quando foi presidente da Câmara Municipal do Porto, perdeu o tino com os fascistas. O desespero da direita é mau conselheiro.
As pessoas sensatas do PSD deverão estar em isolamento e sem acesso à internet pois não se fazem ouvir.
Colunistas banalizam coligações com o Chega clarificando que, como qualquer partido com assento parlamentar, tem legitimidade para se coligar. Muito bem.
Há aqui o recurso ao velho argumento “eu até tenho um amigo homossexual” quando se pretende defender uma posição homofóbica que também é de assinalar. Funciona exactamente com a mesma lógica mas no sentido inverso. Diz-se por exemplo: o André Ventura “é um oportunista que acredita em muito pouca coisa para além do seu próprio sucesso político” para a seguir se defender a sua legitimação. Muito bem.
O que aparenta ser uma ameaça para a esquerda – falo de um modelo de entendimento à direita que poderá ser replicado em futuras eleições – é o fim da credibilidade da direita. Esta convicção não será partilhada pela direcção do PSD nem pela maior parte do seu eleitorado. Admito que assim seja.
Mais, essa convicção não será partilhada pelos portugueses que se dizem moderados e que, com base nesse posicionamento, classificam de extremistas alguns partidos à esquerda, como o PCP e o BE, e à direita o Chega. Daqui partem para o raciocínio seguinte: ora, se o PS pode chegar a entendimentos com o PCP e o BE porque não poderá o PSD fazer o mesmo?
A memória falha muito. A consciência também. A moderação resulta do medo – uma espécie de resignação ao menos mau e de receio de que as coisas fiquem muito piores - mas é ela que nos põe em perigo. Esta moderação não deseja mas consente a entrada do Chega. É uma inconsciência que não identifica propaganda inimiga e que não estranha o que se passa à volta daquele grupo. Na verdade, sendo perigosa e já tendo a história mostrado onde pode chegar, a ideologia fascista não é o mais preocupante. O Chega não é só uma questão política, é uma organização com ligações perigosas que precisam de ser investigadas.
Não é o Diabo que ali está, são mesmo crimes.
Tivemos os Capitães de Abril que nos salvaram do fascismo e hoje novos capitães são precisos. Há jornalistas de investigação a estudar o Chega. Serão eles os novos capitães, os “William de Baskerville” de que dependemos? A consciência pode chegar antes de uma catástrofe e só a denúncia de factos objectivos servirá esse propósito.
Será justo que quem está cego e, sem saber, em apuros, reconheça o momento em que é necessário acordar e agradecer a quem lutou contra isto. Seria, em tudo, o contrário do que fez o homem que nadava em alto mar, que se apercebeu do perigo mas não do milagre que constituiu o seu salvamento.
Uma coisa é certa: os comentadores do costume não conseguem acordar as pessoas e os novos também não. As pessoas são à prova de comentadores. Estão cheias de razão. Porque continuam a ser grandes comentadores figuras comprometidas com os aspectos negativos do sistema e que a ele estão associadas até ao pescoço? Porque alinha a comunicação social na perpetuação do poder destas pessoas? Também isto não ajuda. Descredibilizam os bons, impedem o aparecimento de vozes independentes e mantem-se aquela ideia de que “no fim todos se entendem.”
Adiante.
É fundamental que também aqui se salve um livro importante, o que defende todos os valores que se conquistaram em Abril. O nome da rosa é uma expressão usada na Idade Média e que significa o infinito poder das palavras. O nome da rosa é agora a própria Constituição da República Portuguesa. Lembrar aqui as palavras de “William de Baskerville”, talvez a melhor personagem de Sean Connery: “When we consider a book, we mustn't ask ourselves what it says but what it means.”
Será um final feliz.
Farewell, Sir : )
domingo, 1 de novembro de 2020
Ilha do Corvo
Mar agitado
a bater a sombra de
asas nas escarpas
da ilha e
um vento nascente a
lembrar a solidão.
Entre o mundo velho e
o novo mundo
além
o vasto oceano
onde
este Corvo
de origem vulcânica
é temperado de emoção.
Aqui fica o meu olhar
preso à beleza do lugar.
Entre o mundo velho e
o novo mundo
além
o vasto oceano
onde
este Corvo
de origem vulcânica
é temperado de emoção.
Aqui fica o meu olhar
preso à beleza do lugar.
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