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terça-feira, 28 de abril de 2020

Mia Couto_Um gentil ladrão

domingo, 21 de julho de 2019

A borboleta_Mia Couto




Mia Couto
Escritor

Mapeador de Ilhas

19.07.2019 às 10h23

A borboleta 

Não sei se reparou, Marlene, que tratamos de Recursos Humanos. E sempre de olhos baixos, ironizou: Humanos, está a perceber? Borboletas, não são da nossa competência. E mandou que se pulverizasse a sala com um inseticida. Desses inodoros, acrescentou. Em pânico, Marlene fingiu acatar a ordem.

Ilustração: Susa Monteiro

No escritório da multinacional, num décimo quinto andar da capital, surgiu uma borboleta. Estava pousada no microfone da sala de reuniões. A secretária Marlene aproximou-se com infinita cautela, sentou-se numa das cadeiras da sala vazia e permaneceu imóvel durante longos minutos. Olhou em contraluz para as asas coloridas e achou que estava em presença de uma mensageira. Usou o seu telefone, fotografou o inseto, editou a imagem para realçar as cores e enviou-a para umas tantas amigas.

Procurou no Google o oculto sentido daquela aparição. Uma página da net fornecia uma longa lista dos significados espirituais das borboletas. Renovação, recomeço e anunciação eram os mais comuns. Uma outra página era mais apelativa: Você sabia que os Anjos se comunicam frequentemente connosco através das borboletas? Marlene filmou o eventual anjo que permanecia hirto no poleiro metálico. Procurou outra página e então, sim, encontrou algo que a deixou tão paralisada quanto a borboleta. Aquela criatura trazia o mais esperado dos recados: o da fertilidade. Há anos que Marlene esperava engravidar. E ali estava, na mais delicada criatura, o anúncio da boa nova há tantos anos esperado. Mais entusiasmada que Marlene apenas a Virgem Maria ante o Arcanjo Gabriel.

Por fim, a secretária fez o que dela profissionalmente se esperava: comunicou a aparição ao seu superior, o Diretor de Recursos Humanos. O marido de Marlene, o Osório, há meses desempregado, irrita-se sempre que ela lhe fala do seu local de trabalho. Recursos Humanos?, pergunta o marido. Prefiro o desemprego a ser tratado como “recurso”. Osório reage assim por despeito, pensa Marlene. Lá em casa ela era a chefe de família. E a raiva do marido cresce: um homem não foi feito para esperar pela mulher. E um casal não foi feito para desesperar por um filho.

O diretor não levantou os olhos do computador. E assim manteve Marlene na habitual invisibilidade. Não sei se reparou, Marlene, que tratamos de Recursos Humanos. E sempre de olhos baixos, ironizou: Humanos, está a perceber? Borboletas não são da nossa competência. E mandou que se pulverizasse a sala com um inseticida. Desses inodoros, acrescentou. Em pânico, Marlene fingiu acatar a ordem. E já fechava a porta quando o diretor se ergueu, atacado por súbita preocupação.

– Onde é que está a mariposa?
– É uma borboleta. Está na sala de reuniões.

Marlene acompanhou a acelerada marcha do chefe ao longo do corredor. As borboletas fecham as asas por cima do corpo, foi explicando enquanto caminhava. As mariposas deixam-nas ao lado do corpo, como um avião.

O diretor irrompeu ruidosamente pela sala de reuniões e espreitou de longe a impávida borboleta. Rodou pela mesa, tirou fotografias de diversos ângulos. Ligou-se à internet e procurou: “Doenças provocadas por borboletas”.

Em poucos segundos, sentenciou:

– Chame imediatamente a responsável do DHS.
– Quem?
– O Departamento de Health and Safety!!!

Marlene sabia: naquela empresa, em momentos decisivos, as pessoas eram designadas em inglês. Como se, em português, valessem menos.

– Vá chamá-la, agora.

Mesmo em português, a ordem era sumária e perentória. Suspeitando da gravidade do que se seguiria, Marlene ainda ousou contestar.

– O que passa, doutor? É uma simples borboleta.
– Pousada no microfone onde as pessoas falam?

Marlene foi para o seu gabinete e ligou para o DHS. Depois, reabriu a página que antes consultava no computador. Procurou “Os mais belos versos sobre borboletas”. E abriu um poema chamado “Jardim”. E leu em voz baixa:

Se eu tivesse jardim
seria para semear borboletas.


Limpou uma imaginária lágrima, ajustou o vestido ao ventre que já adivinhava em redondez lunar. De volta à sala de reuniões, encontrou a responsável de Saúde e Segurança, recebendo instruções do diretor de Recursos Humanos.

– Ouviu falar da epidermólise bolhosa, também chamada doença da borboleta?
– Nunca ouvi falar disso.
– Fica-se com a pele tão frágil como as asas de borboleta.
– Gostava de ter asas de borboleta. Amarelas como essa que aí está pousada.
– Não brinque com coisas sérias, doutora. Com essa doença, as pessoas deixam de poder usar sapatos, só podem usar roupas especiais. A pele rompe-se ao menor atrito. Morre-se antes dos trinta.
– Que horror!
– Proceda a uma avaliação de riscos. Consulte o procedimento A-34.
– Mas, diretor, a tal doença... tem a certeza de que é transmitida por borboletas?
– Foi o que vi no Google. É sua função confirmar isso, doutora.

Marlene entrou na sala acompanhada por uma empregada de limpeza. O que vão fazer, perguntou o diretor. Vamos abrir a janela e enxotá-la, respondeu a empregada de limpeza. Nada disso, argumentou o diretor. Vá é buscar o aspirador, e fazemo-la desaparecer enquanto o diabo esfrega um olho.

Marlene levou as mãos ao peito angustiada em imaginar o seu Arcanjo Gabriel a desaparecer no ventre escuro de um aspirador. Deu um safanão no microfone e a borboleta ergueu voo em direção às paredes de vidro da sala. Marlene entreabriu a janela envidraçada para que o bicho pudesse escapar. Mas a borboleta deu meia-volta e voou na direção oposta. Pousou num quadro na parede do lado oposto. O quadro chamava-se “O céu”. Havia naquela tela uma nesga de azul sobre prédios, antenas e fumos. Mas era um azul vindo de dentro, uma cor que apenas o pintor sabia existir. A borboleta tinha escolhido o seu pouso definitivo. O céu que restava lá fora era demasiado escasso para voar. E demasiado sujo para morrer.

Nesse final de tarde, Marlene regressou a casa sem peso, como se não houvesse chão. E caminhou como se tivesse asas. Talvez fosse a tempo de surpreender Osório acordado. Talvez o marido descobrisse nela o mesmo céu que a borboleta encontrara na tela.

(Crónica publicada na VISÃO 1375 de 11 de julho)

sexta-feira, 24 de maio de 2019

Mia Couto_Conto "O Meu Primeiro Pai"



MIA COUTO

O MEU PRIMEIRO PAI

24.05.2019 às 8h23

"O seu verdadeiro vício não era o álcool. O seu vício éramos nós que ele amava e que não sabia o que fazer com esse amor. Não sabia como dizer esse amor. Tinha medo de se entregar e de não regressar


Ilustração: Suza Monteiro

Todos os domingos, o meu pai anunciava que ia à missa. Nunca chegou a entrar na igreja. Pelo caminho, parava nos bares. Eram vários os bares e, mais ainda, as paragens que ele fazia. Encontrava as tabernas de olhos fechados como um devoto ante a cruz. A gente, dizia ele, começa a beber antes de ter boca. Ele bebia pelo cheiro. O nariz dos bêbedos ocupa o corpo todo. A sede do beber pode ser saciada. A do corpo não se resolve nunca.

Em cada taberna, o nosso pai ajoelhava-se e benzia-se de copo na mão, lentamente para não entornar a bebida. Perante um altar pejado de garrafas, misturava orações, impropérios e encomendas de mais aguardente.

Regressava a casa ao final da tarde. A nossa mãe espreitava, por detrás das cortinas. Quem me dera que faça calor, suspirava ela. Nos dias quentes, o marido entrava em casa já meio adormecido, sapatos na mão, os olhos à procura do olhar. Com o calor, a maldade saía-lhe
do corpo, diluída em suor. No geral, porém, a chegada dele era temida, prenúncio de uma guerra sem panos brancos. O pai surgia no topo da rua, a mãe alertava-nos: ele aí vem, vão para o quintal. E corria a recebê-lo como quem se apressa a entregar um carrasco.

Por detrás das moitas, adivinhávamos a sua ágil dança, escapando aos murros, chutos e pontapés. A arte de quem apanha, dizia a mãe, é evitar marcas nos lugares expostos do corpo. Regressávamos quando os gritos viravam choro. Depois, quando tudo era silêncio, com mil cuidados rodávamos a maçaneta da porta. O pai esperava-nos na cozinha. Ocupava esse aposento que ele, com antigo desdém, chamava “lugar das mulheres”. A cozinha ficava ainda mais pequena com ele ali sentado, cansado de ter corpo, as pernas longas não cabendo dentro da casa. Havia uma destilaria dentro do hálito dele.

Aguardávamos em silêncio, prontos para escutar o que ele nunca chegou a dizer. Os bêbedos têm medo das palavras. Magoam-se mais ainda com o silêncio, esse fundo de copo irremediavelmente vazio. A luz tornava mais branca a sua justíssima camisola interior. Temíamos a sua ferocidade, mas receávamos ainda mais tornarmo-nos parecidos com ele.

Sobre os joelhos o pai deitava os velhos sapatos, os únicos que tinha. As pontas dos dedos afagavam as solas e eram uma carícia que a ninguém nunca dedicou. Depois de um tempo, os dedos impregnados de poeira, ele anunciava: vão lá, vão lá ter com ela!

Corríamos a reconfortar a mãe que, no seu leito, escondia o corpo debaixo dos lençóis. Eu sacudia a almofada como se afastasse a areia em que ela me surgia sepultada.


– Durma, mãe.
– Não posso, meus filhos.
– Finja que dorme. Assim ele não a importuna mais. E sonhe, mãe.
– Ultimamente tenho-me esquecido tanto de sonhar.

Na manhã seguinte, a mãe falava no pátio com a vizinha: o meu primeiro marido não era assim. E eu estremecia com receio daquelas misteriosas palavras. A mãe sorriu quando lhe confessei esse medo: não houve nunca outro casamento, o seu companheiro tinha sido sempre este que a humilhava. Esse “primeiro” marido que ela inventava era, afinal, este nosso pai antes do desemprego e da bebida. E nós, órfãos, éramos filhos desse outro que se extinguiu dentro deste. Tantas vezes rezei para que esse outro, esse meu inventado pai, regressasse das brumas e tomasse posse do nosso castelo.

A nossa família só se tornou completa quando a nossa mãe ficou viúva. A solidão fê-la adoecer mais do que podíamos prever. Fomos visitá-la ao hospital. E lamentámos o quanto ela sofreu nas mãos do nosso pai. O meu irmão mais velho chegou a dizer algo terrível:

– Odiamo-lo tanto que o nosso maior receio é tornarmo-nos iguais a ele.
– Engano vosso, meus filhos – declarou a mãe. – O vosso pai nunca ergueu um dedo contra mim.
– Como pode protegê-lo depois de tantos anos de pancada?
– Alguma vez viram uma nódoa negra no meu corpo?
– E, então, os gritos, os choros?
– Eu gritava e chorava porque ele se agredia a si mesmo.
A raiva dele abatia-se apenas sobre ele, e isso, para a nossa mãe, era uma prova de amor tão verdadeira e sofrida que, em prantos e soluços, ela implorava que o homem dirigisse os golpes contra ela.
– O vosso pai só me tocou para me amar.

E o seu verdadeiro vício não era o álcool. O seu vício éramos nós que ele amava e que não sabia o que fazer com esse amor. Não sabia como dizer esse amor.

Tinha medo de se entregar e de não regressar. A bebida afastava-o dessa carência. Não era de sede, murmurou a mãe, que ele sofria. Morria, sim, de ciúmes de mim. Nunca houve outro homem e o vosso pai sabia. O que ele não me perdoava era eu estar mais viva do que ele.
Ainda hoje, na solidão da cozinha, passo lustro aos velhos sapatos que foram a minha herança paterna. E os meus dedos são os dele, os do meu primeiro pai, trémulos e receosos perante a Vida que é sempre dos outros."

in: revista "Visao"

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Do medo e do milhafre_Ana Paula Tavares _conto

PALAVRAS DO DESERTO
Do medo e do milhafre
por Ana Paula Tavares

Do medo e do milhafre

O cacimbo é o tempo prolongado, o sonho que custa a ser sonhado, a casca da árvore presa por fios, as palavras contidas no silêncio dos velhos, denso como a pele que lhes marca os ossos nos dias que descontam a vida colhendo o sol com as mãos magras e finas. Ficam voltados para dentro, descobrindo nas muitas camadas depositadas as vidas que foram vivendo entre bois e filhos desatentos, enfim, a tudo o que mexe cá fora e tem peso e desce por gravidade a encontrar lugar na terra que tudo acolhe. A morte próxima é neles uma busca de dores maiores e desencontros e longos caminhos percorridos alinhados aos que nunca foram trilhados. Caminhos de pé posto e outros mais cortados das catanas, sempre escolhas — este e não o outro –, entre a curva da montanha e o desenho das estrelas. No cacimbo, enquanto as aves fogem da tempestade e do frio, como quem anuncia barcos e novos portos de abrigo, as mulheres mais velhas com as mãos vazias de ninho devolvem o sentido da vida inscrevendo provérbios nas novas cabaças da família. Sabem que todo o processo envolve três nós: nascimento, vida e morte e o ponto de convergência só se adivinha vivendo a separar e a adivinhar cada um dos caminhos que se apresentam em cruz. AnaNaPalavra chegou por esse tempo com poucas palavras: “há um tempo para chorar e um tempo para rir, o nosso tempo para chorar chegou e veio para ficar”. O rosto parecia velado, tantas eram as escarificações e as marcas dos anos na pele azulada, e o corpo parecia parado, tão lentos eram seus movimentos de barco ancorado no deserto de uma solidão antiga. Perdera a qualidade de fazer perguntas com que nos tinha iniciado para a vida. Vinha do seu último ritual de passagem onde devolvera a sua qualidade de mulher para assumir o ser em toda a sua espessura. Ainda parecia um de nós, mas nada na forma como se movia nos deixava perceber a memória partilhada de uma anterior figura que nos amparara o crescimento, levara pela mão até à casa redonda e ensinara o segredo dos silos e dos remédios mais sagrados. Estava ali para desatar nós, ausente e a mostrar-se num processo de transformação que nos deixava inquietos. O medo desceu sobre a montanha e a nossa vida ficou pequena, tanto era o tempo que perdíamos a olhar AnaNaPalavra e a adivinhar a eternidade que trazia para contar: “depois das mortes vieram mais mortes, há que saber os segredos”.

Voltámos às tarefas dos dias, avaros dos nossos e dos novos pastos, crentes em que o prodígio das sementeiras e das colheitas nos faria viver a vida que o chão da nossa terra nos pedia. As mulheres novas amamentavam os monas e as cabras pariam filhos no curral. Todos nós queríamos alargar os dias para que a hora da vergonha tardasse a chegar. A noite era dura e transparente e jogava connosco o jogo da vergonha. O segredo (pensávamos) estava escondido nos lugares sagrados e embora estivéssemos destinados a viver sem sonhar (estava-nos interdito o sonho), o guardião do sino e o mais velho de todos os ferreiros tinham pelo fogo conseguido proteger a aldeia de todos os castigos. Estávamos entre o céu e a terra (pensávamos), no universo ideal da eternidade diária. Não pensávamos.

AnaNaPalavra não era a pessoa por quem esperávamos. É verdade que ela era dos nossos. Tinha as marcas da linhagem. Tinha o segredo da linguagem. Não sabíamos porque tinha voltado agora, quase transparente e sobretudo sem a dupla face que a fazia ser uma de nós.

Foi tecendo à sua volta um último cesto: sepultura e berço de um chão e de uma vida longe da eternidade. As palavras ácidas caíram sobre nós como a chuva de Março: intensas, como se todas as estrelas do céu resolvessem apressar o nosso destino. A morte de Garita, a faca do crime, os amores selvagens e fora das regras foram punidos assim, pela mão de AnaNaPalavra e o regresso dos sonhos mais antigos. Antes de fechar o cesto disse:

“Eu vivi aí, há muito tempo, com os pastores e os camponeses. Vivi, portanto, nesse reino, vi com os meus próprios olhos e ouvi com as minhas orelhas os seres fabulosos por detrás das coisas: os espíritos guardiães das fontes, as sereias que cantam no rio, os mortos das aldeias dos antepassados que me falavam iniciando-me nas verdades alternativas dos dias e das noites. É-me portanto suficiente nomear as coisas, os elementos…”1







1 De um poema de Leopold Sedhar Sengor / Léopold Sédar Senghor

in: RedeAngola

sábado, 20 de agosto de 2016

Lugares_conto_Ana Paula Tavares



Lugares_conto
por Ana Paula Tavares


«Eu já não sou o que fui»
dos Salmos

Sentado em frente à porta da grande muralha o velho tropeçou no corpo inerte e ensanguentado do branco das pedras que costumava passar por ali com um saco às costas e uma mala na mão, ambos cheios de livros, pregos, arame, restos de tecido que o branco vendia e trocava por cabritos, bois e, por vezes, algum favor das mulheres. Com os anos e as vindas foi perdendo o nome para ficar o “branco das pedras” de quem era preciso esconder os melhores bois e as raparigas novas. Palavras fáceis, vinho difícil e a doença da escrita eram as coisas daquele branco que foi, com o passar do tempo, adquirindo a cor de colono velho, cheio de machas e marcas de cicatrizes.

O velho começou a tremer como se tivesse febre sem perceber porque é que a palavra rede se tornava tão insistente. Rede e fuga. Fugir era o que ele queria, desaparecer para o norte onde a família lhe arranjaria as falas da protecção. Só em sonhos vira aparecer uma face assim lívida e aquela espécie de gelo pesado insuportável. O corpo estava abandonado no esporão da muralha dupla que ali marcava antigos sítios de invenção do poder, a força de catanas e pontas de zagaia marcadas pelo tempo. Acendeu devagar a mutopa com folhas ainda novas enchendo os pulmões de fumo e tosse. Grossas bagas de suor desciam pelas fontes. Veio-lhe à mente a palavra veneno, ordálio tinha lido naqueles velhos livros da mala de lona do velho alemão que por ali andara quando ele ainda era um menino. Beber veneno para ficar vivo. Beber veneno para morrer assim. Beber veneno e queimar os pés para salvar a alma do peso das casas e das palavras dos velhos, nossos muito mais antigos.

Ali não eram casas como as nossas, que nos bebem a alma e o corpo até que começamos a ter o seu cheiro na nossa pele de adobo endurecida pelo passar dos dias e das noites. As muralhas do Eléu eram de outras vidas, outras histórias e outras casas, eram muralhas onde estavam inscritas as mãos dos homens escravos e o seu suor e sangue quando durante anos e por ordem do chefe maior arrancaram do chão da Chela as lajes dos bastiões das seteiras, as covas de lobo à volta do chão das cabanas para construir, abrigos individuais para experientes soldados que em certos momentos vigiavam de pé as transformações ao fundo do horizonte. Na parte norte eram precisas casas sãs e bem construídas para homens e montadas porque a saída da guerra era preparada aí atrás da muralha dupla, alternada com muralha simples torneando elevações e pequenos montes. O velho lembrou ainda o quanto seu tio, irmão da mãe, os impedia de se aproximar da muralha quando eram meninos e apenas guardavam cabritos longe dos bois e do chão que estes pisavam para a tornar mais doce e gorda a terra para a semente. Muralhas do Éleu, sua altitude e distâncias desiguais e um homem branco morto roto e sujo ali atirado sem que a vida tivesse chegado ao fim, ainda com muito lugar para os dias e as memórias. A guerra, por aquele tempo, não andava por ali. As mulheres, mesmo as mulheres de deus, estavam longe nas suas tarefas de filhos, leite azedo e manteiga. Aquele era um lugar da guerra, espaço de vida e de morte e nunca lugar de passagem de gente fugida dos outros, os que avançavam e os que recuavam na roda circular da ira e da raiva.

O velho afastou o corpo daquele chão sagrado, apagou o fumo na mutopa e começou a pensar nos dias da sua própria morte que havia que preparar.

Passou os dedos para avaliar o fio da sua própria catana. Um silêncio feroz toldava-lhe os sentidos. Onde estavam os chefes, agora que as pedras da farinha estavam vazias? Por que rios corriam os risos dos monas? Onde estariam as mulheres a tratar dos cabelos, das pulseiras de protecção e das falas doces da tarde? O velho desceu com o corpo pelo monte e sentou-se na base do morro a descansar. Retirou da mala o velho livro de capa preta que ele tão bem conhecia (rezas, dívidas de chefes, contas e a dificuldade daquela letra azul toda deitada para trás). Encontrou um osso com uma gravação que mais parecia um mapa do tesouro. Lembrou-se de ainda antes de adulto ter feito com o pai uma viagem de grandes dias e noites em busca de um tesouro perdido. Lembrou-se porque o pai lhe falara de papéis e ouro e de um osso gravado que deveriam decifrar.

Chegou ao fim da muralha pelo lado sul. No chão profano abriu com ajuda de um pau um buraco onde acomodou o branco, seguindo o desenho dos golpes da catana. Sabia que golpes antigos eram para permanecer em aberto. Regou o chão com os venenos de reserva para que a erva ou a árvore ali não voltasse a crescer. Subiu, como bom filho, a montanha em direcção aos amuralhados. Deitou-se a dormir, voltado para sul, à porta da embala do chefe. Seus sonhos azuis voltaram a sair da mutopa.

in: Rede Angola

 

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Crónicas do Vento Salgado


Aqui deixo um belíssimo conto, com a devida autorização da Autora, brilhante na sua intensidade:












terça-feira, 4 de Novembro de 2014



Crónicas do Vento Salgado







Ela chega sempre primeiro. Senta-se à mesma mesa, na mesma cadeira, repete com lentidão os mesmos gestos: despir o casaco, dobrá-lo cuidadosamente, pendurá-lo nas costas da cadeira, arranjar o cabelo com gestos indiferentes, abrir a carteira e tirar óculos e telemóvel... Depois liga-lhe e lê-lhe a ementa. Faz o pedido para os dois. E espera. Tem um olhar triste e envelhecido, a pele baça, as raízes do cabelo a precisar de retoque há muito tempo, o verniz das unhas estalado, em tons de ruína.


Ele chega dez minutos depois. Apressado, não a beija, não a olha, senta-se em silêncio e destapa a tigela da sopa que ela cobriu amorosamente com um prato para que não arrefecesse. Come com os olhos colados na televisão sem som, responde com monossílabos às perguntas que ela lhe faz. Engole a comida como se cumprisse uma obrigação e no fim, levanta-se e repete sempre a mesma pergunta: Pagas isto? Ela, a meio de uma garfada, confirma - Sim, vai lá à tua vida - e sente-se o estalar da indiferença com que ele lhe vira as costas e sai...


Ela não sabe quem eu sou, eu nunca a esquecerei. Eu era uma adolescente sentada na mesa de um café que já não existe, entre um grupo ruidoso de amigos... Na parte do restaurante, ela era a noiva mais bela que já vi. Tinha os negros cabelos soltos, caindo pelos ombros, enfeitados com flores naturais e um maravilhoso vestido branco bordado a pérolas... A saia era voluptuosa, vaporosa, como se ela caminhasse dentro de uma nuvem... Estava feliz e ria, ria muito... Dançou nos braços do marido e juro que flutuava, os olhos brilhando mais do que as pérolas do vestido... Foi a primeira noiva que vi tão de perto e desejei muito poder vir a ser uma noiva assim tão feliz, assim tão bela...


Quando ele sai, a noiva outrora feliz fica sozinha a terminar vagarosamente a refeição. Enquanto espera pelo café, não tira os olhos dos dedos que, em gestos repetitivos e ritmados, enrolam e desenrolam o guardanapo de papel onde se nota o borrão do batom cor de cereja que faz parecer mais pálido o seu tom de pele.


Eu saio antes dela. Deito-lhe um último olhar discretamente e percebo que se mantém cosida consigo própria, refém da solitária dança dos dedos e parece-me mais do que nunca, uma ilha perdida no meio do mar, uma flor murcha, tombada no vidro estilhaçado dos dias...


Às terças é mais triste o meu almoço no restaurante de sempre... Não sei bem se por causa da limpidez das minhas memórias, se por culpa da aspereza do presente...



Publicada por Anna à(s) 23:53 3 comentários:






Luís M.Castanheira disse...














Um belíssimo conto da paixão perdida e do amor que nunca o foi.




Como se fica prisineiro(a) aos sonhos duma vida, no quotidiano do dia, que passa para outro dia, sem futuro ou alegria.




A indiferença pelo outro, num hábito que se afunda, onde o tempo não perdoa.


5 de Novembro de 2014 às 20:22




Luís M.Castanheira disse...


Anna




O seu conto "Crónicas do Vento Salgado" esteve comigo desde que o li.

Por o achar tão belo, descritivo, profundo, e muito bem escrito no seu enredo sentido, gostaria de o publicar num dos meus blogs.




Para isso peço-lhe autorização para o postar, tendo que indicar, caso o consinta, se devo pôr o nome da Autora (Anna) mais o blog 'De Profundis', ou usa nome e apelido (mesmo pseudónimo)?




Publique, que tem (na minha modesta opinião - gostando eu muito de contos e biografias) muita qualidade e, como disse Fernando Pessoa, a prosa é uma expressão da literatura mais fiel ao que o autor quer efectivamente escrever. Deixa-lhe a total liberdade de escolher naquilo que sente e quer transmitir, podendo ser até poética - que é o caso.




Se a Anna fosse uma exploradora das Terras Africanas, do século XIX, seria"um Serpa Pinto", - nele havia paixão, sentimento,poder de observação e qualidade na comunicação -.




P.s. se quiser, não publique este comentário.




Com um grande Abraço


6 de Novembro de 2014 às 10:18



Anna disse...


Olá Luís :)




O que por aqui vou escrevendo são as minhas inquietudes, o meu olhar sobre os outros e o mundo... Sim, muitas vezes também espio os meus fantasmas, tiro os esqueletos do armário e sacudo-lhes o pó... Não há nisto nenhuma pretensão de publicação mas ainda bem que os meus textos tocam as emoções de quem me lê...

Agradeço profundamente os seus elogios, dos quais não me sinto merecedora... O texto é seu, pode levá-lo e publicá-lo no seu espaço, assim como está e com a assinatura que aqui uso. O facto de o Luís acreditar que o meu texto tem valor para pertencer ao seu espaço, honra-me muito :)Repito, é seu. Aceite-o como um presente que me doeu escrever e que por isso valorizo muito. Sabe, a pior ferida que podemos fazer a alguém é com a faca da nossa indiferença, do nosso desprezo... Foi isso que eu presenciei à mesa daquele restaurante.E incomodou-me. Inquietou-me. Muito.

Obrigada!




Deixo-lhe um abraço


6 de Novembro de 2014 às 13:45