Mostrar mensagens com a etiqueta dos jornais. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta dos jornais. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Alentejo_A Morte Anunciada >Mina da Lagoa Salgada





Milhares de sobreiros em risco? A mina que ainda não abriu e já está a assustar muita gente


Bruno Gonçalves
15/07/2019 20:04
 FACEBOOK TWITTER

O projeto da Mina da Lagoa Salgada ainda está numa fase inicial, mas os agricultores da zona já estão preocupados com o impacto que poderá ter na região. Temem que os milhares de sobreiros existentes naqueles 10 mil hectares acabem por morrer. O i esteve no local para perceber o que está em causa.


São milhares de árvores protegidas por lei, um dos montados mais bonitos do concelho de Grândola e o sustento de várias famílias. Agora, vários agricultores temem que os seus sobreiros sejam destruídos pela Mina da Lagoa Salgada, um projeto que ainda aguarda aprovação mas já está a apoquentar várias povoações. Os agricultores já testemunharam um cenário parecido nas imediações, com a exploração de outras minas – o pior surgiu quando estes projetos foram encerrados e as pessoas foram deixadas desamparadas. Temem que não se tenha aprendido com os erros do passado e que a ganância se sobreponha às preocupações com o ambiente e com as populações.

O consórcio Redcorp e EDM – Empresa de Desenvolvimento Mineiro detém uma área concessionada pelo Estado para a prospeção e pesquisa de depósitos minerais como cobre, zinco, ouro e prata. Esta área, chamada Lagoa Salgada, tem 10 700 hectares, ou seja, o equivalente a dez mil campos de futebol, que se estendem pelos concelhos de Grândola, Alcácer do Sal e Ferreira do Alentejo. Dentro desta área existem muitas propriedades privadas, cheias de sobreiros e outras espécies.

Ora, pretende agora a Redcorp obter a concessão de exploração da Mina da Lagoa Salgada. Segundo a proposta de definição do âmbito, um documento que antecede um estudo de impacto ambiental, a empresa propõe-se abrir uma mina naquele local, o que implica também a instalação de um “estabelecimento industrial de tratamento do minério, denominado lavaria. Nesta unidade terá lugar a beneficiação do minério, composta por processos de concentração do minério, para a produção de concentrados de zinco, de chumbo e de cobre existentes no jazigo mineral”. O projeto incluirá ainda zonas de armazenamento, escritórios, instalações sociais e oficinas.



Este projeto está para avançar há anos, mas agora, com a partilha deste documento na plataforma da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), as pessoas que têm propriedades dentro da zona concessionada começam a temer que a abertura da mina esteja para breve. E que destrua o trabalho de várias gerações. “Estão aqui árvores centenárias, milhares de árvores que foram plantadas há dezenas de anos e que agora dão da melhor cortiça. Este projeto poderá colocar em causa o trabalho de várias gerações e destruir uma das zonas de montado mais bonitas do país”, disse ao i António Rocha, um dos proprietários de terrenos dentro da área concessionada.

E este medo aumentou com o que estava descrito na proposta de definição de âmbito: a Redcorp fala sobre os riscos para a qualidade da água e do ar e a possibilidade de existirem níveis elevados de ruído. Mas uma das questões que mais preocupam os agricultores da zona são os níveis freáticos. “Considera-se que não são negligenciáveis as necessidades hídricas do presente projeto, a eventual possibilidade de provocar rebaixamentos induzidos nos níveis freáticos envolventes e a possibilidade de poder afetar os cursos de água superficiais”, refere o documento, sem adiantar, no entanto, de que forma isto poderá acontecer, em que zonas e quais as formas de mitigar os danos. O rebaixamento dos níveis freáticos teria consequências muito graves nos sobreiros e nas restantes espécies daquela área – sem água no subsolo, as árvores não conseguiriam manter os níveis de humidade necessários à sua sobrevivência.

Aliás, o documento pouco ou nada fala sobre as consequências deste projeto nos milhares de sobreiros daquela zona. Ao contrário de, por exemplo, a Mina de Neves-Corvo, que era já uma zona com pouca vegetação, a Lagoa Salgada está repleta de árvores – basta passear um pouco pela zona para perceber que não existe uma área com uma dimensão considerável para instalar partes deste projeto sem arrancar árvores. “Em Neves-Corvo, as lagoas das lavarias têm 260 hectares. Estas áreas têm vários produtos químicos e reagentes, que são usados na extração [dos minerais]. Aqui não temos uma zona sem árvores com essa dimensão”, frisa António, com um tom grave na voz, de quem antevê o corte de muitos sobreiros.



Por agora, não foram arrancadas árvores, mas foram feitas dezenas de sondagens no local que estão já a afetar o terreno: equipas que se encontram no local 24 horas por dia realizam perfurações para recolher amostras do que está no subsolo. “Com a areia a acumular-se, sem a vegetação à volta, vamos ficar com uma zona árida, parecida com um deserto”, diz António ao i.

No terreno de Manuel Rocha, tio de António, as equipas continuam a perfurar o solo e a tirar barras brilhantes, com vestígios de ouro e prata. Aqueles cilindros valem muito para uns, mas para Manuel pouco interessam. “É uma tristeza o que estas pessoas estão a fazer. Eu não posso fazer uma série de coisas sem autorização [do Estado] e estes senhores chegam aqui e podem furar tudo. Estão a destruir o trabalho de uma vida”, diz o agricultor octogenário, sem conseguir conter as lágrimas.

No terreno de Luís Dias ainda não há furos, mas este agricultor teme que, com as consequências cada vez mais evidentes das alterações climáticas, este projeto venha piorar ainda mais a situação. “Neste momento há já no concelho muitas zonas com dificuldades em obter água. Parece haver um desprezo pelos impactos ambientais e os estudos feitos sobre isso parecem ser apenas uma mera formalidade. Há sempre interesses por trás destas coisas. Por muito aguerridos que possamos ser, somos muito pequeninos para lutar contra estas coisas”, disse ao i.

Nas mãos dos canadianos

Mas se estes são terrenos privados, como podem estar a ser feitos buracos sem autorização dos proprietários? A resposta é dada pelos próprios agricultores de uma forma muito simples: o Estado é dono de tudo o que está abaixo dos cinco metros de profundidade. “Os proprietários não têm direitos no subsolo. Normalmente, as empresas informam as pessoas que querem realizar sondagens nas suas propriedades. Mas se estes se mostrarem contra, julgo que o interesse do Estado se sobrepõe ao do privado”, confirmou o eng.o Augusto Pedroso.

Este especialista em engenharia de minas, conhecedor daquela área em particular, defende que é possível mitigar os impactos ambientais da abertura de uma mina, mas tudo depende de quanto se está disposto a gastar: “É difícil não haver impactos. Desde a contaminação de solos, de ar, o ruído, etc. Mas alguns impactos podem ser mitigados. Os processos já estão todos tão desenvolvidos que há sempre soluções, umas mais caras, outras menos caras. Está tudo relacionado com o jogo dos custos e dos interesses económicos”, diz ao i.



Quem está por trás deste projeto?

É preciso recuar alguns anos para perceber todos os negócios que já houve em torno destas terras. Em 1994, a área foi concessionada a uma empresa chamada Rio Tinto Zinc e à EDM, que é uma agência do Estado português. Foram realizadas várias perfurações para perceber se aquele vasto terreno tinha potencial. E tinha. Tanto que até despertou interesse no estrangeiro. Assim, em 2004, a propriedade é comprada pela Redcorp, que na altura era detida pela canadiana Redcorp Ventures. Em 2009, a empresa portuguesa é adquirida pela Portex, também ela uma empresa canadiana. Seis anos depois, a empresa de investimento suíça TH Crestgate GmbH adquire 100% da Redcorp. A última mudança acontece em junho de 2018, quando a empresa volta a ficar nas mãos dos canadianos: a firma suíça chegou a acordo com uma companhia chamada Ascendant Resources que é agora responsável por parte desta subsidiária portuguesa, que tem sede em Braga. Além disso, a Ascendant descreve no seu site que detém atualmente 25% da Redcorp, mas “tem a opção de chegar aos 80% após serem alcançados determinados objetivos”.

O i enviou questões à Redcorp para perceber como o projeto está a decorrer e se estão a ser acauteladas as questões ambientais mas, até ao fecho desta edição, não obteve respostas. O i questionou também a APA e o Ministério do Ambiente sobre este processo, que não reagiram. Também as autarquias foram questionadas sobre este projeto e apenas a Câmara Municipal de Alcácer do Sal respondeu, dizendo que o município “pronunciou-se nos termos legais aplicáveis, evidenciando um conjunto de preocupações que propôs serem consideradas no Estudo de Impacto Ambiental, na área abrangida pelo contrato de prospeção”. “Acima de tudo, o Município pretende, e já se pronunciou no sentido de que a pretensão dê cumprimento ao PDM de Alcácer do Sal, e que seja garantido que os impactos negativos respeitantes à implantação do projeto não agravem a situação social, económica e ambiental no concelho”, acrescenta.

As árvores do pós-guerra Enquanto caminhamos pela propriedade, Manuel Rocha aponta para alguns dos sobreiros. “Veja como são bonitos e fortes. Vão destruir o que demorámos anos a construir”. E não há aqui hipérboles: um sobreiro demora cerca de 40 anos a entrar em fase de produção.

A primeira cortiça que é retirada, com uma tonalidade mais branca, tem de ter, na zona da planície de Grândola, entre 20 e 25 anos. Chama-se cortiça virgem e é usada ou para moer ou para elementos de decoração, vendidos principalmente nos Estados Unidos. Depois de esta ser retirada, é necessário esperar mais dez anos para extrair cortiça. Esta, chamada secundeira, é de má qualidade e só é usada para moer – a cortiça moída é usada depois para fazer alguns objetos, como sapatos. Após outra década começa a sair cortiça de melhor qualidade. Os sobreiros mais antigos, que continuam a produzir boa cortiça, são conhecidos como as árvores do pós-ii Guerra Mundial.

Passados pelo menos 40 anos começam a surgir os frutos de um trabalho difícil. Mas vale a pena esperar: a unidade da cortiça é vendida à arroba (15 quilos) e cada uma pode valer até 60 euros. Se for cortiça de boa qualidade, a quantidade que está na foto acima pode chegar aos 130 mil euros.

É um trabalho bem remunerado. Os agricultores passam oito horas no campo, a realizar tarefas duras, mas recebem, em média, 120 euros por dia. “Normalmente, quem faz este trabalho realiza outras tarefas no campo. Nesta altura do ano dedicam-se à cortiça, param em setembro e, mais tarde, dedicam-se à apanha da pinha-mansa. Depois, entre dezembro e março, fazem as limpezas das árvores. A partir de março fazem a tosquia das ovelhas, que dura até maio. Vão andando por estes trabalhos sazonais, duros, mas com uma remuneração muito acima da média. As pessoas deste projeto da Mina da Lagoa Salgada tentam aliciar com a criação de 300 postos de trabalho, mas esquecem-se que aqui não há desemprego. Só não trabalha quem não quer”, diz ao i António Rocha.



“A Chernobyl cá do sítio”

Não é de admirar que os proprietários de terrenos na zona da Lagoa Salgada estejam com medo do que aí vem. “Assim que isto perder o interesse, deixam tudo ao deus-dará”, dizem ao i.

Essa é, pelo menos, a realidade que testemunham numa aldeia que fica a apenas 40 quilómetros de distância, chamada Lousal. A mina de pirite ali aberta na década de 40 teve o seu momento áureo nos anos 60/70, mas a crise industrial do enxofre fez com que muitas explorações acabassem por ser encerradas. Foi o que aconteceu à mina do Lousal, em 1988.

“Na altura em que a mina funcionava, havia boas condições”, garante Maria Lucília Costa, assistente social que acompanhou os habitantes após o fecho da mina. Os trabalhadores viviam perto da exploração e tinham vários serviços ao seu dispor, como um hospital e uma farmácia.

Mas tudo mudou com o encerramento deste projeto: “Tudo girava à volta da mina. Com o seu encerramento, quase todas as pessoas ficaram desempregadas e os serviços foram todos encerrados. A população ficou entregue a ela própria”, explicou ao i.

O Estado já investiu milhões de euros a criar museus, centros de ciência e outros polos, mas de nada serviu: quem passa pela aldeia vê apenas uma ou duas pessoas na rua que olham para os forasteiros com ar de assustados, edifícios novos deixados ao abandono e casas destruídas, sem sinal de vida há vários anos.

“Houve um grande investimento no centro comunitário e na formação das pessoas, mas não havia emprego, pois não foram criadas empresas naquele sítio. E as pessoas, para irem trabalhar para Grândola, das duas uma: ou conseguiam bons empregos e ganhavam bem ou tinham de ter bons meios de transporte, pois a cidade ainda fica a 30 quilómetros de distância. Nada disto aconteceu”, diz a assistente social. Assim, a população do Lousal por ali foi ficando, entrando num estado de pobreza cada vez mais crítico. “Houve investimento no território físico, mas não houve uma aposta na qualidade de vida das pessoas. Não foram criadas respostas sustentáveis para aquela comunidade”, acrescenta Maria Lucília Costa.



E há ainda a questão da saúde: desde o encerramento da mina, em 88, que continuam a existir grandes reservatórios cheios de químicos. Quando vem o tempo do calor, a água seca e os reagentes acumulados ali há dezenas de anos ficam nos sedimentos. Quando chove, os reservatórios voltam a encher e a água que ali fica durante meses continua contaminada. E há ainda problemas no revestimento das casas – basta passar pelas primeiras ruas do Lousal para perceber que muitas habitações continuam a ter telhados feitos com as chamadas telhas de lusalite, associadas à presença de amianto.

O trabalho na mina, só por si, já traz consequências graves para a saúde, mas a presença de químicos na zona há mais de 30 anos também não deixa ninguém à vontade. Há mesmo quem diga que o Lousal é a “Chernobyl cá do sítio”, devido ao número de pessoas que desenvolveu problemas de saúde associados à exploração mineira, às ruas desertas e aos olhares vazios dos poucos que ali vão sobrevivendo. O i questionou também o Ministério do Ambiente e a APA sobre este problema mas, até ao fecho desta edição, não obteve resposta.

in: jornal i

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Notre-Dame, como nasceu



Com a devida vénia transcreve-se um texto brilhante sobre Notre-Dame, o trabalho e a construção.:

quinta-feira, 18 de abril de 2019
Pedro Tadeu - Ai "Notre Dame"!... o trabalho está a matar-nos?





17.4.19

«Ao longo de mais de um século um grande estaleiro juntou, seis vezes por semana, uma média diária de 300 homens. Alguns começaram, ainda crianças, a trabalhar ali. Muitos deles também morreram naquele local, sem conhecerem mais nada deste mundo.

Eles eram artífices especializados num ofício, ensinado em segredo por um mestre. Eles foram exclusivos toda a vida, dedicada, apenas, a um monumento ao segredo da conceção divina do filho de Deus.




Lentamente, penosamente, ergueram pedra a pedra, fundiram ferro a ferro, juntaram tábua a tábua, chumbaram vidro a vidro, "toc toc!", "tac tac!", "tic tic!" e construíram, penosamente, sabiamente, à mão, com ferramentas de artesão, os gigantescos corpos principais da Catedral de Notre Dame de Paris.

Há 850 anos trabalhava-se enquanto houvesse luz, do nascer ao pôr-do-sol. Tal como a catequese cristã afirma ter sido um direito do Criador do mundo, os criadores da Catedral de Notre Dame descansaram aos domingos. E, ao longo de cada ano, aproveitaram uma quarentena de feriados para honrar santos, reverenciar Jesus ou Maria e armazenar no coração algum descanso retemperador.

Durante um dia de trabalho cada homem tinha direito a parar uma hora para almoçar e, a meio da tarde, a outros 15 minutos para beber... de preferência vinho, a bebida da falsa força.

O pagamento do salário, para quem tinha direito a ele, era diário e ninguém concebia remunerações por feriados, folgas ou férias.

A vida de um construtor de Notre Dame, no século XII ou no século XIII, era, para qualquer um de nós, cidadãos ocidentais deste mundo do século XXI, insuportável.

Mas ser trabalhador na construção de Notre Dame nos séculos XII ou XIII era, simultaneamente, uma das melhores vidas possíveis dos homens que Deus teve a graça de não fazer nascer como filhos das classes superiores da sociedade feudal e cristã.

Foram milhares os trabalhadores que ergueram a Catedral de Notre Dame de Paris. Um incêndio, talvez atiçado por um fósforo, um cigarro, uma faísca, algo milésimo, mínimo, minúsculo, arriscou esta segunda-feira destruir uma enorme obra da Humanidade.



A vitória dos bombeiros que salvaram a estrutura principal de Notre Dame salvou a memória de um enorme sacrifício de vidas, que a ignorância sobre o real número de mortos sucumbidos às falhas da construção ou a ausência de contagem de almas condenadas a uma existência confinada à pequena Île de la Cité, nos anos de 1163 a 1267, escamoteia da maior parte dos livros de História.

Todos os grandes edifícios construídos pela Humanidade, das pirâmides do Antigo Egipto aos arranha-céus de Nova Iorque, do Mosteiro dos Jerónimos ao Convento de Mafra, resultaram da imposição do sacrifício, da dedicação da vida, da inaceitável morte, do glorioso compromisso de milhões e milhões de trabalhadores.

Sempre que uma grande obra da humanidade desaparece, não morre apenas a memória da arte ou da engenharia que a germinaram. Sempre que uma grande obra da humanidade desaparece, falece também a memória do trabalho e desvanece um registo das etapas de progresso social que nos trouxeram até aqui.

E o que é o trabalho, hoje, aqui? É o trabalho com direitos, com horários, com pausas, com folgas, com salários, com férias pagas? Ou é um tempo em que as coisas parecem andar séculos para trás, até à época do trabalho quase escravo que ergueu Notre Dame?

Que tempo é este, que leva os jornais do século XXI a alertar: "O trabalho está a matar pessoas e ninguém se importa"?»

Gravura - Uma ilustração da Catedral de Notre Dame, no século XIX - litogravura de Nicolas Chapuy
Cartoon - "Sadness", por Antonio Rodriguez

https://entreasbrumasdamemoria.blogspot.com/2019/04/ai-notre-dame-o-trabalho-esta-matar-nos.html?spref=fb

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Maria Lamas e Ferreira de Castro_Correspondência


"
Maria Lamas e Ferreira de Castro: uma relação longa e profunda


Maria Lamas e Ferreira de Castro: uma relação longa e profunda
A correspondência trocada entre os dois escritores e posteriormente depositada na Biblioteca Nacional não esclarece porque estão ausentes do espólio os romances inéditos ou mesmo algumas cartas de índole amorosa


Jornalista
15h0521 Jan 19

Uma amiga de Maria Lamas, Maria Antónia Palla, e duas cartas, uma da própria escritora e outra da filha, indicam que Maria Lamas e Ferreira de Castro terão planeado numa espécie de “ressurreição”, a concretizar através da publicação de um conjunto de cartas, 30 anos após o último a morrer (ver Revista do Expresso de 19 de Janeiro). Maria Lamas morreu há 35 anos e Ferreira de Castro há 45.

A jornalista, escritora e feminista também pretendia publicar livros que contariam o que não conseguiu dizer em vida, como foi anunciando em entrevistas nos anos 70 do século XX, depois de regressar do exílio em Paris. Não se sabe, porém, onde estão os livros; nem essas cartas “provavelmente amorosas”, como conclui o neto, o antropólogo e psicanalista José Gabriel Pereira Bastos.

Em 1982, Maria Lamas refere na carta à filha, Maria Cândida, o depósito na Biblioteca Nacional, e a filha responde-lhe que sabe dessa entrega na Imprensa Nacional. A família já tentou as duas instituições, mas nenhuma delas diz ter em seu poder tais documentos.

Carta de Maria Cândida, filha de Maria Lamas, à mãe de 28 de Fevereiro de 1982, onde se fala no depósito na Imprensa Nacional das cartas enviadas um ao outro, e da realização de uma escritura de que Álvaro Salema foi testemunha

Os registos que documentam a ‘amitié amoureuse’, que os dois alimentaram ao longo da vida, estão guardados no espólio que a família vendeu, depois de Maria Lamas morrer, à Biblioteca Nacional, e permitem concluir que o relacionamento entre os dois foi profundo e existiu até à morte dele, em 1974. São cartas que Ferreira de Castro lhe foi enviando, entre 1930 e 1973.

O escritor Ferreira de Castro, com quem Maria Lamas teve uma "amitié amoureuse"

Apesar de abrangerem diferentes períodos, as cartas de Ferreira de Castro reunidas no espólio de Maria Lamas têm hiatos significativos. Na Biblioteca Nacional existem 103 documentos, nos quais se incluem oito cartões de visita (onde Ferreira de Castro escreve uma carta a lápis), dois telegramas, dois postais ilustrados, uma fotografia do próprio de 1930, um texto acerca da obra de Maria Lamas "As Quatro Estações", um envelope com flores secas, um datiloscrito (cópia) com "Resumo da Obra", três cartas da mãe de Ferreira de Castro dirigidas a Maria Lamas, uma carta dirigida a "Monsieur Secretárie" a propósito da atribuição do Prémio Nobel da Literatura e um recibo. Há também uma carta rasgada, que apesar de tudo se consegue ler.

Neste grupo de documentos encontram-se pequenas cartas que Ferreira de Castro envia a Maria Lamas, a dizer-lhe que precisa de tratar de assuntos com ela no gabinete dele, no “O Século”, jornal no qual os dois coincidem durante um período, provando que se escrevem mesmo quando estão próximos um do outro.

A escrita é muitas vezes diária, ainda que durante períodos longos, e sem registo de ruptura entre os dois, não apareçam cartas. O neto de Maria Lamas, José Gabriel Pereira Bastos, acredita que “falta toda a correspondência amorosa trocada entre 1930 e 1938”, e que seria esse grupo que foi depositado na Biblioteca Nacional ou na Imprensa Nacional.


No espólio, há algumas cartas do início dos anos 30, nomeadamente as relativas a uma viagem a Londres e a Dublin, e a uma ida a Espanha como repórter de guerra. Na década de quarenta há cerca de uma carta por ano; e entre 1956 e 1959, e entre 1962 e 1966, não há nada a registar. As cartas terminam em 1973. Ferreira de Castro morre em 1974.

Maria Lamas desfilou no 1º de Maio de 1974 com o jornalista Mário Neves

Os livros que Lamas não conseguiu publicar

No espólio, organizado pela filha Maria Cândida, também não estão os livros que Maria Lamas anuncia numa entrevista publicada na revista “Vida Mundial”, em 1973, da autoria de Regina Louro: “Tenho agora em mãos uma obra começada em Paris. Chama-se ‘Tempo de Exílio’ e espero ter o livro pronto no fim do ano. Além disso, tenho já concluído um romance, ou melhor uma trilogia. ‘As Confissões de Sílvia’, de que apenas encontrei publicada a primeira parte: ‘O Despertar’. As outras duas ‘O Caminho’ e ‘A Luta’ não podem, por motivos, que a minha vontade não basta para remover, ser publicadas”.




Maria Lamas foi a coordenadora de uma publicação periódica, "As 4 Estações", da qual só sairam três dos quatro números previstos. Entre os colaboradores contavam-se Ilse Losa, Matilde Rosa Araújo e Júlio Pomar. Aí foi publicada a primeira das três partes do romance "As Confissões de Sílvia". Outras duas permanecem inéditas

Em 1976, Maria Lamas regressa ao tema, em entrevista a Dionísio Domingos, na revista ‘Flama’: “Sabe, eu levei a minha vida a pensar e, durante cinquenta anos, não pude falar. Os meus livros não podiam ser publicados sem dar folha por folha à censura. Era como nos jornais. Quando eu fiz ‘As Mulheres do Meu País”, ‘As Mulheres do Mundo’”.

O jornalista fala-lhe no livro “As Confissões de Sílvia” e Maria Lamas diz: “É a história da mulher daquela época: São três volumes, ‘O Despertar’, ‘O Caminho’ e ‘A Luta’. Dá a trajetória da vida da mulher nesse tempo. Eu sou uma das mulheres que despertou. Era como as outras: sou de classe média. Abri os olhos e nunca mais os quis fechar. Ainda hoje, há muitas dificuldades a vencer.”

Em Sintra, no Museu Ferreira de Castro, também há cartas de Maria Lamas a Ferreira de Castro que corroboram este relacionamento, nomeadamente um postal enviado de Colares. E no espólio da escritora há duas cartas da mãe de Ferreira de Castro dirigidas a Lamas, a agradecer-lhe por lhe ter dado notícias do filho quando este recupera de uma septicemia no hospital.

Ferreira de Castro, um ser instável

Nas cartas enviadas a Maria Lamas, Ferreira de Castro revela-se um homem acossado pela tristeza e pela depressão. Numa delas o escritor anuncia à sua “boa amiga”: “Se receber esta missiva é sinal de que eu não verei mais os seres humanos como meus irmãos”. Logo de seguida acrescenta: “Devo dizer-lhe que até ao último momento pensei na grandeza da sua alma, na nobreza dos seus sentimentos, na fidelidade do seu afecto e nessa luz inesgotável (...) Partirei com essa recordação, com essa oferenda extraordinária que o destino me deu”. Não há mais assunto. Não é de uma viagem que Ferreira de Castro fala, mas de algo que não pretende claramente nomear. A letra é firme, e parece ter sido desenhada por um gesto veloz, de quem escreve um recado.

Estando guardada no espólio de Maria Lamas, pressupõe-se que esta carta, datada de 1953, tenha chegado ao destino, ou seja a Maria Lamas. Ferreira de Castro morre muitos anos mais tarde. Mais precisamente em 1974, pouco depois de ter testemunhado o 25 de Abril e de ter desfilado na Alameda durante o 1 de Maio, onde foi entrevistado pelo realizador brasileiro Glauber Rocha.

A possibilidade de suicídio que essa carta, de 1953, sugere não será uma surpresa para Maria Lamas. Vinte anos antes dessa epístola, Ferreira de Castro já quisera tentar o suicídio, na sequência da morte, por razões até hoje desconhecidas, da sua primeira mulher, Diana de Liz. Uma enorme tristeza toma conta do seu espírito.

Há outras razões além da morte que pesam sobre ele, e que passam pela estranheza que sente perante si mesmo. Desse espírito que o toma e que poucas alegrias lhe concede, Ferreira de Castro vai falando ao longo da viagem à Grã-Bretanha, que faz em 1930, na companhia do amigo e romancista Assis Esperança. Ferreira de Castro não esconde a tristeza com que lida, embora tente aquietar a “boa amiga”, garantindo-lhe que já não é o mesmo homem de Lisboa.

Chega a escrever a Maria Lamas, de manhã, à tarde e à noite, como acontece no dia em que parte de Londres com destino a Dublin. A viagem dura apenas um dia, mas alimenta várias cartas. Ferreira de Castro escreve-lhe na véspera da partida, na manhã em que parte, durante a viagem de comboio, durante a viagem de barco, e ainda à chegada, deslumbrado com a paisagem: “Saí às oito e meia de Londres e cheguei à costa às duas da tarde. A paisagem, esplêndida! Soberba! Nem nisso, minha amiga, nós podemos bater [lhes]. Que surpreendentes panoramas. Embebidos numa doçura enorme, numa leve melancolia. Ladeámos algumas praias famosas aqui, aí ignoradas. São verdadeiros recantos de sonhos. Que pena que tive que as pessoas que eu mais estimo não viessem comigo. Foi a única nuvem negra esta manhã.”



Ferreira de Castro chega a enviar uma carta a Maria Lamas em que insinua a possibilidade de se suicidar

Nesse dia, Ferreira de Castro confessa-se muito mais confiante naquilo que é, no modo como os outros o veem. Um breve episódio dá-lhe um novo alento, e é o início de uma viagem de regresso a si próprio: “Eu sentia que o meu sorriso, que doida a minha expressão, sem ser afectado, sem ser estudado era cativante. Eu não me via ao espelho, mas sentia que era assim... Via-me de soslaio, nos olhos de duas inglesas, que almoçavam numa mesa vizinha e que me fitavam (...) com uma insistência que eu próprio, homem, não me sentia capaz de ter com uma mulher. Não duvido nada que essa loira sonhe esta noite comigo. Eu é que tenho a certeza que não vou sonhar com ela, porque não gosto das loiras, contudo gostava que você me tivesse visto esta manhã, sentado no comboio. Que querido está o F. de Castro (...) – diria a minha amiga. Também sou da mesma opinião. Isto deve ser do balanço do navio, que faz andar a cabeça à roda... E ao escrever estas últimas linhas verifico que me estou afastando de mim como o barco em que sigo se está a afastar da Grã-Bretanha. Regresso a mim próprio. Acendo um cigarro – escrevo-lhe do mar, e já sou outro. Estive alguns minutos a pensar. Compreende? Devo chegar a Dublin às seis horas da tarde.”

O episódio é um raio de luz, tendo em conta que a nuvem negra não é um raro acontecimento na vida dele. Ferreira de Castro é um homem que se sente muitas vezes deprimido. Numa dessas primeiras cartas confessa-se resignado perante o facto de ser “um ser instável”, ainda que isso venha a propósito da solidão, ou das várias solidões que diz ter sentido em Lisboa, e que no meio do mar, perante a imensidão, parecem mais fáceis de aceitar: “Há aqui um silêncio de casa abandonada” (...) Se não fosse o mar dir-se-ia que estávamos na simples residência dum excêntrico que mandou fazer uma casa com o feitio dum navio. Quereria escrever-lhe muito mais ainda, mas estou com pena do meu amigo, a quem abandonei há mais de uma hora e que só por acanhamento não me veio interromper ainda, (...) pois como já lhe disse tem medo de estar sozinho. Vou tentar habituá-lo a conhecer a solidão no mar.”

Uma solidão atenuada pelos jogos de Bridge que numa ocasião em que joga com o único sul-americano dos “29 companheiros de travessia” se vê obrigado a defender a “honra” nacional, conforme descreve ao detalhe numa das cartas.

Ferreira de Castro quer romper com o passado: “Antigamente eu gostava, por vezes, de viver para poder acumular recordações para o futuro. Hoje, talvez, gostasse de “destruir todo o meu passado, todas as minhas recordações –Todas!!”

Há uma recordação que lhe é particularmente dolorosa. A do lugar onde nasceu, Ossela, e de onde partiu ainda criança, depois da morte do pai, para ir trabalhar para um seringal no Brasil. (Ao mesmo tempo, também Maria Lamas, se perdia noutro fim do mundo, em África.)"

in: jornal "Expresso"




terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Calouste Gulbenkian_Biografia

CULTURA

Como Salazar ofereceu a imortalidade a Gulbenkian

A primeira biografia sobre o multimilionário Calouste Gulbenkian chega no dia 3 às livrarias econta minuciosamente a história de como Salazar capturou a maior fortuna que veio para Portugal.

Jonathan Conlin é o autor. 

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

DocLisboa_2018

“Um território de discussão e não de censura”: sete escolhas políticas para ver no Festival de Documentário de Lisboa 
19.10.2018 às 12h24 

Imagem do filme “YOL: The Full Version” 

D.R. 

Filmes que contam, acusam, revelam, torcem e retorcem e exigem atenção. Filmes que podem deslocar o espectador para parte incerta - ou certa. São quase 250 as obras que passam nos próximos dez dias em Lisboa. A 16ª edição do DocLisboa começou esta quinta-feira, dia 18 de outubro, e a diretora do festival, Cíntia Gil, deixa aqui os sete filmes políticos que não deve perder. Até porque este ano o festival foi “brindado” com uma novidade: a Embaixada da Ucrânia pediu para ser retirado um filme do programa do festival (“Their Own Republic” de Aliona Polunina) e a da Turquia pediu a revisão de textos na apresentação de filmes da secção “Foco: Navegar o Eufrates – Viajar no Tempo do Mundo”. “Ninguém na equipa da Apordoc tem memória de tal ter acontecido antes, e vemos isto como um sinal preocupante. O Doclisboa é um território de discussão e não de censura”, afirma a direção do festival


1º THE WALDHEIM WALTZ DE RUTH BECKERMANN | 94’

18 outubro | Culturgest | 21H30

O primeiro destaque vai para o filme de abertura do festival, da autoria de Ruth Beckermann, porque é um filme em que a realizadora pega numa série de materiais de 1986, altura em que foi ativista contra a candidatura de Kurt Waldheim nas eleiçoes presidenciais da Áustria, e faz uma espécie de arqueologia deste homem, antigo secretário-geral da ONU. Beckermann escamoteou dois anos do passado deste homem e veio a perceber que são dois anos de proximidade ao nazismo. No fundo, Ruth Beckermann está a perguntar pela Áustria, pelo seu futuro e pelo seu presente, mostrando também que a questão da extrema direita e do fascismo não foi minimamente tratada, antes metida debaixo do tapete na Europa. A realizadora vai estar em Lisboa para assistir à sessão, portanto será interessante.

2º GOING SOUTH DE DOMINIC GAGNON | 108’

19 OUTUBRO | CULTURGEST | 21H15 e 27 OUT | SÃO JORGE | 16H30

Na secção “Riscos” quero destacar este filme, porque o Dominic trabalha uma ideia de ecologia das imagens, o que é bastante interessante hoje em dia. Ele não filma, usa imagens do Youtube e constrói narrativas através delas. Nós já mostramos um filme anterior, o Of the north (na edição do Doclisboa em 2016), e agora ele faz uma espécie de trabalho sobre o que será este mundo, numa época de notícias falsas, em que estamos constantemente a produzir notícias para a Internet e estamos sempre online. Que mundo é este em que estamos nesta permanente produção de notícias falsas?







3º ACTOS DE CINEMA DE JORGE CRAMEZ | 115’

25 OUTUBRO | CULTURGEST | 21H30 e 28 OUTUBRO | CINEMA IDEAL | 22H15

Mais um filme da secção “Riscos” que não parecendo político é muito político. É um filme que representa 20 anos de trabalho do Jorge Cramez em rodagens em que participou. Cramez foi filmando essas rodagens, portanto há momentos de realizadores que já não estao entre nós - como o Fernando Lopes ou o José Álvaro Morais -, mas há também o Miguel Gomes, a Teresa Villaverde, a Catarina Ruivo, etc. “Actos de Cinema” revela entrevistas com muitos desses realizadores, atores e técnicos. E portanto, creio que é fundamental ver este filme, porque ali temos de facto contacto com aquilo que é o cinema português e as suas condições de produção.

4º THE VAMPIRES OF POVERTY DE CARLOS MAYOLO E LUIS OSPINA | 29’

23 OUTUBRO | CINEMATECA | 21H30

Este é um filme mítico de Luis Ospina. Realizado na segunda metade dos anos 70, em 1978, com o Carlos Mayolo, é um falso documentário em que ensaiam o conceito de porno-miséria. A obra é bastante sarcástica (e acaba por ser trágico-cómica) e consiste numa falsa equipa de televisão que vai para Cali, na Colômbia - terra natal de Luis Ospina - para filmar a pobreza e depois a vender a um canal alemão. No fundo, é um filme que vai parodiando essa ânsia de produção de imagens da miséria e a própria fetichização da pobreza, que acaba por ser um produto altamente vendável na Europa.

Na mesma sessão passam mais duas curtas de Luis Ospina. “Listen, Look!” - um filme sobre as consequências dos VI Jogos Pan-Americanos na cidade de Cali do ponto de vista dos que não tinham dinheiro para entrar nos estádios e “Eye and View: the Artist’s Life is in Danger” em que, dez anos após “The Vampires of Poverty”, o realizador reencontra um dos seus personagens principais, artista de rua, que ainda interpreta o mesmo espectáculo. Ao ver o filme, o artista reflete sobre a vida, o trabalho e o próprio filme.

5º RESURRECTION DE ORWA AL MOKDAD | 18’

23 OUTUBRO | CULTURGEST | 21H45 e 25 OUTUBRO | CULTURGEST | 14H00

Na “Competição Internacional”, vou salientar “Resurrection” de Orwa Al Mokdad, uma curta metragem do realizador sírio, que ganhou um prémio no Doclisboa em 2016 (Prémio FCSH para Melhor Primeira Obra transversal a Competições e Riscos), com “300 Hundred Miles”. Em “Resurrection” ele teatraliza e dramatiza, numa espécie de desabafo, ou até confissão, sobre o facto de estar refugiado no Líbano e não poder voltar à sua terra, não poder completar o seu filme. É um filme testemunhal muitíssimo forte. É sempre complicado salientar filmes de competição, mas este gostava mesmo que o público o visse. Estamos a tentar que o realizador esteja presente no festival, mas ainda não sabemos se iremos conseguir.


6º THEIR OWN REPUBLIC DE ALIONA POLUNINA | 70’

22 OUTUBRO | CULTURGEST | 21H30 e 25 OUTUBRO | CULTURGEST| 10H30

É mais uma das minhas escolhas e é o filme que a Embaixada da Ucrânia nos pediu para retirar. Julgo que é importante este filme ser amplamente debatido. Somos acusados de dar voz e protagonismo, e até de apoiar, um grupo terrorista, neste caso um batalhão pró-russo na autoproclamada República de Donetsk. E, de facto, o filme é sobre esse batalhão. Mas é bem diferente mostrar uma coisa ou concordar e aderir a ela. Por um lado, quem vir o filme vai perceber que é um retrato muito alarmista e até trágico da situação absurda de homens naquela região, com valores muito mais universais do que apenas os que estão associados a esta questão na Ucrânia. Por outro lado, é a prova de que o cinema documental tem a capacidade de ir para lá dos maus caminhos e das decisões extremas e radicais que muitas vezes servem a geopolítica internacional, mas não servem as pessoas. Convidámos a embaixadora da Ucrânia para estar presente na sessão, mas não tivemos resposta.

7º YOL: THE FULL VERSION DE YILMAZ GÜNEY E ŞERIF GÖREN | 113’

19 OUTUBRO | SÃO JORGE | 22H00 e 27 OUTUBRO | SÃO JORGE | 14H00

Este filme pertence à sessão “Foco: Navegar no Eufrates, Viajar no Tempo do Mundo” e foi realizado por Ylmaz Güney e Şerif Gören. Esta obra tem uma história particular: o realizador Ylmaz Güney foi preso político na Turquia e condenado a prisão perpétua. Depois, conseguiu sair e exilar-se em França, mas pediu a Şerif Gören - outro realizador que saiu tempos antes da prisão - para filmar este projeto, que acabou por ser montado na Suíça e ter co-produção suíça. “Yol” venceu a Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1982, esteve banido mais de trinta anos na Turquia e depois passou no país numa versão censurada. A versão apresentada no DocLisboa é a versão restaurada estreada no Festival de Cannes de 2017 e é um filme de uma beleza extrema. Sobretudo é um filme sobre a sociedade turca e a opressão do regime, através das histórias de diferentes personagens, com diferentes origens - a questão curda está lá bem patente - e muitas vezes das suas relações familiares, com as suas mulheres, etc. É um filme profundamente tocante e comovente e ao mesmo tempo tem uma dimensão política enorme, tanto que é polémico ao ponto da Embaixada da Turquia pressionar o DocLisboa no sentido de retirar as sinopses do filme do programa do festival. Mais um caso em que o festival gostaria de ter representantes da embaixada para debater ideias no final da sessão de cinema.

P.S.: Uma última nota para a “Sessão Descontraída”, que vai na sua segunda edição no DocLisboa. Diz a sinopse que “é uma sessão destinada a todos os indivíduos e famílias que prefiram um ambiente com reduzidos níveis de ansiedade, famílias com crianças pequenas, pessoas com deficiências sensoriais, sociais ou de comunicação, pessoas com condições do espectro autista, incluindo Síndroma de Asperger, pessoas com deficiência intelectual, crianças com défice de atenção, pessoas com Síndroma de Down, pessoas com Síndroma de Tourette e seniores em estados iniciais de demência”. Terá a duração de 58 minutos e acontece a 28 de outubro às 11h na sala 2 do cinema São Jorge. "

in: jornal "Expresso"

Ailton Krenak_entrevista



“Somos índios, resistimos há 500 anos. 

Fico preocupado é se os brancos vão 

resistir”


Há 30 anos, em plena Assembleia Constituinte, pintou o rosto de negro, declarou guerra aos políticos brasileiros e venceu. Ailton Krenak tem agora 65 anos, já viu muito e o que não viu, recorda-se, numa memória que lhe foi legada pelos antepassados. Líder indígena, assume-se e ao seu povo como sobreviventes de um genocídio. Mas teme pelo futuro dos brancos, aqueles que nunca aprenderam a pisar com leveza a “Mãe Terra” e que por isso poderão acabar “enterrados no próprio vómito”




Quando uma criança krenak nasce, não vai para a creche, fica com a mãe, as avós e as tias. Partilham um quotidiano e um modo de estar na vida. As crianças indígenas não são educadas, mas orientadas. Não aprendem a ser vencedores, porque, para uns vencerem, outros têm de perder. Aprendem a partilhar o lugar onde vivem e o que têm para comer. Têm o exemplo de uma vida onde o indivíduo conta menos do que o coletivo. Este é o mistério indígena, um legado que passa de geração para geração. Ailton carrega no apelido a pertença à sua gente, o povo krenak. E a sua memória mais antiga é muito simples: “Eu não sei viver sozinho.”
Esteve esta semana em Portugal para participar no Fórum Internacional de Festivais de Cinema de Ambiente, em Seia, onde realizadores de mais de 30 países estiveram reunidos e demonstraram preocupação com o rumo político do Brasil e as consequências das eleições presidenciais na preservação da floresta amazónica. Antes de regressar a casa, Ailton Krenak conversou com o Expresso.
Que povo é o seu?
Krenak.
O que quer dizer?
Numa das línguas nativas do Brasil que restaram, kren quer dizer cabeça, e nak é terra. Logo, nós somos a cabeça da terra. Escutando os velhos e perguntando sobre a nossa história, entendi que somos uma das últimas famílias de um povo que, quando D. João VI chegou ao Brasil, habitava uma região conhecida como a Floresta do Rio Doce. Os viajantes se referem a ela como uma floresta tão impressionante como a Mata Atlântica ou a Floresta Amazónica. Era uma muralha natural no caminho do ouro e dos diamantes que vinham do interior. Mas a Coroa precisava de dinheiro e os colonos não eram bobos e pressionaram D. João VI para que libertasse a entrada na floresta. Os nossos antepassados, chamados botocudos, resistiram bravamente a essa investida e a nossa aldeia foi o último lugar a ser colonizado, já tardiamente, por volta de 1910. Nessa altura ainda havia caçadores e recoletores andando nessa floresta. Para acabar com os botocudos, primeiro esses colonos que estavam expandindo as fronteiras internas do Brasil tiveram de devastar a floresta. Vejo um paralelo muito grande, passados quase 200 anos, com o que os brasileiros estão a fazer [agora], determinados a devastar a última grande floresta da bacia amazónica.

SEGREGADOS “NUM CAMPINHO DE CONCENTRAÇÃO”

A conversa começa assim e segue por muitos percursos, sempre sob a sombra das árvores, no meio da cidade. Rapidamente nos deparamos com as eleições presidenciais no Brasil e com a possibilidade de Jair Bolsonaro ser o escolhido pela maioria da população. O candidato já afirmou que “não vai ter nem um centímetro demarcado para reserva indígena”.
Preocupado, mas sereno, Ailton responde: “Em outras épocas, o meu povo já experimentou diferentes tipos de violência. Os botocudos foram aniquilados durante o século XIX e chegaram ao século XX quase extintos, ao ponto de sermos a única família. Os krenak têm memória da guerra descrita numa carta assinada por D. João VI, que se chamava mesmo 'guerra de extermínio à nação dos botocudos do Vale do Rio Doce'. Uma declaração de guerra contra o nosso povo.”
Uma guerra que não se pode resumir ao número de mortos. “A população de indígenas daquela região no final do século XIX era estimada em cinco mil pessoas. Só chegaram 140 indivíduos ao século XX. Era como se caísse uma bomba na Europa e ficassem umas cem mil pessoas para contar a história. Fomos vítimas de um genocídio e não há contabilidade possível. Os krenak voltaram a reunir 120 famílias. Se considerarmos cinco pessoas por família, somos pouco mais de 500. Vivemos dentro de uma pequena reserva, segregados pelo governo brasileiro, num campinho de concentração que o Estado fez para os krenak sobreviverem. Durante o período da ditadura, se constituiu num campo de reeducação, que na verdade era um centro de tortura. Já passamos por tanta ofensa que mais essa agora não nos vai deixar fora do sério. Fico preocupado é se os brancos vão resistir. Nós estamos resistindo há 500 anos.”

DECLARAÇÃO DE GUERRA

Há 30 anos, perante a Assembleia Constituinte que redigiu a lei fundamental da então recém recuperada democracia brasileira, Ailton Krenak pintou o rosto de negro e declarou guerra aos congressistas. Lutava pelos direitos do povo indígena - e venceu. Mas diz que o tempo não se repete e que hoje não voltaria a tomar a mesma atitude. “Na década de oitenta abrimos trilhas para as novas gerações buscarem o reconhecimento dos direitos das populações originárias, os indígenas, e para conscientizar a população da importância de continuarmos tendo rios, montanhas, paisagens, florestas como recursos capazes de se refazerem ao longo do tempo e como uma riqueza a ser partilhada pelas gerações futuras. É um tipo de entendimento da terra como a nossa casa comum, mas o que tem prevalecido é a ideia de que diferentes lugares do planeta podem oferecer posicionamentos estratégicos para algumas potências ou ser simplesmente fonte de suprimento daquilo que estas potências querem controlar. E pequenas nações como o Brasil e a maior parte dos países da América Latina, ex-colónias, não tiveram sequer o tempo necessário para consolidar um pensamento acerca de si mesmos. Não tenho nenhuma ilusão acerca do futuro destas pequenas nações: ou vamos experimentar grandes transformações globais na relação entre os povos ou estas pequenas nações vão ser cada vez mais territórios de disputa e enclaves das potências que têm força para decidir o jogo, que não precisa nem de ser na ONU, é decidido no mercado.”
Nações pequenas? O Brasil? “O Brasil é pequeno no sonho. Sonha pequeno. Um território que não esboça uma visão soberana pode ser grande geograficamente mas vai continuar sendo pequeno na sua expressão no mundo. A Amazónia é a maior floresta tropical do planeta que ainda tem condição de ser reguladora do clima e o Brasil quer derrubar a Amazónia. Por que eu vou achar o Brasil grande? O Brasil é menor do que a Amazónia. Eu queria que ele fosse maior.”
E como aquele país se limitou desta forma? Para Ailton, “a colonização que a Europa fez do resto do mundo desde os séculos XV e XVI imprimiu uma maneira de dominação que é como um vírus, é capaz de se auto-reproduzir, inclusive nas colónias”. E “se o Brasil foi inseminado com esta ideologia colonialista, ele vai ser capaz de reproduzir isso infinitamente, enquanto não quebrar esse ciclo colonial. O projeto político de criar uma nação chamada Brasil é tão pequeno que chega a ser menor do que a Amazónia.”

PISAR COM LEVEZA


Ailton Krenak não se esquece de um texto de 1865, atribuído a um chefe indígena da América do Norte quando abordado por um representante do governo de Washington, avisando que queriam comprar as terras dos índios. Não se esquece também de que a resposta do chefe Seatle foi de que os índios não podiam vender a terra porque a terra é maior do que os índios, é a mãe deles. “Disse aos brancos que, se algum dia eles herdassem aquela terra, que a pisassem suavemente, porque se não aprenderem a respeitar, vão acumular detritos sobre detritos até que vão acordar enterrados no próprio vómito.” Reconhece aquele texto como o primeiro manifesto ambiental do século XX, “uma ideia partilhada pelos povos que vivem nas ilhas do Pacífico, nos Andes, nas montanhas dos Himalaias, porque estes povos originários têm isso no coração, antes de ter na cabeça”. Para completar: “Talvez o que as nossas crianças aprendem desde cedo é a pôr o coração no ritmo da terra.”

Como um círculo, a conversa volta ao início, à génese: à memória e à sua partilha. Das muitas formas de as novas gerações terem acesso ao passado. Homem de longos silêncios, Ailton Krenak emudece por alguns momentos, quando questionado sobre como o legado de um povo é transmitido às gerações seguintes. “Quem dera que eu pudesse responder a uma pergunta dessas. Ao longo da minha vida inteira vou experimentar [as formas] como transmitimos aos nossos filhos e filhas os valores que nos distinguem de uma sociedade predatória, individualista e que incentiva desde cedo as crianças para a competição, a dominarem-se uns aos outros”. Para concluir com outro questionamento, ainda mais denso do que a primeiro: “Parece que o mandamento principal dessa civilização é 'dominai-vos uns aos outros', contrariando aquele outro que seria 'amai-vos uns aos outros'. Estamos nesta dualidade e podemos escolher qual o mandamento mais interessante para ensinarmos aos nossos filhos.” E Ailton despede-se de nós e do Sol, que também começa a partir. “Te mum tepó itxá, kren nabã tepó erehé”*
* “Oh Sol, você já tá indo? Eu abaixo a minha cabeça para você.”
in: jornal "Expresso"