domingo, 26 de maio de 2019

Silvia Perez Cruz_Gallo rojo, gallo negro

Quando o dia amanhece e a negra noite e' só uma vaga recordação, vem esta voz cantar-nos como se não houvesse amanhã. Como se o desencanto estampado, fosse trémula folha ao vento sujeita. E’ quando a traição vence e a palpitação dum coração valente se finda, que a coragem mais se admira. Não fora isso "outro galo cantaria". Ai, Ai. Que grandeza de voz e letra…

Hoje irei votar ainda com mais convicção…







Gallo rojo, gallo negro


(Chicho Sánchez Ferlosio)
Sílvia Pérez Cruz

Cuando canta el gallo negro
es que ya se acaba el día.
Si cantara el gallo rojo,
otro gallo cantaría

¡Ay! Si es que yo miento,
que el cantar de mi canto
lo borre el viento

¡Ay! Que desencanto,
si me borrara el viento
lo que yo canto.

Se encontraron en la arena
los dos gallos frente a frente.
El gallo negro era grande,
pero el rojo era valiente.

¡Ay! Si es que yo miento,
que el cantar de mi canto
lo borre el viento

Se miraron cara a cara
y atacó el negro primero.
El gallo rojo es valiente,
pero el negro es traicionero.

¡Ay! Si es que yo miento,
que el cantar de mi canto
lo borre el viento

Gallo negro, gallo negro,
gallo negro te lo advierto:
no se rinde un gallo rojo
más que cuando está ya muerto.

¡Ay! Si es que yo miento,
que el cantar de mi canto
lo borre el viento.

sexta-feira, 24 de maio de 2019

Mia Couto_Conto "O Meu Primeiro Pai"



MIA COUTO

O MEU PRIMEIRO PAI

24.05.2019 às 8h23

"O seu verdadeiro vício não era o álcool. O seu vício éramos nós que ele amava e que não sabia o que fazer com esse amor. Não sabia como dizer esse amor. Tinha medo de se entregar e de não regressar


Ilustração: Suza Monteiro

Todos os domingos, o meu pai anunciava que ia à missa. Nunca chegou a entrar na igreja. Pelo caminho, parava nos bares. Eram vários os bares e, mais ainda, as paragens que ele fazia. Encontrava as tabernas de olhos fechados como um devoto ante a cruz. A gente, dizia ele, começa a beber antes de ter boca. Ele bebia pelo cheiro. O nariz dos bêbedos ocupa o corpo todo. A sede do beber pode ser saciada. A do corpo não se resolve nunca.

Em cada taberna, o nosso pai ajoelhava-se e benzia-se de copo na mão, lentamente para não entornar a bebida. Perante um altar pejado de garrafas, misturava orações, impropérios e encomendas de mais aguardente.

Regressava a casa ao final da tarde. A nossa mãe espreitava, por detrás das cortinas. Quem me dera que faça calor, suspirava ela. Nos dias quentes, o marido entrava em casa já meio adormecido, sapatos na mão, os olhos à procura do olhar. Com o calor, a maldade saía-lhe
do corpo, diluída em suor. No geral, porém, a chegada dele era temida, prenúncio de uma guerra sem panos brancos. O pai surgia no topo da rua, a mãe alertava-nos: ele aí vem, vão para o quintal. E corria a recebê-lo como quem se apressa a entregar um carrasco.

Por detrás das moitas, adivinhávamos a sua ágil dança, escapando aos murros, chutos e pontapés. A arte de quem apanha, dizia a mãe, é evitar marcas nos lugares expostos do corpo. Regressávamos quando os gritos viravam choro. Depois, quando tudo era silêncio, com mil cuidados rodávamos a maçaneta da porta. O pai esperava-nos na cozinha. Ocupava esse aposento que ele, com antigo desdém, chamava “lugar das mulheres”. A cozinha ficava ainda mais pequena com ele ali sentado, cansado de ter corpo, as pernas longas não cabendo dentro da casa. Havia uma destilaria dentro do hálito dele.

Aguardávamos em silêncio, prontos para escutar o que ele nunca chegou a dizer. Os bêbedos têm medo das palavras. Magoam-se mais ainda com o silêncio, esse fundo de copo irremediavelmente vazio. A luz tornava mais branca a sua justíssima camisola interior. Temíamos a sua ferocidade, mas receávamos ainda mais tornarmo-nos parecidos com ele.

Sobre os joelhos o pai deitava os velhos sapatos, os únicos que tinha. As pontas dos dedos afagavam as solas e eram uma carícia que a ninguém nunca dedicou. Depois de um tempo, os dedos impregnados de poeira, ele anunciava: vão lá, vão lá ter com ela!

Corríamos a reconfortar a mãe que, no seu leito, escondia o corpo debaixo dos lençóis. Eu sacudia a almofada como se afastasse a areia em que ela me surgia sepultada.


– Durma, mãe.
– Não posso, meus filhos.
– Finja que dorme. Assim ele não a importuna mais. E sonhe, mãe.
– Ultimamente tenho-me esquecido tanto de sonhar.

Na manhã seguinte, a mãe falava no pátio com a vizinha: o meu primeiro marido não era assim. E eu estremecia com receio daquelas misteriosas palavras. A mãe sorriu quando lhe confessei esse medo: não houve nunca outro casamento, o seu companheiro tinha sido sempre este que a humilhava. Esse “primeiro” marido que ela inventava era, afinal, este nosso pai antes do desemprego e da bebida. E nós, órfãos, éramos filhos desse outro que se extinguiu dentro deste. Tantas vezes rezei para que esse outro, esse meu inventado pai, regressasse das brumas e tomasse posse do nosso castelo.

A nossa família só se tornou completa quando a nossa mãe ficou viúva. A solidão fê-la adoecer mais do que podíamos prever. Fomos visitá-la ao hospital. E lamentámos o quanto ela sofreu nas mãos do nosso pai. O meu irmão mais velho chegou a dizer algo terrível:

– Odiamo-lo tanto que o nosso maior receio é tornarmo-nos iguais a ele.
– Engano vosso, meus filhos – declarou a mãe. – O vosso pai nunca ergueu um dedo contra mim.
– Como pode protegê-lo depois de tantos anos de pancada?
– Alguma vez viram uma nódoa negra no meu corpo?
– E, então, os gritos, os choros?
– Eu gritava e chorava porque ele se agredia a si mesmo.
A raiva dele abatia-se apenas sobre ele, e isso, para a nossa mãe, era uma prova de amor tão verdadeira e sofrida que, em prantos e soluços, ela implorava que o homem dirigisse os golpes contra ela.
– O vosso pai só me tocou para me amar.

E o seu verdadeiro vício não era o álcool. O seu vício éramos nós que ele amava e que não sabia o que fazer com esse amor. Não sabia como dizer esse amor.

Tinha medo de se entregar e de não regressar. A bebida afastava-o dessa carência. Não era de sede, murmurou a mãe, que ele sofria. Morria, sim, de ciúmes de mim. Nunca houve outro homem e o vosso pai sabia. O que ele não me perdoava era eu estar mais viva do que ele.
Ainda hoje, na solidão da cozinha, passo lustro aos velhos sapatos que foram a minha herança paterna. E os meus dedos são os dele, os do meu primeiro pai, trémulos e receosos perante a Vida que é sempre dos outros."

in: revista "Visao"

Lídia Jorge_entrevista


"Lídia Jorge: "Os poetas não gostam que se diga que a poesia é mais fácil"


Inesperadamente, uma das mais importantes escritoras portuguesas fecha por momentos a torneira da ficção e reúne os poemas que considera incapaz de melhorar num livro.

João Céu e Silva
23 Maio 2019 — 18:28

Lídia Jorge
livro
Cultura


A poucos dias de começar a Feira do Livro de Lisboa, a escritora Lídia Jorge lança um novo livro... Só que O Livro das Tréguas pouco tem que ver com o que a autora já foi autografar neste evento numa longa carreira, afinal é obra poética. Bem assinalada na capa, para que o leitor não vá ao engano!

A primeira palavra do livro é "Antes" e as finais "de quem serei eu filha?", que bem poderiam ser espelho da ficção que se conhece assinada por si, contudo as milhares de palavras entre o princípio e o fim confirmam que a autora abriu definitivamente as portas ao género literário que lhe faltava publicar.

Mais, é um livro escrito por uma mulher e que fala de preferência para as leitoras. Basta ver o índice e confirmar que a maior parte dos "capítulos" têm que ver com situações femininas, às vezes até autobiográficas. A poeta não o nega: "Acontece sim." Explica: "Penso que as vozes da poesia que mais ecoam têm sido as das mulheres. Porquê? Não o sei dizer, mesmo que olhe para o trabalho de Seamus Heaney, Paul Valéry ou Rimbaud, aproximei-me muito mais da poesia escrita por mulheres e, principalmente, das portuguesas." Dá exemplos: "Faço um périplo e dizem-me muito a Sophia, a Luiza Neto Jorge, a Fiama Hasse Pais Brandão, de outra maneira a Maria Teresa Horta, e na atualidade a Ana Luísa Amaral. Isto para falar das jovens, por quem também fico deslumbrada em vários casos."

Pede-se para confirmar se existe nesta poesia agora exposta publicamente um contrato sentimental para com as mulheres. Sim, responde: "Mesmo que involuntário, é natural ter um contrato sentimental para com as mulheres, pela condição. Não é de vítimas, mas de auscultadoras de outras coisas. Dentro destas mulheres que referi, o que mais gosto na sua poesia é aquela em que se mostram triunfantes." Por isso gosta tanto de Sophia: "Ela não aparece vitimizada, mas sempre alguém que triunfa sobre a natureza, a ciência, a cultura, a história, o país ou a política. Nunca se lamenta que não pode, é a poeta que tem o poder e eu gosto disso. De outra maneira, a Fiama é também excecional nisso, ou a Luiza e a Ana Luísa. Atentas a outras cordas diferentes da harpa que as mulheres podem tocar porque historicamente estão noutra posição. No futuro, iremos aproximar-nos todos mais, mas creio que há uma natureza que nos distingue - cérebro e corpo - e nos fará sempre ser diferentes."

Depois de lermos o seu último romance, Estuário, em que o protagonista trabalhava sobre A Odisseia e A Ode Marítima, só poderia surgir um livro de poesia?
Não posso fazer essa ligação, porque ao longo da minha vida sempre fui escrevendo poesia. Portanto, estes poemas que reuni poderiam ter sido publicados há dois anos ou esperar dois anos para o serem. Não têm relação direta com o caminho que estou a fazer.

Para os leitores este livro será quase inesperado...
Penso que sim, porque as pessoas não estão à espera de que publique poesia, ainda que eu ache, e até porque muitos leitores me dizem que há páginas na ficção, em romances e contos, sobre as quais consideram "isto é poesia". Por vezes, gosto de introduzir, sobretudo nos pontos cimeiros da ficção, poemas como condensação do sentido mais forte do livro. Foi o que aconteceu em A Costa dos Murmúrios, tanto que muitas vezes as pessoas começam a falar desse livro a partir do poema que lá está. Que é parte do personagem, escrito ficcionalmente por ele, mas de minha autoria. Portanto, penso que os leitores mais atentos ao que escrevo não sentirão uma grande surpresa. Acho que se percebe que não só leio poesia como gosto e a escrevo permanentemente.

Já havia dois poemas que circulavam na internet, o "Assim a Casa Seja" e o "Cai a Chuva no Portal"...
Tenho publicado poemas em jornais e outros que se transformaram em letras para canções. Comecei a publicar poemas em jornais regionais deveria ter uns 15 anos, no entanto vem desde quase criança. Escrever poesia é para mim um ato pacífico, onde parece que ajusto as contas comigo e me confronto, e posso dizer que existe uma outra espécie de escrita ao lado daquela que até agora tenho publicado. Para mim, publicar este primeiro livro de poesia não é um acontecimento extraordinário, antes natural porque surge como alguma coisa que tinha mesmo de acontecer.

Entra num mundo que não é o seu e num país de muitos poetas!
Um país de muitos grandes poetas, é preciso dizê-lo, e quando confrontamos os nossos com os grandes do mundo percebemos que é assim. Simplesmente, eu não escrevo poesia para entrar em nenhum clube nem para dizer "cheguei!" ou que "também pertenço ao vosso grupo". Não. Considero que entre a ficção e a poesia há uma linha de continuidade, apesar de a poesia ter em relação à ficção uma densidade maior no sentido, na semântica e na linguagem. Enquanto na ficção a linguagem tem de se desdobrar em segmentos menos significativos porque a narrativa assim o manda, na poesia o sentido das palavras é mais denso. É por isso que gosto de ler poesia, como uma espécie de descanso entre a ficção e o ensaio. É uma espécie de intermezzo na vida, para dizer: isto aqui é-me fácil e não estou em competição com nada, é apenas um confronto com aquilo que sou capaz de expressar.

Quando diz que a poesia lhe é fácil pode entender-se que é mais fácil escrever um livro de poemas do que um romance?
De facto, é mais fácil. Os poetas não gostam que se diga que a poesia é mais fácil porque consideram, o que é verdade, que cada verso é uma iluminação. Ficam ofendidos porque passam muito tempo a burilar e acham que a ficção é uma espécie de poesia conspurcada, que se desenvolve de uma forma operária. Aquilo que me parece é que se eu quiser escrever poesia, independentemente de ser boa ou não, isso será mais fácil. Possivelmente não atingirei o grau de densidade do Saint-John Perse ou da Wislawa Szymborska, mas a verdade é que me surge com muita naturalidade e se me dedicasse à poesia escreveria muitos mais livros. Não sei que tipo de sucesso é que teria, quantos leitores, ou se seria considerada uma poeta importante. Contudo, luto mais para escrever ficção, onde tenho de ter sobre o tabuleiro vários dados, do que na poesia, que surge instantaneamente e depois se vai trabalhando em intervalos. Reescrever uma página não é o mesmo que o fazer em milhares de páginas. Como Céline dizia: de oito mil aproveitava 800. É um trabalho diferente e digo-o sem menosprezar qualquer tipo de atividade, até porque acho que são contíguas.

Com a poesia fecha o ciclo dos géneros literários: romance, conto, teatro, ensaio e crónicas. Faz o pleno?
Está tudo muito próximo e não vejo grande distinção porque até se vai notar que existe uma continuidade entre todos os meus textos. Os géneros não se opõem e quem gosta de escrever sente desejo de fazer experiências a várias vozes. Isto é um palco múltiplo onde ora fala mais um eu personalizado ora como se o meu eu sozinho não fosse capaz de cobrir as minhas interrogações. Então, espalho-me pelos personagens que, falando uns com os outros, encontram a resposta que só não consigo. A minha forma primitiva é sempre o "Era uma vez" e mesmo quando isso não está escrito na poesia é o que se passa.

Já criou sete dezenas de personagens em ficção. Neste livro só há uma: a poeta. Como reagirão os leitores?
Acho que bem e ninguém ficará a dizer "aqui está uma máscara do que ela escondia e agora revela!". Quem lê os meus livros repara que há muito de biográfico e neste caso questiona se sou eu a personagem, mas não sentirá esse choque porque há a continuidade, nem se sentirá num território estranho.

O poema "Autografia" é claramente autobiográfico?
Sim, é uma espécie de arte poética que tem a chave do que me faz escrever: a ideia de que enquanto pego numa história adio a morte de alguma coisa.

Tem um poema em que diz que tem a cabeça cheia de fábulas. Para desenvolver na poesia ou na ficção?
Ambas. Na poesia, se perceber que este livro não ofende as pessoas e tem um eco nos leitores; mas não deixarei de escrever ficção. Arrumei estes poemas dispersos, os que considerei que tinham chegado à forma final, ou que não sou capaz de melhorar, mas tenho muitos e continuo permanentemente a escrever. Ao mesmo tempo estou a pensar no romance, nas figuras que falam e numa história.

Está mais ansiosa perante a reação do leitor com este livro ou quando publica um romance?
Só estou ansiosa no momento em que termino, porque pergunto se terei feito tudo o que podia. Depois, fico calma porque o que poderia fazer fiz. Aí, aconteça o que acontecer, na vida ou na escrita, o amanhã virá por si e se não gostarem muito ou nada do livro só posso responder com o próximo. Eu privilegio mais um caminho do que uma carreira.

O Livro das Tréguas - Poesia
Lídia Jorge
Editora D. Quixote"

in: jornal "DN"

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Chico Buarque_Prémio Camões 2019


Uma "chapada" sem mão ao fascismo. Gostei! 




Chico Buarque - "Tua Cantiga" (Clipe Oficial)





Chico Buarque Show DVD Carreira -1



Chico Buarque (Carioca ao Vivo)


segunda-feira, 20 de maio de 2019

Álvaro de Campos_Poema em linha recta

POEMA EM LINHA RECTA

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 312.

sábado, 11 de maio de 2019

a foto e o texto do dia

Um destes dias Marat ressuscita
por Sérgio de Almeida Correia, em 11.05.19
img_797x448$2019_05_10_15_41_55_585970.jpg


Apesar de estar muito longe, e de hoje em dia raramente escrever sobre o que se passa na política nacional, não posso deixar de dizer duas palavras sobre o indecoroso espectáculo a que me foi dado assistir pela televisão a propósito da visita de um tal de Joe Berardo a uma comissão parlamentar da Assembleia da República.

Confesso que não é fácil encontrar palavras que descrevam o que ali se passou, mas grotesco será o mínimo.

E tudo acontece na mesma semana em que as revistas Sábado e Visão mostraram aos portugueses como é possível a um conjunto de pseudo-empresários, pseudo-banqueiros, gestores incompetentes e devedores relapsos levarem vidas milionárias, depois de terem derretido milhões em negócios ruinosos à custa da banca nacional, pública e privada, não pagando a dívida que geraram e deixando os prejuízos para os outros.

No entanto, a avaliar pelas vidas que levam, todos se fizeram pagar pela criatividade da sua gestão, enquanto lhes foi possível, sendo certo que os prejuízos estão a ser, e continuarão, a ser pagos pelos zés-ninguém que sustentam a gula da máquina fiscal e dos bancos que temos.

A imagem de gozo de Berardo no Parlamento, onde se fez acompanhar por um advogado que fazia de ponto, e ao qual condescendentemente o presidente da Comissão deixou que fosse falando e segredando as respostas que o seu constituinte deveria dar, ultrapassou todos os limites.

Depois, o estilo sobranceiro do depoente, as interjeições que foi fazendo, a risada alarve, as respostas irónicas a questões sérias, denunciavam o chico-esperto que a democracia, o Estado de Direito e os nossos sistemas jurídico e judicial fomentaram em quarenta e cinco anos de liberdade com o aval do poder político e da elite dos banqueiros nacionais.


Com tudo o que ouvi, continuo sem saber o que foi verdade e o que é mentira, e também já não tenho esperança de algum dia vir a saber. Sei é que a dislexia não impediu o cavalheiro de sacar milhões, de continuar a fugir às notificações e de agora gozar com o pagode. Deputados incluídos.

Porém, houve algo que retive, para além do facto do cavalheiro não ter dívidas pessoais. O modo como depois de tudo o que aconteceu se permitiu dizer que tentou “ajudar” a banca nacional, mantendo nos dias que correm um padrão de vida incompatível com a escassez de bens que refere possuir, são um insulto a qualquer cidadão trabalhador e cumpridor das suas obrigações.

O presidente da "Comissão Parlamentar de Inquérito à Recapitalização da Caixa Geral de Depósitos e à Gestão do Banco" (só o nome diz tudo) e os senhores deputados podem não chegar a conclusão alguma. Ninguém estranhará depois da triste figura que fizeram e daquilo que nas suas barbas permitiram que acontecesse.

E até poderemos ter mais uma dúzia de comissões, na linha do que se passou com a avioneta que caiu em Camarate, por exemplo, para investigarem a CGD e as negociatas a que este banco se prestou, para que agora os seus depositantes estejam a pagar o ordenado dos senhores deputados e dos supervisores do Banco de Portugal e, ainda, os prémios que a CGD irá continuar a oferecer aos seus administradores pelas asneiras, a irresponsabilidade e a desfaçatez com que gerem o dinheiro dos outros e impõem comissões bancárias sem que quem governa coloque um travão aos sucessivos insultos.

Não obstante, há uma coisa de que todos temos já a certeza: a de que à sombra da liberdade, da democracia e do Estado de Direito, num país envelhecido e em acelerada regressão demográfica, um poder político estruturalmente mal formado e manipulado por partidos ainda mais sofríveis, promoveu o aparecimento e a reprodução de múltiplos Berardos. De muitos “Joe”. Na banca, nos partidos, nos sindicatos, nas empresas, nas escolas, no futebol, nas autarquias, nas forças armadas, nas universidades, em todo o lado e em todas as instituições. Como se tivéssemos sido invadidos por uma espécie de formiga branca semi-analfabeta, bem falante e bem vestida, alimentada pelos contribuintes e protegida pela classe política, pelos banqueiros e pelo Estado de Direito.

Pena é que em vez de terem alimentado a canalhada que nos roubou não tivessem andado a produzir mel para oferecer a ursos. Fizessem deles comendadores. Como fizeram a tantos outros ursos. Num Dez de Junho. Teria saído muito mais barato, ter-se-ia podido proteger a natureza e haveria a certeza de que depois de saciados, estes ursos, mesmo sendo comendadores, não iriam para o Parlamento arrotar o mel, rir-se na nossa cara e fugir calçada abaixo das notificações dos agentes de execução.

Enfim, o importante agora é garantir que o circo possa continuar. Em directo e a cores. Com os colaterais que o fisco se encarregará de periodicamente sacar a todos nós, indistintamente, residentes e emigrados. Sem um ui. Aos que conseguiram ficar e aos que foram empurrados para fora da sua zona de conforto. E que mesmo fora não escapam ao linchamento fiscal vitalício, continuando a cumprir. Até um dia.

in: https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/um-destes-dias-marat-ressuscita-10686419

segunda-feira, 6 de maio de 2019

Universo_Hubble



Nesta imagem estão mais de 13 mil milhões de anos da história do Universo


06.05.2019 às 8h00 h




HubbleSite

Parece uma simples noite estrelada, mas não é. Esta imagem é um mosaico de todo o Universo, composto pelos milhares de fotografias tiradas pelo telescópio espacial Hubble ao longo do tempo, e retrata mais de 13,3 mil milhões de anos da história do universo.

PEDRO DIAS

Os pontos de luz nesta imagem não são apenas estrelas, mas galáxias inteiras. A imagem foi concebida por um professor de astronomia, Pieter van Dokkum, e a sua equipa e é composta por 7,500 fotografias tiradas ao longo de 16 anos pelo telescópio espacial Hubble.

A montagem recria o universo desde que tinha apenas 500 milhões de anos até ao presente e compila mais de 265 mil galáxias, algumas anteriores à formação da Terra, que correspondem a um total de 13,3 mil milhões de anos da história universal.

“O Hubble viu esta parte do céu muitas vezes durante muitos anos, e agora combinámos todas estas fotografias numa única imagem grande angular, de altíssima qualidade. É como ter um livro de história do universo numa só imagem”, conta van Dokkum à CNN.



O mosaico completo do Hubble Legacy Field.
HubbleSite

A imagem funciona como um livro de história porque olhar para galáxias criadas em tempos tão distantes permite estudar o passado e a evolução do universo. Contudo, graças à sua distancia, algumas das galáxias estão reduzidas a pequenos pontos brancos de luz. Os cientistas explicam que, sem um telescópio ainda mais poderoso, esta é a melhor representação universal que se consegue obter.

O Hubble Legacy Field, nome dado pelos investigadores ao mosaico criado, é o retrato do universo mais completo até à data. A imagem permite estudar a expansão do universo, o que permitirá perceber a forma de como vários elementos são criados e evoluem, como as leis da física funcionam no espaço e ainda como a vida na Terra pode ter começado.

A imagem revela ainda galáxias já extintas, que morreram ou que acabaram por migrar e fundir-se com outras.

O telescópio Hubble, nomeado em homenagem ao astrónomo norte-americano Edwin Hubble, foi lançado em 1990 e foi usado até hoje para tirar fotografias do espaço. Estima-se que, em 2020, seja lançado o James Webb Space Telescope, um novo telescópio poderoso o suficiente para identificar as primeiras galáxias nascidas no universo.

in: revista "Visao"

quarta-feira, 1 de maio de 2019

José Fanha_Eu Sou Português Aqui

Eu Sou Português Aqui

Eu sou português
aqui
em terra e fome talhado
feito de barro e carvão
rasgado pelo vento norte
amante certo da morte
no silêncio da agressão.

Eu sou português
aqui
mas nascido deste lado
do lado de cá da vida
do lado do sofrimento
da miséria repetida
do pé descalço
do vento.

Nasci
deste lado da cidade
nesta margem
no meio da tempestade
durante o reino do medo.
Sempre a apostar na viagem
quando os frutos amargavam
e o luar sabia a azedo.

Eu sou português
aqui
no teatro mentiroso
mas afinal verdadeiro
na finta fácil
no gozo
no sorriso doloroso
no gingar dum marinheiro.

Nasci
deste lado da ternura
do coração esfarrapado
eu sou filho da aventura
da anedota
do acaso
campeão do improviso,
trago as mão sujas do sangue
que empapa a terra que piso.

Eu sou português
aqui
na brilhantina em que embrulho,
do alto da minha esquina
a conversa e a borrasca
eu sou filho do sarilho
do gesto desmesurado
nos cordéis do desenrasca.

Nasci
aqui
no mês de Abril
quando esqueci toda a saudade
e comecei a inventar
em cada gesto
a liberdade.

Nasci
aqui
ao pé do mar
duma garganta magoada no cantar.
Eu sou a festa
inacabada
quase ausente
eu sou a briga
a luta antiga
renovada
ainda urgente.

Eu sou português
aqui
o português sem mestre
mas com jeito.
Eu sou português
aqui
e trago o mês de Abril
a voar
dentro do peito.

Eu sou português aqui

José Fanha

Andrea Motis


Na belíssima voz de Andrea Motis, catalã, a solidão e' muito mais que um estado de alma.
E' expressão.
Boa gravacão da Blue Note (como sempre).



"Dança da Solidão"

performed by Andrea Motis Trio

Blue Note Milano 28 - 02 - 2019 Andrea Motis - vocals, trumpet Antonio Miguel - bass Josep Traver - guitar




MEDITAÇAO ( A.C.JOBIM )

ANDREA MOTIS Y JOAN CHAMORRO LIVE AT JAMBOREE -- Barcelona Andrea Motis & Joan Chamorro Quintet Featuring Scott Hamilton Andrea Motis, voz ,trompeta & saxo Joan Chamorro, contrabass Scott Hamilton, tenor sax Ignasi Terraza, piano & Hammond Josep Traver, guitarra Esteve Pi, drums GRABADO en directo al Jamboree, Barcelona, los dias 13 i 14 d'abril de 2013



quinta-feira, 25 de abril de 2019

Zeca







© Arquivo Impresa Publishing José Afonso

Quando em 1968 José Afonso entrou nos estúdios da RDP, no Monte da Virgem, Gaia, para gravar aquele que seria o seu segundo LP e primeiro pela Orfeu, Cantares do Andarilho, estaria muito possivelmente longe de imaginar que aquele punhado de canções iria pôr em marcha duas revoluções: uma de ordem musical, rompendo com tudo o que havia para trás na música portuguesa, outra de ordem política, visto a sua obra ter servido de bandeira de contestação ao antigo regime.
Na realidade ele tinha preocupações mais prementes e pragmáticas: conseguir simplesmente gravar. «Ele era muito nervoso», conta hoje Arnaldo Trindade, fundador da Orfeu, «e quando ia gravar o disco notou que se tinha esquecido dos comprimidos para os nervos. Começou a andar dum lado para o outro a dizer 'Não vou gravar, não vou gravar'. Foi aí que o Adriano [Correia de Oliveira, dos maiores baladeiros portugueses e amigo pessoal de Afonso] lhe disse para tirar os sapatos e desatou a dar-lhe pancadas nos pés para lhe tirar a tensão, uma coisa que ele tinha aprendido no karaté, salvo erro. E funcionou: o Zeca gravou e cantou que foi uma maravilha».
O episódio é simultaneamente caricato e comovente mas traz ao de cima uma dimensão humana mais palpável que a da imagem icónica que o tempo impôs a José Afonso. Nos vinte e cinco anos que decorreram desde a sua morte, a 23 de fevereiro de 1987, José Afonso tornou-se lentamente na figura icónica da luta pela liberdade. É inteiramente merecido que o seja. O problema é que, como assinalam Arnaldo Trindade, Vitorino, Carlos Guerreiro, Júlio Pereira e o sobrinho João Afonso, a iconografia se sobrepôs a tudo o resto, ensombrando o fundamental: a complexidade (e espantosa análise social) que as suas palavras retratavam; o lado humano, de dúvida e angústia; e, pior ainda, a música. Porque José Afonso era, antes de mais, um músico possuído pelo génio, daqueles que «não podiam ser inventados», como diz Trindade.
Talvez agora, no momento em que a Orfeu reedita a obra que José Afonso lá gravou [reportamo-nos a 2012, altura em que este artigo foi publicado na revista BLITZ] e que constitui o grosso da sua produção, já seja possível voltar a falar de José Afonso enquanto homem e músico, um homem que a geração nascida depois da década de 70 desconhece, um ser com feridas fundas de infância, à conta de uma trágica história de separação dos pais, hipocondríaco, que sofria de insónias e precisava, como conta Carlos Guerreiro, dos Gaiteiros de Lisboa, da esposa Zélia para o transportar por Lisboa, um ser constantemente em conflito consigo mesmo, a pôr em causa a forma mais justa de atuar; esse homem também jaz, hoje, na sombra das homenagens e dos cravos.
Isto não implica desmerecer por completo a iconografia. Arnaldo Trindade lembra que Afonso «sabia que era um ídolo desde que "Os Vampiros" saiu». "Os Vampiros", até hoje uma das canções emblemáticas de José Afonso, foi editado originalmente em single em 1963 e constitui, juntamente com "Menino do Bairro Negro", a primeira incursão pela canção política. Até então, José Afonso dedicara-se exclusivamente ao fado coimbrão, de que era um exímio praticante, tendo gravado alguns singles do género.

José Afonso na adolescência
© Blitz José Afonso na adolescência

Eles comem tudo

É nessas canções que José Afonso promove uma rutura com a música da época e inicia o seu caminho: larga a guitarra portuguesa, abandona o cantar fadista (ainda que tenham restado marcas) e começa, numa primeira fase, a recuperar o legado do cancioneiro português (mormente a música da Beira Baixa), como é verificável ouvindo os três primeiros LPs que gravou, Baladas e Canções (1964), Cantares do Andarilho e também um pouco em Contos Velhos, Rumos Novos (1969), sendo este último já ele próprio um disco de rutura face aos dois anteriores, antecipando o que se seguiria na década de 1970. Também começa aí a usar as suas próprias palavras, em vez dos poemas populares, como era de tradição com o fado coimbrão.
Quem ouvir hoje as primeiras canções isoladas que gravou, bem como esse par de LPs iniciais, assentes apenas em voz e guitarra clássica, pode ter dificuldade em perceber em que sentido é que são discos de rutura ao ponto de Rui Pato, o guitarrista que acompanhou Afonso até 1969, afirmar hoje que «o primeiro LP [Baladas e Canções] acaba por ser inócuo». Ainda assim, Pato assinala que Baladas e Canções «foi importante na medida em que rompeu com a tradição de Coimbra e trouxe à música portuguesa um modo diferente, sob o ponto de vista musical e harmónico».
Pato deixa bem claras as diferenças entre o que havia antes de José Afonso e o que José Afonso fez: «Quem tiver memória, lembra-se que a canção portuguesa ia do fado tradicional ao nacional-cançonetismo da Maria José Valério e do Tony de Matos. Era isto que se ouvia na Emissora Nacional [a única rádio da altura] e que as pessoas ouviam e conheciam; não havia muito mais na música portuguesa. Toda a estrutura musical das Baladas não tem nada a ver com o ambiente das cançonetas e é completamente diferente da forma do fado».
Pato, que hoje é médico em Coimbra, não tem a mínima dúvida que num país profundamente conservador, que vivia sob um regime ditatorial, as canções dos primeiros discos constituem «um corte radical, ao ponto de em Coimbra as Baladas não serem bem vistas. Em Lisboa ainda nem sequer tinha surgido gente que introduzisse novos poemas nas canções». Pato conclui: «O Zeca, quando aparece, é uma verdadeira pedrada no charco».
Há uma razão para Pato chamar «inócuo» a Baladas e Canções: apesar de ser o primeiro LP e de ter sido editado em 1964, um ano depois do single "Os Vampiros", não é propriamente um disco de corpo inteiro, antes a reunião das primeiras experiências que Afonso fizera fora do fado, e que editara em EPs e singles. "Os Vampiros", por exemplo, foi gravado depois, mesmo tendo saído antes. E constitui, sem dúvida, um avanço musical e lírico face ao que se encontra no LP de 1964. «Os problemas de repressão», conta o guitarrista, «começaram por causa de "Menino do Bairro Negro" [outra canção editada em single antes do primeiro LP]. Depois, "Os Vampiros" tornou-se o hino da Rádio Argel [onde se encontravam vários dissidentes políticos perseguidos pelo regime]». Há quem afirme que a Pide proibiu "Os Vampiros", mas isto não é claro: Arnaldo Trindade, que não editou essa canção, e reportando-se apenas ao que foi lançado sob o selo que comandava, afirma que «se dizia que os discos eram proibidos, mas é mentira: eram censurados nas rádios mas nunca estiveram fora do mercado». Essa censura criou «uma espécie de aura à volta de Zeca», diz Arnaldo, «ao ponto de Cantares do Andarilho ter vendido muito bem».
Não há dúvida que "Os Vampiros", com o seu ataque violento ao sistema económico, tornou Afonso em alguém a ter em conta. Segundo Pato, «os núcleos de esquerda começaram a chamar o Zeca para cantar em reuniões de trabalhadores e de estudantes: a música do Zeca estava a servir de fermento». É difícil quantificar quantas pessoas terão ouvido a canção na altura, mas percebe-se quão longe ia o alcance daquela canção ao ouvir Vitorino, que mais tarde viria a gravar com José Afonso e atuar com ele ao vivo, contar a história de como se conheceram: «Isto passou-se em 1967. Eu estava em Tavira, na ropa, e fui ver um concerto intitulado "Dr José Afonso canta Baladas de Coimbra" na Casa de Pescadores de Olhão. Foi a primeira vez que o vi, não podia perder a oportunidade». Se um tropa nascido no Redondo sabia da existência do Dr. José Afonso, quantos mais saberiam? A continuação da história é também altamente reveladora do modus operandi de José Afonso: «ele estava com dificuldade em afinar a guitarra e eu ofereci-me para a afinar. Ficámos amigos».
A amizade levou Vitorino a passar férias com a família Afonso na Fuzeta, de onde era natural Zélia, a segunda mulher de José Afonso. Foi aí que começaram «a cantar juntos, em simples brincadeira», o que redundou em parceria musical. Isto aconteceu dezenas de vezes na carreira: acabar a convidar músicos para tocar ou cantar em discos seus após uma (ou muitas) noite(s) de cantorias. A amizade, dizem todos, era-lhe fundamental.
Foi também assim que Rui Pato acabou a tocar nos discos de José Afonso. «Eu conheci-o através do meu pai», recorda hoje. «Ele um dia foi ter com os amigos à Brasileira [café coimbrão frequentado por estudantes e licenciados], muito entusiasmado com umas novidades musicais. Tinha feito umas canções, mas não era fado, e para mostrar aquela nova modalidade precisava de uma viola. E o meu pai lembrou-se que eu tinha uma viola, pelo que foram todos para minha casa e foi então que o conheci. Eu estava sentado nas escadas, ele apresentou as suas primeiras canções e ia tocando muito mal - sempre foi mau guitarrista. Tocava uma nota e dizia "e depois isto vai para aqui e depois vai para ali". E eu pedi para apresentar alguns acompanhamentos em contraponto à maneira como ele estava a tocar, que era muito básica. Ele gostou e começou a dizer ao meu pai: "o miúdo é que me vai acompanhar". E foi assim que nasceu a nossa relação».
O simples facto de ter escolhido um garoto de 16 anos como seu acompanhante em disco diz bem da abertura de espírito de José Afonso. Na prática, foi assim que nasceram "Menino do Bairro Negro" e "Os Vampiros". «Trabalhar com ele era fácil, dava-me completa liberdade», recorda Pato. «Ele apresentava-me o esboço da canção e depois eu organizava-a do princípio ao fim». Será este, aliás, o esquema de trabalho de José Afonso com os seus futuros parceiros musicais de discos subsequentes. E já então havia uma particular obsessão: «a grande preocupação dele era a parte rítmica, aí era muito rigoroso».
Ter uma carreira musical, naquela altura, era complicado. Para mais quando o cartão-de-visita era uma canção como "Os Vampiros", com o seu refrão assombrado, que tanto desagradava ao regime: «eles comem tudo e não deixam nada». De 1962, quando Pato e José Afonso iniciam a colaboração musical, até 1964, quando o último emigra para Moçambique, a «carreira» vive ao sabor da colocação de José Afonso como professor. «Ele dava aulas pelo país fora e eu ia ter com ele para ensaiar», recorda Pato. Desde que se licenciou e até 1964, lecionou em Mangualde, Aljustrel, Lagos, Faro e Alcobaça; daí o «andarilho».
«Havia muita dificuldade em fazer concertos», lembra Pato. «Tinha de se enganar os governos-civis, dizendo que íamos tocar fados de Coimbra: à tarde tínhamos de lhes tocar dois ou fados de demonstração, e depois tocávamos outra coisa à noite. Começou a haver medo de chamar o Zeca para concertos, porque podia haver pancadaria com a polícia, em particular em zonas como a Baixa da Banheira».

© Blitz A assinar contrato com a Orfeu, de Arnaldo Trindade (à esquerda)

Uma editora chamada Orfeu

José Afonso torna-se um homem marcado, os problemas financeiros acumulam-se e depois de lançar Baladas e Canções vai para Moçambique. Tinha vivido em África, em Angola, dos três aos oito anos, e ficara sempre marcado pelo continente. No período em que permanece em Moçambique, de 1964 a 1967, corresponde-se com Rui Pato, e conta que anda a fazer «coisas com música africana, com a qual estava muito entusiasmado. Fazia teatro e música em agremiações de negros». Rapidamente se envolve com movimentos políticos locais, o que lhe vale, novamente, o opróbrio, regressando a Portugal no final de 1967, mais propriamente a Setúbal.
Sem poder ensinar, vira-se definitivamente para a música. É aí que vem em seu auxílio Adriano Correia de Oliveira. É ele que revela Afonso a Arnaldo Trindade, como este recorda: «O Adriano trouxe-me uma maqueta do Zeca com acompanhamento à guitarra acústica. Pensei: 'isto é tão bonito'. Era o Cantares do Andarilho, que para mim ainda é das melhores coisas que ele tem; ele chamava àquilo a sua fase contemplativa. Pensei de imediato que, apesar de ninguém o querer editar por motivos políticos, tinha de arriscar».
Trindade ofereceu a Afonso «o mesmo contrato que tinha oferecido a Adriano: um salário mensal em troco de um disco por ano, cujos direitos de autor eram pagos à parte». Mais tarde, Afonso levaria para a Orfeu Sérgio Godinho, Fausto, Vitorino ou Francisco Fanhais, tudo gente que gravou nos seus discos antes de prosseguir uma carreira a solo.
A história de Trindade é exemplar do que era a época: quando começou a Orfeu tinha apenas «19 ou 20 anos», diz. O dinheiro vinha do pai, que era «o representante em Portugal da Philco, uma subsidiária da Philips com linha de televisão e frigoríficos». Trindade era um estudante de engenharia interessado pelas artes na década de 1950; chegou a conhecer Teixeira de Pascoaes. Igualmente apaixonado por música, queria fazer uma editora e começou por juntar os seus dois amores lançando discos de poetas a ler a sua poesia: Torga, Régio, Sophia de Mello Breyner, Eugénio de Andrade, etc. «Eles não percebiam porque é que eu os queria gravar. Tive de lhes explicar que em França o Sartre e o Cocteau já faziam isto há muito».
Era, a todos os títulos, um homem sofisticado e, rapidamente, começou a gravar vários tipos de música: «grupos amadores de jazz, de ingleses e alemães que viviam no Porto, gente como Pedro Osório e os Pop Five, um trio chamado Los Paraguaios, o Conjunto António Mafra, a fadista Maria da Fé». A seguir começou a gravar música folclórica: «os grupos folclóricos eram produções muito baratas e por isso davam dinheiro».
Depois passou para os fados de Coimbra, com Adriano, e foi assim que José Afonso lhe chegou. E também este lhe deu dinheiro: «o Cantares do Andarilho vendeu bem». Apesar disto, Afonso sempre se queixou de falta de dinheiro e, por vezes, os amigos juntavam-se para o ajudar (como fizeram ao comprar-lhe um carro, num peditório organizado por Carlos do Carmo). As versões diferem: Arnaldo Trindade diz que José Afonso tinha «o melhor contrato» da Orfeu, «equiparável ao de qualquer grande artista português».
Carlos Guerreiro diz que se lembra de José Afonso sempre sem dinheiro. E que, depois do 25 de Abril, quando começou a tocar muito lá fora, no final dos concertos «dizia sempre que tinha discos para vender porque a editora não lhe vendia os discos». Uma canção de Cantares do Andarilho, em particular, tornou-se rapidamente um marco: "Vejam Bem". Pelo que Trindade aumentou o orçamento para o disco seguinte: «Com o José Afonso posso garantir que não só lhe melhorámos o contrato várias vezes como aumentámos sempre o orçamento para as gravações». Isto poderá explicar o aumento do número de músicos usados em Contos Velhos, Rumos Novos, em que se começam a usar mais acompanhamentos além da guitarra.
Rui Pato conta que foi Afonso quem teve a ideia de experimentar «arranjos com marimbas, harmónicas, trompa», sendo que as marimbas denunciam, desde logo, influência africana. Também usa cavaquinho, insistindo na sua recuperação na música popular portuguesa, e recorre a poemas de gente recente, como Ary dos Santos e Luís de Andrade; as palavras deste resultaram na magnífica "Era de Noite e Levaram", uma denúncia das prisões aleatórias da polícia política.
O próprio José Afonso foi vítima dessas prisões e foi na última delas, em Caxias, que compôs "Era Um Redondo Vocábulo", incluído no álbum Venham Mais Cinco, de 1973. Uma boa parte desse disco foi escrito na prisão não se percebe como, mas Afonso saiu cá para fora com as melodias na cabeça. O clima da época era pesado, com «constantes concertos clandestinos que acabavam em prisões», segundo conta Vitorino. «Andávamos sempre com dinheiro no bolso para fugir do país a qualquer altura», acrescenta.

© Blitz José Afonso aos microfones do Rádio Clube Português

De Woody Guthrie a Debussy

Em finais da década de 60, início da de 70, Trindade já tinha percebido que tinha em mãos um sujeito superior. Admirava-lhe a cultura musical, que «ia do Woody Guthrie ao Debussy, passando por canto gregoriano, que adorava». Curiosamente, Rui Pato diz que nunca trocou discos com Afonso. «Não estou a dizer que ele não tivesse um gira-discos. Mas nunca vi nenhum nas casas que lhe conheci», afirma. Segundo Trindade, uma boa parte do folclore «foi buscá-lo ao Giacometti: o Zeca quis conhecê-lo e aprendeu muito com ele».
Por outro lado, assevera, Afonso era efetivamente «um andarilho, andava por toda a parte, viveu em imensos sítios, ia às terrinhas, falava com as velhinhas, ouvia-as cantar e tinha uma memória musical impressionante». Júlio Pereira, multiinstrumentista e colaborador frequente, corrobora esta ideia afiançando que viu muitas vezes «o Zeca apanhar as melodias nas terras ouvindo as pessoas cantar; memorizava tudo e aquilo voltava, de forma diferente, já dele».
Segundo o sobrinho João Afonso, também músico, havia outra influência marcante no conhecimento da música popular, mas desta feita associada a algo potencialmente mais trágico. O tio Filomeno, com quem José viveu a partir dos oito anos, em Belmonte, onde Filomeno era presidente da Câmara. «Era salazarista, mas se bem me recordo foi ele que lhe ensinou a cantar, que lhe passou as canções populares e por isso ele tinha simpatia por esse tio». A separação dos pais marcou muito José Afonso: o pai era procurador da República e foi colocado em Angola, era José Afonso ainda bebé. Depois Afonso voltou para Belmonte e em 1939 «os pais e a irmã foram para Timor, por causa do emprego do pai. Entretanto começou a II Guerra Mundial e eles foram capturados pelos japoneses. Pensou-se que tinham morrido. O meu tio pensou que tinha perdido pais e irmã durante quatro anos. Mesmo depois de saber que estavam vivos só voltou a vê-los passados mais três anos».
No total, foram sete anos de separação que poderão muito bem ter criado na criança uma espécie de sintonia para com os mais desfavorecidos. Exemplos concretos podem ser encontrados em canções como "Teresa Torga", de Com as Minhas Tamanquinhas, de 1976. Carlos Guerreiro, o líder dos Gaiteiros de Lisboa, que nunca chegou a gravar em discos de José Afonso (ou gravou, mas as canções não entraram e permanecem por editar), mas começou a tocar com ele em 1976, numa altura em que Afonso já fazia digressões constantes lá fora, conta a história dessa canção: «Era uma mulher que já tinha sido conhecida e um dia despiu-se no meio da rua, já não recordo porquê. Houve um fotógrafo que em vez de a ajudar resolveu fotografá-la e ele ficou horas a pensar nisso, achava isso incorreto. Acabava por exorcizar isso em canção».
Vitorino concorda que «essa separação [face aos pais] o desequilibrou muito. Marcou-o para a vida. Passou o resto da vida a rodear-se de pessoas. Tinha pânico de estar sozinho». Vitorino está convencido de que essa estupenda canção que é "Cantigas do Maio", do álbum homónimo de 1971, é uma premonição de morte: «Morrer antes da mãe, uma ideia que sempre o obcecou». A palavra exata para recordar a letra encontra-se na própria letra: amargura.

Minha mãe quando eu morrer
Ai chore por quem muito amargou
Para então dizer ao mundo
Ai Deus mo deu Ai Deus mo levou

Também não será excessivo ver nessa separação a fonte da ansiedade e hipocondria que o acometeram até morrer. Pese embora a maior parte das pessoas o visse apenas como «inquieto», no dizer de João Afonso. «Nessa época não se usavam termos como ansiedade», diz.
A sua educação, no entanto, foi, pelas descrições a que temos acesso, privilegiada em termos de leituras. Júlio Pereira, que o encontrará mais à frente, confirma esta erudição: «Íamos em digressão com ele, entrávamos em qualquer cidade da Europa e ele começava a contar a história da cidade, dos edifícios. Eram autênticas aulas». Guerreiro corrobora esta ideia: «As digressões naquele tempo eram diferentes, tínhamos mais tempo. Pelo que íamos ver museus, ver igrejas, e ele contava a história daquilo tudo».
Arnaldo Trindade descreve-o como «um pouco snob intelectualmente. Não era uma pessoa simples, embora soubesse ser simples». Carlos Guerreiro diz que Afonso, com os seus problemas de insónias, aproveitava as noites para ler. Trindade também se recorda do leitor compulsivo: «Era um tipo muito, muito lido, que tinha os García Marquez antes de serem traduzidos» e que além da erudição era um homem atento: em finais da década de 1960, José Afonso «tinha consciência do que estava a acontecer no mundo, do Maio de 68 francês ao Vietname, passando pelas lutas sociais nos EUA e pelas revoluções comunistas por esse mundo fora. Estava a par de tudo». Pelo que os discos foram-se tornando «mais politizados» mas também «mais literários». «Naquela altura, devido ao regime, ele tinha de encontrar metáforas para o que queria dizer. Muita da beleza daquelas canções reside nessa subjetividade».
De qualquer modo, vendiam. Ao ponto de, em 1970, Trindade o ter mandado para os estúdios Pye, em Londres, para gravar o que viria a ser Traz Outro Amigo Também. Rui Pato não o pôde acompanhar devido a problemas políticos e é difícil perceber exatamente como o disco foi feito. Os dois violas do disco estão incontactáveis. Gilberto Gil aparece nos créditos como assistente, mas é dúbia a sua participação, a avaliar pelo relato de Arnaldo Trindade: «O Zeca tinha acabado de gravar o disco e fomos beber para comemorar. Depois, estávamos a passear em Hyde Park quando, segundo as notas do meu diário, apareceram o Gilberto Gil e o Caetano Veloso», que na altura estavam no exílio em Londres.
Trindade diz que ambos tinham ouvido os primeiros discos de Afonso e «tinham uma imensa admiração» por ele. Os outros músicos com quem falámos confirmam o encontro e a admiração, embora os pormenores sejam mais vagos, visto não terem estado presentes no encontro.

© Blitz José Afonso em meados dos anos 70

Modo de fazer

De qualquer modo este é, segundo João Afonso, «o disco em que começa a aparecer África» na música do seu tio, África que foi mais uma das influências que o marcaram. Pode notar-se essa influência logo na canção "Carta a Miguel Djé-Djé": este era «um empregado de Zeca em Moçambique, com quem passava horas a tocar. O Zeca, por causa do trabalho, mudou de residência para outra zona do país e teve de despedi-lo. E um dia, sem aviso, estava o Zeca em Lourenço Marques e o Djé-Djé apareceu-lhe à porta de casa com uma vassoura e a guitarra». Segundo Guerreiro, era difícil arrancar-lhe histórias, mas esta era uma que o comovia imenso.
Não é fácil para quem não é etnomusicólogo dizer exatamente o que é africano na obra, mas João Afonso avança logo com uma ideia: «o uso de certas palavras que não são palavras, são apenas vocábulos, que ele usa de forma lúdica, a brincar com as suas potencialidades», como se pode notar numa canção como "Ailé Ailé", de Coro dos Tribunais, de 1975. E, acrescenta, com graça, «nos taninaninôs [referência à canção "O País Vai de Carrinho"] dele». Esse disco, note-se, conta ainda com uma canção como "Lá no Xepangara" que, segundo Vitorino, «é um mercado em Lourenço Marques». A obsessão era tanta com conseguir o som certo que, segundo Vitorino (que participou nesse disco tocando órgão Moog), «o Zeca mandou vir uma cantora soul inglesa para cantar esses coros».
Carlos Guerreiro tem mais pormenores que aclaram como é que a cabeça de José Afonso funcionava em termos africanos. Segundo Guerreiro, «era um tipo profundamente despistado. Os ensaios podiam durar horas mas ele estava sempre a sair para telefonar ou comer uma bucha». No entanto, havia uma matéria com a qual era implacável: «com o ritmo era extremamente rigoroso. Se eu não conseguia o balanço que ele queria, e é mais essa a palavra, balanço, chateava-me até eu conseguir».
Diz Guerreiro que José Afonso tinha uma teoria a que ninguém ligava, mas que fazia um certo sentido: «ele achava que havia uma ligação entre África e a música da Beira. Musicalmente não faz muito sentido, mas ao nível de usar as palavras como brincadeira rítmica talvez haja parecenças, embora não heranças diretas».
Trindade achou o disco de 1970 uma obra-prima, a começar pelo tema-título e passando por coisas como "Canto Moço". Entusiasmado, o editor pediu novo disco e não olhou a meios: mandou Afonso para o estúdio Le Château d' Hérouville, em Paris. «Era o melhor estúdio da Europa. Na véspera tinham estado lá os Rolling Stones [na realidade foram os Grateful Dead e depois seriam os Pink Floyd]». A «brincadeira» custou-lhe uns astronómicos «mil contos». «Houve retorno», diz, «porque dali saiu o "Grândola, Vila Morena"».
Todos são unânimes em reconhecer que o aumento do orçamento para os discos foi fundamental: deu mais tempo para gravar, mais músicos e, neste caso, um produtor, José Mário Branco. João Afonso acrescenta que «a possibilidade de trazer músicos como o Yório [a partir de 1973], que tocava à moda brasileira, ou do Fausto, que era muito africano, entre estrangeiros espanhóis ou franceses, trouxe outras cores à música de José Afonso».
Não foi possível falar com José Mário Branco (ausente do país) nem com Fausto, que mais tarde veio a produzir José Afonso, dois elementos fulcrais na obra Afonsina. Mas a Orfeu teve a delicadeza de ceder algumas das declarações que José Mário Branco prestou ao jornalista Gonçalo Frota, e que estarão incluídas nos libretos das reedições. «Que eu me lembre, não me pôs grandes condicionantes», diz José Mário, que funcionou como diretor musical, o que faz sentido, se tivermos em conta que todos os músicos que trabalharam com ele dizem que era muito aberto às suas contribuições. No entanto, havia uma exceção: ele tinha «alguma prevenção contra a eletrificação do som dos discos». Preferia ter «sons nobres: as cordas, os sopros, as percussões, sim, mas sem tomadas por perto».
Sabemos um pouco mais acerca de como decorria a parceria entre José Afonso e José Mário nesse disco de 1971 e no de 1973, Venham Mais Cinco, através das histórias que o primeiro contou. Segundo Guerreiro, «ele tinha uma espécie de mnemónica, de grafia musical que tinha inventado, e mostrava ao José Mário que tinha de deslindar aquilo. Era do género: a primeira nota, depois sobe, sobe, a seguir desce». Guerreiro diz que Afonso também tinha por norma «ideias acerca dos instrumentos a usar», o que bate certo com as declarações de José Mário Branco. Na versão de Vitorino «os arranjos eram cantados ao produtor; pelo menos com o José Mário foi assim». Vitorino diz que José Mário Branco «apontava os arranjos e organizava-os meticulosamente», o que faz sentido para quem já viu as fichas que José Mário Branco faz para cada gravação de disco (por exemplo, para um disco de Camané é capaz de ter tabelas chamadas «Impacto Emocional», onde se incluem pormenores como a respiração ouvir-se ou não).
Mas há mais um pormenor, e é fundamental: José Afonso, desde talvez 1968 ou 1969, tinha um gravador que, segundo Júlio Pereira, «levava para toda a parte», o que Guerreiro, Vitorino, João Afonso e Arnaldo Trindade confirmam. O gravador servia-lhe para tudo: desde gravar pequenas melodias, até canções completas, harmonias. Gravava uma coisa, depois outra, uma terceira e a seguir ouvia de novo e arranjava uma harmonia para a primeira melodia, um arranjo para a segunda, etc. De certo modo era como se as canções estivessem em esquisso nessas cassetes.
Carlos Guerreiro lembra-se de estar numa casa de banho, durante uma digressão pelo norte de Espanha, em 1976 ou 77, quando na porta ao lado ouve uma voz a trautear «tururu turu turu». Era José Afonso enfiado na casa de banho a gravar uma melodia que lhe tinha aparecido. Doutra vez, em Setúbal, interrompeu um jantar para ir à casa de banho com o gravador na mão. «Voltou todo ufano, com a sua melodiazinha».
Júlio Pereira também tem histórias dessas. «Estávamos em Vigo, julgo que em 1978, íamos a passar debaixo de uma ponte e o Zeca de súbito mandou-me subir ao hotel para ir buscar o gravador, de que se tinha esquecido. Eu fui e quando voltei ele fez uma canção ali mesmo: era o "Achegate a Mim, Maruxa" [de Fura-Fura, 1979]». Uma nota: a letra dessa canção é popular, mas a melodia é toda de José Afonso. João Afonso realça o trabalho «absolutamente vanguardista» que o tio fez com a tradição: «Pegava numa melodia popular e usava uma parte, e depois inventava o resto e punha como letra um poema moderno, ou usava uma lengalenga popular e mudava a música».
Sabemos portanto que em Cantigas do Maio e Venham Mais Cinco, entre as suas pautas improvisadas que mostrava a José Mário, as indicações que dava sobre que instrumentos usar e as melodias principais que levava, José Afonso já ia para estúdio com linhas de orientação bastante razoáveis que cabia aos músicos preencher. Sabemos que em Eu Vou Ser Como a Toupeira (de onde saíram canções como "A Morte Saiu à Rua", "O Avô Cavernoso" ou "No Comboio Descendente") já tinha o gravador para mostrar as melodias e as harmonias que imaginara para cada melodia. Mas como é que as coisas realmente aconteciam, por exemplo, nesse magnífico disco que é Coro dos Tribunais, de 1974, produzido por Fausto? Vitorino, que está nesse disco, bem como em Com as Minhas Tamanquinhas, dá uma ideia: «Para já, tinha-se o tempo que fosse necessário. Se fosse preciso um mês ficava-se um mês a gravar. Bons tempos. E ficava-se em bons hotéis». Vitorino afirma que «os arranjos desse disco são em parte do Fausto», o que faz sentido a cada escuta. Mas também «havia arranjos que ele ditava, cantando».
Contudo, e apesar das muitas melodias e harmonias que levava, bem como do seu apurado sentido de ritmo, José Afonso precisava efetivamente de músicos e tempo para experimentar. Diz Vitorino: «Quando entrávamos em estúdio as músicas estavam mal acabadas. Como ele não sabia música tínhamos de interpretar o que ele queria». Afonso podia dizer «e se puséssemos umas palmas nesta música?», mas também podia ser um músico a fazer uma proposta de arranjo ou o produtor a fazer uma definição, a que depois se retiravam e acrescentavam coisas.
Mas há uma história que Júlio Pereira, que começa a gravar com José Afonso em "Índios da Meia-Praia", do disco Com as Minhas Tamanquinhas (em que aparece um Joaquim Barreiros a tocar acordeão, que mais tarde se tornaria figura popular ao diminuir o nome para Quim), conta que sendo praticamente um detalhe é elucidativa do génio. «Já não me lembro de que canção estávamos a gravar nem para que disco, mas o Zeca sentia que faltava alguma coisa. Ouvia e ouvia a canção até que se virou para mim e disse: "havia uma coisa que vi umas mulheres fazerem em África: tinham uns chocalhos presos nas pernas e nos braços e dançavam e o som era muito cheio". Experimentámos e lembro-me de resultar. Foi já no fim da carreira».
Além de ser um melodista de exceção, que sabia intuitivamente que ritmo queria e como dividir cada sílaba, era isto que trazia para as suas canções e que as tornavam únicas; algo difícil, de facto, de explicar numa pauta e talvez uma das razões pelas quais José Afonso permanece um mistério, e que levou a que «as pessoas se tenham esquecido dele enquanto músico», segundo diz Júlio Pereira, secundado pelos restantes.

© Blitz José Afonso (à direita) com Vitorino, Adriano Correia de Oliveira e Fausto (esq-dta)

O «Zeca político»

Há, talvez, outra razão: a ascensão do «Zeca político». A partir de 1974 ele foi ajustando contas, deixando sair um lado mais amargo, dentro e fora das canções, como é notório em temas como "Tenho um Primo Convexo" (que era sobre um primo de que não gostava) ou "Como se Faz um Canalha" (sobre Aventino Teixeira, que Afonso considerava que tinha traído a causa da esquerda); e tornou-se mais radical politicamente, o que é notório em temas como "Os Fantoches de Kissinger" e "Alípio de Freitas" de Com as Minhas Tamanquinhas. A segunda é um bom exemplo do político e posteriormente mitificado: graças à canção salvou-se a vida a Alípio de Freitas, preso no Brasil durante a ditadura militar; o embaixador português procurou-o e conseguiu a sua libertação. Apesar dessa radicalização, José Afonso nunca integrou nenhum partido político.
Guerreiro lembra o que o músico dizia em entrevistas: «o meu Comité Central sou eu», numa alusão a um certo distanciamento do Partido Comunista. Arnaldo Trindade refere que «ele não se sentia muito próximo do PC», porém «tornou-se próximo da LUAR», um grupo político que intentou a luta armada.
De acordo com Vitorino, «quando começou a haver violência, ele afastou-se, era um pacifista». Ainda assim, apoiou a candidatura de Otelo a Presidente da República (e Otelo não era um menino do coro). A radicalização do discurso acabou por ter efeitos paradoxais: por um lado, tornou-o um ícone; por outro, as vendas pós-1974 caíram. «Depois do PREC», conta Trindade, «as pessoas não queriam mais mata-e esfola. Os tempos tinham mudado. Muitos dos que lhe compravam os discos não concordavam com ele politicamente, porque ele foi-se radicalizando. Também se perdeu o lirismo metafórico dos primeiros discos».
Começa então a tocar lá fora, acompanhado por gente mais nova, como Guerreiro ou Júlio Pereira. Passaram por países como Espanha (que o adorava), França, Itália, Bélgica, Holanda, Alemanha e com muito mais sucesso do que o que tinha conseguido quando foi tocar ao Brasil, em 1971, na companhia de Paulo de Carvalho: «Era um festival de música mais pop e não foi bem recebido», conta Trindade. Mas foi-o na Europa. Em parte por causa do 25 de abril: «Os europeus queriam conhecer o que se fazia no país que tinha saído da ditadura e tinha estado tantos anos fechado», diz Vitorino.
Mas também porque os seus concertos eram entusiásticos. Guerreiro diz não ter «a mínima dúvida de que o Zeca foi, juntamente com a Amália e o Paredes o grande embaixador de Portugal lá fora durante anos». Júlio Pereira corrobora a ideia e acrescenta que «é um crime que nunca se tenha falado cá dentro dos êxitos que o Zeca alcançou lá fora. Os espanhóis, então, amavam-no».
Talvez Trindade tivesse razão: o país tinha mudado e as pessoas queriam iogurteiras em vez de discurso, caixilhos de alumínio em vez de fúria. Depois de 1976 fez ainda três discos para a Orfeu: Enquanto Há Força (78), Fura-Fura (79) e Fados de Coimbra (81), um estranho regresso ao início, concebido quando já estava doente (embora não se saiba exatamente quando começou a doença, Guerreiro e Pereira, olhando para trás, têm ideia de que por volta de 1977, 1978, o músico começou a ter problemas físicos constantes, como falta de força nos braços).
Fura-Fura, tendo ainda grandes canções, é pouco homogéneo, porque os arranjos se dividem entre José Afonso, Júlio Pereira e os Trovante. Enquanto Há Força, dirigido por Fausto, que co-compõe aqui e ali, é de outra cepa. Afonso ainda se reergueu, após a saída da Orfeu e há quem defenda que Como Se Fora Seu Filho e Galinhas do Mato (em que cantarola as melodias e em que Júlio Pereira e José Mário Branco, entre outros, tocam, gravam e dirigem cantores e instrumentistas) estão entre os seus discos mais inventivos. Mas José Afonso era já um mito e aos mitos não se pede que progridam e arrisquem, mas sim que sejam consensuais, e para isso era preciso não ser ouvido. No fundo não o foi mais: como sublinham todos, foi usado como bandeira da liberdade, visto como património exclusivo da esquerda, o que não é correto: Pedro Ayres de Magalhães é fanático de José Afonso, Manuel Fúria, ex-líder d'Os Golpes, fez uma versão de "Tenho Barcos, Tenho Remos". Mas, à conta da mitologia, o interminável talento foi esquecido.
«Estamos a falar de um dos maiores génios da segunda metade do século XX», diz Júlio Pereira. «Não se criava um Zeca por mais que se tentasse», diz Trindade. Os elogios continuam. Hoje, mais apaziguados, menos motivados pela ideologia, ou talvez apenas mais distantes, podemos admirar apenas a música e as palavras e perceber que Zeca, afinal de contas, era um homem.
Originalmente publicado na BLITZ de junho de 2012.


terça-feira, 23 de abril de 2019

Carminho_O Menino e a Cidade


Ricardo Ribeiro

1.- Eu sei que sou demais
2.- No Teu Poema



letra 1.-Eu sei que sou demais

Eu sei que sou demais na tua
Vida
Eu sei que nem me vês tão
Apagada
Apenas uma sombra indefinida
O resto duma voz triste
Condenada
Eu sei que sou demais na tua
Vida
De tudo quanto fui, não sou
Mais nada

Ai quem me dera prender o
Teu futuro
E uni-lo ao meu, assim de tal
Maneira
Como a era verde se prende
Ao velho muro
E ali fica pela vida inteira

Eu sei que sou demais no teu
Caminho
Eu sei que nada tens para me
Dar
E sei que nesta luta estou
Vencida
Por outro amor que tens no
Meu lugar
Mas sei amor, que eu na
Minha vida
Ninguém, jamais ninguém
Pode apagar

.....
letra 2.- No teu poema

Existe um verso em branco e sem medida

Um corpo que respira, um céu aberto

Janela debruçada para a vida


No teu poema existe a dor calada lá no fundo

O passo da coragem em casa escura

E, aberta, uma varanda para o mundo.


Existe a noite

O riso e a voz refeita à luz do dia

A festa da Senhora da Agonia

E o cansaço

Do corpo que adormece em cama fria.


Existe um rio

A sina de quem nasce fraco ou forte

O risco, a raiva e a luta de quem cai

Ou que resiste

Que vence ou adormece antes da morte.


No teu poema

Existe o grito e o eco da metralha

A dor que sei de cor mas não recito

E os sonos inquietos de quem falha.


No teu poema

Existe um canto, chão alentejano

A rua e o pregão de uma varina

E um barco assoprado a todo o pano


Existe um rio

O canto em vozes juntas, vozes certas

Canção de uma só letra

E um só destino a embarcar

No cais da nova nau das descobertas


Existe um rio

A sina de quem nasce fraco ou forte

O risco, a raiva e a luta de quem cai

Ou que resiste

Que vence ou adormece antes da morte.

No teu poema

Existe a esperança acesa atrás do muro

Existe tudo o mais que ainda escapa

E um verso em branco à espera de futuro.

..................


Entrevista  in: jornal "Observador"






Ricardo Ribeiro. “Devo tudo à música e ao 
fado: o carro, a casa alugada, a comida que 
ponho na boca e a vida” /premium

21 Abril 2019411










Aos 37 anos, Ricardo Ribeiro lança um disco de voz, piano, percussão e pouca guitarra. Em entrevista conta histórias de vida, lembra a família, os "mestres", reconhece erros e agradece o que tem.
Sentado na esplanada de um café e restaurante lisboeta, na tarde da última quarta-feira, 17 de março, Ricardo Ribeiro demorou algum tempo a concentrar-se para uma entrevista com o Observador. Pediu logo gentilmente desculpa por isso, disse que estava com dificuldades em não pensar em como chegaria a casa, o que se explica rapidamente: vive em Cascais, tinha pouco gasóleo no carro e não sabia se conseguiria abastecer, devido a uma greve que só terminou na manhã seguinte. “E em casa tenho o meu cão… mas bom, isto compõe-se, vamos a isto”, logo acrescentou.
Compôs-se, claro: com um novo álbum pronto a ser editado — intitulado Respeitosa Mente, chegará às lojas e plataformas digitais de streaming na próxima sexta-feira, 26 de abril –, o cantor e fadista acedeu a uma conversa longa sobre um novo disco que “não é de fados”. Se não é de fados,é de quê, poderá o leitor perguntar-se? É de poesias (de António Ramos Rosa, Giacomo Leopardi, Miguel Martins e de Tiago Torres da Silva, entre outros) que Ricardo Ribeiro canta por cima de “música nova” que compôs e gravou com o percussionista Jarrod Cagwin e com o pianista e poeta João Paulo Esteves da Silva, cuja influência no disco é clara: é o autor dos poemas de três das 12 canções e de oito das 12 melodias, além de tocar piano com a elegância que lhe é habitual.
A conversa com o Observador, porém, não se circunscreveu apenas a este novo álbum, a esta “aventura” a três onde ao canto de Ricardo Ribeiro (em certos momentos afadistado, claro, porque “não posso dizer que não sou filho do fado, é o meu pai e a minha mãe e não deixará de ser”), que neste disco também toca guitarra e baixo no disco, alia-se o piano e as percussões do baterista norte-americano há muitos anos residente na Europa, que integra a banda de Rabih Abou-Khalil.

É assim a capa do novo álbum de Ricardo Ribeiro
O disco, sexto álbum de estúdio de Ricardo Ribeiro, foi um ponto de partida para a entrevista. É um belo ponto de partida, como se percebe pelo pathos solene da segunda faixa “Envoi”, pelas notas de piano logo no início do tema seguinte “Atraso”, pelos versos de Ary dos Santos cantados com brilhantismo por Ricardo Ribeiro na canção que estará mais próxima de soar a um fado, “Canto Franciscano”, pelo swing de “Vou Fumar um Cigarro” e seus memoráveis versos (“Vou fumar um cigarro a outra vida / a um país distante que é lá fora / vou à varanda ver-me de fugida / correr pelo passado que demora”) e pela “Deserta Liberdade” ansiada por António Ramos Rosa, que Ricardo Ribeiro e os seus dois parceiros transformaram em canção que lhe faz jus.
Durante 55 minutos de entrevista, porém, Ricardo Ribeiro falou de outras coisas que não este novo capítulo de uma carreira que começou cedo para quem tem 37 anos (editou o primeiro álbum em 1998 ). Falou do fado em que tem “história” e que é musicalmente o seu pai e a sua mãe, mas também de música — às duas coisas deve “tudo”, do “carro, casa alugada e comida que ponho na boca” até não ser “um indivíduo tão escuro e mais débil ainda”. Lembrou ainda dores passadas e como lhes deu a volta, falou do amor da sua mãe pelo seu pai, de leituras e de discos, recordou o momento em que com 25 anos descobriu que só tinha um rim e a perda de mais de 50 quilos que o transformou fisicamente. Respondeu, durante quase uma hora, como costuma fazer, com muitas citações e uma eloquência de pendor filosófico. No final, avisou e garantiu: “Se não levar a minha vida como falo, não valho nada. Não apregoo uma coisa e faço outra”.

“Não canto fados com um pianista, este não é um disco de fado”

Esta entrevista esteve para acontecer um dia antes, mas teve um percalço. Quer contá-lo?
Foi o gasóleo. Houve uma greve, que é bem legítima, mas fiquei sem gasóleo. E ainda estou sem gasóleo. Tive que adiar — peço as mais sinceras desculpas — porque ontem se saísse de Lisboa uma hora depois daquela a que saí não conseguia chegar a casa, porque vivo em Cascais. Com o trânsito para-arranca seria impossível. Hoje vim a 80 km/h para ver se conseguia chegar a tempo. Consegui chegar aqui, estacionei o carro e vamos lá ver se isto se compõe e se consigo pôr gasóleo hoje.
A primeira referência que vi a este disco surgiu numa entrevista que deu no verão passado, quando foi atuar a Évora. Na altura, disse que ia fazer “um disco fora dos fados, uma coisa um bocado louca, com o João Paulo Esteves da Silva”. Quando é que teve a ideia de fazer esta “coisa um bocado louca”?[Risos] Conhecia o João Paulo, já o seguia há uns anos como músico e como poeta. Quando o conheci pessoalmente e quando colaborou comigo no Hoje É Assim, Amanhã Não Sei [disco anterior de Ricardo Ribeiro, de 2016] — em que tocou em três temas e compôs dois –, sentimos uma necessidade e uma vontade de trabalhar juntos numa coisa que fosse mesmo nossa, com repertório maioritariamente original. Este disco tem duas cantigas [“Canto Franciscano” e “As Mondadeiras”] que não são originais, tudo o resto é música nova.
Resolvemos começar a trabalhar. Resolvi começar a mandar-lhe poesia, ele resolveu começar a enviar-me canções — com poemas dele ou não — e assim foi acontecendo. É “uma coisa um bocado louca” porque este disco vive de duas histórias que funcionam em paralelo: uma é baseada no que é vivido, no que é profundamente real, a outra na imaginação. Há poemas que têm a ver com histórias imaginadas por mim e outros que têm a ver com o mundo real, com aquilo que vivo na realidade ou pelo menos com aquilo que me dói [sorri].

Da esquerda para a direita: Jarrod Cagwin (percussionista), Ricardo Ribeiro (cantor e guitarrista) e João Paulo Esteves da Silva (pianista), o trio que gravou este álbum (@ Pedro Soares)
A minha dúvida era se este disco tinha começado de uma vontade de fazer algo com o João Paulo Esteves da Silva ou se o Ricardo já tinha ideias de sons e música e o foi chamar para ajudar a gravá-los.A vontade começou por ser trabalhar com o João. Há músicos com quem isto me acontece, uma coisa telepática, não sei explicar o que é — e também não quero explicação. Gosto muito de matemática e há um matemático que costumo frisar muito, que é o Henri Poincaré. Ele diz: o acaso nada mais é do que a medida da nossa ignorância. Os três músicos com quem senti essa coisa telepática foram o Rabih Abou-Khali, o Pedro Jóia e o João Paulo Esteves da Silva. Há qualquer coisa que nos une que não sei explicar o que é, mas também não quero uma explicação, quero viver. Com outros aconteceu-me algo parecido, mas não da mesma forma.
É curioso que nos últimos anos cantores ligados ao fado têm-se aliado muito a pianistas. Tivemos há uns anos o  Carlos do Carmo com o Bernardo Sassetti, por exemplo, mas mais recentemente o João Paulo Esteves da Silva tocou no último disco da Carminho, a Cristina Branco canta com o Luís Figueiredo (com quem a Gisela João já deu concertos), o Camané tem neste momento um duo com o Mário Laginha e o Pedro Moutinho gravou recentemente um disco produzido pelo Filipe Raposo. O que é que esta tendência revela?Não sei explicar isso muito bem… Há uma coisa que é de salientar: eu não canto fados com um pianista, a música que canto é nova. Neste disco tenho apenas a base de um fado. Como às vezes sou um bocadinho provocador e costumo dizer que o fado não faz o fadista mas o fadista pode fazer o fado — ou não –, quero ver quem é que se atreve a dizer que esse tema é fado ou não é fado. Calo-me, não minto mas omito, para ver até que ponto as pessoas chegam. Gosto deste desafio. Agora, o que faço com o João Paulo é uma coisa nova e única, canto músicas originais, não há fados aqui. Há uma base de um fado — e agora quero ver quem vai dizer se aquilo é novo fado, se é fado ou se não é fado. É isso que quero que me expliquem.
O que é que as pessoas poderão não imaginar que gosta de ouvir, fora do fado?Prokofiev, por exemplo. Alim Qasimov. Música da Mauritânia. Brahms, Schubert, Schuman. Música da Mongólia. Tenho um gosto musical muito estranho, sou muito louco [risos].
"Fado? Tenho 37 anos, mas tenho história nesta cantiga. Comecei muito pequeno e lidei com pessoas muito antigas. Não me é permitido cantar determinadas coisas e fazer certas coisas dentro da tradição fadista. Tenho necessidade de dizer que este não é um disco de fados porque não me é permitido dizê-lo, porque não o é efetivamente."
Tem tido muito cuidado em sublinhar que este não é um disco de fado, é um disco de canções. É curioso fazê-lo numa altura em que tudo parece poder ser fado, em que se questionam os limites do fado. É revelador de um respeito pelo código e pela história do fado?Espero que não se tome o que vou dizer como uma arrogância. Tenho 37 anos, mas tenho uma coisa que por um lado é um problema e por outro é uma bênção: tenho história nesta cantiga. Comecei muito pequeno e lidei com pessoas muito antigas, não velhas, que me incutiram determinados valores. O mundo precisa de valores, não dos meus mas de valores de justiça, fraternidade, bondade e fundamental respeito por aquilo que são as tradições. É evidente que uma revolução hoje pode ser uma tradição amanhã mas há coisas que não mudam. O meu modo de te tratar como meu semelhante também não muda: a minha obrigação no mundo é tratar-te bem. Da mesma forma, tenho de tratar bem aquilo que os antigos nos deixaram, porque é de todos.
Não me é permitido cantar determinadas coisas e fazer certas coisas dentro da tradição fadista. Não tomem isto como uma arrogância. Também não se trata de ter a cabeça fechada, se me conhecerem e forem investigar o que faço poderão ver que não tenho mente fechada ou espírito fechado. Apenas tenho uma história e conheço as bases, aquilo que a tradição me quer dizer. A palavra tradição vem do termo latino traditio e significa: aquele que transporta algo para dar aos outros. Ao transportar algo para dar aos outros, tenho de cuidar muito bem daquilo que trago e entregá-lo muito bem. Isto não quer dizer que não existam aventuras porque nenhuma expressão [artística] ficou fechada. É importante fazer-se coisas novas e desafiar-se determinados pontos da tradição que achamos que são limites, mas pessoalmente desafio-os de uma outra maneira — só o tempo irá mostrá-lo. Não é arrogância, é uma constatação: faço isso de uma outra forma dentro da própria tradição, vou colocando pequenas coisas da minha personalidade artística que só com o tempo as pessoas irão perceber. Parece igual [ao tradicional] mas não é.
Neste disco o que acontece não é apenas isso, certo?Tenho necessidade de dizer que este não é um disco de fados porque não me é permitido dizê-lo, porque não o é efetivamente. Desde logo não canto quadras, quintilhas, sextilhas, alexandrinos ou decassílabos. Não canto métricas dos fados e não canto melodias que sejam identificadas como sendo de fados, que tenham essa linguagem. Um indivíduo que vem do Alentejo tem o seu sotaque — e muito bem, assim seja para sempre. Existem formas de linguajar e o fado tem a sua própria linguagem, é uma expressão idiomática do povo português. Salvaguardo sempre esta questão porque o disco não é de fado.
"As pessoas confundem talento com jeito, não pode ser -- como também não se pode confundir valor com gosto ou estética com ética. Consegue-se perceber que uma pessoa tem talento quando se acredita nela, quando não se entende nada e não se sabe porque é que se acredita. Isto é o talento. O jeito é quando tentas começar a entender."
Já tinha dito bem antes de fazer este disco: “Não posso fazer qualquer coisa porque me dá na gana, porque sou muito talentosinho ou muito giro” — e chamar-lhe fado, acrescento eu.É. Voilá. As pessoas confundem talento com jeito, não pode ser — como também não se pode confundir valor com gosto ou estética com ética. São campos muito distintos. Hoje em dia confundimos tudo, talvez tentemos confundir a nosso belo prazer porque nos serve. É preciso não confundir as coisas porque qualquer ser humano nasce com jeito para alguma coisa. O talento é outra coisa, é alguém que nasce e tu sentes. Por isso, um artista não precisa de ser entendido, precisa de ser acreditado. É preciso acreditar nele. Nem sempre é preciso perceber, é preciso acreditar.
Mais do que perceber ou acreditar no que a pessoa canta, é preciso então acreditar nela quando o faz, é isso?É certo! Consegue-se perceber que uma pessoa tem talento quando se acredita nela, quando não se entende nada e não se sabe porque é que se acredita. Isto é o talento. O jeito é quando tentas começar a entender.
[“Depois de Ti”, o primeiro single revelado do novo álbum de Ricardo Ribeiro:]

Já lhe passou pela cabeça o que pensará deste disco quem dizia que o Ricardo Ribeiro era um “purista” do fado?Meu querido amigo, eu “gasto muito pouco aos 100”. Resolvi esses meus problemas. Não estou preocupado com o que as pessoas possam pensar, o importante para mim é a obra. É evidente que faço a música para os outros e para fazer bem aos outros, não faço uma coisa egocêntrica, para mim. É evidente que a viagem [musical] é minha, o que sinto é meu, mas faço-o para os outros. Porém, o ser humano é contraditório e deixei de me preocupar com muita coisa. Se alguém vai gostar ou não isso é problema seu, não é meu. Fiz com todo o amor, se a pessoa não entendeu aquele amor e não acreditou naquilo não posso fazer nada. Continuarei a cantar e não tenho de justificar nada, o importante para mim é o meu caminho, é a arte que me acontece, a música que me acontece, a poesia que me acontece, a necessidade furtiva dentro de mim para o belo, para o que me faz bem e para o que sei que vai fazer bem aos outros.
"É evidente que sou cheio de contradições, mas vivo para amanhã ser melhor. O que se diz preocupa-me só um pouco, já não tem relevância, poderei ficar triste mas o que importa é a obra. Quando fiz uma pequena apresentação deste álbum, escrevi uma frase que diz: o entretenimento é para esquecer a vida, a arte é para lembrar a vida. Eu não quero esquecer a vida, quero sempre lembrar a vida."
Se posso ficar triste? Claro, se pessoas de quem goste e que considero disserem uma coisa… mas sei que essas pessoas terão o bom senso de perceber que não estou a cantar fados. Pessoalmente posso gostar ou não gostar das coisas, não devo é confundir o valor com o gosto. Esta conversa pode parecer presunçosa, dar a ideia que “este gajo está muito cheio dele”, mas não: estou cheio é daquilo que sou movido no mundo, que é a arte e o bem. É evidente que sou cheio de contradições e cheio de porras más, mas vivo para amanhã ser melhor, vivemos para evoluir a consciência. Às vezes também penso mal, sou ser humano, sou passível de erro. A consciência dá-se por contrastes, se todo o mundo fosse azul ninguém sabia o que era o azul, não havia um contraste. O que se diz preocupa-me só um pouco, já não tem relevância, poderei ficar triste mas o que importa é a obra. Quando fiz uma pequena apresentação deste álbum, escrevi uma frase que diz: o entretenimento é para esquecer a vida, a arte é para lembrar a vida. Eu não quero esquecer a vida, quero sempre lembrar a vida.
Agora uma pequena provocação cordial…… Faça favor.
Quando canta não deixa inteiramente de ser fadista, pois não? Estou a pensar na forma como canta o “Canto Franciscano”, como canta aquele “há quem lhe chame saudade” do segundo tema do disco, como canta a “Deserta Liberdade”.Pois muito bem, está à vontade para me provocar porque não me levo demasiado a sério. Gosto quando as pessoas me dizem:  é muito aciganado, muito árabe, isto ou aquilo. Fico contente porque isso também sou eu, não é uma coisa que sinta como depreciativa. Na verdade não é bem aciganado, é mais árabe, mas não interessa nada, não me levo demasiado a sério.
Agora, uma pessoa pode ficar sem pai, o seu pai pode morrer, mas ter-se-á sempre um pai, não? O pai pode ser um grande assassino, será sempre pai. A mãe a mesma coisa. A mesma coisa acontece no fado, é igual: não posso dizer que não sou filho do fado, o fado é o meu pai e a minha mãe e não deixará de ser.

Ricardo Ribeiro. 37 anos, foi pastor, trabalhou nas obras, cantou em casas de fados e lançou o primeiro disco há 21 anos (@ Adriano Fagundes)
Achei curiosa a presença neste disco de um poema do Pedro Homem de Melo, que também estudou o folclore e a tradição portuguesa e que teve textos cantados pela Amália Rodrigues, por exemplo. Teve-os desde logo naquele que é, corrija-me se estiver enganado, o seu disco preferido da Amália.Sim, o Cantigas de Uma Língua Antiga [de 1977].
O que é que o fascina mais nesse disco?A maneira como a Amália canta, o acompanhamento, a poesia e as composições.
Consegue escolher três ou quatro discos de fado ou de outro género musical que o arrebatem, que tenha no seu altar de preferências?Sim. Da Amália é o Cantigas de Uma Língua Antiga. Há um outro disco de uma cantora de que gosto muito que se chama Mayte Martin, o disco chama-se Tempo Rubato. Também o disco Yara, do Rabih Abou Khalil, entre outros.
Canta também neste disco textos do António Ramos Rosa, do Giacomo Leopardi…Gosto muito do Ramos Rosa, leio-o muito. Quanto a Leopardi, domino o italiano, é uma língua de que gosto muito. Uma das primeiras viagens que fiz a Itália aconteceu quando tinha 20 anos e fui a Recanati, onde está a casa-museu de Leopardi. Comecei a interessar-me e tenho muita coisa dele, é fascinante.

“Se não levar a minha vida como falo não valho nada”

A leitura é algo de que é muito aficionado. Ela enquadra-se naquilo de que já falou no passado, o que chama de “desejo de profundidade”? E o que é isso exatamente?É não ver as coisas como elas se aparentam, mas ver através delas. A profundidade encontra-se através das coisas e não nas coisas em si.
O que é que tem lido recentemente que mais gostou?Li agora uma poetisa fantástica, Maria Amélia Neto. É fantástica. Por causa dela escrevi dois poemas, tenho um pseudónimo que nem interessa dizer. Ela era de 1960, morreu muito cedo, a poesia é fantástica. Estou também a ler agora “As Páginas Esquecidas” do Agostinho da Silva, o livro que saiu há pouco tempo. Gosto muito do professor Agostinho da Silva, mas tenho lido maioritariamente muita poesia e muita filosofia. Há pouco tempo andei a ler um livro de um filósofo indiano de que gosto muito, Sri Ram, que se chama “Em Busca da Sabedoria”.
Também tem uma história curiosa com um “Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa”, pelo qual pagou, salvo erro, 500 euros.Sim, sim [sorriso]. Paguei 500 euros em versão digitalizada, mais uns quantos trocos. Disse há pouco que gasto pouco aos 100 mas de vez em quando faço assim umas loucuras. Gosto muito da etimologia, aprendi com o Platão, seduziu-me para ver através das palavras. Às vezes utilizamos palavras… Este título com o Respeitosa Mente, sabe de onde vem a palavra respeito? Vem de uma palavra latina que é respicere, que verdadeiramente significa “o que sabe ver”. Ter respeito pelo outro é saber vê-lo.
"A minha tia lia-me e dava-me coisas para ler, mas foi no colégio [interno e diocesano] que comecei a ganhar mais o bichinho da leitura. Tenho fases em que não leio nada, quase só oiço música, depois tenho outras fases em que só leio, passo o tempo na casa de fados lendo, naqueles intervalos [de canto] estou só lendo, lendo, lendo."
Tem gosto pela leitura desde criança ou isso surgiu mais tarde, já no colégio diocesano [interno] em que estudou?Apareceu cedo porque a minha tia lia-me e dava-me coisas para ler, mas foi no colégio que comecei a ganhar mais o bichinho da leitura. É estranho porque tenho fases em que não leio nada, quase só oiço música, depois tenho outras fases em que só leio, passo o tempo na casa de fados lendo, naqueles intervalos [de canto] estou só lendo, lendo, lendo. Agora li dois livros pequeninos, quase cadernos, do Manuel de Freitas e da Maria Amélia Neto — e desde aí estou sem ler. Tenho fases, leio quatro ou cinco livros de uma assentada, depois repito alguns, leio certos livros duas ou três vezes, como o “Riso de Deus” do António Alçada Baptista, que é um livro de que gosto muito.
O ano passado deu uma entrevista muito emotiva no programa “Alta Definição”, que marcou muitos espetadores. Falar de todos aqueles assuntos [a relação inicialmente complicada com os pais, uma tentativa de suicídio em criança, um período turbulento que viveu entre 2012 e 2014/2015] serviu de terapia?Não… foi uma exposição — já sabia que seria assim — do que sou verdadeiramente, daquilo que tenho vivido e daquilo que tenho aprendido. Terapia não porque essa parte resolvo-a sozinho [sorri], faço-a no meu sofá, no meu “cantinho das punições” — como lhe chamo — resolvo isso tudo,  penso e vejo as coisas. O Daniel é um indivíduo muito interessante pela maneira como olha, o olhar dele emana alguma coisa.
Posso estar aqui a dizer coisas muito bonitas, frases que crio ou que cito, mas se não levar a minha vida como falo não valho nada. Tudo aquilo que está nessa entrevista é o que vivo e faço, não apregoo uma coisa e faço outra. Gostava que as pessoas entendessem que o que lá disse não é só dito, é dito e é feito.

Ricardo Ribeiro pela lente do fotógrafo Adriano Fagundes
Falava há pouco de como está cheio de contradições. Nessa entrevista falava de coisas más que vai tentando matar todos os dias…Às vezes não as conseguimos matar mas vamos tentando. Tentar às vezes pode ser só um tipo chegar a casa e dizer: “fui arrogante, não tive calma ali, epá mas para quê? Isto é tão relativo, dura tão pouco tempo, as pessoas têm falhas, não condenes logo”. Ainda ontem tive uma má atitude, uma má resposta, é natural — o importante é um tipo perceber e dizer: não, acalma-te, respira, as pessoas têm falhas.
Esta história do gasóleo, por exemplo: ontem [quarta-feira] roguei pragas aos senhores e depois lá disse “que estúpido, mas porquê se eles estão a reivindicar qualquer coisa das suas vidas?” Não paramos para pensar que aqueles indivíduos passam a vida metida dentro de um camião, não têm vida, chegam a casa e mal veem os filhos e a mulher. Tudo bem, aquilo prejudicou-me mas aquelas pessoas se calhar andam há mais tempo prejudicadas. Na altura vocifrei por estupidez, depois parei em mim.
Ainda na entrevista ao “Alta Definição” falou de um período recente mais duro [entre 2012 e 2014 a 2015, andava “completamente doido”, revelou]. Que coisas concretas — sejam conversas, pensamentos, pessoas — o levaram a dar a volta?Amigos, livros… grandes amigos fundamentalmente. A filosofia e a poesia também, mas sobretudo as pessoas que me acompanharam, as conversas, o nunca me terem deixado cair. Nisso tive uma grande sorte, não vou frisar aqui os nomes das pessoas mas tive uma grande sorte, tive grandes amigos que me ajudaram muito, falaram comigo e fizeram-me ver as coisas. Isso a par dos filósofos que ia lendo e com quem ia aprendendo e pondo [ensinamentos em prática]. Tanta coisa na vida requer um esforço e é preciso também um esforço para contrariarmos a nossa mente, para contrariarmos a procrastinação, porque a nossa mente é um círculo. Se calhar é um grande disparate o que vou dizer, uma grande estupidez, mas às vezes penso: se a Terra é redonda, se o sol se me aparenta redondo, se a Terra anda em círculo de si própria em torno do sol, será que a minha mente também não é assim? Então digo: tenho de parar, contrariar as coisas.
Comecei a contrariar a tristeza e fundamentalmente a vitimização. Deixei de me vitimizar e deixei de culpar os outros, acabei com isso, culpar o fulano, o sincrano, a beltrana. Acabou-se. E acabou-se a história de ser bom e os outros serem maus. Não sou vítima de coisa nenhuma, tenho os mesmos direitos e os mesmos deveres de qualquer ser humano — e se as coisas me acontecem de mal é porque têm de acontecer assim, é porque preciso de aprender alguma coisa. É evidente que custa, claro que custa, na altura reagimos mal às coisas, mas a partir do momento em que se vai tomando consciência deixamos de reagir tão mal. Não sou vítima de nada, vamos embora para a frente com a vida.
"Já tomei tantas opções erradas que às vezes até me esqueço das boas. Já tomei algumas boas. Uma delas foi este disco, outra foi a de parar de culpar os outros e de me vitimizar. Também acho que foi boa a opção de aceitar os outros e de me aceitar a mim , com as minhas próprias falências, com as minhas sombras - para que as possa conhecer e dominar em vez de serem elas a dominar-me."
De entre as opções que tomou entre as hipóteses que a vida lhe foi apresentando, de qual se orgulha mais?Não tenho grande aptidão para o orgulho nesse campo, tenho-o mas não nesse campo. Já tomei tantas opções erradas que às vezes até me esqueço das boas. Já tomei algumas boas. Uma delas foi este disco, outra foi a de parar de culpar os outros e de me vitimizar. Também acho que foi boa a opção de aceitar os outros e de me aceitar a mim também, com as minhas próprias falências, com as minhas sombras — para que as possa conhecer e dominar em vez de serem elas a dominar-me. É muito difícil, tenho 37 anos, há tanta m**** que faço… desculpe a linguagem.

Perder 52 quilos, “a fazer jejuns às vezes de 17 horas…”

O Fernando Maurício…… Master!
O seu grande mestre. Dizia-lhe: “Tens de ser melhor do que tu mesmo, o teu pai não tem uma mercearia nem nasceste com três nomes”. É mais ou menos consensual que se está mais perto de êxitos profissionais quando se tem oportunidades desde cedo e quando se cresce num meio privilegiado. No fado e na música também funciona assim?Essa frase é um bocadinho rude da parte dele, tanto o é que me foi dita a mim quase estritamente na intimidade, estávamos só os dois. É um bocadinho rude porque ninguém tem culpa de ter nascido num meio privilegiado — e se nasceu, ainda bem. Se nascemos naquele meio é porque tínhamos de nascer lá. Se alguém nasce com pai rico, que culpa tem disso? É evidente que isso faz parte da humanidade, infelizmente e ainda. Um dia deixará de acontecer, X ou Y deixará de ser escolhido porque é filho de alguém ou porque tem dinheiro. Claro que não pode ser assim, não deve ser assim, mas a pessoa não tem culpa de ter nascido num meio privilegiado.
A frase começa com “Sê melhor do que tu mesmo”, portanto ele também quer dizer: esquece o julgamento, esquece os outros — tenham ou não tenham tudo isso — e sê melhor, cumpre-te como és ou como queres vir a ser, tenta-te cumprir e puxa do futuro para ti.

Enquanto fazia este Respeitosa Mente, passou-lhe pela cabeça o que ele poderia pensar do disco?Sim, sim. Já pensei no que ele pensaria, no Rodrigo, em tantas pessoas. O meu mestre ia gostar.
Da ousadia?Sim. Ia-me dizer: sim senhor, o disco não é de fados, cantas umas canções, está tudo certo.
E quantas vezes é que já se perguntou como é que só aos 25 anos descobriu que só tinha um rim?[Sorriso largo] Não faço a mínima ideia. Aconteceu ter uma dor horrível.
"Poderia vitimizar-me: só tenho um rim, coitadinho de mim, já viram se isto pára? Podia viver preocupado, 'tenho uma filha com 14 anos , também tenho bronquite crónica, alergias'... ó f***-**, não! Quero é trabalhar, viver, não quero estar a pensar que não posso comer tomate que tem oxalato."
Na Alemanha, não foi?Sim, uma dor horrível que não desejo a ninguém, uma coisa assustadora. A dor era de uma pedra que tinha num rim, depois disso é que fui fazer exames, fui ver e descobri que só tinha um. É perfeitamente normal, um urologista já me disse que às vezes acontece uma pessoa nascer só com um rim. Ele é enorme, faz o trabalho de dois e funciona lindamente. Está tudo certo. Lá está, poderia vitimizar-me: só tenho um rim, coitadinho de mim, já viram se isto pára? Podia viver preocupado, “tenho uma filha com 14 anos , também tenho bronquite crónica, alergias”… ó f***-**, não! Quero é trabalhar, viver, não quero estar a pensar que não posso comer tomate que tem oxalato. Não exagero mas está tudo bem.
Não o tem impedido de fazer nada?Nada! Nem perder 52 quilos, homem! A fazer jejuns às vezes de 17 horas…

Não se tornou ainda assim daquelas pessoas que tentam evangelizar obsessivamente todos os dias o máximo de pessoas que conseguem para a comida saudável, ou tornou?Não, não. Lá voltamos nós: não vou interferir com a vida do outro. Digo às pessoas: ó homem, você é feliz assim? Ouça, viva! A longo prazo isso não lhe vai trazer coisa boa, mas é só isso. A primeira coisa que faço é perguntar a alguém: você vive bem, tem algum problema de saúde? Isto vai trazer-lhe problemas, mas um gordo se está bem [de saúde] não tem de mudar só porque no mundo há magros. Isto é como o conceito do raio da beleza dos homens e das mulheres, um gajo só é bonito se tem músculos e o corpo definido, se usa a barba assim ou assado, se tem a carinha não sei quê e não tem uma borbulha?
Tudo isto é estúpido, é a história da profundidade, as pessoas só veem pela rama. É evidente que é mais agradável ter a beleza ao nosso lado de acordo com o nosso padrão, porque o meu padrão de beleza para uma mulher é muito diferente do padrão de beleza feminina de um chinês. Portanto, o que é a beleza num ser humano? É relativa. Se alguém me diz que precisa mesmo de emagrecer, ok, digo-lhe “faça isto ou aquilo na alimentação e vá para desportos de combate ou para um desporto que obrigue a gastar muito energia”. Acabou aí, não me imponho nada . António Alçada Batista tem uma frase fantástica no “Riso de Deus” que diz o seguinte: “Poder é a capacidade que os homens têm para criar a outros um destino. Essa é a essência da sua perversão”. Eu não tenho de criar destinos, é evidente que posso alertar e dizer à pessoa que algo não é bom mas não posso interferir, a pessoa tem que avaliar por ela.


O concerto em que “do primeiro ao último fado só estava a pedir aos santinhos todos que chegasse ao fim”

Tem uma filha, Carolina, que já toca e canta.Sim. E bem!
De que tipo de música é que ela gosta?Evito um bocadinho isso porque não lhe quero alimentar a vaidade, ainda é muito frágil, tem 14 anos. A diferença entre a vaidade e o orgulho é uma linha muito ténue, ainda mais nessas idades. Tento proteger um bocadinho, falamos um bocadinho disso até porque sou uma referência para ela, mas com cuidado. Ela gosta muito da música que se ouve, da música pop, mas quando ouve peças clássicas de piano adora. Estuda [música] também, há peças da música árabe de que gosta, outras não tanto quando são assim mais complicadotas, com muitos quartos de tom. Ela já tem algumas noções de afinação e tive de lhe explicar: não filha, não é desafinação, é um quarto de tom, aqui só usamos tom e meio tom e no mundo árabe ainda há um quarto e oitava [de tom], etc etc. Exemplifico-lhe com voz e guitarra e ela vai percebendo.
Há sempre a possibilidade de ela vir a ter uma carreira musical. Para alguns jovens, isso é um sonho, parece uma vida de luxo só com vantagens. Mas o que é que é preciso sacrificar? No seu caso, por exemplo, o que teve de sacrificar?Há muitos prós, mas também há contras… em relação à minha filha, a ausência é um contra. As outras desvantagens são algumas mágoas que vão ficando, é importante limpar mas elas não deixam de fazer a sua mossa. Às vezes não se tem vida, apetecia estar aqui ou ali e não é possível por isto ou por aquilo, porque tem de se tocar e cantar.
"Muitas vezes não me apetece falar com ninguém, não me apetece estar com ninguém e tenho de estar, tenho de falar, tenho de abraçar. Tenho que dar quando muitas vezes não tenho para mim. Oxalá as pessoas não me considerem mal por dizer isto. Também sou um ser humano - com a mesma carne, os mesmos ossos, as mesmas fragilidades, as mesmas carências."
Espero que as pessoas não fiquem tristes com o que vou dizer, acontece-lhes a elas também, não me podem julgar por isso: muitas vezes não me apetece falar com ninguém, não me apetece estar com ninguém e tenho de estar, tenho de falar, tenho de abraçar. Tenho que dar quando muitas vezes não tenho para mim. Esse é um dos principais contras. Oxalá as pessoas não me considerem mal por isto, se forem analisar as suas vidas também sentem exatamente o mesmo que sinto, também sou um ser humano — com a mesma carne, os mesmos ossos, as mesmas fragilidades, as mesmas carências. Muitas vezes sabe Deus… não tenho nada para dar, mas tenho de estar e sorrir. Às vezes custa, mas faz parte.
[Chega à mesa Jarrod Cagwin, percussionista do trio que gravou este novo álbum de Ricardo Ribeiro]
Já disse: “Muitas vezes pagava para não cantar”. E ainda: “Muitas dias acontece, estamos vazios, não temos nada para passar. Tenho de o fazer porque é a minha vida, o meu dever, mas não compro mentiras porque também não vendo a minha”. Desses dias em que pagava para não cantar mas teve de o fazer, qual foi o concerto mais difícil de levar até ao fim?Não vou dizer o sítio  porque fica mal, não seria correto da minha parte, mas houve um concerto no norte de Portugal em que não tinha nada dentro de mim. Tinha tido uns problemas pessoais, umas confusões e — chamem-lhe destino, universo, céu, o que se quiser — o concerto era num palco enorme mas tinha 20 pessoas à minha frente. Já estava sem nada para dar e aquilo parecia um concerto rock and roll, gigante, com tudo, mas para 20 pessoas, com toda a gente espalhada por bancadas lá mesmo ao fundo. Esse dia foi tão frustrante… não foi pelas pessoas, as que estavam à frente foram muito entusiásticas, mas não tinha nada, estava tão vazio. Do primeiro ao último fado só estava a pedir aos santinhos todos que chegasse ao fim.
"Devo à música tudo, especialmente ao fado, mais ao fado do que à música. Devo tudo: a vida que tenho, o carro que tenho, a casa alugada que tenho, a comida que ponho na boca. E a vida, devo a vida. Sem música, não sei... era um indivíduo tão escuro, tão débil - mais débil ainda."

“Devo tudo à música e ao fado: o carro, a casa alugada, a comida que ponho na boca. E a vida”

O que é que a música representa hoje para si? O que já lhe deu e o que já lhe tirou?Representa tudo. A música deu-me tudo e dá-me tudo. Devo à música tudo, especialmente ao fado, mais ao fado do que à música. Devo tudo: a vida que tenho, o carro que tenho, a casa alugada que tenho, a comida que ponho na boca, tudo. E a vida, devo a vida. Sem música, não sei… era um indivíduo tão escuro, tão débil — mais débil ainda.
Fala-se muito na internacionalização da música portuguesa e também do fado. Tem dado muitos concertos fora de portas: só no último ano cantou no México, Finlândia, Espanha, na Konzerthaus em Viena, França, Marrocos, Estádos Unidos, Irão. Destas experiências todas fora de Portugal, qual foi a mais surpreendente?O Irão. Foi maravilhoso, estava à espera de encontrar coisas estranhas e não encontrei, vi um país normal. Claro, vi aquilo que me foi dado a ver, que tive oportunidade de ver. E vi músicos do Afeganistão que me deixaram fascinado, foi uma viagem um tanto ou quanto interessante [sorri], foi marcante. O açafrão que trouxe, as misturas que trouxe, os frutos secos, foi fantástico, maravilhoso.
Na área do fado tem-se multiplicado um fenómeno curioso: festivais de fado por todo o mundo. Há um festival de fado em Marrocos, Madrid, Nova Iorque. Como é que isto aconteceu?Não sei, seria preciso perguntar à organização — que é portuguesa. Não quero ser mau e como não quero ser mau… não sei se é uma internacionalização do fado, do filho do fado, não sei. Sei que vou lá fora e só canto fados — quando canto fados, canto fados, tirando uma canção ou outra que possa pôr no meio, uma balada ou outra. É bom e é maravilhoso ver os artistas portugueses terem sucesso lá fora? É! O caso da Ana Moura, da Carminho, da Mariza, do Camané, do António Zambujo… todas essas pessoas terem tanto sucesso lá fora é fantástico, é ótimo. A Mariza ainda agora teve uma digressão imensa nos Estados Unidos da América, a Cristina Branco… não sei o que é mas sei que é bonito e é bom. Agora o que leva [a acontecer] isso é outra coisa, não me cabe a mim estar a analisar isso, já me deixei disso. Por isso é que dizia que fiz essa provocação, dizer que este disco não tem fados para ver até que ponto alguém diz que isto é um fado. Ai é um fado? Então porquê? Explique-me.
Este tema acaba com um tema instrumental muito curioso, bastante interessante.Teve paciência para o ouvir?! [sorri]
Tive, claro. Dedica-o à sua mãe, Fernanda, “Naná”. Porquê?A minha mãe teve uma fase mais difícil, não queria entrar em detalhes. Tinha dedicado um tema à minha filha anteriormente e era importante dedicar um tema à minha mãe.
"A minha mãe ainda hoje diz que o único homem que amou na vida foi o meu pai. Já o homem está morto há sete anos, ela já não estava com ele há 20 anos e continua a dizer: o único homem que amei na vida foi ele. É uma coisa que me arrepia. É preciso ser-se uma grande pessoa para amar alguém durante a vida inteira."
Já disse que ela tem uma voz “linda, uma coisa que vem da terra, um canto arrepiante, que parece que vem das entranhas”. Quando estão juntos, cantam?Às vezes. É raro, mas de vez em quando ela canta, se lhe pedir muito ou se puxar por ela. Mas desde a morte do meu pai [menos], apesar de já não estarem juntos há 20 anos aquilo afetou-a muito. Acho isto uma coisa tão bonita: a minha mãe ainda hoje diz que o único homem que amou na vida foi o meu pai. Se tivesse uma mulher… Claro que isto é uma coisa muito egocêntrica, mas é de uma beleza enorme ouvir alguém dizer isto. Já o homem está morto há sete anos, ela já não estava com ele há 20 anos e continua a dizer: o único homem que amei na vida foi ele. Ela amou verdadeiramente. Aquilo nunca morreu, apesar do meu pai… [faz uma pausa]. Eu fico tocado, é uma coisa que me arrepia, às vezes diz-me isto: o único homem que amei mesmo foi o teu pai.
Todos temos relações. Também já amei, pronto, depois vem a outra pessoa e já não tenho… E aqui, como é possível? É preciso ser-se uma grande pessoa para amar alguém durante a vida inteira. Não faz jus ao poema da Florbela Espanca que diz “e quem disser que se pode amar alguém durante a vida inteira é porque mente”. A minha mãe não, continua a dizer exatamente isso, é uma coisa que me faz confusão — já teve outros companheiros, tudo bem, mas continua a dizer aquilo.
Depois do lançamento do disco, depois das primeiras apresentações ao vivo na Casa da Música, no Porto (24 de maio) e Centro Cultural de Belém, em Lisboa (1 de junho), vêm mais concertos?Assim o espero, a não ser que seja banido. Não estou a planear já mais coisas mas espero que os senhores promotores em Portugal oiçam, pelo menos, e se interessem. É só isso que quero. O quer vier eu recebo, aceito e agradeço.
Vai tocar guitarra e baixo nesses dois concertos já anunciados..Sim! Já estou nervoso porque não sou guitarrista. É um suplício tocar, gravei porque eles me disseram: grava, tu és capaz. O Jarrod dizia-me: “You can do it, man, you can do it!”. Ahhhh…. mas ao vivo? Tremo, as mãos suam, vamos lá ver.