sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Vasco de Lima Couto_Retrato


Fui só eu que estraguei as alvoradas
- presas suaves nos plúmbeos céus!,
e dei água aos ribeiros da minha alma
e fiz preces de amor e sangue, a Deus...

Fui só eu que, sabendo da tormenta
que o vento da nortada me dizia,
puz meus lábios no sonho incompleto
e rasguei o meu corpo na poesia.

Vieram dar-me abraços e contentes
viram que me afundava sem remédio
- nem um grito subia do horizonte
há mil anos deitado sobre o tédio!

Quando chamaram por mim do imenso rio
que a noite veste para se entreter
vi que os barcos andavam cheios de almas
buscando sonhos para não sofrer.

Cantavam doidas como a dor e a morte
parando, a espaços, para ver montanhas
e eram luzes mordidas pelas sombras,
corajosas, infelizes - mas tamanhas!

Eu fugi de as ouvir (que ardentes vozes...)
de navegar nas mesmas ansiedades
e fui sozinho semear as luas
e a natureza inculta das idades.

Parti, negando à vida o seu direito,
recalcando os meus sonhos e os meus medos...

sei agora que matei o meu destino
e quebrei o futuro nos meus dedos.

Vasco de Lima Couto,
in: "Os Olhos e o Silêncio" - 1952


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Manuel Veiga_FESTIVO FREIXO e Sua Sombra

terça-feira, fevereiro 21, 2017


FESTIVO FREIXO e Sua Sombra


Hoje a várzea e sobre o rio o festivo freixo e sua sombra
E o cantar do melro no amarelo doirado do sol em fim de dia
E esta pedra no inamovível tempo em que me sento...

Nem sequer a melancólica aragem, nem o restolhar da memória
Como insecto em flor. Nem o mel silvestre da infância.
Nem o vime. Nem a aurora do sonho. Nem o cântico nas igrejas...

Apenas o alvoroço tardio. E esta pedra absurda no caminho
Como trono. E meus dedos desfiando contas. E o mistério
Inaudito das palavras. E o perfume da dor em cada ausência...

Fenecem grinaldas. Que as cores são apenas nevoeiro
Dos sentidos. Agora o vinho é espessura em bocas de desejo
E o corpo é porto. Ardendo. Como lava em que me extingo.

Manuel Veiga



quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Jorge de Sena


Nem sei porque ainda falo em Deus.
Se de mim me afasto e obedeço ao mundo
– traz ele consigo um sonho para levedar
na perspicácia absorta de um farol de angústia –
e não concedo esperança ao que anda em mim
podendo ser volúpia da memória livre;
se Deus partiu para o limite da vida
quando olhámos ambos a realidade das coisas;
se não existe uma barca onde o rumo se invente,
embora as pontes sejam dessas barcas;
se onde estiver um homem não estará outro homem.
Não sei, de facto, porque falo de Deus.

Jorge de Sena


Jorge de Sena nasceu em Lisboa, a 2 de novembro de 1919, e faleceu em Santa Barbara, na Califórnia, a 4 de junho de 1978



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Graça Pires_Inês, o meu nome


13.2.17


Inês, o meu nome

CNB

Para sempre o teu olhar interdito. O teu rosto sombrio.
O teu corpo clandestino de mim. Para sempre.
Com que sopro, diz, incendiaste, em meus cabelos,
a luz, tão frágil, do primeiro orvalho da manhã?
Que contenda feriu a clareira de teus braços
onde morri quantas vezes eu pude renascer?
Como silenciar o prazer se ajustaste nele
a prematura paixão de tuas mãos?
Talvez este alvoroço de passos em dança,
em grito, em desespero nos mostre
como errámos todos os voos que rasgaram
o excessivo azul das noites mais perfeitas.
Pelas fendas da morte te escuto agora.
Procuro, no intenso fulgor de teus olhos,
a nitidez da água, antecipando as lágrimas
e só encontro a sede de bicho selvagem que te suplicia.
É de rosas, eu sei, o aroma que acoitas no meu nome.

Graça Pires
In: A CNB e os Poetas, 2016, p. 7
Poema feito em out. 2015 depois de ter assistido ao bailado Pedro e Inês, coreografado por Olga Roriz, a convite da direcção da CNB, através de João Costa.   

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Manuel Veiga_Em Louvor de Lydia III



Em Louvor de Lydia III

Cai a tarde, Lydia, e com ela se recolhem
Os raios de luz fria, simulacro dos dias claros
E quentes. Canto de cotovia suspenso
Na brisa que foi afago e agora queima
No silêncio de nossos dedos festivos
Abandonados no regaço, como pétalas
Que perderam o rumo do caule.

E, no entanto, o sol é o mesmo. E o azul
Tão nítido que fere, de luz, os olhos.

O rio passa, Lydia. Sempre. Com seu caudal
A inundar as margens, indiferente
À cotovia e ao melro.
Ou ao piar desconchavado
Do mocho. E seus augúrios. Em poema
Mal urdido.

Festejemos a glória de sermos. E deixemos que o rio siga.
Sem mágoa. E simulemos o beijo, Lydia! Isso basta,
Neste Agora. E aconcheguemos os corpos transidos
Que das estepes frias, o vento gélido
E a flor da memória
Em chamas.

 Manuel Veiga

Lydia é criação literária de Ricardo Reis