domingo, 23 de julho de 2017

A Voz da Dor





"O silêncio do fogo na voz da dor...

Carta de uma mãe que perdeu o filho em Pedrógão Grande.

Daniel Rocha
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DANIEL ROCHA











Estamos tão cansados, mas não podemos estar. Os mortos não se calam e não nos deixam cansar. Gritam por Justiça! Exigem Mudança!
A Associação das Vítimas do Incêndio de Pedrógão Grande, o grande, brutal e devastador incêndio que lavrou do dia 17 a 24 de Junho de 2017, nos concelhos de Pedrógão Grande, Figueiró dos Vinhos e Castanheira de Pêra, é um movimento cívico que partiu dos familiares e amigos das vítimas mortais desta tragédia. Uma associação cujo mote é apurar responsabilidades e ajudar a construir um futuro em que tal tragédia e crueldade não volte a acontecer!
Esta é a descrição do que pretendemos ser, com a ajuda de todos e a lembrança de todos aqueles que partiram. Porque hoje somos uma comunidade traumatizada. Uma comunidade sujeita a uma tal brutalidade que não se nos apaga da memória... O cheiro a terra ardida é algo que nos envolve, que nos macilenta e que se entranhou em cada um de nós.
A perda de dezenas de vidas e de forma tão trágica que roça a loucura deixou uma sociedade e todo o seu contexto à volta num luto imposto. A vida acabou ali, naquela estrada para muitas pessoas. Inocentes. E acabou também parte de uma vida para os que ficaram. Os que ficámos, ficámos mais pobres, mais sós, apenas com o alento das memórias, mas com a revolta de toda esta situação. São filhos sem pais. São pais sem filhos... são casas sem gente, é gente sem gente, não é natural!
Olho à volta e as pessoas não se riem, choram sozinhas, acanhadas, não se olham nos olhos, com vergonha pela sua impotência, com medo; o cenário é deprimente e não nos ajuda a superar com dignidade a tragédia. O Inverno não tarda e com ele as ruas despidas de vida. Despidas de ainda mais vida.
Há rancor, ressentimento com o território e com as entidades públicas. O Estado falhou. A Nação não existiu.
Mas não falhou apenas nesta tragédia. O Estado vem falhando ao longo de décadas. O Estado padece de uma cegueira crónica, está enfermo de um tal sentimento de negação de si próprio. Nega o seu estado de país rural, um país orgulhosamente rural e por isso mesmo rico.
Enquanto Estado é um conceito frio, masculinizado, distante, de um ente que impõe tributos e leis aos seus súbditos, um amontoado de entidades supostamente hierarquizadas, com dirigentes supostamente competentes, e que supostamente deveriam cumprir e fazer cumprir um conjunto de leis e regras que se vão aprovando (ou não!) conforme as vontades políticas da estação. Assim se vai governando Portugal. Sem pactos de regime e visão a longo prazo. Vão-se puxando o tapete uns aos outros, não se apercebendo que, por fim, só restam cacos, dor e tristeza para governar.
Nação, por sua vez, é um conceito acolhedor, integrador, feminino, belo, quase maternal, que agrega o seu Povo e o seu Território. É o que dá sentido à reunião das pessoas num determinado território a que chamamos “a nossa terrinha”, “o nosso cantinho a beira-mar plantado”, a proa desta “jangada de pedra”. Portugal.
O Estado falhou nesta tragédia levando consigo o sentimento de pertença de Nação que tínhamos. O Estado não protegeu a sua Nação. Não assegurou o seu Território e com ele o seu Povo...
Fomos vítimas desta ausência insuportável de Estado. Ontem e hoje. Mas não amanhã. Porque já chega de incêndios que ceifam vidas. Incêndios como os de 2003, 2005 e Junho de 2017, e que contabilizam, até a data, 100 vítimas mortais em solo português, não podem voltar a acontecer. É hora de todos dizermos “Basta!”. Este Estado que não quer ver secou uma parte importante da sua Nação, aquela que moveu este país por séculos, o Interior.
A primeira muralha e frente de defesa do País no passado contra as invasões estrangeiras, o celeiro do País em tempo de vacas magras, o emissor de soldados nas guerras ultramarinas, o mercado de mão-de-obra barata em tempos de construção europeia... Quando o Interior e os seus recursos já não eram precisos, substituídos pela oferta de bens e serviços mais baratos, o Povo e o Território do Interior foram abandonados À sua sorte. Emigrem! E assim o fizeram, abandonados à sua sorte.
Não houve solidariedade em tempos de vacas gordas, não houve estratégia para o Território quando os dinheiros dos Fundos Estruturais Europeus chegavam a rodos. Foram anos de esquecimento, de esvaziamento progressivo e consistente das instituições regionais e locais, depois seguiram-se as empresas e, por fim, as pessoas. Sobreviver é preciso.
Foram sucessivas décadas de descaso com o Interior, de negligência com o Território, com a Floresta e a Agricultura. Tendo como consequência a emigração das pessoas em idade ativa, restando uma população envelhecida e empobrecida a exigir cuidados redobrados do pouco Estado que restou e que nos foi esventrado e sobretudo das autarquias locais e misericórdias.
Parecia propositado... o Interior tornou-se terra de ninguém, envergonhado de o ser, abandonado e, assim, por fim, vergado.
Deveríamos dar graças por nos termos tornado a maior região eucaliptizada da Europa... Fomos “agraciados” pela falta de oportunidade! O Território estava a saldos e ninguém quis saber.
O Interior tornou-se um canteiro de ervas daninhas, sem jardineiros — as suas gentes. Um barril de pólvora em que se soma a indústria do fogo institucionalizada e um qualquer ano eleitoral. Os ingredientes ideais para a tempestade perfeita.
A tragédia de 17 a 24 de junho de 2017 estava mais que anunciada. Foi apenas uma questão de tempo... e o tempo não pára! E com ele foram muitas vidas abreviadas. Cedo demais... Cedo demais!
Por ti, meu filho...
Nádia Piazza, mãe de uma criança de cinco anos que morreu a 17 de Junho de 2017 em Pedrógão Grande"

sábado, 15 de julho de 2017

Manuel Veiga_EU SEI QUE PASSO...


Na escrita de MV, tanto em prosa como em poesia, encontramos a subtil firmeza das palavras, num claro e empolgante sentido de afirmação.
Sem metáforas afloradas, directo e constante, deixa-nos o pensamento de quem da vida faz a sua razão.
O seu 'olhar' - aliado à sensibilidade, à riqueza vocabular  e a uma excepcional cultura-, é, assim, transcrito para a delícia de quem o lê.
Este é um poema, a meu ver, como tantos outros, antológico.



EU SEI QUE PASSO...

Parto. E corto pontes
Que minha viagem é sem regresso.
Nem meu canto é gorjeio emplumado

Nem minhas dores são grito de pássaro
Gemebundo.

Passo. Eu sei que passo.
E ao passar agito. E colho tresmalhados ventos
Em meu punho fechado
Qual espera do momento
Certo para quebrar os selos
E soltar venenos.
E tempestades em riste. 

Assim não queiram meus fados
E os ventos fiquem quedos.

Manuel Veiga

quinta-feira, 22 de junho de 2017

crónica_dos olhos que o Fogo viram...


"
Não disse à minha mãe que estou sempre quase a chorar

Quando domingo de manhã muito cedo vim do Porto para Pedrógão Grande, não avisei a minha mãe, nem o meu pai, não lhes disse que vim a voar. Fiquei, claro, com remorsos, mas só ontem lhe liguei, a meio da manhã, assim que acordei. Quando ela atendeu, e atendeu logo, quase sem deixar tocar, em vez de me chamar como me chama sempre, num querido diminutivo, ela só disse, e imediatamente, numa voz que vi logo que já lhe vinha a fugir, "ó meu filho, ó...", e eu engasguei--me logo, não consegui dizer nada, estava despregado a chorar. Mas chorei como se me mordesse, chorei para dentro, sem a deixar ver, esganado, até ouvi os meus dentes apertados a ranger.

Mas ela já sabia, conhece-me há 48 anos, sabia que eu tinha que vir, e já me tinha lido, a mim e à Helena, os nossos textos vinham ontem no JN a abrir - "sim, mãe, ela está bem, mãe, não, mãe, ela não veio, ela está aí, está tudo bem, mãe, a sério, a sério que está tudo bem, mãe, então".

Mas ela sabe: aqui não há nada que esteja bem, aqui passou o tornado do diabo, uns viram um tornado, outros viram um tufão, há até quem fale, são os antigos, na mão vermelha do diabo, uma mão direita e desnatural que chegou, apontou e depois ceifou, aleatória, descomunal.

Nunca ando sozinho, mãe, não te preocupes, disse eu ao telefone, ando com o Rui, é o Rui Oliveira, ele faz as fotos, tu já as viste, mãe, o nome dele aparece pequenino (mas as fotos dele são grandes, não são?), ele é do Porto, ele orienta-se tão bem (eu não, tu sabes, tenho outras coisas mas não tenho orientação), ele leva-nos sempre aonde precisamos de chegar, ele conduz bem, com ele estou seguro, mãe, sim, tomamos conta um do outro, tem que ser assim.

Mas estão cá mais colegas, mãe, ontem chegou a Sara e a Filomena e o Carlos e o Artur, e já cá estiveram a Joana, a Carla, a Carla é tão boa, mãe, que jornalista, e ainda o André, eles se calhar ainda vão voltar, tem que ser, ainda há aqui tanto que fazer, talvez quarta ou então quinta, devo voltar na quinta, não sei ainda, ninguém sabe lá no jornal, tu sabes que temos que estar aqui.

O telefonema foi curtinho, isso é anormal, muitas vezes falamos meias horas, é sempre à noite, quando eu chego tarde para jantar, quando chego cedo ela espanta--se, mas ontem não, não conseguia, não lhe disse mais nada, não lhe disse, claro que não, que ando aqui sempre quase a chorar, mas não é por mim, mãe, eu estou bem, é por eles, mãe, ninguém merece morrer assim, mãe, tantas pessoas que morreram a arder."

José Miguel Gaspar
20 Junho 2017 às 13:39
in: Jornal de Notícias

terça-feira, 13 de junho de 2017

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Armando Silva Carvalho

Armando Silva Carvalho (1938-2017). O homem que sabia a mar

O poeta Armando Silva Carvalho morreu ontem aos 79 anos. É lembrado neste testemunho pelo amigo de longa data, José Manuel de Vasconcelos, conhecedor profunda da sua obra marcada por uma rejeição constante do supérfluo, das modas e bordados poéticos.
  
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    Falar do Armando Silva Carvalho é inevitavelmente recordar grande parte da minha própria vida nestes últimos trinta e cinco anos, da qual ele, de maneiras várias, esteve sempre próximo. Lembrá-lo neste dia da sua morte física é convocar interiormente alguns amigos mais chegados, situações diversas, viagens, livros, escritores, e sempre esse imenso mar de Peniche, de um esplendor inquieto como ele próprio, que era a sua principal paisagem física e mental, junto do qual tantas vezes demos os nossos passeios e desenrolámos conversas nunca terminadas sobre as malformações do reino lusitano, a exiguidade de algumas das suas personagens e os travos agridoces da criação literária.
    e desenrolámos conversas nunca terminadas sobre as malformações do reino lusitano, a exiguidade de algumas das suas personagens e os travos agridoces da criação literária.
    Tal como Cesário Verde, uma das suas primeiras referências, andou durante muito tempo a medir as distâncias poéticas entre a cidade e o campo, quando trocou a sua região natal e o aperto de uma infância e adolescência mal suportadas, pela capital, sombria e, à sua maneira, também provinciana, na qual estudou direito, bastante a contragosto, fez jornalismo e trabalhou em publicidade como forma de ganha-pão.
    Olho Marinho, a aldeia onde nasceu,  em 1938, tem um nome curioso se pensarmos que a sua poesia é um permanente exercício do olhar, do olhar crítico, de ironia amarga, ressentida, por vezes provocatória, e que, por outro lado, o mar está presente desde cedo no que escreveu (poesia e prosa) e foi à sombra dele que viveu os seus últimos anos, virando costas às burguesices lisboetas, que cada vez mais deplorava, e regressando aos seus cenários de origem, apenas lamentando a distância a que deixou alguns amigos que muito estimava.
    No mar via sobretudo a vastidão e a força incontida, algo que se identificava com a própria “vulcanologia” poética, lamentando certa escrita enxugada de alguns confrades, alimento comum de um povo que “não soube ler na sua própria língua”. O sentimento ressentido ou o ressentimento sentido deste poeta que se qualificou sempre de acidental é uma tonalidade afectiva que acompanha toda a sua obra, sempre firmemente refractária a enxúndias poéticas e à goma elástica de certos versos que por vezes nos assolam. O mar de que falava adquiriu com o tempo uma dimensão metafísica, mesmo religiosa, sugerindo o poderoso ilimitado que nos transcende. A poesia de Armando Silva Carvalho foi sempre uma rejeição do supérfluo, das modas e bordados poéticos com seus rendilhados enfunados e pletóricos. Já em jovem escrevia: “Deitado no meu corpo/disfarço o mais que posso/o artifício que encanta”, dando-nos um vislumbre da importância que as coisas em geral têm na nossa vida, particularmente a coisa-corpo que nos arrasta pelo mundo, mesmo o mais espiritual, gerando por vezes “funestas alquimias” que nos são decisivas.
    Nesse tempo de florescência incontida, cultivava já a magreza das palavras, à sombra em parte da poesia 61 e dos poetas seus amigos que as exercitavam na corda bamba da expressão essencial, e sobretudo de João Cabral de Melo Neto, outra grande referência, poeta da secura e da dureza. Mais tarde, os seus versos ganharam amplitude horizontal, tornaram-se mais extensos, encheram-se de gritos surdos, alguns com a densidade das preces. Nos poemas escritos nos últimos anos da sua vida, quase confundia o mar da poesia, com a sombra do outro mar, o que lhe enegrecia os dias e o deixava face ao inelutável “peso das fronteiras”, sugestivo título de um dos seus primeiros livros.
    Se é verdade que ao longo de uma obra extensa como a sua, podemos encontrar momentos de diferenciação, de alguma clivagem, em livros como “Alexandre Bissexto” e, sobretudo, em “Canis Dei”, acentuando preocupações que, à falta de melhor, podemos classificar como espirituais, a poesia de Armando Silva Carvalho manteve sempre o registo da distanciação eloquente, traduzida por uma acidez enegrecida e densa, por vezes violenta, que frequentemente se transforma em auto-ironia, sem qualquer comiseração.
    Os seus últimos poemas falam sobretudo da consciência dorida da inevitabilidade do envelhecimento: “A verdade é só uma, o que foste ontem/já não te conhece (…) A idade abafou todo o prodígio,/ palmo a palmo, vou medindo o esplendor em dissolução. Palavra por palavra”. Há também aqui algo de premonitório, como se alguns poemas deste livro fossem o primeiro encontro com um tempo final que já começava a ser nítido, espécie de compte rendu antecipado do que sabia inevitavelmente viria a acontecer.
    A velhice e a decadência física que geralmente a acompanha não tem sido tema de eleição da poesia portuguesa, apesar de algumas obras fundamentais que dele tratam, como “Limite de Idade” de Vitorino Nemésio e “Terceira Idade” de Mário Dionísio. “A Sombra do Mar”, seu último livro publicado, é um notável exercício do direito de cada um contemplar o seu próprio fim. O seu tom não é desvalorizador, como no poeta açoreano, jocoso e auto-irónico, nem tem a ponderação discursiva do autor de “Solicitações e Emboscadas”. Aqui o sentimento é o de uma angústia de idades sobrepostas, de aceitação estóica, de uma corajosa mas lamentativa confrontação, sabendo-se que a sombra vai progredir sempre do mesmo modo, tal como o rugido permanente e inevitável do mar que se contempla em recolhimento, com essa espécie de ataraxia que o olhar provoca em resultado do sentimento de identificação.
    O mar deste último livro, que cintila nos textos as suas diversas acepções e que é sempre metáfora do que é essencial para o homem (o amor, a morte, o tempo, o júbilo, o sonho, Deus), é também o mar concreto de uma longa vivência nas suas margens. O poeta do mar de Peniche escrevia muitas vezes os seus poemas junto às escarpas, dentro do seu carro, não já o nervoso e impulsivo “amante japonês” de outros tempos, mas o abrigo mais caseiro de um tempo contemplativo e de grandes (e pequenos) balanços, já longe, felizmente, desse outro mar que foi horizonte da fortaleza, paisagem de cativeiro árduo e persistente, que lemos em “Os Ovos de Oiro”, “onde os peixes de atiram/ contra os barcos/ e as grutas dos rochedos/ nada acoitam.”
    Sempre o mar, de forma mais intensa e directa ou apenas discretamente, assombrou o imaginário de Armando Silva Carvalho. A sua voz persistiu, fez-se ouvir, clamando das profundezas, a invadir um quotidiano discreto, de hábitos trémulos, fragilizados por uma aprendizagem do nada ou do muito pouco, próximo da secura monástica. Os últimos tempos foram de solidão negociada com a morte, ouvia dela a voz monocórdica, por vezes exaltada, mas sempre intempestiva, como a dos loucos. 
    in: jornal 'SOL', 2.jun.2017