sábado, 31 de março de 2018

O caso Skripal _Opinião












"Parar...para Pensar" ou como esta estória está mal (ou ainda não foi) contada.

Este artigo de opinião vem pôr o dedo numa ferida que só agora começou a sangrar, mas que nada evita que vá infectar.

Uma esclarecida visão que vale a pena ler e... sempre se poderá interrogar.
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vêr, também: https://www.abrilabril.pt/internacional/os-dias-de-uma-guerra-apenas-sem-data

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O caso Skripal e as dúvidas que ainda subsistem



Na sequência das declarações de Theresa May, a primeira-ministra britânica, no parlamento, a 12 de março, e de Boris Johnson, o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, sobre o alegado envenenamento do agente duplo Sergei Skripal e de sua filha Yulia, as relações político-diplomáticas entre os países ocidentais - nomeadamente Estados Unidos e Reino Unido - e a Rússia deterioram-se a um ponto nunca visto desde o fim da guerra-fria, piores mesmo do que nos anos cinquenta do século passado. Theresa May acusou a Rússia de ser “muito provavelmente” responsável pelo duplo envenenamento. O assassinato “teria sido planeado diretamente pelo Kremlin”, ou a “Rússia teria permitido que o gás tivesse caído em mãos erradas”.
Desconheço quem possa estar por detrás deste incidente, mas estou particularmente interessado em saber o que realmente aconteceu. A serem verdadeiras as acusações feitas à Rússia justifica-se uma resposta firme. Contudo, a argumentação utilizada pelas autoridades britânicas apresenta algumas fragilidades não negligenciáveis. Mais de três semanas passadas sobre o incidente, justificava-se a apresentação de provas inequívocas e irrefutáveis sobre o envolvimento russo. Continua-se sem conhecer a identidade do perpetrador, assim como as circunstâncias e o local da ocorrência. O que se tem sabido é pela comunicação social e a informação é contraditória. Uns falam num pub, outros num restaurante, parece que os Skripal teriam sido encontrados moribundos num banco de jardim. Segundo alguns relatos o polícia que os encontrou teria tido contacto com o veneno em casa dos Skripals, segundo outros durante a prestação do auxílio. Seria conveniente conhecer a versão oficial.
Preocupa-me sobretudo a desastrosa gestão política do acontecimento. A falta de evidência tem sido acompanhada por um retórica inaceitável, pouco consentânea com aquilo que são as boas práticas da diplomacia internacional. O assunto deveria ter sido logo encaminhado no dia 4 de março para a OPWC, o fórum próprio onde o assunto deveria ser analisado. A Rússia argumenta com os termos do Artigo IX da CWC, que estipula a necessidade de se efetuar um primeiro esforço para clarificar e resolver, através de troca de informações e consultas entre as partes, qualquer assunto que possa colocar em dúvida o cumprimento das normas em vigor. Por seu lado, o governo britânico recusou-se a partilhar as alegadas evidências, assim como as amostras do produto alegadamente utilizado. A sua publicitação seria um xeque-mate. Contudo, não o fez, prolongando inutilmente (ou não) uma discussão.
O Reino Unido optou por politizar o assunto e levá-lo ao Conselho de Segurança da ONU, no dia 14. Nesse mesmo dia, já com todas as “certezas”, as autoridades britânicas convidaram a OPWC a levar a cabo uma investigação independente. Com a crise já instalada, a 19 de março – duas semanas após o envenenamento - chegaram ao Reino Unido os especialistas da OPCW. Felizmente que o tema não foi considerado ao abrigo do Artigo V pela NATO, apesar de ser considerado um ataque a um país da Aliança. Um caso baseado em hipóteses e não sustentado em evidências foi rapidamente equiparado a um ato de guerra. Teria sido mais curial esperar pela finalização das investigações. Acusar primeiro e investigar depois não parece ser a prática mais adequada.
Esta questão assume contornos burlescos quando o laboratório científico inglês que fez análises ao sangue dos Stripal concluiu pela exposição a um “nerve agent or related compound”… e as amostras indicaram a presença de um “novichok class nerve agent or closely related agent), não se comprometendo com uma prova irrefutável. Esperava-se que May tivesse promovido uma audição parlamentar ao diretor do laboratório para que este fornecesse todas as evidências e prestasse todos os esclarecimentos, nomeadamente sobre a origem russa da substância, uma prática comum nas democracia avançadas.
Ao contrário do que afirmou Theresa May são muitos os possíveis perpetradores, para além da Rússia, claro está. Naturalmente que a Rússia não poderá ser excluída da lista dos suspeitos, assim como muitos outros, nomeadamente os mais de 300 espiões que constavam na lista que Skripal entregou às autoridades britânicas. Mas a lista de putativos suspeitos não acaba aqui. São conhecidas as ligações profissionais de Skripal a Christopher Steele, e ao seu possível envolvimento no Russiagate. Skripal tinha-se tornado um elemento perigoso que podia causar danos na comunidade de inteligência americana, no Partido Democrata e por aí adiante. Existem vários precedentes similares. As autoridades policiais britânicas, tão zelosas noutras circunstâncias, revelaram-se particularmente descuidadas na proteção dos Skripal.
Não podemos deixar de nos interrogar sobre o que é que objetivamente teria a Rússia a ganhar - a alguns meses da realização do campeonato mundial de futebol no qual investiu avultadas somas de dinheiro para fosse um sucesso - em liquidar nesta altura um simples espião que deixara há muito de constituir um perigo, agravando assim as já tensas relações com o ocidente? A resposta não é evidente. Putin tem provado ser um ator racional. Tendo tido a oportunidade para eliminar Skripal enquanto este permaneceu nos calabouços russos, não o fez, porque o faria agora, depois de este viver oito anos em Inglaterra? É de facto difícil descortinar uma razão (lógica).
A argumentação de May apresenta igualmente fragilidades quando responsabiliza Putin por ter permitido a fuga do gás. Como se sabe, nos tempos da União Soviética, o novichok era produzido no Uzbequistão, fábrica essa que foi desmontada com a ajuda dos Estados Unidos em 1993. Sem salários, a venda de Nnovichok foi uma forma que na altura muitos funcionários encontraram para sobreviver. Dizer que se trata de um gás do “tipo desenvolvido pela Rússia”, não prova que a substância utilizada tenha sido processada na Rússia. Ser atropelado por um Mercedes não significa que a responsabilidade seja “muito provavelmente” do governo alemão.
É desconcertante vir agora o Reino Unido acusar a Rússia de não ter declarado todas as suas capacidades, não cumprindo as suas responsabilidades no âmbito CWC. A ser verdade – o que desconheço – sendo esta informação conhecida antes de 27 de setembro de 2017, a data em que a OPCW declarou a total destruição do arsenal russo, porque é que o Reino Unido não informou a OPCW com base no seu próprio intelligence, que tanto quanto sei tinha a obrigação de o fazer? Seria muito importante ouvir o que os responsáveis britânicos têm a dizer sobre isto.
Para além das questões de natureza técnica apontadas – que não se encontram esgotadas – há várias outros aspetos a relevar. Em primeiro lugar, o rasto de fiabilidade deixado pelos dois personagens responsáveis pela presente crise. Um, ainda ontem fazia campanha contra o Brexit e hoje lidera o processo de separação do Reino Unido da União Europeia, que por sinal lhe está a correr bastante mal; o outro, liderou a campanha contra o Brexit mas depois não quis assumir as devidas responsabilidades colocando a responsabilidade na condução do processo no primeiro. Convém lembrar que o partido liderado por May não tem, nem nunca teve pruridos em ser financiado pelos pouco recomendáveis oligarcas russos que se refugiaram em Londres, transformando a city num enorme tanque de lavagem de dinheiro russo. De acordo com o London Times e o Daily Telegraph, o partido da Sr.ª May terá recebido deles donativos no valor de £820,000.
Em segundo lugar, convém trazer à memória as conclusões do relatório Chilcot aprovadas pelo parlamento inglês, que chamava à atenção para as narrativas deliberadamente exageradas apoiadas em intelligence fabricado à “medida das necessidades” para convencer e receber o apoio das opiniões públicas. Claramente que esta possibilidade não pode nem deve ser descartada neste caso. Terão sido as mesmas fontes - igualmente credíveis - em que se baseiam agora May e Johnson que terão convencido Blair da irrefutável posse de armas de destruição massiva pelo Iraque. São conhecidas as consequências desastrosas dessas crenças sem a devida certificação.
Recordamos ainda o papel desempenhado pelas chamadas empresas de “Strategic Communications” como a Cambridge Analytica e a Strategic Communication Laboratories próximas do partido Conservador e do aparelho militar britânico, contratadas para influenciar a opinião pública levando-a apoiar o Brexit, algo de que apenas se conhece a ponta do iceberg. É pois na palavra destas pessoas que estamos a colocar o nosso futuro coletivo. Fará, provavelmente, algum sentido parar para pensar e refrear os ânimos.
Encontramo-nos numa estrada perigosa. Assistimos a algo que se assemelha ao início de uma guerra. As guerras, leia-se os confrontos militares generalizados, são sempre precedidos por uma escalada que passa pela subida de tom na retórica, a demonização do oponente, o reforço dos dispositivos militares e a conquista da opinião pública para apoiar ações mais assertivas contra o oponente. Depois é necessário criar um acontecimento, um pretexto que não tem necessariamente de ser causado pelo oponente e que é normalmente provocado por quem pensa que vai beneficiar com o resultado da guerra. Sabe-se hoje quem montou a armadilha que levou à guerra do Vietnam, à guerra espanhola-americana e muitas outras mais recentemente. Por isso, convinha que prevalecesse o bom senso.
Começa a ser claro que o campeonato mundial de futebol será um palco desta luta. Mas enquanto for só isso… a histeria russofóbica faz parte da operação de moldagem das opiniões públicas, preparando-as para o confronto. Com o clima criado poderá nem ser necessário conceber um pretexto. Bastará um imprevisto, um erro de cálculo para nos levar para uma situação sem retorno, fazendo com que a crise político-militar se transforme numa confrontação militar direta. Essa possibilidade afigura-se-nos muito elevada. A nova postura nuclear dos Estados Unidos e a crença de que se consegue manter uma guerra ao nível nuclear tático, sem evoluir para o patamar estratégico e para a destruição total são mais alguns ingredientes que nos devem fazer refletir. A presente crise – real ou fictícia – enquadra-se perfeitamente no modelo. O que está mesmo a fazer falta é testar os efeitos das novas armas hipersónicas.

in: jornal 'Expresso"

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domingo, 4 de março de 2018

Antônia Rodrigues_Oficial Cavaleiro (incrível)





Aqui se conta a incrível vida de Antónia Rodrigues, a amazona de Aveiro


 
D.R.

No final do século XVI, disfarçou-se de António, foi grumete de caravela e bravo oficial-cavaleiro em Mazagão

J. Plácido Júnior
Jornalista
No início do século XX, a Rua de São Roque, no casco histórico de Aveiro, passou a chamar-se Rua Antónia Rodrigues. Ainda lá está a placa justificativa da mudança toponímica: “A célebre Antónia de Aveiro que, fugindo de casa aos 15 anos, foi, vestida de homem, combater gloriosamente os Mouros em Mazagão, onde obrou prodígios de valor, conservando durante anos, com a sua virtude, o segredo do seu sexo.” Por exemplo, apertando com um pano 
os seios contra o peito.
Mas o ceticismo sobre a existência de tal figura durou décadas. Desses desconfiados, o vereador da Cultura da Câmara de Aveiro, Capão Filipe, habituou-se a ouvir, em tom sarcástico, que “cada país teve a sua Joana d’Arc”, como conta à VISÃO. A descrença, porém, foi deixando de fazer sentido.
O primeiro a atacar os céticos foi o artista plástico Marcos Muge. Em 2001, criou e pintou um painel de azulejos de 4,50 por 2,40 metros, em homenagem a uma “mulher à frente do seu tempo”. O artista estudou a indumentária militar da época (fins do século XVI) e, sobretudo, a Descrição do Reino de Portugal, texto publicado em 1610. A obra é de Duarte Nunes de Leão, contemporâneo de Antónia Rodrigues, 
e relata com riqueza de pormenores a vida 
e os feitos da heroína aveirense, confirmando o que está resumido na placa toponímica – hoje muito degradada.
Marcos Muge só por duas vezes teve oportunidade de exibir o seu painel de azulejos em Aveiro, a última das quais em 2010. “Como Antónia Rodrigues veio do povo, não é lembrada, na cidade, com uma obra plástica digna”, critica. Pouco depois, ouvimos uma frase idêntica: “Era uma mulher do povo e, por isso, não faz parte das narrações da História”, diz Mário Silva Carvalho, autor do romance 
A Amazona Portuguesa(Saída de Emergência, 256 págs., €16,60), lançado recentemente. Lê-se na capa que a obra é inspirada na “história verídica de uma jovem que, disfarçada de rapaz, conquistou honras e regalias no Exército português”, ou seja, Antónia Rodrigues.

POBREZA E GLÓRIA

Antónia nasceu em março de 1580 numa casa pobre de pescadores, fora das muralhas da vila de Aveiro. Tinham passado quase dois anos sobre a trágica derrota de Alcácer-Quibir, na qual morreu o rei D. Sebastião, solteiro e virgem. Na atribulada crise sucessória que se seguiu, 
o rei de Castela, Filipe II, seria designado rei de Portugal, sob o título de Filipe I.
A menina seria, aos nove anos, entregue aos cuidados da irmã mais velha, Inácia, que se casara com um carpinteiro naval e vivia num cubículo em Lisboa. Em 1610, Duarte Nunes de Leão relatava a “aspereza” e o “mau tratamento” de Inácia para com a irmã mais nova. Aos 15 anos, com algum dinheiro ganho em biscates, comprou roupa masculina e, num casebre abandonado, vestiu-a. Depois, com uma tesoura surripiada à irmã, desfez-se das tranças castanhas alouradas e ajeitou o corte de cabelo ao dos grumetes. De seguida, conseguiu embarcar numa caravela que transportava trigo para Mazagão, dizendo chamar-se “António Rodrigues”. Mas, quando o barco fundeou em Setúbal, 
o novo grumete testemunhou, à noite, que o mestre e a tripulação desviavam parte do cereal para botes que se encostaram ao navio. Detetado o ilícito após a chegada à praça-forte, o “rapaz” confirmou-o às autoridades, sem identificar os autores. O governador, D. Diogo Lopes de Carvalho, entendeu que o grumete não devia voltar à caravela. Temia que, “na primeira noite de mar”, o mestre o destinaria a “pasto para peixes”. Ficava melhor como praça da guarnição de Mazagão
Licenciado em História, Mário Silva Carvalho mergulhou ao longo de quase quatro anos na busca de documentos sobre a destemida aveirense (outro exemplo: o livro Theatro heroino – Abcedario historico, e catalogo das mulheres Illustres em Armas, Letras, Acçoens Heroicas, e Artes Liberaes, do Frei João de São Pedro, publicado em 1736). E acabou por escrever um romance em que é ténue a fronteira entre a ficção e o rigor histórico. Mas o documento crucial da obra é o Alvará de Mercê do rei Filipe II que, em dezembro de 1602, concede uma tença (pensão) vitalícia de “cinco mil réis” por ano “a Antónia Rodrigues”, pelos feitos que durante cinco anos alcançou na praça-forte de Mazagão, em Marrocos, enfrentando os ataques diários dos mouros, como “espingardeiro de cavalo e de pé, em trajos de soldado”.
Naquele ano, a nossa heroína foi obrigada a despir a carapaça com a qual teve artes de enganar, nas casernas, “homens belicosos, beberrões, gabarolas e brigões”, como descreve Mário Silva Carvalho. Sucedeu que a filha de um nobre se apaixonou perdidamente pelo cavaleiro-sargento António Rodrigues e, na ausência de correspondência amorosa, caiu à cama doente, recusando alimentar-se. O governador da praça-forte, D. Diogo Lopes de Carvalho, coagiu-o a casar-se com a jovem. E Antónia Rodrigues entregou-se, em confissão, ao padre Malafaia, que acabou por conseguir amenizar a ira inicial das autoridades e que a urbe (cerca de dois mil habitantes, 500 dos quais militares) a amnistiasse.
Ainda em Mazagão, Antónia casar-se-ia, em 1603, com um oficial, de quem teve um filho. Em 1607, regressou a Lisboa com a família. Depois, já viúva, ingressou na corte, em Madrid, de Filipe II (III de Espanha). Com a morte do monarca, em 1621, sentiu-se marginalizada pelo sucessor e voltou a Portugal. Aqui, perde-se o seu rasto. Terá morrido em 1641 ou 1642, com 61 ou 62 anos. Mas, no seu romance, Mário Silva Carvalho dá-lhe um final glorioso – que, claro, não desvendamos.

in: revista "Visao"

domingo, 25 de fevereiro de 2018

La Llorona por Susana Travassos - Teatro Solis - Uruguai (Abril 2016)







Susana Travassos

"Uma palavra cuja raiz é o mar. Uma voz cujo espaço é a fronteira. Parece que a carreira de Susana Travassos (Faro, 1982) foi mergulhada no ritmo marítimo da cidade de Vila Real de Santo António, vizinha da Espanha, onde morava até a adolescência e onde gerava sua vocação musical. Mas também do horizonte de Lisboa, onde ele continua seu treino e em 2008 seu primeiro álbum "Oi Elis" nasceu, um ir e vir entre latitudes, acentos e inspirações em diálogo com um dos maiores cantores brasileiros, Elis Regina. Como um passaporte feito de tributo, esse álbum levaria ao Brasil, onde passava várias temporadas colaborando com os músicos mais importantes do país até se instalar em São Paulo há um ano. Seu relacionamento com a música brasileira e a cultura já apresentaram várias frutas, como o álbum "Tejo-Tietê" em colaboração com Chico Saraiva e produzido por Paulo Bellinati, ou colaborações com Chico César e Zeca Baleiro. Como o mar, Susana puxa a distância, ela sai para poder retornar. É por isso que o ritmo de seu país natal emerge no novo álbum no qual "Asas de água" está funcionando. Com os braços largos que acolhem a diversidade que a caracteriza. Susana conquistou as etapas mais importantes de Portugal e Brasil. É sobre eles, na franqueza de sua voz, onde o mar tem todas as distâncias: sua música é uma arte de encontros."

(Texto escrito pelo jornalista e poeta Nieves Neira Roca)

in: http://www.teatrosolis.org.uy/uc_3010_1.html




domingo, 18 de fevereiro de 2018

António Lobo Antunes_Quatro Cartas de Amor_I

QUATRO CARTAS DE AMOR: PRIMEIRA

Como se pode estar cheio de paixão e não conseguir transmiti-la? E não sou má pessoa, palavra. Quer dizer: acho que não sou má pessoa. Depois hoje fiquei sem metade do corpo. A que sobra irá desaparecer por seu turno, é uma questão de tempo. Continuarei sozinho dentro de mim

Susa Monteiro
O meu ouvido esquerdo morreu hoje, dia 3 de Janeiro de 2018, por volta da uma hora da tarde. Esperava que durasse ainda mais algum tempo, uns anos, uns meses. Estava enganado: metade de mim desapareceu num estalar de dedos, para sempre. Não é trágico: é só horrível. E isso a gente aguenta. A otoesclerose é um problema hereditário: recebi-o da minha mãe, do meu avô, por aí fora. Dos Almeida Lima, porque sou Almeida Lima, de que tanto gosto. Não me lembro de ver o meu avô Almeida Lima sorrir. Quase não falava, também. Uma ocasião, em criança, perguntei ao meu pai se gostava dele. Respondeu
– Quem é que não gosta dele?
Morreu novo, tinha eu treze anos
(não, doze)
sou o filho mais velho de dois filhos mais velhos e foi a única vez que vi o meu pai chorar apesar dos óculos escuros, ele que nunca usava óculos escuros. A frase
– Quem é que não gostava dele?
nunca se apagou em mim. Era uma pessoa silenciosa e discreta, de grande beleza física. Demorei anos a perceber que sofria muito. 
A minha mãe, também surda, adorava-o. Passou 
pela vida sem nunca incomodar ninguém. 
Herdei-lhe a surdez: infelizmente não lhe herdei a bondade. Nunca o vi zangado, nunca o vi ralhar fosse com quem fosse. A minha mãe
– O teu pai gosta mais da minha família que da dele
e era verdade. Ele, que quase nunca saía, passava sempre o mês de Setembro em Nelas, na casa dos Almeida Lima, na varanda para a serra. Quando 
o nosso pai morreu o meu irmão Joãozinho, que é como continuo a tratá-lo dentro de mim, estava em Bragança, numa dessas comemorações do 
10 de Junho, e veio logo para Lisboa mas pela Beira Alta, claro, em homenagem ao pai, e quando chegou e nos abraçámos agradeci-lhe tê-lo feito, respondeu-me
(nunca esquecerei a sua cara)
– Os teus direitos de primogenitura
ele que tinha muito mais qualidades de primogénito do que eu, que vivo num mundo que nem sei bem 
qual é. Adiante. Anda-me lá com isto, Almeida Lima. 
Por volta dos quinze anos, a minha mãe começou 
a ensurdecer. Os meus avós levaram-na ao médico. Contava ela que lhe disseram
– Não caia na asneira de ter filhos para não lhes transmitir esta doença.
Perguntei
– O que fez a mãe?
Respondeu-me
– Chorei uma semana e depois arranjei seis rapazes.
Acrescentou
– Desafio qualquer mulher 
no mundo a ter filhos tão bonitos 
e tão inteligentes como os meus
num movimento orgulhoso 
e tranquilo. Apesar de fisicamente frágil era dura como aço. O meu pai, quase no fim da vida
– A tua mãe é uma pessoa extraordinária
sempre sem uma queixa, uma pieguice. Quando o Pedro morreu fomos os cinco a casa dela. Disse apenas duas frases. A primeira foi
– Tenham misericórdia de mim
e a segunda
– Uma mãe não tem o direito 
de estar viva com um filho morto.
E foi logo ter com ele, resoluta, sem uma queixa, sem uma lágrima, sem um sobressalto sequer. Pegámos no seu caixão na igreja e levámo-
-lo aos ombros. Fui uma besta de incompreensão e violência para com ela quando lhe disse anos antes
– Quis fazer de nós uns aleijados, não foi?
E ficou calada a olhar-me. Assim, que tempos 
a olhar-me em silêncio. Eu era o grande problema dela: indisciplinado, desobediente, mau aluno, cercado pelo mimo todo da família. A minha mãe, entrevistada num livro espanhol, acerca de mim:
– Foi sempre recebido por todos como um deus na terra.
Era verdade: tratavam-me tão bem. E eu insaciável, esquisito, parvo, com uma ferida enorme cá dentro que não entendia, fechado num mundo de angústia, contraditório, violento, a tremer de um amor que me consumia e não era capaz de comunicar a ninguém. Depois melhorei ao começar a escrever. Como se pode estar cheio de paixão e não conseguir transmiti-la? 
E não sou má pessoa, palavra. Quer dizer: acho que não sou má pessoa. Depois hoje fiquei sem metade 
do corpo. A que sobra irá desaparecer por seu turno, 
é uma questão de tempo. Continuarei sozinho dentro de mim. Como o meu avô. Como o meu avô mas sem a sua bondade, a sorrir vagamente num canto da varanda para a serra, fechado na redoma de silêncio que me deixou. Lembro-me do seu sorriso. Herdei-o: é meu agora. Pode ser-se feliz assim. Pode ser-se feliz assim? Que pena não conseguir perguntar-lhe. Como se sentem os senhores como você, porque foi sempre um senhor, e os palermas como eu nunca lhe chegarão aos calcanhares? Queria tanto vê-lo agora na vindima, de casaco de linho entre os cachos de vinho branco. Por mais moucos que estejamos os dois e por muito pouco que falássemos havíamos, palavra de honra, de conversar todo o tempo: une-nos 
a menina dos olhos da sua filha, que o avô plantou com paixão neste mundo enquanto eu sou apenas 
o produto mais rebelde dela. Mas por acaso vi-lhe o rosto quando foi da história do meu cancro. Olhe, não se aborreça comigo mas nunca dei por tanto amor num rosto de mulher. Agora multiplique isto por seis e junte-os ao pai deles. 
A primeira vez, depois da partida do meu pai, que entrei na sua casa, disse
– Isto sem o pai fica vazio.
Ele que estava sempre fechado no escritório. A mãe respondeu, de mansinho
– É que o teu pai tinha uma presença muito forte.
E agora, avô, diga-me lá como se vai aguentar com tantos rivais ao mesmo tempo?
Lembra-se do verde dos olhos dela? Lembra-se que até os seus pés eram perfeitos? Mãe, mãe, não nos deixe nunca. Posso não mostrar porém amo-a tanto. Desculpe lá a mariquice eu que uma ou duas vezes
(talvez três)
a sentei ao meu colo. Não imagina como me senti feliz.
(Crónica publicada na VISÃO 1301, de 8 de fevereiro de 2018)