terça-feira, 27 de julho de 2021

primeira impressão...



"O QUE EU ANDO A LER

Ando preocupado com as coisas à primeira vista, não propriamente aquelas paixões e aqueles amores à primeira vista poeticamente emocionantes e exclusivamente literários, esses são geralmente inofensivos na nossa vida quando circunscritos à arte, mas preocupo-me com as outras coisas à primeira vista: as certezas à primeira vista, as desilusões à primeira vista, as desistências à primeira vista, os incómodos à primeira vista, as avaliações à primeira vista, as precipitações à primeira vista, os julgamentos à primeira vista e todos esses derivados comportamentais impressivos e tantas vezes excessivos, creio que tudo isso é certamente dissuasor e possivelmente destruidor de segundas oportunidades que devíamos dar às pessoas, o que é circunstancialmente ofensivo quando acontece na nossa vida - às vezes somos os ofendidos noutras os ofensores e por vezes somos isso nas ocasiões mais inofensivas: alguém novo no trabalho fala-nos de uma maneira que nós velhos nesse trabalho não gostamos e decidimos imediatamente que essa pessoa é arrogante, um desconhecido num jantar em que quase todos são conhecidos discute com mais extravagância e concluímos irremediavelmente que é intragável, alguém que admiramos por ter feito coisas admiráveis um dia reúne-se connosco e achamos que afinal é um palerma por nos ter feito sentir palermas nesse encontro, e é assim que às vezes se perdem coisas determinantes na vida por nos perdermos com os determinismos das conclusões à primeira vista: a pessoa nova no trabalho pode ser uma grande amizade desperdiçada, a pessoa do jantar uma grande relação desaproveitada e a pessoa da reunião uma grande mentoria menosprezada, é certo que há situações mais graves que estas e com danos maiores quando julgamos e sentenciamos à primeira impressão sem estarmos disponíveis para uma segunda oportunidade mas há também ofensores que são privilegiados porque são ofensores perdoados, é um grande ensinamento com ganhos únicos: houve um dia que me aconteceu há muitos dias mesmo, foi há tanto tempo que não me lembro dos detalhes mas só das consequências, nesse dia entrevistei uma pessoa que queria um estágio de jornalismo para cumprir o sonho que eu cumpro todos os dias, que é ter o privilégio e a responsabilidade de servir gente informando-a, recordo vagamente o nervosismo da pessoa e de ela me ter respondido o que eu queria à última pergunta que faço sempre nessas entrevistas, “sou um comandante dos bombeiros, há um incêndio atrás de mim, estou disponível para responder a todas as tuas perguntas: qual é a primeira que me fazes?”, meses depois a pessoa contou-me que me odiou por aquela entrevista em que acabámos a apagar incêndios e que o desdém por mim se manteve durante o estágio que a pessoa conquistou naquela entrevista em que ela me convenceu e eu a intimidei - às vezes os ofensores ofendem negligentemente e isso não é desculpa porque é pior que desculpa, é alheamento, logo uma forma de desrespeito, portanto: peço perdão, pessoa -, continuando: lembro-me ainda de ler um texto da pessoa sobre o Bowie no dia em que ele morreu e de ter ficado em silêncio, aquele silêncio-espanto, que texto tão certo, às vezes são os mortos que aproximam os vivos, não sei o que mudou dali em diante nem como mudou nem que tempo levou a mudar, até porque o jornalismo colocou-nos entretanto em rotinas quotidianas diferentes, mas um dia apercebo-me de que aquele ódio (termo violento, sei bem, mas o ódio tem escalas diferentes e por vezes é usado por questões de simplificação) dizia que aquele ódio da pessoa por mim transformou-se numa completa segunda oportunidade em que passámos a partilhar alegrias, tristezas, separações, uniões, altos, baixos, euforias, desalentos, triunfos, derrotas, canções, estrofes, livros, parágrafos, desabafos, confissões, discussões, ilusões, dúvidas, erros, acertos, conquistas, avanços, recuos, abraços, lágrimas, silêncios, jantares, almoços, debilidades, virtudes, ambiguidades, certezas, tudo mérito dela em benefício meu (e espero que em benefício dela também) porque aquela pessoa decidiu que as pessoas não são um só momento nem um só comportamento e que às vezes - se é que não todas as vezes - há que ter a coragem e até a fé de não se desistir do outro, perdoai-nos Senhor as ofensas à primeira vista e louvai-nos as insistências à segunda oportunidade, amém, e isto não é uma lição de moral mas somente uma ilação de alegria, a minha, lembrei-me da força desta amizade à segunda oportunidade porque comprei o “Sétimo Dia” do Daniel Faria, é um livro que vinha devidamente recomendado mas julguei-o à primeira vista - começo a folheá-lo e vejo pouco texto mas mesmo demasiado pouco por folha, a seguir conto várias páginas mas várias mesmo em branco, são 19 vazias, e decido que €15,50 é dinheiro a mais para tantas palavras a menos, depois vou ao prefácio e desisto dele à primeira vista porque pareceu-me um texto de um académico encantado com o autor em vez de um leitor encantado com o poeta, decido portanto fugir do prefácio e passo aos poemas, li-os num instante porque bastou-me entrar no comboio em Lisboa e ao passar Santarém já estavam todos lidos mas obviamente incompreendidos, sei bem que quaisquer poemas precisam de mais do que os 83 quilómetros da minha leitura para se entranharem mas já tinha o julgamento pré-feito tão mal feito, e quando cheguei ao Porto uma amiga-família que já me deu não duas mas 73 oportunidades diz-me que este é o livro do ano para ela e que eu tinha de dar uma nova oportunidade ao Daniel Faria, sorri, “oportunidade”, então fui reler o livro no comboio de volta e os 300 quilómetros do Porto até Lisboa não foram suficientes para chegar ao fim, li devagarinho com toda a devoção da segunda oportunidade e, sem saber exatamente como nem onde nem quando, deixei de ouvir o comboio sobre os carris e as conversas de domingo no Alfa porque senti silêncio, aquele silêncio-espanto, que livro tão certo, às vezes são os mortos que nos fazem sentir vivos, o Daniel Faria morreu aos 28 anos e sublinhei-lhe isto no “Sétimo Dia”:

“Pus o despertador a despertar de hora em hora. De hora em hora vejo a febre. Mantém-se estável. Amanhã levanto-me. De três em três horas telefono a um amigo diferente. Normalmente ninguém me atende. Às vezes deixo mensagem. Deixo a promessa de ligar de novo. Gosto muito de prometer”,

e também isto:

“Disseram-me que teriam de me cortar o braço e eu disse o que é que eu sou mais do que as videiras. Ainda não era Outono e as folhas começaram a cair.
Eu não sou das espécies persistentes. Eu baixo os braços mesmo quando não desisto.
Até os dias caem, as penas dos pássaros, as hastes dos veados. Pousei a cabeça em choro sobre o braço, como se a pousasse sobre o ombro de ninguém”,

e ainda isto:

“Bato à porta do teu quarto mesmo quando sei que não estás. Descobri agora quanto custa aos mendigos, não digo a fome, mas não haver ninguém”,

só mais isto:

“Estás com fome? Tenho aqui grãos de milho, não sei se te agrada. Posso pô-los ao lume e fazer pipocas num instante. Não sei se gostas de pipocas, mas sempre distrai um pouco. Além disso estou a ficar triste e o estoirar das pipocas pode dar-nos um ar mais festivo.
Este tacho comprei-o numa feira. Acreditava naquela altura que era um utensílio normal e necessário na casa de um homem solitário. É muito bom poder comer contigo.
É muito bom não ficar só à mesa. Na verdade a presença dos outros tem-me sustentado mais do que qualquer alimento. Quando um homem come sozinho é um aborrecimento esperar que a comida arrefeça, e quando arrefece já se perdeu a fome, para comer é mesmo preciso um certo esforço. Um homem que come sozinho devia era ter terror: se se engasga quem lhe baterá nas costas?”,

na verdade sublinhei as páginas quase todas porque a minha caneta prestou admiração a dezenas de frases do Daniel Faria, agora é o meu livro do ano também, e decidi logo o que fazer quando cheguei a Lisboa, tão simples tão óbvio tão urgente: comprar este livro de que desisti à primeira e a que já não resisti à segunda para oferecer à pessoa que resistiu à nossa primeira vista mas que não desistiu da nossa segunda oportunidade, os livros contam-nos as vidas de outros mas também nos lembram o que outros já nos deram na vida e como o deram (“Lia todos os livros como se fossem uma descrição da sua própria vida, vivia-os”, Peter Handke em “Um Adeus Mais-Que-Perfeito”), e entre a ida à livraria até ao momento em que lhe ofereci o “Sétimo Dia” entendi também para que servem as 19 páginas em branco do livro do Daniel Faria: escrevi nelas para explicar à pessoa com quem construí esta amizade-fortaleza que o comandante dos bombeiros que naquela entrevista de estágio queria que lhe perguntassem quantos feridos havia sente uma profunda gratidão por todos os que como ela não desistem dos que foram-estão-serão feridos pela solidão:

“É duro não ter ninguém que nos diga que deixamos um pouco da barba por desfazer. É duro não ter ninguém que nos tire um cisco do olho. Os olhos que estão sempre tão ameaçados. Por tudo o que se vê, pela ausência, pelo pó, pelo sono, pelos máximos do carro que nos aparece em frente, pelas próprias pestanas que nos defendem, pelo invisível, pela violência, pela nudez, pela beleza, pelo desastre, pela miopia. Sobretudo pela aparência. É preciso alguém que nos livre da ceguez”. Daniel Faria 1971-1999."


Germano Oliveira in "Expresso Curto",
de 27.Jul.2021


quarta-feira, 26 de maio de 2021



morrem aos pares

Poetas das manhãs

no crepúsculo

dos dias

para sempre

guardados.




rios que correm

sem margens

na savana angolana.

.

LMC






DAQUI:

MARIA ALEXANDRE DÁSKALOS

(1957-2021)


Nasceu em mim uma fonte

nada sabia dessa água

até encontrar as margens

desta escrita

que quis fosse lisa

como pedra mármore





***





Amendoeiras selvagens

em flor

a rasgar o verde

da mata de inverno.



Plenitude de maturidade

como relógio de areia

a marcar os quarenta anos.





***



Um homem ao crepúsculo

sabe que os poetas e as mulheres

percorrem as ruas da cidade



na peregrinação dificílima do amor.

Esperam-nos em caves secretas

ungüentos e odores tropicais

então, um homem tranqüilo torna fácil a nudez.





***





As velhas tias organizam velórios

e com o pêndulo do ocaso



invertem as rotas dos barcos

saídos do cais ao fim da tarde.



Ecos que já não lutam com ventos perigosos

de aromas marinhos

anseiam chegar à ilha para ver os pássaros

e

preguiçar na promessa de uma ilusão cumprida

Ao fim da tarde...





***



A alma é como a lavra.
Quando as nossas mãos voltam a desfiar.
O milho amarelo de ouro?
Que outras mãos que as nossas semeiam
O medo e o silêncio da morte?
Por que este frio? Por que tão longa a noite?
Como se faz o mundo? Quando começa o mundo?


***



O garoto corria corria
Não podia saber
Da diferença entre as flores.
O garoto corria corria
Fugia.
Ninguém lhe pegou ao colo
Ninguém lhe parou a morte.




***



E agora só me restam
os poetas gregos.
O silêncio diz - esquece.
E o espinho da rosa enterrado no peito
é meu. Os deuses não assistiram a isto.

*



Maria Alexandre Dáskalos, poeta angolana, nasceu em Huambo, em 1957, filha do poeta e intelectual nacionalista Alexandre Dáskalos. Estudou nos colégios Ateniense e de São José de Cluny, formando-se em Letras. Em 1992, durante a guerra civil, mudou-se para Portugal, com a mãe e o filho. Atualmente, é jornalista na RDP África e mestranda em História Contemporânea. Publicou Do Tempo Suspenso (1998), Lágrimas e Laranjas (2001) e Jardim das Delícias (2003).








Arlindo do Carmo Pires Barbeitos

(1940-2021)



Arlindo do Carmo Pires Barbeitos, nasceu em Catete, Província de Icolo e Bengo, Angola, em 24 de Dezembro de 1940. Em 1961, foi obrigado a fugir de seu país por motivos políticos. Viveu na a França, Bélgica, Suíça, e Alemanha, onde cursou Antropologia e Sociologia na Universidade de Frankfurt. Tem doutorado em Etnologia e foi professor na Universidade Livre de Berlim Ocidental e na Universidade de Angola, para onde regressou em 1975.





No tempo/em que as pacaças entravam



no tempo

em que as pacaças entravam

pelos povoados

o vôo alvoraçado das perdizes

carregava sonhos

que

a mãozinha inerme de criança

feliz

agarrava ao lusco-fusco dos muxitos

no tempo

em que as pacaças entravam

pelos povoados



(Na leveza do luar crescente)





Oh flor da noite/onde todo o orvalho se perde



Oh flor da noite

onde todo o orvalho se perde



teus olhos

não são estrelas

não são colibris



teus olhos

são abismos imensos

onde na escuridão

todo um passado se esconde



teus olhos

são abismos imensos

onde na escuridão

todo um futuro se forma



oh flor da noite

onde todo o orvalho se perde



teus olhos

não são estrelas

não são colibris



(Angola Angolê Angolema)





"borboletas de luz"



borboletas de luz



esvoaçando

de cadáver em cadáver

colhem

o fedor dos mortos em

vão



e

pelos buracos da renda

dos dias

passam alacres

do mundo do esquecimento

ao país da indiferença

levando consigo

o pólen fatal

das flores da guerra



borboletas de luz



(Na leveza do luar crescente)





"oh alambique..."



oh alambique

de saudade



destilando

álcool de poesia

pára pára



oh alambique

de saudade



(Na leveza do luar crescente)





"imersa em sereno de lusco-fusco"



imersa

em sereno de lusco-fusco

e

suspensa em vazio



São-Tomé



carrocel de montanhas

carregador de nuvens

transportados de sonhos

irrompendo

de abismo de espuma

e

sumindo

em precipício de bruma



São-Tomé



suspensa em vazio

e

imersa em sereno de lusco-fusco



(Na leveza do luar crescente)





"na leveza do luar crescente"



na

leveza do luar crescente

sobe

a ilusão da felicidade

que

teu gesto distraído

me dá



como se

plumas vogando suaves

na brisa

fossem

vida de pássaro apodrecendo

na

leveza do luar crescente



(Na leveza do luar crescente)





"na transparência da tardinha"



na transparência da tardinha

que

impávidos imbondeiros sombreiam



cantar de galinha do mato

é

eco de um tempo

em

que ilusão e verdade

cirandavam alheias ao mundo



a esperança medrava verde

verde

como rebento de capim de outubro



na transparência da tardinha

que

impávidos imbondeiros sombreiam



(Na leveza do luar crescente)





"pela névoa de pesadelo"



pela névoa de pesadelo

a dor passa

clandestina

a fronteira dos instantes

e implacável

monta guarda

ao porão dos dias

ao contorno dos gestos

ao ruído das coisas

e

ao sentido das palavras

embaciadas

pela névoa do pesadelo



(Na leveza do luar crescente)








CARNAVAL CARNAVAL CARNAVAL

carnaval carnaval carnaval

guizos apitos dicanzas* gomas2** puitas*** e quissanges
vozes

vozes cantando berrando gritando chorando gargalhando

[e calando

papel riscado seda serapilheira peles e pele missangas pulseiras chapéus espelhinhos cacos de

[garrafas e outras coisas

vermelho amarelo verde azul

azul verde amarelo vermelho o céu e o sol

carnaval carnaval carnaval



olhos para o ar mãos sem nexo peitos em turbilhão ventres abobadados cus em assimetria e corpos jazendo gentes

gentes gingando bamboleando saracoteando

[massembando^ cambalhotando e dormindo



carnaval carnaval carnaval

poeira

poeira branca como fuba bombó***** cobrindo

crianças cães folhas mangas água e tudo

cheiro

cheiro de bode cheirando de lábios revirados e mijo

[das cabras

cheiro de bagre seco repousando na calma das quinda******
cheiro de catinga em nossos sovacos ardentes
cheiro de sentina que o vento traz das piteiras ao lado

[de cacimba

cheiro de chuva de ontem nas lavras sem ninguém

e cheiro de pólvora dum outro dia de fevereiro ainda

[por chegar



carnaval carnaval carnaval



feiticeiro velho que fala com jacaré
passeando lentamente de chucho no ombro e branco

brando vendendo vendendo carnaval carnaval carnaval



1 dicanza — chocalho.

goma — espécie de tambor.
pufta — cuíca
massembando — dançar a massemba (dança tradicional de Angola).
fuba bombó — farinha de mandioca.
Quinda - cesto







O JOÃO CAMBUTA QUE FORA MILITAR





O joão cambuta que fora militar tinha um apito da tropa

O Nando china que era mulato fez uma gaita de caniço

6 quinda - cesto

O Chico pernambucano que não era brasileiro mas que mancava da perna direita trouxe uma puíta* do avô caçador



O Tumba pastor porque era do sul
marcava ritmo com dois pauzinhos


O Pazito funileiro que vinha de Capolo
só tocava de assobio
mas não estragou a música.



*puita - inztrumento musical





A SOMBRA DA ARVORE VELHA DE MUITOS SOBAS





A sombra da árvore velha de muitos sobas.*
só cresceram muxitos**

O sussurrar encarcoleante dos surucucus d'areia

marcava dédalos efémeros

que os quissondes*** iam devorando

A sombra da árvore velha de muitos sobas só cresceram muxitos



*sobas – chefes tradicionais
**muxitos – arbustos
***quissondes – formigas grandes






BEIJO ATÉ A GARGANTA TUA BOCA PANTANAL





Beijo até à garganta tua boca pantanal

paradeiro obsidiano de sapos miasmas excrementos e

[orquídeas roxas
respiro teu halo mortífero de febres palustres
chupo tua língua dura
tronco de mulemba* carcomida
que sopro de mologe** zangado
fez tombar à água
em noite de trovoada seca
respiro teu halo mortífaero de febres palustres
beijo até à garganta tua boca pantanal
paradeiro obsidiano de sapos miasmas excrementos e
[orquídeas roxas





*mulemba – árvore de fruto comestível
**mologe - feiticeiro

sábado, 15 de maio de 2021

Ana Moura_ novo disco


 
Letra:

Passo os meus dias em longas filas
Em aldeias, vilas e cidades
As andorinhas é que são rainhas
A voar as linhas da liberdade
Eu quero tirar os pés do chão
Quero voar daqui p'ra fora e ir embora de avião
E só voltar um dia
Vou pôr a mala no porão
Saborear a primavera numa espera e na estação
Um dia disse uma andorinha
Filha, o mundo gira, usa a brisa a teu favor
A vida diz mentiras
Mas o sol avisa antes de se pôr
Eu quero tirar os pés do chão
Quero voar daqui p'ra fora e ir embora de avião
E só voltar um dia
Vou pôr a mala no porão
Saborear a primavera numa espera e na estação
Já a minha mãe dizia
Solta as asas, volta as costas
Sê forte, avança p'ra o mar
Sobe encostas, faz apostas
Na sorte e não no azar

terça-feira, 4 de maio de 2021

Filme "A Criada"

"Quando Jinlian por fim despiu a roupa, Ximen-Wing examinou o seu Portão de Jade, viu que era liso, branco como a neve, suave como jade. Apertado como um nó, dedicado como seda. Assim que afastou as cortinas de carne, o odor de vinho bem envelhecido emanou do interior e, sobre dobra após dobra, do interior de veludo avermelhado formavam-se contas de orvalho. O âmago era escuro e vazio, e, contudo, como se tivesse vida própria, estava sempre a contrair."

do filme "A Criada", de Park Chan-Wook

quarta-feira, 28 de abril de 2021

"O que ando a ler"



Germano Oliveira

Editor online

"Respeito muito a sorte, um dia a minha família quis meter-me no ciclismo e tive de fazer um teste com outros atletas, no fim da prova caí e bati com a boca no chão, o meu primeiro troféu no desporto foi lábios inchados para uns dias e um dente torto para a vida, que campeão, agora sempre que sorrio os outros podem ver como a sorte me sorriu mas nunca quis que os dentistas mexessem na minha sorte porque sempre que a escovo com o meu dentífrico quando me levanto de manhã e depois quando me deito à noite essa é a maneira que tenho de celebrar todos os dias a gratidão de ter a minha inteligência intacta: eu ia sem capacete no dia em que caí porque o ciclismo agora obriga a usá-lo mas naquele tempo não, portanto eu podia ter batido com a cabeça mas bati com a boca no chão, não sei como aconteceu mas sei que cair é um azar mas cair bem é uma sorte e eu cá prefiro negar coisas a dentistas do que depender de neurologistas, a vida é mesmo um milagre ainda maior quando o estado da cabeça continua no seu melhor, por isso respeito muito a sorte de ter um dente que se tornou torto e uma inteligência que se manteve direita, penso sempre nisso quando pego na minha escova de dentes e para mim tem beleza e conforto maiores que um sorriso perfeito, portanto deixem-me em paz dentistas que me querem pôr um aparelho, anos depois já era ciclista a sério e voltei a ter uma queda que me entortou outra parte do corpo mas tenho tanta sorte na minha sinuosidade e aprendo tanto com ela, veja bem: um dia fui treinar sprints na estrada de Entre-Os-Rios para depois ir competir à pista de Alpiarça, acabou mal, a corrente da bicicleta partiu-se e eu capotei, lembro-me de ver o mundo ao contrário enquanto andava à volta no ar e depois de não me conseguir levantar quando tentei sair do chão, foi assim que descobri pela primeira vez como dói cair depois de subirmos na vida e como custa ainda mais levantar-nos, mas voltando à história: nesta queda eu ia de capacete e ele estalou-se quando bati na estrada e a minha clavícula também, é uma agonia absurda mas de tudo o que se podia ter quebrado foi o osso do ombro que se articula com o esterno e o úmero que cedeu, o pescoço caiu bem as costas também e a cabeça idem porque graças a Deus o capacete, depois no hospital avisaram-me que iria caminhar torto durante umas semanas porque o ombro afetado tinha ficado temporariamente desnivelado, ainda hoje está porque fui a um endireita depois do hospital porque queria acelerar a recuperação mas devia era ter feito a fisioterapia que me recomendaram para curar lentamente a lesão, por isso respeito muito a sorte que só me deixou um ombro torto em vez de danos piores para me ensinar que há decisões de momento que têm consequências para a vida inteira, continuando: tive mais quedas entretanto, numa ganhei uma cicatriz na coxa quando deitei abaixo parte do pelotão ao cair numa curva com areia e fui entre todos aquele que se magoou menos e noutra fiquei com uma cicatriz debaixo do queixo quando bati a 50 à hora numa pessoa que atravessou a estrada sem olhar, às vezes penso na sorte que tive em todas as quedas graves porque ora aprendi filosofia ora anatomia mas nunca perdi o essencial que é a minha memória e imaginação e o meu juízo e raciocínio e a minha capacidade de abstração e conceção, o dicionário diz que isso tudo é inteligência e essa ficou-me sempre intacta nos meus desastres de bicicleta, não interessa a dimensão da inteligência mas sim que é a nossa, neste caso a minha, tive tanta sorte “e não há nada de mal nisso, o inimigo queixava-se de Napoleão por ele ter generais com sorte, ao que o imperador retorquia que não gostava de generais sem sorte”, isto é do João Lobo Antunes no prefácio do “De Profundis, Valsa Lenta”, é a história de quando o grande José Cardoso Pires teve um acidente vascular cerebral de gravidade muito acentuada, aconteceu assim e é contado pelo próprio:

“Janeiro de 1995, quinta-feira. Em roupão e de cigarro apagado nos dedos, sentei-me à mesa do pequeno-almoço, onde já estava a minha mulher com a Sylvie e o António, que tinham chegado na véspera a Portugal. Acho que dei os bons dias e que, embora calmo, trazia uma palidez de cera. Foi numa manhã cinzenta que nunca mais esquecerei, as pessoas a falarem não sei de quê e eu a correr a sala com o olhar, o chão, as paredes, o enorme plátano por trás da varanda. Parei na chávena de chá e fiquei. ‘Sinto-me mal, nunca me senti assim’, murmurei numa fria tranquilidade.
Silêncio brusco. Eu e a chávena debaixo dos meus olhos. De repente viro-me para a minha mulher: ‘Como é que tu te chamas?’.
Pausa. ‘Eu? Edite.’ Nova pausa. ‘E tu?’ ‘Parece que é Cardoso Pires’, respondi então”,

e a seguir ele levanta-se para ir tratar da higiene matinal e eu descubro a lê-lo que a minha escova de dentes fez coisas melhores por mim que a dele por ele,

“Tudo o que sei é que me pus ao espelho da casa de banho a barbear-me com a passividade de quem está a barbear um ausente - e foi ali.
Sim, foi ali. Tanto quanto é possível localizar-se uma fracção mais que secreta de vida, foi naquele lugar e naquele instante que eu, frente a frente com a minha imagem no espelho mas já desligado dela, me transferi para um Outro sem nome e sem memória e por consequência incapaz da menor relação passado-presente, de imagem-objecto, do eu com outro alguém ou do real com a visão que o abstracto contém. Ele. O mesmo que a mulher (Edite, chama-se ela mas nada garante que esse homem ainda lhe conheça o nome, que não a considere apenas um facto, uma presença), exacto, esse mesmo Ele, o tal que a Edite irá encontrar, não tarda muito, a pentear-se com uma escova de dentes antes de partirem de urgência para o Hospital de Santa Maria e o mesmo que, dias depois, uma enfermeira surpreenderá em igual operação ao espelho do lavatório do quarto”,

tenho uma pessoa na minha vida que sei que leu recentemente duas vezes este livro do José Cardoso Pires, esta minha pessoa teve um acidente de bicicleta mais grave que todos os meus porque quando se levantou não pôde negar coisas a neurologistas e aprendeu de maneira absolutamente pior que a minha quanto nos custa reerguer a vida depois de ela nos cair ao chão, eu tive sempre a sorte toda nas vezes que caí e esta minha pessoa teve toda a sorte nenhuma de uma só vez, respeito muito a sorte mas não entendo mesmo como ela se distribui, talvez eu tenha mais medo do que respeito pela sorte, enfim, esta pessoa da minha vida que caiu esqueceu-se de palavras nomes factos e memórias depois do acidente, o José Cardoso Pires descreve no “Valsa Lenta” em quem nos transformamos quando isso acontece:

“Sem memória esvai-se o presente que simultaneamente já é passado morto. Perde-se a vida anterior. E a interior, bem entendido, porque sem referências do passado morrem os afectos e os laços sentimentais. E a noção do tempo que relaciona as imagens do passado e que lhes dá a luz e o tom que as datam e as tornam significantes, também isso. Verdade, também isso se perde porque a memória, aprendi por mim, é indispensável para que o tempo não só possa ser medido como sentido”,

mais adiante no livro o José Cardoso Pires conta que chegou a ser noticiado que ele tinha morrido, “morte cerebral, foi com esta expressão que a Agência Lusa passou a notícia à imprensa para o outro lado dos muros do Hospital de Santa Maria”, mas o triunfo dele não foi ter ficado vivo mas ter voltado a ser a pessoa dotada que era antes do AVC, isso é que é ressuscitar: o diagnóstico inicial que lhe fizeram não fazia prever uma recuperação total, antevia-se uma perda permanente de faculdades intelectuais, mas a ciência é continuamente surpreendida pela instinto humano de preservação e superação - ninguém soube explicar de que maneira aconteceu mas ele recuperou subitamente, num dia era o Outro e no dia a seguir era o José Cardoso Pires, os médicos espantaram-se, “alguém me dá os parabéns como se tivesse sido eu o autor deste triunfo e um psiquiatra meu amigo expõe o fundamental da recuperação surpreendente, surpreendente, repetiu ele, que me tinha acontecido”, no prefácio do livro o João Lobo Antunes também conta a sua surpresa com a recuperação do José Cardoso Pires e é nessa reflexão que aparece o Napoleão mas tanto mais,

“É claro que lhe podia enunciar cientificamente os possíveis mecanismos pelos quais se operou a sua restitutio ad integrum. Não sei, nem para o caso importa muito, quais eles foram. Eu tenho duas outras explicações originais, uma talvez pouco científica, e a outra digna de mais madura reflexão.
A primeira é que você simplesmente teve sorte, e não há nada de mal nisso. O inimigo queixava-se de Napoleão por ele ter generais com sorte, ao que o imperador retorquia que não gostava de generais sem sorte, princípio para mim fundamental na prática da profissão.
A segunda é que a área que temporariamente você deixou à sede e à fome, e pela qual falava, lia e escrevia, tudo funções em que é exímio, era mais musculada que a do comum dos mortais. E isto não é treta, porque se sabe hoje que os donos do ouvido absoluto, que lhes permite a identificação imediata de qualquer som - e Mozart tinha-o, e de forma admirável -, têm a área auditiva do córtex cerebral indiscutivelmente hipertrofiada”,

respeito muito a sorte mas respeito ainda mais a inteligência, por isso estou hipertrofiado não de esperança mas da certeza de que a minha pessoa que caiu está agora a ser autora de um triunfo à maneira dela, nada surpreendente surpreendente para quem a conhece porque a área que ela deixou temporariamente à sede e à fome e pela qual falava, lia e escrevia, tudo funções em que é exímia, é mais musculada que a do comum dos mortais e isso não é treta porque ela é a campeã do halterointeligenciofilismo: a má sorte pode partir-nos a vida mas a inteligência pode consertá-la e tu, pessoa que caiu e que já vi entretanto de pé, tu és dona de uma força absoluta e tens uma inteligência que é inspiração e também a tua salvação - e se tiveres medo neste teu caminho, porque ter medo nem sempre é cobardia porque às vezes é somente inteligência, lê duas vezes a Clarice Lispector: “Naquela hora da noite conhecia esse grande susto de estar viva tendo como único amparo apenas o desamparo de estar viva. A vida era tão forte que se amparava no próprio desamparo”."

in: "Expresso Curto"

quinta-feira, 11 de março de 2021

Amor Afoito_ Ana Moura




 Amor Afoito_ Ana Moura (do álbum "Desfado" 


Letra

Dou-te o meu amor
se mo souberes pedir, tonto
Nâo me venhas com truques, pára
já te conheço bem demais

Dou-te o meu amor
sem qualquer condição, por ora
Mas terás de provar que vales
mais que o que já mostraste ser

Se me souberes cuidar,
já sei teu destino
Li ontem a sina,
a sorte nos rirá, amor

Se quiseres arriscar
não temas a vida
Amor, este fogo
não devemos temer

Dou-te o meu amor
em troca desse olhar, doce
Não resisto e tu tão bem sabes
Tenho raiva de assim ser

Tudo em mim, amor, é teu, 
Podes tocar, não mordo
Sabes bem que não minto, tonto
Meu mal é ter verdade a mais

Se me souberes cuidar,
já sei teu destino
Li ontem a sina,
a sorte nos rirá, amor

Se quiseres arriscar
não temas a vida
Amor, este fogo
não devemos temer

Se me souberes cuidar,
já sei teu destino
Li ontem a sina,
a sorte nos rirá, amor

Se quiseres arriscar
não temas a vida
Amor, este fogo
não devemos temer

Compositor: Nuno Figueiredo e Jorge Benvinda


domingo, 21 de fevereiro de 2021

Carmen Dolores diz...

Carmen Dolores diz "*Deixa-me ser tua amiga amor" de Florbela Espanca


Amiga

Deixa-me ser a tua amiga, Amor,

A tua amiga só, já que não queres

Que pelo teu amor seja a melhor,

A mais triste de todas as mulheres.


Que só, de ti, me venha mágoa e dor

O que me importa a mim?! O que quiseres

É sempre um sonho bom! Seja o que for,

Bendito sejas tu por mo dizeres!


Beija-me as mãos, Amor, devagarinho ...

Como se os dois nascêssemos irmãos,

Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho ...


Beija-mas bem! ... Que fantasia louca

Guardar assim, fechados, nestas mãos

Os beijos que sonhei prà minha boca! ...


Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas"

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Joan Margarit, RIP

 

11.Maio.1938 - 16.Fevereiro.2021


“O poema surge do interior do poeta, da sua própria vida, e ainda assim deve falar daqueles subtilíssimos sentimentos que não lhe pertencem a ele apenas, pois nesse caso seria um mau poema, na exata medida em que não poderia interessar a ninguém mais do que a si mesmo. Os poemas devem construir-se a partir de algo que, constituindo parte da vida do poeta, pertença igualmente à dos demais”


Joan Margarit, 

prólogo, da tradução do catalão para português de “Misteriosamente Feliz”, pela Língua Morta, em 2015


terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Quinteto Lisboa




Quinteto Lisboa





A história que o Quinteto Lisboa vem contar, é simples.
O Quinteto Lisboa é um projecto que surge a partir da cumplicidade de vários anos entre a dupla de compositores João Monge (letrista) e João Gil (músico e guitarrista) e de dois músicos de excelência, José Peixoto (guitarrista) e Fernando Júdice (baixista).
As vozes são de Paulo de Carvalho e Maria Berasarte.


O Quinteto Lisboa traz uma alma nova à música e pretendem marcar o “movimento” do que pressentem ser a “nova Música Urbana Portuguesa”, levando compositores e intérpretes a encontrar algo de novo dentro das suas raízes. O projecto é um grupo que nasce da vontade de trazer uma nova sonoridade à música portuguesa. Segundo os autores, “não é um projecto de fado, mas o QUINTETO jamais existiria se não houvesse fado”.
O disco homónimo é, de resto, testemunho desta missão. Ao longo de 15 canções, as vozes de Paulo de Carvalho e Maria Berasarte cruzam-se e descruzam-se, perdem-se e reencontram-se nos acordes delicados das guitarras de João Gil e José Peixoto.
“Pé Ante Pé” é o single de apresentação do “Quinteto de Lisboa”.
João Gil assina a composição desta letra de João Monge, a que Paulo de Carvalho empresta a voz numa interpretação única.

*****
AQUI: Armando Carvalheda recebeu, no estúdio 23, o Quinteto Lisboa, apresentando três temas.
Enquanto os músicos, que integram a formação, desvendavam o espírito subjacente à música que fazem.

Captação e gravação de Eric Harizanos.
Produção Ana Sofia Carvalheda.









QUINTETO LISBOA

Membros:
Maria Berasarte - Voz
Paulo de Carvalho - Voz
José Peixoto – guitarra clássica
João Gil – guitarra acústica
Fernando Júdice – baixo acústico



Alinhamento:
01. Fado Enamorado
02. Vai
03. Pé Ante Pé
04. Casa
05. Fado Açoriano
06. Atrás dos Meus Cortinados
07. Quase Oração
08. Fado Flor
09. Pregão
10. Bem Dizias
11. Memórias de Adriano
12. Confissão
13. Tão Tarde
14. Noite e Dia (Estranha Dança)
15. Depois da Chuva











sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Leonel Cosme



Morreu o escritor Leonel Cosme, 
autor de "A Revolta"


Tinha 86 anos. As cerimónias fúnebres realizam-se esta sexta-feira.

PorLusa


Quando eu morrer ponham-me num museu
que o meu lugar é aí.
Coloquem na vitrina este letreiro:
“Espécie rara de tipo invertebrado
verdadeiramente fenomenal.
Fez poesia. Cursou a Faculdade. Sofreu
entre outras coisas, ausências de dinheiro,
e, como os humanos, pensou no Bem e Mal.
Chegou a convencer-se que era gente.
Mas morreu.
E por tudo isso que o fez diferente
dos outros invertebrados
veio parar à sala de um museu”

18-12-57

Quando eu me for
Seja um fim de tarde
Quando o sol já perde o fulgor
E já não arde.
Que me vá devagarinho
Suavemente
Como pétala de flor
A cair sobre o tampo
De uma mesa
Sem tristeza
Nem dor
Apenas como um eco
Que se cala.

03-03-08

"Há um tempo de chegar e um tempo de partir... Chegou a hora de o meu pai, Leonel Cosme, partir", escreve a filha Ariana Cosme, na sua página do Facebook.

Na publicação, Ariana Cosme recorda que o pai deixou escrito no seu último livro "Homo Sum: Tempo de Partir e Chegar" (no prelo na Unicepe) a sua última vontade: "Quando eu morrer quero apenas sobre a campa uma lápide ou tampa com o meu nome, pois ele diz o que eu valer (...)".


Leonel Cosme nasceu em Guimarães, em 1934, e viveu 30 anos em Angola, para onde partiu, em 1950, com a família.

Radicou-se naquela então colónia portuguesa, onde foi funcionário público e exerceu jornalismo, tendo regressado a Portugal em 1975.

Em 1982, voltou a Angola e ali permaneceu até 1987, ano em que regressou definitivamente a Portugal.

Prosseguiu, no Porto e em Lisboa, a atividade jornalística que já desenvolvia em Angola, na imprensa e na rádio, e, em 1990, retirou-se do jornalismo profissional para se dedicar à atividade literária, representada por colaboração em jornais e revistas da especialidade, obras de ficção e ensaio histórico-literário.

Publicou as novelas "Um Homem na Rua" (1958) e "A Dúvida" (1961), os contos "Quando a Tormenta Passar" (1959) e "Graciano" (1960), e ainda o livro de poemas "Ecce Homo" (1973).

No domínio do ensaio, publicou "A Separação das Águas - Angola 1975-1976", "Cultura e Revolução em Angola" (1978), "Agostinho Neto, a Poesia e o Homem" (1984), "Muitas são as Áfricas" (2006).

Escreveu ainda uma 'pentalogia', genericamente intitulada "A Revolta", iniciada na década de 1980, de que fazem parte títulos mais recentes como "A Terra Da Promissão" e "A Hora Final".

Em Angola, colaborou na revista Cultura, de Luanda (1957-1961), e no Boletim Cultural de Huambo, publicado na então cidade de Nova Lisboa (1948-1974) e foi um dos fundadores e diretor das Edições Imbondeiro, de Sá da Bandeira (hoje Lubango), onde prefaciou e publicou, em parceria com Garibaldino de Andrade, as que foram consideradas -- pelo conteúdo e pelo momento histórico da edição -- as mais importantes antologias da nova literatura angolana: "Contos d' África" (1961), "Novos Contos d'África" (1962) e "Antologia Poética Angolana" (1963).

Leonel Cosme é também o autor do catálogo da Primeira Exposição de Bibliografia Angolana (Sá da Bandeira, hoje Lubango, 1962), com cerca de 700 títulos distribuídos por seis áreas: História e Sociologia, Etnografia, Literatura e Ficção, Viagens e Narrativas, Vários Estudos, Antropologia.

Participou em congressos, seminários e colóquios, promovidos, designadamente, por institutos universitários de Portugal, do Brasil e de Itália.



segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

...

 DAQUI:



A loucura, meu bem,
foi tentar agarrar o canto dos pássaros
e a nudez dos ramos,
a ouvir histórias do vento que passa.
Entender na imagem o murmúrio das folhas caídas, um manto de preces a proteger raízes.
Esta foi a loucura, meu bem,
querer oferecer-te numa imagem
a magnífica sinfonia das árvores.
E trazer aos teus olhos, nada mais,
que o silêncio que atravessa a ponte...




Sónia Micaelo
(Texto e imagem)

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Fascismo_Opinião





DAQUI: Germano Oliveira, 

in Expresso Curto

"O QUE EU ANDO A LER
Sou filho de feirantes, à segunda tínhamos a feira de Espinho onde os meus pais conheceram o Germano Augusto de quem herdei esses dois nomes ao escolheram-no para meu padrinho quando nasci, foi uma circunstância que veio a ter uma coincidência - o restaurante que se tornou o meu preferido das minhas segundas-feiras de criança em Espinho chamava-se O Padrinho, a vida tem redundâncias tão bonitas; sou filho de feirantes, à terça não havia feiras para nós porque era dia de planear as seguintes e de fazer a contabilidade do que se ganhou nas anteriores mas à quarta era a feira dos Carvalhos, foi lá que o meu pai me deixou ir a uma loja subscrever a TV Cabo porque ele não tinha dinheiro para me levar ao mundo mas deixou que eu tivesse dezenas de canais para que o mundo se mostrasse a mim, a vida tem criatividades financeiras tão bonitas; sou filho de feirantes e à quinta era a feira de Pedras Rubras que tinha o nome do aeroporto que agora é Francisco Sá Carneiro e onde eu sonhava viagens naqueles aviões em que nunca pensei ter a possibilidade de entrar mas tive, a primeira vez que voei foi porque me tinha tornado atleta e era preciso um avião para me levar à competição e pagaram-me tudo, então o meu pai veio comigo para nos comovermos a voar sobre Pedras Rubras, a vida tem retribuições tão bonitas; sou filho de feirantes e às vezes não se ia a Pedras Rubras às quintas-feiras porque era necessário ir a Vigo comprar centenas de gomas e dezenas de brinquedos baratos para se venderem mais caros nas feiras de Portugal, eram excursões na camioneta do Sousa que seduzia sempre alguma mulher naquelas viagens, eu queria ser como o Sousa toda a gente queria, o Sousa era alto simpático elegante e conduzia depressa, a vida está cheia de Sousas que nos fazem querer ser mais bonitos; sou filho de feirantes e às sextas era a feira de Santana, enquanto o meu pai vendia bolos de teixeira eu metia-me dentro do velhinho minicamião Mitsubishi dele e fazia daquela cabine a minha feira do livro, Álvaro Magalhães Enid Blyton Ana Maria Magalhães Isabel Alçada, o mundo era uma aventura no Mitsubishi, a vida dá-nos memórias tão bonitas; sou filho de feirantes e ao sábados e domingos não se vendia nas feiras mas na Ribeira do Porto, a Rosa Manca e a Dolores eram as rainhas das vendas daqueles fins de semana e o meu pai o rei do pão, às vezes o Reinaldo Teles e o Pinto da Costa apareciam lá e chamavam Bento Padeiro ao meu pai e eu passei a fazer igual, em vez de pai chamava-lhe Bento, na verdade senhor Bento, sou um institucionalista desde cedo e a minha primeira grande instituição foi aquele padeiro-pai, a vida às vezes dá-nos laços de sangue tão fortes e bonitos.

Mas porque escrevo isto?, não há dramas nem convulsões no que expliquei até aqui, que interessa então?, “o homem moderno necessita de ruído, de excitação constante, quer satisfazer as suas necessidades. Como nos tornámos cada vez mais insensíveis, necessitamos de métodos mais grosseiros de satisfazer a nossa ânsia de estimulação. (...) Fomos intoxicados pela ideia de que tem de acontecer alguma coisa, estamos obcecados com a velocidade e a quantidade”, pois eu podia ter proporcionado isso se quisesse escrever sobre pistolas heroína roubos agressões detenções ou afins, as feiras onde cresci tinham disso tudo mas também o seu oposto, bondade solidariedade abnegação dignidade lealdade e qualidades afins, mas quando se cresce num contexto anormal procuramos ansiosamente agarrar-nos ao que há de mais normal, é uma questão de sanidade e sobrevivência, é escolher entre a serenidade ou a violência, e é por isso que qualquer detalhe banal se transforma num acontecimento fenomenal, a banalidade é tão subestimada então que se sobrestime, e é por isso que quando nos tornamos adultos depois disto ficamos tão necessitados do normal e ainda mais preocupados com o anormal, qualquer detalhe aparentemente inofensivo transforma-se num acontecimento repulsivo, veja isto que andei a ler:

a nossa constituição começa assim, “A 25 de Abril de 1974, o Movimento das Forças Armadas, coroando a longa resistência do povo português e interpretando os seus sentimentos profundos, derrubou o regime fascista”, é preciso chamar os regimes pelos nomes, fascista, isso, era fascismo sim, fascismo que na versão simplista dos dicionários online é “uma ideologia política ultranacionalista e autoritária caracterizada por poder ditatorial, repressão da oposição por via da força e forte arregimentação da sociedade e da economia”, mas há um partido que pretende mudar a nossa Constituição para que ela comece assim, “A 25 de Abril de 1974, o Movimento das Forças Armadas, coroando a longa resistência do povo português e interpretando os seus sentimentos profundos, derrubou o regime vigente”, reparem, o regime não era fascista mas vigente, o povo não mandou abaixo o fascismo mas o vigentismo, é uma suavização hostil feita de maneira subtil, “uma variante do fenómeno da negação é a ideia de que mudar as palavras também muda os factos”, não muda mas afinal trata-se de negacionismo estratégico, “em 2004, o eminente historiador americano e especialista em história do fascismo Robert O. Paxton publicou a sua notável obra The Anatomy of Fascism, onde sublinha que, no século XXI, nenhum fascista se designará a si próprio como tal”, portanto não o assumem agora tal como escondem os de outrora, não é atitude de gente livre, “a liberdade é a capacidade de um indivíduo se libertar da estupidez, do medo e do desejo, de utilizar a razão e de viver na verdade”, todas estas citações que tenho feito são de um livro que andei a ler, “O Eterno Retorno do Fascismo”, foi escrito pelo Rob Riemen e é uma edição de fevereiro de 2012 que parece sobre dezembro de 2020, “Paxton afirma que o fascismo, devido à sua angustiante falta de ideias e ausência de valores universais, assumirá sempre a forma e as cores do seu tempo e da sua cultura. Assim, o fascismo na América será religioso e contra os negros, ao passo que na Europa Ocidental será laico e contra o islão, na Europa do Leste católico ou ortodoxo e antissemita. A técnica usada é idêntica em toda a parte: um líder carismático, populista, para mobilizar as massas; o seu próprio grupo é sempre vítima (das crises, da elite ou dos estrangeiros); e o ressentimento orienta-se todo para um ‘inimigo’. O fascismo não necessita de um partido democrático cujos membros sejam individualmente responsáveis; necessita de um líder inspirador e autoritário ao qual se atribuem instintos superiores (as suas decisões não têm de ser justificadas), de um líder capaz de ser seguido e obedecido pelas massas. O contexto em que esta forma de política pode dominar é de uma sociedade de massas afectada pela crise que ainda não aprendeu as lições do século XX”, parece que não, há quem acredite que é possível moderar os vigentes ao trazê-los para responsabilidades governativas, eis outra história do século XX: “O facto de o fascismo ter chegado ao poder em Itália e na Alemanha deveu-se, em grande medida, à arrogância, bem como à cobardia e perfídia, das elites sociais. A arrogância, a sobrestimação do próprio poder, manifestou-se em 1932 quando, na Alemanha, o Bürgerliche Katholische Partei (partido católico) e o Deutschnationalen (partido nacionalista) se mostraram satisfeitos com a entrada no governo de Hitler e dos seus acólitos. Partiram do princípio de que, desse modo, o poderiam controlar e tirar partido dos erros que cometeria para o eliminarem politicamente. A cobardia e a perfídia manifestaram-se nos sociais-democratas alemães que, embora na oposição, lhe deram um voto de confiança por medo de perderem ainda mais votos. Na verdade, para todos os eleitores que não votaram em Hitler, e que foram a maioria, nenhum partido foi capaz de liderar a resistência contra o monopólio nacional-socialista. E isto teve tudo que ver com a deterioração das elites, que não tiveram coragem para defender os seus princípios e responsabilidades sociais”.

Na saída da autoestrada que me leva ao bairro onde vivo há dois cartazes políticos, são as minhas contrastantes mensagens de boas-vindas a casa, no primeiro o candidato presidencial do partido que acha que as Forças Armadas e o povo derrubaram o vigentismo em vez do fascismo diz que não tem medo do sistema, seja lá o que o sistema for, o segundo cartaz tem Francisco Sá Carneiro sorridente acompanhado de uma frase simples, “O meu sentimento? Define-se numa palavra: responsabilidade”, Sá Carneiro que considerava “essencial que os partidos, as pessoas, os movimentos, as associações assumam as suas responsabilidades e ponham de parte o clima de ataques demagógicos e irresponsáveis”, ele que acreditava que “a Constituição deverá consagrar os direitos fundamentais que aos portugueses foram negados durante o fascismo: liberdade de pensamento, de expressão, de reunião, de associação política e sindical, garantia da segurança pessoal, direito à educação, à saúde, à habitação”, repare como ele diz fascismo, o meu pai-padeiro viveu 34 anos disso e não de vigentismo, 34 anos é praticamente a idade que eu tenho sempre em liberdade de pensamento de expressão de reunião de associação política e sindical e com garantia da segurança pessoal e direito à educação à saúde à habitação, por isso: se o sistema é ter o que o senhor Bento não teve então eu admiro adoro amo extasio-me com o sistema, o sistema pode ter todos os defeitos mas há um que não tem, o sistema reconhece a diferença entre regime vigente e regime fascista, portanto: sou filho de feirantes mas também filho do sistema e às segundas terças quartas quintas sextas sábados e domingos quero usufruir da herança que o Movimento das Forças Armadas, coroando a longa resistência do povo português e interpretando os seus sentimentos profundos, me deixou ao derrubar o regime fascista - a liberdade, mas a liberdade verdadeira: “A 3 de outubro de 1940, Thomas Mann dá uma conferência no Claremont College, em Los Angeles, sobre ‘Guerra e democracia’. Já estava exilado há sete anos porque não conseguia viver na Alemanha hitleriana. Antes vivera mais de trinta anos em Munique, onde testemunhara o modo como o movimento fascista conseguira chegar ao poder graças, em parte, a um domínio total da falsidade: as palavras eram isoladas dos seus significados e reduzidas a meros slogans. Vira com os próprios olhos, primeiro nos cafés e nos salões, e depois nas ruas e nas concentrações, como o povo se deixara convencer da existência de um movimento político e de um líder que lhe convinha. Um homem pronto a dedicar a vida às necessidades, interesses e liberdade do homem comum, que exprimiria e defenderia os valores do povo alemão. E uma das razões que o levaram a acreditar nesse líder foi o facto de ele não pertencer à classe política, ao establishment, mas ser um autêntico homem do povo, que falava a sua linguagem. Com base nessa experiência, Thomas Mann adverte o público americano: ‘Permiti-me que vos diga a verdade: se um dia o fascismo chegar à América, chegará em nome da liberdade’”."

domingo, 22 de novembro de 2020

...


Reuters

"Quando os nazis vieram buscar os comunistas, 
fiquei em silêncio: eu não era comunista. 
Quando prenderam os sociais-democratas, fiquei em silêncio: eu não era social-democrata. 
Quando vieram buscar os sindicalistas, fiquei em silêncio: eu não era sindicalista. 
Quando vieram buscar os judeus, fiquei em silêncio; eu não era um judeu. 
Quando me vieram buscar, já não havia ninguém que pudesse protestar".

Martin Niemöller

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

“I can’t breathe”_ Van Jones

AQUi:


“Não foi só George Floyd, foram muitas pessoas que sentiram que não podiam respirar”.

 
“Foi mais fácil ser pai esta manhã. É mais fácil ser pai. É mais fácil dizer aos teus filhos que o carácter importa”, começou por dizer enquanto a voz começava a embargar. “Importa! Dizer a verdade importa! Ser uma boa pessoa importa”.

“Pessoas que tinham medo de mostrar o seu racismo estavam a tornar-se cada vez mais maldosas para ti. E tu preocupas-te com os teus filhos e preocupas-te com a tua irmã. E já não podes ir ao Wallmart [hipermercado americano] e voltar ao teu carro sem que alguém lhe diga alguma coisa. E gastas tanta energia da tua vida só para te aguentares. E isto é importante para nós — apenas ter a possibilidade de alguma paz e uma oportunidade para começar de novo”.

in: "Observador"


One, two
Steal my heart and hold my tongue
I feel my time, my time has come
Let me in, unlock the door
I never felt this way before
And the wheels just keep on turning
The drummer begins to drum
I don't know which way I'm going
I don't know which way I've come
Hold my head inside your hands
I need someone who understands
I need someone, someone who hears
For you, I've waited all these years
For you I'd wait 'til kingdom come
Until my day, my day is done
And say you'll come and set me free
Just say you'll wait, you'll wait for me
In your tears and in your blood
In your fire and in your flood
I hear you laugh, I heard you sing
I wouldn't change a single thing
And the wheels just keep on turning
The drummers begin to drum
I don't know which way I'm going
I don't know what I'll become
For you I'd wait 'til kingdom come
Until my days, my days are done
And say you'll come and set me free
Just say you'll wait, you'll wait for me
Just say you'll wait, you'll wait for me
Just say you'll wait, you'll wait for me