quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Quem me quiser_António Plarigo


letra e música:
Rosa Lobato Faria/José Cid

Quem me quiser há-de saber as conchas
As cantigas dos búzios e do mar
Quem me quiser há-de saber as ondas
E a verde tentação de naufragar

Quem me quiser há-de saber a espuma
Em que sou turbilhão, subitamente
Ou então não saber coisa nenhuma
E embalar-me ao peito, simplesmente


Quem me quiser há-de saber a chuva
Que põe colares de pérolas nos ombros
Há-de saber os beijos e as uvas
Há-de saber as asas e os pombos

Quem me quiser há-de saber a espuma
Em que sou turbilhão, subitamente
Ou então não saber coisa nenhuma
E embalar-me ao peito, simplesmente



Quem me quiser há-de saber as conchas
As cantigas dos búzios e do mar
Quem me quiser há-de saber as ondas
E a verde tentação de naufragar

Quem me quiser há-de saber as fontes
A laranjeira em flor, a cor do feno
À saudade lilás que há nos poentes
O cheiro de maçãs que há no inverno



Quem me quiser há-de saber a chuva
Que põe colares de pérolas nos ombros
Há-de saber os beijos e as uvas
Há-de saber as asas e os pombos

Quem me quiser há-de saber a espuma
Em que sou turbilhão, subitamente
Ou então não saber coisa nenhuma
E embalar-me ao peito, simplesmente.


quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Fausto* - "Não canto porque sonho"


Fausto* - "Não canto porque sonho", do album "P'ró que der e vier" (LP 1974)

Poema: Eugénio de Andrade
Música: António Pedro Braga e Fausto.
Arranjos e direcção musical: Fausto
Produção: Adriano Correia de Oliveira e José Niza.

*Segundo álbum com a participação de, entre outros, José Afonso, Júlio Pereira, Vitorino e Adriano Correia de Oliveira

sábado, 30 de dezembro de 2017

José Saramago_carta à avó

No ano de 1968, José Saramago publicou no jornal A Capital, de Lisboa, a crónica Carta a Josefa, minha avó. Anos mais tarde, ela seria publicada no livro Deste Mundo e do Outro

Carta para Josefa, minha avó
‘Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo — e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água.
Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira — sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.
Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com  isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha. Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja. (Contaste-mo tu, ou terei sonhado que o contavas?)
Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém. Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrugada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos — e continuo a não entender. Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Quem to roubou? Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas inumeráveis palavras as que tu pudesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti — e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava. Não teremos, realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa de que me não acusas — e isso ainda é pior. Mas porquê, avó, por que te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: «O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!»
É isto que eu não entendo — mas a culpa não é tua.’

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Suzete Breiner_ Meu Canto Profundo

Meu Canto Profundo

O meu canto profundo
Canta um mundo
Quase perfeito,
Quase silencioso.
Um ciclo
Num ritmo
Melodioso,
Às vezes alegre,
Às vezes triste,
No sim,
No não,
Na construção
Fora do padrão
Longe da mesmice,
Muito perto de mim,
Num ponto,
No centro,
Quase invisível,
Quase infinito.

O meu canto profundo
Canta um mundo
Quase pacífico,
Quase feliz.
As palavras transportam
As cores das emoções.
Tudo é dito
Sem o grito,
A liberdade soa 
A verdade nua:
A violência é desnecessária
Enterrada com aprovação.
O meu canto profundo
Pede
Paz
Paz
No mundo,
E em cada coração.


Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Poema Reeditado.

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comentário (destacado) do M.V.:

Manuel Veiga20 de dezembro de 2017 13:16

“O meu canto profundo/Canta um mundo
Quase perfeito/Quase silencioso”

Suzete, minha amiga

Poema que requer leitura atenta para lhe captar todas as ressonâncias semânticas. Por mim, detenho-me nesse “quase” que ao longo do poema se desdobra, para salientar que a Poeta assumidamente não requer um “mundo perfeito”, pois se fora perfeito, seria “silencioso” e “estático” em sua autocontemplação silenciosa.

Esse “quase” é o pequeno-nada que introduz o “desequilíbrio” , cuja imperfeição leva a Poeta (não ao “desengano”, à “desistência”, como em M. Sá-Carneiro, p. ex.) mas antes à empenhada busca da “Paz no Mundo e em cada coração”.

Poema de antologia, brilhante Poetisa!

Beijo,
Com os votos de Felizes Festas e que o Ano Novo traga boas novas para o Povo-irmão do Brasil
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Su:

deixo-lhe aqui, para ler, o meu comentário que não me foi possível publicar:


"...Num ritmo/Melodioso,/
Às vezes alegre,/Às vezes triste,/
No sim,/No não,/
Na construção/Fora do padrão..."

Minha Amiga, Suzete:

Segui o conselho do n/amigo,M.V. e,
numa leitura introspectiva, encontrei neste "canto", um poema sublime, melodioso (como destaco) e antítese da desistência, da descrença num mundo "quasi" perfeito.
É um grande poema.
Gostaria muito de o ver musicado.
Tem tudo...e apetece cantá-lo.
Se me permite, vou guardá-lo.

Desejo-lhe - e a todos que gostam de si -, as melhores Festas Natalícias, e um Ano Novo Pleno.

Um beijo,  com o coração!

(sensibilizou-me o comentário que me deixou. os meus comentários teem encontrado alguns 'muros'.
vou tentar publicar este, pela via do motor google.)