quarta-feira, 15 de novembro de 2017

fernando assis pacheco_preso político


1 Fev 1937 // 30 Nov 1995
Jornalista/Crítico/Tradutor/Escritor


Preso Político

Quiseram pôr-me inteiro numa ficha.
O dia e a noite são iguais por dentro.
Não há papel que conte a minha vida
mais que estes versos de punhal à cinta.
A barba cresce, e cresce a voz armada
descendo pelos muros tão tranquila;
tão tranquila que já nem desespera
de ser apenas voz, não uma guerra. 
Quiseram pôr-me inteiro numa ficha.
Não há papel que conte a minha vida.
Mais que estes versos, esta mão estendida
por sobre os muros só de medo e pedra. 
Quando saíres, amigo, não me esqueças.
Fico à espera da tua novidade.
Olha bem que farás da liberdade:
quando saíres, amigo, não me esqueças. 
Quero mais fazimento que promessas.
São de prata os enganos da cidade
com que outros sujeitam a vontade.
Não me esqueças, amigo, não me esqueças. 
1966 

Fernando Assis Pacheco, in 'Lote de Salvados' 

Álvaro Cunhal_ carta à irmã

Em 13 de Junho de 2006, Júlia Coutinho, no seu blogue As causas da Júlia, publicou a seguinte carta de Álvaro Cunhal para Maria Eugénia e que, com a devida vénia, aqui se transcreve:

«Moscovo, 1 de Março de 1966
Minha muito querida irmã:
Terríveis notícias me chegaram nos últimos tempos: o suicídio do Fernando [Fernando Manuel da Rocha Medina (15/03/1924 - 09/09/1965), médico psiquiatra], a Morte do Pai. Que te posso dizer das lágrimas que chorei e choro, e de todas as razões delas, e das mil inquietações para que não tenho resposta? Por via indirecta, recebi as duas notícias. Secas, sem qualquer referência a mais. Nada mais sei, a não ser o que suponho.
A grande distância, o não ter visto mais o Pai, o não ter podido dizer-lhe um último adeus e uma última palavra, são dores irreparáveis. Sofreste mais de perto, querida irmã, mas não isto. E o que ele terá sofrido. Esforçado e paciente decerto, mas decerto também inconformado e profundamente triste. Perdemos a pessoa que mais nos amava, que melhor nos compreendia e a quem devemos elevadas lições de honestidade e isenção pessoal. Por isso não perdemos tudo. Apenas lamento, se ele o não sabia.
Chorando os mortos, penso nos vivos, querida, muito querida irmã. Penso em ti, na mãe cega, nos teus filhos, na vossa situação. Que posso eu fazer por vós? Eu sei (e é necessário que tu saibas também) que algo posso fazer. Continuo a ser o teu irmão infinitamento amigo, o teu irmão de sempre. Conta comigo, querida irmã. 
À nossa pobre mãe, diz que vos escrevi algumas linhas, que sofro por não vos ter dado o muito que gostaria de dar-vos e que por isso me perdõem, se é coisa de perdoar. Diz-lhe mais, atribuindo-me a mim, todas aquelas palavras que entendas que a podem auxiliar. Do coração to agradeço, a ti a quem coube o leme de tão amargas situações.
Neste momento, quero dizer-te alguma coisa mais: olha para o futuro! Não descreias da vida e da alegria! Tem forças para recomeçar, se de recomeçar se trata!
Peço-te, querida irmã, que procures escrever-me algumas palavras, se não do que se passou (por te ser demasiado penoso) ao menos do que se passa. Eu não sei se esta carta te chegará às mãos, dada a pessoa que a escreve, dado o país de onde vai e dado que nem certo estou dos endereços para onde a envio (que em tempos me disseram ser o teu e o do Pai). Tenho porém uma certa esperança em que a venhas a receber. E, se a receberes, tenta escrever-me. A direcção é simples: 
URSS - Moscovo 132
Hotel
Álvaro Cunhal
É o bastante e, tratando-se como se trata, de questões familiares e questões desta natureza, pode ser que a tua carta me chegue.
Querida, muito querida irmã: um grande, grande abraço, aquele que gostaria de poder dar-te neste momento de profunda tristeza.
Repito ainda: não desanimes, olha em frente, olha para a vida e confia.
Com a imensa ternura do teu irmão
Álvaro»

[Jornal de Letras, Junho de 2004 || Fotografia de João Ribeiro]
......


MARIA EUGÉNIA CUNHAL *
[17/01/1927 - 10/12/2015]

Filha de Mercedes Simões Ferreira Barreirinhas 05/05/1888 - 12/09/1971] e de Avelino Henriques da Costa Cunhal [28/10/1877 - 19/12/1966], advogado nascido em Seia, e irmã de Álvaro Cunhal, Maria Eugénia Cunhal nasceu em Lisboa em 17 de Janeiro de 1927.
Presa em 2 de Fevereiro de 1945, quando tinha apenas 18 anos, como forma de pressionar a família e o irmão, então muito procurado pela PIDE, seria libertada durante a noite em resultado da atitude da mãe, que se recusou a abandonar a sede da polícia política sem levar a filha. Tal procedimento por parte da PIDE, que também deteve o pai, mas por vários meses, esteve na origem de uma carta denúncia de Álvaro Cunhal ao Ministro da Justiça. 
14 anos mais nova do que o irmão, acompanhou-o sempre na atividade cívica e política e, para além da militância comunista, Maria Eugénia Cunhal aderiu muito nova ao Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, tendo participado em várias reuniões sob a direção de Maria Lamas, e fez parte da Associação Feminina Portuguesa para a Paz. 
Mãe de Pedro [08/09/1950 - 1999], Miguel [1951-2006: publicou, em 1999 e 2001,  Esboços - Antifascistas relatam as suas experiências nas prisões do fascismo], Duarte e Joana, os dois primeiros prematuramente desaparecidos.

sábado, 4 de novembro de 2017

Maria João Cantinho_ No olho da baleia.


Maria João Cantinho

Savana

Se eu te pedisse a demora, pai,

De um corpo adiado, ainda,

e te contasse de novo as viagens

que fazíamos no tempo antigo

e as minhas palavras pudessem

aquecer o teu olhar, trazê-lo de novo

ao meu chão, às minhas mãos,

como as histórias que me contavas

e depois ríamos inteiros.

Se eu te pedisse a demora, pai

para recomeçar a vida, para recompor

a ruína, juntar todos os ossos

para te devolver a luz da savana

e a respiração das árvores, o inexaurível canto

da terra, do rio que havia

e do olhar bravio das gazelas

no fulvo dorso da madrugada.

Se eu te pedisse a demora, pai

para recomeçar tudo de novo,

infância e areia correndo por nós,

só a música e o segredo da savana

o fogo da tribo, a dança

e sempre o tempo

o da fala antiga

o que se anela com deuses

e com o pó.



.......




domingo, 29 de outubro de 2017

Primeiro Mundo_Aline Frazão



letra:

Eu não sei porquê
Há incêndio dentro de cada janela e se vê
Eu não sei porquê
Este incêndio que arde dentro, 
come o corpo todo e a gente finge que não vê,
Finge que não vê, finge que não vê?

Mas por dentro arde, como não vai arder
Se não minha terra não tem pra? comer
Já quase creio que não tenho o direito de ser alguém
Por isso arde
Ter de dizer adeus
Sem saber se o deserto me vai vencer
Juntar os últimos sonhos com a roupa do corpo
Partir por mim e pelos meus
E afinal tem que haver algum Deus

Eu não sei porquê
Há incêndio dentro de cada janela e se vê
Eu não sei porquê
Este incêndio que arde dentro, 
come o corpo todo e a gente finge que não vê,
Finge que não vê, finge que não vê
Mas por dentro arde, como não vai arder
Se chegando no primeiro mundo
Me sinto mais esquecido do que era no segundo
Arde
Carimbo de ilegal
Preconceito racial
Só por ter nascido mais ao sul
Xe gente do primeiro mundo, pais da civilização
Por não ter um papel acabei numa prisão
Xe gente da terra inteira
Queima o fogo da desilusão
Este primeiro mundo é só de brincadeira
Só de brincadeira, só de brincadeira
E você finge que não vê
Eu não sei porque

Tens que entender que não há diferença entre nós
A mesma essência
Se a minha liberdade não existe
A tua é só aparência

É só aparência
E você finge que não vê
Eu não sei porque

Primeiro mundo só de brincadeira
Primeiro mundo só de brincadeira
Só de brincadeira, só de brincadeira, 
só de brincadeira, só de brincadeira.


........
Entrevista ao jornal "Expresso":

“As prisões fizeram-me pôr tudo em perspetiva”

Aline Frazão gravou 
este disco em Jura, 
na Escócia, por sugestão de Carlos Seixas, diretor 
do FMM Sines
DINIS SANTOS

“Insular” é uma viagem a Luanda guiada pela poderosa e combativa voz de Aline Frazão. Ainda que ‘doce’ seja o adjetivo que melhor a descreve

Não foi preciso ouvi-la cantar para lhe perceber a força. Bastou ouvi-la falar, há pouco mais de três anos, num encontro que precedeu um concerto inesquecível. A voz é a de uma estrela, ainda que o tom seja baixo; porque, como ela acredita, não é o grito que a levará mais longe, a tornará mais combativa. Apesar dos 27 anos, da “falta de cabelos brancos”, Aline Frazão, nascida em Luanda, há muito que tem maturidade suficiente para ser levada a sério. É uma voz suave mas confiante, uma compositora séria, uma mulher que pensa por si. Depois de vários anos a residir na Europa, com visitas regulares a Luanda e discos como “Clave Bantu” (2011) e “Movimento” (2013), lança “Insular”. A poesia apura-se sem descartar a situação política angolana. A música não perde identidade, mas eletrifica-se, através da colaboração da guitarra de Pedro Geraldes (Linda Martini) e da produção de Giles Perring.
O ponto de partida deste disco é “O Conto da Ilha Desconhecida”, de José Saramago, que inspira uma das canções? Não. Chegou depois. Estava a uma semana de embarcar para Jura, na Escócia, onde fui gravar o disco [no estúdio de Giles Perring], e numa conversa uma amiga fala-me deste conto. Quando o li parecia-me que tinha sido escrito para este disco. Tinha as metáforas perfeitas... A ideia de ir à procura de uma ilha desconhecida, com o objetivo de descobrir quem somos, quando todas as ilhas já foram descobertas... A música e a letra surgiu no dia seguinte. Ganhei mais uma música.
Quem nasce em África fala sempre da imensidão. De onde vem a necessidade ‘insular’, palavra que dá nome ao disco? Antes de pertencer ao continente africano, pertenço a Luanda, que é uma cidade muito específica. Luanda não é uma savana africana. É uma cidade com um horizonte cada vez menos aberto e um skyline cada vez mais preenchido, mais bloqueado. Os meus pais nunca se quiseram aventurar muito, e durante a guerra civil nunca nos afastámos mais de 40 ou 50 quilómetros de Luanda. A minha experiência é a de uma capital africana contemporânea e caótica, na qual se encontra cada vez menos o passado. E a verdade é que as cidades têm muito a ver com a ideia de ilha. E as pessoas têm muito de ilha. As pessoas vivem cada vez mais preocupadas com as suas contas, com as suas vidinhas... O silêncio e o recolhimento são importantes para se chegar a algum lugar. A solidão acontece muitas vezes em ambientes de grande barulho, na cidade.
No disco, fala na solidão... Estamos “nos braços daquela solidão”... Estamos. E de várias maneiras. A solidão pode dar-nos várias respostas. Depende da forma como a abraçamos. A solidão apressada, da vida contemporânea, agitada, promete pouco. Mas uma solidão consciente, virada para dentro, é a que nos dá mais respostas, nem que seja para nos mostrar que não há necessidade de nos fecharmos em nós próprios, mas de nos abrirmos ao contacto com os outros, de modo a dar o mesmo peso aos nossos interesses e aos dos outros. Devemos colocar-nos a um nível de igualdade. E essas são questões que têm tanto de individual e de introspetivo como de social e político.
Mesmo que não pareça, o disco tem uma segunda camada, que é muito política e angolana... Este disco é muito particular. O olhar está mais virado para fora, para o que observei. Mais do que uma construção, é uma desconstrução. Durante o tempo de criação de “Insular” comecei a escrever crónicas [no portal Rede Angola]. Isso afetou a minha escrita de canções. Hoje, faço pouco esforço para transmitir nas canções ideias concretas sobre política. De facto, isso fica nas entrelinhas. Há quem dê conta. Outros não. O que é bom. A música ganha várias dimensões, e cada um encontrará coisas diferentes. Mas este é também um disco onde recuso as definições; e isso está de certo modo expresso nas aguarelas do livreto de António Jorge Gonçalves, que conhece muito bem a minha música e me acompanhou em Jura. Há um mapeamento e uma indefinição. Há um deslocamento no tempo, na geografia, na temperatura... Um lado aquoso.
A opção de as crónicas serem mais políticas ou interventivas foi sua? Exato. Tive esse debate comigo mesma. E oscilo um pouco entre linguagens mais poéticas ou mais racionais e políticas, mas no geral as crónicas acabam por ser mais objetivas e analíticas, o que responde também ao que sou. As crónicas, o gastar tão rápido e semanal de palavras, levaram-me a ser mais cautelosa nas canções. Não no sentido de me conter a nível político, mas ao nível formal da escrita.
Há uma preocupação mais poética? Sim, mas tem a ver com essa economia de recursos; e talvez com menos espontaneidade na escrita. As canções são mais contidas. Não são quilométricas, como nos discos anteriores. Mas há de facto um contexto angolano. Em ‘Sol de Novembro’, por exemplo, há uma citação da poesia de Viriato da Cruz, mas a canção não esquece que neste mês se comemoraram os 40 anos da independência de Angola.
A luta de Luaty Beirão não está fora do disco. A gravação coincide, aliás, com as prisões dos ativistas. Isso é lembrado no livreto... Sim, a canção ‘Langidila’ aparece como homenagem a uma mulher que admiro muito, Deolinda Rodrigues, guerrilheira angolana que morreu em combate, mas também se relaciona com as prisões. Acompanhei muito de perto as notícias e até acho que a ansiedade em relação ao disco se relativizou um pouco perante algo mais importante que estava a acontecer. Quando acabei este disco, senti-me em tranquilidade absoluta, provavelmente porque as prisões me fizeram pôr tudo em perspetiva. É irónico que 40 anos depois da independência volte a haver presos políticos. Não que não tenho havido durante estes anos... Mas este ano? Com acusações tão frágeis e tão mal sustentadas? É um fator de grande preocupação em Angola. Acho que nunca vi tanta gente preocupada e apreensiva...
Texto publicado na edição do Expresso de 28 novembro



sábado, 21 de outubro de 2017

'às portas da cidade...'_manuel veiga

ÀS PORTAS DA CIDADE...


Às portas da cidade rarefeita por onde
Os lobos marcam lá dentro a paisagem em seu registo de sangue
E ódio e se devoram senhores do tempo
E os cães famélicos são apenas os restos do banquete
E da apoteose da morte...

Às portas da cidade por onde o grito se perfila
E os rodízios e as alavancas gemem num chiar de surdos
E o canto se entope nas gargantas. E pela milésima vez
Bandeiras esfarrapadas cobrem as chagas
Expostas como fístulas poluídas...

Às portas da cidade onde fervem as vitórias e todas
As desistências são possíveis e os heroísmos são verso e reverso
De tudo ou nada. E os homens se reconhecem
E são barro ou aço na dimensão comum do seu destino
E da entrega à incerteza e ao sobressalto...

Às portas da cidade por onde um poeta sem nome
E sem glória aclara a voz com cítara desajeitada
E recolhe os salvados de todos os naufrágios
E com eles as dores e as fomes descarnadas que se perfilam
Num deserto de agonia trágica...

Aí nesse mítico lugar de batalhas destroçadas e de furtivas
Esperas. Aí às portas da cidade por onde corre o sangue
Fermente e o medo se fecunda no rugir dos ferros e dos ventos.
Aí nesse mítico lugar solto meu grito de guerra e me jogo
Farrapo de azul vertido nas velas rasgadas de um qualquer
Moinho perdido no horizonte dos dias...


Manuel Veiga


"Poemas Cativos" - Poética Edições - Maio 2014