quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Arquitectura_ O rosto desfeito

A arquitectura e' também vítima de poderes e regimes políticos destruidores.
No primeiro caso, foi arrasado o mais emblemático edifício de Luanda.
Uma obra de interesse publico, social e paisagístico, na moderna e humana arquitectura.
No segundo, preservou-se este, igualmente magnifico, edifício, também porque serve os
fins políticos. Lamentável.


1. Mercado Municipal do Kinaxixe/Kinaxixi (Quinaxixe)

2. Rádio Nacional de Angola (ex- Emissora Oficial de Angola)


Mercado Municipal do Kinaxixe/Kinaxixi (Quinaxixe)


Mercado Municipal do Kinaxixe/Kinaxixi (Quinaxixe)
Luanda [São Paulo de Luanda], Luanda, Angola
Equipamentos e infraestruturas

O Mercado do Kinaxixe (1950-1958), demolido em 2008, constituía uma referência do movimento moderno em Luanda correspondendo à primeira obra desenhada por Vasco Vieira da Costa (1911-1982) depois do estágio realizado em Paris no atelier de Le Corbusier. O projecto responde à encomenda do Governador-Geral de Angola, Capitão José Agapito da Silva Carvalho, e será desenvolvido entre 1950 e 1952 por Vasco Vieira da Costa, no âmbito das suas funções como arquitecto municipal, na zona alta da cidade: junto ao Museu Nacional de História Natural de Angola (1956) e do cinema Miramar (1964), onde surgirá no início dos anos 50 o bloco “Edifício Cuca” (demolido em 2011), do arquitecto Luís Taquelim da Silva.

É também nos anos 50 que Vasco Vieira da Costa elabora o Plano para a Baía de Luanda desenhando uma linha de edifícios que limitam o crescimento da cidade e, simultaneamente a abrem para a baía através da criação de uma extensa galeria ao nível do piso térreo que marca o embasamento criando um espaço de transição e um percurso confortável. O Mercado do Kinaxixe será um dos edifícios desenhado nos anos 50 que transformará a cidade de Luanda, organizando o espaço circundante com a sua geometria simples e reinventando o lugar.

Situado no Largo do Kinaxixe, área de expansão da cidade, o Mercado funcionou como um instrumento estruturante da área de expansão urbana de Luanda para Norte localizando-se no cruzamento de vias relevantes na organização da cidade, como a Avenida Comandante Valódia e a Rua Gamal Abdel Nasser, definindo-as, e limitando a fachada do largo do Kinaxixe, como um espaço público de encontro.

O Mercado do Kinaxixe afirmava-se como um edifício monumental paralelepipédico elevado do chão, cuja continuidade com a cidade era garantida através do piso térreo ajustado à topografia: pé direito duplo a nascente e piso intermédio a poente. Recuado em três lados, o piso térreo é desenhado com recurso a uma estrutura porticada de duplo pé direito, ocupado por espaços comerciais em relação directa com a cidade, o recuo relativamente ao plano da fachada protegia-os do sol. Na fachada Norte, o piso térreo avança para o limite da fachada e é desenhada uma rampa de acesso ao piso intermédio.

A planta de forma rectangular com 100 metros de comprimento por 60 metros de largura conforma dois pátios, em cotas distintas devido à inclinação do terreno, e em volta dos quais Vasco Vieira da Costa organiza todo o programa. No piso térreo os espaços comerciais virados para a cidade e os armazéns e serviços virados para o interior dos pátios, e no piso superior a área destinada à venda de produtos constituída por galerias de 6,5 metros de pé direito onde se localizavam as bancas fixas que organizavam o espaço.

Entre os dois pátios, no centro da composição, localizavam-se as entradas no Mercado, e organizavam-se as circulações verticais, escadas e elevadores, desde a cave até à cobertura em terraço, marcado por elementos escultóricos modernos, com vista sobre a cidade.

A pele exterior contínua definida por um brise-soleil de elementos verticais de betão assegurava a ventilação e o sombreamento de toda a galeria comercial no 1º piso, cuja continuidade era quebrada pela introdução linhas diagonais, rasgos horizontais, volumes escultóricos ou caixas de betão revestidas com pastilha vidrada de grande diversidade cromática.

Esta obra confirma a pesquisa de Vasco Vieira da Costa procede numa arquitectura capaz de responder eficazmente às condições climáticas procurando uma ventilação permanente aliada a um sombreamento dos espaços potenciando soluções formais expressivamente modernas. De acordo com Manuel Correia Fernandes, o Mercado do Kinaxixe “representou a síntese do Movimento Moderno na época da sua construção, e por isso considerado o ex-libris da arquitectura moderna em Angola. Foi, ainda, o “grito de liberdade” que, desafiando o regime colonial, impôs uma nova postura arquitectónica. Foi demolido em Agosto em 2008, com grande mágoa dos luandenses, que se habituaram a ver e a sentir esse “grito de liberdade”.”



Original de Maria João Teles Grilo

(FCT: PTDC/AUR-AQI/103229/2008)

Adaptação de Ana Tostões e Daniela Arnaut.

in: http://www.hpip.org/

"Kinaxixe O mercado que era um símbolo de Luanda já não existe
Autor do texto 22 de Setembro de 2008, 0:00

Entre as décadas de 40 e 60, vários arquitectos formados em Portugal construíram edifícios modernos em Angola. Aquele que era provavelmente o mais emblemático de todos, o Mercado do Kinaxixe, foi demolido e no seu lugar vai nascer um centro comercial com seis pisos e duas torres. Mas há outros exemplos desse "modernismo tropical". Por Alexandra Prado Coelho
Há um buraco vazio no meio de Luanda. Antes estava lá um mercado grande, que todos conheciam. Chamava-se Kinaxixe (alguns escreviam Qinaxixe outros Kinaxixi, mas todos sabiam do que falavam) e tinha sido construído, nos anos 50, por um arquitecto angolano de origem portuguesa, Vasco Vieira da Costa (1911-1982). Há cerca de um mês o Kinaxixe foi demolido, já não existe, e sabe-se que no vazio que deixou irá ser construído um centro comercial. Houve tentativas de travar o processo, houve indignações, mas o Kinaxixe, que fora construído entre 1950 e 52, veio mesmo abaixo. A Ordem dos Arquitectos de Angola insurgiu-se num manifesto: "Conhecido mundialmente como uma peça de arquitectura moderna notável, foi considerada pela UNESCO a hipótese de ser classificado património arquitectónico da Humanidade. Com lucidez e sabedoria o Kinaxixe seria o nosso "Edifício Manifesto": o corpo simbólico da nossa independência, do nosso grito de liberdade presente na cidade e de contestação ao regime colonial".
A arquitecta portuguesa Ana Magalhães fotografou o Kinaxixe em Julho, pouco antes da queda (são dela as imagens que acompanham este artigo). Era um dos edifícios - provavelmente o maior exemplo - da arquitectura moderna construída nas décadas de 40, 50 e 60 em Angola e também Moçambique (tema de um livro que Ana Magalhães está a preparar, e da sua tese de doutoramento intitulada Migração do Moderno - Arquitectura na Diáspora - Portugal, Brasil e África colonial (Moçambique e Angola), 1948-1974.
"É um tipo de arquitectura que fez escola", explica. "Quando se anda em Luanda praticamente não se vê a arquitectura mais colonial, porque o peso desta arquitectura dos anos 50 e 60 é tão forte que marca tudo". Percorrendo a cidade, a arquitecta foi fotografando esses edifícios - os que são referência e estão identificados, como o bloco da Mutamba, hoje Ministério das Obras Públicas (de Vasco Vieira da Costa) ou o edifício da Radiodifusão de Angola - e muitos outros, de arquitectos anónimos, mas que seguiram as linhas modernistas que a chamada "geração africana" lançou em Luanda e Maputo.
Viajou depois até ao Lobito, onde encontrou os edifícios construídos por Francisco Castro Rodrigues, o liceu, e a cine-esplanada Flamingo, que as fotografias da época mostram cheia de gente a ver os filmes projectados no grande ecrã, e que hoje está vazia, mas ainda preservada - sobretudo o chão, notou Ana Magalhães - e mantendo um charme decadente. Pelo meio do antigo cinema ao ar livre passam crianças pequenas, de mochilas às costas, a caminho de uma escola improvisada. Já não passam filmes, é possível até que alguém habite dentro da cabina de projecção, e no meio das paredes rosa e dos desenhos de flamingos as crianças sentam-se em pequeninas cadeiras de plástico a ouvir a professora.
Obras para clima tropical
Os arquitectos partiram - alguns deles já morreram, outros voltaram para Lisboa - os edifícios ficaram, atravessando períodos conturbados da história de Angola. Hoje são cada vez mais olhados como obras de arquitectura com um valor único. "É uma arquitectura que não tivemos em Portugal por circunstâncias específicas nossas", explica Ana Magalhães. Os arquitectos que estudaram em Portugal e que foram, nessa época, para Angola e Moçambique gozaram, por um lado, de "maior liberdade" e, por outro, tiveram "a possibilidade de fazer uma arquitectura tropical que aqui não seria possível".
Uma arquitectura que não precisava de se preocupar com o frio, mas que tinha que lidar com questões como a chuva ou a ventilação. "[Estes arquitectos] fizeram o que hoje designamos por arquitectura sustentável, que procura dar respostas não com a ortodoxia e ideias feitas, mas explorando os sombreados, criando lugares de circulação do ar, espaços de transição que não estão dentro nem fora", diz a arquitecta Ana Tostões, autora de vários livros sobre a arquitectura moderna portuguesa.
A arquitecta confirma que "em Portugal, na mesma época, não existe nada comparável", em grande parte porque "as encomendas institucionais eram altamente vigiadas", e só no final dos anos 50, graças às encomendas dos municípios, é que começamos a ter "obras mais arriscadas".
"O Vasco Vieira da Costa é um dos arquitectos da geração moderna que faz uma obra de alguma forma contra o regime", considera Ana Tostões, que é também representante de Portugal no Docomomo, organização internacional de defesa do património arquitectónico moderno. Aliás, defende, é precisamente no hemisfério Sul (em África, mas sobretudo no Brasil) que "a arquitectura moderna ganha grande liberdade e toma uma expressão brilhante como resposta a uma situação muito diferente da da Europa".
Passagem por Le Corbusier
Fernão Simões de Carvalho foi um desses arquitectos (e, no caso dele, também urbanista). Nascido em Luanda, estudou em Portugal e depois foi para Paris onde, numa mistura de coragem e algum descaramento, foi bater à porta do atelier do grande arquitecto Le Corbusier [com quem Vieira da Costa também trabalhou), propondo-se como estagiário - e conseguiu lá ficar durante quatro anos. Foi só em 1959/60 que voltou para Angola e começou a trabalhar para a Câmara Municipal de Luanda.
Ao contrário de outros colegas, Simões de Carvalho não saíra de Portugal por razões políticas, por isso não sentiu que em Luanda houvesse mais liberdade para fazer arquitectura do que havia, na mesma altura, em Lisboa ou no Porto. "Nunca me impuseram soluções, nem lá nem cá. Aliás, nunca me meti na política, a minha política é o urbanismo". Mas concorda que os edifícios que ali nasceram naquela época têm características especiais. "Os quebra-sóis, as protecções solares, as varandas... qualquer arquitecto tem que fazer arquitectura adaptada ao clima. Se é no interior é de uma maneira, se é na faixa marítima é de outra. Claro que havia ali soluções que não fariam sentido para a Avenida António Augusto de Aguiar, por exemplo".
Regressou a Portugal em 67, e depois do 25 de Abril foi para o Brasil - "o país onde fui mais acarinhado, onde trabalhei mais, projectei três cidades". A Angola não voltou. Sabe que o plano director que fizera para a cidade nunca chegou a ser aplicado, desconhece se alguns dos projectos que desenhou chegaram ou não a ser construídos, mas sabe que o edifício da Radiodifusão, que fez com José Pinto da Cunha e Fernando Alfredo Pereira e de que muito se orgulha, é tratado com carinho pelos luandenses e é também para eles um motivo de orgulho na cidade.
Um "shopping multiusos"
Mas também ouviu coisas menos positivas. "Tenho notícia de algumas asneiras que fizeram lá, prédios altos no centro da cidade, quando os prédios altos equivalem a muito mais automóveis. A baixa de Luanda está atulhada de arranha-céus e assim ninguém pode circular".
A estes juntar-se-á, nos próximos quatro anos (tempo previsto para a construção) o centro comercial que ocupará o lugar do Kinaxixe e que o Semanário Angolense, a partir de uma conversa com o director técnico do projecto, Luciano Dzik, descreve como "um shopping multiusos com seis pisos e duas torres comerciais situadas nas laterais norte e sul, com 20 pisos cada" e que terá ainda uma cave de cinco pisos destinada ao estacionamento. O Shopping Center Kinaxixe terá 200 lojas, sete salas de cinema e um piso inteiro para restauração. Quanto às duas torres, destinam-se a escritórios e terão caves com dois mil lugares de estacionamento.
O Semanário Luandense explica que há quatro anos, quando o Grupo Macon (ligado aos transportes públicos) recebeu a concessão sobre o Kinaxixe, chegou a organizar uma gala para apresentar, em tecnologia digital, o novo centro comercial. Mas durante quatro anos nada aconteceu. Segundo Dzik, foi o tempo necessário para o "aprimoramento" do projecto e a sua adaptação à "realidade actual". "O desenho do shopping daquela época [há quatro anos] seria inadequado para os dias de hoje", afirmou ao jornal. Grande parte do debate durante esse período teve a ver com a possibilidade de se aproveitar a estrutura original do Kinaxixe - hipótese que acabou por ser afastada.
Desapareceu, portanto, o velho mercado de Luanda, peça essencial de uma arquitectura a que começa agora a dar-se o devido valor. Mas qual é o nosso olhar - de portugueses - hoje sobre este património? O manifesto da Ordem dos Arquitectos de Angola diz claramente: "Os edifícios nas cidades são marcos da identidade civilizacional dos povos", e, mais à frente, "Vasco Vieira da Costa era um Arquitecto Angolano (alguém diria... 'mas nasceu em Aveiro'... mas quantos angolanos nasceram e nascem em Londres, Paris, Joanesburgo ou Rio de Janeiro?)". Os subscritores deste manifesto vêem o Kinaxixe como um edifício "que se queria assumir como um grito de liberdade e oposição ao regime colonial português" e que "desafiava o regime pela imposição de uma nova postura da arquitectura".
João Rodeia, presidente da Ordem dos Arquitectos portuguesa, (mas que faz estas declarações ao P2 a título individual) defende que temos que olhar para estes edifícios como "uma coisa que não é nossa, é património dos países onde está, mas que tem uma ligação com a nossa cultura arquitectónica". Estamos, portanto, perante uma arquitectura que é "por um lado internacional, porque acrescenta novas lições ao movimento moderno, tem alguma raiz portuguesa dada a formação dos seus autores, mas é sobretudo arquitectura africana dentro da modernidade".
O Kinaxixe pertencia - como pertencem outros edifícios - à ideia de uma Luanda "cosmopolita, aberta ao mundo, sofisticada", sublinha Rodeia. "Numa altura em que as cidades competem entre si através das diferenças, uma cidade com ambição não pode dar-se ao luxo de atirar para o lixo um edifício que atrairia turismo especializado e a colocaria na rota do mundo".

in: jornal "Publico"

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Rádio Nacional de Angola (ex- Emissora Oficial de Angola)







Rádio Nacional de Angola (antigo Centro de Radiodifusão de Angola)


Rádio Nacional de Angola
Luanda [São Paulo de Luanda], Luanda, Angola
Equipamentos e infraestruturas

Edifício desenhado e construído entre 1963 e 1967, segundo projeto do arquiteto Fernão Lopes Simões de Carvalho, com colaboração de José Pinto da Cunha e Fernando Alfredo Pereira. Representa, sem margem de dúvida, a liberdade conceptual da linguagem arquitetónica do Movimento Moderno. Os espaços vão‐se multiplicando entre ambientes abertos, com jardins interiores e água, elementos fundamentais de conforto. A entrada principal é ensombrada por uma arrojada pala em betão, elemento de grande impacto visual.
Localizado na parte alta da cidade, foi projetado como um conjunto de edifícios autónomos, apenas parcialmente edificado, tendo no bloco de estúdios o seu elemento referencial. Dimensionado segundo as regras do Modulor, este vasto prisma de um piso tem a cobertura pontuada por volumes salientes e vazios correspondentes a pátios de iluminação e ventilação. As suas fachadas denotam a influência da arquitetura de Le Corbusier na expressividade do betão aparente e no jogo de luz e sombra protagonizado pelos profundos brise‐soleil de composição dominantemente vertical ou em malha alternada de lâminas verticais e horizontais. Nas instalações existentes funciona atualmente a Rádio Nacional de Angola.

Elisiário Miranda

in: http://www.hpip.org/

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Sequeira Costa_RIP




© Arquivo DN

"Morreu Sequeira Costa, um dos maiores pianistas portugueses





Pianista português morreu nos Estados Unidos, onde vivia, vítima de cancro, aos 89 anos. "A chamada inspiração não existe. A inspiração é o resultado de um trabalho afincado, premeditado. Talento há, felizmente que é raro", dizia

O pianista português José Carlos Sequeira Costa morreu nos Estados Unidos, onde residia, aos 89 anos, vítima de cancro, confirmou hoje à Lusa fonte próxima da família.

Distinguido em 2004 com a Grã-Cruz da Ordem Infante D. Henrique pelo então Presidente da República, Jorge Sampaio, Sequeira Costa foi um dos nomes mais significativos do piano português no século XX, tendo fundado o Concurso Internacional Vianna da Motta, de quem foi aluno.

Em 1951, Sequeira Costa venceu o Grande Prémio de Paris no Concurso Internacional Marguerite Long, tendo desde então sido um dos nomes de maior projeção nos palcos internacionais. A convite de Dimitri Chostakovitch fez parte do primeiro júri do Concurso Internacional Tchaikovsky, em Moscovo, no ano de 1958.

Desde 1976 era professor de piano na Universidade do Kansas, nos Estados Unidos. Ocupou a cátedra "Cordelia Brown Murphy Distinguished Professor of Piano" naquela universidade.


""A chamada inspiração não existe. A inspiração é o resultado de um trabalho afincado, premeditado. Talento há, felizmente que é raro. Porque hoje em dia há milhares de pianistas, então os asiáticos estudam 25 horas por dia e não serve para nada, porque não têm o talento necessário como têm os europeus, mas isso é normalíssimo porque a nossa cultura de Beethoven, Bach, Chopin, era no centro da Europa"

Em 2004, disse à jornalista Ana Sousa Dias, em entrevista na RTP, que, por ter "abraçado inteiramente o espírito de Beethoven" ao dedicar-se à interpretação da integral das sonatas do compositor alemão, se sentia "para além da vida humana já". Ana Sousa Dias recordava nessa entrevista uma ou outra frase que lhe é atribuída: "Uma vida humana não é suficiente para chegar a metade de tudo o que existe."

Sequeira Costa classificava então Bach como o "sol de todos os compositores" e destacava Liszt como estando entre os seus criadores preferidos, por ter sido seu "avô espiritual", ao ter ensinado Vianna da Motta.

"A chamada inspiração não existe. A inspiração é o resultado de um trabalho afincado, premeditado. Talento há, felizmente que é raro. Porque hoje em dia há milhares de pianistas, então os asiáticos estudam 25 horas por dia e não serve para nada, porque não têm o talento necessário como têm os europeus, mas isso é normalíssimo porque a nossa cultura de Beethoven, Bach, Chopin, era no centro da Europa", disse à RTP, na altura.

Artur Pizarro, um dos mais internacionais pianistas portugueses da atualidade, que iniciou os estudos com Sequeira Costa na infância, escolheu hoje uma gravação da "Pequena Valsa", de Teresa Carreño, interpretada pelo professor, para o "lembrar (...) como ele gostaria... com charme, ao piano!"

À agência Lusa, o pianista afirmou que Sequeira Costa "foi um dos pianistas portugueses mais importantes de qualquer século".

"Como artista discográfico deixou um legado que muitos poucos em Portugal, seja rock, seja pop, seja clássico, tiveram o protagonismo que ele teve, como representante de um país que 'quase' lhe correspondeu". Pizarro acrescentou ainda que "para as possibilidades do país, teve o que poderia ter tido. Claro que mereceria muito mais, mas para isso era preciso que o mundo fosse outro".

Também o comissário europeu para a Ciência, Investigação e Inovação, Carlos Moedas, recordou Sequeira Costa e considerou hoje que "o mundo perdeu um dos maiores pianistas".

Também a fadista Gisela João lhe prestou nesta sexta-feira homenagem, recordando o dia em que, escreve na sua página de Facebook, "esbarrei-me com um cd, os nocturnos de Chopin e quem tocava era este senhor. Eu não o conhecia, ele a mim nunca me viu mais gorda nem mais magra, não tínhamos relação, até ali quero eu dizer! Apaixonei-me! Para sempre!"

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José Carlos Sequeira Costa nasceu em julho de 1929, começou muito cedo a estudar música, teve como professor José Vianna da Motta, um dos derradeiros discípulos de Franz Liszt, e aperfeiçoou os seus conhecimentos com Mark Hamburg, Edwin Fischer, Marguerite Long e Jacques Fevrier, protagonistas da interpretação para piano, nas primeiras décadas do século XX.

As suas leituras de Beethoven, a par das de Albéniz e Rachmaninov, eram descritas "como verdadeiramente autênticas", e o 'site' da Gulbenkian, na sua biografia, chegou a destacar o "seu sedoso fraseado" e o "seu som cristalino".

Atuou pela primeira vez no Teatro Nacional de São Carlos, em Lisboa, já como solista, aos 18 anos, em janeiro de 1948. "Inserido numa luminosa linhagem - aluno de Vianna da Mota, teve aulas com Liszt e com Czerny, discípulo de Beethoven - Sequeira Costa deu continuidade aos valiosos ensinamentos que recolheu partilhando o seu conhecimento junto de vários pianistas, o mais importante dos quais é Artur Pizarro", lê-se na nota de pesar hoje emitida por aquele teatro nacional, que descreve Sequeira Costa como"um dos mais distintos valores musicais de Portugal".

Atuou nas principais salas de concerto a nível mundial, como o Carnegie Hall, em Nova Iorque, o Kennedy Center, em Washington, o Musikverein de Viena, ou o Suntori Hall, em Tóquio.

Até aos 80 anos continuou a realizar digressões internacionais, a orientar cursos de aperfeiçoamento e a fazer parte de júris de concursos, como o do 1.º Concurso Internacional Sviatoslav Richter, em Moscovo, em 2005."

in: D.N.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

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Continuidade dos parques - Julio Cortázar
Corações solitários - Rubem Fonseca
Sair de Matilde - Alberto Moravia
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A almofada de penas - Horacio Quiroga
O trapezista - Franz Kafka
O banquete - Julio Ramón Ribeyro
O barril amontillado - Edgar Allan Poe
O manto - Nikolai Gogol
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O fantasma de Canterville - Oscar Wilde
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O guardagujas - Juan José Arreola
O horla - Guy de Maupassannt
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O nadador - John Cheever
O perseguidor - Julio Cortázar
O pirata da costa - Francis Scott Fitzgerald
O poço e o pêndulo - Edgar Allan Poe
O feliz príncipe - Oscar Wilde
O rastro do seu sangue na neve - Gabriel García Márquez
O presente dos homens sábios - O. Henry
O barulho do trovão - Ray Bradbury
O novo naipe do imperador - Hans Christian Andersen
Na floresta - Ryonuosuke Akutakawa
Em memória de Paulina - Adolfo Bioy Casares
Acendendo uma fogueira - Jack London
Enoch Soames - Max Beerbohm
Aquela mulher - Rodolfo Walsh
Exilado - Edmond Hamilton
Funes el memorioso - Jorge Luis Borges
Harrison Bergeron - Kurt Vonnegut
A queda da casa de Usher - Edgar Allan Poe
A capa - Dino Buzzati
A casa inundada - Felisberto Hernández
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O frango decapitado - Horacio Quiroga
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Sobre conhecer a garota perfeita em uma linda manhã de abril - Haruki Murakami
Tlön, Uqbar, Orbis Tertius - Jorge Luis Borges
Tobermory - Saki
Um dia perfeito para o peixe de banana - JD Salinger
Um marido sem vocação - Enrique Jardiel Poncela
Uma rosa para Emilia - William Faulkner
Vizinhos - Raymond Carver
Chuvas suaves virão - Ray Bradbury

in: https://www.yaconic.com/lee-100-cuentos-cortos/

Sara Correia _ Nova Voz no Fado_Entrevista

Ana Bela Ferreira 20 Fevereiro 2019 — 06:16, in: jornal "Diário de Noticias"






E que canção sonhavas cantar e agora já podes e que canção ainda sonhas um dia ter maturidade para poder cantar?

Não tem que ver com o facto de não conseguir cantar, tem que ver com a experiência de vida. Acho que ainda não é o momento. Por exemplo, fui convidada para fazer uma série francesa em que tinha que cantar O Grito, da dona Amália. Estamos a falar de um fado que fala "vem morte que tanto tardas" e eu tinha 17 anos. Fiz, com todo o gosto, e foi incrível a experiência, mas jamais cantaria isto num concerto meu. Não vivi isso e não estou à espera de que a morte venha já. Acho que quando cantamos alguma coisa tem de ter uma história nossa e tem de fazer parte de nós para o podermos cantar. E há letras como O Grito que têm o seu tempo, quando tiver uns 50, 60 anos quem sabe. Não falo de idade, falo de experiência de vida e do que se viveu para se poder cantar. Daí estar a falar há pouco que quando somos mais novas temos de ter esse cuidado. Lembro-me de querer cantar a Maria Madalena que é o Fado das Horas - "quem por amor se perdeu" [diz em voz cantada] - e há um senhor, que entretanto já não está connosco, que era o Manuel Coelho, que tocava, que me dizia "nem penses, não vais cantar isto com 10 anos". E eu dizia "mas eu estou a contar uma história, que é a história de alguém, não é minha" e ele dizia "não interessa, não tens idade para cantar isto". Tudo tem o seu tempo. Sempre fui muito acarinhada nesse sentido e tenho uma forma de estar assim um bocadinho diferente para os meus 25 anos pelo facto de crescido mais depressa, porque sempre me dei com pessoas mais velhas. Hoje está muita gente jovem à procura dos fados, lembro-me de começar a cantar e haver pessoas a dizer "o quê, cantas fado, mas isso não é para velhos?". Hoje vê-se que não é assim. Há outra forma de se cantar o fado, eu apaixonei-me por aquele antigo. Isto tudo para dizer que neste disco [o seu disco de estreia Sara Correia] gravei coisas que sempre quis gravar. Alguns temas como Zé Maria, da dona Lucília do Carmo, que foi gravado em 1962. E depois há temas que um dia mais tarde, quando achar que estou preparada para isso e que vivi o suficiente, vou gravar.


Quando cantamos alguma coisa tem de ter uma história nossa e tem de fazer parte de nós para o podermos cantar.


O fado é isso. Não ter só originais, mas ir buscar a história?

Sim. Há imensos fadistas, músicos, poetas que as pessoas não têm a noção, que nos deixaram coisas lindíssimas, incríveis. Faço esta pesquisa indo buscar vinis, tudo o que é antigo, coisas que ninguém tem noção de que existem. Os primeiros discos da dona Beatriz da Conceição, da dona Deolinda Maria. Há muita coisa que as pessoas não têm a noção, que está gravado e que não foi tão badalado e conhecido, como A Gaivota e muitos fados conhecidos. Desde que comecei a cantar até ao fim dos meus dias, vou fazer sempre essa pesquisa e tentar ir buscar sempre coisas que estão lá atrás e são sempre lindas de morrer, mas que a maior parte nunca ouviu e é incrível ir buscar a história e continuar a história.


Quando decidiste que ias ser fadista a tempo inteiro?

Era muito rebelde e lembro-me de que quando comecei a cantar ainda estudava e a minha mãe muitas vezes queria molhar a sopa porque eu chegava a casa muito tarde dos fados. Imagina, começava-se às sete da noite a acabava-se às cinco, seis da manhã. Era fados a noite inteira. Houve uma altura que a minha mãe já não estava a achar muita piada, só que eu estava mesmo fascinada, queria era estar ali com os mais velhos e aprender. Até que houve ali uma altura que andei balançada com o que queria fazer. Mas a escola é muito importante até mesmo para se cantar e ter-se noção daquilo que se está a ler, é bom que a gente tenha escola. Mas o fado - não digo que a culpa seja dele, mas comecei mesmo a trabalhar a tempo inteiro e então isso também não me ajudava muito na escola, porque quase não dormia e, portanto, ia para a escola a dormir. Até que comecei a crescer um bocadinho e quando ganhei a Grande Noite do Fado com 13 anos disse, "quero isto para a minha vida e para querer isto tenho de estudar e tenho de continuar a escola e tenho de conseguir fazer as duas coisas ao mesmo tempo". Eram outros tempos, não sei explicar. Venho de um fado que é o antigo. Não havia o sonho de "ah eu quero ser isto", não havia. Canto porque gosto de cantar. Canto porque gosto de música. Não canto para ser conhecida. A única coisa que quero deixar para as pessoas é música, a voz e o fado. Não tenho mais nada para oferecer. Não houve esse sonho de ser uma pessoa conhecida, queria ser era uma fadista como as antigas.


Era fados a noite inteira. Houve uma altura que a minha mãe já não estava a achar muita piada, só que eu estava mesmo fascinada, queria era estar ali com os mais velhos e aprender.


Achas que as novas vozes do fado querem mais do que apenas cantar?

Não. É um complemento. E ainda bem que existe, porque o fado está a chegar a pontos que muito dificilmente chegaria se não fosse uma Ana Moura, uma Mariza, uma dona Amália. Precisamos de todos os artistas e estamos a falar de pessoas que começaram em casa de fado também. A Ana Moura e a Mariza começaram no Senhor Vinho e ainda bem que há esta roupagem nova porque também me sinto dessa roupagem. Tenho 25 anos e havia sempre um medo de "não vamos fazer isto porque isto foi criado assim". Tem de haver respeito pela música que já está feita, claro que sim, mas também acho que tem de haver uma lufada de ar fresco, outra forma de se ouvir o fado, outra forma de se cantar, outras letras, até mesmo para chamar esta geração nova que está a aparecer agora.


Mas para ti há uma diferença. Falas na dona Amália e na Mariza...

Não é haver uma diferença. Não gosto de fazer comparações, odeio quando fazem comigo, quanto mais com os outros.


Mas quando te referes às fadistas mais antigas fazes questão de dizer dona.

Sim, mas as fadistas mais antigas são antigas para mim e para a Mariza e para a Ana [Moura]. São onde fomos todas beber o que é o verdadeiro fado. Digo-te uma coisa, gosto muito de ouvir homens a cantar, há quem só goste de ouvir mulheres. Gosto de timbres fortes. É inacreditável aquilo que se fazia antigamente, não há uma fadista que seja igual ou que faça uma imitação, são todas exemplos de serem genuínas - é o caso da Ana, da Mariza, da Carminho, da Raquel Tavares. São todas diferentes e todas estão a fazer aquilo que as antigas fizeram que é deixar uma marca diferente. É necessário haver aqui outra abordagem, respeitando sempre o fado tradicional. Costumo dizer que não estamos aqui a inventar nada, já foi inventado por estas fadistas todas, elas já cantavam o folclore, em francês, em espanhol. Portanto, estamos a dar continuidade àquilo que nos deixaram que é tão bonito e este património tão bonito. O meu grande objetivo é chegar à minha geração para que ouçam fado como ouvem outro tipo de música. Gostava muito.


Estamos a dar continuidade àquilo que nos deixaram que é tão bonito e este património tão bonito.


Identificas-te como a voz do fado tradicional na nova geração?

O fado tradicional é a minha base, é aquilo para que eu nasci. Isso eu sinto. Imagina, estou a cantar outro tipo de música, por exemplo Frank Sinatra, e vai puxar o timbre de fado quer eu queira quer não, porque o fado está em mim. E fica quase parecido porque o jazz também é uma música do povo. O fado é uma música do povo e não digo que seja só português, é português, mas é do mundo. Temos é de fazer exatamente o que estas fadistas de agora estão a fazer que é o trabalho de mostrar que é possível fazer música boa, sendo fado na mesma. E esse é o mais difícil: fazer bem e correto.


O fado é a verdadeira expressão da língua portuguesa?

Claro que sim. O fado é a nossa música, o fado nasce numa altura - daí ser como as pessoas dizem uma música muito triste -, em que os marinheiros partiam e as mulheres ficavam aqui a chorar pelo marido que não voltava - como o fado português que gravei no meu disco conta isso, "o fado nasceu um dia/ quando o vento mal bulia/ e o céu o mar prolongava/ na amurada de um veleiro/ no peito de um marinheiro/ que, estando triste, cantava". O fado é do povo triste e é muito difícil explicar de onde é que ele vem. É uma coisa que se sente, não se explica, não dá para descrever, é emoção. Se estiver triste e for cantar nesse dia, é outra história, sai com outro peso na palavra.











Gostas mais desse peso?

Gosto. Tenho essa forma de estar e de viver que é o fado. Sou um bocado dramática. Ou estou muito feliz ou muito triste. E é exatamente como o fado é: ou 8 ou 80.


Como está a correr o primeiro disco?

Tive três anos para preparar este disco com o Diogo Clemente. Foi uma longa viagem de trabalho, pesquisa e a cantar. Com concertos no meio e a pensar que queria fazer este disco e que estava preparada para o fazer e que sentia que estava com a maturidade certa para o fazer. Encaro este disco como uma marca no mundo, um disco em que me revejo, daí se chamar Sara Correia. As letras todas que canto são tudo quase autobiografias da minha vida, de amores que tive, ou desamores, então não quis dar outro tema ao disco que não fosse Sara Correia. Estou muito contente, sinto que há muita gente da minha idade que me procura e quer saber desde quando canto. As pessoas acham que comecei a cantar agora. E sinto que há aqui uma boa abordagem, em relação àquilo que queria que é chamar mais esta geração de adolescentes para cá e que fossem um bocadinho mais preocupados com aquilo que é nosso. E forçar um bocadinho mais essa praia.


Como é que te vês: mais dos concertos ou das casas de fado?

Vou ver-me eternamente como a fadista. Adoro cantar em casas de fado, é onde o fado acontece, várias vezes. Só que vejo-me em cima de um palco, não tenho medo de holofote nenhum. O que costumo dizer é que é o único sítio onde me sinto inteiramente feliz e fadista. Porque é o único sítio onde posso estar com a minha equipa, as pessoas que quis para estarem comigo: o Diogo Clemente, o Ângelo Freire, o Marino de Freitas, o Vicky Marques, são pessoas que tenho em grande estima, grandes músicos. Tive o grande privilégio de eles aceitarem fazer o disco comigo e estar com eles em palco. Fazer aquilo de que mais gosto e mostrar ao mundo é das coisas mais gratificantes que podemos fazer na vida. Sou muito abençoada, mesmo. Faço aquilo de que gosto, portanto só posso ser feliz.


Há o risco de te afastares das casas de fado?

Sempre que tiver oportunidade vou às casas de fado. Estou quatro vezes por mês numa casa de fado que é o Fado em Si, em Alfama. Estou a trabalhar naquela casa há nove anos, então não faz sentido, só porque faço palco, deixar as minhas raízes, nem quero mesmo, porque faz-me muita falta a casa de fado.


É aí que vais buscar inspiração?

Ora aí está, até mesmo com outros colegas. Vou buscar inspiração, a energia de que preciso quando estou mais em baixo.


Para um fadista, que ambiente é esse das casas de fado?

É mágico, porque no palco temos uma coisa que já está programada, já está escrito o que vamos cantar. Na casa de fado temos a magia de dizer "não canto o Fado Bagdadhá dez anos, toca-me o Fado Bagdad em si". São coisas que podemos ir buscar ao baú, é um sítio mais intimista. É mais difícil cantar numa casa de fado do que num palco, porque as pessoas estão mais ali, connosco.


Pedem-vos músicas também...

Claro...


Mas se não vos apetece cantar essa música, como é que se contorna?

Às vezes as pessoas pedem o Foi Deus da dona Amália e eu digo "por acaso não faz parte do meu reportório" e não faz, mas proponho cantar outro fado da dona Amália. Tento sempre ir por este caminho, porque não é que não saiba as letras, mas não me identifico ou não faz parte do meu reportório. Mas normalmente aquilo que as pessoas pedem são as mais conhecidas. Nós já sabemos o que as pessoas vão pedir, é o Nem às Paredes Confesso, Amália, Rua do Capelão, as pessoas gostam é destes fados, os tais ícones do fado que ficaram sempre e que as pessoas conhecem. Às vezes ouvem-nos a cantar outros temas e ficam "uau" e as pessoas não sabem que também são músicas por exemplo da dona Amália Rodrigues. Acho que a casa de fado é o sítio onde nós verdadeiramente somos nós.











E quem são as tuas referências?

A dona Amália Rodrigues - digo dona Amália porque é um respeito muito grande e vou sempre falar destas senhoras desta forma -, mas tenho muitas referências. Gosto muito de ouvir homens fadistas. Desde Ricardo Ribeiro, que para mim é incrível, mas incrível, e depois dos antigos gosto muito de Fernando Maurício, Fernando Farinha, Carlos Zel, António Calvário, António Rocha, sei lá, tanta gente. Mulheres: Fernanda Maria, Deolinda Maria - nunca mais saio daqui -, Beatriz da Conceição, muita gente. Às vezes dou por mim a ter de ir ver quem é aquela fadista que está na minha playlist, porque são tantas de quem ninguém ouviu falar e que são referências minhas. O fadista tem isto que é podermos beber de muitos sítios, porque havia muita boa música antiga.


Teres começado tão nova também te permitiu trabalhares com algumas das tuas referências?

Sim, trabalhei com a dona Maria da Nazaré, a dona Celeste Rodrigues - de quem tenho muitas saudades e vou ter eternamente -, a dona Cidália Moreira, do Jorge Fernando, trabalhei com eles oito anos numa casa de fado e foi uma grande escola para mim. Foi o sítio onde me sentia todos os dias com aquela responsabilidade de "uau, o que estou aqui a fazer no meio de tanta fera" e o principal era saber ouvir. Eu saía da mesa onde estava para ir lá para dentro ouvi-los cantar todas as noites e isso é o mais importante: saber ouvir e beber o fado.


Saía da mesa onde estava para ir lá para dentro ouvi-los cantar todas as noites e isso é o mais importante: saber ouvir e beber o fado.


O que foi que eles te ensinaram?

Aquilo que se ensina como te disse não é a cantar - ou se tem ou não se tem, ponto - mas lembro-me de levar muito na cabeça porque tinha de saber dividir os poemas. É mais importante teres o peso da palavra e conseguires transmitir a letra do que o cantar. Gosto mais de ouvir pessoas que tenham o poder da palavra do que aquelas que cantam e isso para mim na altura era muito difícil porque eu não tinha aquela história toda para contar, aquela vivência toda, nem tantos anos de fados como estas pessoas com quem cantei. É ter uma letra à frente e estares com um artista destes e dizer "eu gostava de cantar esta letra neste fado" e essa fadista dizer-te assim: "Ok, há que ter aqui o cuidado da dicção, de fazer vírgulas nos temas, de passar uma história a alguém." O principal da música é exatamente isto. É conseguir estar a cantar para ti e transmitir-te a letra do início ao fim e tu ouvires do início ao fim sem piscares o olho. É isso que te prende.


Uma boa voz só distrai, é isso?

Pode ter-se isso tudo, mas o principal é passar a mensagem. É passar a história do que estás a cantar, isso sim. Daí estes artistas serem todos tão genuínos, porque todos eram diferentes e todos com um respeito e com uma sabedoria a cantar que dificilmente se vai ter hoje nos fados.


Vês-te a passar estes ensinamentos a novos fadistas nas casas de fado?

As coisas estão diferentes. O fado nunca vai mudar, o fado é o fado, por mais que exista nova roupagem. É difícil transmitir coisas a alguém que não viveu. Tem de se viver para se sentir, e o que tenho pena é que a maior parte dos fadistas de quem eu bebi já não estejam entre nós, essas são as histórias que a nova geração devia ter presentes.


Quero levar o fado ao mundo. Cantar em vários palcos e deixar sempre ali a plantinha que é o fado.


Sentes que os novos fadistas estão mais a começar pelos palcos do que pelas casas de fado?

É normal. Daí dizer que tem de haver este cuidado daquilo que se passa para as pessoas do que é o fado. É muito complicado estar a falar disto porque não se vai ver mais aquele fado, a não ser quando esta geração de agora envelhecer e ficar pelas casas de fado, quem sabe dê esta palavra aos outros e consiga passar o que se viveu lá atrás. Costumo dizer que um dos meus maiores sonhos era ter uma máquina do tempo para ir lá atrás beber o que se passava nas casas de fado. Gostava muito de ter ouvido ao vivo a dona Amália - quem é que não gostava - e não tive essa oportunidade. É muito importante quem queira fazer disto vida que se interesse por ir às casas de fado e que se preocupe em ir aos fados mais vezes. Eu vou aos fados todos os dias desde sempre. Essa é a escola: ir aos fados e ouvir toda a gente e beber de toda a gente um pouco.


Como vês a tua carreira daqui a dez anos?

Não faço planos. Vejo-me a fazer mais discos, quero gravar mais vezes, mostrar algumas coisas minhas que ainda não tive oportunidade de mostrar. Quero viver mais, porque tenho 25 anos, tenho muito para viver, muita coisa ainda para sentir e daqui a dez anos espero continuar a cantar para o grande público. Levar o fado ao mundo. Cantar em vários palcos e deixar sempre ali a plantinha que é o fado. Só me vejo a cantar o fado. Não quer dizer que não cante outras coisas. Às vezes ponho no Instagram outras coisas como o Rodrigo Amarante com a música do Narcos. Ouvi aquilo e fiz uma versão. Vou fazendo versões de música de que gosto.









terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Dulce Maria Cardoso_sobre "Eliete"





Palavra de Autor 16# Dulce Maria Cardoso: “Não é por acaso que escrevo sobre a menstruação”


13.02.2019 às 10h31


Demorou sete anos a voltar. Mas fê-lo em grande. “Eliete”, o último romance de Dulce Maria Cardoso, tornou-se rapidamente um sucesso, tal como o anterior. O “retorno” da escritora acontece com a história de uma mulher, que vive uma vida normal, urbana, nas franjas do Tinder, e das experiências eróticas que a aplicação lhe proporciona. E que começa menina, com vergonha do corpo feminino e dos seus ciclos. O livro é o primeiro de uma possível trilogia (ou de um romance em contínuo), ancorada na realidade portuguesa, no passado e no presente, nos maus poemas de Salazar, a que a escritora rouba frases e títulos. Neste Palavra de Autor, Dulce Maria Cardoso lê passagens de “Eliete” e fala com Cristina Margato, também sobre o que pode ser o segundo volume, a publicar na Tinta da China, ainda em 2019



CRISTINA MARGATO


Eliete cresceu na ressaca de quarenta e oito anos de ditadura e descobriu-se livre e inteira na era do Tinder, do WhatsApp, do Facebook, e do Instagram. Personagem quase exclusiva do último romance de Dulce Maria Cardoso, Eliete é uma mulher solitária, que dá corpo à solidão de muitas mulheres acompanhadas. Uma mulher que cresceu dominada pelo medo do seu próprio corpo, que casou com o primeiro homem que julgou gostar, e que no meio do golo do Éder no Europeu se descobriu profundamente isolada, sozinha.

Eliete é também uma marioneta que acompanha as ondas de especulação imobiliária, que ora atiram os remediados para a margem da cidade, ora os alimentam, porque lhes dão trabalho, e heroína de uma narrativa colada à “linha”, aos arrabaldes de Cascais, aos hotéis de encontros no IC19, aos bairros de construção económica onde foram viver os retornados, ao Shopping, aos cadernos da Hello Kitty, ao ZX Spectrum, às fotonovelas e à memória dos romances de Konsalik que a mãe comprava ao homem do Círculo de Leitores.

Neste episódio do Palavra de Autor, Dulce Maria Cardoso lê partes deste romance que recebe como título o nome da sua personagem central. Partilha alguns dos seus obsessivos métodos de escrita e algumas das suas preocupações feministas. Explica ainda como andou a roubar maus poemas a Salazar.



Dulce Maria Cardoso nasceu em Trás-os-Montes, em 1964. Cresceu em Angola e regressou a Portugal na adolescência. Licenciou-se em Direito. Publicou o primeiro livro em 2001, “Campo de Sangue”, Prémio Acontece. Seguiu-se “Os Meus Sentimentos”, em 2005, prémio da União Europeia para a Literatura. “O Chão dos Pardais”, em 2009, Prémio Pen Clube.

Publicou dois livros de contos, e dois livros infanto-juvenis. Em 2011, publicou “O Retorno”, o último sucesso antes de “Elite”, publicado no final de 2018.

Recebeu as Insígnias de Cavaleira da Ordem das Artes e das Letras de França.


Nicholas Oulman_entrevista


"Estamos a ficar cada vez mais estúpidos. Somos facilmente enganados por um discurso populista"


ENTREVISTAS VISÃO

17.02.2019 às 20h00


José Carlos Carvalho

"Pensava que o ser humano aprendia com os erros, que evoluía e se tornava mais sábio, mas é o oposto", diz o realizador de cinema Nicholas Oulman, em entrevista à VISÃO



MIGUEL CARVALHO


Debaixo do Céu é o regresso do realizador Nicholas Oulman, 51 anos, à longa-metragem documental, depois do êxito de Com que Voz (2009), filme biográfico sobre o pai, o compositor Alain Oulman, e a cumplicidade poética e artística com Amália Rodrigues, que acabaria por revolucionar o fado e elevar o reportório da cantora a patamares líricos e musicais nunca antes alcançados.

Desta vez, Nicholas Oulman “viaja” ao universo dos refugiados judeus que encontraram, em Portugal, um lugar para refazerem as suas vidas, depois da fuga dramática à perseguição nazi. Este, porém, não é mais um filme sobre o Holocausto. Inspirado nas histórias ouvidas à família, nos relatos da comunidade judaica e em diversas narrativas sobre o tema, o realizador nascido em Londres mas criado entre Paris e Lisboa, onde vive, ensaia uma corajosa e arriscada ponte entre o passado e a atualidade.

A ideia é desassossegar as nossas vidas confortáveis, o pensamento preguiçoso, a anestesia diária e desafiar-nos a tomar em mãos, em nome da harmonia coletiva, o nosso “destino pequeno”, citando a expressão usada no filme por um dos sobreviventes.

Oulman insta o espectador a tornar-se, ele próprio, uma espécie de protagonista, abanando-o e sacudindo-o ao ponto de convocar a sua imersão na narrativa da longa jornada de escape ao abominável, à boleia de dolorosas recordações, de trágicos percursos, de imaginários infantis e de territórios de redenção. Neste filme, não há fornos crematórios, campos de concentração ou de extermínio – nem sequer exibição da violência gratuita e coletiva que a História registou. O que mais pesa é o quotidiano – arrastado, intuído, magoado – que desfez vidas e sonhos mas encontrou, dentro de si próprio e no encontro com os outros, a salvação. Pretexto, pois, para uma conversa com o realizador, entre o Porto e o Dafundo, na semana após a estreia deste documentário com um título tão óbvio quanto simbólico de casa comum.

Quais foram os impulsos e reflexões que o levaram a fazer este filme?

Tudo isto começou quando fiz a pesquisa para o Com que Voz sobre o meu pai. Nessa altura, investiguei a infância dele e a época em que viveu no Dafundo. Descobri que Portugal foi uma placa giratória para milhares de refugiados e que a minha família ajudou alguns a fugir ao regime nazi, dando-lhes casa ou fazendo o que podia. O facto de saber que o meu tio fugiu e se alistou na Royal Air Force (RAF) e que a minha tia se tornou enfermeira voluntária e seguiu para Londres foram elementos que deram substância ao que eu procurava e que me impulsionaram a ir mais fundo. Em Portugal, não havia a perseguição antissemita que existia no resto da Europa. O País era uma porta do Ocidente. O meu desconhecimento, o ter ascendência judia e o ter falado com a comunidade fizeram-me perceber que teria material para fazer qualquer coisa sobre este tema.

Que obstáculos encontrou e como chegou a estes testemunhos?

Foi complexo encontrar sobreviventes que tivessem passado por Portugal durante aquele período. As pessoas que podiam prestar depoimentos estavam numa idade avançada, não lhes era possível deslocarem-se e eram crianças à época dos acontecimentos, e isso obrigou-me a rever a ideia inicial. Precisei de tempo para conquistar parte dessas pessoas e ganhar a sua confiança, antes de invadir um pouco a privacidade delas e de ouvi-las a propósito de momentos delicados e dolorosos das suas vidas. Acresce que, como tinham fugido, deixaram para trás muitas das recordações. Tive pouca coisa a que recorrer para concretizar a reconstrução das personagens e criar empatia entre os relatos e o espectador. Encontrei uma linguagem alternativa para transmitir o que pretendia e que, ao mesmo tempo, fosse visualmente interessante, sem usar fórmulas gastas. A ideia é que o espectador mergulhe neste passado e faça também estas viagens, por dentro da narrativa.

Não aparecem as imagens típicas destes filmes, com campos de concentração e de extermínio. No entanto, a carga emotiva do quotidiano acaba por tornar-se mais pesada...

Não queria fazer mais um filme sobre o Holocausto. A maneira mais forte de comunicar o que pretendia era criar um universo narrativo que transportasse o espectador para aquele período e que, de certa maneira, o obrigasse a vivenciar, através da incerteza e da empatia que se estabelecem com as histórias e o destino dos seus protagonistas. Quando se cria empatia, cria-se sentimento – e isso obriga a pensar. Além do mais, recorri a imagens que nunca tinha visto e que podiam ser algo novo para o espectador. A redução da velocidade das imagens, os grandes planos e o registo humano geram um lado etéreo, memorialístico, fantasmagórico. No fundo, não queria fazer mais um filme sobre o Holocausto.


O Portugal de Salazar, autoritário, conservador, miserável, vigiado, que prendeu o seu pai e que o deportou por atividades consideradas subversivas, é olhado por protagonistas do filme como o melhor dos mundos. Surpreendeu-o esse olhar idílico?

Foi uma questão complicada com a qual me debati. A Península Ibérica era governada por ditadores fascistas. O regime oprimia os portugueses mas, para pessoas que vinham de um mundo horrível que as perseguia por serem o que são, Portugal era um paraíso. O olhar que elas tinham desse tempo não estava contaminado por políticas, governantes ou regimes. É o olhar puro de crianças. Relatam memórias boas de infância, não são insultadas, não há uma consciência, uma maturidade. Para elas, que eram perseguidas, que não podiam entrar em sítios públicos e não tinham comida, chegar cá e ter acesso a isso, e em segurança, era algo idílico, embora houvesse sempre receio de a Península ser invadida pelos alemães ou de elas serem recambiadas.

Portugal foi a salvação?


Para esses refugiados, Portugal foi sempre um porto de espera, uma escapatória. Não era o destino final. Era apenas a possibilidade de refazer uma vida. E muitos conseguiram-no, nos Estados Unidos da América ou na América do Sul. Vingaram, fizeram as suas carreiras, criaram famílias e novas gerações. Só o facto de o País não lhes ter fechado a porta faz com que falem sempre de Portugal com muito carinho e afeto. O único momento em que há referência ao caráter do salazarismo é quando se conta a história de um bibliotecário da Figueira da Foz, que quer aprender francês com o estrangeiro refugiado para lhe poder dizer o quanto o regime é mau.

Uma das mensagens poderosas do filme começa logo no próprio título: a ideia de que ontem, como hoje, vivemos todos debaixo do mesmo céu. Não estamos, contudo, a habitar um tempo de memória curta?

Sim! E de que maneira! A Europa, os EUA, o Brasil, a Hungria, a Polónia estão a passar por isso. Tenho muita dificuldade em entender o que está a acontecer – a facilidade com que os extremistas têm palco, exercem poder e expressam sentimentos xenófobos, antirracistas e antissemitas com total impunidade. E fazem-no com a mais completa impunidade, perante a nossa indiferença. Pensava que o ser humano aprendia com os erros, que evoluía e se tornava mais sábio, mas é o oposto: estamos a ficar cada vez mais estúpidos. Somos facilmente enganados por um discurso populista, aqui ou ali. Não percebo o mundo em que vivemos. Mesmo os mais educados e esclarecidos esqueceram-se das dificuldades pelas quais passaram os seus antepassados. Estão acomodados à sua vida confortável, mais egoístas e habituados a ver apenas o seu jardinzinho. De facto, todos vivemos debaixo do mesmo céu, mas eles não se lembram de que aquilo que acontece hoje noutros sítios terá, mais cedo ou mais tarde, repercussões nas nossas vidas. Não há lugar para individualismos e protecionismos.

“Não vos queremos cá, ide embora!” é uma frase que atravessa os testemunhos e que alguns sobreviventes sentiram na pele na Alemanha nazi. Em que medida isto remete para a atualidade e como se combate?

Estamos a viver numa sociedade profundamente capitalista, consumista, que só se preocupa com o instantâneo. E esquecemos que temos de manter uma certa harmonia. Virarmos as costas uns aos outros, e agirmos cada um por si não é solução. As pessoas não aprenderam nada com as guerras anteriores? Quando penso na frase que citou, não posso deixar de refletir na vida dos filhos de imigrantes ilegais que já nasceram nos EUA, a quem agora é dito para se irem embora. É a mesma coisa que sentiram muitas pessoas que viviam na Alemanha, quando Adolf Hitler chegou ao poder. É chocante! Enquanto pai e responsável pela minha família, se um dia eu tivesse de encarar uma situação dessas, não sei o que faria, como reagiria... Mas tenho sempre esperança de que isto dê uma reviravolta, de que as pessoas tomem consciência...

“Para mim há dois destinos na vida: o destino menor, relativo a cada um de nós, e o destino maior”, ouve-se num dos testemunhos. O que é termos nas mãos o destino menor?

Significa que podemos não ter o controlo sobre o destino maior – guerras ou tragédias globais –, mas que somos donos do nosso destino menor – fazer boas ações, trabalhar, ajudar e ser solidário com os outros, cultivar a empatia com os nossos vizinhos, etc. Isto pode soar a cliché, mas tudo junto pode fazer a diferença. O ser humano não foi feito para viver sozinho. Precisamos uns dos outros. Ouço falar muito em lobbies, em grupos de interesses, em fortunas nas mãos de um por cento da população, e eu pensava que isso era rejeitado pela sociedade, mas a verdade é que é tolerado. Se os outros são descartados, não é o enriquecimento material que faz as pessoas melhores. Tenho 51 anos e achava que, à medida que envelhecia, a vida tornar-se-ia mais fácil. Mas penso no futuro dos meus filhos e fico preocupado. Não é isso que está a acontecer.

O documentário, apesar de ressalvar o fosso que deve separar a compreensão e o perdão, não cede a uma visão maniqueísta. Ou seja: também nele se contam histórias de alemães bons. Foi importante para si separar os seres humanos daquilo que eles representam?

As coisas não são a preto-e-branco, há muitas zonas cinzentas na vida. Apesar de os alemães, enquanto povo, terem sido muito complacentes com o nazismo, ou terem mesmo fechado os olhos aos seus crimes, houve alemães que fizeram o que podiam para salvar outros seres humanos. Tenho alguma dificuldade em julgar... Um dos protagonistas diz algo como isto: “Eu não acho que aquilo aconteceu por eles serem alemães. Acho que aconteceria em qualquer sítio.” Partilho desta ideia. Isto pode repetir-se num sítio qualquer – basta fechar os olhos.

E quando um extremista condenado por diversos crimes tem direito a uma descontraída entrevista, num programa matinal de televisão de grande audiência, isso diz-nos o quê?

Significa que estamos a brincar com o fogo. As pessoas têm direito às suas opiniões, mas não ao direito de defender ideais ou regimes, cujo objetivo é causar danos ao seu semelhante.

O passado relatado no filme e a atualidade estão demasiado próximos?

A minha intenção foi, em parte, estabelecer essa ponte. Quando estava a fazer as pesquisas, a ouvir aqueles discursos de Hitler e de Goebbels, a ver aqueles desfiles militares, foi inevitável associá-los a Donald Trump e às suas intervenções que incitam à violência. As situações dramáticas pelas quais a Humanidade passou na sua História recente já deveriam ser suficientes para aprendermos... No fundo, é isto: We should know better!

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Francisco Seixas da Costa_ Notícias do Brasil

Notícias do Brasil (1ª parte)






O novo governo brasileiro acaba de garantir, na chefia das duas câmaras do Congresso, figuras cuja orientação política se lhe apresenta como favorável. Rodrigo Maia e o até agora desconhecido Davi Alcolumbre, ambos oriundos do DEM, respetivamente na Câmara de Deputados e no Senado, parece serem uma boa notícia para o novo presidente. O DEM, aliás, surge, nesta fase política, como o principal partido do espetro tradicional que, até agora sem falhas, se apresta a apoiar abertamente Bolsonaro.


Bolsonaro está, para já, a encontrar um ambiente confortável no Congresso. Não há nenhuma surpresa neste facto: é da lógica dos regimes presidencialistas que aos presidentes recém-eleitos, independentemente da lógica do número de deputados, seja conferida uma trégua parlamentar para o início da governação, mesmo que depois se conclua que não há uma maioria automática para aprovar os “pacotes” legislativos. A legitimidade decorrente da eleição tem, além disso, um tradicional tropismo, que leva quase sempre a uma onda inicial de adesões à ala “governista”, facilitada no Brasil pela imensa flexibilidade do sistema partidário.


Bolsonaro tem, sob o seu controlo, um novo partido, o PSL, que não saiu maioritário das eleições legislativas, embora tenha tido um resultado não despiciendo. Isso também é normal.


Nos tempos de Lula ou Dilma, o PT - contrariamente à imagem mítica que se criou - nunca teve mais de 20% dos votos e, por isso, foi sempre obrigado a “costurar” apoios com várias outras formações partidárias, a fim de garantir maiorias no Congresso. O “mensalão” foi um dos métodos para sustentar esse apoio, sendo outro a distribuição de lugares no aparelho de Estado, de ministérios a empresas públicas.


O vencedor conjuntural deste primeiro “round” no âmbito legislativo é o DEM, que sempre foi o partido mais à direita do espetro político tradicional do Brasil. Um partido que também tem três ministros no governo. O que é o DEM?


Convém lembrar que, durante a ditadura militar, para alimentar a ficção de que existia um mínimo de pluralismo, haviam sido criados, “manu militari”, dois partidos: a Arena, um partido de aberto apoio ao regime militar, que deu suporte a algumas das sua medidas mais sinistras, e o MDB, onde se juntava alguma oposição legalista (isto é, a que não optou pela luta clandestina e mesmo armada, de resistência à ditadura), às vezes muito complacente, outras com registos de rutura, a qual, de certo modo, ia aceitando fazer o jogo da tropa, em troca de um mínimo de voz pública.


No regresso à democracia, em 1985, estas duas formações políticas colocaram-se, com alguma naturalidade, na primeira linha no novo sistema político.


A Arena, “absolvida” pelo ambiente de transição do apoio dado à barbárie militar, evoluiu para se transformar no PFL, que, anos depois, mudaria o nome para DEM. O DEM esteve várias vezes associado ao poder político democrático, afirmando-se sempre como uma estrutura política muito conservadora.


O MDB, após 1985, transformou-se no PMDB (hoje chama-se de novo MDB) e foi, até 2018, o maior partido do Brasil, embora com uma heterogeneidade que sempre o levou a ter, simultaneamente, uma ala de suporte dos governos e uma outra que se lhes opunha.


Perceber o PMDB é meio caminho andado para perceber o Brasil. Mas não vale a pena tentar saber se o PMDB/MDB é de esquerda ou de direita. Tem sido, muitas vezes, as duas coisas simultaneamente. Tanto esteve com Lula como se aliou frequentemente à direita. A sua única “ideologia” visível, ao longo destes anos, foi sempre tentar ocupar espaços de poder a todo o custo.


O mais mais relevante sobressalto dentro do PMDB, em termos históricos, foi a cisão que deu origem ao PSDB, por emancipação da sua ala dita social-democrata, basicamente criada à volta de Fernando Henrique Cardoso. Muito polarizado contra o PT nos tempos de Lula e Dilma (candidaturas presidenciais de José Serra, Geraldo Alckmin e Aécio Neves), o PSDB acabou por ter uma forte “virada” conservadora e hoje, no Congresso, “namora” visivelmente o bolsonarismo, ao lado do DEM.


Nas últimas eleições, e apesar da derrota presidencial de Haddad, acabou por ser o PT, de entre os partidos tradicionais brasileiros o que melhor se sustentou, debaixo do “tsunami” que foi o efeito Bolsonaro. Essa “vitória”, que o fez ter a maior “bancada” na Câmara de Deputados, de pouco lhe serve, porquanto, no atual cenário político brasileiro, qualquer aliança com o PT é “tóxica”. O caminho das pedras que o partido de Lula vai ter de fazer, ainda por cima sem uma liderança personalizada evidente, deve ser longo.


Voltemos ao MDB que perdeu, pela primeira vez desde 1985, a sua tradicional liderança em termos de eleitos. Ontem, perdeu também a presidência do Senado, deixando assim de ter qualquer lugar institucional na estrutura central do Estado (recordo que tinha a presidência com Temer e a chefia do Senado, antes com Renan Calheiros e depois com Eunício Oliveira). Passará agora a fazer oposição a Bolsonaro? É cedo para dizer, até porque o equilíbro interno do partido vai depender muito das relações de forças que se gerarem nos diversos Estados - e a leitura que os observadores hoje fazem prospetivamente sobre isso não é unívoca.


Em síntese: Bolsonaro teve um bom resultado nas presidências do Congresso, e tem, à partida, um ambiente favorável nas câmaras legislativas, mas tudo vai depender do modo como se vier a articular com os partidos. E, até agora, o novo presidente, neste domínio, está a seguir uma orientação atípica. Amanhã explicarei porquê e a minha perspetiva, na segunda parte deste texto.

Publicado por Francisco Seixas da Costa à(s) 20:59 _ 03.fev.2019




Notícias do Brasil (2ª parte)


A representação parlamentar brasileira saiu altamente fragmentada das últimas eleições. Aproveitando essa circunstância, Bolsonaro terá sido aconselhado pelos militares a constituir o governo de uma forma diferente do que tem sido corrente no Brasil, isto é, não desenhar um executivo pletórico onde pudesse acomodar um conjunto de representantes de partidos que, somados, lhe pudessem garantir maiorias na aprovação de legislação. O seu governo é mais pequeno (embora maior do que inicialmente anunciado) e tem uma composição atípica. O modelo de suporte parlamentar que visa é diferente.


Vale a pena lembrar que, na tradição do parlamentarismo brasileiro, aos partidos do “setor governista” eram atribuídos ministérios que esses mesmos partidos enchiam com o seu pessoal político. Se o partido tinha muita força no Congresso, ocupava todo o espaço dos chamados “escalões” (níveis) de acolhimento de fiéis: eram os ministérios “de portada fechada”. Se se tratava de partidos mais pequenos, a sua ocupação dos ministérios era mais restringida: tinham de dar espaço, nos “escalões” inferiores, a pessoal indicado por outros partidos. Eram os chamados ministérios “de portada aberta”.


Essa prática era estendida, como modelos adaptados, à plêiade de empresas públicas, com particular interesse por postos de onde saíssem fortes “recursos”. Ficou em tempos célebre o modo como um patusco presidente da Câmara de Deputados, Severino Cavalcanti, oriundo do “baixo clero” (deputados menos importantes), eleito inesperadamente por virtude de um dissídio dentro do PT, reclamou para um seu apaniguado um lugar na Petrobrás, que esclareceu que tinha de ser “daqueles de fura-poço”...


Bolsonaro seguiu, ao que se diz por influência dos militares, um outro modelo, que agora se verá se conseguirá pôr a funcionar no futuro. Assim, além de colocar sete militares (!) em cargos governativos, e mais de 40 em lugares de topo da administração, optou por, na Câmara de Deputados, procurar uma aliança com os interesses organizados, em lugar dos partidos.


Assim, apoiou-se prioritariamente nas chamadas “bancadas” (frentes de interesses, que atravessam as linhas partidárias) mais representativas de setores conservadores e, em alguns casos, de direita muito radical.


É o caso da “bancada evangélica”, onde se acolhem os eleitos oriundos e financiados pelas poderosíssimas igrejas evangélicas (com uma agenda ultra-conservadora para a educação pública e política familiar, recusa do aborto, privilégio das relações com Israel, etc), a “bancada do boi”, com deputados protetores dos interesses de proprietários agrícolas (favoráveis ao desmatamento da Amazónia, à redução dos cuidados ambientais, com grande desprezo pelos interesses e direitos indígenas) e a “bancada da bala”, constituída pelos promotores de um alargamento da posse privada de armamento e, simultaneamente, com uma política ultra-securitária, favorável a uma repressão da criminalidade que, em alguns casos, poderia passar as barreiras legais mais elementares e civilizacionais. Há semanas, um relevante bolsonarista reclamava da dificuldade de fazer passar legislação que, em lugar da castração química dos violadores, autorizasse a castração “por facão”...


Na constituição do governo, acolheu, para além do seu novo partido PSL, uma única formação do núcleo tradicional de partidos brasileiros, sem surpresa o mais à direita - o DEM (ver história na 1ª parte). Raramente na história da democracia brasileira o DEM (que é um partido ausente de representação em muitos Estados brasileiros) havia conseguido ser tão poderoso: tem hoje três ministros, um dos quais, Onyx Lorenzoni, no decisivo posto de chefe da casa civil. E, como referi no texto anterior, tem agora a presidência das duas câmaras do Congresso: a Câmara dos Deputados e o Senado. Para um partido que, nesta eleição, viu reduzida fortemente a sua representação parlamentar trata-se de uma vitória indiscutível.


Um filósofo brasileiro ultra-reacionário, Olavo de Carvalho, que vive nos EUA e é uma espécie de guru de alguns setores próximos de Bolsonaro, terá também tido “direito” a indicar os nomes do ministro da Educação (um colombiano naturalizado brasileiro, que tem uma obsessão contra o método de alfabetização de Paulo Freire, um património e um orgulho para muitas gerações brasileiras), do ministro das Relações Exteriores e do consultor internacional do presidente.


O caso do chefe da diplomacia, Ernesto Araújo, é, provavelmente, o maior erro de “casting” de um governo onde eles não parece faltarem (o caso da ministra evangélica, indicada para a pasta da Família, Damares Alves, é uma fonte regular de episódios hilariantes).


Funcionário diplomático de nível baixo, o novo ministro das Relações Externas, um fanático anti-multilateralismo, negacionista das alterações climáticas, com uma cultura de extrema subserviência face aos EUA (que não é muito bem acolhida numa escola militar muito nacionalista e às vezes com um ligeiro tropismo anti-“yankee”), fez já uma série de “gaffes” que, ao que parece, terão levado os militares em torno de Bolsonaro a propor a criação de uma espécie de “conselho estratégico”, para regular as decisões com implicações externas mais relevantes.


Há uma tese a correr segundo o qual este bizarro ministro será utilizado para fazer o “dirty work” de “remoções” de chefes de missão menos agradáveis ao novo poder, como nomeações de diplomatas mais fiéis e ideologicamente “like-minded” com o novo poder e que, daqui por uns tempos, ele será “posto com dono” numa embaixada simpática e a chefia do Itamaraty será entregue a alguém responsável, com outro estatuto, capacidade e prestigio.


Duas notas para dois ministérios particulares e bastante poderosos - cujos titulares, não por acaso, acompanharam Bolsonaro em encontro de Davos - onde a impreparação manifesta do presidente fez passar uma humilhação ao Brasil.


Um superministério económico foi entregue por Bolsonaro a Paulo Guedes, um cultor da “escola de Chicago”, admirador do “choque” económico de Pinochet no Chile, restando ver quão longe conseguirá ir num processo intensivo de privatizações que se propôs desencadear, no que poderá vir a ter algumas reticências da área militar. O segundo importante super-ministério foi entregue ao juiz-vedeta Sérgio Moro, adorado pelos diabolizadores de Lula, que tem na sua pasta a estranha combinação da justiça com a ordem pública. Há muito quem pense que pelo sucesso, ou não, destes dois ministros passará muito o destino do governo Bolsonaro.


E chegamos, finalmente, aos militares. Aparentemente, a tropa tem um “droit de regard” muito forte sobre o novo governo. Devo dizer que nunca pensei que a sua influência pudesse ir tão longe, mas vai. Nos dias de hoje, essas figuras não eleitas, ungidas de uma espécie juízo de “neutralidade” patriótica, quase “sebastiânica”, constituiram-se como um elemento fulcral do poder político brasileiro. Estamos já quase numa espécie de “governo militar”, em modelo de “coabitação” democrática com os civis? Se não estamos lá, não estamos muito longe disso. Na estrutura governamental, dois nomes se impõem: os generais Augusto Heleno e Santos Cruz. O primeiro parece ser o “master mind” do governo, mas o segundo tem também forte prestígio. Parecem ser eles quem “define a linha” e, embora na reserva, quem faz a articulação com as chefias militares no ativo - que parecem verdadeiramente empenhadas no sucesso deste governo.


Mas há um terceiro nome, que a cada dia que passa tem vindo a ganhar mais evidência, mas também alguma polémica: é o vice-presidente Hamilton Mourão. Um filho de Bolsonaro confessava há dias que a escolha de Mourão para a vice-presidência havia sido feita para evitar um eventual processo de “impechment” de Bolsonaro. O raciocínio era simples: o general Mourão dera provas de ser um radical desbocado, atribiliário e cáustico, um ultra que trazia as piores memórias do regime militar. Assim, ninguém se atreveria a afastar Bolsonaro porque, se isso acontecesse, seria pior a emenda do que o soneto...


Ora Mourão, empossado que foi do cargo de vice-presidente, decidiu passar de Dr. Jeckill para Mr. Hyde. O seu discurso suavizou, deu mostras de compreensão perante o caso de um deputado de extrema-esquerda que se disse perseguido, teve uma linguagem contemporizadora para com a questão do aborto e, em vários outros dossiês, tem-se revelado, dia após dia, cada vez mais distanciado de certos aspetos mais radicais discurso do “bolsonarismo”.


Um líder evangélico fez já um video quase a insultar Mourão, o filósofo reaça Olavo de Carvalho, lá dos Estados Unidos, tem vindo a dizer em “tweets” cobras e lagartos do vice-presidente e a “famiglia” de Bolsonaro já deu claras e públicas notas de estar à beira de um ataque de nervos. O próprio presidente, no leito do hospital onde recupera dos efeitos do atentado, descontente com as liberdades auto-assumidas pelo seu vice, decidiu avocar, mesmo nesse estado físico, a plenitude dos poderes presidenciais.


Tudo isto a fim de evitar que Mourão continue a utilizar a presidência interina para mostrar estatuto, “gravitas” de Estado e um já indisfarçável tropismo para se sugerir como alternativa futura ao presidente. Ah! E, de caminho, o vice-presidente tornou-se a coqueluche dos diplomatas estrangeiros em Brasília, que correm a visitá-lo. Há dias, também recebeu uma delegação palestiniana à qual quase garantiu que a promessa de Bolsonaro a Netanyahu, de transferir a embaixada brasileira de Tel-Aviv para Jerusalém, afinal pode não ser para levar a serio.


Enfim, neste novo e nóvel governo brasileiro, tudo aponta para que se esteja a “armar uma estrangeirinha” dos demonios.

Publicado por Francisco Seixas da Costa à(s) 04:29 _09.fev.2019: AQUI