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quarta-feira, 10 de junho de 2020

Strange Fruit_ Jill Scott




Strange Fruit
Árvores do sul dão uma fruta estranha
Southern trees bear a strange fruit

Sangue nas folhas e sangue na raiz
Blood on the leaves and blood at the root

Corpos negros balançando na brisa do sul
Black bodies swinging in the southern breeze

Frutas estranhas penduradas nas árvores de álamo
Strange fruit hanging from the poplar trees
Cena pastoral do galante sul
Pastoral scene of the gallant South

Os olhos esbugalhados e a boca torcida
The bulging eyes and the twisted mouth

Aroma de magnólia, doce e fresco
Scent of magnolia, sweet and fresh

Então o cheiro repentino de carne queimada
Then the sudden smell of burning flesh
Aqui está uma fruta para os corvos colherem
Here is a fruit for the crows to pluck

Para a chuva cair, para o vento sugar
For the rain to gather, for the wind to suck

Para o sol apodrecer, para a árvore cair
For the sun to rot, for the tree to drop

Aqui está uma colheita estranha e amarga
Here is a strange and bitter crop
Fonte: LyricFind
Compositores: Abel Meeropol
Letras de Strange Fruit © Warner Chappell Music, Inc

quinta-feira, 4 de junho de 2020

Em Casa d´ Amália






Programa inspirado nas célebres noites em que Amália Rodrigues recebia em sua casa, poetas, cantores, pintores, músicos, atores para tertúlias infindáveis. by RTP


AQUI: Episódio 0
10 Abr. 2020

AQUI:  Episódio 1
Kátia Guerreiro, Rui Veloso, Hélder Moutinho, João Mário Veiga, Pedro de Castro
17 Abr. 2020


AQUI: Episódio 2
FF, José Luís Geadas, Maria Emília, Maura Airez, Buba Espinho, Tiago Correia, João Filipe
24 Abr. 2020


AQUI: Episódio 3
Fábia Rebordão, Filipa Cardoso, João Pedro Pais, André Dias, Bernardo Viana
01 Mai. 2020

AQUI: Episódio 4 
Joaquim Vicente Rodrigues, Joel Pina, Jorge Fernando, Custódio Castelo, Alexandra
08 Mai. 2020

AQUI: Episódio 5 
Lenita Gentil, Tozé Brito, Pedro Moutinho, Ângelo Freire, Flávio Cardoso
15 Mai. 2020

AQUI:  Episódio  6
José Cid, António Pinto Basto, Miguel Ramos, Ângelo Freire, Flávio Cardoso
22 Mai. 2020

AQUI:  Episódio 7
Aldina Duarte, Maria da Fé, Miguel Lobo Antunes, Paulo Parreira, Rogério Ferreira, Francisco Salvação Barreto
29 Mai. 2020

AQUI: Episódio 8
Ricardo Ribeiro, Rodrigo, Luís Osório, José Manuel Neto, Carlos Manuel Proença
05 Jun. 2020

AQUI: Episodio 9
Fafá de Belém, Waldemar Bastos*, Dany Silva, André Dias, Bernardo Viana
19 Jun. 2020

*falecido hoje, dia 10 de Agosto de 2020. Esta foi a última actuação conhecida. 

AQUI: Episódio 11
 Ana Moura, Pedro Abrunhosa, Conan Osíris, Beatriz Silva, Ângelo Freire, Pedro Soares
10 Jul 2020

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Selma Uamusse e Sara Tavares






Episódio completo aqui: https://www.rtp.pt/play/p5745/e408738...

Duas mulheres que foram à procura e encontraram as suas raízes africanas: Sara Tavares e Selma Uamusse. Sara Tavares, com herança cabo-verdiana, apesar de ter nascido em Lisboa e crescido em Almada. Selma Uamusse nasceu em Moçambique, mas foi ainda em criança que se mudou para Portugal, onde se tornou cantora. Ambas estiveram ligadas à cena gospel e hoje são reconhecidas como vozes genuínas de escritoras de canções. Em 2017, Sara Tavares editou o primeiro disco em oito anos, Fitxadu. Selma Uamusse estreou-se a solo, em 2018, com o lançamento de Mati. Neste Eléctrico temos um abraço de duas mulheres às suas raízes. Um encontro entre Cabo Verde, Moçambique e Portugal.

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Miguel Araújo_ "E tu Gostavas de mim"




Letra



Aviões no céu a mil
Banda larga em arganil
Argonautas, foguetões
Fogos factuos e neutrões
Nitro super combustão
Consta em santa comba dão
Dão-se destas situações
Milagres, aparições
Dava-se outro caso assim
E tu gostavas de mim

Pode um rebento em Belém
Ser filho mas só da mãe
Multiplicação do pão
O Boavista campeão
Automóveis sem motor
Motociclos a vapor
Se não tem divina mão
E acontece tudo em vão
Dava-se outro acaso assim
E tu gostavas de mim

Lei e ordem no Brasil
Ciberespaço em contumil
Cães em naves espaciais
Microchips em cães normais
Microsondas em Plutão
Dentro da televisão
Situações paranormais
Para nós mais que banais
Não era pedir de mais
E tu gostavas de mim



Música e letra de Miguel Araújo com arranjo de
João Martins, Mané Fernandes e Nuno Oliveira,
mistura e edição áudio Bruno Pereira e João Martins,
edição de vídeo e montagem Paulo Bico e João Martins.
Gravado ao vivo no dia 14 de Maio de 2016
no Cine Teatro Alba (Albergaria-a-Velha)

quarta-feira, 1 de abril de 2020

flavio cristovam_ andra tutto bene



Flávio Cristovám é natural da Ilha Terceira, nos Açores e compôs uma música em inglês com o título em italiano para enviar "um grito de esperança para o mundo".
Publicado hoje em: https://www.facebook.com/cristovammusic/videos/2370568009901732/

"Nestes tempos estranhos, em que todos nos encontramos um pouco assombrados pela ansiedade, procuramos dentro de nós a melhor forma de a combater. Escrevi e gravei esta canção no meu pequeno estúdio como a minha forma de o fazer", escreve na sua página de Facebook Flávio Cristovám, como mote para a canção.

E despede-se da seguinte forma: "Separados lutamos, juntos resistimos. Um abraço a todos".

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Cristina Branco _álbum Idealist & Meu amor Meu amor(Meu limão de amargura) & Porque Me Olhas Assim






letra


Meu amor meu amor
meu corpo em movimento
minha voz à procura
do seu próprio lamento.

Meu limão de amargura meu punhal a escrever
nós parámos o tempo não sabemos morrer
e nascemos nascemos
do nosso entristecer.

Meu amor meu amor
meu nó e sofrimento
minha mó de ternura
minha nau de tormento

este mar não tem cura este céu não tem ar
nós parámos o vento não sabemos nadar
e morremos morremos
devagar devagar.

Ary dos Santos



eduardo martinsHá 6 anos

"Ela é perfeita. Voz, afinação, além de possuir uma pronúncia e dicção ímpares, melhores ainda que Ana Moura. Se Deus descobre, vai levá-la para cantar no céu. Chega a nos deixar embriagados. Demais, demais!"





letra

Diz-me agora o teu nome
Se já te dissemos que sim 
Pelo olhar que demora 
Porque me olhas assim 
Porque me rondas assim 
Toda a luz da avenida 
Se desdobra em paixão 
Magias de druída 
P'lo teu toque de mão 
Soam ventos amenos 
P'los mares morenos 
Do meu coração

Espelhando as vitrinas 
Da cidade sem fim 
Tu surgiste divina 
Porque me abeiras assim 
Porque me tocas assim 
E trocámos pendentes 
Velhas palavras tontas 
Com sotaques diferentes 
Nossa prosa está pronta 
Dobrando esquinas e gretas 
P'lo caminho das letras 
Que tudo o resto não conta 

E lá fomos audazes 
Por passeios tardios 
Vadiando o asfalto 
Cruzando outras pontes 
De mares que são rios 
E num bar fora de horas 
Se eu chorar perdoa 
Ó meu bem é que eu canto 
Por dentro sonhando 
Que estou em Lisboa 

Diz-me tu então que sou teu 
Que tu és tudo p'ra mim 
Que me pões no apogeu 
Porque me abraças assim 
Porque me beijas assim 
Por esta noite adiante 
Se tu me pedes enfim 
Num céu de anúncios brilhantes 
Vamos casar em Berlim 
À luz vã dos faróis 
São de seda os lençóis 
Porque me amas assim... 

Por que Me Olhas Assim?

- Fausto Bordalo Dias -

E, para finalizar, um concerto memorável, em Macau, acompanhada por Mário Laginha:



The Script Road 2016 - CRISTINA BRANCO full concert Macau Cultural Center - March 12th One of the most acclaimed voices in Portugal, Cristina Branco (March 12, Macau Cultural Centre) belongs to a generation of musicians that in the mid-1990s have found in fado their own way of expressing themselves (thereby contributing to an astonishing reinvigoration of the traditional song form of Portugal). Like them, Cristina has begun to define her own journey, in which respect for tradition walks hand in hand with a desire for innovation. For the singer, words have always been deserving of careful attention. Therefore, Cristina Branco is a singer of poets, amongst them the greatest in Portugal (Camões, Pessoa, David Mourão-Ferreira, José Afonso …) and abroad (Paul Éluard, Léo Ferré, Alfonsina Storni, Slauerhoff).

terça-feira, 19 de novembro de 2019

José Mário Branco

DAQUI: e DALI  e... DAQUELOUTRO:

Até sempre!

Entre o sorriso e  
inquietação
vida espelhada 
humana condição
deste país
que em ti doeu
germinou
e fez-se voz
fez-se canção.

Das novas ilhas

foste vulcão e
da erupção nasceram
flores:
palavras musicadas 
que nos chegaram ao coração.

[a José Mário Branco]
lmc



25 de maio de 1942 - 19 de novembro de 2019

«Pela vaga de fundo se sumiu o futuro histórico da minha classe. No fundo deste mar encontrareis tesouros recuperados, de mim que estou a chegar do lado de lá para ir convosco: tesouros infindáveis que vos trago de longe e que são vossos, o meu canto e a palavra. O meu sonho é a luz que vem do fim do mundo, dos vossos antepassados que ainda não nasceram. A minha arte é estar aqui, convosco, e ser-vos alimento e companhia, na viagem para estar aqui de vez.
Sou português, pequeno-burguês de origem. Filho de professores primários. Artista de variedades. Compositor popular. Aprendiz de feiticeiro. Faltam-me dentes. Sou o Zé Mário Branco, 37 anos, do Porto: muito mais vivo que morto. Contai com isto de mim para cantar, e para o resto.» (FMI)
____________________________________________________________________
Consolida, filho, consolida...

[FMI foi um texto com música que José Mário Branco gravou num espectáculo ao vivo em 1982 e que foi publicado na altura em maxi-single. Foi republicado em 1996 em cd, juntamente com o duplo álbum Ser Solid/tário. Já havia transcrições online, mas com muitos erros. Penso que a que fiz, baseada nas que já havia e ouvindo a gravação, deve ser a mais fiável até à data. A pontuação é, obviamente, discutível. Juntei uns links para ilustração das novas gerações.]


Vou... vou vos mostrar mais um pedaço da minha vida, um pedaço um pouco especial: trata-se de um texto que foi escrito assim, de um só jorro, numa noite de Fevereiro de 79, e que talvez tenha um ou outro pormenor que já não seja muito actual. Vou vos dar o texto tal e qual como eu o escrevi nessa altura, sem ter modificado nada, por isso vos peço que não se deixem distrair por esses pormenores que possam já não ser muito actuais e que isso não contribua para desviar a vossa atenção do que me parece ser o essencial neste texto.
Chama-se FMI.
Quer dizer Fundo Monetário Internacional.
Não sei por que é que se riem, é uma organização democrática dos países todos, que se reunem, com umas pessoas, em torno de uma mesa, para discutir os seus assuntos, e no fim tomar as decisões que interessam a todos... É o internacionalismo monetário!

FMI
Cachucho não é coisa que me traga a mim
Mais novidade do que lagostim
Nariz que reconhece o cheiro do pilim
Distingue bem o Mortimore do Meirim
A produtividade, ora aí está, quer dizer:
Há tanto nesta terra que ainda está por fazer
Entrar por aí dentro, analisar, e então
Do meu 'attaché-case' sai a solução

FMI Não há graça que não faça o FMI
FMI O bombástico de plástico pra si
FMI Não há força que retorça o FMI

Discreto e ordenado mas nem por isso fraco
Eis a imagem 'on the rocks' do cancro do tabaco
Enfio uma gravata em cada fato-macaco
E meto o pessoal todo no mesmo saco
A produtividade, ora aí está, quer dizer:
Não ando aqui a brincar! Não há tempo a perder!
Batendo o pé na casa, espanador na mão
É só desinfectar em superprodução

FMI Não há truque que não lucre ao FMI
FMI O heróico paranóico hara-kiri
FMI Panegírico, pró lírico daqui

Palavras, palavras, palavras e não só
Palavras para si, palavras para dó
A contas com o nada há que swingar o sol-e-dó
Depois a criadagem lava o pé e limpa o pó
A produtividade, ora nem mais:
celulazinhas cinzentas
Sempre atentas
E levas pela tromba se não te pões a pau
Um encontrão imediato do 3º grau

FMI Não há lenha que detenha o FMI
FMI Não há ronha que envergonhe o FMI
FMI ...

Entretém-te, filho, entretém-te, não desfolhes em vão este malmequer que bem-te-quer, mal-te-quer, vem-te-quer, ovomalte-quer-messe gigantesca, vem-te-bem, bem te vim, Vim-me na cozinha, vim-me na casa-de-banho, Vim-me no Politeama, vim-me no Águia D'ouro, Vim-me em toda a parte... Vem-te filho, vem-te comer ao olho, vem-te comer à mão, olha os pombinhos pneumáticos como te arrulham por esses cartazes fora, olha a música no coração da Indira Gandi, olha o Moshe Dayan que te traz debaixo de olho... O respeitinho é muito lindo, e nós somos um povo de respeito, né filho? Nós somos um povo de respeitinho muito lindo: saímos à rua de cravo na mão, sem dar conta de que saímos à rua de cravo na mão a horas certas, né filho? Consolida, filho, consolida: enfia-te a horas certas no casarão da Gabriela, que o malmequer vai-te tratando do Serviço Nacional de Saúde. Consolida, filho, consolida, que o trabalhinho é muito lindo, o teu trabalhinho é muito lindo, é o mais lindo de todos, como o Astro, não é filho? O cabrão do Astro entra-te pela porta das traseiras, tu tens um gozo do caraças, vais dormir entretido, não é? Pois claro: ganhar forças, ganhar forças para consolidar, para ver se a gente consegue num grande esforço nacional estabilizar esta desestabilização filha-da-puta, não é filho? Pois claro!
Estás aí a olhar para mim? Estás aí a ver-me dar 33 voltinhas por minuto, pagaste o teu bilhete, pagaste o teu imposto de transacção e estás a pensar lá com os teus zodíacos: «este tipo está-me a gozar! Este gajo quem é que julga que é?» Né filho? Pois não é verdade que tu és um herói desde que nasceste? A ti não é qualquer totobola que te enfia o barrete, meu grande safadote, hã? Meu Fernão Mendes Pinto de merda! Onde está o teu Extremo Oriente, filho? A-ni-ki-bé-bé, a-ni-ki-bó-bó, tu és Sepúlveda, tu és Adamastor. Pois claro: tu, sozinho, consegues enrabar as Nações Unidas com passaporte de coelho, não é filho? Mal eles sabem! Pois é: tu sabes o que é gozar a vida! Entretém-te, filho, entretém-te! Deixa-te de políticas, que a tua política é o trabalho! Trabalhinho, porreirinho da Silva! E salve-se quem puder, que a vida é curta e os santos não ajudam quem anda para aqui a encher pneus com este paleio de Sanzala em ritmo de pop-chula, não é filho?
A-one, a-two, a-one-two-three

FMI dida didadi dadi dadi da didi
FMI...

Camóniú, sanóvabiche!Camóne beibi, a ver se me comes! Camóne Luis Vaz, amanda-lhe com os decassílabos que eles já vão saber o que é meterem-se com uma nação de poetas! E zás: enfio-te o Manuel Alegre no Mário Soares! Zás: enfio-te o Ary dos Santos no Álvaro Cunhal! Zás: enfio-te a Natália Correia no Sá Carneiro! Zás: enfio-te o Zé Fanha no Acácio Barreiros! Zás: enfio-te o Pedro Homem de Melo no Parque Mayer, e acabamos todos numa sardinhada à Integralismo Lusitano, a estender o braço, meio Rolão Preto meio Steve McQueen, ok boss, tudo ok... Estamos numa porreira, meu, um trip fenomenal, proibido voltar atrás, viva a liberdade... né filho? Pois, irreversível, pois claro, irreversivelzinho, pluralismo a dar com um pau, nada será como dantes: agora todos se chateiam de outra maneira, né filho? Ora que porra! Deixa lá correr o marfil, homem, andas numa alta, pá, é assim mesmo, cada um a curtir a sua, podia ser tão porreiro, não é? Preocupações, crises políticas, pá! «A culpa é dos partidos, pá! Esta merda dos partidos é que divide a malta, pá!» «Pois, pá, é só paleio, pá, o pessoal não quer é trabalhar, pá! Razão tem o Jaime Neves, pá!» «Olha: deixaste cair as chaves do carro!» «Pois, pá!» «O que é essa orelha de preto que tens aí no porta-chaves?» «Epá, deixa-te disso, não desestabilizes, pá!» «Eh, faz favor: mais uma bica e um pastel de nata.» «Uma porra, pá, um autêntico desastre o 25 de Abril! Esta confusão, pá... a malta estava sossegadinha, a bica a 15 tostões, a gasosa a sete e coroa... Tá bem, essa merda da pide, pá, Tarrafais e o carago... mas no fim de contas quem é que não colaborava, hã? Quantos bufos é que não havia nesta merda deste país, hã? Quem é que não se calava? Quem é que arriscava coiro e cabelo, assim mesmo, o que se chama arriscar, hã? Meia dúzia de líricos, pá! Meia dúzia de líricos que acabavam todos a fugir para o estrangeiro!... Isto é tudo a mesma carneirada!» Oh sr. guarda venha cá – ah. Venha ver o que isto é – eh. O barulho que vai aqui – ih. O neto a bater na avó – oh. Deu-lhe um pontapé no cu, né filho?
Tu vais conversando, conversando, que ao menos agora pode-se falar - ou já não se pode? Ou já começaste a fazer a tua revisãozinha constitucional tamanho familiar, hã? Estás desiludido com as promessas de Abril, né? As conquistas de Abril! Eram só paleio a partir do momento que tas começaram a tirar e tu ficaste quietinho, né filho? E tu fizeste como o avestruz, enfiaste a cabeça na areia: «não é nada comigo, não é nada comigo», né? E os da frente que se lixem... E é por isso que a tua solução é não ver, é não ouvir, é não querer ver, é não querer entender nada: precisas de paz de consciência. Não andas aqui a brincar, né filho? Precisas de ter razão, precisas de atirar as culpas para cima de alguém, e atiras as culpas para os da frente, para os do 25 de Abril, para os do 28 de Setembro, para os do 11 de Março, para os do 25 de Novembro, para os do... que dia é hoje, hã?

FMI Dida didadi dadi dadi da didi
FMI...

Não há português nenhum que não se sinta culpado de qualquer coisa, não é filho? Todos temos culpas no cartório - foi isso que te ensinaram, não é verdade? «Esta merda não anda porque a malta, pá, a malta não quer que esta merda ande» - tenho dito. A culpa é de todos, a culpa não é de ninguém - não é isto verdade? Quer-se dizer: há culpa de todos em geral e não há culpa de ninguém em particular, hã? Somos todos muita bons no fundo, né? Somos todos uma nação de pecadores e de vendidos, né? Somos todos ou anti-comunistas ou anti-fascistas: estas coisas até já nem querem dizer nada, ismos para aqui, ismos para acolá, as palavras é só bolinhas de sabão, parole parole parole e o Zé é que se lixa, cá o pintas é sempre o mexilhão... Eu quero lá saber deste paleio, vou mas é ao futebol, pronto! Viva o Porto, viva o Benfica! Lourosa! Lourosa! Marrazes! Marrazes! Fora o árbitro! Gatuno! Qual gatuno, qual caralho! Razão tinha o Tonico de Bastos para se entreter, né filho? Entretém-te, filho, com as tuas viúvas e as tuas órfãs, que o teu delegado sindical vai tratando da saúde aos administradores; entretém-te, que o ministro do trabalho trata da saúde aos delegados sindicais; entretém-te, filho, que a oposição parlamentar trata da saúde ao ministro do trabalho; entretém-te, que o Eanes trata da saúde à oposição parlamentar; entretém-te, que o FMI trata da saúde ao Eanes. Entretém-te, filho! E vai para a cama descansado, que há milhares de gajos inteligentes a pensar em tudo neste mesmo instante, enquanto tu adormeces a não pensar em nada! Milhares e milhares de tipos inteligentes e poderosos, com computadores, redes de polícia secreta, telefones, carros de assalto, exércitos inteiros, congressos universitários, eu sei lá! Podes estar descansado que o Deng Xiao Ping está a tratar de ti com o Jimmy Carter; o Brejnev está a tratar de ti com o João Paulo II! Tudo corre bem, a ver quem se vai abotoar com os 25 tostões de riqueza que tu vais produzir amanhã nas tuas oito horas. A ver quem vai ser capaz de te convencer de que a culpa é tua e só tua se o teu salário perde valor todos os dias; vão te convencer de que a culpa é só tua se o teu poder de compra é como o rio de S. Pedro de Moel que se some nas areias em plena praia, ali a 10 metros do mar em maré cheia, e nunca consegue desaguar, de maneira que se possa dizer: «porra! Finalmente o rio desaguou!» Vão te convencer de que a culpa é só tua, e tu sem culpa nenhuma, estás tu a ver? Que tens tu a ver com isso, não é filho? Cada um que se vá safando como puder - é mesmo assim, não é? Tu fazes como os outros, fazes o que tens a fazer: votas à esquerda moderada nas sindicais; votas no centro moderado nas deputais; e votas na direita moderada nas presidenciais. Que mais querem eles? Que lhes ofereças a Europa no natal?! Era o que faltava! É assim mesmo, julgam que te levam de mercedes, toma: para safado, safado e meio, né filho? Nem para a frente nem para trás, «e eles que tratem do resto, os gatunos, que são pagos para isso», né? Claro! «Que se lixem as alternativas, para trabalho já me chega!» Entretém-te, meu anjinho, entretém-te, que eles são inteligentes, eles ajudam, eles emprestam, eles decidem por ti, decidem tudo por ti: se hás-de construir barcos para a Polónia ou cabeças de alfinete para a Suécia, se hás-de plantar tomate para o Canadá ou eucaliptos para o Japão... Descansa que eles tratam disso. Se hás-de comer bacalhau só nos anos bissextos ou hás-de beber vinho sintético de Alguidares-de-Baixo... Descansa, não penses em mais nada... que até neste país de pelintras se acha «normal haver mãos desempregadas» e se acha «inevitável haver terras por cultivar»... Descontrai, beibi, camóne, descontrai, afinfa-lhes o Bruce Lee, afinfa-lhes a macrobiótica, o biorritmo, o horoscópio, dois ou três ovniologistas, um gigante da ilha de Páscoa e uma Grace do Mónaco de vez em quando para dar as boas festas às criancinhas... Piramiza, filho, piramiza, antes que os chatos fujam todos para o Egipto, que assim é que tu te fazes um homenzinho, e até já pagas multa se não fores ao recenseamento. «Pois, pá, isto é um país de analfabetos, pá!» Dá-lhe no Travolta, dá-lhe no disco-sound, dá-lhe no pop-chula! Pop-chula pop-chula, ié, ié! Jó-ta-pi-men-ta-forever!
Quanto menos souberes a quantas andas, melhor para ti! Não te chega para o bife? Antes no talho do que na farmácia! Não te chega para a farmácia? Antes na farmácia do que no tribunal! Não te chega para o tribunal? Antes a multa do que a morte! Não te chega para o cangalheiro? Antes para a cova do que para não sei quem que há-de vir! Cabrões de vindouros, hã! Sempre a merda do futuro? E eu que me quilhe? Pois pá: sempre a merda do futuro, a merda do futuro, e eu, hã? Que é que eu ando aqui a fazer? Digam lá: e eu? José Mário Branco. 37 anos. Isto é que é uma porra! Anda aqui um gajo cheio de boas intenções, a pregar aos peixinhos, a arriscar o pêlo - e depois? É só porrada e mal viver, é? «O menino é mal-criado», «o menino é pequeno-burguês», «o menino pertence a uma classe sem futuro histórico»... Eu sou parvo ou quê? Quero ser feliz, porra! Quero ser feliz agora! Que se foda o futuro! Que se foda o progresso! Mais vale só do que mal acompanhado! Vá: mandem-me lavar as mãos antes de ir para a mesa, filhos da puta de progressistas do caralho da revolução que vos foda a todos! Deixem-me em paz, porra, deixem-me em paz e sossego! Não me emprenhem mais pelos ouvidos, caralho! Não há paciência, não há paciência! Deixem-me em paz, caralho, saiam daqui, deixem-me sozinho, só um minuto! Vão vender jornais e governos e greves e sindicatos e polícias e generais para o raio que vos parta! Deixem-me sozinho! Filhos da puta! Deixem-me só um bocadinho, deixem-me só para sempre! Tratem da vossa vida que eu trato da minha! Pronto, já chega! Sossego, porra! Silêncio, porra! Deixem-me só! Deixem-me só! Deixem-me só! Deixem-me morrer descansado! Eu quero lá saber do Artur Agostinho e do Humberto Delgado! Eu quero lá saber do Benfica e do bispo do Porto! Eu quero se lixe o 13 de Maio e o 5 de Outubro e o Melo Antunes e a rainha de Inglaterra e o Santiago Carrillo e a Vera Lagoa! Deixem-me só, porra, rua! Larguem-me! Desopila o fígado! Arreda! T’arrenego Satanás! Filhos da puta! Eu quero morrer sozinho, ouviram? Eu quero morrer! Eu quero que se foda o FMI! Eu quero lá saber do FMI! Eu quero que o FMI se foda! Eu quero lá saber que o FMI me foda a mim, eu vou mas é votar no Pinheiro de Azevedo se ele tornar a ir para o hospital, pronto! Bardamerda o FMI, o FMI é só um pretexto vosso, seus cabrões! O FMI não existe! O FMI nunca aterrou na Portela coisa nenhuma! O FMI é uma finta vossa para virem para aqui com esse paleio! Rua! Desandem daqui para fora! A culpa é vossa! A culpa é vossa! A culpa é vossa! A culpa é vossa! A culpa é vossa! A culpa é vossa...
Oh mãe! Oh mãe! Oh mãe! Oh mãe! Oh mãe... Oh mãe...

Mãe, eu quero ficar sozinho. Mãe, eu não quero pensar mais. Mãe: eu quero morrer, mãe. Eu quero desnascer: ir-me embora, sem sequer ter que me ir embora... Mãe, por favor... Tudo menos a casa em vez de mim; outro maldito que não sou senão este tempo que decorre entre fugir de me encontrar e me encontrar fugindo... De quê, mãe? Diz: são coisas que se me perguntem? Não pode haver razão para tanto sofrimento.

E se inventássemos o mar de volta? E se inventássemos partir, para regressar? Partir e aí, nessa viagem, ressuscitar da morte às arrecuas que me deste. Partida para ganhar, partida de acordar... Abrir os olhos, numa ânsia colectiva de tudo fecundar: terra, mar, mãe... Lembrar como o mar nos ensinava a sonhar alto. Lembrar, nota a nota, o canto das sereias. Lembrar o «depois do adeus» e o frágil e ingénuo cravo da Rua do Arsenal. Lembrar cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição... Partir aqui, com a ciência toda do passado... Partir, aqui, para ficar.
Assim mesmo, como entrevi um dia, a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila, o azul dos operários da Lisnave a desfilar, gritando ódio apenas ao vazio, exército de amor e capacetes; assim mesmo na Praça de Londres o soldado lhes falou: «Olá, camaradas, somos trabalhadores, eles não conseguiram fazer-nos esquecer: aqui está a minha arma para vos servir.» Assim mesmo, por detrás das colinas onde o verde está à espera, se levantam antiquíssimos rumores, as festas e os suores, os bombos de Lavacolhos. Assim mesmo senti um dia, a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila, o bater inexorável dos corações produtores, os tambores.
«De quem é o carvalhal?» «É nosso!» - assim te quero cantar, mar antigo a que regresso.
Neste cais está arrimado o barco-sonho em que voltei. Neste cais eu encontrei a margem do outro lado, «Grândola Vila Morena».
Diz lá: valeu a pena a travessia? Valeu, pois.

Pela vaga de fundo se sumiu o futuro histórico da minha classe. No fundo deste mar encontrareis tesouros recuperados, de mim que estou a chegar do lado de lá para ir convosco: tesouros infindáveis que vos trago de longe e que são vossos, o meu canto e a palavra. O meu sonho é a luz que vem do fim do mundo, dos vossos antepassados que ainda não nasceram. A minha arte é estar aqui, convosco, e ser-vos alimento e companhia, na viagem para estar aqui de vez.
Sou português, pequeno-burguês de origem. Filho de professores primários. Artista de variedades. Compositor popular. Aprendiz de feiticeiro. Faltam-me dentes. Sou o Zé Mário Branco, 37 anos, do Porto: muito mais vivo que morto. Contai com isto de mim para cantar, e para o resto.

Ser solidário assim para além da vida
Por dentro da distância percorrida
Fazer de cada perda uma raiz
E, improvavelmente, ser feliz

De como aqui chegar não é mister contar
O que já sabe quem souber
O estrume em que germina a ilusão
Fecundará por certo esta canção

Ser solidário, sim, por sobre a morte
Que depois dela só o tempo é forte
E a morte nunca o tempo a redime
Mas sim o amor dos homens que se exprime

De como aqui chegar não vale a pena
Já que a moral da história é tão pequena
Que nunca por vingança eu vos daria
No ventre das canções sabedoria

Renaud - Mistral gagnant

letra

À m'asseoir sur un banc cinq minutes avec toi
Et regarder les gens tant qu'il en a
Te parler du bon temps qu'est mort ou qui reviendra
En serrant dans ma main tes petits doigts
Puis donner à bouffer à des pigeons idiots
Leur filer des coups d'pieds pour de faux
Et entendre ton rire qui lézarde les murs
Qui sait surtout guérir mes blessures
Te raconter un peu comment j'étais minot
Les bonbecs fabuleux
Qu'on piquait chez l' marchand
Car-en-sac et Minto, caramel à un franc
Et les Mistrals gagnants
À remarcher sous la pluie cinq minutes avec toi
Et regarder la vie tant qu'y en a
Te raconter la Terre en te bouffant des yeux
Te parler de ta mère un petit peu
Et sauter dans les flaques pour la faire râler
Bousiller nos godasses et s'marrer
Et entendre ton rire comme on entend la mer
S'arrêter, repartir en arrière
Te raconter surtout les Carambars d'antan et les Coco Boer
Et les vrais roudoudous qui nous coupaient les lèvres
Et nous niquaient les dents
Et les Mistrals gagnants
À m'asseoir sur un banc cinq minutes avec toi
Regarder le soleil qui s'en va
Te parler du bon temps qui est mort et je m'en fous
Te dire que les méchants c'est pas nous
Que si moi je suis barge, ce n'est que de tes yeux
Car ils ont l'avantage d'être deux
Et entendre ton rire s'envoler aussi haut
Que s'envolent les cris des oiseaux
Te raconter enfin qu'il faut aimer la vie
Et l'aimer même si
Le temps est assassin
Et emporte avec lui les rires des enfants
Et les mistrals gagnants
Et les mistrals gagnants.

Sente-se em um banco cinco minutos com você
À m'asseoir sur un banc cinq minutes avec toi

E observe as pessoas enquanto ele tiver
Et regarder les gens tant qu'il en a

Fale sobre o bom momento que está morto ou voltando
Te parler du bon temps qu'est mort ou qui reviendra

Segurando meus dedinhos na mão
En serrant dans ma main tes petits doigts

Então dê comida aos pombos idiotas
Puis donner à bouffer à des pigeons idiots

Chute-os por falso
Leur filer des coups d'pieds pour de faux

E ouça sua risada estalando nas paredes
Et entendre ton rire qui lézarde les murs

Quem sabe curar minhas feridas
Qui sait surtout guérir mes blessures

Conte um pouco sobre como eu era mineiro
Te raconter un peu comment j'étais minot

Os fabulosos bonbecs
Les bonbecs fabuleux

Que costuramos o comerciante
Qu'on piquait chez l' marchand

Car-in-Bag e Minto, Caramel em um franco
Car-en-sac et Minto, caramel à un franc

E os Mistrals vencedores
Et les Mistrals gagnants

Andar na chuva por cinco minutos com você
À remarcher sous la pluie cinq minutes avec toi

E assista a vida enquanto houver
Et regarder la vie tant qu'y en a

Te digo a Terra soprando seus olhos
Te raconter la Terre en te bouffant des yeux

Fale um pouco sobre sua mãe
Te parler de ta mère un petit peu

E pular em poças para fazê-la gemer
Et sauter dans les flaques pour la faire râler

Para estragar nossos sapatos e começar
Bousiller nos godasses et s'marrer

E ouça sua risada enquanto ouvimos o mar
Et entendre ton rire comme on entend la mer

Pare, volte
S'arrêter, repartir en arrière

Diga-lhe especialmente os Carambars do passado e o Coco Boer
Te raconter surtout les Carambars d'antan et les Coco Boer

E o verdadeiro barulho que corta nossos lábios
Et les vrais roudoudous qui nous coupaient les lèvres

E nós estávamos pregando nossos dentes
Et nous niquaient les dents

E os Mistrals vencedores
Et les Mistrals gagnants

Sente-se em um banco cinco minutos com você
À m'asseoir sur un banc cinq minutes avec toi

Veja o sol ir embora
Regarder le soleil qui s'en va

Falar sobre o bom momento morto e eu não ligo
Te parler du bon temps qui est mort et je m'en fous

Diga que os bandidos não somos nós
Te dire que les méchants c'est pas nous

Que se eu sou uma barcaça, é apenas com seus olhos
Que si moi je suis barge, ce n'est que de tes yeux

Porque eles têm a vantagem de serem dois
Car ils ont l'avantage d'être deux

E ouvir sua risada voar tão alto
Et entendre ton rire s'envoler aussi haut

O que os pássaros estão gritando
Que s'envolent les cris des oiseaux

Digo-lhe finalmente que devemos amar a vida
Te raconter enfin qu'il faut aimer la vie

E amá-lo, mesmo que
Et l'aimer même si

O tempo é assassino
Le temps est assassin

E leve com ele o riso das crianças
Et emporte avec lui les rires des enfants

E os mistrais vencedores
Et les mistrals gagnants

E os mistrais vencedores
Et les mistrals gagnants

Fonte: LyricFind
Compositores: Renaud Sechan
Letras de Mistral gagnant © Mino Music

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Aldina Duarte_Vendaval e Rosa Enjeitada ·





Vendaval · Aldina Duarte
Álbum: Roubados 
℗ 2019 SME Portugal, Sociedade Unipessoal, Lda.

Composer: Joaquim Pimentel
Guitar: Paulo Parreira 
Viola: Rogério Ferreira 
Mixing Engineer, Recording Engineer: Joaquim Monte

letra
O vendaval passou nada mais resta
A nau do meu amor tem novo rumo
Igual a tudo aquilo que não presta
O amor que me prendeu desfez-se em fumo

Navego agora em mar de calmaria
Ao sabor da maré em verdes aguas
Ao leme o esquecimento e a alegria
Vai deixando para trás as minhas mágoas

Para onde vou? Não sei
O que farei? Sei lá
Só sei que me encontrei
E que sou eu em fim
E sei que ninguém mais rirá de mim

Longe no cais ficou a tua imagem
Mal a distingo já, desmaicida
Comigo a alegrarem-me a viagem
Vão andorinhas de paz de nova vida

Sigo tranquilo, rumo da esperança
Buscando aquela paz apetecida
Para ti eu fui um lago de bonança
Ai e tu um vendaval na minha vida




Rosa Enjeitada · Aldina Duarte · Antonio Zambujo 
Roubados 
℗ 2019 SME Portugal, Sociedade Unipessoal, Lda.
Released on: 2019-11-01 
Associated Performer: Aldina Duarte feat. António Zambujo 
Guitar: Paulo Parreira 
Composer: José Galhardo 
Viola: Rogério Ferreira 
Composer: Raul Ferrão 
Mixing Engineer, Recording Engineer: Joaquim Monte

letra
Sou essa rosa, caprichosa, sem ser má
Flor de alma pura e de ternura ao Deus dará
Que viu um dia, que sentia um grande amor
E de paixão o coração estalar de dor
Rosa enjeitada
Sem mãe sem pão sem ter nada
Que vida triste e chorada
O teu destino te deu
Rosa enjeitada
Rosa humilde e perfumada
Afinal desventurada quem és tu?
Rosa enjeitada
Uma mulher que sofreu
Tão pobrezinha…

[versão integral]
Sou essa rosa, caprichosa, sem ser má
Flor de alma pura e de ternura ao Deus dará
Que viu um dia, que sentia um grande amor
E de paixão o coração estalar de dor

Rosa enjeitada
Sem mãe sem pão sem ter nada
Que vida triste e chorada
O teu destino te deu
Rosa enjeitada
Rosa humilde e perfumada
Afinal desventurada quem és tu?
Rosa enjeitada
Uma mulher que sofreu

Tão pobrezinha que ainda tinha uma afeição
Alguém que amava e que sonhava uma ilusão
Mas esse alguém por outro bem se apaixonou
E assim fiquei sem ele que amei e me enjeitou

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Bernardo Sassetti Trio - Historia de un Amor


Bernardo Sassetti Trio - Historia de un Amor [Canção Nr. VI] Songwriter - Carlos Eleta Almarán Album - Motion Year Released - 2010 Record Label - Clean Feed Records Personnel: Bernardo Sassetti - piano; Carlos Barretto - bass; Alexandre Frazão - drums


Teresa Tarouca_ 1942/2019

In Memoriam




Morreu a fadista Teresa Tarouca

Cantora tinha 77 anos e estava internada no Hospital São Francisco Xavier, devido a uma pneumonia dupla
2019-11-11 11:44/ AG





A fadista Teresa Tarouca morreu esta segunda-feira de madrugada, no Hospital S. Francisco Xavier, em Lisboa, aos 77 anos, vítima de pneumonia dupla, disse à agência Lusa fonte próxima da família.

O corpo de Teresa Tarouca estará em câmara ardente a partir das 19:00 na Basílica da Estrela, em Lisboa, estando o funeral marcado para terça-feira, segundo a funerária Servilusa.

No local onde decorre o velório, haverá, pelas 10:30 de terça-feira, uma missa de corpo presente, seguindo depois o funeral para o Crematório do Cemitério dos Olivais, também em Lisboa.

Nascida em janeiro de 1942, Teresa de Jesus Pinto Coelho Telles da Silva adotou o nome artístico de Teresa Tarouca, indo buscar um velho apelido de família.



“Testamento”, na década de 1960, “Mouraria”, “Deixa que te cante um fado”, “Saudade, silêncio e sombra”, “Meu bergantim”, “O resineiro”, "Fado, dor e sofrimento", "Passeio à Mouraria", "Ora bate, bate" contam-se entre os sucessos de Teresa Tarouca.


Oriunda de uma família ligada à música – é prima de Frei Hermano da Câmara e prima afastada de Maria Teresa de Noronha –, Teresa Tarouca começou a cantar aos 11 anos em espetáculos de beneficência, o que levou especialistas em música a considerarem-na a “menina-prodígio” da década de 1950.

No fado, estreou-se aos 13 anos, no Salão dos Bombeiros de Oeiras, tendo em 1958 recebido o Óscar da Imprensa, segundo o ‘site’ do Museu do Fado.

Em 1962, assinou o primeiro contrato de gravação, com a então editora RCA, e, em 1964, recebeu o prémio da Imprensa, ou Prémio Bordalo, na categoria Fado.

Cantou poemas e músicas de fados clássicos de autores como António de Bragança, João de Noronha, Alfredo Marceneiro, Pedro Homem de Mello, Francisco Viana, Maria Manuel Cid, Casimiro Ramos, João de Noronha, Nuno de Lorena João Ferreira-Rosa, Alda Lara, entre outros.


Teresa Tarouca foi a primeira fadista a cantar Fernando Pessoa.

Em 1973 foi convidada para o Festival RTP da Canção, em cuja primeira parte interpretou “Cai chuva do céu cinzento”, fado que criou com letra do autor de “Mensagem”.

Durante a sua carreira artística, a fadista apresentou-se em palcos de vários países, nomeadamente, Dinamarca, Bélgica, Espanha, Estados Unidos da América, Brasil e em Macau.

Em 1989, foi editado o disco “Tereza Tarouca canta Pedro Homem de Mello”, trabalho considerado emblemático na carreira da fadista.

Em maio de 1994 comemorou os 33 anos de carreira no Teatro Tivoli, em Lisboa, tendo continuado a cantar com regularidade.

Em 1996, atuou no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, e em 2003, no restaurante e casa de fados “Velho Páteo de Sant´Ana”, em Lisboa, onde foi fadista residente.

Em 1997, participou como "Atração de Fado" na revista “Preço Único”, no Teatro ABC, ao Parque Mayer, e, um ano depois, participou no musical “Fado… Esse malandro vadio”, de João Núncio com encenação de Francisco Horta.


Em junho de 2013, o então Presidente da República Cavaco Silva atribuiu-lhe o grau de comendadora da Ordem do Infante D. Henrique.

A última atuação de Teresa Tarouca em público data de outubro de 2013, durante a VIII Gala Amália, no Teatro S. Luiz, em Lisboa, recebeu o Prémio Amália de Carreira.

in: TVI24

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Jazz_Charles Lloyd

"às vezes a vida lembra que ainda há beleza neste mundo"


Charles Lloyd & The Marvels with Bill Frisell - 2016-01-30 set 2 - Lincoln Center, New York, NY

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Bonga_angola 72/74






Canção: Mona ki ngi xica
Artista: Bonga
Álbum: Bonga Live

Tradução do Kimbundo para Português:

Aviso-vos que estou a morrer 
Estou a pedir-vos 
Ele vai ficar aqui e eu vou partir 
Filho é filho mesmo, a morte é uma desgraça 
Deus me deu um filho 
E eu lhe gerei
Ele vai ficar aqui e eu vou embora. 
Filho é filho mesmo, se vier, é filho mesmo. 
A morte é uma desgraça.







segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Michael Stipe a solo


 Conheça a canção com que Michael Stipe dos R.E.M. se estreia a solo

A primeira investida ‘a sério’ de Stipe depois do fim dos R.E.M.



Michael Stipe lançou este fim de semana o seu primeiro single a solo, desde o fim dos R.E.M., em 2011.
O tema tem como título 'Your Capricious Soul', e foi interpretado pelo músico num concerto surpresa que deu em maio, a abrir para Patti Smith.
'Your Capricious Soul' não se encontra disponível em nenhuma das tradicionais plataformas de streaming, podendo ser escutada e descarregada no website de Michael Stipe, num formato pague-o-que-quiser.
"Quero acrescentar a minha voz a esta entusiasmante mudança de consciência", afirmou, em comunicado. "Acredito que podemos trazer a mudança necessária à melhoria do nosso planeta Terra".
Ouça aqui 'Your Capricious Soul':

Your Capricious Soul - Michael Stipe from JMSPROJ on Vimeo.

Amália_Entrevistada em 1990




Amália
Arquivo Gesco

20 anos sem Amália. “Como poderia eu ser um mito se fui criada em Alcântara? Não posso inventar outra história”

“Não sou, nem de longe, a melhor voz que o fado já teve. Sou, isso sim, a pessoa com mais coisas negativas dentro de si. O fado gosta disso”. Numa entrevista publicada no jornal “A Capital” em 1990, por altura daquele que se tornaria o seu último álbum de originais, Amália Rodrigues confessava-se uma mulher-fado difícil de aturar, predestinada para cantar, mas avessa ao estatuto de mito. “É a minha maneira de ser que me dá cabo da vida, mas é graças à minha maneira de ser que tudo o que rodeia a Amália aconteceu”. Genial, lúcida, desassombrada e cortante, deixou-nos há 20 anos


Não é fácil entrevistá-la. Ao entrar-se em sua casa, subindo uma escada de degraus de pedra gastos pelo tempo, entra-se num mundo de recordações. A sua presença é avassaladora. As suas marcas adivinham-se não só na disposição dos móveis, mas também nos retratos – fotografados, pintados ou esculpidos. Estamos ali por causa do seu novo álbum, “Obsessão”. Os primeiros fados novos desde “Lágrima”, o disco de 1983. Na verdade, “Obsessão” mais não é do que um pretexto para se voltar, mais uma vez, a falar com Amália.
Na sala ampla onde a esperamos, duas meninas, alunas de uma escola secundária, esperam-na também. Ela chega e nós entregamos-lhe as flores. Rosas vermelhas. “Obrigado” é a primeira palavra que nos diz. De seguida pede desculpa, porque vai “atender as meninas”. Alguém nos diz que andam na escola e já há muito tempo que queriam falar com Amália. “Talvez para pedir conselhos”. As meninas dão-nos tempo para observar melhor os domínios da fadista. Azulejos portugueses na parede, flores por todo o lado, um piano ao canto da sala. Em cima do piano, uma fotografia oferecida “por aquele rapaz, o Leonel Moura”, aquele que pôs a palavra “Portugal” na boca de Amália.

“Nunca me senti um mito nem um deus. Só se eu fosse maluca e, por enquanto, ainda estou lúcida”

Quando, finalmente, Amália chega, corta-se a palavra a Vaclav Havel desligando a televisão. “Desculpem, vamos começar”, diz. Amália, como sempre, veste de negro. Não tira os óculos escuros porque o olho direito a incomoda – “treme e chora sem eu querer”. Enquanto o ‘flash’ da máquina fotográfica ilumina a sala semi-obscurecida, ela pede que eu conte uma anedota. Não sou capaz, é claro. “Eu gosto muito de anedotas, dizem até que tenho jeito para as contar. Todos os meus amigos dizem isso”. “Amigos”. Comecemos por aí.
“Quando cá estou, quase nunca saio de casa. As minhas amigas visitam-me muito” – afirma, justificando talvez a razão do desgaste dos degraus, depois prossegue: “Guardo muito os meus amigos. Tenho ainda amigos que conheci há vinte e trinta anos. Quando faço um amigo nunca o perco. Às vezes vêm da América, de França ou da Itália e nunca se esquecem de me visitar”.
Quando perguntamos se ela acarinha muito os amigos, ela ri e responde que é “ao contrário”: “Os meus amigos é que me acarinham a mim. Dão-me mimos. Eu sou esperta. Se tenho sede, digo “vou buscar um copo de água”. Não precisava de dizer isso, bastava-me levantar-me e ir à cozinha. Mas ao dizer aquilo eu sei que são eles que se levantam. Estou mimada, mas não estragada pelos mimos”.
Amália Rodrigues tem uma capacidade quase infinita para contar histórias. Está a falar e, de repente, faz uma pausa e desvia completamente o rumo ao seu discurso. Tem uma memória prodigiosa. Sendo uma figura histórica, Amália é, ao mesmo tempo, um mito vivo. Ela recusa, no entanto, essa condição, evidenciando uma modéstia desarmante. “Estão sempre a dizer coisas bonitas acerca de mim. Eu gosto muito de as ouvir, mas… no outro dia, um jornal de Barcelona chamava-me mito. Eu não sou um mito, sou apenas igual a mim mesma” – reclama Amália, antes de se justificar: “Um mito é um deus. As questões da filosofia e da mitologia interessam-me sempre. Nunca aprofundei na mitologia porque há muitos pais, muitos filhos e muitos primos naquelas histórias. Aprendi, no entanto, que os mitos são deuses. Eu nunca me senti um mito nem um deus. Só se eu fosse maluca e, por enquanto, ainda estou lúcida.
Comparamos Amália a outros ‘mitos’. Ela aproveita imediatamente a enumeração de outros ‘mitos’ para começar a falar. “Maria Callas… também lhe chamaram mito. Ela, para mim, era uma coisa extraordinária, mas nunca me passaria pela cabeça chamar-lhe um mito. Como poderia eu ser um mito se fui criada em Alcântara? Estou farta de dizer isto e ninguém quer acreditar. O que é que eu hei de fazer? Não posso inventar outra história. Os grandes artistas, como o Frank Sinatra, o Fred Astaire ou a Katharine Hepburn foram apenas artistas e eu exijo a essas pessoas coisas que não se podem pedir aos deuses”.

“A minha vida tem sido muito complicada, mas esses comprimidos que se tomam para se deixar de existir exigem muita coragem”

Talvez porque a luz, ainda que fraca, lhe cansa a vista, ou talvez porque assim as imagens de um passado que serve de fio condutor a esta entrevista sejam mais claras, Amália fala sempre com os olhos fechados. Como na capa de “Obsessão”. É exatamente desse álbum que agora começamos a falar. A primeira pergunta é inevitável: porquê tanto tempo sem editar um disco de originais?
“A minha vida tem sido muito complicada”. Amália prepara o terreno para falar de questões que lhe são difíceis: “estive doente há onze anos. Saí do hospital e fiz ‘Lágrima’, depois tive outra época em que estive mal. Eu julgava que estava muito mais doente do que o que realmente estava e isso ainda me deixava pior. Nessa época até pensei… em tomar uns comprimidos. Mas era muito difícil. Esses comprimidos que se tomam para se deixar de existir exigem muita coragem”.
O assunto é deveras delicado e Amália fala muito pausadamente. Com alguma dificuldade, vai recordando os factos que a mantiveram afastada dos estúdios durante tanto tempo. “Mais tarde passei por uma verdadeira ressurreição. Mas calaram-me na rádio, disseram que eu tinha fugido e, uma vez, num teatro em Itália, havia pessoas à porta que diziam ‘Amália fascista’. Tudo isso me manteve muito tempo longe dos discos”, explica a fadista. De repente, começa a tossir. Pede desculpa, diz que se engasgou e chama a empregada para lhe pedir um copo de água que é prontamente servido numa salva de prata. O incidente abre uma porta no passado que Amália aproveita para contar uma história que teve lugar em 1947. “Eu ainda estava no teatro. Quando estava a finalizar o meu número, algo que me entrou para a garganta, comecei a tossir tanto que fui obrigada a abandonar o palco lavada em lágrimas. As pessoas estavam a aplaudir e eu ainda consegui regressar ao palco. Fico preocupada quando começo a tossir assim”, comenta antes de retomarmos o fio à meada.



Capa de "Obsessão", álbum de originais de Amália Rodrigues lançado em 1990
Capa de "Obsessão", álbum de originais de Amália Rodrigues lançado em 1990

Sabendo já qual vai ser a resposta, pedimos a Amália que nos diga se está satisfeita com “Obsessão”. “Estou e não estou. Gosto de três ou quatro coisas. Há umas cantigas de roda que eu cantava na escola, ‘Chora Mariquinhas Chora’ e ‘Ó Ai Ó Linda’, que eu alterei para dizer às pessoas que o fado até se encontra nessas cantigas de roda. Gosto também do ‘Que Fazes Aí Lisboa’, do ‘Obsessão’ e ‘Flor de Verde Pinho’ está bem cantado. As outras…”. Interrompemos para saber a sua opinião sobre ‘Rondel do Alentejo’, sobre poema de Almada Negreiros. “Também é muito bonito. Mas não só. O fado ‘Prece’ é bonito, a ‘Entrega’ também. Só que estes dois não estão tão bem cantados porque me apanharam num dia em que estava doente. O disco, no geral, não está mal cantado, mas nota-se que às vezes falta garra”, afirma, num esforço notório de autocrítica. Amália raramente fica contente com o que grava, dizem-nos os seus mais próximos colaboradores, mas isso não a impede que grave sempre ao primeiro ‘take’. Há aqui um pequeno paradoxo.
“Eu não posso estar a mastigar um fado. Ou sai ou não sai, porque eu não posso cantar duas vezes igual. Em estúdio, quando canto mais do que três vezes uma coisa já não fico satisfeita. Além disso, tenho que me sentir disposta a gravar”, refere, para logo a seguir contar outra história: “Há muitos anos, fui a Londres. Como se sabe, os ingleses são muito rigorosos em horários. Pois eu cheguei ao estúdio, no primeiro dia, e não me apeteceu gravar. Eles ficaram doidos, nunca lhes tinha aparecido uma pessoa como eu. Não me trataram mal, mas vontade não lhes faltou”.
Amália confessa que há fados no disco que não ficaram como ela desejava, mas também acrescenta que ao vivo é capaz de os interpretar de tal maneira que levanta o público das cadeiras. “O disco – sublinha – tem uma carga minha suficiente, não tem 21 valores. Algumas interpretações têm 17, outras 18 e outras ainda só 12 ou 13. Destas eu não gosto”. Provando se realista, não se coíbe de fazer uma autocrítica, mas também reconhece que nunca cantou tão mal ao ponto que as pessoas dissessem “hoje não me apetece ouvir a Amália”.

“Agora façam favor de dizer ao Frank Sinatra que eu cantei e tive aqui muito êxito”




Capa do jornal "A Capital", de 19 de novembro de 1990
Capa do jornal "A Capital", de 19 de novembro de 1990

Pelas palavras que nos dispensa, quase podemos dizer que a obsessão de Amália é a perfeição, mas antes de nos esclarecer sobre este ponto, a fadista faz uma pausa significativa. “Acho que é a minha maneira de ser. Essa é a minha maior obsessão. Por um lado, é a minha maneira de ser que me dá cabo da vida e, por outro, é graças à minha maneira de ser que tudo o que rodeia a Amália aconteceu”.
Em “Obsessão” nota-se que há uma nova Amália. A voz suporta diferenças que não podem ser justificadas só pela idade. Amália diz simplesmente que está “mais triste”. E qual a razão de tanta tristeza? “Eu já era triste quando era mais nova. A tristeza dentro de nós nunca desaparece; cresce. A experiências da minha vida desencantaram-me. Sou muito exigente comigo mesmo, tão exigente que tenho dificuldade em encontrar pessoas que me aturem. Isto dá-me a certeza absoluta de que nasci predestinada para cantar o fado, sou um instrumento do fado”, afirma com a maior das certezas espelhada na voz, para depois continuar: “não quero com isto dizer que sou a melhor pessoa para cantar o fado. Eu não sou, nem de longe, a melhor voz que o fado já teve. Sou, isso sim, a pessoa com mais coisas negativas dentro de si. O fado gosta disso, exige essa condição. O fado quer que uma pessoa seja desgraçada, não no sentido de desgraçadinha, quer que uma pessoa seja triste como a noite e é esse o meu caso. Só não sou triste quando não estou sozinha. De resto, sou muito triste”.
Amália reclama para si o fado de viver guiada pelo instinto e de todas as decisões que toma serem totalmente espontâneas. Diz que isso se reflete na maneira como canta, na maneira como a sua carreira é gerida. “Eu nunca penso nas coisas. Faço-as e pronto. Às vezes, na rádio, querem-me dizer quais são as perguntas para eu pensar antes de entrar no ar e responder. Eu recuso. Não consigo pensar nessas coisas. Sou completamente espontânea a cantar e tudo. Sabe como é que eu terminei o meu espetáculo de Nova Iorque? Voltei ao palco depois dos encores e disse ‘agora fazem favor de dizer ao Frank Sinatra que eu cantei e tive aqui muito êxito’. Foi uma brincadeira que eu fiz sem pensar se devia fazê-la ou não”.
A deixa é boa e nós não hesitamos. Conheceu Frank Sinatra? Responde que sim e conta a história. “Estive na América há 40 anos, quando o Frank Sinatra tinha aquelas meninas que desmaiavam. A mim disseram-me que aquilo era tudo a fingir, que elas eram pagas para desmaiar nos espetáculos. E eu achei tão ridículo que embirrei com ele e não lhe dei confiança nenhuma. Eu andava no grupo do Eddie Fischer, Perry Como, Sammy Davis Jr., Nat King Cole e do Sinatra também. E como eu não tinha gostado nada do que me tinha contado, nunca lhe liguei. Acho que ninguém é capaz de fazer as pessoas desmaiar e depois continuar a fazê-las desmaiar ao longo de tantos anos. Mas tenho pena de ter embirrado com ele porque gostava de me ter mantido em contacto com ele, até para lhe mandar discos e saber a sua opinião acerca da minha voz”.



Amália entrevistada pelo jornalista Rui Miguel Abreu em novembro de 1990
Amália entrevistada pelo jornalista Rui Miguel Abreu em novembro de 1990
António José/Arquivo A Capital

“Tenho olhos de fado”

Em “Obsessão” Amália canta grandes poetas – Luís de Camões, Almada, Afonso Lopes Vieira, Pedro Homem de Mello, Francisco Bogalho… O que leva Amália a cantar estes poetas? “O Luís de Camões, por exemplo… isto é como as nêsperas: nós começamos sempre pelas maduras e acabamos por comer também as verdes. Bem, Camões não tem nêsperas verdes, são todas maduras. Eu cantei sempre Camões, acho que ele é um ‘poeta-fadista’”, sublinha Amália, citando depois o soneto ‘Com Que Voz Cantarei Este Meu Triste Fado”. “Isto é fado”, exulta a fadista, que revela ainda um plano secreto e pessoal de gravar um disco só com Camões, “para deixar, como homenagem”.
“Porque cantar é diferente de ler”, Amália, por vezes, altera poemas que lhe são entregues. “Geralmente, os poetas não se importam, porque eu discuto as alterações com eles. Costuma ser só uma palavra ou ou outra, mas é uma questão delicada para quem escreve. Nunca tive problemas, já alterei coisas do David Mourão Ferreira, por exemplo, e ele compreendeu. Mas, em ‘Obsessão’ houve um poema em que eu alterei uma palavra e o autor não gostou. Ele escreveu a dizer que estava contente por eu o ter escolhido, mas mostrou-se aborrecido pela mudança. Evidentemente, não vou dizer quem foi”, explica a fadista.
Com o Almada, de quem canta ‘Rondel do Alentejo’, o caso é diferente. Sem problemas, Amália confessa que “nem sequer sabia que ele era poeta”. “Eu conhecia-o só como pintor. Como não fui educada culturalmente, não sabia que ele também fazia poesia. Só mais tarde é que o Alain [Oulman] me apresentou à poesia em geral e ao Almada”. Amália é assim: não se importa de confessar uma certa ignorância, uma falta de cultura apenas aparente. Mas a cultura não se aprende só nos bancos da escola.
Depois de dar a sua visão pessoalíssima do fado – em sua opinião relacionada com o isolamento de Portugal, que “de um lado tinha as espadas dos espanhóis e do outro o mar” – e de nos falar do seu imenso amor pelas flores, Amália confessa o seu medo de algum dia deixar mal Portugal ao não ser capaz de cantar num palco estrangeiro.
Os seus projetos futuros são a homenagem a Camões e a gravação de um disco com poemas de Cecília Meireles musicados por Alain Oulman. Não se alonga no assunto porque lhe é difícil falar sobre esse amigo que morreu recentemente. Será a sua derradeira homenagem a um homem que lhe desbravou novos caminhos no fado.
Já depois de o botão ‘stop’ do gravador ter sido premido, Amália mostra-nos os quadros e fotografias que tem na sala para que possamos entender o que ela quer dizer quando fala em melancolia e tristeza. Um dos quadros da sala retrata-a aos 24 anos. “Como vê, aqueles olhos são os da cara, mas o olhar, esse, é o da alma. Tenho olhos de fado”.
Despedimo-nos. Obrigado. E, descendo as escadas de pedra que levam à rua, pensamos na sua última frase: “Tenho olhos de fado”. Para falar a verdade, achamos que Amália é a personificação do fado. Mas isso é outra história.
Publicado originalmente na edição de 19 de novembro de 1990 do jornal "A Capital"