terça-feira, 11 de junho de 2019

livres e radicais _rúben de carvalho

Rúben de Carvalho (1944-2019)

Neste mar onde ardem as horas
e os dias se tornam ausentes
há amigos antigos
dos quais não posso falar.
Só o silêncio no seu lugar.
Lembro-os num tempo nosso
a cercar o Futuro.
lmc

hoje morreu Rúben de Carvalho.


..............................................................................................................................................................

"Olá Ruben. Como é a minha vida hoje?...



Pedro Tadeu
11 Junho 2019 — 14:47 h

Milhares de vezes, quando aquele número aparecia no mostrador do meu telemóvel, soava no auscultador a voz do Ruben de Carvalho: "Olá Pedro, estás bom?... Olha lá, como é a tua vida hoje?".

Por causa dos telefonemas do Ruben, desde que o conheci, em 1983, a minha vida profissional incluiu o jornal "Avante!", a Festa do "Avante!", a Telefonia de Lisboa, o Lisboa 94, e lembro-me lá agora de tantas outras coisas que fiz com ele, de tantas outras coisas que fiz para ele, de tantas outras coisas que fiz por causa dele. Ruben de Carvalho foi meu chefe.

Por causa dos telefonemas do Ruben, tive milhares de horas de conversa, milhares de jantares, milhares de discussões sobre política, história, sociologia, arte, música, relações humanas. Ruben de Carvalho foi meu mestre.

Por causa dos telefonemas do Ruben fui obrigado a estudar livros que ignorava, a ouvir discos que subestimava, a saber duvidar de certezas absolutas, a procurar questionar as minhas convicções para encontrar boas respostas sobre novos problemas, a recusar dogmas e lugares-comuns mas, ao mesmo tempo, a respeitar os milhares de anos de saber acumulado pela humanidade. Ruben de Carvalho ensinou-me a pensar.

Por causa dos telefonemas do Ruben conheci de perto dezenas de pessoas extraordinárias: a incrível companheira dele, a jurista Madalena Santos (que, aliás, nos apresentou); a Ivone Dias Lourenço; o grafista e desenhador José Araújo; o músico, musicólogo e realizador de TV e rádio, Manuel Jorge Veloso; os jornalistas João Chasqueira, Anabela Fino, Carlos Nabais, Domingos Mealha, Henrique Custódio e Leandro Martins; a Noémia; o apresentador Cândido Mota, o locutor Mário Dias...

Ruben de Carvalho foi ponto central e completou a circunferência do meu círculo de relações pessoais. Ruben de Carvalho foi meu amigo.

Contactei com importantes dirigentes comunistas que me impressionaram: António Dias Lourenço, Carlos Brito, Domingos Abrantes, Carlos Carvalhas e, claro, Álvaro Cunhal. Ruben de Carvalho foi meu camarada.

A biografia do Ruben é impressionante.

Foi militante comunista, logo durante a ditadura fascista, antes do 25 de abril; conspirou e lutou contra o regime.

Esteve nos movimentos unitários, da candidatura presidencial de Humberto Delgado às candidaturas eleitorais da CDE; esteve no apoio ao aparelho clandestino do PCP.

Foi preso político seis vezes.

Foi um jovem jornalista que chegou precocemente a subchefe de redação de um grande jornal diário, o "Século".

Fez a guerra colonial em Angola como enfermeiro, decidindo não dar "o salto" para o estrangeiro, mas encontrando uma forma de estar no exército português que não violentasse a sua solidariedade com os movimentos de libertação.

Fez a revista "Vida Mundial", que abriu uma janela de luz na informação opaca da época.

Foi chefe de gabinete de um ministro no primeiro governo da democracia.

Fez a primeira redação legal do "Avante!". Até construiu mobiliário, pois adorava o trabalho manual - não era acaso o brinquedo preferido em criança ter sido o das construções em Meccano.

Esteve no centro da criação da "Carvalhesa", o hino sem letra que tantos trauteiam nas campanhas eleitorais da CDU.

Fez, desde 1976 até hoje, a organização dos espetáculos da Festa do "Avante!".

Fez uma rádio local chamada Telefonia de Lisboa que o cavaquismo, assustado, fechou ilegalmente, como o tribunal administrativo veio a confirmar numa sentença tardia sobre um concurso para novas frequências de rádios.

Fez parte do comissariado do Lisboa 94, Capital Europeia da Cultura - e isso fez dele, contava com ironia, um dos comendadores da nação, com direito a medalha e tudo.

Fez trabalho parlamentar como deputado eleito por Setúbal.

Foi um vereador empenhado na câmara de Lisboa.

Escreveu, publicou e ajudou a editar várias obras de referência sobre o fado. Lutou muito contra a ideia de que o fado era uma música "salazarenta", como alguma esquerda, mais tonta, logo a seguir à Revolução dos Cravos, crismara o género popular.

Esteve sempre no centro do debate político; publicou milhares de artigos de jornal na "A Capital", "Diário de Notícias", "Público", "Expresso", "Sábado", "24horas", entre outros.

Foi comentador regular na SIC e na RTP.

Fez dois programas na Antena 1 que se tornaram referência na rádio portuguesa e demonstram publicamente a sua personalidade culta, pluralista e tolerante: com Iolanda Ferreira o "Crónicas da Idade Mídia"; com Rui Pego e Jaime Nogueira Pinto, o "Radicais Livres".

Fazer, construir, deixar obra feita num contexto de trabalho coletivo - este era o seu projeto pessoal.

É nesse sentido que deveríamos entender o seu maior legado: o da Festa do "Avante!".

A própria ideia inicial da organização da Festa, inspirada em festas similares de partidos comunistas, como o italiano e o francês, tinha como pressuposto o envolvimento coletivo de milhares de militantes comunistas na organização de um projeto político e cultural que demonstrasse, numa pequena cidade improvisada, o modelo de sociedade igualitária que o PCP defende. A Festa não é, portanto, obra de um indivíduo, é obra de um coletivo.

Com o engenheiro Fernando Vicente e o artista plástico Rogério Ribeiro, o Ruben moldou a forma técnica e estética inicial que milhares de camaradas seus desenvolveram, fizeram evoluir e construíram em vários terrenos e espaços, desde os pavilhões da antiga FIL, na rua da Junqueira, à atual Quinta da Atalaia, no Seixal.

A organização dos espetáculos, a sua tarefa central na Festa do "Avante!", suscitou-me há alguns anos estas palavras:

"Com ele aprendi ser sempre mais difícil decidir quem atua a meio da tarde do que escolher quem encerra a noite. Vi como era preciso ter coragem para dizer não a músicos ligados ao PCP, que caíam na tentação de querer transformar a festa de todos numa coutada exclusiva.

"Aprendi como se fabricam as grandes ideias e as dezenas de horas de discussão redonda, esgotantes, que é preciso ter para lá chegar. Vi como surgiram os filões das músicas brasileiras, folk ou africana, sempre um pouco à frente das modas em que elas depois se transformaram, e registei como aconteceu a que agora é marca definitiva do evento: o grande concerto de música clássica.

"Na Festa do Avante! ensinaram-me, como a muitos outros, o essencial do que me transformou num profissional bem-sucedido: é preciso entender o quadro geral de um problema e dar importância aos detalhes que fazem a diferença".

A Festa do "Avante!" é também relevante porque criou uma indústria: foi lá que se formou a primeira geração de técnicos e de produtores que tornaram os concertos e festivais de verão uma banalidade, que antes não existia em Portugal.

O Ruben foi sempre um intelectual ao serviço da classe operária. Era um génio que não acreditava nos golpes de génio, que acreditava cegamente no trabalho de equipa.

Há uma dezena de anos estivemos cerca de 20 minutos chateados.

Num fim de semana que passámos juntos, discutíamos as mudanças no mundo da comunicação que a internet trouxe. Às tantas fiz uma catilinária sobre a "burrice" da esquerda que deixava para a direita e para o PS o domínio ideológico dos "blogues" e das redes sociais. Ele, zangado (ui!, como era bravo...), espantava-se comigo: como é que eu, militante comunista, defendia a utilização de uma forma de comunicação que, pela sua natureza atomizada, promove o individualismo, o egocentrismo, a vaidade pessoal, o desprezo pelo outro? "Vamos mas é fazer bons sites coletivos, deixa lá isso dos blogues e dos Facebooks que isso é para quem tem a mania de ser vedeta..."

Ruben de Carvalho era um intelectual ao serviço da classe operária. Um revolucionário. Foi essa a missão que cumpriu na vida.

Olho para o telefone, depois de receber a notícia da morte do Ruben de Carvalho, o homem mais impressionante que conheci.

Não evito a comoção e pergunto-me: sem Ruben, como é a minha vida hoje?...

Um grande beijo, Madalena."

in: Jornal "Diario de Noticias"

segunda-feira, 10 de junho de 2019

Entardecer Moçambicano_ José Mathias Ferreira Júnior


Entardecer Moçambicano

No quintal vedado, por finos bambus
na lângoa colhidos;
Mulata galante se estira dengosa
ouvindo à distância, rolinha chorosa
soltar seus gemidos.

Uns passos adiante, em longas cadeiras
de lona, encostados;
Vivazes Mucunhas alargam uma roda
e os copos levantam, de whisky com soda,
aos lábios crestados.

Na areia inda quente do sol a morrer
p’ra lá dos coqueiros;
Airosas galinhas uns grãos depenicam
e alisam as penas, as patas esticam
mirando os poleiros.

Nas olas esguias das altas palmeiras
que a aragem meneia;
Seu canto suave, dolente magoado,
um lindo, plumoso, assaz delicado
chirico gorgeia.

Ao longe, na estrada que a chuva esbarronda
em meses de estio;
Um ai! de fadiga a custo sustido,
ao som do apito, o labor vencido,
desprende o gentio.

A tarde esmorece; e ri a mulata
na esteira deitada.
A vida não cansa, não pesa é melosa
Pra linda mulata, sabida, manhosa,
do branco amparada.

A tarde esmorece; o branco dedilha
gemente guitarra.
Em roda descantam amigos as trovas,
Mas todas amargas e não descuidosas
como as da cigarra.

Porquê? Porque cantam tristezas sem fim
sem conto, afinal?
É porque no peito só têm saudades
das vilas, dos campos, das mesmas cidades
do seu Portugal.

José Mathias Ferreira Júnior

[Antologias de Poesia da Casa dos Estudantes do Império - II Volume]
(in «Oriente»)

segunda-feira, 3 de junho de 2019

They Are Not Long - Ernest Dowson

They are not long, the weeping and the laughter,
Love and desire and hate;
I think they have no portion in us after
We pass the gate.

They are not long, the days of wine and roses,
Out of a misty dream
Our path emerges for a while, then closes
Within a dream.


Não duram muito
O choro e o riso
O amor, o desejo e o ódio
Creio que não fazem parte de nós
Depois de passarmos o portal
Não duram muito
Os dias de vinho e de rosas
De um sonho brumoso
O nosso caminho emerge por um bocado
E depois fecha-se
Dentro de um sonho.

[Em memória de Agustina Bessa-Luís, hoje falecida.
(15 de outubro de 1922 - 3 de junho de 2019)]


Notas: Poema lido e legendado em português, na série "Os Durrell", RTP 2, ep. 4, 02 Jun. 2019 | temporada 2.

Ernest Christopher Dowson (2 de agosto de 1867 – 23 de fevereiro de 1900) foi um poeta, romancista e contista inglês, frequentemente associado ao decadentismo. fonte Wikipédia

quarta-feira, 29 de maio de 2019

The National_ I am easy to find


"I Am Easy To Find" - A Film by Mike Mills / An Album by The National

Ana Luisa Amaral_Entrevista

"CULTURA
“Uma coisa é escrever poesia, outra coisa é fazer livros”

Autora premiada e traduzida em várias línguas, poeta, professora universitária, tradutora, nasceu em Lisboa em 1956, mas vive em Leça da Palmeira desde os 9 anos. Foi lá que nos recebeu. Numa sala onde não faltam livros e poemas inéditos, e onde fomos visitados amiúde pelas duas gatas da poeta e também pela cadela Mily, em homenagem à poeta Emily Dickonson sobre quem Ana Luísa fez doutoramento. Deixou de fumar e esteve mais de meio ano sem escrever. Acaba de ver o seu livro de poesia "What´s in a name" sair nos Estados Unidos da América pela editora New Directions



RAQUEL MARINHO

29.05.2019 às 9h00

NAVEGAÇÕES DOENTES

Tenho os sintomas todos:
navegam-me fluidos
e o devaneio em barcos de desejo

Os sons de trovoada
mesmo tapando ouvidos:
esclerótica paixão que não domino

Tenho os sintomas todos
e assim me reconheço
acamada, incurável: na parede do fundo
navegantes os barcos


Agradeço-lhe antes de qualquer coisa receber-nos em sua casa e apresentar-nos as gatas e esta cadela, que tem um nome para homenagear outra poeta.
Sim, Mily Dickinson. É uma homenagem, ao fim e ao cabo, à grande poeta Emily Dickinson. O problema é que ela de Milly Dickinson, como já reparou, tem muito pouco. A Emily Dickinson, daquilo que sabemos da vida dela, era uma pessoa bastante recatada, recolhida. Foi uma mulher que saiu de casa, para longe de casa, duas vezes em toda a vida. Aliás, a partir dos 30 anos, dos 33 mais ou menos, começa a vestir-se de branco e não sai do quarto até aos 50 e tal. Acho que ela morre com 53, 54, agora não me lembro muito bem, sou muito má com contas, portanto, praticamente não sei. É muito engraçado, ela vai de resto a uma consulta, porque tem problemas de visão e vai a uma consulta em Boston, e é consultada através de um tabique, portanto o médico não a vê. Ela diz-lhe o que é que sente, quais são os problemas, e o médico do outro lado faz-lhe o diagnóstico.

E essas reservas todas deviam-se a quê?
Não sabemos. Bom, acho que por um lado há todo um contexto social, cultural, histórico, digamos assim, que de alguma forma propicia este tipo de comportamento das mulheres, não é? Se pensar nas Bronte, nas irmãs Bronte, também não saíam de casa. Se pensar em Elisabeth Barrett Browning, ela estava enfiada em casa até conhecer por carta Robert Browning, que finalmente a raptou! Ele raptou-a literalmente de casa dos pais, com o consentimento dela, bem entendido. Fugiram os dois, casaram e pronto, a partir daí, Elisabeth Barrett Browning fez uma vida super pública, digamos. Mas os exemplos de mulheres do século XIX, de meados do século XIX, que do ponto de vista privado, digamos, têm um comportamento muito contido, muito reservado, são vários. A grande questão com Emily Dickinson é que ela adopta esse comportamento e leva-o até ao extremo. Como faz aliás com a sua poesia. Por exemplo, ela pega na prosódia do hino puritano, do hino religioso, que são 4 batimentos, 3 batimentos, 4,3, 4, 3, e depois, de vez em quando, distorce-o. Ou seja, ela sabe muito bem como fazer correctamente, se quiser. Aliás, há um poema muito engraçado em que ela diz “I cannot dance upon my toes// No man instructed me”, portanto “Eu não posso andar em pontas// Nenhum homem me ensinou”, mas é mentira porque ela sabe muito bem andar em pontas. Ou seja, ela sabe muito bem como regular o verso só que de vez em quando desregula-o.

Propositadamente.
Propositadamente, com certeza. No caso do hino puritano é adaptar a forma religiosa da altura, só que depois aquilo é tudo desconstruído, desmontado. Por isso acho que o processo usado em Emily Dickinson não é tanto a transgressão, mas é mais a subversão. Porque são processos diferentes. Um polícia não me diz assim: “a senhora cometeu uma subversão”, diz-me: “a senhora cometeu uma transgressão”. Porque a transgressão é um rompimento das normas às claras, de uma forma aberta, ao passo que a subversão é construir sob, debaixo, não é?, uma versão subterrânea. Então, e isto é a minha opinião, no caso da subversão em vez da explosão temos a implosão, implode por dentro.

E a Ana Luísa acha isso mais interessante?
Muito mais interessante, é claro.

Porque não é declarado.
Há uma carta muito interessante que cito muitas vezes em que ela diz: “o meu ofício é a circunferência”. Acho que isto define muito bem a poética de Emily Dickinson, porque a circunferência não tem centro, contrariamente ao círculo, a circunferência é a linha só e é uma linha que simultaneamente fecha e abre. É a fronteira. E a poesia de Dickinson é constantemente feita numa fronteira, num estar entre, in between.

Fala dela com conhecimento, mas também com uma enorme paixão.
Sim, tenho as minhas grandes paixões: Emily Dickinson, William Blake, William Shakespeare. Peço desculpa por ir tão para trás, porque realmente estes são os grandes para mim. Shakespeare tem tudo. É um poeta antes de mais nada, porque muitas das suas peças são escritas também em verso iâmbico. Não só os sonetos, estou a falar também das peças, e em Shakespeare encontra tudo. A natureza humana está toda lá. Desde o ciúme, o amor, a raiva, a morte, a dissimulação, o poder, o desejo de poder, como o poder corrompe. Por exemplo, estudos sobre a corrupção que o poder provoca, etc. Depois o Blake. Ele falou do seu tempo, finais do século XVIII e início do XIX, mas isto também retrata o nosso tempo. Não conheço nenhum outro poeta que tenha falado do horror, da tragédia que é a desigualdade tremenda entre as pessoas como ele: “Some are born to sweet delight// Some are born do endless night”, “Alguns nascem para doces delícias// Alguns nascem para a noite sem fim.” “Noite sem fim” é uma coisa extraordinária. E é verdade, algumas pessoas nascem para a noite sem fim. Estou a pensar nos refugiados, por exemplo, alguns do continente africano, que nós sabemos que vão nascer para a noite sem fim, e outras que nascem para as doces delícias. E depois Dickinson, com certeza. E depois, claro, os mais recentes: Camões, Sá de Miranda, Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, adoro Mário de Sá-Carneiro, acho-o um grande, um enorme poeta e não está ainda devidamente... agora as pessoas estão a começar a interessar-se pela poesia dele, mas acho que a grandeza do Pessoa o ofuscou.

Saiu há pouco tempo um livro seu nos Estados Unidos, editado pela New Directions. Este livro, “What`s in a name”, já teve algumas referências. Está contente?
Estou, estou. Tem tido belas recensões, belas críticas.

The New York Times..
Também, sim sim. Poetry Review of Books, sei lá, a Paris Review. Olhe, pronto. Sim, tem tido boas referências.

Fica constrangida quando refiro isto.
Sim, um bocadinho.

Porquê?
Não sei, não sei.



Estava a falar-me há pouco dos seus deuses. Tivemos ocasião de conversar com um poeta que nos dizia que o trabalho dele é escrever contra, precisamente contra os deuses dele. No sentido de não fazer igual a eles porque quando se gosta muito de um poeta corre-se o risco de o copiar. O seu processo de escrita de poesia também tem alguma coisa a ver com isso ou não?
Não, rigorosamente nada. Ou seja, quando escrevo não penso como é que tenho que escrever. Escrevo e acabou-se. Escrevo;porque preciso. Sempre escrevi desde que me conheço e escrevo porque necessito de escrever. Posso dar-lhe um exemplo: os momentos de maior tristeza, para além obviamente de perdas imensas que tive na vida, como o meu pai, o Paulo Eduardo de Carvalho, a minha tia, portanto, os momentos de maior tristeza que tive foram estes últimos meses em que deixei de fumar. Estive seguramente uns 7 meses sem conseguir escrever. Aliás, escrevia umas porcarias, pronto; não prestava para nada. Finalmente há coisa de um mês e meio comecei a escrever. Aquilo foi de repente, percebe? Ou seja, de facto isto é verdade: as sinapses têm de se refazer. Toda a minha vida girava em torno do cigarro: fumava porque estava triste, fumava porque estava contente, fumava porque estava a escrever, fumava porque não estava a escrever, fumava a ver televisão, fumava a conversar. Enfim, fumava em qualquer situação.

A inspiração ligada ao cigarro.
Sim, muito ligada ao cigarro. E para mim isso era absolutamente fundamental. Como lhe digo, quando deixei de fumar estive 7 meses sem escrever e foram meses de uma profunda tristeza, uma profunda tristeza.

Mas há tristezas que podem ser motores para escrever. Não foi o caso desta?
Não, mas acabei por conseguir escrever, agora escrevo. Acho até que estou a escrever de forma um bocadinho diferente, é uma coisa estranha.

Dizia que escreve porque precisa.
Porque preciso de escrever. Não sei viver sem escrever. Por isso dei este exemplo do cigarro, para ilustrar, porque para mim é absolutamente fundamental escrever. Tal como preciso de beber água ou como preciso de ler.

De resto tem aqui uma pilha de poemas inéditos que não publica. Ou seja, são a prova de que, de facto, escreve muito.
Depois ficam ali, pronto.

E ficam ali porquê?
Porque acho que não prestam. (risos) Não têm grande qualidade ou, também pode acontecer, por vezes não se integram no livro. Porque uma coisa é escrever poesia, outra coisa é fazer livros. Fazer um livro de poemas, para mim, pressupõe oferecer uma certa ordem aos poemas, digamos assim. É-me mais fácil escrever poemas do que fazer livros, devo dizer. Um livro para mim tem de ter uma coerência interna, e aí sim eu penso o que vou fazer com os poemas. Quando escrevo o poema não penso o que vou fazer. Não penso: agora tenho de tentar escrever contra ou a favor ou seja lá o que for deste ou daquele.

E escreve de uma vez? Como é que isso acontece?
Depende, depende. Às vezes escrevo um bocadinho e depois ... já me aconteceu, acontece-me várias vezes até, escrever três ou quatro versos, três ou quatro estrofes, e depois ter que sair, interromper e não poder continuar. E depois repego, retomo o poema.

Mas antes de se sentar e escrever, o poema já anda consigo, digamos assim?
Muitas vezes sim.

Portanto, não é uma coisa repentina? Ou pode ser?
Pode ser. Também pode ser uma coisa repentina.

Pode-se escrever sem ler?
Não. Concordo com a ideia de que toda a literatura acaba por ser uma reescrita do que se escreveu antes. Agora, ela tem que ter uma voz nova sempre. E o que é maravilhoso é isso. É possível fazer vozes novas ainda, mesmo com tantos séculos de literatura. Porque as combinações que se fazem com as palavras são infinitas, também. Repare, nós temos esta coisa que é extraordinária: o nosso alfabeto é o mesmo, e as palavras a mesma coisa. As palavras que uso para conversar consigo são as mesmas que uso para escrever um poema. Agora, quando escrevo um poema obviamente é a forma como combino as palavras e isso não sei explicar. É claro que eu queria ter uma voz diferente, mas quando estou no processo de escrita do poema não tento exercitar nenhuma voz diferente. Escrevo somente.

E essas vozes novas de que fala continuam a existir apesar de os temas na poesia e na literatura em geral serem recorrentes. Os temas serão sempre o mesmos?
We are pretty much the same (risos) Repare, Lear, o Rei Lear, tem uma coisa maravilhosa: naquela altura em que as filhas lhe tiram tudo, em que ele está no meio da charneca nu, louco, pergunta: "is man no more than this?" Será que o homem não é mais do que isto? E depois diz: "dispam-nos de tudo, das roupas, da cultura, de tudo o resto, e nós não passamos de seres acossados." E é verdade. Acossados, e portanto, passíveis de sermos agressivos, de matarmos para ter um bocado de pão. Todavia no meio disto aparecem sempre algumas excepções que redimem o que pode ser essa...

Condição...
Essa condição humana, justamente. Portanto, retire tudo, a capa da cultura, essas capas todas e é muito complicado. Nós somos, infelizmente, aquilo que éramos aqui há uns séculos atrás. Enquanto assim formos, o amor, o ódio, a tristeza, o ciúme, tudo isso continuará a ser-nos comum. Por isso é que continuamos a comover-nos. Às vezes vou no comboio e uma criança pequenina começa a rir-se à gargalhada. Repare nas expressões das pessoas em volta. Rarísssimamente ficam indiferentes. As pessoas sorriem, é muito engraçado. Há um ou outro que não sorriem, mas 90% sorriem. Ou, por exemplo, uma criança começa a gritar desalmadamente. As pessoas ficam incomodadíssimas. Ou seja, de facto nós somos muito parecidos uns com os outros.

Isso leva-nos para uma outra condição sua que é a questão do feminismo. Parece-lhe que continua a fazer sentido, hoje?
Claro. Então com estes números que temos tido da violência doméstica, já viu? Quantas mulheres morreram desde o início do ano? Morreram! Mortas por violência doméstica. Acho que está tudo ligado. Enquanto o sistema não mudar, este sistema patriarcal... Não sou contra os homens, de forma alguma. O feminismo não é contra os homens, e é importante que isto seja dito desta maneira. Para mim o feminismo é uma questão de direitos humanos, só. Resume-se a isto: direitos humanos.

E portanto há um longo caminho a fazer.
Há um longo caminho a fazer. Nós somos todos feitos da mesma matéria com que, de resto, são feitas também as estrelas. É a mesma coisa. Portanto, a pele é igual. Todos nós temos pele, todos nós temos corpo, todos nós precisamos, como mamíferos, de sermos tocados. Portanto, se se afastavam os homens, por exemplo, da educação das crianças e era uma tarefa só das mulheres, o homem coitado, o desgraçado, trabalhava fora e ganhava dinheiro para sustentar a família, o que era horrível também. Se ele perdia o emprego era uma responsabilidade tremenda. Portanto, isso era uma perda para os homens. O que acontece é que o nosso sistema, que é patriarcal, de alguma forma tentou mostrar, ou provar, até por teorias, a dominação masculina. Por isso é que falamos no falocêntrico, centrado no falo, tentando provar que os homens dominam e as mulheres se submetem. A partir do momento em que os vários feminismos põem isto em causa, o que acontece é que há reacções, e os homens reagem, pois claro. Os homens que foram educados na ideia de que dominam, sentem-se ameaçados. É normal que se sintam ameaçados. Agora, isto não é ameaça nenhuma, pelo contrário. Isto só representa uma melhor forma de vivermos todos juntos.

Acha que ainda sentem essa ameaça?
Então não sentem? Acho que esta questão da violência doméstica tem a ver com isso.

Temos de terminar, mas não queria deixar de lhe dizer que gosto muito dessa ideia de sermos feitos da mesma matéria que as estrelas.
Então não somos?! Há um belíssimo documentário, aliás, não é um documentário, é um poema em filme, que é do Patricio Guzmán, aquele cineasta chileno, que se chama "Nostalgia de la luz" que é lindíssimo. A determinado momento diz-se mais ou menos isto que eu estou a dizer, mas de uma forma mais científica: uma pessoa ligada à química explica que o cálcio que existe nos nossos ossos é o cálcio que existe nas estrelas, é o cálcio que existe no universo. O mesmo cálcio - é extraordinário. Portanto, esta cisão que temos vindo a provocar entre nós e a natureza está a virar-se contra nós. Quero dizer, este tempo desgraçado, as mudanças climáticas, tudo isto está a virar-se contra nós. Quando tudo devia estar, de alguma forma, em harmonia.

É preciso voltar a ouvir a natureza, não é?
É preciso voltar ouvir as coisas, a música das estrelas, pois claro.

- A poesia serve para quê?
A poesia de facto não serve para nada, não tem uma aplicação prática. Com a poesia não se faz uma mesa, não se constrói uma casa. Mas ela é absolutamente fundamental, porque, como toda a arte, assiste-lhe não o pragmatismo, mas o simbólico, e nós, humanos, precisamos do simbólico, que passa sempre pela nossa relação com os outros. Precisamos dele como precisamos de comer ou de dormir. Porque é sua a dimensão estética, mesmo quando fala do horror ou da crueldade. A poesia, tal como eu a concebo, faz-nos, acredito, melhores pessoas, porque nos move (podendo fazer-nos agir) – e nos comove.

- Deve saber vários versos de cor. Qual o primeiro que lhe vem à cabeça?
Dois: “Eu cantarei de amor tão docemente”, de Camões, e “Farei um verso de puro nada”, de Guilherme d’Aquitânia.

- Se não fosse poeta portuguesa (ou de outro país) seria de que nacionalidade?
Talvez italiana, porque a língua italiana é, para mim, a língua mais bela que conheço – depois da minha.

- Um bom poema é?
Desculpe citar algo que não é meu, mas de Emily Dickinson: “Se leio um livro, e ele torna o meu corpo tão frio que fogo nenhum o pode aquecer, sei que isso é poesia”. Substitua-se “livro” por “poema” e isso é para mim um bom poema: o que se sente no corpo e fala à cabeça e ao coração.

- O que a comove?
A bondade. Alguma poesia. Ou pensar que somos feitos da mesma matéria de que são feitas as estrelas.

- Que poema enviaria ao primeiro-ministro português?
“Carta a meus filhos, sobre os fuzilamentos de Goya”, de Jorge de Sena.

- Por sua vontade, o que ficaria escrito no seu epitáfio?
Deixa uma filha maravilhosa, amigos e poemas. Leva saudades."

in: Jornal "Expresso"

segunda-feira, 27 de maio de 2019

Eucanaã Ferraz_Entrevista



Bruno Horta
26 Maio 2019


"Considerado um dos maiores poetas da atualidade, o brasileiro Eucanaã Ferraz tem novo livro. Em entrevista ao Observador, fala da força da poesia, da política no Brasil e da influência de Cesariny.


Pediu uma limonada, recostou-se no sofá e por mais de uma hora, num café do Príncipe Real, dissertou sobre o lugar da poesia num tempo marcado pelas redes sociais da internet e uma polarização política sem precedentes no Brasil. De visita a Lisboa para apresentação de “Retratos com Erro”, a sua nova coletânea de poemas, Eucanaã Ferraz afirmou-se um autor ambicioso, porque escrever poesia é um jogo em que a aposta está muito alta.


O livro tem chancela da Tinta da China e há poucas semanas foi também editado do outro lado do Atlântico. É um conjunto de 66 poemas marcados por “assombrações, assombros, monstros e monstruosidades vulgares”, na descrição de badana assinada por Pedro Mexia, coordenador da coleção de poesia da editora portuguesa. Foi ele um dos intervenientes na apresentação a 19 de maio na Livraria da Travessa, no Príncipe Real, inaugurada nesse mesmo dia (é uma reconhecida livraria brasileira, com casa-mãe em Ipanema, Rio de Janeiro). Além de Pedro Mexia, falou a professora e escritora Rosa Maria Martelo e a leitura de poemas ficou a cargo da cantora


Figura intelectual de trato amigável, com discurso pronto quando o tema é literatura, mas cauteloso quando aborda temas políticos, Eucanaã Ferraz é um carioca de 58 anos, professor de literatura brasileira na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro e consultor do Instituto Moreira Salles, referência cultural brasileira. Tem oito livros publicados.



“Retratos com Erro”, de Eucanaã Ferraz (Tinta da China)


É muitas vezes descrito como um dos maiores poetas contemporâneos da língua portuguesa. Que pensa desta classificação?Fico surpreso, parece que estão a falar de outra pessoaIsso é modéstia?Não. Há muita gente a escrever em língua portuguesa, no Brasil, em Portugal, em países africanos, não só poesia, também prosa e ficção. Quando me descrevem dessa maneira, é um pouco constrangedor, parece um certo exagero.


Como é que avalia o seu trabalho?É difícil dizer. Também tenho atividade como professor e crítico, o que necessariamente exige distanciamento. Ao falar do meu trabalho, não posso falar como crítico, falarei de dentro e não me sinto à vontade. Não tenho distância para olhar o que faço e dizer como me encaixo na produção contemporânea. Faço uma poesia que é importante para mim, é uma coisa que levo muito a sério, é a minha vida que é posta nisto. Tenho necessidade de dizer o que digo e como digo. Estou muito atento ao que se produz em língua portuguesa em termos de poesia, que é o que me interessa, e são bastantes coisas. É também aquilo de que me ocupo na universidade, exclusivamente poesia. Tento acompanhar a poesia que se faz hoje, tento não perder de vista autores que já conhecia ou conhecia mal e preciso de conhecer melhor.


Por exemplo?Mário Cesariny, um poeta de que sempre gostei. Até há pouco tempo, nunca tinha parado para o ler com muita atenção. O meu novo livro tem uma presença de Cesariny.


Ele está num poema em particular ou por todo o livro?Há um poema: “Desgraça”. Sei que fui diretamente ao Cesariny. [Pega no livro e recita]. “Vim ao mundo para escrever sobre o rapaz / que se apaixonou pelo detector de fumaça no quarto do hotel. // Ele vai cruzar no corredor com a rapariga / que se apaixonou pelo aparelho de ar condicionado…” Acho que jamais teria escrito isto se não tivesse lido Cesariny de uma certa maneira, e essa certa maneira não se define, não se escolhe, não sei quando vai acontecer, não é premeditado. Posso ler um mesmo autor muitas vezes, até com admiração ou encantamento, sem que ele chegue a transformar-se em alguma coisa minha.


Sendo assim, como é que escreve, como é que chega ao poema?Diria que entre os poetas não há grandes diferenças nesse aspeto. Os prosadores têm método, disciplina. Os ficcionistas precisam, de uma maneira geral, de trabalhar um certo número de horas por dia, num mesmo horário: acordam de manhã, tomam o pequeno-almoço, depois escrevem até ao almoço, depois retomam… Têm uma rotina. Há ali uma tessitura que exige uma aplicação, se não, perdem o fio. Estão a construir histórias, a engendrar emoções específicas e personagens que respondem ao mundo com um determinado espírito. O ficcionista não pode abandonar isso. A poesia não é assim. A poesia lida com eventos, instantâneos, muito embora esses instantâneos possam, para se chegar à forma final do poema, levar muito tempo. Pode ser uma semana, um mês, muitos anos, pode ser mais de uma década. Mas o instante inaugural permanece. É como se estivesse à procura. Quando estou a escrever um poema, estou a escrever o poema que ainda não sei qual é. E a permanente escrita do poema é que me leva até ele.


"Já aconteceu estar a escrever durante noites e noites seguidas e numa delas ficar até às três da manhã a mexer no poema, quando no outro dia tenho de acordar às sete para dar aulas. Porquê aquela urgência? Porque é uma urgência."


Escreve no papel?Sempre. Gosto de cadernos e lápis, estão sempre comigo. Quando o poema já está muito desenvolvido, já tem muitos rabiscos e nem eu próprio já estou a entender, passo para o computador. Depois, imprimo várias vezes e trabalho sempre no papel. Preciso do papel. Acho o computador excessivamente facilitador para poetas. Para jornalistas, então, pode ser desastroso.


Porquê?Porque é muito fácil. A escrita flui demasiado depressa e o jornalista pode dizer demais ou dizer mal. O computador é um facilitador e penso que o trabalho intelectual deve saber lidar com a dificuldade.


A rapidez sempre foi exigida aos jornalistas e hoje ainda mais, com as notícias na internet.Sem dúvida, mas aí o jornalista compromete a qualidade do seu trabalho e do próprio jornal. Quantas vezes não vejo em textos jornalísticos duas expressões sinónimas, uma colada à outra. Claramente, o jornalista escreveu as duas e esqueceu-se de apagar uma. O computador faz perder a relação mais física, diria até erótica, com o texto, com o papel, com o lápis.


Portanto, não tem horários para escrever.Já aconteceu estar a escrever durante noites e noites seguidas e numa delas ficar até às três da manhã a mexer no poema, quando no outro dia tenho de acordar às sete para dar aulas. Não faz sentido nenhum estar até às três da manhã, porque o poema não será publicado no dia seguinte nem sequer no mês seguinte. Porquê aquela urgência? Porque é uma urgência.


É um jogo?É um jogo. É como se neste jogo a aposta fosse muito alta. No início perguntou sobre como vejo o meu trabalho. Diria que é uma aposta alta. A poesia tem de ser relevante, há poesia a mais no mundo para que se escreva apenas mais um poema, ele tem de se justificar. É difícil, porque o poema é um objeto sem nenhuma utilidade imediata. Um medicamento ou uma tecnologia, sabemos imediatamente se são úteis, conforme o número de pessoas que alcançam ou as melhorias de vida que proporcionam. Um poema não mudará a vida de ninguém, que se saiba. Pelo menos, não diretamente. A ação do poema é indireta, oblíqua, impalpável. A ação é alguém ler e momentaneamente ser deslocado, o poema desloca a alma, alguma coisa se move na pessoa.


É esse o seu objetivo?É, por isso digo que a aposta é alta. O poema tem de ser capaz de fazer essa deslocação. É preciso mover alguma coisa, o mundo não pode ser mais o mesmo depois de o poema ter sido escrito. A ambição é muito alta. Muito alta.


Podemos então dizer que se considera um autor ambicioso.Ah, sim, isso sim.


Para ficar na história?Não, não estou preocupado com isso. Aquilo a que chamamos história leva muito tempo. Quantos autores muito celebrados numa época foram inteiramente esquecidos pouco tempo depois? Aquilo a que chamamos história é uma coisa enganosa. Fernando Pessoa, sim, está na história, venceu a história, é uma permanência, mas a história está sempre em andamento.



Eucanaã com Adriana Calcanhotto em 2016


Cesariny dizia que se considerava um grande poeta porque vivia numa época de teto baixo.O raciocínio estará correto, mas a avaliação não. A poesia portuguesa do século XX é esplêndida, até muito melhor que a poesia portuguesa do século XIX. Cesariny foi um excelente poeta do século XX, estando entre os melhores poetas de Portugal de todos os tempos.


No Brasil, como foi o século XX na poesia?Tivemos Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Vinicius de Moraes, Cecília Meireles, Mário de Andrade, Murilo Mendes… Foi também um século de ouro.


Que explicação encontra?Pode ter sido uma coincidência, mas as vanguardas europeias do início do século XX foram uma força renovadora muito importante, abriram muitas portas à poesia. O verso livre, a experimentação formal. Foi o século da velocidade, da multiplicidade, da liberdade. Foi um século que abriu muitas experiências e a poesia é feita de experiências, é a experiência mais radical da linguagem, nenhuma outra é tão radical.


Quer explicar melhor?A poesia vai diretamente à linguagem. Quando um poema diz alguma coisa, aquilo nunca foi dito antes.


Já a prosa pode repetir fórmulas, é isso?Se não procurar uma radicalidade, a prosa não será radical. A poesia é sempre radical, vai sempre buscar uma articulação nova da própria construção do pensamento. Na poesia não existe sujeito, verbo, objeto, esses elos estão ali para serem desrespeitados. Quando terminamos de ler um poema, não sabemos bem o que aconteceu, nem sabemos bem o que lemos. Grande parte do contacto com o poema não se dá racionalmente, nem pela via da compreensão, dá-se por uma espécie de simpatia ou antipatia. É sempre numa reação emotiva, física, é um acontecimento de ordem psíquica, porque o poema toca diretamente na linguagem, é uma proposta de renovação do pensamento e da perceção do mundo. Cada palavra vale pelo som. Num poema de Eugénio de Andrade ou de Sophia, cada palavra só poderia ser aquela, naquela posição em relação às outras. O poema tem a sofisticação formal de uma obra de arquitetura, é como um edifício, e ao mesmo tempo o que se projectou ali é uma coisa muito vaga, muito extrema, um estado de espírito, uma visão, um mundo. Cada poema é um mundo que começa e termina ali. Não pode ser contado de outro modo.


Como vê a poesia portuguesa e brasileira do século XXI. O que há de importante?Em Portugal, gosto muito de Golgona Anghel. Quando a li, fiquei surpreso e muito animado. Pensei: a poesia portuguesa continua a responder ao tempo. No Brasil, também temos hoje um número extraordinário de poetas. É surpreendente verificar que é um género literário ainda tão procurado.


Há a ideia contrária. Os livros de poesia vendem pouco.Como objeto de mercado, a poesia nunca foi grande coisa e continua a não ser. No entanto, há muita gente a fazer e a consumir. Há um público fiel, que se interessa, que procura, discute, briga, ama.


"Como o Brasil deu uma guinada para a extrema-direita nas última eleições, é quase inevitável que a esquerda, ou segmentos próximos do que se chama esquerda, respondam com a mesma rapidez e com a mesma violência. Mas a mesma violência não é o caminho certo."


A linguagem da internet, feita de fragmentos rápidos, ajudou ou prejudicou a poesia?Curiosamente, penso que a poesia contemporânea tem usado um outro dispositivo. Os novos poetas escrevem normalmente poemas longos. O poema curto parece interessar menos aos autores contemporâneos. Talvez seja precisamente uma reação à leitura rápida e instantânea da internet. O leitor da internet, que pede velocidade, não é o leitor de poesia. A poesia precisa de tempo, de ser lida e relida, porque entre um verso e outro acontecem muitas coisas. O leitor precisa de disposição existencial, de entrar na linguagem, de mobilizar tanta coisa em si.


Uma vez que estamos a falar da internet, e até porque a sua poesia tem sido descrita como concreta e ligada ao mundo real, o que pensa dos efeitos das redes sociais? Foi alvo de uma polémica recente, com críticas nas redes sociais por causa de uma conferência que organizou e da qual estariam ausentes autores negros. Porque é que hoje estas discussões se tornam calamidades na internet?Penso que a esquerda identitária está cada vez mais forte. Os Estudos Culturais tomaram conta das universidades, é um movimento forte nas universidades americanas e também chegou ao Brasil e à Europa. De facto, tentam responder a uma necessidade de visibilidade de produtores de arte e cultura que nunca foram atendidos, nunca foram introjetados nas universidades, na imprensa, no espaço público.


Parece desconfortável com esses discursos identitários.Não, mas penso que a coisa se fragmentou demais. Falamos da identidade de grupos e nem sempre dos pontos de contacto entre os diferentes grupos. Cada vez mais, por exemplo, as feministas têm encontrado também uma pulverização: só mulheres brancas ou só mulheres negras ou só mulheres negras lésbicas.


A tribalização é negativa?Parece negativa se pensarmos que existe algo em comum entre os grupos, que é o facto de terem sofrido algum tipo de problema social e cultural. Talvez fosse útil, num certo momento, que houvesse uma união em torno de uma identidade maior, mas há um desejo de atender às especificidades. De certo modo, acho que as redes sociais fomentam a diferença e, até onde observo, não vejo uma discussão aprofundada. É tudo muito rápido, as reações são muito rápidas, por vezes muito violentas. Onde deveria haver discussão e proposição, há uma resposta muitas vezes irrefletida.


No Brasil, em particular, essa lógica parece agora aliar-se a um mal-estar político e partidário. Concorda?Sem dúvida. Como o Brasil deu uma guinada para a extrema-direita nas última eleições, é quase inevitável que a esquerda, ou segmentos próximos do que se chama esquerda, respondam com a mesma rapidez e com a mesma violência. Mas a mesma violência não é o caminho certo. Os mesmos procedimentos, o mesmo espírito autoritário que a direita usa, é um erro. É preciso saber detetar quem são os inimigos e eles hoje são muito claros. Há um enfraquecimento quando se confunde quem é o inimigo.


E quem é?É a direita, são os governos de direita que querem acabar com vários avanços conquistados ao longo de muitos anos no Brasil.


A ideia de que há inimigos parece desde logo uma manifestação da violência com que não concorda.Mas é o que é. Hoje temos governos assim. Não é só a nível do governo federal, a própria prefeitura do Rio de Janeiro é de direita. Estes são os inimigos. São claros e são realmente inimigos.


Pode-se argumentar que foi a escolha dos eleitores, logo, são governos legítimos.Precisaríamos de fazer uma longa análise de como se deu o voto popular. A via democrática é a melhor, sempre, não tenho dúvida, mas é manipulável, tem falhas, e penso que o Brasil chegou a uma solução democrática muito ruim, muito oposta àquilo que o povo realmente deseja e de que necessita. Penso que este governo [do presidente Jair Bolsonaro] vai demonstrar isso, mesmo àqueles que lhe deram o voto.


Uma última pergunta: o Instituto Moreira Salles, com o qual colabora, vai ter um novo diretor, o português João Fernandes. Conhece-o? Tem boas expectativas?Conheci-o muito rapidamente num encontro no instituto, quando havia só um convite e ele ainda não tinha respondido. Sei que já aceitou e vai morar em São Paulo. A minha expectativa é a melhor, desde logo porque é um português. Acho que ele conhece um pouco do Brasil, conhece literatura e arte brasileira, conhece o trabalho do instituto e fará um bom trabalho."

in: Jornal "Observador"

domingo, 26 de maio de 2019

Silvia Perez Cruz_Gallo rojo, gallo negro

Quando o dia amanhece e a negra noite e' só uma vaga recordação, vem esta voz cantar-nos como se não houvesse amanhã. Como se o desencanto estampado, fosse trémula folha ao vento sujeita. E’ quando a traição vence e a palpitação dum coração valente se finda, que a coragem mais se admira. Não fora isso "outro galo cantaria". Ai, Ai. Que grandeza de voz e letra…

Hoje irei votar ainda com mais convicção…







Gallo rojo, gallo negro


(Chicho Sánchez Ferlosio)
Sílvia Pérez Cruz

Cuando canta el gallo negro
es que ya se acaba el día.
Si cantara el gallo rojo,
otro gallo cantaría

¡Ay! Si es que yo miento,
que el cantar de mi canto
lo borre el viento

¡Ay! Que desencanto,
si me borrara el viento
lo que yo canto.

Se encontraron en la arena
los dos gallos frente a frente.
El gallo negro era grande,
pero el rojo era valiente.

¡Ay! Si es que yo miento,
que el cantar de mi canto
lo borre el viento

Se miraron cara a cara
y atacó el negro primero.
El gallo rojo es valiente,
pero el negro es traicionero.

¡Ay! Si es que yo miento,
que el cantar de mi canto
lo borre el viento

Gallo negro, gallo negro,
gallo negro te lo advierto:
no se rinde un gallo rojo
más que cuando está ya muerto.

¡Ay! Si es que yo miento,
que el cantar de mi canto
lo borre el viento.

sexta-feira, 24 de maio de 2019

Mia Couto_Conto "O Meu Primeiro Pai"



MIA COUTO

O MEU PRIMEIRO PAI

24.05.2019 às 8h23

"O seu verdadeiro vício não era o álcool. O seu vício éramos nós que ele amava e que não sabia o que fazer com esse amor. Não sabia como dizer esse amor. Tinha medo de se entregar e de não regressar


Ilustração: Suza Monteiro

Todos os domingos, o meu pai anunciava que ia à missa. Nunca chegou a entrar na igreja. Pelo caminho, parava nos bares. Eram vários os bares e, mais ainda, as paragens que ele fazia. Encontrava as tabernas de olhos fechados como um devoto ante a cruz. A gente, dizia ele, começa a beber antes de ter boca. Ele bebia pelo cheiro. O nariz dos bêbedos ocupa o corpo todo. A sede do beber pode ser saciada. A do corpo não se resolve nunca.

Em cada taberna, o nosso pai ajoelhava-se e benzia-se de copo na mão, lentamente para não entornar a bebida. Perante um altar pejado de garrafas, misturava orações, impropérios e encomendas de mais aguardente.

Regressava a casa ao final da tarde. A nossa mãe espreitava, por detrás das cortinas. Quem me dera que faça calor, suspirava ela. Nos dias quentes, o marido entrava em casa já meio adormecido, sapatos na mão, os olhos à procura do olhar. Com o calor, a maldade saía-lhe
do corpo, diluída em suor. No geral, porém, a chegada dele era temida, prenúncio de uma guerra sem panos brancos. O pai surgia no topo da rua, a mãe alertava-nos: ele aí vem, vão para o quintal. E corria a recebê-lo como quem se apressa a entregar um carrasco.

Por detrás das moitas, adivinhávamos a sua ágil dança, escapando aos murros, chutos e pontapés. A arte de quem apanha, dizia a mãe, é evitar marcas nos lugares expostos do corpo. Regressávamos quando os gritos viravam choro. Depois, quando tudo era silêncio, com mil cuidados rodávamos a maçaneta da porta. O pai esperava-nos na cozinha. Ocupava esse aposento que ele, com antigo desdém, chamava “lugar das mulheres”. A cozinha ficava ainda mais pequena com ele ali sentado, cansado de ter corpo, as pernas longas não cabendo dentro da casa. Havia uma destilaria dentro do hálito dele.

Aguardávamos em silêncio, prontos para escutar o que ele nunca chegou a dizer. Os bêbedos têm medo das palavras. Magoam-se mais ainda com o silêncio, esse fundo de copo irremediavelmente vazio. A luz tornava mais branca a sua justíssima camisola interior. Temíamos a sua ferocidade, mas receávamos ainda mais tornarmo-nos parecidos com ele.

Sobre os joelhos o pai deitava os velhos sapatos, os únicos que tinha. As pontas dos dedos afagavam as solas e eram uma carícia que a ninguém nunca dedicou. Depois de um tempo, os dedos impregnados de poeira, ele anunciava: vão lá, vão lá ter com ela!

Corríamos a reconfortar a mãe que, no seu leito, escondia o corpo debaixo dos lençóis. Eu sacudia a almofada como se afastasse a areia em que ela me surgia sepultada.


– Durma, mãe.
– Não posso, meus filhos.
– Finja que dorme. Assim ele não a importuna mais. E sonhe, mãe.
– Ultimamente tenho-me esquecido tanto de sonhar.

Na manhã seguinte, a mãe falava no pátio com a vizinha: o meu primeiro marido não era assim. E eu estremecia com receio daquelas misteriosas palavras. A mãe sorriu quando lhe confessei esse medo: não houve nunca outro casamento, o seu companheiro tinha sido sempre este que a humilhava. Esse “primeiro” marido que ela inventava era, afinal, este nosso pai antes do desemprego e da bebida. E nós, órfãos, éramos filhos desse outro que se extinguiu dentro deste. Tantas vezes rezei para que esse outro, esse meu inventado pai, regressasse das brumas e tomasse posse do nosso castelo.

A nossa família só se tornou completa quando a nossa mãe ficou viúva. A solidão fê-la adoecer mais do que podíamos prever. Fomos visitá-la ao hospital. E lamentámos o quanto ela sofreu nas mãos do nosso pai. O meu irmão mais velho chegou a dizer algo terrível:

– Odiamo-lo tanto que o nosso maior receio é tornarmo-nos iguais a ele.
– Engano vosso, meus filhos – declarou a mãe. – O vosso pai nunca ergueu um dedo contra mim.
– Como pode protegê-lo depois de tantos anos de pancada?
– Alguma vez viram uma nódoa negra no meu corpo?
– E, então, os gritos, os choros?
– Eu gritava e chorava porque ele se agredia a si mesmo.
A raiva dele abatia-se apenas sobre ele, e isso, para a nossa mãe, era uma prova de amor tão verdadeira e sofrida que, em prantos e soluços, ela implorava que o homem dirigisse os golpes contra ela.
– O vosso pai só me tocou para me amar.

E o seu verdadeiro vício não era o álcool. O seu vício éramos nós que ele amava e que não sabia o que fazer com esse amor. Não sabia como dizer esse amor.

Tinha medo de se entregar e de não regressar. A bebida afastava-o dessa carência. Não era de sede, murmurou a mãe, que ele sofria. Morria, sim, de ciúmes de mim. Nunca houve outro homem e o vosso pai sabia. O que ele não me perdoava era eu estar mais viva do que ele.
Ainda hoje, na solidão da cozinha, passo lustro aos velhos sapatos que foram a minha herança paterna. E os meus dedos são os dele, os do meu primeiro pai, trémulos e receosos perante a Vida que é sempre dos outros."

in: revista "Visao"

Lídia Jorge_entrevista


"Lídia Jorge: "Os poetas não gostam que se diga que a poesia é mais fácil"


Inesperadamente, uma das mais importantes escritoras portuguesas fecha por momentos a torneira da ficção e reúne os poemas que considera incapaz de melhorar num livro.

João Céu e Silva
23 Maio 2019 — 18:28

Lídia Jorge
livro
Cultura


A poucos dias de começar a Feira do Livro de Lisboa, a escritora Lídia Jorge lança um novo livro... Só que O Livro das Tréguas pouco tem que ver com o que a autora já foi autografar neste evento numa longa carreira, afinal é obra poética. Bem assinalada na capa, para que o leitor não vá ao engano!

A primeira palavra do livro é "Antes" e as finais "de quem serei eu filha?", que bem poderiam ser espelho da ficção que se conhece assinada por si, contudo as milhares de palavras entre o princípio e o fim confirmam que a autora abriu definitivamente as portas ao género literário que lhe faltava publicar.

Mais, é um livro escrito por uma mulher e que fala de preferência para as leitoras. Basta ver o índice e confirmar que a maior parte dos "capítulos" têm que ver com situações femininas, às vezes até autobiográficas. A poeta não o nega: "Acontece sim." Explica: "Penso que as vozes da poesia que mais ecoam têm sido as das mulheres. Porquê? Não o sei dizer, mesmo que olhe para o trabalho de Seamus Heaney, Paul Valéry ou Rimbaud, aproximei-me muito mais da poesia escrita por mulheres e, principalmente, das portuguesas." Dá exemplos: "Faço um périplo e dizem-me muito a Sophia, a Luiza Neto Jorge, a Fiama Hasse Pais Brandão, de outra maneira a Maria Teresa Horta, e na atualidade a Ana Luísa Amaral. Isto para falar das jovens, por quem também fico deslumbrada em vários casos."

Pede-se para confirmar se existe nesta poesia agora exposta publicamente um contrato sentimental para com as mulheres. Sim, responde: "Mesmo que involuntário, é natural ter um contrato sentimental para com as mulheres, pela condição. Não é de vítimas, mas de auscultadoras de outras coisas. Dentro destas mulheres que referi, o que mais gosto na sua poesia é aquela em que se mostram triunfantes." Por isso gosta tanto de Sophia: "Ela não aparece vitimizada, mas sempre alguém que triunfa sobre a natureza, a ciência, a cultura, a história, o país ou a política. Nunca se lamenta que não pode, é a poeta que tem o poder e eu gosto disso. De outra maneira, a Fiama é também excecional nisso, ou a Luiza e a Ana Luísa. Atentas a outras cordas diferentes da harpa que as mulheres podem tocar porque historicamente estão noutra posição. No futuro, iremos aproximar-nos todos mais, mas creio que há uma natureza que nos distingue - cérebro e corpo - e nos fará sempre ser diferentes."

Depois de lermos o seu último romance, Estuário, em que o protagonista trabalhava sobre A Odisseia e A Ode Marítima, só poderia surgir um livro de poesia?
Não posso fazer essa ligação, porque ao longo da minha vida sempre fui escrevendo poesia. Portanto, estes poemas que reuni poderiam ter sido publicados há dois anos ou esperar dois anos para o serem. Não têm relação direta com o caminho que estou a fazer.

Para os leitores este livro será quase inesperado...
Penso que sim, porque as pessoas não estão à espera de que publique poesia, ainda que eu ache, e até porque muitos leitores me dizem que há páginas na ficção, em romances e contos, sobre as quais consideram "isto é poesia". Por vezes, gosto de introduzir, sobretudo nos pontos cimeiros da ficção, poemas como condensação do sentido mais forte do livro. Foi o que aconteceu em A Costa dos Murmúrios, tanto que muitas vezes as pessoas começam a falar desse livro a partir do poema que lá está. Que é parte do personagem, escrito ficcionalmente por ele, mas de minha autoria. Portanto, penso que os leitores mais atentos ao que escrevo não sentirão uma grande surpresa. Acho que se percebe que não só leio poesia como gosto e a escrevo permanentemente.

Já havia dois poemas que circulavam na internet, o "Assim a Casa Seja" e o "Cai a Chuva no Portal"...
Tenho publicado poemas em jornais e outros que se transformaram em letras para canções. Comecei a publicar poemas em jornais regionais deveria ter uns 15 anos, no entanto vem desde quase criança. Escrever poesia é para mim um ato pacífico, onde parece que ajusto as contas comigo e me confronto, e posso dizer que existe uma outra espécie de escrita ao lado daquela que até agora tenho publicado. Para mim, publicar este primeiro livro de poesia não é um acontecimento extraordinário, antes natural porque surge como alguma coisa que tinha mesmo de acontecer.

Entra num mundo que não é o seu e num país de muitos poetas!
Um país de muitos grandes poetas, é preciso dizê-lo, e quando confrontamos os nossos com os grandes do mundo percebemos que é assim. Simplesmente, eu não escrevo poesia para entrar em nenhum clube nem para dizer "cheguei!" ou que "também pertenço ao vosso grupo". Não. Considero que entre a ficção e a poesia há uma linha de continuidade, apesar de a poesia ter em relação à ficção uma densidade maior no sentido, na semântica e na linguagem. Enquanto na ficção a linguagem tem de se desdobrar em segmentos menos significativos porque a narrativa assim o manda, na poesia o sentido das palavras é mais denso. É por isso que gosto de ler poesia, como uma espécie de descanso entre a ficção e o ensaio. É uma espécie de intermezzo na vida, para dizer: isto aqui é-me fácil e não estou em competição com nada, é apenas um confronto com aquilo que sou capaz de expressar.

Quando diz que a poesia lhe é fácil pode entender-se que é mais fácil escrever um livro de poemas do que um romance?
De facto, é mais fácil. Os poetas não gostam que se diga que a poesia é mais fácil porque consideram, o que é verdade, que cada verso é uma iluminação. Ficam ofendidos porque passam muito tempo a burilar e acham que a ficção é uma espécie de poesia conspurcada, que se desenvolve de uma forma operária. Aquilo que me parece é que se eu quiser escrever poesia, independentemente de ser boa ou não, isso será mais fácil. Possivelmente não atingirei o grau de densidade do Saint-John Perse ou da Wislawa Szymborska, mas a verdade é que me surge com muita naturalidade e se me dedicasse à poesia escreveria muitos mais livros. Não sei que tipo de sucesso é que teria, quantos leitores, ou se seria considerada uma poeta importante. Contudo, luto mais para escrever ficção, onde tenho de ter sobre o tabuleiro vários dados, do que na poesia, que surge instantaneamente e depois se vai trabalhando em intervalos. Reescrever uma página não é o mesmo que o fazer em milhares de páginas. Como Céline dizia: de oito mil aproveitava 800. É um trabalho diferente e digo-o sem menosprezar qualquer tipo de atividade, até porque acho que são contíguas.

Com a poesia fecha o ciclo dos géneros literários: romance, conto, teatro, ensaio e crónicas. Faz o pleno?
Está tudo muito próximo e não vejo grande distinção porque até se vai notar que existe uma continuidade entre todos os meus textos. Os géneros não se opõem e quem gosta de escrever sente desejo de fazer experiências a várias vozes. Isto é um palco múltiplo onde ora fala mais um eu personalizado ora como se o meu eu sozinho não fosse capaz de cobrir as minhas interrogações. Então, espalho-me pelos personagens que, falando uns com os outros, encontram a resposta que só não consigo. A minha forma primitiva é sempre o "Era uma vez" e mesmo quando isso não está escrito na poesia é o que se passa.

Já criou sete dezenas de personagens em ficção. Neste livro só há uma: a poeta. Como reagirão os leitores?
Acho que bem e ninguém ficará a dizer "aqui está uma máscara do que ela escondia e agora revela!". Quem lê os meus livros repara que há muito de biográfico e neste caso questiona se sou eu a personagem, mas não sentirá esse choque porque há a continuidade, nem se sentirá num território estranho.

O poema "Autografia" é claramente autobiográfico?
Sim, é uma espécie de arte poética que tem a chave do que me faz escrever: a ideia de que enquanto pego numa história adio a morte de alguma coisa.

Tem um poema em que diz que tem a cabeça cheia de fábulas. Para desenvolver na poesia ou na ficção?
Ambas. Na poesia, se perceber que este livro não ofende as pessoas e tem um eco nos leitores; mas não deixarei de escrever ficção. Arrumei estes poemas dispersos, os que considerei que tinham chegado à forma final, ou que não sou capaz de melhorar, mas tenho muitos e continuo permanentemente a escrever. Ao mesmo tempo estou a pensar no romance, nas figuras que falam e numa história.

Está mais ansiosa perante a reação do leitor com este livro ou quando publica um romance?
Só estou ansiosa no momento em que termino, porque pergunto se terei feito tudo o que podia. Depois, fico calma porque o que poderia fazer fiz. Aí, aconteça o que acontecer, na vida ou na escrita, o amanhã virá por si e se não gostarem muito ou nada do livro só posso responder com o próximo. Eu privilegio mais um caminho do que uma carreira.

O Livro das Tréguas - Poesia
Lídia Jorge
Editora D. Quixote"

in: jornal "DN"

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Chico Buarque_Prémio Camões 2019


Uma "chapada" sem mão ao fascismo. Gostei! 




Chico Buarque - "Tua Cantiga" (Clipe Oficial)





Chico Buarque Show DVD Carreira -1



Chico Buarque (Carioca ao Vivo)


segunda-feira, 20 de maio de 2019

Álvaro de Campos_Poema em linha recta

POEMA EM LINHA RECTA

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 312.

sábado, 11 de maio de 2019

a foto e o texto do dia

Um destes dias Marat ressuscita
por Sérgio de Almeida Correia, em 11.05.19
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Apesar de estar muito longe, e de hoje em dia raramente escrever sobre o que se passa na política nacional, não posso deixar de dizer duas palavras sobre o indecoroso espectáculo a que me foi dado assistir pela televisão a propósito da visita de um tal de Joe Berardo a uma comissão parlamentar da Assembleia da República.

Confesso que não é fácil encontrar palavras que descrevam o que ali se passou, mas grotesco será o mínimo.

E tudo acontece na mesma semana em que as revistas Sábado e Visão mostraram aos portugueses como é possível a um conjunto de pseudo-empresários, pseudo-banqueiros, gestores incompetentes e devedores relapsos levarem vidas milionárias, depois de terem derretido milhões em negócios ruinosos à custa da banca nacional, pública e privada, não pagando a dívida que geraram e deixando os prejuízos para os outros.

No entanto, a avaliar pelas vidas que levam, todos se fizeram pagar pela criatividade da sua gestão, enquanto lhes foi possível, sendo certo que os prejuízos estão a ser, e continuarão, a ser pagos pelos zés-ninguém que sustentam a gula da máquina fiscal e dos bancos que temos.

A imagem de gozo de Berardo no Parlamento, onde se fez acompanhar por um advogado que fazia de ponto, e ao qual condescendentemente o presidente da Comissão deixou que fosse falando e segredando as respostas que o seu constituinte deveria dar, ultrapassou todos os limites.

Depois, o estilo sobranceiro do depoente, as interjeições que foi fazendo, a risada alarve, as respostas irónicas a questões sérias, denunciavam o chico-esperto que a democracia, o Estado de Direito e os nossos sistemas jurídico e judicial fomentaram em quarenta e cinco anos de liberdade com o aval do poder político e da elite dos banqueiros nacionais.


Com tudo o que ouvi, continuo sem saber o que foi verdade e o que é mentira, e também já não tenho esperança de algum dia vir a saber. Sei é que a dislexia não impediu o cavalheiro de sacar milhões, de continuar a fugir às notificações e de agora gozar com o pagode. Deputados incluídos.

Porém, houve algo que retive, para além do facto do cavalheiro não ter dívidas pessoais. O modo como depois de tudo o que aconteceu se permitiu dizer que tentou “ajudar” a banca nacional, mantendo nos dias que correm um padrão de vida incompatível com a escassez de bens que refere possuir, são um insulto a qualquer cidadão trabalhador e cumpridor das suas obrigações.

O presidente da "Comissão Parlamentar de Inquérito à Recapitalização da Caixa Geral de Depósitos e à Gestão do Banco" (só o nome diz tudo) e os senhores deputados podem não chegar a conclusão alguma. Ninguém estranhará depois da triste figura que fizeram e daquilo que nas suas barbas permitiram que acontecesse.

E até poderemos ter mais uma dúzia de comissões, na linha do que se passou com a avioneta que caiu em Camarate, por exemplo, para investigarem a CGD e as negociatas a que este banco se prestou, para que agora os seus depositantes estejam a pagar o ordenado dos senhores deputados e dos supervisores do Banco de Portugal e, ainda, os prémios que a CGD irá continuar a oferecer aos seus administradores pelas asneiras, a irresponsabilidade e a desfaçatez com que gerem o dinheiro dos outros e impõem comissões bancárias sem que quem governa coloque um travão aos sucessivos insultos.

Não obstante, há uma coisa de que todos temos já a certeza: a de que à sombra da liberdade, da democracia e do Estado de Direito, num país envelhecido e em acelerada regressão demográfica, um poder político estruturalmente mal formado e manipulado por partidos ainda mais sofríveis, promoveu o aparecimento e a reprodução de múltiplos Berardos. De muitos “Joe”. Na banca, nos partidos, nos sindicatos, nas empresas, nas escolas, no futebol, nas autarquias, nas forças armadas, nas universidades, em todo o lado e em todas as instituições. Como se tivéssemos sido invadidos por uma espécie de formiga branca semi-analfabeta, bem falante e bem vestida, alimentada pelos contribuintes e protegida pela classe política, pelos banqueiros e pelo Estado de Direito.

Pena é que em vez de terem alimentado a canalhada que nos roubou não tivessem andado a produzir mel para oferecer a ursos. Fizessem deles comendadores. Como fizeram a tantos outros ursos. Num Dez de Junho. Teria saído muito mais barato, ter-se-ia podido proteger a natureza e haveria a certeza de que depois de saciados, estes ursos, mesmo sendo comendadores, não iriam para o Parlamento arrotar o mel, rir-se na nossa cara e fugir calçada abaixo das notificações dos agentes de execução.

Enfim, o importante agora é garantir que o circo possa continuar. Em directo e a cores. Com os colaterais que o fisco se encarregará de periodicamente sacar a todos nós, indistintamente, residentes e emigrados. Sem um ui. Aos que conseguiram ficar e aos que foram empurrados para fora da sua zona de conforto. E que mesmo fora não escapam ao linchamento fiscal vitalício, continuando a cumprir. Até um dia.

in: https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/um-destes-dias-marat-ressuscita-10686419

segunda-feira, 6 de maio de 2019

Universo_Hubble



Nesta imagem estão mais de 13 mil milhões de anos da história do Universo


06.05.2019 às 8h00 h




HubbleSite

Parece uma simples noite estrelada, mas não é. Esta imagem é um mosaico de todo o Universo, composto pelos milhares de fotografias tiradas pelo telescópio espacial Hubble ao longo do tempo, e retrata mais de 13,3 mil milhões de anos da história do universo.

PEDRO DIAS

Os pontos de luz nesta imagem não são apenas estrelas, mas galáxias inteiras. A imagem foi concebida por um professor de astronomia, Pieter van Dokkum, e a sua equipa e é composta por 7,500 fotografias tiradas ao longo de 16 anos pelo telescópio espacial Hubble.

A montagem recria o universo desde que tinha apenas 500 milhões de anos até ao presente e compila mais de 265 mil galáxias, algumas anteriores à formação da Terra, que correspondem a um total de 13,3 mil milhões de anos da história universal.

“O Hubble viu esta parte do céu muitas vezes durante muitos anos, e agora combinámos todas estas fotografias numa única imagem grande angular, de altíssima qualidade. É como ter um livro de história do universo numa só imagem”, conta van Dokkum à CNN.



O mosaico completo do Hubble Legacy Field.
HubbleSite

A imagem funciona como um livro de história porque olhar para galáxias criadas em tempos tão distantes permite estudar o passado e a evolução do universo. Contudo, graças à sua distancia, algumas das galáxias estão reduzidas a pequenos pontos brancos de luz. Os cientistas explicam que, sem um telescópio ainda mais poderoso, esta é a melhor representação universal que se consegue obter.

O Hubble Legacy Field, nome dado pelos investigadores ao mosaico criado, é o retrato do universo mais completo até à data. A imagem permite estudar a expansão do universo, o que permitirá perceber a forma de como vários elementos são criados e evoluem, como as leis da física funcionam no espaço e ainda como a vida na Terra pode ter começado.

A imagem revela ainda galáxias já extintas, que morreram ou que acabaram por migrar e fundir-se com outras.

O telescópio Hubble, nomeado em homenagem ao astrónomo norte-americano Edwin Hubble, foi lançado em 1990 e foi usado até hoje para tirar fotografias do espaço. Estima-se que, em 2020, seja lançado o James Webb Space Telescope, um novo telescópio poderoso o suficiente para identificar as primeiras galáxias nascidas no universo.

in: revista "Visao"

quarta-feira, 1 de maio de 2019

José Fanha_Eu Sou Português Aqui

Eu Sou Português Aqui

Eu sou português
aqui
em terra e fome talhado
feito de barro e carvão
rasgado pelo vento norte
amante certo da morte
no silêncio da agressão.

Eu sou português
aqui
mas nascido deste lado
do lado de cá da vida
do lado do sofrimento
da miséria repetida
do pé descalço
do vento.

Nasci
deste lado da cidade
nesta margem
no meio da tempestade
durante o reino do medo.
Sempre a apostar na viagem
quando os frutos amargavam
e o luar sabia a azedo.

Eu sou português
aqui
no teatro mentiroso
mas afinal verdadeiro
na finta fácil
no gozo
no sorriso doloroso
no gingar dum marinheiro.

Nasci
deste lado da ternura
do coração esfarrapado
eu sou filho da aventura
da anedota
do acaso
campeão do improviso,
trago as mão sujas do sangue
que empapa a terra que piso.

Eu sou português
aqui
na brilhantina em que embrulho,
do alto da minha esquina
a conversa e a borrasca
eu sou filho do sarilho
do gesto desmesurado
nos cordéis do desenrasca.

Nasci
aqui
no mês de Abril
quando esqueci toda a saudade
e comecei a inventar
em cada gesto
a liberdade.

Nasci
aqui
ao pé do mar
duma garganta magoada no cantar.
Eu sou a festa
inacabada
quase ausente
eu sou a briga
a luta antiga
renovada
ainda urgente.

Eu sou português
aqui
o português sem mestre
mas com jeito.
Eu sou português
aqui
e trago o mês de Abril
a voar
dentro do peito.

Eu sou português aqui

José Fanha

Andrea Motis


Na belíssima voz de Andrea Motis, catalã, a solidão e' muito mais que um estado de alma.
E' expressão.
Boa gravacão da Blue Note (como sempre).



"Dança da Solidão"

performed by Andrea Motis Trio

Blue Note Milano 28 - 02 - 2019 Andrea Motis - vocals, trumpet Antonio Miguel - bass Josep Traver - guitar




MEDITAÇAO ( A.C.JOBIM )

ANDREA MOTIS Y JOAN CHAMORRO LIVE AT JAMBOREE -- Barcelona Andrea Motis & Joan Chamorro Quintet Featuring Scott Hamilton Andrea Motis, voz ,trompeta & saxo Joan Chamorro, contrabass Scott Hamilton, tenor sax Ignasi Terraza, piano & Hammond Josep Traver, guitarra Esteve Pi, drums GRABADO en directo al Jamboree, Barcelona, los dias 13 i 14 d'abril de 2013



quinta-feira, 25 de abril de 2019

Zeca







© Arquivo Impresa Publishing José Afonso

Quando em 1968 José Afonso entrou nos estúdios da RDP, no Monte da Virgem, Gaia, para gravar aquele que seria o seu segundo LP e primeiro pela Orfeu, Cantares do Andarilho, estaria muito possivelmente longe de imaginar que aquele punhado de canções iria pôr em marcha duas revoluções: uma de ordem musical, rompendo com tudo o que havia para trás na música portuguesa, outra de ordem política, visto a sua obra ter servido de bandeira de contestação ao antigo regime.
Na realidade ele tinha preocupações mais prementes e pragmáticas: conseguir simplesmente gravar. «Ele era muito nervoso», conta hoje Arnaldo Trindade, fundador da Orfeu, «e quando ia gravar o disco notou que se tinha esquecido dos comprimidos para os nervos. Começou a andar dum lado para o outro a dizer 'Não vou gravar, não vou gravar'. Foi aí que o Adriano [Correia de Oliveira, dos maiores baladeiros portugueses e amigo pessoal de Afonso] lhe disse para tirar os sapatos e desatou a dar-lhe pancadas nos pés para lhe tirar a tensão, uma coisa que ele tinha aprendido no karaté, salvo erro. E funcionou: o Zeca gravou e cantou que foi uma maravilha».
O episódio é simultaneamente caricato e comovente mas traz ao de cima uma dimensão humana mais palpável que a da imagem icónica que o tempo impôs a José Afonso. Nos vinte e cinco anos que decorreram desde a sua morte, a 23 de fevereiro de 1987, José Afonso tornou-se lentamente na figura icónica da luta pela liberdade. É inteiramente merecido que o seja. O problema é que, como assinalam Arnaldo Trindade, Vitorino, Carlos Guerreiro, Júlio Pereira e o sobrinho João Afonso, a iconografia se sobrepôs a tudo o resto, ensombrando o fundamental: a complexidade (e espantosa análise social) que as suas palavras retratavam; o lado humano, de dúvida e angústia; e, pior ainda, a música. Porque José Afonso era, antes de mais, um músico possuído pelo génio, daqueles que «não podiam ser inventados», como diz Trindade.
Talvez agora, no momento em que a Orfeu reedita a obra que José Afonso lá gravou [reportamo-nos a 2012, altura em que este artigo foi publicado na revista BLITZ] e que constitui o grosso da sua produção, já seja possível voltar a falar de José Afonso enquanto homem e músico, um homem que a geração nascida depois da década de 70 desconhece, um ser com feridas fundas de infância, à conta de uma trágica história de separação dos pais, hipocondríaco, que sofria de insónias e precisava, como conta Carlos Guerreiro, dos Gaiteiros de Lisboa, da esposa Zélia para o transportar por Lisboa, um ser constantemente em conflito consigo mesmo, a pôr em causa a forma mais justa de atuar; esse homem também jaz, hoje, na sombra das homenagens e dos cravos.
Isto não implica desmerecer por completo a iconografia. Arnaldo Trindade lembra que Afonso «sabia que era um ídolo desde que "Os Vampiros" saiu». "Os Vampiros", até hoje uma das canções emblemáticas de José Afonso, foi editado originalmente em single em 1963 e constitui, juntamente com "Menino do Bairro Negro", a primeira incursão pela canção política. Até então, José Afonso dedicara-se exclusivamente ao fado coimbrão, de que era um exímio praticante, tendo gravado alguns singles do género.

José Afonso na adolescência
© Blitz José Afonso na adolescência

Eles comem tudo

É nessas canções que José Afonso promove uma rutura com a música da época e inicia o seu caminho: larga a guitarra portuguesa, abandona o cantar fadista (ainda que tenham restado marcas) e começa, numa primeira fase, a recuperar o legado do cancioneiro português (mormente a música da Beira Baixa), como é verificável ouvindo os três primeiros LPs que gravou, Baladas e Canções (1964), Cantares do Andarilho e também um pouco em Contos Velhos, Rumos Novos (1969), sendo este último já ele próprio um disco de rutura face aos dois anteriores, antecipando o que se seguiria na década de 1970. Também começa aí a usar as suas próprias palavras, em vez dos poemas populares, como era de tradição com o fado coimbrão.
Quem ouvir hoje as primeiras canções isoladas que gravou, bem como esse par de LPs iniciais, assentes apenas em voz e guitarra clássica, pode ter dificuldade em perceber em que sentido é que são discos de rutura ao ponto de Rui Pato, o guitarrista que acompanhou Afonso até 1969, afirmar hoje que «o primeiro LP [Baladas e Canções] acaba por ser inócuo». Ainda assim, Pato assinala que Baladas e Canções «foi importante na medida em que rompeu com a tradição de Coimbra e trouxe à música portuguesa um modo diferente, sob o ponto de vista musical e harmónico».
Pato deixa bem claras as diferenças entre o que havia antes de José Afonso e o que José Afonso fez: «Quem tiver memória, lembra-se que a canção portuguesa ia do fado tradicional ao nacional-cançonetismo da Maria José Valério e do Tony de Matos. Era isto que se ouvia na Emissora Nacional [a única rádio da altura] e que as pessoas ouviam e conheciam; não havia muito mais na música portuguesa. Toda a estrutura musical das Baladas não tem nada a ver com o ambiente das cançonetas e é completamente diferente da forma do fado».
Pato, que hoje é médico em Coimbra, não tem a mínima dúvida que num país profundamente conservador, que vivia sob um regime ditatorial, as canções dos primeiros discos constituem «um corte radical, ao ponto de em Coimbra as Baladas não serem bem vistas. Em Lisboa ainda nem sequer tinha surgido gente que introduzisse novos poemas nas canções». Pato conclui: «O Zeca, quando aparece, é uma verdadeira pedrada no charco».
Há uma razão para Pato chamar «inócuo» a Baladas e Canções: apesar de ser o primeiro LP e de ter sido editado em 1964, um ano depois do single "Os Vampiros", não é propriamente um disco de corpo inteiro, antes a reunião das primeiras experiências que Afonso fizera fora do fado, e que editara em EPs e singles. "Os Vampiros", por exemplo, foi gravado depois, mesmo tendo saído antes. E constitui, sem dúvida, um avanço musical e lírico face ao que se encontra no LP de 1964. «Os problemas de repressão», conta o guitarrista, «começaram por causa de "Menino do Bairro Negro" [outra canção editada em single antes do primeiro LP]. Depois, "Os Vampiros" tornou-se o hino da Rádio Argel [onde se encontravam vários dissidentes políticos perseguidos pelo regime]». Há quem afirme que a Pide proibiu "Os Vampiros", mas isto não é claro: Arnaldo Trindade, que não editou essa canção, e reportando-se apenas ao que foi lançado sob o selo que comandava, afirma que «se dizia que os discos eram proibidos, mas é mentira: eram censurados nas rádios mas nunca estiveram fora do mercado». Essa censura criou «uma espécie de aura à volta de Zeca», diz Arnaldo, «ao ponto de Cantares do Andarilho ter vendido muito bem».
Não há dúvida que "Os Vampiros", com o seu ataque violento ao sistema económico, tornou Afonso em alguém a ter em conta. Segundo Pato, «os núcleos de esquerda começaram a chamar o Zeca para cantar em reuniões de trabalhadores e de estudantes: a música do Zeca estava a servir de fermento». É difícil quantificar quantas pessoas terão ouvido a canção na altura, mas percebe-se quão longe ia o alcance daquela canção ao ouvir Vitorino, que mais tarde viria a gravar com José Afonso e atuar com ele ao vivo, contar a história de como se conheceram: «Isto passou-se em 1967. Eu estava em Tavira, na ropa, e fui ver um concerto intitulado "Dr José Afonso canta Baladas de Coimbra" na Casa de Pescadores de Olhão. Foi a primeira vez que o vi, não podia perder a oportunidade». Se um tropa nascido no Redondo sabia da existência do Dr. José Afonso, quantos mais saberiam? A continuação da história é também altamente reveladora do modus operandi de José Afonso: «ele estava com dificuldade em afinar a guitarra e eu ofereci-me para a afinar. Ficámos amigos».
A amizade levou Vitorino a passar férias com a família Afonso na Fuzeta, de onde era natural Zélia, a segunda mulher de José Afonso. Foi aí que começaram «a cantar juntos, em simples brincadeira», o que redundou em parceria musical. Isto aconteceu dezenas de vezes na carreira: acabar a convidar músicos para tocar ou cantar em discos seus após uma (ou muitas) noite(s) de cantorias. A amizade, dizem todos, era-lhe fundamental.
Foi também assim que Rui Pato acabou a tocar nos discos de José Afonso. «Eu conheci-o através do meu pai», recorda hoje. «Ele um dia foi ter com os amigos à Brasileira [café coimbrão frequentado por estudantes e licenciados], muito entusiasmado com umas novidades musicais. Tinha feito umas canções, mas não era fado, e para mostrar aquela nova modalidade precisava de uma viola. E o meu pai lembrou-se que eu tinha uma viola, pelo que foram todos para minha casa e foi então que o conheci. Eu estava sentado nas escadas, ele apresentou as suas primeiras canções e ia tocando muito mal - sempre foi mau guitarrista. Tocava uma nota e dizia "e depois isto vai para aqui e depois vai para ali". E eu pedi para apresentar alguns acompanhamentos em contraponto à maneira como ele estava a tocar, que era muito básica. Ele gostou e começou a dizer ao meu pai: "o miúdo é que me vai acompanhar". E foi assim que nasceu a nossa relação».
O simples facto de ter escolhido um garoto de 16 anos como seu acompanhante em disco diz bem da abertura de espírito de José Afonso. Na prática, foi assim que nasceram "Menino do Bairro Negro" e "Os Vampiros". «Trabalhar com ele era fácil, dava-me completa liberdade», recorda Pato. «Ele apresentava-me o esboço da canção e depois eu organizava-a do princípio ao fim». Será este, aliás, o esquema de trabalho de José Afonso com os seus futuros parceiros musicais de discos subsequentes. E já então havia uma particular obsessão: «a grande preocupação dele era a parte rítmica, aí era muito rigoroso».
Ter uma carreira musical, naquela altura, era complicado. Para mais quando o cartão-de-visita era uma canção como "Os Vampiros", com o seu refrão assombrado, que tanto desagradava ao regime: «eles comem tudo e não deixam nada». De 1962, quando Pato e José Afonso iniciam a colaboração musical, até 1964, quando o último emigra para Moçambique, a «carreira» vive ao sabor da colocação de José Afonso como professor. «Ele dava aulas pelo país fora e eu ia ter com ele para ensaiar», recorda Pato. Desde que se licenciou e até 1964, lecionou em Mangualde, Aljustrel, Lagos, Faro e Alcobaça; daí o «andarilho».
«Havia muita dificuldade em fazer concertos», lembra Pato. «Tinha de se enganar os governos-civis, dizendo que íamos tocar fados de Coimbra: à tarde tínhamos de lhes tocar dois ou fados de demonstração, e depois tocávamos outra coisa à noite. Começou a haver medo de chamar o Zeca para concertos, porque podia haver pancadaria com a polícia, em particular em zonas como a Baixa da Banheira».

© Blitz A assinar contrato com a Orfeu, de Arnaldo Trindade (à esquerda)

Uma editora chamada Orfeu

José Afonso torna-se um homem marcado, os problemas financeiros acumulam-se e depois de lançar Baladas e Canções vai para Moçambique. Tinha vivido em África, em Angola, dos três aos oito anos, e ficara sempre marcado pelo continente. No período em que permanece em Moçambique, de 1964 a 1967, corresponde-se com Rui Pato, e conta que anda a fazer «coisas com música africana, com a qual estava muito entusiasmado. Fazia teatro e música em agremiações de negros». Rapidamente se envolve com movimentos políticos locais, o que lhe vale, novamente, o opróbrio, regressando a Portugal no final de 1967, mais propriamente a Setúbal.
Sem poder ensinar, vira-se definitivamente para a música. É aí que vem em seu auxílio Adriano Correia de Oliveira. É ele que revela Afonso a Arnaldo Trindade, como este recorda: «O Adriano trouxe-me uma maqueta do Zeca com acompanhamento à guitarra acústica. Pensei: 'isto é tão bonito'. Era o Cantares do Andarilho, que para mim ainda é das melhores coisas que ele tem; ele chamava àquilo a sua fase contemplativa. Pensei de imediato que, apesar de ninguém o querer editar por motivos políticos, tinha de arriscar».
Trindade ofereceu a Afonso «o mesmo contrato que tinha oferecido a Adriano: um salário mensal em troco de um disco por ano, cujos direitos de autor eram pagos à parte». Mais tarde, Afonso levaria para a Orfeu Sérgio Godinho, Fausto, Vitorino ou Francisco Fanhais, tudo gente que gravou nos seus discos antes de prosseguir uma carreira a solo.
A história de Trindade é exemplar do que era a época: quando começou a Orfeu tinha apenas «19 ou 20 anos», diz. O dinheiro vinha do pai, que era «o representante em Portugal da Philco, uma subsidiária da Philips com linha de televisão e frigoríficos». Trindade era um estudante de engenharia interessado pelas artes na década de 1950; chegou a conhecer Teixeira de Pascoaes. Igualmente apaixonado por música, queria fazer uma editora e começou por juntar os seus dois amores lançando discos de poetas a ler a sua poesia: Torga, Régio, Sophia de Mello Breyner, Eugénio de Andrade, etc. «Eles não percebiam porque é que eu os queria gravar. Tive de lhes explicar que em França o Sartre e o Cocteau já faziam isto há muito».
Era, a todos os títulos, um homem sofisticado e, rapidamente, começou a gravar vários tipos de música: «grupos amadores de jazz, de ingleses e alemães que viviam no Porto, gente como Pedro Osório e os Pop Five, um trio chamado Los Paraguaios, o Conjunto António Mafra, a fadista Maria da Fé». A seguir começou a gravar música folclórica: «os grupos folclóricos eram produções muito baratas e por isso davam dinheiro».
Depois passou para os fados de Coimbra, com Adriano, e foi assim que José Afonso lhe chegou. E também este lhe deu dinheiro: «o Cantares do Andarilho vendeu bem». Apesar disto, Afonso sempre se queixou de falta de dinheiro e, por vezes, os amigos juntavam-se para o ajudar (como fizeram ao comprar-lhe um carro, num peditório organizado por Carlos do Carmo). As versões diferem: Arnaldo Trindade diz que José Afonso tinha «o melhor contrato» da Orfeu, «equiparável ao de qualquer grande artista português».
Carlos Guerreiro diz que se lembra de José Afonso sempre sem dinheiro. E que, depois do 25 de Abril, quando começou a tocar muito lá fora, no final dos concertos «dizia sempre que tinha discos para vender porque a editora não lhe vendia os discos». Uma canção de Cantares do Andarilho, em particular, tornou-se rapidamente um marco: "Vejam Bem". Pelo que Trindade aumentou o orçamento para o disco seguinte: «Com o José Afonso posso garantir que não só lhe melhorámos o contrato várias vezes como aumentámos sempre o orçamento para as gravações». Isto poderá explicar o aumento do número de músicos usados em Contos Velhos, Rumos Novos, em que se começam a usar mais acompanhamentos além da guitarra.
Rui Pato conta que foi Afonso quem teve a ideia de experimentar «arranjos com marimbas, harmónicas, trompa», sendo que as marimbas denunciam, desde logo, influência africana. Também usa cavaquinho, insistindo na sua recuperação na música popular portuguesa, e recorre a poemas de gente recente, como Ary dos Santos e Luís de Andrade; as palavras deste resultaram na magnífica "Era de Noite e Levaram", uma denúncia das prisões aleatórias da polícia política.
O próprio José Afonso foi vítima dessas prisões e foi na última delas, em Caxias, que compôs "Era Um Redondo Vocábulo", incluído no álbum Venham Mais Cinco, de 1973. Uma boa parte desse disco foi escrito na prisão não se percebe como, mas Afonso saiu cá para fora com as melodias na cabeça. O clima da época era pesado, com «constantes concertos clandestinos que acabavam em prisões», segundo conta Vitorino. «Andávamos sempre com dinheiro no bolso para fugir do país a qualquer altura», acrescenta.

© Blitz José Afonso aos microfones do Rádio Clube Português

De Woody Guthrie a Debussy

Em finais da década de 60, início da de 70, Trindade já tinha percebido que tinha em mãos um sujeito superior. Admirava-lhe a cultura musical, que «ia do Woody Guthrie ao Debussy, passando por canto gregoriano, que adorava». Curiosamente, Rui Pato diz que nunca trocou discos com Afonso. «Não estou a dizer que ele não tivesse um gira-discos. Mas nunca vi nenhum nas casas que lhe conheci», afirma. Segundo Trindade, uma boa parte do folclore «foi buscá-lo ao Giacometti: o Zeca quis conhecê-lo e aprendeu muito com ele».
Por outro lado, assevera, Afonso era efetivamente «um andarilho, andava por toda a parte, viveu em imensos sítios, ia às terrinhas, falava com as velhinhas, ouvia-as cantar e tinha uma memória musical impressionante». Júlio Pereira, multiinstrumentista e colaborador frequente, corrobora esta ideia afiançando que viu muitas vezes «o Zeca apanhar as melodias nas terras ouvindo as pessoas cantar; memorizava tudo e aquilo voltava, de forma diferente, já dele».
Segundo o sobrinho João Afonso, também músico, havia outra influência marcante no conhecimento da música popular, mas desta feita associada a algo potencialmente mais trágico. O tio Filomeno, com quem José viveu a partir dos oito anos, em Belmonte, onde Filomeno era presidente da Câmara. «Era salazarista, mas se bem me recordo foi ele que lhe ensinou a cantar, que lhe passou as canções populares e por isso ele tinha simpatia por esse tio». A separação dos pais marcou muito José Afonso: o pai era procurador da República e foi colocado em Angola, era José Afonso ainda bebé. Depois Afonso voltou para Belmonte e em 1939 «os pais e a irmã foram para Timor, por causa do emprego do pai. Entretanto começou a II Guerra Mundial e eles foram capturados pelos japoneses. Pensou-se que tinham morrido. O meu tio pensou que tinha perdido pais e irmã durante quatro anos. Mesmo depois de saber que estavam vivos só voltou a vê-los passados mais três anos».
No total, foram sete anos de separação que poderão muito bem ter criado na criança uma espécie de sintonia para com os mais desfavorecidos. Exemplos concretos podem ser encontrados em canções como "Teresa Torga", de Com as Minhas Tamanquinhas, de 1976. Carlos Guerreiro, o líder dos Gaiteiros de Lisboa, que nunca chegou a gravar em discos de José Afonso (ou gravou, mas as canções não entraram e permanecem por editar), mas começou a tocar com ele em 1976, numa altura em que Afonso já fazia digressões constantes lá fora, conta a história dessa canção: «Era uma mulher que já tinha sido conhecida e um dia despiu-se no meio da rua, já não recordo porquê. Houve um fotógrafo que em vez de a ajudar resolveu fotografá-la e ele ficou horas a pensar nisso, achava isso incorreto. Acabava por exorcizar isso em canção».
Vitorino concorda que «essa separação [face aos pais] o desequilibrou muito. Marcou-o para a vida. Passou o resto da vida a rodear-se de pessoas. Tinha pânico de estar sozinho». Vitorino está convencido de que essa estupenda canção que é "Cantigas do Maio", do álbum homónimo de 1971, é uma premonição de morte: «Morrer antes da mãe, uma ideia que sempre o obcecou». A palavra exata para recordar a letra encontra-se na própria letra: amargura.

Minha mãe quando eu morrer
Ai chore por quem muito amargou
Para então dizer ao mundo
Ai Deus mo deu Ai Deus mo levou

Também não será excessivo ver nessa separação a fonte da ansiedade e hipocondria que o acometeram até morrer. Pese embora a maior parte das pessoas o visse apenas como «inquieto», no dizer de João Afonso. «Nessa época não se usavam termos como ansiedade», diz.
A sua educação, no entanto, foi, pelas descrições a que temos acesso, privilegiada em termos de leituras. Júlio Pereira, que o encontrará mais à frente, confirma esta erudição: «Íamos em digressão com ele, entrávamos em qualquer cidade da Europa e ele começava a contar a história da cidade, dos edifícios. Eram autênticas aulas». Guerreiro corrobora esta ideia: «As digressões naquele tempo eram diferentes, tínhamos mais tempo. Pelo que íamos ver museus, ver igrejas, e ele contava a história daquilo tudo».
Arnaldo Trindade descreve-o como «um pouco snob intelectualmente. Não era uma pessoa simples, embora soubesse ser simples». Carlos Guerreiro diz que Afonso, com os seus problemas de insónias, aproveitava as noites para ler. Trindade também se recorda do leitor compulsivo: «Era um tipo muito, muito lido, que tinha os García Marquez antes de serem traduzidos» e que além da erudição era um homem atento: em finais da década de 1960, José Afonso «tinha consciência do que estava a acontecer no mundo, do Maio de 68 francês ao Vietname, passando pelas lutas sociais nos EUA e pelas revoluções comunistas por esse mundo fora. Estava a par de tudo». Pelo que os discos foram-se tornando «mais politizados» mas também «mais literários». «Naquela altura, devido ao regime, ele tinha de encontrar metáforas para o que queria dizer. Muita da beleza daquelas canções reside nessa subjetividade».
De qualquer modo, vendiam. Ao ponto de, em 1970, Trindade o ter mandado para os estúdios Pye, em Londres, para gravar o que viria a ser Traz Outro Amigo Também. Rui Pato não o pôde acompanhar devido a problemas políticos e é difícil perceber exatamente como o disco foi feito. Os dois violas do disco estão incontactáveis. Gilberto Gil aparece nos créditos como assistente, mas é dúbia a sua participação, a avaliar pelo relato de Arnaldo Trindade: «O Zeca tinha acabado de gravar o disco e fomos beber para comemorar. Depois, estávamos a passear em Hyde Park quando, segundo as notas do meu diário, apareceram o Gilberto Gil e o Caetano Veloso», que na altura estavam no exílio em Londres.
Trindade diz que ambos tinham ouvido os primeiros discos de Afonso e «tinham uma imensa admiração» por ele. Os outros músicos com quem falámos confirmam o encontro e a admiração, embora os pormenores sejam mais vagos, visto não terem estado presentes no encontro.

© Blitz José Afonso em meados dos anos 70

Modo de fazer

De qualquer modo este é, segundo João Afonso, «o disco em que começa a aparecer África» na música do seu tio, África que foi mais uma das influências que o marcaram. Pode notar-se essa influência logo na canção "Carta a Miguel Djé-Djé": este era «um empregado de Zeca em Moçambique, com quem passava horas a tocar. O Zeca, por causa do trabalho, mudou de residência para outra zona do país e teve de despedi-lo. E um dia, sem aviso, estava o Zeca em Lourenço Marques e o Djé-Djé apareceu-lhe à porta de casa com uma vassoura e a guitarra». Segundo Guerreiro, era difícil arrancar-lhe histórias, mas esta era uma que o comovia imenso.
Não é fácil para quem não é etnomusicólogo dizer exatamente o que é africano na obra, mas João Afonso avança logo com uma ideia: «o uso de certas palavras que não são palavras, são apenas vocábulos, que ele usa de forma lúdica, a brincar com as suas potencialidades», como se pode notar numa canção como "Ailé Ailé", de Coro dos Tribunais, de 1975. E, acrescenta, com graça, «nos taninaninôs [referência à canção "O País Vai de Carrinho"] dele». Esse disco, note-se, conta ainda com uma canção como "Lá no Xepangara" que, segundo Vitorino, «é um mercado em Lourenço Marques». A obsessão era tanta com conseguir o som certo que, segundo Vitorino (que participou nesse disco tocando órgão Moog), «o Zeca mandou vir uma cantora soul inglesa para cantar esses coros».
Carlos Guerreiro tem mais pormenores que aclaram como é que a cabeça de José Afonso funcionava em termos africanos. Segundo Guerreiro, «era um tipo profundamente despistado. Os ensaios podiam durar horas mas ele estava sempre a sair para telefonar ou comer uma bucha». No entanto, havia uma matéria com a qual era implacável: «com o ritmo era extremamente rigoroso. Se eu não conseguia o balanço que ele queria, e é mais essa a palavra, balanço, chateava-me até eu conseguir».
Diz Guerreiro que José Afonso tinha uma teoria a que ninguém ligava, mas que fazia um certo sentido: «ele achava que havia uma ligação entre África e a música da Beira. Musicalmente não faz muito sentido, mas ao nível de usar as palavras como brincadeira rítmica talvez haja parecenças, embora não heranças diretas».
Trindade achou o disco de 1970 uma obra-prima, a começar pelo tema-título e passando por coisas como "Canto Moço". Entusiasmado, o editor pediu novo disco e não olhou a meios: mandou Afonso para o estúdio Le Château d' Hérouville, em Paris. «Era o melhor estúdio da Europa. Na véspera tinham estado lá os Rolling Stones [na realidade foram os Grateful Dead e depois seriam os Pink Floyd]». A «brincadeira» custou-lhe uns astronómicos «mil contos». «Houve retorno», diz, «porque dali saiu o "Grândola, Vila Morena"».
Todos são unânimes em reconhecer que o aumento do orçamento para os discos foi fundamental: deu mais tempo para gravar, mais músicos e, neste caso, um produtor, José Mário Branco. João Afonso acrescenta que «a possibilidade de trazer músicos como o Yório [a partir de 1973], que tocava à moda brasileira, ou do Fausto, que era muito africano, entre estrangeiros espanhóis ou franceses, trouxe outras cores à música de José Afonso».
Não foi possível falar com José Mário Branco (ausente do país) nem com Fausto, que mais tarde veio a produzir José Afonso, dois elementos fulcrais na obra Afonsina. Mas a Orfeu teve a delicadeza de ceder algumas das declarações que José Mário Branco prestou ao jornalista Gonçalo Frota, e que estarão incluídas nos libretos das reedições. «Que eu me lembre, não me pôs grandes condicionantes», diz José Mário, que funcionou como diretor musical, o que faz sentido, se tivermos em conta que todos os músicos que trabalharam com ele dizem que era muito aberto às suas contribuições. No entanto, havia uma exceção: ele tinha «alguma prevenção contra a eletrificação do som dos discos». Preferia ter «sons nobres: as cordas, os sopros, as percussões, sim, mas sem tomadas por perto».
Sabemos um pouco mais acerca de como decorria a parceria entre José Afonso e José Mário nesse disco de 1971 e no de 1973, Venham Mais Cinco, através das histórias que o primeiro contou. Segundo Guerreiro, «ele tinha uma espécie de mnemónica, de grafia musical que tinha inventado, e mostrava ao José Mário que tinha de deslindar aquilo. Era do género: a primeira nota, depois sobe, sobe, a seguir desce». Guerreiro diz que Afonso também tinha por norma «ideias acerca dos instrumentos a usar», o que bate certo com as declarações de José Mário Branco. Na versão de Vitorino «os arranjos eram cantados ao produtor; pelo menos com o José Mário foi assim». Vitorino diz que José Mário Branco «apontava os arranjos e organizava-os meticulosamente», o que faz sentido para quem já viu as fichas que José Mário Branco faz para cada gravação de disco (por exemplo, para um disco de Camané é capaz de ter tabelas chamadas «Impacto Emocional», onde se incluem pormenores como a respiração ouvir-se ou não).
Mas há mais um pormenor, e é fundamental: José Afonso, desde talvez 1968 ou 1969, tinha um gravador que, segundo Júlio Pereira, «levava para toda a parte», o que Guerreiro, Vitorino, João Afonso e Arnaldo Trindade confirmam. O gravador servia-lhe para tudo: desde gravar pequenas melodias, até canções completas, harmonias. Gravava uma coisa, depois outra, uma terceira e a seguir ouvia de novo e arranjava uma harmonia para a primeira melodia, um arranjo para a segunda, etc. De certo modo era como se as canções estivessem em esquisso nessas cassetes.
Carlos Guerreiro lembra-se de estar numa casa de banho, durante uma digressão pelo norte de Espanha, em 1976 ou 77, quando na porta ao lado ouve uma voz a trautear «tururu turu turu». Era José Afonso enfiado na casa de banho a gravar uma melodia que lhe tinha aparecido. Doutra vez, em Setúbal, interrompeu um jantar para ir à casa de banho com o gravador na mão. «Voltou todo ufano, com a sua melodiazinha».
Júlio Pereira também tem histórias dessas. «Estávamos em Vigo, julgo que em 1978, íamos a passar debaixo de uma ponte e o Zeca de súbito mandou-me subir ao hotel para ir buscar o gravador, de que se tinha esquecido. Eu fui e quando voltei ele fez uma canção ali mesmo: era o "Achegate a Mim, Maruxa" [de Fura-Fura, 1979]». Uma nota: a letra dessa canção é popular, mas a melodia é toda de José Afonso. João Afonso realça o trabalho «absolutamente vanguardista» que o tio fez com a tradição: «Pegava numa melodia popular e usava uma parte, e depois inventava o resto e punha como letra um poema moderno, ou usava uma lengalenga popular e mudava a música».
Sabemos portanto que em Cantigas do Maio e Venham Mais Cinco, entre as suas pautas improvisadas que mostrava a José Mário, as indicações que dava sobre que instrumentos usar e as melodias principais que levava, José Afonso já ia para estúdio com linhas de orientação bastante razoáveis que cabia aos músicos preencher. Sabemos que em Eu Vou Ser Como a Toupeira (de onde saíram canções como "A Morte Saiu à Rua", "O Avô Cavernoso" ou "No Comboio Descendente") já tinha o gravador para mostrar as melodias e as harmonias que imaginara para cada melodia. Mas como é que as coisas realmente aconteciam, por exemplo, nesse magnífico disco que é Coro dos Tribunais, de 1974, produzido por Fausto? Vitorino, que está nesse disco, bem como em Com as Minhas Tamanquinhas, dá uma ideia: «Para já, tinha-se o tempo que fosse necessário. Se fosse preciso um mês ficava-se um mês a gravar. Bons tempos. E ficava-se em bons hotéis». Vitorino afirma que «os arranjos desse disco são em parte do Fausto», o que faz sentido a cada escuta. Mas também «havia arranjos que ele ditava, cantando».
Contudo, e apesar das muitas melodias e harmonias que levava, bem como do seu apurado sentido de ritmo, José Afonso precisava efetivamente de músicos e tempo para experimentar. Diz Vitorino: «Quando entrávamos em estúdio as músicas estavam mal acabadas. Como ele não sabia música tínhamos de interpretar o que ele queria». Afonso podia dizer «e se puséssemos umas palmas nesta música?», mas também podia ser um músico a fazer uma proposta de arranjo ou o produtor a fazer uma definição, a que depois se retiravam e acrescentavam coisas.
Mas há uma história que Júlio Pereira, que começa a gravar com José Afonso em "Índios da Meia-Praia", do disco Com as Minhas Tamanquinhas (em que aparece um Joaquim Barreiros a tocar acordeão, que mais tarde se tornaria figura popular ao diminuir o nome para Quim), conta que sendo praticamente um detalhe é elucidativa do génio. «Já não me lembro de que canção estávamos a gravar nem para que disco, mas o Zeca sentia que faltava alguma coisa. Ouvia e ouvia a canção até que se virou para mim e disse: "havia uma coisa que vi umas mulheres fazerem em África: tinham uns chocalhos presos nas pernas e nos braços e dançavam e o som era muito cheio". Experimentámos e lembro-me de resultar. Foi já no fim da carreira».
Além de ser um melodista de exceção, que sabia intuitivamente que ritmo queria e como dividir cada sílaba, era isto que trazia para as suas canções e que as tornavam únicas; algo difícil, de facto, de explicar numa pauta e talvez uma das razões pelas quais José Afonso permanece um mistério, e que levou a que «as pessoas se tenham esquecido dele enquanto músico», segundo diz Júlio Pereira, secundado pelos restantes.

© Blitz José Afonso (à direita) com Vitorino, Adriano Correia de Oliveira e Fausto (esq-dta)

O «Zeca político»

Há, talvez, outra razão: a ascensão do «Zeca político». A partir de 1974 ele foi ajustando contas, deixando sair um lado mais amargo, dentro e fora das canções, como é notório em temas como "Tenho um Primo Convexo" (que era sobre um primo de que não gostava) ou "Como se Faz um Canalha" (sobre Aventino Teixeira, que Afonso considerava que tinha traído a causa da esquerda); e tornou-se mais radical politicamente, o que é notório em temas como "Os Fantoches de Kissinger" e "Alípio de Freitas" de Com as Minhas Tamanquinhas. A segunda é um bom exemplo do político e posteriormente mitificado: graças à canção salvou-se a vida a Alípio de Freitas, preso no Brasil durante a ditadura militar; o embaixador português procurou-o e conseguiu a sua libertação. Apesar dessa radicalização, José Afonso nunca integrou nenhum partido político.
Guerreiro lembra o que o músico dizia em entrevistas: «o meu Comité Central sou eu», numa alusão a um certo distanciamento do Partido Comunista. Arnaldo Trindade refere que «ele não se sentia muito próximo do PC», porém «tornou-se próximo da LUAR», um grupo político que intentou a luta armada.
De acordo com Vitorino, «quando começou a haver violência, ele afastou-se, era um pacifista». Ainda assim, apoiou a candidatura de Otelo a Presidente da República (e Otelo não era um menino do coro). A radicalização do discurso acabou por ter efeitos paradoxais: por um lado, tornou-o um ícone; por outro, as vendas pós-1974 caíram. «Depois do PREC», conta Trindade, «as pessoas não queriam mais mata-e esfola. Os tempos tinham mudado. Muitos dos que lhe compravam os discos não concordavam com ele politicamente, porque ele foi-se radicalizando. Também se perdeu o lirismo metafórico dos primeiros discos».
Começa então a tocar lá fora, acompanhado por gente mais nova, como Guerreiro ou Júlio Pereira. Passaram por países como Espanha (que o adorava), França, Itália, Bélgica, Holanda, Alemanha e com muito mais sucesso do que o que tinha conseguido quando foi tocar ao Brasil, em 1971, na companhia de Paulo de Carvalho: «Era um festival de música mais pop e não foi bem recebido», conta Trindade. Mas foi-o na Europa. Em parte por causa do 25 de abril: «Os europeus queriam conhecer o que se fazia no país que tinha saído da ditadura e tinha estado tantos anos fechado», diz Vitorino.
Mas também porque os seus concertos eram entusiásticos. Guerreiro diz não ter «a mínima dúvida de que o Zeca foi, juntamente com a Amália e o Paredes o grande embaixador de Portugal lá fora durante anos». Júlio Pereira corrobora a ideia e acrescenta que «é um crime que nunca se tenha falado cá dentro dos êxitos que o Zeca alcançou lá fora. Os espanhóis, então, amavam-no».
Talvez Trindade tivesse razão: o país tinha mudado e as pessoas queriam iogurteiras em vez de discurso, caixilhos de alumínio em vez de fúria. Depois de 1976 fez ainda três discos para a Orfeu: Enquanto Há Força (78), Fura-Fura (79) e Fados de Coimbra (81), um estranho regresso ao início, concebido quando já estava doente (embora não se saiba exatamente quando começou a doença, Guerreiro e Pereira, olhando para trás, têm ideia de que por volta de 1977, 1978, o músico começou a ter problemas físicos constantes, como falta de força nos braços).
Fura-Fura, tendo ainda grandes canções, é pouco homogéneo, porque os arranjos se dividem entre José Afonso, Júlio Pereira e os Trovante. Enquanto Há Força, dirigido por Fausto, que co-compõe aqui e ali, é de outra cepa. Afonso ainda se reergueu, após a saída da Orfeu e há quem defenda que Como Se Fora Seu Filho e Galinhas do Mato (em que cantarola as melodias e em que Júlio Pereira e José Mário Branco, entre outros, tocam, gravam e dirigem cantores e instrumentistas) estão entre os seus discos mais inventivos. Mas José Afonso era já um mito e aos mitos não se pede que progridam e arrisquem, mas sim que sejam consensuais, e para isso era preciso não ser ouvido. No fundo não o foi mais: como sublinham todos, foi usado como bandeira da liberdade, visto como património exclusivo da esquerda, o que não é correto: Pedro Ayres de Magalhães é fanático de José Afonso, Manuel Fúria, ex-líder d'Os Golpes, fez uma versão de "Tenho Barcos, Tenho Remos". Mas, à conta da mitologia, o interminável talento foi esquecido.
«Estamos a falar de um dos maiores génios da segunda metade do século XX», diz Júlio Pereira. «Não se criava um Zeca por mais que se tentasse», diz Trindade. Os elogios continuam. Hoje, mais apaziguados, menos motivados pela ideologia, ou talvez apenas mais distantes, podemos admirar apenas a música e as palavras e perceber que Zeca, afinal de contas, era um homem.
Originalmente publicado na BLITZ de junho de 2012.