domingo, 1 de agosto de 2021

Otelo e a Revolução_ O Lado A

  

(a Otelo) - 25.4.74/25.7.21

não foi a morte que te matou
hoje
foi a vida, esta, que da revolução 
seus filhos devorou:

sonho
que um dia teve asas e voou.

a cada passo teu
fica a certeza de - muitos - não te terem perdoado o fim do fascismo.
(fascismo que nas suas mentes perdurou)

lmc

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DAQUI: Otelo Saraiva de Carvalho

"Se isto não é um herói..."

Paulo Moura in: Jornal "Público", 

24 de Abril de 2009


"Ele não escolheu o protagonismo. A revolução era urgente, mas ninguém a fazia. Quando era preciso agir, mas, por medo, inépcia ou calculismo, ninguém agia, ele foi herói. Depois continuou a desempenhar o seu papel, sem perceber que o pano já tinha caído. Eis os factos, segundo uma longa entrevista com Otelo Saraiva de Carvalho.

* Paulo Moura
24 de Abril de 2009, 9:09


Otelo: "Comecei a tomar decisões. Podem ter sido as piores, mas alguém tinha de tomar decisões" ADRIANO MIRANDA

Nevoeiro cerrado, Lisboa, rotunda da Encarnação, 6h30 da manhã de 16 de Março de 1974. Otelo está no meio da praça a ver se a Revolução acontece sozinha. Vai a uma cabine fazer um telefonema, sai e dá alguns passos perscrutadores no terreiro vazio. Tem uma camisola de lã castanha por cima do uniforme e uma pistola 6.65 no coldre, carregada. Olha em redor. Estacionado na berma está um Ford Capri cor bordeaux, de capota negra. Um tipo de gabardina e chapéu fuma um cigarro, de pé, junto à porta aberta do carro.

Quem era?

“Pide, claro”, diz Otelo, identificando um agente da polícia política.

O inimigo já sabia de tudo. Mais do que o próprio Movimento. Fora alertado e ia reagir. Mas contra quê? Uma coluna militar vinda das Caldas da Rainha devia estar a chegar à rotunda, mas todas as outras iniciativas tinham falhado. Que iria acontecer?

“O pide estava ali parado em posição estratégica”, conta hoje Otelo Saraiva de Carvalho, 73 anos, no seu apartamento de Carnaxide. “E eu vi logo que se preparava um grande granel.”

Otelo, 37 anos, um homem bonito, atlético, determinado e corajoso, um líder nato, no auge da sua vitalidade, não é mais do que um fantasma no meio da praça. Ainda não experimentou a sua força. Está à espera que as coisas aconteçam. Perdeu o controlo da situação. Está à espera que o regime caia com um sopro. Está a espera de um banho de sangue. Está à espera de ser preso. De que está ele à espera?

Moçambique, anos 40. Cumprindo ordens da mãe, Otelo leva o empregado doméstico da família à administração do concelho. Ao lavar a loiça, o rapaz partiu um copo, e portanto tem de ir ao sipaio levar umas palmatoadas nas mãos.

“Não vais nada. Eu não te levo lá”, diz, pelo caminho, Otelo ao criado, que é mais velho do que ele.

“Mas eu tenho de aparecer com as mãos inchadas.”


Foto ADRIANO MIRANDA  “Ó pá, sei lá, esfrega-as com urtigas.”

Otelo é amigo do criado, bem como dos outros miúdos negros do bairro onde vive, em Lourenço Marques, e com quem costuma jogar futebol. Mas se o criado se desleixa no trabalho, ou bebe uns copos a mais, é submetido a formidáveis sessões de pancada do pai de Otelo.

“De repente, aquela fraternidade que existia num jogo de futebol de rua transformava-se num distanciamento, quando o preto tinha de levar uns tabefes, ou um arraial de batatada”, recorda Otelo. E quando punha em causa o racismo vigente, respondiam-lhe que na África do Sul ainda era pior. Para o confirmar, meteu-se num comboio e viajou, durante 18 horas, até Joanesburgo. Tinha 17 anos. “Era chocante. Havia filas para europeus e para não-europeus. Em Moçambique o racismo era semelhante, embora mais encapotado.”

Otelo tornou-se rebelde. Só pensava em fugir, em libertar-se. No liceu, admirava um grupo de colegas mais velhos, de que faziam parte os irmãos Fernando e José Gil, Eugénio Lisboa, Hélder Macedo, Rui Knopfli, Rui Guerra. Eram brilhantes, gostavam de classificar o liceu Salazar como “o maior centro intelectual comunista da África Austral”, e costumavam reunir-se em casa do Fernando Gil, para discutir política. Por essa razão, começaram a ser presos e interrogados pela PIDE, que rondava o liceu. Otelo não se conformava. Adolescente, tentou visitar os amigos na prisão. Mas não o deixaram entrar.

“Eu só pensava em conhecer o mundo, abrir horizontes. Queria ser actor, para poder desempenhar uma multiplicidade de papéis. Estudar em Nova Iorque, no Actor's Studio, onde estavam o Marlon Brando, o Montgomery Cliff, o Paul Newman.”

O avô Otelo
O avô paterno de Otelo foi actor. Era um homem baixinho e gordo, e por isso nunca conseguiu representar outros papéis que não fossem os de mordomo. E no entanto formou-se com 20 valores no conservatório de arte dramática. Otelo Augusto Fernandes de Carvalho tornou-se empresário de teatro. Criou a sua própria companhia, e actuou no Salão Foz, em Lisboa. Mas em 1930 foi em tournée para Angola, onde, aos 44 anos, morreu subitamente de um AVC. Deixou em situação económica precária a mulher e três filhos. O mais velho, que sonhava vir a ser oficial da Marinha, foi obrigado, aos 17 anos, a trabalhar para sustentar a mãe e os irmãos. Escreveu a um tio que era inspector superior dos Correios, Telégrafos e Telefones de Lourenço Marques, e ele conseguiu-lhe um emprego como aspirante dos correios.

Nunca recuperou da frustração e foi talvez por isso que quando o filho Otelo quis seguir a carreira dos palcos, como o avô Otelo, se recusou a ajudá-lo ("de mim, não levas um centavo!"), o que levou o jovem actor em potência a optar pela carreira militar, a conselho do avô materno.

Este fora um homem bem-sucedido. Assentou praça como soldado e ofereceu-se como voluntário para a Índia. Foi lá que casou e teve duas filhas. Fez a sua carreira no chamado Exército Ultramarino, foi colocado em Moçambique. Com 16 anos, a filha mais velha conheceu o pai de Otelo, de 21, funcionário dos Correios, casou com ele, em Julho de 1934, e deixou de estudar. Otelo nasceu em Lourenço Marques em 1936, “fruto das andanças do Império”.

Quando, em 1955, terminou o liceu, candidatou-se à Escola do Exército, porque o avô materno o entusiasmou com os valores da vida militar: a coragem, a frontalidade, a camaradagem, a lealdade.

“Filho, escolhe a vida militar, porque vais sentir-te bem. É uma vida disciplinada, mas tu vais adaptar-te. Porque, cá fora, a vida civil é uma selva de competição, de invejas, com cada um a querer passar à frente do outro”, explicou o avô.

Otelo acreditou, e ingressou na vida militar, apesar de, um ano antes, ter chumbado na milícia da Mocidade Portuguesa. “Não possui a mínima vocação militar”, fora a apreciação final.

“Há em mim uma série de contradições imensas”, confessa Otelo. Em alternativa ao teatro, escolheu as Forças Armadas, como meio de libertação. “Eu tive na altura a noção de que só ali poderia fazer alguma coisa para combater o poder. Porque era ali que estavam as armas. E só com armas seria possível fazer alguma coisa.”

O professor preso
Na Escola do Exército, organizou um núcleo de teatro, como já tinha feito no Liceu Salazar, em Lourenço Marques. Foi aluno excelente nas áreas de comando, regular nas disciplinas teóricas.

Numa prova oral de Matemática, o mestre-examinador major Alcides Oliveira chama o aluno Otelo ao estrado. Este, que desde que começou a namorar colocou os livros completamente de lado e já reprovou um ano, faz uma prova miserável.

“Bem, Saraiva de Carvalho, vamos considerar a coisa assim: eu sei que você faz para aí umas imitações, entre as quais a minha. Pois vou conceder-lhe uma última oportunidade. Você vai imitar-me. Se eu gostar da imitação, dou-lhe 10. Se não gostar, você chumba.”

Quando Otelo termina, Alcides Oliveira aplaude. “Está perfeito. Tem 10. Passou.”

Foi com outro professor, o major Augusto Pastor Fernandes, que percebeu que as tentativas dos militares para derrubar o regime já tinham começado.

11 de Março de 1959. Vai realizar-se o jogo de basquete da equipa da Academia Militar (a que Otelo pertence) contra a do Instituto Superior Técnico, a contar para o Campeonato Universitário. Para a manhã seguinte está marcado um teste da disciplina de Tiro de Artilharia e não vai haver tempo para estudar. O jogo, obviamente, é mais importante e Otelo pede ao chefe de curso que telefone ao professor, implorando pelo adiamento do ponto.

Pastor Fernandes atende o telefone.

“Adiar? Com certeza. O ponto fica adiado, obrigatoriamente, sine die. Isto porque, neste momento, estão aqui em minha casa dois agentes da PIDE que me vão levar preso para Caxias, ou para a Trafaria, ainda não sei bem.” Pastor Fernandes, que participou na chamada Intentona da Sé, será “deportado” para Timor, e depois passará à reserva.

“Nós gostávamos muito dele. Era um homem de grande envergadura moral e intelectual. Foi um choque para mim.” No ano anterior, Humberto Delgado fizera a sua campanha e Otelo, aproveitando a boleia, num Citroën 2 cv, de duas francesas amigas da namorada, viajou até Paris. A viagem demorou uma semana, apesar da pressa que Solange e Michelle tinham em chegar, para votarem a favor da autodeterminação da Argélia no referendo organizado por De Gaulle. As conversas versaram quase sempre sobre isso, sobre a democracia dos países europeus e sobre o regime ditatorial português. Otelo sentiu-se humilhado por ser estudante militar num país de regime fascizante.

“Os militares são a principal base de apoio do regime”, diz uma.

“Isso não é bem assim. Nós, os militares, não estamos assim tão submissos ao regime”, responde Otelo.

“Mas como, se vocês são o derradeiro bastião da ditadura?”, argumenta a outra. E Otelo contra-ataca:

“É dentro da instituição militar que eu tenho a possibilidade de derrubar a ditadura.”

“Isso nunca vai acontecer, porque vocês são a última defesa que o regime tem, face a uma insurreição que possa surgir.”

“Não”, insiste Otelo, tentando convencer, ao mesmo tempo, as raparigas e a si próprio. “Eu vou ser militar para derrubar a ditadura.” Três anos depois será enviado para Angola, para defender a pátria dos terroristas.

E é lá que, pela primeira vez, toma contacto com o Portugal autêntico. “As condições terríveis em que vivíamos levavam a criar laços de estreita proximidade com os soldados, que eram gente do povo. Camponeses, operários. Comandando o meu pelotão, tinha, por vezes, de acampar a céu aberto, com uma parelha de combate, um soldado. Estávamos ali a olhar para as estrelas e falávamos da vida.

‘Eu sou trabalhador numa fábrica’

‘Sim? E como é? Quanto ganhas?’

‘Eh pá, a gente ganha muito mal. Mal dá para a família. A minha mulher trabalha nas limpezas e lá vamos conseguindo...’

Uns trabalhavam no campo, de sol a sol, outros tinham de sustentar os pais, eram um mundo de gente miserável, com que eu nunca tinha contactado. Tive pela primeira vez uma perspectiva do que era o povo e da animosidade surda em que ele vivia, em relação ao regime. Os soldados contavam-me que se na fábrica onde trabalhavam faziam um ligeiro protesto contra os salários miseráveis, o patrão telefonava à GNR local, que ia lá obrigá-los a trabalhar à cacetada.

‘Ó meu alferes, vocês é que podiam fazer qualquer coisa em nosso favor... Vocês é que têm as armas’, diziam-me eles. E eu pensava: sim, é verdade, nós temos essa obrigação para com este povo.”

A consciência de que a vida no país era injusta precedeu em vários anos a da própria injustiça da guerra colonial. “Quando fomos enviados para ‘Angola rapidamente e em força’, como disse o Salazar, estávamos convencidos de ir proteger as populações portuguesas indefesas, e restabelecer a paz. Só com o tempo começámos a tomar consciência do que se passava.”

Admiração pelo Velho
Foi um processo lento. Nas reuniões do Movimento dos Oficiais das Forças Armadas, já em 1973, muitos militares ainda recusavam terminantemente a ideia de pôr fim à guerra. Mas foi ganhando terreno a noção de que era preciso resolver o conflito de outra forma. Até entre alguns oficiais superiores que se notabilizaram pela fidelidade ao regime, como era o caso de António de Spínola.

Como começasse a ver a carreira a fugir-lhe, aos 52 anos, o ambicioso e então ainda tenente-coronel Spínola ofereceu-se como voluntário para comandar um batalhão em Angola. Já não era um jovem, usava monóculo, luvas brancas de pelica, camuflado e pingalim, mas ia para o mato com a sua tropa, dormindo em tendas, atravessando rios a pé, o que lhe valeu um imenso prestígio nas Forças Armadas. Foi nomeado para o conselho de administração da indústria de siderurgia de Champalimaud, o que lhe permitia encomendar, para o seu batalhão, jipes e camiões blindados com chapa de ferro, helicópteros e toda uma panóplia de equipamento com que as outras unidades em África apenas sonhavam.

“Fez uma guerra de luxo, era um grande combatente, foi idolatrado e subiu rapidamente na carreira”, conta Otelo, sem esconder a admiração pelo “Velho”, como era conhecido. Em 1968 já é oficial general na Guiné, e pouco depois governador da província, onde se rodeia de um escol notável de oficiais, como Rafael Durão, Almeida Bruno ou Manuel Monge.

É nessa altura, e por influência desses oficiais, que a sua perspectiva em relação à guerra se altera, até chegar à conclusão de que a solução teria de ser, não militar, mas política. Ele, de quem circulavam lendas de façanhas sanguinárias contra as populações autóctones, toma agora a iniciativa de organizar os congressos da Guiné, uma experiência de democracia directa que Otelo nunca mais esquecerá.

Durante três dias, representantes das tabancas da Guiné (das zonas controladas pelas forças portuguesas, obviamente) vinham a Bissau e reuniam-se numa sala de espectáculos para discutir os problemas das suas regiões. Os oficiais tiravam notas das intervenções dos representantes do povo e depois tomavam as providências necessárias. Alguns dos líderes indígenas, nas suas vestes de cerimónia, imaculadas, louvavam as obras dos militares colonizadores. Mas outros criticavam duramente os abusos e maus-tratos por parte dos administradores locais, sem qualquer receio.

Spínola queria conquistar a confiança das populações, e Otelo ajudou-o, nas funções que desempenhou nas subsecções de Imprensa e Acção Psicológica, e depois como verdadeiro Relações Públicas do general. Produzia e coreografava festas e cerimónias, recebia jornalistas nacionais e estrangeiros. E ainda conseguiu reunir um grupo de teatro e uma banda, com o Fernando Girão, que fez uma tournée à volta da Guiné. Mas foi nessa altura que o Chefe de Estado, Américo Tomás, promulgou o decreto-lei 353/73, o início do rastilho que levaria à revolução.

Segundo o diploma, os oficiais oriundos de milicianos poderiam entrar para o Quadro Permanente, através da frequência de cursos intensivos na Academia Militar. A medida destinava-se a incentivar a entrada para os quadros das Forças Armadas de jovens que provinham de cursos civis, para prover às necessidades da guerra. Mas desagradava aos oficiais do Quadro Permanente, principalmente os capitães, que precisaram de vários anos de estudo na Academia Militar para chegar à sua patente.

Os protestos começaram logo. Na Guiné e no Continente, houve reuniões, abaixo-assinados, manifestos. Mais tarde Marcelo Caetano revogaria o decreto, aumentaria os salários dos capitães, mas o Movimento já estava em marcha e era imparável. 

O regresso à metrópole
A comissão de Otelo na Guiné termina e ele regressa à metrópole, onde é colocado como professor adjunto de Táctica de Artilharia na Academia Militar. Mas mete uma licença, porque tem outros afazeres.

Após uma reunião, em Outubro de 1973, no apartamento do capitão Diniz de Almeida, no Bairro do Rego, o capitão Vasco Lourenço dá boleia a Otelo, cujo carro ainda não chegou da Guiné. Têm um furo, na Avenida de Berna.

“Eu não sei o que é que tu pensas, Vasco, mas ultrapassada esta parte da luta do Movimento dos Capitães, que praticamente já ganhámos, acho que podemos ir muito mais longe, e criarmos condições para derrubarmos o Governo. Que é que tu achas?”, diz Otelo, enquanto mudam o pneu.

“Eu penso exactamente como tu”, responde Vasco Lourenço.

“Então vamos para a frente. Mas com calma, para não chocar os camaradas.”

Numa das últimas reuniões ainda na Guiné, a 25 de Agosto, na sala do Agrupamento de Transmissões, para aprovar um documento de protesto contra o decreto, um capitão engenheiro, Jorge Golias, toma a palavra e declara, exaltado:

“Estamos a perder demasiado tempo a pensar e discutir sobre o conteúdo do documento, quando devíamos era preparar-nos para a revolução armada, pois o que interessa é abater o regime, e isso só se consegue à porrada.”

É o pânico na sala, e a maior parte dos participantes quer abandonar a reunião.

“Não, nisso eu não alinho”, dizem. E o Golias, isolado, acaba por calar-se.

Sábado, 24 de Novembro de 1973. A reunião realiza-se num armazém nas traseiras da Colónia Balnear Infantil de O Século, em São Pedro do Estoril. Estão presentes os elementos das comissões coordenadora e consultiva e oficiais de patente mais elevada. Ao todo, 80 camaradas. O objectivo é a eleição de uma Comissão Coordenadora efectiva, que represente o Movimento. Quando ninguém espera, o tenente-coronel Luís Banazol faz um discurso, com voz rouca: “A única via possível para a reconquista do prestígio há muito perdido pelas Forças Armadas é o derrube pela força do Governo marcelista através de um golpe militar e o fim da ignominiosa guerra colonial...”

Burburinho na sala.

“Meus senhores, sejamos realistas!”, grita o major Vítor Alves. E acaba por se aprovar a continuidade da guerra, exigindo embora melhor armamento.

“Naquele momento, o nosso objectivo já era o derrube do Governo”, explica Otelo. “Mas precisávamos de generais, para constituirmos um directório militar que assumisse o poder depois da queda do Governo, credibilizando a revolução. Não vamos aparecer, nós os capitães, e dizer: o poder é nosso.”

Em Janeiro, Spínola, regressado da Guiné, é nomeado vice-chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas. Otelo e Vasco Lourenço vão falar com ele. Informam-no de que o Movimento o elegeu, juntamente com Costa Gomes (os dois generais mais prestigiados do país), para constituírem o directório militar pós-revolução.

“Ok, tomo conhecimento e fico à espera”, diz Spínola. “Mas tomem cuidado.”

Em Fevereiro, Spínola tem pronto o livro que anda há meses a escrever, Portugal e o Futuro, em que advoga uma solução política para o problema das colónias. Otelo vai a descer a Rua do Telhal e um Mercedes pára no semáforo vermelho. Uma buzinadela fá-lo voltar-se. Vê o vidro traseiro abrir-se e uma luva de pelica a chamá-lo.

“Olá Otelo, está bom?”, diz Spínola. “Quer saber de uma coisa? O Marcelo Caetano não me deixa publicar o meu livro.”

“Ó meu general, mas o livro que está a escrever não é sobre a política colonial?”, pergunta Otelo.

“É esse mesmo. O Marcelo não mo deixa publicar. Entreguei-lhe um exemplar e ele diz que não posso publicar, porque advoga uma política completamente oposta à do Governo.”

“E qual é a posição do general Costa Gomes?”

“O Chico está comigo. Já deu luz verde para a publicação. O Marcelo é que diz que se demite se eu publicar.”

“Ó meu general, mas é isso mesmo que nós queremos. Se o livro provocar a demissão do Governo, óptimo. Meu general, publique o livro, mesmo contrariando o Marcelo Caetano. Nós apoiamos”, diz Otelo, assumindo já, individualmente, as decisões fundamentais do Movimento.

“Vocês estão comigo? Apoiam?”

“É evidente meu general.”

Dias depois, Portugal e o Futuro está nas livrarias. Vende 100 mil exemplares numa semana. Marcelo cumpre o prometido e apresenta a demissão a Américo Tomás, mas este não a aceita. Antes ordena a Marcelo que exonere Spínola e Costa Gomes. Para haver um pretexto para o fazer, organiza-se a chamada Brigada do Reumático. Chefes militares, comandantes das forças militarizadas, da Legião Portuguesa e da PIDE, em conjunto com os ministros, vão ao Palácio de S. Bento, a 14 de Março, manifestar a sua lealdade a Marcelo.

Três dias antes, Otelo recebe um telefonema do ajudante de campo de Spínola, António Ramos, que, muito nervoso, o convida para almoçar.

“O nosso general está numa posição tramada”, começa ele. “Já viste, está anunciada esta manifestação de generais...”

“Pois está, mas eles não representam nada”, diz Otelo.

“Pois, mas eles vão apresentar a sua fidelidade ao Marcelo e pedir a continuidade da guerra, e o nosso general e o general Costa Gomes vão ser exonerados.”

“Pois, isto não deu o resultado que esperávamos. Mas qual é a alternativa? O nosso general propõe alguma coisa?”

“O nosso general propõe que os oficiais do Movimento se fardem com o uniforme número 1, com faixa, espada, luvas brancas e condecorações, e vão para a frente do Ministério do Exército exigir que não se realize a manifestação dos generais e que o ministro se demita.”

Otelo não concorda. “Diz ao general que nós não vamos fazer nada disso. Não estás a ver os oficiais do Movimento, que têm estado em semiclandestinidade, a aparecerem em frente ao ministério numa manifestação. A PIDE iria tirar fotografias de todo o pessoal, e o Movimento morre.”

Dia 16
Entretanto regressam da Guiné o Manuel Monge e o Casanova Ferreira, que tinha sido instrutor da maior parte dos actuais capitães do Movimento.

Otelo põe-os a par da proposta de Spínola. Casanova responde logo:

“Nem pensar nisso. O nosso general está louco. Não é ele que nos vai dizer o que fazer. Consegues marcar uma reunião com os militares das escolas práticas, que são as unidades mais fortes? Eu tenho uma vivenda em Algueirão, marca a reunião para lá.”

Otelo convocou tenentes e capitães das escolas práticas e a comissão executiva do Movimento.

“Eh pá, vamos fazer uma acção, rapidamente, para evitar a Brigada do Reumático”, diz Casanova na reunião. E todos aplaudem. À tarde, numa outra reunião mais restrita, Casanova apresenta uma Ordem de Operações, que traz esboçada num papelinho: “A acção começa com o lançamento, por via aérea, de uma bomba de 250 quilos na Assembleia Nacional”, diz ele.

“Eh pá, ó Casanova, aí é que estamos tramados”, responde Otelo. “A Força Aérea não está connosco, e nem sei se há em paiol bombas de 250 quilos.”

“Eh pá, mas isso é que era giro, rebentar com aquilo tudo. Mas não faz mal. Aqui está a ordem de operações.” E começa a distribuir papelinhos com as várias funções. A Escola Prática de Cavalaria manda uma coluna para Lisboa e fica na rotunda da Encarnação à espera de ordens. Vem uma bateria de Cavalaria da Escola Prática de Vendas Novas. Uma coluna motorizada com morteiros de Mafra.

Otelo tenta objectar: “Eh pá, ó Casanova, mas isso não é uma operação militar com pés e cabeça...”

“Isto cai logo pá. Isto está podre.”

“Olha que é capaz de não ser bem assim. Mas está bem. O que determinas que eu faça?”

“Vais amanhã de manhã à Escola Prática de Cavalaria, que é a mais renitente, e convences a malta a sair para a rua, na noite de 13 para 14.”

Dia 13 de manhã, Otelo parte para Santarém. Mal acaba de ler a descrição da missão, levanta-se um capitão, homem respeitador da hierarquia: “Meu major, desculpe, essa ordem de operações vem assinada pelo nosso general Spínola?”

“Não. Ele nem sonha que estamos a fazer isto.”

“Então nós não alinhamos nessa aventura.”

“Ok, mas posso falar com os pára-quedistas?”

“Sim, vou chamar um representante deles a Tancos.”

Otelo reúne-se com três pára-quedistas no seu carro. Convoca-os para uma reunião no Dafundo, às 6 da tarde. Aí, o representante dos pára-quedistas recusa-se a colaborar na operação, mas promete elaborar um plano no prazo de dez dias (o que nunca fará).

“Vocês são quantos?”, pergunta o Casanova.

“Uma força de 800 homens, perfeitamente disciplinada.”

“Óptimo. Com isso já se faz uma revolução. Esperamos então pela vossa Ordem de Operações”, diz o Casanova aos oficiais presentes, entre os quais alguns da Escola Prática das Caldas da Rainha. “Ficam portanto canceladas todas as acções para amanhã.”

Nesse mesmo dia, todos assistem pela televisão ao espectáculo da Brigada do Reumático. No dia seguinte, é anunciada a exoneração de Spínola e Costa Gomes. Otelo e Casanova decidem passar em Miraflores, por casa do Manuel Monge, spinolista convicto, para o consolar. Quando estão lá, tocam à campainha. É um capitão, Marques Ramos, que diz estar em contacto com as Caldas da Rainha.

“Tenho notícia de que aquilo nas Caldas está em polvorosa. A malta parece disposta a pegar em armas e a vir por aí abaixo.”

“Eh pá, não vamos cometer nenhuma loucura”, diz Otelo. “As acções estão canceladas.”

Toca o telefone. É o capitão Manuel Ferreira da Silva, colocado no Centro de Instrução de Operações Especiais de Lamego.

“Lamego está em pé de guerra. Está a organizar uma coluna e vai marchar sobre Lisboa”, diz o Ferreira da Silva. E acrescenta que já contactaram Viseu para fazerem o mesmo. O Monge fica fora de si:

“Eh pá, Ferreira da Silva, ganda Manel, pá, tu nunca me enganaste! É assim mesmo, vamos embora! Tá a andar!” Pousa o telefone e diz: “Lamego vai sair!”

Agora é o Casanova que fica eufórico. “Ainda tens aí o papelinho das operações?”, vira-se para Otelo. “Dá cá isso. Telefona já para Vendas Novas. Manda vir de lá uma bateria de artilharia. Vais a Mafra e trazes de lá uma coluna de infantaria, com morteiros e essa coisa toda. Eu vou a Santarém e trago uma coluna de blindados. Monge, tu ficas aqui agarrado ao telefone, para receberes as comunicações. Marques Ramos, vai já para as Caldas, diz ao pessoal para se preparar para avançar para Lisboa.”

“Isto vai dar um buraco desgraçado”, ainda resmunga Otelo.

“Não vai nada. Quatro ou cinco colunas nas estradas e o Governo cai já.”

Otelo telefona para Vendas Novas e atende o cantor Duarte Mendes.

“Meu major, anteontem disse que estava tudo cancelado, a malta foi toda de fim-de-semana. Só aqui estou eu e os sentinelas. É impossível mandar uma bateria para Lisboa.”

Segunda missão: Mafra. Otelo chega lá às 3 da manhã, sob um nevoeiro cerrado. A resposta é a mesma: está tudo de fim-de-semana.

Regressa a Miraflores. O Monge deve saber o que se passa. Quando chega, às 5h30 da manhã, um carro estaciona 50 metros à sua frente. As portas abrem-se e saem cinco homens de gabardina e chapéu, apontando para o andar do Monge. É a PIDE. Otelo acelera o Morris 1100. Ruma à rotunda da Encarnação, para onde, segundo a Ordem de Operações, a coluna das Caldas se deveria dirigir, para esperar instruções. Telefona para casa do Monge e atende a mulher a chorar. A PIDE esteve lá. Revistaram tudo. Mas o Monge já tinha saído, não sabe para onde.

São 6h30 da manhã. Otelo caminha pela rotunda da Encarnação, que está vazia, sob o nevoeiro. O silêncio só é cortado pelo walkie-talkie de um pide, de pé junto à porta aberta de um Ford Capri bordeaux com capota negra.

Otelo não sabe que o Monge, quando o Casanova chega de Santarém também sem a missão cumprida, vai com ele a casa de Spínola, tentando convencê-lo a assumir a liderança da revolução. Sem êxito. O general, respeitador da hierarquia, diz que nunca poderá pegar em armas contra o seu Governo. A seguir, Casanova e Monge correm na direcção das Caldas. Encontram a coluna às 4 da manhã, já perto de Lisboa, e fazem-na dar meia volta. Assumem a sua liderança e entrincheiram-se no RI5 das Caldas da Rainha, até serem cercados e presos.

Otelo não sabe nada disto. Ignora se a coluna revoltosa das Caldas vai entrar na rotunda.

Mas as forças do regime, essas, chegam em força, de repente e com apavorado espalhafato. De boina e uniforme negro, armados até aos dentes, surge o corpo de intervenção da Legião Portuguesa. A seguir, a GNR, Regimento de Cavalaria 7, com autometralhadoras Panhard, Batalhão de Caçadores 5, blindados M 47, jipes e Berliets. Uma multidão de soldados, polícias, pides, alguns dos quais muito jovens, de cabelo comprido, hippies que Otelo nunca imaginou que a polícia política pudesse ter ao seu serviço. Ouvem-se os walkie-talkies, os apitos da PSP tentando controlar os veículos que parecem cruzar a praça de forma completamente descoordenada.

“Então é isto!”, pensa Otelo.

“Então era aquilo a força de reacção do regime! Eles têm conhecimento de que uma coluna militar vem pela estrada fora a caminho de Lisboa, desde as Caldas da Rainha, e aquele dispositivo todo era por causa disso.”

“Se os gajos ficam todos em palpos de aranha por uma coluna que vem aí, se forem cinco colunas, em vários pontos do país, não terão capacidade de reagir.”

E nessa madrugada de 16 de Março, estoirado, cheio de sono, mas de súbito iluminado por uma compulsiva evidência, Otelo planeou o 25 de Abril. 

Otelo sozinho
A seguir à tentativa de golpe, 23 camaradas foram presos, o que, a acrescer ao facto de Vasco Lourenço ter sido colocado nos Açores, deixava Otelo sozinho na direcção do Movimento. Além disso, não se sabia o que poderia acontecer aos detidos. “Talvez fossem parar a um Tarrafal qualquer.” E nessa altura, sentindo-se sacrificados e abandonados pelo movimento, era provável que começassem a denunciar os companheiros.

“Eu tenho enormes responsabilidades, agora. Fundamentalmente, chegámos a um ponto crítico, em que é preciso actuar”, disse Otelo numa reunião em Oeiras. E começou a planear tudo, sozinho. Era como se a revolução estivesse à espera de ser feita, mas precisasse, ainda assim, de alguém que a fizesse.

“Sem a tentativa das Caldas, o golpe poderia ter ficado adiado eternamente. Mas agora era preciso agir rapidamente.” Dia 18, encontrou-se com Melo Antunes num café da Praça de Londres. Dissuadiu-o de abandonar o Movimento, como ele queria, e encomendou-lhe um programa político para o Movimento das Forças Armadas.

“Eu vou fazer uma operação militar, elaborar uma Ordem de Operações, à minha responsabilidade”, disse Otelo. “O Vítor Alves vai constituir o grupo político e tu o programa.”

O golpe teria de ser feito na última semana do mês, para aproveitar o facto de a PIDE estar ocupada a prender os agitadores políticos do PCP e do MRPP que enchiam as paredes de graffiti no 1.º de Maio.

Em três semanas, Otelo preparou tudo. Sozinho? “Sim, foi um trabalho solitário. Elaborei uma ordem de operações, sem ajuda de ninguém. Eu sabia quais eram as unidades com que podia contar. E essas eram suficientes. Só não conhecia as forças inimigas. A GNR, a PIDE, a Legião. Esse era o grande problema. Foi o maior risco que tive de correr.”

Como obter as informações? Lembrou-se de que tinha um primo que era comandante da GNR, no quartel do Carmo. E que um antigo colega, o Rosa Garoupa, estava colocado no Estado-Maior do Exército. Nenhum deles era simpatizante do Movimento. Mas tinha de arriscar.

“Eh, Fernando. Aqui é o Otelo. Gostava imenso de te ver, pá”, cumprimentou, pelo telefone, o primo, que não via há anos. Foi a sua casa em Alfragide e disse-lhe: “Fernando, é o seguinte: eu vou fazer uma operação militar, uma revolução, e preciso da tua ajuda.”

“Eh pá, estás a brincar comigo.”

“Não, é a sério, pá. E vou confiar totalmente em ti. Eu preciso de saber informações sobre a GNR. Efectivos, armamento, viaturas, patrulhas, que postos de observação têm, que objectivos têm em Lisboa para defender, etc. Tens de me dar isso tudo, pá, e não me vais denunciar.”

“Eu não posso fazer isso...”

“Podes, e vais fazer, a bem da nação. Rapidamente.”

Alguns dias depois, o primo telefonou.

“Já tenho tudo.”

A mesma coisa com o Rosa Garoupa. “Eh pá, há quantos anos a gente não se vê...”

“Eh pá, estás bom? Dá cá um abraço. Senta aí, queres tomar alguma coisa? Então que contas?”

“Eh pá, vou fazer uma revolução e preciso da tua ajuda.”

“Estás a gozar, pá.”

“Eu explico: preciso de elementos sobre a Legião, a PIDE, a polícia. É isso que eu te peço.”

E, tal como o primo da GNR, não demorou a reunir toda a informação. Por que o fizeram? “Por camaradagem, lealdade militar. Não por afinidade ideológica.”

Faltava a prisão de Caxias. “Fui lá fazer um reconhecimento com o meu carrito, mas não podia demorar, para não levantar suspeitas. Havia um grande portão verde, e eu pensei: como uma bazucada, deito isto abaixo. A tropa entra por aqui, tomamos isto de surpresa. Mas o que está para lá do portão? Pode haver uma fogachada, a GNR dá para aqui uns tiros, pode morrer alguém, é uma chatice. Então lembrei-me de telefonar ao Silva Graça, que esteve preso.”

O militante do PCP estivera preso, embora não em Caxias. Mas contactou um companheiro que, desgraçadamente, conhecia bem o forte por dentro e que, dias depois, enviou um croquis. Só depois do 25 de Abril Otelo soube que se tratava de Jorge Sampaio.

No dia 15 de Abril, a Ordem de Operações estava pronta. O anexo de transmissões, encomendado a Amadeu Garcia dos Santos, ficou concluído pouco depois. Uma linha telefónica directa foi montada da Escola Prática de Transmissões até ao Posto de Comando, instalado no regimento de Engenharia da Pontinha. Otelo combinou com jornalistas do Rádio Clube Português e da Renascença as canções-senha que dariam o sinal para o início das operações. Entre 16 e 19 de Abril, distribuiu as missões aos líderes das várias unidades.

Oeiras, na casa de Otelo. “Vou fazer-te a leitura da Ordem de Operações. Tu vais ouvir com atenção, sem tirar notas. No fim, fazes as perguntas que quiseres”, diz Otelo ao capitão Salgueiro Maia, que comandará a força da Escola Prática de Santarém.

“Ok. Estou a ouvir-te.”

Otelo explica a manobra, a situação, as forças amigas e inimigas, a logística, as transmissões, as rações de combate, tudo. “Então, Salgueiro? Tens perguntas?”

“Duas. Primeira: temos base de sustentação política, para o caso de sermos bem-sucedidos na operação militar?”

“Temos, sim senhor. O Vítor Alves formou o grupo político e o Melo Antunes deu-nos as bases programáticas.”

“Segunda pergunta: temos generais no posto de comando?” Otelo pensou rapidamente: se lhe digo que não, ele, respeitador da hierarquia como é, recusa-se a entrar na operação. Mentiu:

“Temos, sim senhor. É evidente. Generais não faltam.”

E Salgueiro Maia só vem a saber que Spínola e Costa Gomes não estão no posto de comando pela boca do próprio Marcelo Caetano, momentos antes de se render.


Foto ADRIANO MIRANDA

Quartel do Carmo, 25 de Abril. Cumprindo ordens de “Óscar”, o nome de código de Otelo no posto de comando, as forças de Salgueiro Maia, vindas do Terreiro do Paço, cercam o edifício, onde se refugiou o presidente do Conselho. Salgueiro é levado até ele.

“Entre, sr. Capitão”, diz Marcelo. Salgueiro Maia faz continência e fica parado no meio da sala. Marcelo continua:

“Pode informar-me do que pretende?”

“Recebi ordens do posto de comando do Movimento para formular um ultimato. Ou V. Excia. se entrega, ou terei de mandar arrasar o quartel a tiros de armas pesadas.”

“E quem comanda o Movimento?”

“O general Spínola!”

“O quê? É o general Spínola que está no posto de comando? Olhe que não é. Acabo de falar ao telefone com o general Spínola. Ele está em casa e diz que não chefia a revolução. Mas pedi-lhe para vir cá, para eu lhe entregar o poder.”

Salgueiro Maia fica estarrecido. Depois de garantir a Marcelo que nunca pegaria em armas contra o seu Governo, Spínola telefonou para o posto de comando.

“Acaba de me ligar o presidente do Conselho, pedindo que eu vá ao Carmo receber o poder. Eu disse-lhe que não tinha nada a ver com o Movimento, mas poderia contactá-lo. Qual é a sua ideia, Otelo? Vai lá você, ou aceita que vá eu?”

“Meu general, considere-se mandatado pelo Movimento das Forças Armadas para ir ao Quartel do Carmo receber o poder das mãos do presidente do Conselho.”

Spínola partiu. Marcelo rendeu-se-lhe e foi entregue a Salgueiro Maia, que o levou numa chaimite até ao posto de comando. Daí, seria transportado num DC-6 para o Funchal, e depois para o Brasil. Quando chegou à Pontinha, Spínola abriu um sorriso que nunca ninguém lhe vira. “Olha o Otelo!”, disse o “Velho”. “Dê cá um abraço, homem! Isto foi uma coisa extraordinária!” Logo a seguir, assumia a presidência da Junta de Salvação Nacional, e depois a Presidência da República. Otelo voltou para casa.

“No dia 28 apresentei-me na Academia Militar, como se nada tivesse acontecido.” Pensou que a sua missão estava concluída. Mas mal tinha começado.

O chefe da revolução
A Junta anunciou o Programa do Movimento das Forças Armadas (MFA), formaram-se os primeiros governos provisórios, libertaram-se os presos políticos, regressaram os exilados, surgiram os partidos. O golpe transformou-se em Revolução, o poder caiu realmente na rua, e três meses depois de Abril foi criado o Comando Operacional do Continente (Copcon). Tinha sob o seu mando nada menos que todas as forças regulares do país e também todas as forças especiais. Foi criado para reagir a uma eventual reacção dos fascistas, mas, na prática, o Copcon tinha poder absoluto. Para o liderar, o chefe da revolução: Otelo.

“Confinado à missão puramente militar que lhe foi atribuída, o Copcon teria levado uma vida tranquilíssima”, admite ele. Mas não foi o caso. “Começaram a aparecer no Copcon os problemas mais diversos e mais disparatados, trazidos por gente que não tinha nada a ver com militares, gente pobre, trabalhadores, camponeses, que não sabiam a quem se dirigir”, conta Otelo.

As estruturas existentes foram destruídas, era preciso reinventar tudo, e as pessoas colocadas nas várias funções de poder não tomavam decisões, por incompetência, ou puro medo de um reviralho. Esta é a explicação de Otelo. Desorientados, mandavam todos para o Copcon. “O Otelo que resolva”, diziam. “Ele é que fez a revolução.”

Quando, por exemplo, a administração de uma empresa desaparecia, os trabalhadores iam ao Copcon perguntar o que fazer. Quem não tinha casa ia ao Copcon, quem não tinha trabalho ia ao Copcon.

“Fiquei numa situação difícil. Das duas uma: ou corria com toda aquela gente, mandando o sentinela dar uns tiros para o ar, para os afugentar, ou tinha de resolver os problemas”, explica Otelo. E eram cada vez mais pessoas. E queriam ser recebidas pelo Otelo, pessoalmente. Prometeram-lhes a revolução, e o Otelo era a revolução. Ninguém previra que isto ia acontecer. “Fizemos o 25 de Abril para termos uma democracia burguesa, não isto”, diz Otelo. Mas agora uma força colossal, incontrolável, tinha-se soltado no país. Desconhecida e imprevisível. Ninguém a queria ou conseguia segurar. Otelo ficou sozinho com a revolução nas mãos.

“Comecei a tomar decisões. Podem ter sido as piores, mas alguém tinha de tomar decisões.” Passou a receber as pessoas numa sala.

“Vamos lá a ver isso. Os patrões fugiram? Muito bem. Vocês têm matéria-prima?”

“Sim, está lá no armazém. Mas agora quem é que nos diz o que temos de fazer?”

“Eh pá, quem é o mais antigo na fábrica? Ficas chefe da comissão de trabalhadores. Continuem a trabalhar. Vamos depois tentar vender os produtos que fabricarem.”

Para acompanhar as situações, Otelo nomeava um capitão, que supervisionava cada caso. Mas começaram a surgir outros problemas. O programa do MFA dizia que todos têm direito a uma casa.

“Sim, senhor, vamos resolver isso.” Otelo chama um capitão da Força Aérea. “Tu ficas encarregado desta questão da ocupação de casas. O princípio é este: estes camaradas vêm dizer que há uma batelada de andares vagos ali perto do Casal Ventoso. Vamos ocupá-los, mas com disciplina. Nomeias uma comissão, para coordenar as ocupações. É preciso fazer um levantamento dos andares e ver quais são as famílias mais necessitadas.”

Depois, a partir de Fevereiro de 1975, vieram as ocupações de terras, no Alentejo. Um grupo de trabalhadores vai dizer a Otelo que ouviu falar de uma reforma agrária. Não sabem bem o que isso é, mas sabem que, em consequência dos rumores e dos graffiti a dizer “a terra a quem a trabalha”, os latifundiários já começaram a fugir para o estrangeiro, e a levar com eles o gado, as máquinas e as alfaias agrícolas.

“Quando as terras chegarem a ser distribuídas, não teremos nada para as podermos trabalhar”, explicam os camponeses.

“Bem, para já, ocupem as terras”, diz Otelo. “E não deixem sair nem mais uma cabeça de gado.”

“Já podíamos ter feito isso. Mas não temos armas.”

“Vocês não têm caçadeiras?”

“Temos, mas a GNR vai lá expulsar-nos, com metralhadoras G3.”

“Bom, amanhã às 9 da manhã tenho um briefing com o capitão que comanda a GNR, e vou-lhe dar ordem para, a partir de amanhã, não actuar contra as ocupações de terras no Alentejo. Portanto vocês vão para lá, com as caçadeiras, defendam a terra e não deixem sair mais nada.”

Em pouco mais de um mês, um milhão e 200 mil hectares de terras foram ocupados no Alentejo, por vezes com a ajuda de soldados armados do Copcon. O Partido Comunista, que estava bem implantado na região, assumiu depois a organização da Reforma Agrária, criando unidades colectivas de produção. Mas quem possibilitou as ocupações de terras foi Otelo.

“Cá está mais um caso em que alguém tinha de tomar uma atitude. O ministro da Agricultura dizia: calma, está em preparação uma reforma agrária. Mas era preciso agir rapidamente.

Assumindo um verdadeiro poder paralelo, o Copcon dirigiu de facto uma revolução socialista. De forma tão precipitada e unilateral, que acabou por dividir rapidamente o país em dois.

“Eu agi em benefício de gente que nunca tinha tido nada, e que, entusiasmada com as promessas do MFA, começava a exigir condições de vida básicas. Mas isso criou contra mim ódios terríveis”, admite Otelo. “E contribuiu largamente para a bipolarização do país. Não tenho nenhuma dúvida sobre isso. Hoje reconheço que não havia condições para dar esse salto enorme. Precisávamos da ajuda dos países ocidentais, e a solução socialista não era possível. Se me tivessem explicado essa realidade, eu teria agido de forma diferente. Mas na altura, com toda a minha inexperiência política, não vi outra alternativa. E também ninguém me apresentou nenhuma.” 

As prisões
A 25 de Novembro de 1975, o país estava à beira da guerra civil. Uma tentativa de golpe dos esquerdistas, cuja ponta visível foi a ocupação das bases aéreas por parte das forças pára-quedistas, foi o pretexto para o golpe dos moderados, chefiados por Ramalho Eanes. Mas, dizem os historiadores, quem deu a ordem fatal aos “páras” foi o próprio Otelo, ou alguém por ele. O comandante do Copcon diz que não, embora tenha confessado que sim a Vasco Lourenço, alegadamente para ilibar os seus subordinados, que tinham sido presos. Por causa dessa confissão, foi ele próprio preso, por 44 dias. “Eh pá, a minha candura e ingenuidade têm-me feito enfiar cada barrete, pá.”

Pouco depois de ser libertado participou num comício na Aula Magna, em Lisboa. À saída, um grupo de apoiantes abordou-o pedindo-lhe que se candidatasse à Presidência da República. Apesar de não ser apoiado por nenhum grande partido, obteria 18 por cento dos votos nas eleições de 1976.

Essa força, que representava um projecto de poder popular, de democracia directa, sem partidos, que Otelo defendia desde 1975, acabou por implodir. Mas, segundo Otelo, foi o pretexto para a criação, entre 1978 e 1979, de um movimento designado por Projecto Global, que incluía uma face legal e duas clandestinas, armadas. O objectivo era ambíguo: defender o país de um eventual regresso do fascismo, ou usurpar o poder burguês por via violenta. Essa ambiguidade levaria Otelo de novo à prisão, condenado por chefiar as FP-25, um grupo extremista que cometeu vários crimes nos anos 80 e que, segundo o tribunal de Monsanto, não era mais do que uma das secções do Projecto Global.

Otelo cumpriu cinco anos. O país não conseguia manter preso o homem que lhe ofereceu a liberdade, e que, afinal, diz que “foi o 25 de Novembro que restituiu ao país a pureza dos ideais do 25 de Abril”."

https://www.publico.pt/2009/04/24/sociedade/noticia/se-isto-nao-e-um-heroi-1376370

terça-feira, 27 de julho de 2021

primeira impressão...



"O QUE EU ANDO A LER

Ando preocupado com as coisas à primeira vista, não propriamente aquelas paixões e aqueles amores à primeira vista poeticamente emocionantes e exclusivamente literários, esses são geralmente inofensivos na nossa vida quando circunscritos à arte, mas preocupo-me com as outras coisas à primeira vista: as certezas à primeira vista, as desilusões à primeira vista, as desistências à primeira vista, os incómodos à primeira vista, as avaliações à primeira vista, as precipitações à primeira vista, os julgamentos à primeira vista e todos esses derivados comportamentais impressivos e tantas vezes excessivos, creio que tudo isso é certamente dissuasor e possivelmente destruidor de segundas oportunidades que devíamos dar às pessoas, o que é circunstancialmente ofensivo quando acontece na nossa vida - às vezes somos os ofendidos noutras os ofensores e por vezes somos isso nas ocasiões mais inofensivas: alguém novo no trabalho fala-nos de uma maneira que nós velhos nesse trabalho não gostamos e decidimos imediatamente que essa pessoa é arrogante, um desconhecido num jantar em que quase todos são conhecidos discute com mais extravagância e concluímos irremediavelmente que é intragável, alguém que admiramos por ter feito coisas admiráveis um dia reúne-se connosco e achamos que afinal é um palerma por nos ter feito sentir palermas nesse encontro, e é assim que às vezes se perdem coisas determinantes na vida por nos perdermos com os determinismos das conclusões à primeira vista: a pessoa nova no trabalho pode ser uma grande amizade desperdiçada, a pessoa do jantar uma grande relação desaproveitada e a pessoa da reunião uma grande mentoria menosprezada, é certo que há situações mais graves que estas e com danos maiores quando julgamos e sentenciamos à primeira impressão sem estarmos disponíveis para uma segunda oportunidade mas há também ofensores que são privilegiados porque são ofensores perdoados, é um grande ensinamento com ganhos únicos: houve um dia que me aconteceu há muitos dias mesmo, foi há tanto tempo que não me lembro dos detalhes mas só das consequências, nesse dia entrevistei uma pessoa que queria um estágio de jornalismo para cumprir o sonho que eu cumpro todos os dias, que é ter o privilégio e a responsabilidade de servir gente informando-a, recordo vagamente o nervosismo da pessoa e de ela me ter respondido o que eu queria à última pergunta que faço sempre nessas entrevistas, “sou um comandante dos bombeiros, há um incêndio atrás de mim, estou disponível para responder a todas as tuas perguntas: qual é a primeira que me fazes?”, meses depois a pessoa contou-me que me odiou por aquela entrevista em que acabámos a apagar incêndios e que o desdém por mim se manteve durante o estágio que a pessoa conquistou naquela entrevista em que ela me convenceu e eu a intimidei - às vezes os ofensores ofendem negligentemente e isso não é desculpa porque é pior que desculpa, é alheamento, logo uma forma de desrespeito, portanto: peço perdão, pessoa -, continuando: lembro-me ainda de ler um texto da pessoa sobre o Bowie no dia em que ele morreu e de ter ficado em silêncio, aquele silêncio-espanto, que texto tão certo, às vezes são os mortos que aproximam os vivos, não sei o que mudou dali em diante nem como mudou nem que tempo levou a mudar, até porque o jornalismo colocou-nos entretanto em rotinas quotidianas diferentes, mas um dia apercebo-me de que aquele ódio (termo violento, sei bem, mas o ódio tem escalas diferentes e por vezes é usado por questões de simplificação) dizia que aquele ódio da pessoa por mim transformou-se numa completa segunda oportunidade em que passámos a partilhar alegrias, tristezas, separações, uniões, altos, baixos, euforias, desalentos, triunfos, derrotas, canções, estrofes, livros, parágrafos, desabafos, confissões, discussões, ilusões, dúvidas, erros, acertos, conquistas, avanços, recuos, abraços, lágrimas, silêncios, jantares, almoços, debilidades, virtudes, ambiguidades, certezas, tudo mérito dela em benefício meu (e espero que em benefício dela também) porque aquela pessoa decidiu que as pessoas não são um só momento nem um só comportamento e que às vezes - se é que não todas as vezes - há que ter a coragem e até a fé de não se desistir do outro, perdoai-nos Senhor as ofensas à primeira vista e louvai-nos as insistências à segunda oportunidade, amém, e isto não é uma lição de moral mas somente uma ilação de alegria, a minha, lembrei-me da força desta amizade à segunda oportunidade porque comprei o “Sétimo Dia” do Daniel Faria, é um livro que vinha devidamente recomendado mas julguei-o à primeira vista - começo a folheá-lo e vejo pouco texto mas mesmo demasiado pouco por folha, a seguir conto várias páginas mas várias mesmo em branco, são 19 vazias, e decido que €15,50 é dinheiro a mais para tantas palavras a menos, depois vou ao prefácio e desisto dele à primeira vista porque pareceu-me um texto de um académico encantado com o autor em vez de um leitor encantado com o poeta, decido portanto fugir do prefácio e passo aos poemas, li-os num instante porque bastou-me entrar no comboio em Lisboa e ao passar Santarém já estavam todos lidos mas obviamente incompreendidos, sei bem que quaisquer poemas precisam de mais do que os 83 quilómetros da minha leitura para se entranharem mas já tinha o julgamento pré-feito tão mal feito, e quando cheguei ao Porto uma amiga-família que já me deu não duas mas 73 oportunidades diz-me que este é o livro do ano para ela e que eu tinha de dar uma nova oportunidade ao Daniel Faria, sorri, “oportunidade”, então fui reler o livro no comboio de volta e os 300 quilómetros do Porto até Lisboa não foram suficientes para chegar ao fim, li devagarinho com toda a devoção da segunda oportunidade e, sem saber exatamente como nem onde nem quando, deixei de ouvir o comboio sobre os carris e as conversas de domingo no Alfa porque senti silêncio, aquele silêncio-espanto, que livro tão certo, às vezes são os mortos que nos fazem sentir vivos, o Daniel Faria morreu aos 28 anos e sublinhei-lhe isto no “Sétimo Dia”:

“Pus o despertador a despertar de hora em hora. De hora em hora vejo a febre. Mantém-se estável. Amanhã levanto-me. De três em três horas telefono a um amigo diferente. Normalmente ninguém me atende. Às vezes deixo mensagem. Deixo a promessa de ligar de novo. Gosto muito de prometer”,

e também isto:

“Disseram-me que teriam de me cortar o braço e eu disse o que é que eu sou mais do que as videiras. Ainda não era Outono e as folhas começaram a cair.
Eu não sou das espécies persistentes. Eu baixo os braços mesmo quando não desisto.
Até os dias caem, as penas dos pássaros, as hastes dos veados. Pousei a cabeça em choro sobre o braço, como se a pousasse sobre o ombro de ninguém”,

e ainda isto:

“Bato à porta do teu quarto mesmo quando sei que não estás. Descobri agora quanto custa aos mendigos, não digo a fome, mas não haver ninguém”,

só mais isto:

“Estás com fome? Tenho aqui grãos de milho, não sei se te agrada. Posso pô-los ao lume e fazer pipocas num instante. Não sei se gostas de pipocas, mas sempre distrai um pouco. Além disso estou a ficar triste e o estoirar das pipocas pode dar-nos um ar mais festivo.
Este tacho comprei-o numa feira. Acreditava naquela altura que era um utensílio normal e necessário na casa de um homem solitário. É muito bom poder comer contigo.
É muito bom não ficar só à mesa. Na verdade a presença dos outros tem-me sustentado mais do que qualquer alimento. Quando um homem come sozinho é um aborrecimento esperar que a comida arrefeça, e quando arrefece já se perdeu a fome, para comer é mesmo preciso um certo esforço. Um homem que come sozinho devia era ter terror: se se engasga quem lhe baterá nas costas?”,

na verdade sublinhei as páginas quase todas porque a minha caneta prestou admiração a dezenas de frases do Daniel Faria, agora é o meu livro do ano também, e decidi logo o que fazer quando cheguei a Lisboa, tão simples tão óbvio tão urgente: comprar este livro de que desisti à primeira e a que já não resisti à segunda para oferecer à pessoa que resistiu à nossa primeira vista mas que não desistiu da nossa segunda oportunidade, os livros contam-nos as vidas de outros mas também nos lembram o que outros já nos deram na vida e como o deram (“Lia todos os livros como se fossem uma descrição da sua própria vida, vivia-os”, Peter Handke em “Um Adeus Mais-Que-Perfeito”), e entre a ida à livraria até ao momento em que lhe ofereci o “Sétimo Dia” entendi também para que servem as 19 páginas em branco do livro do Daniel Faria: escrevi nelas para explicar à pessoa com quem construí esta amizade-fortaleza que o comandante dos bombeiros que naquela entrevista de estágio queria que lhe perguntassem quantos feridos havia sente uma profunda gratidão por todos os que como ela não desistem dos que foram-estão-serão feridos pela solidão:

“É duro não ter ninguém que nos diga que deixamos um pouco da barba por desfazer. É duro não ter ninguém que nos tire um cisco do olho. Os olhos que estão sempre tão ameaçados. Por tudo o que se vê, pela ausência, pelo pó, pelo sono, pelos máximos do carro que nos aparece em frente, pelas próprias pestanas que nos defendem, pelo invisível, pela violência, pela nudez, pela beleza, pelo desastre, pela miopia. Sobretudo pela aparência. É preciso alguém que nos livre da ceguez”. Daniel Faria 1971-1999."


Germano Oliveira in "Expresso Curto",
de 27.Jul.2021


quarta-feira, 26 de maio de 2021



morrem aos pares

Poetas das manhãs

no crepúsculo

dos dias

para sempre

guardados.




rios que correm

sem margens

na savana angolana.

.

LMC






DAQUI:

MARIA ALEXANDRE DÁSKALOS

(1957-2021)


Nasceu em mim uma fonte

nada sabia dessa água

até encontrar as margens

desta escrita

que quis fosse lisa

como pedra mármore





***





Amendoeiras selvagens

em flor

a rasgar o verde

da mata de inverno.



Plenitude de maturidade

como relógio de areia

a marcar os quarenta anos.





***



Um homem ao crepúsculo

sabe que os poetas e as mulheres

percorrem as ruas da cidade



na peregrinação dificílima do amor.

Esperam-nos em caves secretas

ungüentos e odores tropicais

então, um homem tranqüilo torna fácil a nudez.





***





As velhas tias organizam velórios

e com o pêndulo do ocaso



invertem as rotas dos barcos

saídos do cais ao fim da tarde.



Ecos que já não lutam com ventos perigosos

de aromas marinhos

anseiam chegar à ilha para ver os pássaros

e

preguiçar na promessa de uma ilusão cumprida

Ao fim da tarde...





***



A alma é como a lavra.
Quando as nossas mãos voltam a desfiar.
O milho amarelo de ouro?
Que outras mãos que as nossas semeiam
O medo e o silêncio da morte?
Por que este frio? Por que tão longa a noite?
Como se faz o mundo? Quando começa o mundo?


***



O garoto corria corria
Não podia saber
Da diferença entre as flores.
O garoto corria corria
Fugia.
Ninguém lhe pegou ao colo
Ninguém lhe parou a morte.




***



E agora só me restam
os poetas gregos.
O silêncio diz - esquece.
E o espinho da rosa enterrado no peito
é meu. Os deuses não assistiram a isto.

*



Maria Alexandre Dáskalos, poeta angolana, nasceu em Huambo, em 1957, filha do poeta e intelectual nacionalista Alexandre Dáskalos. Estudou nos colégios Ateniense e de São José de Cluny, formando-se em Letras. Em 1992, durante a guerra civil, mudou-se para Portugal, com a mãe e o filho. Atualmente, é jornalista na RDP África e mestranda em História Contemporânea. Publicou Do Tempo Suspenso (1998), Lágrimas e Laranjas (2001) e Jardim das Delícias (2003).








Arlindo do Carmo Pires Barbeitos

(1940-2021)



Arlindo do Carmo Pires Barbeitos, nasceu em Catete, Província de Icolo e Bengo, Angola, em 24 de Dezembro de 1940. Em 1961, foi obrigado a fugir de seu país por motivos políticos. Viveu na a França, Bélgica, Suíça, e Alemanha, onde cursou Antropologia e Sociologia na Universidade de Frankfurt. Tem doutorado em Etnologia e foi professor na Universidade Livre de Berlim Ocidental e na Universidade de Angola, para onde regressou em 1975.





No tempo/em que as pacaças entravam



no tempo

em que as pacaças entravam

pelos povoados

o vôo alvoraçado das perdizes

carregava sonhos

que

a mãozinha inerme de criança

feliz

agarrava ao lusco-fusco dos muxitos

no tempo

em que as pacaças entravam

pelos povoados



(Na leveza do luar crescente)





Oh flor da noite/onde todo o orvalho se perde



Oh flor da noite

onde todo o orvalho se perde



teus olhos

não são estrelas

não são colibris



teus olhos

são abismos imensos

onde na escuridão

todo um passado se esconde



teus olhos

são abismos imensos

onde na escuridão

todo um futuro se forma



oh flor da noite

onde todo o orvalho se perde



teus olhos

não são estrelas

não são colibris



(Angola Angolê Angolema)





"borboletas de luz"



borboletas de luz



esvoaçando

de cadáver em cadáver

colhem

o fedor dos mortos em

vão



e

pelos buracos da renda

dos dias

passam alacres

do mundo do esquecimento

ao país da indiferença

levando consigo

o pólen fatal

das flores da guerra



borboletas de luz



(Na leveza do luar crescente)





"oh alambique..."



oh alambique

de saudade



destilando

álcool de poesia

pára pára



oh alambique

de saudade



(Na leveza do luar crescente)





"imersa em sereno de lusco-fusco"



imersa

em sereno de lusco-fusco

e

suspensa em vazio



São-Tomé



carrocel de montanhas

carregador de nuvens

transportados de sonhos

irrompendo

de abismo de espuma

e

sumindo

em precipício de bruma



São-Tomé



suspensa em vazio

e

imersa em sereno de lusco-fusco



(Na leveza do luar crescente)





"na leveza do luar crescente"



na

leveza do luar crescente

sobe

a ilusão da felicidade

que

teu gesto distraído

me dá



como se

plumas vogando suaves

na brisa

fossem

vida de pássaro apodrecendo

na

leveza do luar crescente



(Na leveza do luar crescente)





"na transparência da tardinha"



na transparência da tardinha

que

impávidos imbondeiros sombreiam



cantar de galinha do mato

é

eco de um tempo

em

que ilusão e verdade

cirandavam alheias ao mundo



a esperança medrava verde

verde

como rebento de capim de outubro



na transparência da tardinha

que

impávidos imbondeiros sombreiam



(Na leveza do luar crescente)





"pela névoa de pesadelo"



pela névoa de pesadelo

a dor passa

clandestina

a fronteira dos instantes

e implacável

monta guarda

ao porão dos dias

ao contorno dos gestos

ao ruído das coisas

e

ao sentido das palavras

embaciadas

pela névoa do pesadelo



(Na leveza do luar crescente)








CARNAVAL CARNAVAL CARNAVAL

carnaval carnaval carnaval

guizos apitos dicanzas* gomas2** puitas*** e quissanges
vozes

vozes cantando berrando gritando chorando gargalhando

[e calando

papel riscado seda serapilheira peles e pele missangas pulseiras chapéus espelhinhos cacos de

[garrafas e outras coisas

vermelho amarelo verde azul

azul verde amarelo vermelho o céu e o sol

carnaval carnaval carnaval



olhos para o ar mãos sem nexo peitos em turbilhão ventres abobadados cus em assimetria e corpos jazendo gentes

gentes gingando bamboleando saracoteando

[massembando^ cambalhotando e dormindo



carnaval carnaval carnaval

poeira

poeira branca como fuba bombó***** cobrindo

crianças cães folhas mangas água e tudo

cheiro

cheiro de bode cheirando de lábios revirados e mijo

[das cabras

cheiro de bagre seco repousando na calma das quinda******
cheiro de catinga em nossos sovacos ardentes
cheiro de sentina que o vento traz das piteiras ao lado

[de cacimba

cheiro de chuva de ontem nas lavras sem ninguém

e cheiro de pólvora dum outro dia de fevereiro ainda

[por chegar



carnaval carnaval carnaval



feiticeiro velho que fala com jacaré
passeando lentamente de chucho no ombro e branco

brando vendendo vendendo carnaval carnaval carnaval



1 dicanza — chocalho.

goma — espécie de tambor.
pufta — cuíca
massembando — dançar a massemba (dança tradicional de Angola).
fuba bombó — farinha de mandioca.
Quinda - cesto







O JOÃO CAMBUTA QUE FORA MILITAR





O joão cambuta que fora militar tinha um apito da tropa

O Nando china que era mulato fez uma gaita de caniço

6 quinda - cesto

O Chico pernambucano que não era brasileiro mas que mancava da perna direita trouxe uma puíta* do avô caçador



O Tumba pastor porque era do sul
marcava ritmo com dois pauzinhos


O Pazito funileiro que vinha de Capolo
só tocava de assobio
mas não estragou a música.



*puita - inztrumento musical





A SOMBRA DA ARVORE VELHA DE MUITOS SOBAS





A sombra da árvore velha de muitos sobas.*
só cresceram muxitos**

O sussurrar encarcoleante dos surucucus d'areia

marcava dédalos efémeros

que os quissondes*** iam devorando

A sombra da árvore velha de muitos sobas só cresceram muxitos



*sobas – chefes tradicionais
**muxitos – arbustos
***quissondes – formigas grandes






BEIJO ATÉ A GARGANTA TUA BOCA PANTANAL





Beijo até à garganta tua boca pantanal

paradeiro obsidiano de sapos miasmas excrementos e

[orquídeas roxas
respiro teu halo mortífero de febres palustres
chupo tua língua dura
tronco de mulemba* carcomida
que sopro de mologe** zangado
fez tombar à água
em noite de trovoada seca
respiro teu halo mortífaero de febres palustres
beijo até à garganta tua boca pantanal
paradeiro obsidiano de sapos miasmas excrementos e
[orquídeas roxas





*mulemba – árvore de fruto comestível
**mologe - feiticeiro

sábado, 15 de maio de 2021

Ana Moura_ novo disco


 
Letra:

Passo os meus dias em longas filas
Em aldeias, vilas e cidades
As andorinhas é que são rainhas
A voar as linhas da liberdade
Eu quero tirar os pés do chão
Quero voar daqui p'ra fora e ir embora de avião
E só voltar um dia
Vou pôr a mala no porão
Saborear a primavera numa espera e na estação
Um dia disse uma andorinha
Filha, o mundo gira, usa a brisa a teu favor
A vida diz mentiras
Mas o sol avisa antes de se pôr
Eu quero tirar os pés do chão
Quero voar daqui p'ra fora e ir embora de avião
E só voltar um dia
Vou pôr a mala no porão
Saborear a primavera numa espera e na estação
Já a minha mãe dizia
Solta as asas, volta as costas
Sê forte, avança p'ra o mar
Sobe encostas, faz apostas
Na sorte e não no azar

terça-feira, 4 de maio de 2021

Filme "A Criada"

"Quando Jinlian por fim despiu a roupa, Ximen-Wing examinou o seu Portão de Jade, viu que era liso, branco como a neve, suave como jade. Apertado como um nó, dedicado como seda. Assim que afastou as cortinas de carne, o odor de vinho bem envelhecido emanou do interior e, sobre dobra após dobra, do interior de veludo avermelhado formavam-se contas de orvalho. O âmago era escuro e vazio, e, contudo, como se tivesse vida própria, estava sempre a contrair."

do filme "A Criada", de Park Chan-Wook

quarta-feira, 28 de abril de 2021

"O que ando a ler"



Germano Oliveira

Editor online

"Respeito muito a sorte, um dia a minha família quis meter-me no ciclismo e tive de fazer um teste com outros atletas, no fim da prova caí e bati com a boca no chão, o meu primeiro troféu no desporto foi lábios inchados para uns dias e um dente torto para a vida, que campeão, agora sempre que sorrio os outros podem ver como a sorte me sorriu mas nunca quis que os dentistas mexessem na minha sorte porque sempre que a escovo com o meu dentífrico quando me levanto de manhã e depois quando me deito à noite essa é a maneira que tenho de celebrar todos os dias a gratidão de ter a minha inteligência intacta: eu ia sem capacete no dia em que caí porque o ciclismo agora obriga a usá-lo mas naquele tempo não, portanto eu podia ter batido com a cabeça mas bati com a boca no chão, não sei como aconteceu mas sei que cair é um azar mas cair bem é uma sorte e eu cá prefiro negar coisas a dentistas do que depender de neurologistas, a vida é mesmo um milagre ainda maior quando o estado da cabeça continua no seu melhor, por isso respeito muito a sorte de ter um dente que se tornou torto e uma inteligência que se manteve direita, penso sempre nisso quando pego na minha escova de dentes e para mim tem beleza e conforto maiores que um sorriso perfeito, portanto deixem-me em paz dentistas que me querem pôr um aparelho, anos depois já era ciclista a sério e voltei a ter uma queda que me entortou outra parte do corpo mas tenho tanta sorte na minha sinuosidade e aprendo tanto com ela, veja bem: um dia fui treinar sprints na estrada de Entre-Os-Rios para depois ir competir à pista de Alpiarça, acabou mal, a corrente da bicicleta partiu-se e eu capotei, lembro-me de ver o mundo ao contrário enquanto andava à volta no ar e depois de não me conseguir levantar quando tentei sair do chão, foi assim que descobri pela primeira vez como dói cair depois de subirmos na vida e como custa ainda mais levantar-nos, mas voltando à história: nesta queda eu ia de capacete e ele estalou-se quando bati na estrada e a minha clavícula também, é uma agonia absurda mas de tudo o que se podia ter quebrado foi o osso do ombro que se articula com o esterno e o úmero que cedeu, o pescoço caiu bem as costas também e a cabeça idem porque graças a Deus o capacete, depois no hospital avisaram-me que iria caminhar torto durante umas semanas porque o ombro afetado tinha ficado temporariamente desnivelado, ainda hoje está porque fui a um endireita depois do hospital porque queria acelerar a recuperação mas devia era ter feito a fisioterapia que me recomendaram para curar lentamente a lesão, por isso respeito muito a sorte que só me deixou um ombro torto em vez de danos piores para me ensinar que há decisões de momento que têm consequências para a vida inteira, continuando: tive mais quedas entretanto, numa ganhei uma cicatriz na coxa quando deitei abaixo parte do pelotão ao cair numa curva com areia e fui entre todos aquele que se magoou menos e noutra fiquei com uma cicatriz debaixo do queixo quando bati a 50 à hora numa pessoa que atravessou a estrada sem olhar, às vezes penso na sorte que tive em todas as quedas graves porque ora aprendi filosofia ora anatomia mas nunca perdi o essencial que é a minha memória e imaginação e o meu juízo e raciocínio e a minha capacidade de abstração e conceção, o dicionário diz que isso tudo é inteligência e essa ficou-me sempre intacta nos meus desastres de bicicleta, não interessa a dimensão da inteligência mas sim que é a nossa, neste caso a minha, tive tanta sorte “e não há nada de mal nisso, o inimigo queixava-se de Napoleão por ele ter generais com sorte, ao que o imperador retorquia que não gostava de generais sem sorte”, isto é do João Lobo Antunes no prefácio do “De Profundis, Valsa Lenta”, é a história de quando o grande José Cardoso Pires teve um acidente vascular cerebral de gravidade muito acentuada, aconteceu assim e é contado pelo próprio:

“Janeiro de 1995, quinta-feira. Em roupão e de cigarro apagado nos dedos, sentei-me à mesa do pequeno-almoço, onde já estava a minha mulher com a Sylvie e o António, que tinham chegado na véspera a Portugal. Acho que dei os bons dias e que, embora calmo, trazia uma palidez de cera. Foi numa manhã cinzenta que nunca mais esquecerei, as pessoas a falarem não sei de quê e eu a correr a sala com o olhar, o chão, as paredes, o enorme plátano por trás da varanda. Parei na chávena de chá e fiquei. ‘Sinto-me mal, nunca me senti assim’, murmurei numa fria tranquilidade.
Silêncio brusco. Eu e a chávena debaixo dos meus olhos. De repente viro-me para a minha mulher: ‘Como é que tu te chamas?’.
Pausa. ‘Eu? Edite.’ Nova pausa. ‘E tu?’ ‘Parece que é Cardoso Pires’, respondi então”,

e a seguir ele levanta-se para ir tratar da higiene matinal e eu descubro a lê-lo que a minha escova de dentes fez coisas melhores por mim que a dele por ele,

“Tudo o que sei é que me pus ao espelho da casa de banho a barbear-me com a passividade de quem está a barbear um ausente - e foi ali.
Sim, foi ali. Tanto quanto é possível localizar-se uma fracção mais que secreta de vida, foi naquele lugar e naquele instante que eu, frente a frente com a minha imagem no espelho mas já desligado dela, me transferi para um Outro sem nome e sem memória e por consequência incapaz da menor relação passado-presente, de imagem-objecto, do eu com outro alguém ou do real com a visão que o abstracto contém. Ele. O mesmo que a mulher (Edite, chama-se ela mas nada garante que esse homem ainda lhe conheça o nome, que não a considere apenas um facto, uma presença), exacto, esse mesmo Ele, o tal que a Edite irá encontrar, não tarda muito, a pentear-se com uma escova de dentes antes de partirem de urgência para o Hospital de Santa Maria e o mesmo que, dias depois, uma enfermeira surpreenderá em igual operação ao espelho do lavatório do quarto”,

tenho uma pessoa na minha vida que sei que leu recentemente duas vezes este livro do José Cardoso Pires, esta minha pessoa teve um acidente de bicicleta mais grave que todos os meus porque quando se levantou não pôde negar coisas a neurologistas e aprendeu de maneira absolutamente pior que a minha quanto nos custa reerguer a vida depois de ela nos cair ao chão, eu tive sempre a sorte toda nas vezes que caí e esta minha pessoa teve toda a sorte nenhuma de uma só vez, respeito muito a sorte mas não entendo mesmo como ela se distribui, talvez eu tenha mais medo do que respeito pela sorte, enfim, esta pessoa da minha vida que caiu esqueceu-se de palavras nomes factos e memórias depois do acidente, o José Cardoso Pires descreve no “Valsa Lenta” em quem nos transformamos quando isso acontece:

“Sem memória esvai-se o presente que simultaneamente já é passado morto. Perde-se a vida anterior. E a interior, bem entendido, porque sem referências do passado morrem os afectos e os laços sentimentais. E a noção do tempo que relaciona as imagens do passado e que lhes dá a luz e o tom que as datam e as tornam significantes, também isso. Verdade, também isso se perde porque a memória, aprendi por mim, é indispensável para que o tempo não só possa ser medido como sentido”,

mais adiante no livro o José Cardoso Pires conta que chegou a ser noticiado que ele tinha morrido, “morte cerebral, foi com esta expressão que a Agência Lusa passou a notícia à imprensa para o outro lado dos muros do Hospital de Santa Maria”, mas o triunfo dele não foi ter ficado vivo mas ter voltado a ser a pessoa dotada que era antes do AVC, isso é que é ressuscitar: o diagnóstico inicial que lhe fizeram não fazia prever uma recuperação total, antevia-se uma perda permanente de faculdades intelectuais, mas a ciência é continuamente surpreendida pela instinto humano de preservação e superação - ninguém soube explicar de que maneira aconteceu mas ele recuperou subitamente, num dia era o Outro e no dia a seguir era o José Cardoso Pires, os médicos espantaram-se, “alguém me dá os parabéns como se tivesse sido eu o autor deste triunfo e um psiquiatra meu amigo expõe o fundamental da recuperação surpreendente, surpreendente, repetiu ele, que me tinha acontecido”, no prefácio do livro o João Lobo Antunes também conta a sua surpresa com a recuperação do José Cardoso Pires e é nessa reflexão que aparece o Napoleão mas tanto mais,

“É claro que lhe podia enunciar cientificamente os possíveis mecanismos pelos quais se operou a sua restitutio ad integrum. Não sei, nem para o caso importa muito, quais eles foram. Eu tenho duas outras explicações originais, uma talvez pouco científica, e a outra digna de mais madura reflexão.
A primeira é que você simplesmente teve sorte, e não há nada de mal nisso. O inimigo queixava-se de Napoleão por ele ter generais com sorte, ao que o imperador retorquia que não gostava de generais sem sorte, princípio para mim fundamental na prática da profissão.
A segunda é que a área que temporariamente você deixou à sede e à fome, e pela qual falava, lia e escrevia, tudo funções em que é exímio, era mais musculada que a do comum dos mortais. E isto não é treta, porque se sabe hoje que os donos do ouvido absoluto, que lhes permite a identificação imediata de qualquer som - e Mozart tinha-o, e de forma admirável -, têm a área auditiva do córtex cerebral indiscutivelmente hipertrofiada”,

respeito muito a sorte mas respeito ainda mais a inteligência, por isso estou hipertrofiado não de esperança mas da certeza de que a minha pessoa que caiu está agora a ser autora de um triunfo à maneira dela, nada surpreendente surpreendente para quem a conhece porque a área que ela deixou temporariamente à sede e à fome e pela qual falava, lia e escrevia, tudo funções em que é exímia, é mais musculada que a do comum dos mortais e isso não é treta porque ela é a campeã do halterointeligenciofilismo: a má sorte pode partir-nos a vida mas a inteligência pode consertá-la e tu, pessoa que caiu e que já vi entretanto de pé, tu és dona de uma força absoluta e tens uma inteligência que é inspiração e também a tua salvação - e se tiveres medo neste teu caminho, porque ter medo nem sempre é cobardia porque às vezes é somente inteligência, lê duas vezes a Clarice Lispector: “Naquela hora da noite conhecia esse grande susto de estar viva tendo como único amparo apenas o desamparo de estar viva. A vida era tão forte que se amparava no próprio desamparo”."

in: "Expresso Curto"

quinta-feira, 11 de março de 2021

Amor Afoito_ Ana Moura




 Amor Afoito_ Ana Moura (do álbum "Desfado" 


Letra

Dou-te o meu amor
se mo souberes pedir, tonto
Nâo me venhas com truques, pára
já te conheço bem demais

Dou-te o meu amor
sem qualquer condição, por ora
Mas terás de provar que vales
mais que o que já mostraste ser

Se me souberes cuidar,
já sei teu destino
Li ontem a sina,
a sorte nos rirá, amor

Se quiseres arriscar
não temas a vida
Amor, este fogo
não devemos temer

Dou-te o meu amor
em troca desse olhar, doce
Não resisto e tu tão bem sabes
Tenho raiva de assim ser

Tudo em mim, amor, é teu, 
Podes tocar, não mordo
Sabes bem que não minto, tonto
Meu mal é ter verdade a mais

Se me souberes cuidar,
já sei teu destino
Li ontem a sina,
a sorte nos rirá, amor

Se quiseres arriscar
não temas a vida
Amor, este fogo
não devemos temer

Se me souberes cuidar,
já sei teu destino
Li ontem a sina,
a sorte nos rirá, amor

Se quiseres arriscar
não temas a vida
Amor, este fogo
não devemos temer

Compositor: Nuno Figueiredo e Jorge Benvinda


domingo, 21 de fevereiro de 2021

Carmen Dolores diz...

Carmen Dolores diz "*Deixa-me ser tua amiga amor" de Florbela Espanca


Amiga

Deixa-me ser a tua amiga, Amor,

A tua amiga só, já que não queres

Que pelo teu amor seja a melhor,

A mais triste de todas as mulheres.


Que só, de ti, me venha mágoa e dor

O que me importa a mim?! O que quiseres

É sempre um sonho bom! Seja o que for,

Bendito sejas tu por mo dizeres!


Beija-me as mãos, Amor, devagarinho ...

Como se os dois nascêssemos irmãos,

Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho ...


Beija-mas bem! ... Que fantasia louca

Guardar assim, fechados, nestas mãos

Os beijos que sonhei prà minha boca! ...


Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas"

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Joan Margarit, RIP

 

11.Maio.1938 - 16.Fevereiro.2021


“O poema surge do interior do poeta, da sua própria vida, e ainda assim deve falar daqueles subtilíssimos sentimentos que não lhe pertencem a ele apenas, pois nesse caso seria um mau poema, na exata medida em que não poderia interessar a ninguém mais do que a si mesmo. Os poemas devem construir-se a partir de algo que, constituindo parte da vida do poeta, pertença igualmente à dos demais”


Joan Margarit, 

prólogo, da tradução do catalão para português de “Misteriosamente Feliz”, pela Língua Morta, em 2015


terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Quinteto Lisboa




Quinteto Lisboa





A história que o Quinteto Lisboa vem contar, é simples.
O Quinteto Lisboa é um projecto que surge a partir da cumplicidade de vários anos entre a dupla de compositores João Monge (letrista) e João Gil (músico e guitarrista) e de dois músicos de excelência, José Peixoto (guitarrista) e Fernando Júdice (baixista).
As vozes são de Paulo de Carvalho e Maria Berasarte.


O Quinteto Lisboa traz uma alma nova à música e pretendem marcar o “movimento” do que pressentem ser a “nova Música Urbana Portuguesa”, levando compositores e intérpretes a encontrar algo de novo dentro das suas raízes. O projecto é um grupo que nasce da vontade de trazer uma nova sonoridade à música portuguesa. Segundo os autores, “não é um projecto de fado, mas o QUINTETO jamais existiria se não houvesse fado”.
O disco homónimo é, de resto, testemunho desta missão. Ao longo de 15 canções, as vozes de Paulo de Carvalho e Maria Berasarte cruzam-se e descruzam-se, perdem-se e reencontram-se nos acordes delicados das guitarras de João Gil e José Peixoto.
“Pé Ante Pé” é o single de apresentação do “Quinteto de Lisboa”.
João Gil assina a composição desta letra de João Monge, a que Paulo de Carvalho empresta a voz numa interpretação única.

*****
AQUI: Armando Carvalheda recebeu, no estúdio 23, o Quinteto Lisboa, apresentando três temas.
Enquanto os músicos, que integram a formação, desvendavam o espírito subjacente à música que fazem.

Captação e gravação de Eric Harizanos.
Produção Ana Sofia Carvalheda.









QUINTETO LISBOA

Membros:
Maria Berasarte - Voz
Paulo de Carvalho - Voz
José Peixoto – guitarra clássica
João Gil – guitarra acústica
Fernando Júdice – baixo acústico



Alinhamento:
01. Fado Enamorado
02. Vai
03. Pé Ante Pé
04. Casa
05. Fado Açoriano
06. Atrás dos Meus Cortinados
07. Quase Oração
08. Fado Flor
09. Pregão
10. Bem Dizias
11. Memórias de Adriano
12. Confissão
13. Tão Tarde
14. Noite e Dia (Estranha Dança)
15. Depois da Chuva











sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Leonel Cosme



Morreu o escritor Leonel Cosme, 
autor de "A Revolta"


Tinha 86 anos. As cerimónias fúnebres realizam-se esta sexta-feira.

PorLusa


Quando eu morrer ponham-me num museu
que o meu lugar é aí.
Coloquem na vitrina este letreiro:
“Espécie rara de tipo invertebrado
verdadeiramente fenomenal.
Fez poesia. Cursou a Faculdade. Sofreu
entre outras coisas, ausências de dinheiro,
e, como os humanos, pensou no Bem e Mal.
Chegou a convencer-se que era gente.
Mas morreu.
E por tudo isso que o fez diferente
dos outros invertebrados
veio parar à sala de um museu”

18-12-57

Quando eu me for
Seja um fim de tarde
Quando o sol já perde o fulgor
E já não arde.
Que me vá devagarinho
Suavemente
Como pétala de flor
A cair sobre o tampo
De uma mesa
Sem tristeza
Nem dor
Apenas como um eco
Que se cala.

03-03-08

"Há um tempo de chegar e um tempo de partir... Chegou a hora de o meu pai, Leonel Cosme, partir", escreve a filha Ariana Cosme, na sua página do Facebook.

Na publicação, Ariana Cosme recorda que o pai deixou escrito no seu último livro "Homo Sum: Tempo de Partir e Chegar" (no prelo na Unicepe) a sua última vontade: "Quando eu morrer quero apenas sobre a campa uma lápide ou tampa com o meu nome, pois ele diz o que eu valer (...)".


Leonel Cosme nasceu em Guimarães, em 1934, e viveu 30 anos em Angola, para onde partiu, em 1950, com a família.

Radicou-se naquela então colónia portuguesa, onde foi funcionário público e exerceu jornalismo, tendo regressado a Portugal em 1975.

Em 1982, voltou a Angola e ali permaneceu até 1987, ano em que regressou definitivamente a Portugal.

Prosseguiu, no Porto e em Lisboa, a atividade jornalística que já desenvolvia em Angola, na imprensa e na rádio, e, em 1990, retirou-se do jornalismo profissional para se dedicar à atividade literária, representada por colaboração em jornais e revistas da especialidade, obras de ficção e ensaio histórico-literário.

Publicou as novelas "Um Homem na Rua" (1958) e "A Dúvida" (1961), os contos "Quando a Tormenta Passar" (1959) e "Graciano" (1960), e ainda o livro de poemas "Ecce Homo" (1973).

No domínio do ensaio, publicou "A Separação das Águas - Angola 1975-1976", "Cultura e Revolução em Angola" (1978), "Agostinho Neto, a Poesia e o Homem" (1984), "Muitas são as Áfricas" (2006).

Escreveu ainda uma 'pentalogia', genericamente intitulada "A Revolta", iniciada na década de 1980, de que fazem parte títulos mais recentes como "A Terra Da Promissão" e "A Hora Final".

Em Angola, colaborou na revista Cultura, de Luanda (1957-1961), e no Boletim Cultural de Huambo, publicado na então cidade de Nova Lisboa (1948-1974) e foi um dos fundadores e diretor das Edições Imbondeiro, de Sá da Bandeira (hoje Lubango), onde prefaciou e publicou, em parceria com Garibaldino de Andrade, as que foram consideradas -- pelo conteúdo e pelo momento histórico da edição -- as mais importantes antologias da nova literatura angolana: "Contos d' África" (1961), "Novos Contos d'África" (1962) e "Antologia Poética Angolana" (1963).

Leonel Cosme é também o autor do catálogo da Primeira Exposição de Bibliografia Angolana (Sá da Bandeira, hoje Lubango, 1962), com cerca de 700 títulos distribuídos por seis áreas: História e Sociologia, Etnografia, Literatura e Ficção, Viagens e Narrativas, Vários Estudos, Antropologia.

Participou em congressos, seminários e colóquios, promovidos, designadamente, por institutos universitários de Portugal, do Brasil e de Itália.



segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

...

 DAQUI:



A loucura, meu bem,
foi tentar agarrar o canto dos pássaros
e a nudez dos ramos,
a ouvir histórias do vento que passa.
Entender na imagem o murmúrio das folhas caídas, um manto de preces a proteger raízes.
Esta foi a loucura, meu bem,
querer oferecer-te numa imagem
a magnífica sinfonia das árvores.
E trazer aos teus olhos, nada mais,
que o silêncio que atravessa a ponte...




Sónia Micaelo
(Texto e imagem)

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Fascismo_Opinião





DAQUI: Germano Oliveira, 

in Expresso Curto

"O QUE EU ANDO A LER
Sou filho de feirantes, à segunda tínhamos a feira de Espinho onde os meus pais conheceram o Germano Augusto de quem herdei esses dois nomes ao escolheram-no para meu padrinho quando nasci, foi uma circunstância que veio a ter uma coincidência - o restaurante que se tornou o meu preferido das minhas segundas-feiras de criança em Espinho chamava-se O Padrinho, a vida tem redundâncias tão bonitas; sou filho de feirantes, à terça não havia feiras para nós porque era dia de planear as seguintes e de fazer a contabilidade do que se ganhou nas anteriores mas à quarta era a feira dos Carvalhos, foi lá que o meu pai me deixou ir a uma loja subscrever a TV Cabo porque ele não tinha dinheiro para me levar ao mundo mas deixou que eu tivesse dezenas de canais para que o mundo se mostrasse a mim, a vida tem criatividades financeiras tão bonitas; sou filho de feirantes e à quinta era a feira de Pedras Rubras que tinha o nome do aeroporto que agora é Francisco Sá Carneiro e onde eu sonhava viagens naqueles aviões em que nunca pensei ter a possibilidade de entrar mas tive, a primeira vez que voei foi porque me tinha tornado atleta e era preciso um avião para me levar à competição e pagaram-me tudo, então o meu pai veio comigo para nos comovermos a voar sobre Pedras Rubras, a vida tem retribuições tão bonitas; sou filho de feirantes e às vezes não se ia a Pedras Rubras às quintas-feiras porque era necessário ir a Vigo comprar centenas de gomas e dezenas de brinquedos baratos para se venderem mais caros nas feiras de Portugal, eram excursões na camioneta do Sousa que seduzia sempre alguma mulher naquelas viagens, eu queria ser como o Sousa toda a gente queria, o Sousa era alto simpático elegante e conduzia depressa, a vida está cheia de Sousas que nos fazem querer ser mais bonitos; sou filho de feirantes e às sextas era a feira de Santana, enquanto o meu pai vendia bolos de teixeira eu metia-me dentro do velhinho minicamião Mitsubishi dele e fazia daquela cabine a minha feira do livro, Álvaro Magalhães Enid Blyton Ana Maria Magalhães Isabel Alçada, o mundo era uma aventura no Mitsubishi, a vida dá-nos memórias tão bonitas; sou filho de feirantes e ao sábados e domingos não se vendia nas feiras mas na Ribeira do Porto, a Rosa Manca e a Dolores eram as rainhas das vendas daqueles fins de semana e o meu pai o rei do pão, às vezes o Reinaldo Teles e o Pinto da Costa apareciam lá e chamavam Bento Padeiro ao meu pai e eu passei a fazer igual, em vez de pai chamava-lhe Bento, na verdade senhor Bento, sou um institucionalista desde cedo e a minha primeira grande instituição foi aquele padeiro-pai, a vida às vezes dá-nos laços de sangue tão fortes e bonitos.

Mas porque escrevo isto?, não há dramas nem convulsões no que expliquei até aqui, que interessa então?, “o homem moderno necessita de ruído, de excitação constante, quer satisfazer as suas necessidades. Como nos tornámos cada vez mais insensíveis, necessitamos de métodos mais grosseiros de satisfazer a nossa ânsia de estimulação. (...) Fomos intoxicados pela ideia de que tem de acontecer alguma coisa, estamos obcecados com a velocidade e a quantidade”, pois eu podia ter proporcionado isso se quisesse escrever sobre pistolas heroína roubos agressões detenções ou afins, as feiras onde cresci tinham disso tudo mas também o seu oposto, bondade solidariedade abnegação dignidade lealdade e qualidades afins, mas quando se cresce num contexto anormal procuramos ansiosamente agarrar-nos ao que há de mais normal, é uma questão de sanidade e sobrevivência, é escolher entre a serenidade ou a violência, e é por isso que qualquer detalhe banal se transforma num acontecimento fenomenal, a banalidade é tão subestimada então que se sobrestime, e é por isso que quando nos tornamos adultos depois disto ficamos tão necessitados do normal e ainda mais preocupados com o anormal, qualquer detalhe aparentemente inofensivo transforma-se num acontecimento repulsivo, veja isto que andei a ler:

a nossa constituição começa assim, “A 25 de Abril de 1974, o Movimento das Forças Armadas, coroando a longa resistência do povo português e interpretando os seus sentimentos profundos, derrubou o regime fascista”, é preciso chamar os regimes pelos nomes, fascista, isso, era fascismo sim, fascismo que na versão simplista dos dicionários online é “uma ideologia política ultranacionalista e autoritária caracterizada por poder ditatorial, repressão da oposição por via da força e forte arregimentação da sociedade e da economia”, mas há um partido que pretende mudar a nossa Constituição para que ela comece assim, “A 25 de Abril de 1974, o Movimento das Forças Armadas, coroando a longa resistência do povo português e interpretando os seus sentimentos profundos, derrubou o regime vigente”, reparem, o regime não era fascista mas vigente, o povo não mandou abaixo o fascismo mas o vigentismo, é uma suavização hostil feita de maneira subtil, “uma variante do fenómeno da negação é a ideia de que mudar as palavras também muda os factos”, não muda mas afinal trata-se de negacionismo estratégico, “em 2004, o eminente historiador americano e especialista em história do fascismo Robert O. Paxton publicou a sua notável obra The Anatomy of Fascism, onde sublinha que, no século XXI, nenhum fascista se designará a si próprio como tal”, portanto não o assumem agora tal como escondem os de outrora, não é atitude de gente livre, “a liberdade é a capacidade de um indivíduo se libertar da estupidez, do medo e do desejo, de utilizar a razão e de viver na verdade”, todas estas citações que tenho feito são de um livro que andei a ler, “O Eterno Retorno do Fascismo”, foi escrito pelo Rob Riemen e é uma edição de fevereiro de 2012 que parece sobre dezembro de 2020, “Paxton afirma que o fascismo, devido à sua angustiante falta de ideias e ausência de valores universais, assumirá sempre a forma e as cores do seu tempo e da sua cultura. Assim, o fascismo na América será religioso e contra os negros, ao passo que na Europa Ocidental será laico e contra o islão, na Europa do Leste católico ou ortodoxo e antissemita. A técnica usada é idêntica em toda a parte: um líder carismático, populista, para mobilizar as massas; o seu próprio grupo é sempre vítima (das crises, da elite ou dos estrangeiros); e o ressentimento orienta-se todo para um ‘inimigo’. O fascismo não necessita de um partido democrático cujos membros sejam individualmente responsáveis; necessita de um líder inspirador e autoritário ao qual se atribuem instintos superiores (as suas decisões não têm de ser justificadas), de um líder capaz de ser seguido e obedecido pelas massas. O contexto em que esta forma de política pode dominar é de uma sociedade de massas afectada pela crise que ainda não aprendeu as lições do século XX”, parece que não, há quem acredite que é possível moderar os vigentes ao trazê-los para responsabilidades governativas, eis outra história do século XX: “O facto de o fascismo ter chegado ao poder em Itália e na Alemanha deveu-se, em grande medida, à arrogância, bem como à cobardia e perfídia, das elites sociais. A arrogância, a sobrestimação do próprio poder, manifestou-se em 1932 quando, na Alemanha, o Bürgerliche Katholische Partei (partido católico) e o Deutschnationalen (partido nacionalista) se mostraram satisfeitos com a entrada no governo de Hitler e dos seus acólitos. Partiram do princípio de que, desse modo, o poderiam controlar e tirar partido dos erros que cometeria para o eliminarem politicamente. A cobardia e a perfídia manifestaram-se nos sociais-democratas alemães que, embora na oposição, lhe deram um voto de confiança por medo de perderem ainda mais votos. Na verdade, para todos os eleitores que não votaram em Hitler, e que foram a maioria, nenhum partido foi capaz de liderar a resistência contra o monopólio nacional-socialista. E isto teve tudo que ver com a deterioração das elites, que não tiveram coragem para defender os seus princípios e responsabilidades sociais”.

Na saída da autoestrada que me leva ao bairro onde vivo há dois cartazes políticos, são as minhas contrastantes mensagens de boas-vindas a casa, no primeiro o candidato presidencial do partido que acha que as Forças Armadas e o povo derrubaram o vigentismo em vez do fascismo diz que não tem medo do sistema, seja lá o que o sistema for, o segundo cartaz tem Francisco Sá Carneiro sorridente acompanhado de uma frase simples, “O meu sentimento? Define-se numa palavra: responsabilidade”, Sá Carneiro que considerava “essencial que os partidos, as pessoas, os movimentos, as associações assumam as suas responsabilidades e ponham de parte o clima de ataques demagógicos e irresponsáveis”, ele que acreditava que “a Constituição deverá consagrar os direitos fundamentais que aos portugueses foram negados durante o fascismo: liberdade de pensamento, de expressão, de reunião, de associação política e sindical, garantia da segurança pessoal, direito à educação, à saúde, à habitação”, repare como ele diz fascismo, o meu pai-padeiro viveu 34 anos disso e não de vigentismo, 34 anos é praticamente a idade que eu tenho sempre em liberdade de pensamento de expressão de reunião de associação política e sindical e com garantia da segurança pessoal e direito à educação à saúde à habitação, por isso: se o sistema é ter o que o senhor Bento não teve então eu admiro adoro amo extasio-me com o sistema, o sistema pode ter todos os defeitos mas há um que não tem, o sistema reconhece a diferença entre regime vigente e regime fascista, portanto: sou filho de feirantes mas também filho do sistema e às segundas terças quartas quintas sextas sábados e domingos quero usufruir da herança que o Movimento das Forças Armadas, coroando a longa resistência do povo português e interpretando os seus sentimentos profundos, me deixou ao derrubar o regime fascista - a liberdade, mas a liberdade verdadeira: “A 3 de outubro de 1940, Thomas Mann dá uma conferência no Claremont College, em Los Angeles, sobre ‘Guerra e democracia’. Já estava exilado há sete anos porque não conseguia viver na Alemanha hitleriana. Antes vivera mais de trinta anos em Munique, onde testemunhara o modo como o movimento fascista conseguira chegar ao poder graças, em parte, a um domínio total da falsidade: as palavras eram isoladas dos seus significados e reduzidas a meros slogans. Vira com os próprios olhos, primeiro nos cafés e nos salões, e depois nas ruas e nas concentrações, como o povo se deixara convencer da existência de um movimento político e de um líder que lhe convinha. Um homem pronto a dedicar a vida às necessidades, interesses e liberdade do homem comum, que exprimiria e defenderia os valores do povo alemão. E uma das razões que o levaram a acreditar nesse líder foi o facto de ele não pertencer à classe política, ao establishment, mas ser um autêntico homem do povo, que falava a sua linguagem. Com base nessa experiência, Thomas Mann adverte o público americano: ‘Permiti-me que vos diga a verdade: se um dia o fascismo chegar à América, chegará em nome da liberdade’”."