segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Amália_Entrevistada em 1990




Amália
Arquivo Gesco

20 anos sem Amália. “Como poderia eu ser um mito se fui criada em Alcântara? Não posso inventar outra história”

“Não sou, nem de longe, a melhor voz que o fado já teve. Sou, isso sim, a pessoa com mais coisas negativas dentro de si. O fado gosta disso”. Numa entrevista publicada no jornal “A Capital” em 1990, por altura daquele que se tornaria o seu último álbum de originais, Amália Rodrigues confessava-se uma mulher-fado difícil de aturar, predestinada para cantar, mas avessa ao estatuto de mito. “É a minha maneira de ser que me dá cabo da vida, mas é graças à minha maneira de ser que tudo o que rodeia a Amália aconteceu”. Genial, lúcida, desassombrada e cortante, deixou-nos há 20 anos


Não é fácil entrevistá-la. Ao entrar-se em sua casa, subindo uma escada de degraus de pedra gastos pelo tempo, entra-se num mundo de recordações. A sua presença é avassaladora. As suas marcas adivinham-se não só na disposição dos móveis, mas também nos retratos – fotografados, pintados ou esculpidos. Estamos ali por causa do seu novo álbum, “Obsessão”. Os primeiros fados novos desde “Lágrima”, o disco de 1983. Na verdade, “Obsessão” mais não é do que um pretexto para se voltar, mais uma vez, a falar com Amália.
Na sala ampla onde a esperamos, duas meninas, alunas de uma escola secundária, esperam-na também. Ela chega e nós entregamos-lhe as flores. Rosas vermelhas. “Obrigado” é a primeira palavra que nos diz. De seguida pede desculpa, porque vai “atender as meninas”. Alguém nos diz que andam na escola e já há muito tempo que queriam falar com Amália. “Talvez para pedir conselhos”. As meninas dão-nos tempo para observar melhor os domínios da fadista. Azulejos portugueses na parede, flores por todo o lado, um piano ao canto da sala. Em cima do piano, uma fotografia oferecida “por aquele rapaz, o Leonel Moura”, aquele que pôs a palavra “Portugal” na boca de Amália.

“Nunca me senti um mito nem um deus. Só se eu fosse maluca e, por enquanto, ainda estou lúcida”

Quando, finalmente, Amália chega, corta-se a palavra a Vaclav Havel desligando a televisão. “Desculpem, vamos começar”, diz. Amália, como sempre, veste de negro. Não tira os óculos escuros porque o olho direito a incomoda – “treme e chora sem eu querer”. Enquanto o ‘flash’ da máquina fotográfica ilumina a sala semi-obscurecida, ela pede que eu conte uma anedota. Não sou capaz, é claro. “Eu gosto muito de anedotas, dizem até que tenho jeito para as contar. Todos os meus amigos dizem isso”. “Amigos”. Comecemos por aí.
“Quando cá estou, quase nunca saio de casa. As minhas amigas visitam-me muito” – afirma, justificando talvez a razão do desgaste dos degraus, depois prossegue: “Guardo muito os meus amigos. Tenho ainda amigos que conheci há vinte e trinta anos. Quando faço um amigo nunca o perco. Às vezes vêm da América, de França ou da Itália e nunca se esquecem de me visitar”.
Quando perguntamos se ela acarinha muito os amigos, ela ri e responde que é “ao contrário”: “Os meus amigos é que me acarinham a mim. Dão-me mimos. Eu sou esperta. Se tenho sede, digo “vou buscar um copo de água”. Não precisava de dizer isso, bastava-me levantar-me e ir à cozinha. Mas ao dizer aquilo eu sei que são eles que se levantam. Estou mimada, mas não estragada pelos mimos”.
Amália Rodrigues tem uma capacidade quase infinita para contar histórias. Está a falar e, de repente, faz uma pausa e desvia completamente o rumo ao seu discurso. Tem uma memória prodigiosa. Sendo uma figura histórica, Amália é, ao mesmo tempo, um mito vivo. Ela recusa, no entanto, essa condição, evidenciando uma modéstia desarmante. “Estão sempre a dizer coisas bonitas acerca de mim. Eu gosto muito de as ouvir, mas… no outro dia, um jornal de Barcelona chamava-me mito. Eu não sou um mito, sou apenas igual a mim mesma” – reclama Amália, antes de se justificar: “Um mito é um deus. As questões da filosofia e da mitologia interessam-me sempre. Nunca aprofundei na mitologia porque há muitos pais, muitos filhos e muitos primos naquelas histórias. Aprendi, no entanto, que os mitos são deuses. Eu nunca me senti um mito nem um deus. Só se eu fosse maluca e, por enquanto, ainda estou lúcida.
Comparamos Amália a outros ‘mitos’. Ela aproveita imediatamente a enumeração de outros ‘mitos’ para começar a falar. “Maria Callas… também lhe chamaram mito. Ela, para mim, era uma coisa extraordinária, mas nunca me passaria pela cabeça chamar-lhe um mito. Como poderia eu ser um mito se fui criada em Alcântara? Estou farta de dizer isto e ninguém quer acreditar. O que é que eu hei de fazer? Não posso inventar outra história. Os grandes artistas, como o Frank Sinatra, o Fred Astaire ou a Katharine Hepburn foram apenas artistas e eu exijo a essas pessoas coisas que não se podem pedir aos deuses”.

“A minha vida tem sido muito complicada, mas esses comprimidos que se tomam para se deixar de existir exigem muita coragem”

Talvez porque a luz, ainda que fraca, lhe cansa a vista, ou talvez porque assim as imagens de um passado que serve de fio condutor a esta entrevista sejam mais claras, Amália fala sempre com os olhos fechados. Como na capa de “Obsessão”. É exatamente desse álbum que agora começamos a falar. A primeira pergunta é inevitável: porquê tanto tempo sem editar um disco de originais?
“A minha vida tem sido muito complicada”. Amália prepara o terreno para falar de questões que lhe são difíceis: “estive doente há onze anos. Saí do hospital e fiz ‘Lágrima’, depois tive outra época em que estive mal. Eu julgava que estava muito mais doente do que o que realmente estava e isso ainda me deixava pior. Nessa época até pensei… em tomar uns comprimidos. Mas era muito difícil. Esses comprimidos que se tomam para se deixar de existir exigem muita coragem”.
O assunto é deveras delicado e Amália fala muito pausadamente. Com alguma dificuldade, vai recordando os factos que a mantiveram afastada dos estúdios durante tanto tempo. “Mais tarde passei por uma verdadeira ressurreição. Mas calaram-me na rádio, disseram que eu tinha fugido e, uma vez, num teatro em Itália, havia pessoas à porta que diziam ‘Amália fascista’. Tudo isso me manteve muito tempo longe dos discos”, explica a fadista. De repente, começa a tossir. Pede desculpa, diz que se engasgou e chama a empregada para lhe pedir um copo de água que é prontamente servido numa salva de prata. O incidente abre uma porta no passado que Amália aproveita para contar uma história que teve lugar em 1947. “Eu ainda estava no teatro. Quando estava a finalizar o meu número, algo que me entrou para a garganta, comecei a tossir tanto que fui obrigada a abandonar o palco lavada em lágrimas. As pessoas estavam a aplaudir e eu ainda consegui regressar ao palco. Fico preocupada quando começo a tossir assim”, comenta antes de retomarmos o fio à meada.



Capa de "Obsessão", álbum de originais de Amália Rodrigues lançado em 1990
Capa de "Obsessão", álbum de originais de Amália Rodrigues lançado em 1990

Sabendo já qual vai ser a resposta, pedimos a Amália que nos diga se está satisfeita com “Obsessão”. “Estou e não estou. Gosto de três ou quatro coisas. Há umas cantigas de roda que eu cantava na escola, ‘Chora Mariquinhas Chora’ e ‘Ó Ai Ó Linda’, que eu alterei para dizer às pessoas que o fado até se encontra nessas cantigas de roda. Gosto também do ‘Que Fazes Aí Lisboa’, do ‘Obsessão’ e ‘Flor de Verde Pinho’ está bem cantado. As outras…”. Interrompemos para saber a sua opinião sobre ‘Rondel do Alentejo’, sobre poema de Almada Negreiros. “Também é muito bonito. Mas não só. O fado ‘Prece’ é bonito, a ‘Entrega’ também. Só que estes dois não estão tão bem cantados porque me apanharam num dia em que estava doente. O disco, no geral, não está mal cantado, mas nota-se que às vezes falta garra”, afirma, num esforço notório de autocrítica. Amália raramente fica contente com o que grava, dizem-nos os seus mais próximos colaboradores, mas isso não a impede que grave sempre ao primeiro ‘take’. Há aqui um pequeno paradoxo.
“Eu não posso estar a mastigar um fado. Ou sai ou não sai, porque eu não posso cantar duas vezes igual. Em estúdio, quando canto mais do que três vezes uma coisa já não fico satisfeita. Além disso, tenho que me sentir disposta a gravar”, refere, para logo a seguir contar outra história: “Há muitos anos, fui a Londres. Como se sabe, os ingleses são muito rigorosos em horários. Pois eu cheguei ao estúdio, no primeiro dia, e não me apeteceu gravar. Eles ficaram doidos, nunca lhes tinha aparecido uma pessoa como eu. Não me trataram mal, mas vontade não lhes faltou”.
Amália confessa que há fados no disco que não ficaram como ela desejava, mas também acrescenta que ao vivo é capaz de os interpretar de tal maneira que levanta o público das cadeiras. “O disco – sublinha – tem uma carga minha suficiente, não tem 21 valores. Algumas interpretações têm 17, outras 18 e outras ainda só 12 ou 13. Destas eu não gosto”. Provando se realista, não se coíbe de fazer uma autocrítica, mas também reconhece que nunca cantou tão mal ao ponto que as pessoas dissessem “hoje não me apetece ouvir a Amália”.

“Agora façam favor de dizer ao Frank Sinatra que eu cantei e tive aqui muito êxito”




Capa do jornal "A Capital", de 19 de novembro de 1990
Capa do jornal "A Capital", de 19 de novembro de 1990

Pelas palavras que nos dispensa, quase podemos dizer que a obsessão de Amália é a perfeição, mas antes de nos esclarecer sobre este ponto, a fadista faz uma pausa significativa. “Acho que é a minha maneira de ser. Essa é a minha maior obsessão. Por um lado, é a minha maneira de ser que me dá cabo da vida e, por outro, é graças à minha maneira de ser que tudo o que rodeia a Amália aconteceu”.
Em “Obsessão” nota-se que há uma nova Amália. A voz suporta diferenças que não podem ser justificadas só pela idade. Amália diz simplesmente que está “mais triste”. E qual a razão de tanta tristeza? “Eu já era triste quando era mais nova. A tristeza dentro de nós nunca desaparece; cresce. A experiências da minha vida desencantaram-me. Sou muito exigente comigo mesmo, tão exigente que tenho dificuldade em encontrar pessoas que me aturem. Isto dá-me a certeza absoluta de que nasci predestinada para cantar o fado, sou um instrumento do fado”, afirma com a maior das certezas espelhada na voz, para depois continuar: “não quero com isto dizer que sou a melhor pessoa para cantar o fado. Eu não sou, nem de longe, a melhor voz que o fado já teve. Sou, isso sim, a pessoa com mais coisas negativas dentro de si. O fado gosta disso, exige essa condição. O fado quer que uma pessoa seja desgraçada, não no sentido de desgraçadinha, quer que uma pessoa seja triste como a noite e é esse o meu caso. Só não sou triste quando não estou sozinha. De resto, sou muito triste”.
Amália reclama para si o fado de viver guiada pelo instinto e de todas as decisões que toma serem totalmente espontâneas. Diz que isso se reflete na maneira como canta, na maneira como a sua carreira é gerida. “Eu nunca penso nas coisas. Faço-as e pronto. Às vezes, na rádio, querem-me dizer quais são as perguntas para eu pensar antes de entrar no ar e responder. Eu recuso. Não consigo pensar nessas coisas. Sou completamente espontânea a cantar e tudo. Sabe como é que eu terminei o meu espetáculo de Nova Iorque? Voltei ao palco depois dos encores e disse ‘agora fazem favor de dizer ao Frank Sinatra que eu cantei e tive aqui muito êxito’. Foi uma brincadeira que eu fiz sem pensar se devia fazê-la ou não”.
A deixa é boa e nós não hesitamos. Conheceu Frank Sinatra? Responde que sim e conta a história. “Estive na América há 40 anos, quando o Frank Sinatra tinha aquelas meninas que desmaiavam. A mim disseram-me que aquilo era tudo a fingir, que elas eram pagas para desmaiar nos espetáculos. E eu achei tão ridículo que embirrei com ele e não lhe dei confiança nenhuma. Eu andava no grupo do Eddie Fischer, Perry Como, Sammy Davis Jr., Nat King Cole e do Sinatra também. E como eu não tinha gostado nada do que me tinha contado, nunca lhe liguei. Acho que ninguém é capaz de fazer as pessoas desmaiar e depois continuar a fazê-las desmaiar ao longo de tantos anos. Mas tenho pena de ter embirrado com ele porque gostava de me ter mantido em contacto com ele, até para lhe mandar discos e saber a sua opinião acerca da minha voz”.



Amália entrevistada pelo jornalista Rui Miguel Abreu em novembro de 1990
Amália entrevistada pelo jornalista Rui Miguel Abreu em novembro de 1990
António José/Arquivo A Capital

“Tenho olhos de fado”

Em “Obsessão” Amália canta grandes poetas – Luís de Camões, Almada, Afonso Lopes Vieira, Pedro Homem de Mello, Francisco Bogalho… O que leva Amália a cantar estes poetas? “O Luís de Camões, por exemplo… isto é como as nêsperas: nós começamos sempre pelas maduras e acabamos por comer também as verdes. Bem, Camões não tem nêsperas verdes, são todas maduras. Eu cantei sempre Camões, acho que ele é um ‘poeta-fadista’”, sublinha Amália, citando depois o soneto ‘Com Que Voz Cantarei Este Meu Triste Fado”. “Isto é fado”, exulta a fadista, que revela ainda um plano secreto e pessoal de gravar um disco só com Camões, “para deixar, como homenagem”.
“Porque cantar é diferente de ler”, Amália, por vezes, altera poemas que lhe são entregues. “Geralmente, os poetas não se importam, porque eu discuto as alterações com eles. Costuma ser só uma palavra ou ou outra, mas é uma questão delicada para quem escreve. Nunca tive problemas, já alterei coisas do David Mourão Ferreira, por exemplo, e ele compreendeu. Mas, em ‘Obsessão’ houve um poema em que eu alterei uma palavra e o autor não gostou. Ele escreveu a dizer que estava contente por eu o ter escolhido, mas mostrou-se aborrecido pela mudança. Evidentemente, não vou dizer quem foi”, explica a fadista.
Com o Almada, de quem canta ‘Rondel do Alentejo’, o caso é diferente. Sem problemas, Amália confessa que “nem sequer sabia que ele era poeta”. “Eu conhecia-o só como pintor. Como não fui educada culturalmente, não sabia que ele também fazia poesia. Só mais tarde é que o Alain [Oulman] me apresentou à poesia em geral e ao Almada”. Amália é assim: não se importa de confessar uma certa ignorância, uma falta de cultura apenas aparente. Mas a cultura não se aprende só nos bancos da escola.
Depois de dar a sua visão pessoalíssima do fado – em sua opinião relacionada com o isolamento de Portugal, que “de um lado tinha as espadas dos espanhóis e do outro o mar” – e de nos falar do seu imenso amor pelas flores, Amália confessa o seu medo de algum dia deixar mal Portugal ao não ser capaz de cantar num palco estrangeiro.
Os seus projetos futuros são a homenagem a Camões e a gravação de um disco com poemas de Cecília Meireles musicados por Alain Oulman. Não se alonga no assunto porque lhe é difícil falar sobre esse amigo que morreu recentemente. Será a sua derradeira homenagem a um homem que lhe desbravou novos caminhos no fado.
Já depois de o botão ‘stop’ do gravador ter sido premido, Amália mostra-nos os quadros e fotografias que tem na sala para que possamos entender o que ela quer dizer quando fala em melancolia e tristeza. Um dos quadros da sala retrata-a aos 24 anos. “Como vê, aqueles olhos são os da cara, mas o olhar, esse, é o da alma. Tenho olhos de fado”.
Despedimo-nos. Obrigado. E, descendo as escadas de pedra que levam à rua, pensamos na sua última frase: “Tenho olhos de fado”. Para falar a verdade, achamos que Amália é a personificação do fado. Mas isso é outra história.
Publicado originalmente na edição de 19 de novembro de 1990 do jornal "A Capital"

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Dead Combo_



Dead Combo
on Tuesday
A quem possa interessar,
Poderíamos começar esta carta com um passeio pela nossa história, nesse longínquo 2003 quando o acaso decidiu juntar dois corpos escanzelados que mal se conheciam e vibravam por músicas distantes.
Mas sobre isso, já se escreveu e romantizou o suficiente…
Poderíamos, sem rodeios, começar pelo final, cru, directos ao assunto e sem nenhuma morna pelo caminho…
Ou então, poderíamos começar pela razão que nos leva a escrever esta carta, que é abrir-vos o jogo. Sim, é por aqui que iremos começar.
A razão destas palavras é simples: são vocês.
Vocês, as pessoas que acreditaram e apoiaram este duo que já dura há 16 anos.
Vocês, que permitiram à nossa sensibilidade entrar nas vossas casas.
Achámos que por este voto de confiança, devíamos ser honestos e dar-vos a escolher entre estar presentes ou ausentes neste próximos tempos da nossa banda.
Para nós, 2020 não será um ano qualquer.
Se o nosso encontro (Tó/Pedro) foi uma descoberta, uma grande amizade, um diálogo musical, um universo que se foi adensando e clarificando; se todos estes anos foram uma grande festa nas nossas vidas, não poderia ser de outra forma o nosso final. Decidimos acabar, mas acabar em grande.
Não é um final triste, há muita coisa para ser celebrada.
De uma forma concreta, acabamos como começámos: os dois.
Voltamos aos palcos com uma tour, num passeio pela nossa história.
Começará no final de 2019 e acabará em 2020.
Muita vida a todos,
Tó Trips e Pedro Gonçalves

"Em abril de 2018, em entrevista ao Observador, o “gangster” e o “cangalheiro”, como as figuras passam à história, falavam sobre o mais recente álbum, “Odeon Hotel”, novo caldeirão onde cabem os ingredientes que marcaram o trajeto da banda, do fado, ao jazz, do rock aos blues, sem esquecer os ritmos sul-americanos que agitam uma cidade em mudança acelerada. “Isto já é uma cidade virada só para pessoas cheias de dinheiro e estrangeiros. E isso não é uma cidade, é um resort turístico”, desabafavam então sobre Lisboa, ao sétimo disco, que contou com convidados como Mark Lanegan, e que prometia apontar caminho para a internacionalização da dupla. “Uma das condições de termos agora, ao final de 15 anos, um contrato com a Sony [uma editora major, uma das maiores da indústria musical] foi a promessa de editarmos lá fora dentro de uma estrutura sólida”, referia então Gonçalves. O disco foi editado digitalmente em todo o mundo e fisicamente em “muitos” países.
Em jeito de revisão da matéria, não esqueciam alguns dos momentos mais complicados, admitindo mesmo nessa entrevista ao Observador como um ano antes “chegou uma altura em que estivemos mesmo para dizer: ‘bora’ lá acabar com isto. Se é para ser assim…” — “Normalmente esses momentos não têm nada a ver com música, têm a ver com sermos só dois e chegarmos a uma determinada altura em que um de nós, ou os dois, está assim mais avariado da cabeça e desatinamos e pronto… chateamo-nos — e assinalavam encontros para a posteridade como a participação, em 2013, no programa “No Reservations”, nessa visita do chef Anthony Bourdain pela capital portuguesa.

Um western à beira Tejo

A guitarra de Tó Trips e o contrabaixo de Pedro V. Gonçalves, e ainda com melódica e kazoo pelo meio, e o que mais possa caber neste convite para a dança. Foi em 2001 que se conheceram e puseram em marcha um dos mais vibrantes projetos musicais da música contemporânea portuguesa — Tó Pediu boleia a Pedro, Pedro não tinha carro, e a pé seguiram para o Bairro Alto, a casa de partida destes Dead Combo, que então planeavam gravar um álbum de tributo ao guitarrista Carlos Paredes. Um par de anos depois, a banda de dois homens sós lança-se em definitivo, com 2004 a trazer o álbum de estreia, Vol.1, ensaio de estreia que convenceu a crítica, baralhou os rótulos e pôs Lisboa a ferver à beira rio.
Vol. 2 – Quando A Alma Não É Pequena (2006), Guitars From Nothing (2007), Lusitânia Playboys (2008), Lisboa Mulata (2011) e A Bunch of Meninos (2014) foram os capítulos que se seguiram antes deste Odeon Hotel, com alusão ao célebre hotel alfacinha.
“Sul”, a série policial que acaba de se estrear na RTP1 tem cereja em cima do bolo: banda sonora a cargo de Dead Combo para, mais uma vez, mostrar Lisboa como nunca a vimos. A 26 de outubro, atuam no Centro de Artes e Espetáculos da Figueira da Foz, o próximo concerto na agenda, e o começo desta despedida em palco da dupla." in: "Observador"

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Ferreira Gullar_PRIMEIROS ANOS

Ferreira Gullar



PRIMEIROS ANOS

Para uma vida de merda
nasci em 1930
na rua dos prazeres

Nas tábuas velhas do assoalho
por onde me arrastei
conheci baratas, formigas carregando espadas
caranguejeiras
que nada me ensinaram
exceto o terror

Em frente ao muro negro no quintal
as galinhas ciscavam, o girassol
gritava asfixiado
longe longe do mar
(longe do amor)

E no entanto o mar jazia perto
detrás de mirantes e palmeiras
embrulhado em seu barulho azul

E as tardes sonoras
rolavam
sobre nossos telhados
sobre nossas vidas .
Do meu quarto
ouvia o século XX
farfalhando nas árvores lá fora.

Depois me suspenderam pela gola
me esfregaram na lama
me chutaram os colhões
e me soltaram zonzo
em plena capital do país
sem ter sequer uma arma na mão.
Ferreira Gullar



.....

variações em do' maior

e, no entanto,
tudo igual
(se não pior), como então:
a Mata e o Capitão
mota-serra nessa mão
fuzil nesse "cabrão"
que e' primo do 
"meu primo Balduino"
um qualquer da areia capitã
para não falar da ditadura
longe de causar amargura
tem  exemplo
tem candura
seja no chile
seja onde quer que surja
nesta latina armadura
erradicar o "comuna"
tudo igual 
sem brandura.

assim penso e,
curioso
já pensava
só que o povo
acreditava
que era "eu", ou ninguém
para "ordem e progresso".

elegeu-me 
(mas que merda)...
mal sabiam
o que os espera.

lmc





















Amêndoa Amarga_ Amália Rodrigues

Amêndoa Amarga” foi uma das sete letras que Ary dos Santos escreveu para a Amália, todas elas musicadas por Alain Oulman.
Este fado só viria a ser conhecido, em 1977, no LP “Cantigas Numa Língua Antiga”, juntamente com "Alfama", "Rosa Vermelha", "Meu Amigo Está Longe" e "O Meu É Teu". E a estes acrescentou-se "É da Torre mais Alta", um inédito das sessões de 1975 que seria publicado apenas em 1997.
Porém, muitos destes fados foram escritos por Ary e musicados por Oulman muito antes - logo depois de “Meu Amor, Meu Amor”, o único fado dos dois editado antes do 25 de Abril, no álbum “Com que Voz” (1970).
E Amália também já os tinha "experimentado" e gravado, entre 1969 e 1973, em versões que ficaram inéditas até hoje e que, nalguns casos, diferem bastante do texto fixado depois nas versões “definitivas”.
Diz-nos Alain Oulman, no livro “Ary dos Santos - as Palavras das Cantigas”, coordenado por Ruben de Carvalho: “Amêndoa Amarga foi a segunda canção que fizemos. Uma das quadras que ele tinha escrito, que seria a penúltima, foi cortada: *)  Minha essência , meu perfume / meu lume minha lava meu labéu / como é possível não chegar ao cimo / de tão lavado céu.“ - nesta versão de "Amêndoa Amarga", Amália ainda a canta.

versão inédita:





Por ti falo e ninguém pensa
mas eu digo minha amêndoa, meu amigo, meu irmão
meu tropel de ternura, minha casa
meu jardim de carência, minha asa.

Por ti vivo e ninguém pensa
mas eu sigo um caminho de  nardos  empestados
uma intensa ternura que persigo
rodeada de cardos por tantos lados.

*) Meu perfume, minha essência  
meu lume, minha lava, meu labéu 
como é possível não chegar ao cimo 
de tão lavado céu.

Por ti morro e ninguém sabe
mas eu espero o teu corpo que sabe a madrugada
o teu corpo que sabe a desespero
ó minha amarga amêndoa desejada.

(Ary dos Santos/ Alain Oulman)

[versão que foi fixada nas gravações ate' agora conhecidas]:



Por ti falo e ninguém pensa
mas eu digo minha amêndoa, meu amigo, meu irmão
meu tropel de ternura, minha casa
meu jardim de carência, minha asa.

Por ti vivo e ninguém pensa
mas eu sigo um caminho de silvas e de nardos
uma intensa ternura que persigo
rodeada de cardos por tantos lados.

Por ti morro e ninguém sabe
mas eu espero o teu corpo que sabe a madrugada
o teu corpo que sabe a desespero
ó minha amarga amêndoa desejada.


domingo, 1 de setembro de 2019

"Muriel" _Ruy Belo


"É, desde sempre, não só o meu poema de amor favorito em toda a literatura portuguesa (que eu conheça) como é, mais do que isso, o meu poema favorito. Acontece que o tema dominante no que escreve é o amor, e dentro do amor, por razões muito pessoais e objectivas, o desencontro. Este poema fala de ambos, como a meu ver só o Ruy Belo soube fazer. Para além da música das palavras, como sempre incomparável, o Ruy consegue aqui uma emoção, uma intensa tristeza, uma maneira de ir ao encontro do amor tornando-o impossível que me comove sempre, e que se me entranha de cada vez que o leio, seja para mim, seja para outrem. Como sempre, a ferramenta certeira é, além disso, a morte. O Ruy utiliza a morte, seu tema obsessivo, tanto para falar de amor como para o que quer que seja. Ora fá-lo com uma profundidade e uma melancolia tais, que sempre, há trinta anos que leio este poema, ele renasce em mim, e põe-me a chorar por dentro. São razões muito físicas e emotivas, nada intelectuais." - Manuel Cintra, in jornal Observador



"Muriel", Ruy Belo


Às vezes se te lembras procurava-te
retinha-te esgotava-te e se te não perdia
era só por haver-te já perdido ao encontrar-te
Nada no fundo tinha que dizer-te
e para ver-te verdadeiramente
e na tua visão me comprazer
indispensável era evitar ter-te
Era tudo tão simples quando te esperava
tão disponível como então eu estava
Mas hoje há os papéis há as voltas dar
há gente à minha volta há a gravata
Misturei muitas coisas com a tua imagem
Tu és a mesma mas nem imaginas
como mudou aquele que te esperava
Tu sabes como era se soubesses como é
Numa vida tão curta mudei tanto
que é com certo espanto que no espelho da manhã
distraído diviso a cara que me resta
depois de tudo quanto o tempo me levou
Eu tinha uma cidade tinha o nome de madrid
havia as ruas as pessoas o anonimato
os bares os cinemas os museus
um dia vi-te e desde então madrid
se porventura tem ainda para mim sentido
é ser solidão que te rodeia a ti
Mas o preço que pago por te ter
é ter-te apenas quanto poder ver-te
e ao ver-te saber que vou deixar de ver-te
Sou muito pobre tenho só por mim
no meio destas ruas e do pão e dos jornais
este sol de Janeiro e alguns amigos mais
Mesmo agora te vejo e mesmo ao ver-te não te vejo
pois sei que dentro em pouco deixarei de ver-te
Eu aprendi a ver a minha infância
vim a saber mais tarde a importância desse verbo para os gregos
e penso que se bach hoje nascesse
em vez de ter composto aquele prelúdio e fuga em ré maior
que esta mesma tarde num concerto ouvi
teria concebido aqueles sweet hunters
que esta noite vi no cinema rosales
Vejo-te agora vi-te ontem e anteontem
E penso que se nunca a bem dizer te vejo
se fosse além de ver-te sem remédio te perdia
Mas eu dizia que te via aqui e acolá
e quando te não via dependia
do momento marcado para ver-te
Eu chegava primeiro e tinha de esperar-te
e antes de chegares já lá estavas
naquele preciso sítio combinado
onde sempre chegavas sempre tarde
ainda que antes mesmo de chegares lá estivesses
se ausente mais presente pela expectativa
por isso mais te via do que ao ter-te à minha frente
Mas sabia e sei que um dia não virás
que até duvidarei se tu estiveste onde estiveste
ou até se exististe ou se eu mesmo existi
pois na dúvida tenho a única certeza
Terá mesmo existido o sítio onde estivemos?
Aquela hora certa aquele lugar?
À força de o pensar penso que não
Na melhor das hipóteses estou longe
qualquer de nós terá talvez morrido
No fundo quem nos visse àquela hora
à saída do metro de serrano
sensivelmente em frente daquele bar
poderia pensar que éramos reais
pontos materiais de referência
como as árvores ou os candeeiros
Talvez pensasse que naqueles encontros
em que talvez no fundo procurássemos
o encontro profundo com nós mesmos
haveria entre nós um verdadeiro encontro
como o que apenas temos nos encontros
que vemos entre os outros onde só afinal somos felizes
Isso era por exemplo o que me acontecia
quando há anos nas manhãs de roma
entre os pinheiros ainda indecisos
do meu perdido parque de villa borghese
eu via essa mulher e esse homem
que naqueles encontros pontuais
Decerto não seriam tão felizes como neles eu
pois a felicidade para nós possível
é sempre a que sonhamos que há nos outros
Até que certo dia não sei bem
Ou não passei por lá ou eles não foram
nunca mais foram nunca mais passei por lá
Passamos como tudo sem remédio passa
e um dia decerto mesmo duvidamos
dia não tão distante como nós pensamos
se estivemos ali se madrid existiu
Se portanto chegares tu primeiro porventura
alguma vez daqui a alguns anos
junto de califórnia vinte e um
que não te admires se olhares e me não vires
Estarei longe talvez tenha envelhecido
Terei até talvez mesmo morrido
Não te deixes ficar sequer à minha espera
não telefones não marques o número
ele terá mudado a casa será outra
Nada penses ou faças vai-te embora
tu serás nessa altura jovem como agora
tu serás sempre a mesma fresca jovem pura
que alaga de luz todos os olhos
que exibe o sossego dos antigos templos
e que resiste ao tempo como a pedra
que vê passar os dias um por um
que contempla a sucessão de escuridão e luz
e assiste ao assalto pelo sol
daquele poder que pertencia à lua
que transfigura em luxo o próprio lixo
que tão de leve vive que nem dão por ela
as parcas implacáveis para os outros
que embora tudo mude nunca muda
ou se mudar que se não lembre de morrer
ou que enfim morra mas que não me desiluda
Dizia que ao chegar se olhares e não me vires
nada penses ou faças vai-te embora
eu não te faço falta e não tem sentido
esperares por quem talvez tenha morrido
ou nem sequer talvez tenha existido.


Às vezes se te lembras procurava-te
retinha-te esgotava-te e se te não perdia
era só por haver-te já perdido ao encontrar-te
Nada no fundo tinha que dizer-te
e para ver-te verdadeiramente
e na tua visão me comprazer
indispensável era evitar ter-te
Era tudo tão simples quando te esperava
tão disponível como então eu estava
Mas hoje há os papéis há as voltas dar
há gente à minha volta há a gravata
Misturei muitas coisas com a tua imagem
Tu és a mesma mas nem imaginas
como mudou aquele que te esperava
Tu sabes como era se soubesses como é
Numa vida tão curta mudei tanto
que é com certo espanto que no espelho da manhã
distraído diviso a cara que me resta
depois de tudo quanto o tempo me levou
Eu tinha uma cidade tinha o nome de madrid
havia as ruas as pessoas o anonimato
os bares os cinemas os museus
um dia vi-te e desde então madrid
se porventura tem ainda para mim sentido
é ser solidão que te rodeia a ti
Mas o preço que pago por te ter
é ter-te apenas quanto poder ver-te
e ao ver-te saber que vou deixar de ver-te
Sou muito pobre tenho só por mim
no meio destas ruas e do pão e dos jornais
este sol de Janeiro e alguns amigos mais
Mesmo agora te vejo e mesmo ao ver-te não te vejo
pois sei que dentro em pouco deixarei de ver-te
Eu aprendi a ver a minha infância
vim a saber mais tarde a importância desse verbo para os gregos
e penso que se bach hoje nascesse
em vez de ter composto aquele prelúdio e fuga em ré maior
que esta mesma tarde num concerto ouvi
teria concebido aqueles sweet hunters
que esta noite vi no cinema rosales
Vejo-te agora vi-te ontem e anteontem
E penso que se nunca a bem dizer te vejo
se fosse além de ver-te sem remédio te perdia
Mas eu dizia que te via aqui e acolá
e quando te não via dependia
do momento marcado para ver-te
Eu chegava primeiro e tinha de esperar-te
e antes de chegares já lá estavas
naquele preciso sítio combinado
onde sempre chegavas sempre tarde
ainda que antes mesmo de chegares lá estivesses
se ausente mais presente pela expectativa
por isso mais te via do que ao ter-te à minha frente
Mas sabia e sei que um dia não virás
que até duvidarei se tu estiveste onde estiveste
ou até se exististe ou se eu mesmo existi
pois na dúvida tenho a única certeza
Terá mesmo existido o sítio onde estivemos?
Aquela hora certa aquele lugar?
À força de o pensar penso que não
Na melhor das hipóteses estou longe
qualquer de nós terá talvez morrido
No fundo quem nos visse àquela hora
à saída do metro de serrano
sensivelmente em frente daquele bar
poderia pensar que éramos reais
pontos materiais de referência
como as árvores ou os candeeiros
Talvez pensasse que naqueles encontros
em que talvez no fundo procurássemos
o encontro profundo com nós mesmos
haveria entre nós um verdadeiro encontro
como o que apenas temos nos encontros
que vemos entre os outros onde só afinal somos felizes
Isso era por exemplo o que me acontecia
quando há anos nas manhãs de roma
entre os pinheiros ainda indecisos
do meu perdido parque de villa borghese
eu via essa mulher e esse homem
que naqueles encontros pontuais
Decerto não seriam tão felizes como neles eu
pois a felicidade para nós possível
é sempre a que sonhamos que há nos outros
Até que certo dia não sei bem
Ou não passei por lá ou eles não foram
nunca mais foram nunca mais passei por lá
Passamos como tudo sem remédio passa
e um dia decerto mesmo duvidamos
dia não tão distante como nós pensamos
se estivemos ali se madrid existiu
Se portanto chegares tu primeiro porventura
alguma vez daqui a alguns anos
junto de califórnia vinte e um
que não te admires se olhares e me não vires
Estarei longe talvez tenha envelhecido
Terei até talvez mesmo morrido
Não te deixes ficar sequer à minha espera
não telefones não marques o número
ele terá mudado a casa será outra
Nada penses ou faças vai-te embora
tu serás nessa altura jovem como agora
tu serás sempre a mesma fresca jovem pura
que alaga de luz todos os olhos
que exibe o sossego dos antigos templos
e que resiste ao tempo como a pedra
que vê passar os dias um por um
que contempla a sucessão de escuridão e luz
e assiste ao assalto pelo sol
daquele poder que pertencia à lua
que transfigura em luxo o próprio lixo
que tão de leve vive que nem dão por ela
as parcas implacáveis para os outros
que embora tudo mude nunca muda
ou se mudar que se não lembre de morrer
ou que enfim morra mas que não me desiluda
Dizia que ao chegar se olhares e não me vires
nada penses ou faças vai-te embora
eu não te faço falta e não tem sentido
esperares por quem talvez tenha morrido
ou nem sequer talvez tenha existido


Ruy Belo

Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news03/article.php?storyid=73 © Luso-Poemas

Às vezes se te lembras procurava-te
retinha-te esgotava-te e se te não perdia
era só por haver-te já perdido ao encontrar-te
Nada no fundo tinha que dizer-te
e para ver-te verdadeiramente
e na tua visão me comprazer
indispensável era evitar ter-te
Era tudo tão simples quando te esperava
tão disponível como então eu estava
Mas hoje há os papéis há as voltas dar
há gente à minha volta há a gravata
Misturei muitas coisas com a tua imagem
Tu és a mesma mas nem imaginas
como mudou aquele que te esperava
Tu sabes como era se soubesses como é
Numa vida tão curta mudei tanto
que é com certo espanto que no espelho da manhã
distraído diviso a cara que me resta
depois de tudo quanto o tempo me levou
Eu tinha uma cidade tinha o nome de madrid
havia as ruas as pessoas o anonimato
os bares os cinemas os museus
um dia vi-te e desde então madrid
se porventura tem ainda para mim sentido
é ser solidão que te rodeia a ti
Mas o preço que pago por te ter
é ter-te apenas quanto poder ver-te
e ao ver-te saber que vou deixar de ver-te
Sou muito pobre tenho só por mim
no meio destas ruas e do pão e dos jornais
este sol de Janeiro e alguns amigos mais
Mesmo agora te vejo e mesmo ao ver-te não te vejo
pois sei que dentro em pouco deixarei de ver-te
Eu aprendi a ver a minha infância
vim a saber mais tarde a importância desse verbo para os gregos
e penso que se bach hoje nascesse
em vez de ter composto aquele prelúdio e fuga em ré maior
que esta mesma tarde num concerto ouvi
teria concebido aqueles sweet hunters
que esta noite vi no cinema rosales
Vejo-te agora vi-te ontem e anteontem
E penso que se nunca a bem dizer te vejo
se fosse além de ver-te sem remédio te perdia
Mas eu dizia que te via aqui e acolá
e quando te não via dependia
do momento marcado para ver-te
Eu chegava primeiro e tinha de esperar-te
e antes de chegares já lá estavas
naquele preciso sítio combinado
onde sempre chegavas sempre tarde
ainda que antes mesmo de chegares lá estivesses
se ausente mais presente pela expectativa
por isso mais te via do que ao ter-te à minha frente
Mas sabia e sei que um dia não virás
que até duvidarei se tu estiveste onde estiveste
ou até se exististe ou se eu mesmo existi
pois na dúvida tenho a única certeza
Terá mesmo existido o sítio onde estivemos?
Aquela hora certa aquele lugar?
À força de o pensar penso que não
Na melhor das hipóteses estou longe
qualquer de nós terá talvez morrido
No fundo quem nos visse àquela hora
à saída do metro de serrano
sensivelmente em frente daquele bar
poderia pensar que éramos reais
pontos materiais de referência
como as árvores ou os candeeiros
Talvez pensasse que naqueles encontros
em que talvez no fundo procurássemos
o encontro profundo com nós mesmos
haveria entre nós um verdadeiro encontro
como o que apenas temos nos encontros
que vemos entre os outros onde só afinal somos felizes
Isso era por exemplo o que me acontecia
quando há anos nas manhãs de roma
entre os pinheiros ainda indecisos
do meu perdido parque de villa borghese
eu via essa mulher e esse homem
que naqueles encontros pontuais
Decerto não seriam tão felizes como neles eu
pois a felicidade para nós possível
é sempre a que sonhamos que há nos outros
Até que certo dia não sei bem
Ou não passei por lá ou eles não foram
nunca mais foram nunca mais passei por lá
Passamos como tudo sem remédio passa
e um dia decerto mesmo duvidamos
dia não tão distante como nós pensamos
se estivemos ali se madrid existiu
Se portanto chegares tu primeiro porventura
alguma vez daqui a alguns anos
junto de califórnia vinte e um
que não te admires se olhares e me não vires
Estarei longe talvez tenha envelhecido
Terei até talvez mesmo morrido
Não te deixes ficar sequer à minha espera
não telefones não marques o número
ele terá mudado a casa será outra
Nada penses ou faças vai-te embora
tu serás nessa altura jovem como agora
tu serás sempre a mesma fresca jovem pura
que alaga de luz todos os olhos
que exibe o sossego dos antigos templos
e que resiste ao tempo como a pedra
que vê passar os dias um por um
que contempla a sucessão de escuridão e luz
e assiste ao assalto pelo sol
daquele poder que pertencia à lua
que transfigura em luxo o próprio lixo
que tão de leve vive que nem dão por ela
as parcas implacáveis para os outros
que embora tudo mude nunca muda
ou se mudar que se não lembre de morrer
ou que enfim morra mas que não me desiluda
Dizia que ao chegar se olhares e não me vires
nada penses ou faças vai-te embora
eu não te faço falta e não tem sentido
esperares por quem talvez tenha morrido
ou nem sequer talvez tenha existido


Ruy Belo

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Às vezes se te lembras procurava-te
retinha-te esgotava-te e se te não perdia
era só por haver-te já perdido ao encontrar-te
Nada no fundo tinha que dizer-te
e para ver-te verdadeiramente
e na tua visão me comprazer
indispensável era evitar ter-te
Era tudo tão simples quando te esperava
tão disponível como então eu estava
Mas hoje há os papéis há as voltas dar
há gente à minha volta há a gravata
Misturei muitas coisas com a tua imagem
Tu és a mesma mas nem imaginas
como mudou aquele que te esperava
Tu sabes como era se soubesses como é
Numa vida tão curta mudei tanto
que é com certo espanto que no espelho da manhã
distraído diviso a cara que me resta
depois de tudo quanto o tempo me levou
Eu tinha uma cidade tinha o nome de madrid
havia as ruas as pessoas o anonimato
os bares os cinemas os museus
um dia vi-te e desde então madrid
se porventura tem ainda para mim sentido
é ser solidão que te rodeia a ti
Mas o preço que pago por te ter
é ter-te apenas quanto poder ver-te
e ao ver-te saber que vou deixar de ver-te
Sou muito pobre tenho só por mim
no meio destas ruas e do pão e dos jornais
este sol de Janeiro e alguns amigos mais
Mesmo agora te vejo e mesmo ao ver-te não te vejo
pois sei que dentro em pouco deixarei de ver-te
Eu aprendi a ver a minha infância
vim a saber mais tarde a importância desse verbo para os gregos
e penso que se bach hoje nascesse
em vez de ter composto aquele prelúdio e fuga em ré maior
que esta mesma tarde num concerto ouvi
teria concebido aqueles sweet hunters
que esta noite vi no cinema rosales
Vejo-te agora vi-te ontem e anteontem
E penso que se nunca a bem dizer te vejo
se fosse além de ver-te sem remédio te perdia
Mas eu dizia que te via aqui e acolá
e quando te não via dependia
do momento marcado para ver-te
Eu chegava primeiro e tinha de esperar-te
e antes de chegares já lá estavas
naquele preciso sítio combinado
onde sempre chegavas sempre tarde
ainda que antes mesmo de chegares lá estivesses
se ausente mais presente pela expectativa
por isso mais te via do que ao ter-te à minha frente
Mas sabia e sei que um dia não virás
que até duvidarei se tu estiveste onde estiveste
ou até se exististe ou se eu mesmo existi
pois na dúvida tenho a única certeza
Terá mesmo existido o sítio onde estivemos?
Aquela hora certa aquele lugar?
À força de o pensar penso que não
Na melhor das hipóteses estou longe
qualquer de nós terá talvez morrido
No fundo quem nos visse àquela hora
à saída do metro de serrano
sensivelmente em frente daquele bar
poderia pensar que éramos reais
pontos materiais de referência
como as árvores ou os candeeiros
Talvez pensasse que naqueles encontros
em que talvez no fundo procurássemos
o encontro profundo com nós mesmos
haveria entre nós um verdadeiro encontro
como o que apenas temos nos encontros
que vemos entre os outros onde só afinal somos felizes
Isso era por exemplo o que me acontecia
quando há anos nas manhãs de roma
entre os pinheiros ainda indecisos
do meu perdido parque de villa borghese
eu via essa mulher e esse homem
que naqueles encontros pontuais
Decerto não seriam tão felizes como neles eu
pois a felicidade para nós possível
é sempre a que sonhamos que há nos outros
Até que certo dia não sei bem
Ou não passei por lá ou eles não foram
nunca mais foram nunca mais passei por lá
Passamos como tudo sem remédio passa
e um dia decerto mesmo duvidamos
dia não tão distante como nós pensamos
se estivemos ali se madrid existiu
Se portanto chegares tu primeiro porventura
alguma vez daqui a alguns anos
junto de califórnia vinte e um
que não te admires se olhares e me não vires
Estarei longe talvez tenha envelhecido
Terei até talvez mesmo morrido
Não te deixes ficar sequer à minha espera
não telefones não marques o número
ele terá mudado a casa será outra
Nada penses ou faças vai-te embora
tu serás nessa altura jovem como agora
tu serás sempre a mesma fresca jovem pura
que alaga de luz todos os olhos
que exibe o sossego dos antigos templos
e que resiste ao tempo como a pedra
que vê passar os dias um por um
que contempla a sucessão de escuridão e luz
e assiste ao assalto pelo sol
daquele poder que pertencia à lua
que transfigura em luxo o próprio lixo
que tão de leve vive que nem dão por ela
as parcas implacáveis para os outros
que embora tudo mude nunca muda
ou se mudar que se não lembre de morrer
ou que enfim morra mas que não me desiluda
Dizia que ao chegar se olhares e não me vires
nada penses ou faças vai-te embora
eu não te faço falta e não tem sentido
esperares por quem talvez tenha morrido
ou nem sequer talvez tenha existido


Ruy Belo

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sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Let's Get Lost_Chet Baker





o admirável documentário de Bruce Weber:

Let’s Get Lost (1988) é um documentário sobre a vida turbulenta e a carreira do trompetista de jazz Chet Baker. Escrito e dirigido por Bruce Weber, Let’s Get Lost é um dos mais belos filmes reais feitos sobre o universo do jazz no séc. XX e o mais marcante dedicado à figura singular de Chet Baker.


"Há sempre uma encruzilhada na vida de um homem normal. Talvez várias na vida de um homem que escape à mediania. Uma ou várias implicam escolher. Pode ser a decisão de dar ou não dar um beijo, o destino de uma paixão, a escolha de um amor (sim, o amor também é uma escolha). Para alguns a descoberta de uma vocação, por vezes a opção entre uma vida livre a sofrer ou uma do tipo vegetativa, rica e sem dramas. Com princípio, meio e fim, ignorando a dor, própria ou alheia."


"Aos primeiros minutos de Let's Get Lost vemos um Chet Baker com 50 e muitos anos, de olhar enigmático, sentado num Cadillac descapotável, rodeado de duas jovens mulheres. O imaginário romântico típico de um músico de jazz. Esta- mos em 1987 e mal imaginava Bruce Weber, o realizador, que poucos meses depois dessas filmagens, Chet Baker acabaria morto numa rua de Amesterdão, depois de, conta a história, ter caído da janela do hotel onde estava instalado. O retrato daquele que foi uma das maiores referências do chamado cool jazz da costa oeste dos EUA chega agora ao formato DVD em Portugal.

No entanto nada há de romantismo na vida de Chet Baker. É verdade que, nos tempos de juventude, a sua figura lembrava estrelas como James Dean ou Montgomery Cliff. Apareceu em filmes como Hell's Horizon (1955) ou Howlers of the Dock (1960), e no mesmo ano a sua vida deu origem à longa-metragem All the Fine Young Cannibals. Mas este documentário de Bruce Weber não romantiza o trompetista. Em Let's Get Lost tanto vemos um Chet Baker que, dado ao seu talento, marcou a história do jazz, como um Chet Baker desapontado com a vida, viciado em heroína, que bateu nas mulheres que o acompanharam, que negligenciou os filhos.

Há ainda assim algo de poético na forma como Bruce Weber nos mostra Baker em Let's Get Lost. Provavelmente por tê-lo filmado sempre a preto e branco, ao que juntou várias imagens de arquivo, do auge criativo do trompetista, sem com isto criar um efeito perverso de contraste entre o esplendor da juventude e a decadência do fim da vida.

É verdade que Bruce Weber ficou conhecido especialmente pela sua carreira como fotógrafo de moda, tendo com grande referência a estética dos anos 1940/ /50. Já realizou também telediscos para Pet Shop Boys e Chris Isaak. Em Let's Get Lost entregou-se à vida de Chet Baker, experiência que, definiu ao Austin Chronicle como "selvagem e excêntrica".

Foi no início dos anos 1950 que Chet Baker começou a dar que falar no circuito jazz da costa oeste dos EUA, especialmente quando em 1952 se juntou ao Gerry Mulligan Quartet. Depressa o quarteto se torna um caso de sucesso, mas Baker acabaria por voar mais alto. Weber chegou mesmo por descrever o músico com alguém "que queria ser livre como um pássaro, alguém mágico e inesquecível".

Depois de reconhecido como trompetista, decide apostar no canto. A forma simples e sussurrada com que deu voz a um Almost Blue tornaram-no um ícone. Mas com o reconhecimento vieram também os problemas com drogas, que o levaram no início dos anos 60 a ficar preso durante mais de um ano em Itália e em 1966 a ficar sem os dentes, história que nem no documentário se descobre bem como se passou. Esteve durante anos ausente. Mas regressaria aos palcos com a ajuda de Dizzy Gillespie.

E este percurso é também revelado em Let's Get Lost, que celebra a vida e obra de um dos mais talentosos músicos de jazz."
in: AQUI: 

"Tirando aquela parte em que o entrevistador pergunta a Chet Baker qual terá sido o momento mais feliz da sua vida, cuja compreensão — digo eu, que não sou tão exagerado como ele ou Faulkner — só está ao alcance de um alfista(*), recordo aquele momento em que Baker, olhando para si próprio, diz o que aconselharia a um filho. Era mais ou menos isto: descobre o que queres ser, vai por ti, e depois procura ser um génio no que escolheste.

O problema é que nem todos têm o mesmo grau de loucura nas escolhas que fazem para atingirem a genialidade. E depois é preciso levar o resto da vida a conviver com isso. Uma chatice.

A diferença entre um homem e um génio está na sua dose de loucura.

E ser capaz de colocá-la ao serviço dos outros dando prazer a si próprio. Seja na literatura, na pintura, na música, na medicina, num artigo de jornal ou numa sala de audiências, sem nunca se esquecer que a genialidade só pode ser reconhecida se no meio de toda a loucura o génio ainda for capaz de realizar que vive em sociedade. E por causa dela.

Os outros tornam os génios menos infelizes quando reconhecem a sua loucura. Sem dizê-lo. E ao tirarem partido dela, em cada instante, ainda quando não o reconhecem, ajudam a prolongá-la. A realização do génio passa por trazê-lo até à nossa dimensão. Até à ignorância. É nisso que está a genialidade. E só os que humildemente o aceitam conseguem atingir esse estatuto. Almost Blue.

(*) Contra tudo o que se poderia imaginar, Baker diz ter sido o momento em que guiou pela primeira vez o seu Alfa Romeo. Eu não vou tão longe, embora não possa deixar de sorrir."
in: AQUI:

domingo, 18 de agosto de 2019

Ary dos Santos_poema



de tão só continuas rapariga
violentada por uns inventada por outros
porém amante mãe amiga
erva sadia de milhões de potros

tu nunca nos traíste e se caíste
o mal nunca foi teu o mal foi nosso
deste sul deste poço
deste país pescoço
com orelhas de muco

não oiças nao te iludas nao te vendas
às rendas das aranhas. Tens no sangue
as invencíveis teias das piranhas

Ary dos Santos
Poema dedicado a Carolina Loff da Fonseca
in: Fotobiografia, Alberto Benfeita
extraído do livro Cartas Vermelhas, de
Ana Cristina Silva, Oficina do Livro, 2011

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Ao terceiro dia...

Com a devida vénia, AQUI as perguntas a que também eu gostaria de ver respondidas: 

"14 agosto 2019

será que alguém me pode explicar algumas coisas sobre a famosa greve?

Só mesmo a minha insularidade (ou talvez a bolha em que me movo) poderá explicar as minhas perplexidades perante a greve dos motoristas de camiões de matérias perigosas. Por favor, expliquem-me como se eu fosse uma estrangeirada de cinquenta anos:

1. É mesmo verdade que as pessoas que conduzem autênticas bombas pelas nossas estradas e pelo meio das nossas cidades têm um salário de base de 600 euros por mês?

2. É mesmo verdade que se aceita como prática normal que as pessoas que conduzem autênticas bombas nas nossas estradas e pelo meio das nossas cidades trabalhem entre 15 e 18 horas por dia?

3. Como é que se contam as horas extraordinárias? Como é que se chega a um período de 15 a 18 horas de trabalho diário que parece ser normal na profissão? Também são contadas as horas em que um condutor dorme num hotel, ou na cabine do camião? E as horas em que fica parado junto à auto-estrada a fazer horas até poder conduzir de novo? Quantas horas diárias é que, no total, um condutor pode conduzir realmente o seu veículo? Como é que se assegura que tem condições para descansar e se restabelecer, de modo a continuar a conduzir com segurança?

4. Porque é que as empresas não contratam mais condutores e não pagam um salário de base decente a cada um deles? O que impede estes motoristas de trabalharem apenas 8 horas por dia?

5. Será que estas condições de trabalho são impostas para conter os custos da distribuição? Se for esse o caso, parece-me que a preocupação está a ficar ultrapassada: a tendência futura será aumentar o preço dos combustíveis até eles reflectirem realmente todos os custos explícitos e implícitos - em particular os ligados à destruição ambiental - de modo a obrigar todos os agentes do sistema a inflectir as lógicas de produção, de transporte, e de mobilidade individual e nos processos de produção.

6. Qual é a margem de manobra de um governo perante um conflito destes entre patrões e assalariados?
- Deve o governo impor aos patrões tarifas e regras que constituam melhor garantia da segurança pública? (Ui, já estou a imaginar o coro de "PS = Estalinistas!" que se ia ouvir...)
- Ou deve simplesmente impor o cumprimento das regras existentes? Se bem entendi, neste momento já todos os motoristas esgotaram as horas extraordinárias que podiam fazer em 2019, pelo que seria de esperar que de agora até ao fim deste ano os transportes não sejam suficientes, uma vez que os condutores já só podem trabalhar 8 horas por dia.
- Se o governo não se tivesse metido no assunto, deixasse que o combustível pura e simplesmente esgotasse nos postos de abastecimento e deixasse o país à espera que patrões e assalariados se entendessem, não seria também acusado de incumprimento dos seus deveres perante o povo português?
(Perante as críticas ao governo que têm surgido de todos os lados, só me ocorre a história "O Velho, o Rapaz e o Burro". Todos têm razões, todos se sentem com razão - mas gostava muito de saber o que faria cada um deles se estivesse no lugar do António Costa, e como estaria preparado para se responsabilizar pelas consequências da sua decisão.)

7. Porque é que os jornalistas não nos explicam estas coisas essenciais, e nos gastam o tempo e a paciência com ruído alarmista que só serve para criar e alimentar polémicas e discórdias?

Helena Araújo" 

quarta-feira, 31 de julho de 2019

12_Alice Vieira



12

até pode ser que nem gostes muito destas palavras
nem de mim agora que os meus gestos
são tão diferentes
agora que recordas tanta coisa que eu esqueci
e ainda bem ninguém pode viver
com o peso do que ficou para trás
agora que os livros as canções as laranjeiras
ficaram para sempre naquele cenário de primavera
que fazia de nós todos o garantiam
presas tão fáceis

pressinto que hás-de culpar-me sempre
pelos anos que perdemos por becos ruas avenidas
esquecendo à toa aquilo
que só um ao outro deveríamos ter ensinado

talvez até tenhas razão mas eu chegara
àquele lugar da vida onde só se pode
amar para sempre e sem remédio
e de um dia para o outro a minha boca

desaprendeu disciplinadamente o sabor da tua
e os teus passos a tua voz o céu de paris
a janela sobre os telhados os domingos de sol
atravessaram as mais arrastadas fronteiras
e estabeleceram os seus limites do lado de lá
de todas as madrugadas que eram nossas

houve mesmo um tempo desculpa em que esqueci
as cartas os cigarros as fugas os recados
as canções as camélias o jardim
onde me esperavas às nove da manhã
a velha que nos olhava abanando a cabeça
entre estátuas decepadas e gatos vadios

talvez um dia quem sabe o destino
volte a ter novos contornos e nos olhe de frente
e ainda sobre tempo para reaprender a soletrar correctamente
todas as palavras que admitiam ter nascido
do teu corpo da tua voz do sabor da tua boca
tempo para povoar de novos sons os velhos discos de vinil
e sonhar com mundos à espera de serem salvos
pelas nossas palavras

tempo para nos olharmos e encontrarmos
sem remorsos
a maneira de nos perdermos de novo nos caminhos
que levam ao coração absoluto da terra

talvez um dia quem sabe eu volte
a faltar às aulas para esperar por ti

Autor : Alice Vieira
In Dois corpos tombando na água

sexta-feira, 26 de julho de 2019

Amália Rodrigues - "Naufrágio" (Audio, 2019 Remastered)


letra/ musica

Naufrágio


Pus o meu sonho num navio
E o navio em cima do mar.
Depois abri o mar com as mãos
Para o meu sonho naufragar.
Minhas mãos ainda estão molhadas
Do azul das ondas, entreabertas.
E a cor que escorre dos meus dedos
Colore as areias desertas.
O vento vem, vindo de longe,
A noite se curva de frio.
Debaixo d’água vai morrendo meu sonho,
Vai morrendo dentro do navio.
Chorarei quanto for preciso
Para fazer com que o mar cresça
E o meu navio chegue ao fundo
E o meu sonho desapareça.

Compositor: Cecília Meireles / Alain Oulman

......



domingo, 21 de julho de 2019

A borboleta_Mia Couto




Mia Couto
Escritor

Mapeador de Ilhas

19.07.2019 às 10h23

A borboleta 

Não sei se reparou, Marlene, que tratamos de Recursos Humanos. E sempre de olhos baixos, ironizou: Humanos, está a perceber? Borboletas, não são da nossa competência. E mandou que se pulverizasse a sala com um inseticida. Desses inodoros, acrescentou. Em pânico, Marlene fingiu acatar a ordem.

Ilustração: Susa Monteiro

No escritório da multinacional, num décimo quinto andar da capital, surgiu uma borboleta. Estava pousada no microfone da sala de reuniões. A secretária Marlene aproximou-se com infinita cautela, sentou-se numa das cadeiras da sala vazia e permaneceu imóvel durante longos minutos. Olhou em contraluz para as asas coloridas e achou que estava em presença de uma mensageira. Usou o seu telefone, fotografou o inseto, editou a imagem para realçar as cores e enviou-a para umas tantas amigas.

Procurou no Google o oculto sentido daquela aparição. Uma página da net fornecia uma longa lista dos significados espirituais das borboletas. Renovação, recomeço e anunciação eram os mais comuns. Uma outra página era mais apelativa: Você sabia que os Anjos se comunicam frequentemente connosco através das borboletas? Marlene filmou o eventual anjo que permanecia hirto no poleiro metálico. Procurou outra página e então, sim, encontrou algo que a deixou tão paralisada quanto a borboleta. Aquela criatura trazia o mais esperado dos recados: o da fertilidade. Há anos que Marlene esperava engravidar. E ali estava, na mais delicada criatura, o anúncio da boa nova há tantos anos esperado. Mais entusiasmada que Marlene apenas a Virgem Maria ante o Arcanjo Gabriel.

Por fim, a secretária fez o que dela profissionalmente se esperava: comunicou a aparição ao seu superior, o Diretor de Recursos Humanos. O marido de Marlene, o Osório, há meses desempregado, irrita-se sempre que ela lhe fala do seu local de trabalho. Recursos Humanos?, pergunta o marido. Prefiro o desemprego a ser tratado como “recurso”. Osório reage assim por despeito, pensa Marlene. Lá em casa ela era a chefe de família. E a raiva do marido cresce: um homem não foi feito para esperar pela mulher. E um casal não foi feito para desesperar por um filho.

O diretor não levantou os olhos do computador. E assim manteve Marlene na habitual invisibilidade. Não sei se reparou, Marlene, que tratamos de Recursos Humanos. E sempre de olhos baixos, ironizou: Humanos, está a perceber? Borboletas não são da nossa competência. E mandou que se pulverizasse a sala com um inseticida. Desses inodoros, acrescentou. Em pânico, Marlene fingiu acatar a ordem. E já fechava a porta quando o diretor se ergueu, atacado por súbita preocupação.

– Onde é que está a mariposa?
– É uma borboleta. Está na sala de reuniões.

Marlene acompanhou a acelerada marcha do chefe ao longo do corredor. As borboletas fecham as asas por cima do corpo, foi explicando enquanto caminhava. As mariposas deixam-nas ao lado do corpo, como um avião.

O diretor irrompeu ruidosamente pela sala de reuniões e espreitou de longe a impávida borboleta. Rodou pela mesa, tirou fotografias de diversos ângulos. Ligou-se à internet e procurou: “Doenças provocadas por borboletas”.

Em poucos segundos, sentenciou:

– Chame imediatamente a responsável do DHS.
– Quem?
– O Departamento de Health and Safety!!!

Marlene sabia: naquela empresa, em momentos decisivos, as pessoas eram designadas em inglês. Como se, em português, valessem menos.

– Vá chamá-la, agora.

Mesmo em português, a ordem era sumária e perentória. Suspeitando da gravidade do que se seguiria, Marlene ainda ousou contestar.

– O que passa, doutor? É uma simples borboleta.
– Pousada no microfone onde as pessoas falam?

Marlene foi para o seu gabinete e ligou para o DHS. Depois, reabriu a página que antes consultava no computador. Procurou “Os mais belos versos sobre borboletas”. E abriu um poema chamado “Jardim”. E leu em voz baixa:

Se eu tivesse jardim
seria para semear borboletas.


Limpou uma imaginária lágrima, ajustou o vestido ao ventre que já adivinhava em redondez lunar. De volta à sala de reuniões, encontrou a responsável de Saúde e Segurança, recebendo instruções do diretor de Recursos Humanos.

– Ouviu falar da epidermólise bolhosa, também chamada doença da borboleta?
– Nunca ouvi falar disso.
– Fica-se com a pele tão frágil como as asas de borboleta.
– Gostava de ter asas de borboleta. Amarelas como essa que aí está pousada.
– Não brinque com coisas sérias, doutora. Com essa doença, as pessoas deixam de poder usar sapatos, só podem usar roupas especiais. A pele rompe-se ao menor atrito. Morre-se antes dos trinta.
– Que horror!
– Proceda a uma avaliação de riscos. Consulte o procedimento A-34.
– Mas, diretor, a tal doença... tem a certeza de que é transmitida por borboletas?
– Foi o que vi no Google. É sua função confirmar isso, doutora.

Marlene entrou na sala acompanhada por uma empregada de limpeza. O que vão fazer, perguntou o diretor. Vamos abrir a janela e enxotá-la, respondeu a empregada de limpeza. Nada disso, argumentou o diretor. Vá é buscar o aspirador, e fazemo-la desaparecer enquanto o diabo esfrega um olho.

Marlene levou as mãos ao peito angustiada em imaginar o seu Arcanjo Gabriel a desaparecer no ventre escuro de um aspirador. Deu um safanão no microfone e a borboleta ergueu voo em direção às paredes de vidro da sala. Marlene entreabriu a janela envidraçada para que o bicho pudesse escapar. Mas a borboleta deu meia-volta e voou na direção oposta. Pousou num quadro na parede do lado oposto. O quadro chamava-se “O céu”. Havia naquela tela uma nesga de azul sobre prédios, antenas e fumos. Mas era um azul vindo de dentro, uma cor que apenas o pintor sabia existir. A borboleta tinha escolhido o seu pouso definitivo. O céu que restava lá fora era demasiado escasso para voar. E demasiado sujo para morrer.

Nesse final de tarde, Marlene regressou a casa sem peso, como se não houvesse chão. E caminhou como se tivesse asas. Talvez fosse a tempo de surpreender Osório acordado. Talvez o marido descobrisse nela o mesmo céu que a borboleta encontrara na tela.

(Crónica publicada na VISÃO 1375 de 11 de julho)

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Alentejo_A Morte Anunciada >Mina da Lagoa Salgada





Milhares de sobreiros em risco? A mina que ainda não abriu e já está a assustar muita gente


Bruno Gonçalves
15/07/2019 20:04
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O projeto da Mina da Lagoa Salgada ainda está numa fase inicial, mas os agricultores da zona já estão preocupados com o impacto que poderá ter na região. Temem que os milhares de sobreiros existentes naqueles 10 mil hectares acabem por morrer. O i esteve no local para perceber o que está em causa.


São milhares de árvores protegidas por lei, um dos montados mais bonitos do concelho de Grândola e o sustento de várias famílias. Agora, vários agricultores temem que os seus sobreiros sejam destruídos pela Mina da Lagoa Salgada, um projeto que ainda aguarda aprovação mas já está a apoquentar várias povoações. Os agricultores já testemunharam um cenário parecido nas imediações, com a exploração de outras minas – o pior surgiu quando estes projetos foram encerrados e as pessoas foram deixadas desamparadas. Temem que não se tenha aprendido com os erros do passado e que a ganância se sobreponha às preocupações com o ambiente e com as populações.

O consórcio Redcorp e EDM – Empresa de Desenvolvimento Mineiro detém uma área concessionada pelo Estado para a prospeção e pesquisa de depósitos minerais como cobre, zinco, ouro e prata. Esta área, chamada Lagoa Salgada, tem 10 700 hectares, ou seja, o equivalente a dez mil campos de futebol, que se estendem pelos concelhos de Grândola, Alcácer do Sal e Ferreira do Alentejo. Dentro desta área existem muitas propriedades privadas, cheias de sobreiros e outras espécies.

Ora, pretende agora a Redcorp obter a concessão de exploração da Mina da Lagoa Salgada. Segundo a proposta de definição do âmbito, um documento que antecede um estudo de impacto ambiental, a empresa propõe-se abrir uma mina naquele local, o que implica também a instalação de um “estabelecimento industrial de tratamento do minério, denominado lavaria. Nesta unidade terá lugar a beneficiação do minério, composta por processos de concentração do minério, para a produção de concentrados de zinco, de chumbo e de cobre existentes no jazigo mineral”. O projeto incluirá ainda zonas de armazenamento, escritórios, instalações sociais e oficinas.



Este projeto está para avançar há anos, mas agora, com a partilha deste documento na plataforma da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), as pessoas que têm propriedades dentro da zona concessionada começam a temer que a abertura da mina esteja para breve. E que destrua o trabalho de várias gerações. “Estão aqui árvores centenárias, milhares de árvores que foram plantadas há dezenas de anos e que agora dão da melhor cortiça. Este projeto poderá colocar em causa o trabalho de várias gerações e destruir uma das zonas de montado mais bonitas do país”, disse ao i António Rocha, um dos proprietários de terrenos dentro da área concessionada.

E este medo aumentou com o que estava descrito na proposta de definição de âmbito: a Redcorp fala sobre os riscos para a qualidade da água e do ar e a possibilidade de existirem níveis elevados de ruído. Mas uma das questões que mais preocupam os agricultores da zona são os níveis freáticos. “Considera-se que não são negligenciáveis as necessidades hídricas do presente projeto, a eventual possibilidade de provocar rebaixamentos induzidos nos níveis freáticos envolventes e a possibilidade de poder afetar os cursos de água superficiais”, refere o documento, sem adiantar, no entanto, de que forma isto poderá acontecer, em que zonas e quais as formas de mitigar os danos. O rebaixamento dos níveis freáticos teria consequências muito graves nos sobreiros e nas restantes espécies daquela área – sem água no subsolo, as árvores não conseguiriam manter os níveis de humidade necessários à sua sobrevivência.

Aliás, o documento pouco ou nada fala sobre as consequências deste projeto nos milhares de sobreiros daquela zona. Ao contrário de, por exemplo, a Mina de Neves-Corvo, que era já uma zona com pouca vegetação, a Lagoa Salgada está repleta de árvores – basta passear um pouco pela zona para perceber que não existe uma área com uma dimensão considerável para instalar partes deste projeto sem arrancar árvores. “Em Neves-Corvo, as lagoas das lavarias têm 260 hectares. Estas áreas têm vários produtos químicos e reagentes, que são usados na extração [dos minerais]. Aqui não temos uma zona sem árvores com essa dimensão”, frisa António, com um tom grave na voz, de quem antevê o corte de muitos sobreiros.



Por agora, não foram arrancadas árvores, mas foram feitas dezenas de sondagens no local que estão já a afetar o terreno: equipas que se encontram no local 24 horas por dia realizam perfurações para recolher amostras do que está no subsolo. “Com a areia a acumular-se, sem a vegetação à volta, vamos ficar com uma zona árida, parecida com um deserto”, diz António ao i.

No terreno de Manuel Rocha, tio de António, as equipas continuam a perfurar o solo e a tirar barras brilhantes, com vestígios de ouro e prata. Aqueles cilindros valem muito para uns, mas para Manuel pouco interessam. “É uma tristeza o que estas pessoas estão a fazer. Eu não posso fazer uma série de coisas sem autorização [do Estado] e estes senhores chegam aqui e podem furar tudo. Estão a destruir o trabalho de uma vida”, diz o agricultor octogenário, sem conseguir conter as lágrimas.

No terreno de Luís Dias ainda não há furos, mas este agricultor teme que, com as consequências cada vez mais evidentes das alterações climáticas, este projeto venha piorar ainda mais a situação. “Neste momento há já no concelho muitas zonas com dificuldades em obter água. Parece haver um desprezo pelos impactos ambientais e os estudos feitos sobre isso parecem ser apenas uma mera formalidade. Há sempre interesses por trás destas coisas. Por muito aguerridos que possamos ser, somos muito pequeninos para lutar contra estas coisas”, disse ao i.

Nas mãos dos canadianos

Mas se estes são terrenos privados, como podem estar a ser feitos buracos sem autorização dos proprietários? A resposta é dada pelos próprios agricultores de uma forma muito simples: o Estado é dono de tudo o que está abaixo dos cinco metros de profundidade. “Os proprietários não têm direitos no subsolo. Normalmente, as empresas informam as pessoas que querem realizar sondagens nas suas propriedades. Mas se estes se mostrarem contra, julgo que o interesse do Estado se sobrepõe ao do privado”, confirmou o eng.o Augusto Pedroso.

Este especialista em engenharia de minas, conhecedor daquela área em particular, defende que é possível mitigar os impactos ambientais da abertura de uma mina, mas tudo depende de quanto se está disposto a gastar: “É difícil não haver impactos. Desde a contaminação de solos, de ar, o ruído, etc. Mas alguns impactos podem ser mitigados. Os processos já estão todos tão desenvolvidos que há sempre soluções, umas mais caras, outras menos caras. Está tudo relacionado com o jogo dos custos e dos interesses económicos”, diz ao i.



Quem está por trás deste projeto?

É preciso recuar alguns anos para perceber todos os negócios que já houve em torno destas terras. Em 1994, a área foi concessionada a uma empresa chamada Rio Tinto Zinc e à EDM, que é uma agência do Estado português. Foram realizadas várias perfurações para perceber se aquele vasto terreno tinha potencial. E tinha. Tanto que até despertou interesse no estrangeiro. Assim, em 2004, a propriedade é comprada pela Redcorp, que na altura era detida pela canadiana Redcorp Ventures. Em 2009, a empresa portuguesa é adquirida pela Portex, também ela uma empresa canadiana. Seis anos depois, a empresa de investimento suíça TH Crestgate GmbH adquire 100% da Redcorp. A última mudança acontece em junho de 2018, quando a empresa volta a ficar nas mãos dos canadianos: a firma suíça chegou a acordo com uma companhia chamada Ascendant Resources que é agora responsável por parte desta subsidiária portuguesa, que tem sede em Braga. Além disso, a Ascendant descreve no seu site que detém atualmente 25% da Redcorp, mas “tem a opção de chegar aos 80% após serem alcançados determinados objetivos”.

O i enviou questões à Redcorp para perceber como o projeto está a decorrer e se estão a ser acauteladas as questões ambientais mas, até ao fecho desta edição, não obteve respostas. O i questionou também a APA e o Ministério do Ambiente sobre este processo, que não reagiram. Também as autarquias foram questionadas sobre este projeto e apenas a Câmara Municipal de Alcácer do Sal respondeu, dizendo que o município “pronunciou-se nos termos legais aplicáveis, evidenciando um conjunto de preocupações que propôs serem consideradas no Estudo de Impacto Ambiental, na área abrangida pelo contrato de prospeção”. “Acima de tudo, o Município pretende, e já se pronunciou no sentido de que a pretensão dê cumprimento ao PDM de Alcácer do Sal, e que seja garantido que os impactos negativos respeitantes à implantação do projeto não agravem a situação social, económica e ambiental no concelho”, acrescenta.

As árvores do pós-guerra Enquanto caminhamos pela propriedade, Manuel Rocha aponta para alguns dos sobreiros. “Veja como são bonitos e fortes. Vão destruir o que demorámos anos a construir”. E não há aqui hipérboles: um sobreiro demora cerca de 40 anos a entrar em fase de produção.

A primeira cortiça que é retirada, com uma tonalidade mais branca, tem de ter, na zona da planície de Grândola, entre 20 e 25 anos. Chama-se cortiça virgem e é usada ou para moer ou para elementos de decoração, vendidos principalmente nos Estados Unidos. Depois de esta ser retirada, é necessário esperar mais dez anos para extrair cortiça. Esta, chamada secundeira, é de má qualidade e só é usada para moer – a cortiça moída é usada depois para fazer alguns objetos, como sapatos. Após outra década começa a sair cortiça de melhor qualidade. Os sobreiros mais antigos, que continuam a produzir boa cortiça, são conhecidos como as árvores do pós-ii Guerra Mundial.

Passados pelo menos 40 anos começam a surgir os frutos de um trabalho difícil. Mas vale a pena esperar: a unidade da cortiça é vendida à arroba (15 quilos) e cada uma pode valer até 60 euros. Se for cortiça de boa qualidade, a quantidade que está na foto acima pode chegar aos 130 mil euros.

É um trabalho bem remunerado. Os agricultores passam oito horas no campo, a realizar tarefas duras, mas recebem, em média, 120 euros por dia. “Normalmente, quem faz este trabalho realiza outras tarefas no campo. Nesta altura do ano dedicam-se à cortiça, param em setembro e, mais tarde, dedicam-se à apanha da pinha-mansa. Depois, entre dezembro e março, fazem as limpezas das árvores. A partir de março fazem a tosquia das ovelhas, que dura até maio. Vão andando por estes trabalhos sazonais, duros, mas com uma remuneração muito acima da média. As pessoas deste projeto da Mina da Lagoa Salgada tentam aliciar com a criação de 300 postos de trabalho, mas esquecem-se que aqui não há desemprego. Só não trabalha quem não quer”, diz ao i António Rocha.



“A Chernobyl cá do sítio”

Não é de admirar que os proprietários de terrenos na zona da Lagoa Salgada estejam com medo do que aí vem. “Assim que isto perder o interesse, deixam tudo ao deus-dará”, dizem ao i.

Essa é, pelo menos, a realidade que testemunham numa aldeia que fica a apenas 40 quilómetros de distância, chamada Lousal. A mina de pirite ali aberta na década de 40 teve o seu momento áureo nos anos 60/70, mas a crise industrial do enxofre fez com que muitas explorações acabassem por ser encerradas. Foi o que aconteceu à mina do Lousal, em 1988.

“Na altura em que a mina funcionava, havia boas condições”, garante Maria Lucília Costa, assistente social que acompanhou os habitantes após o fecho da mina. Os trabalhadores viviam perto da exploração e tinham vários serviços ao seu dispor, como um hospital e uma farmácia.

Mas tudo mudou com o encerramento deste projeto: “Tudo girava à volta da mina. Com o seu encerramento, quase todas as pessoas ficaram desempregadas e os serviços foram todos encerrados. A população ficou entregue a ela própria”, explicou ao i.

O Estado já investiu milhões de euros a criar museus, centros de ciência e outros polos, mas de nada serviu: quem passa pela aldeia vê apenas uma ou duas pessoas na rua que olham para os forasteiros com ar de assustados, edifícios novos deixados ao abandono e casas destruídas, sem sinal de vida há vários anos.

“Houve um grande investimento no centro comunitário e na formação das pessoas, mas não havia emprego, pois não foram criadas empresas naquele sítio. E as pessoas, para irem trabalhar para Grândola, das duas uma: ou conseguiam bons empregos e ganhavam bem ou tinham de ter bons meios de transporte, pois a cidade ainda fica a 30 quilómetros de distância. Nada disto aconteceu”, diz a assistente social. Assim, a população do Lousal por ali foi ficando, entrando num estado de pobreza cada vez mais crítico. “Houve investimento no território físico, mas não houve uma aposta na qualidade de vida das pessoas. Não foram criadas respostas sustentáveis para aquela comunidade”, acrescenta Maria Lucília Costa.



E há ainda a questão da saúde: desde o encerramento da mina, em 88, que continuam a existir grandes reservatórios cheios de químicos. Quando vem o tempo do calor, a água seca e os reagentes acumulados ali há dezenas de anos ficam nos sedimentos. Quando chove, os reservatórios voltam a encher e a água que ali fica durante meses continua contaminada. E há ainda problemas no revestimento das casas – basta passar pelas primeiras ruas do Lousal para perceber que muitas habitações continuam a ter telhados feitos com as chamadas telhas de lusalite, associadas à presença de amianto.

O trabalho na mina, só por si, já traz consequências graves para a saúde, mas a presença de químicos na zona há mais de 30 anos também não deixa ninguém à vontade. Há mesmo quem diga que o Lousal é a “Chernobyl cá do sítio”, devido ao número de pessoas que desenvolveu problemas de saúde associados à exploração mineira, às ruas desertas e aos olhares vazios dos poucos que ali vão sobrevivendo. O i questionou também o Ministério do Ambiente e a APA sobre este problema mas, até ao fecho desta edição, não obteve resposta.

in: jornal i