quarta-feira, 9 de outubro de 2019

A Morte de um grande Jornalista


Um jornalista só deve ser notícia num dia triste como o de hoje:
- Morreu um Homem de Bem!
O Luís Osório deixou na sua página do BF a mais sentida e bela homenagem que um Amigo pode transmitir.  
Junto-me a ele para deixar os meus pêsames ‘a Família enlutada. lmc 
......

Morreu o jornalista Rogério Rodrigues

O jornalista Rogério Rodrigues morreu no final da tarde de terça-feira, aos 72 anos, confirmou hoje à Lusa fonte familiar.





O jornalista, natural de Peredo dos Castelhanos, Torre de Moncorvo, estava doente e tinha sido hospitalizado no domingo.
Rogério Rodrigues começou a trabalhar no Diário de Lisboa em 1974, de onde saiu em 1981 para O Jornal.
Em 1989 foi para a revista Sábado e em 1990 para o Público. Voltou ao O Jornal em 1992, onde permaneceu até 1994.

O jornalista Luís Osório reagiu à notícia, na sua página da rede social Facebook, expressando o seu lamento pela morte daquele que considera "o último jornalista".




Luís Osório
há 22 horas

POSTAL DO DIA
Morreu o último jornalista
Talvez nunca tenham ouvido falar do Rogério, mas com isso não se sintam culpados com tal ignorância, ele fez tudo para nunca se falado, para nunca ser elogiado, para passar sempre ao largo dos holofotes, dos aplausos, das condecorações, dos puxa-saco.
O Rogério foi o melhor, o mais extraordinário jornalista que conheci. A pessoa com quem mais aprendi, a pessoa com quem bebi o primeiro whisky, a pessoa a quem confessei não ser capaz, a pessoa a quem pedi refúgio nos meus divórcios, nas minhas falhas, pecados, tragédias.
Atropelo-me, falo do que não interessa. Desculpe-me. Comecei a lê-lo no Público, no início do Público. Eu adolescente, ávido de conhecimento e sempre de jornal na mão, e ele um grande repórter, porventura o único jornalista capaz de contar uma história de crime com o génio de um Truman Capote. Li o seu livro sobre o assassino Faustino Cavaco antes de o conhecer. Li e disse aos meus amigos: vocês já leram Rogério Rodrigues, já leram a sua prosa?
E ninguém escrevia sobre política como o Rogério. Nem sobre o Partido Comunista. Ou Álvaro Cunhal – no dia em que o conheci, na redação do semanário O Jornal, acabara de publicar um perfil sobre o histórico líder comunista, levei o jornal para casa e adormeci a sonhar com o dia em que escreveria como ele.
A sua cultura era lendária. Sabia tudo. Conhecia todos. Viajava pela língua como poucos, manobrava-a como ninguém. Até o José Cardoso Pires, com quem bebia copos nas pausas das notícias ou da escrita, gostava de dizer que ele é que era. Eu ficava em silêncio a ouvi-los, tinha 19 anos e era um miúdo cheio de complexos, borrado de medo de estar ali com aqueles gigantes que fumavam como Bogart e bebiam com estilo, lentamente, deixando que as palavras se espalhassem à sua volta como o fumo dos cigarros. Havia também o Fernando Assis Pacheco, claro. O Afonso Praça, transmontano como ele. O Vítor Bandarra, que só conheci uns anos mais tarde, não naqueles primeiros anos, o puto como era chamado pelos velhos mestres.
Embarcou comigo na aventura de A Capital. Fiz-lhe o convite com alguma vergonha: queres ser diretor adjunto, meu diretor adjunto? Não pediu para pensar, vamos Luís. E foi. durante um ano e meio virámos do avesso o que podia ser virado do avesso. Naquele ano e meio afundei-me em trabalho e ele esteve sempre na primeira linha. A trabalhar mais de 12 horas por dia. A “sacar” notícias como só ele sacava. Estranha coincidência: foi ele quem, no princípio de novembro de 2004, deu a notícia em quem ninguém acreditou, o operário Jerónimo de Sousa seria o novo secretário geral do PCP. Nos dias em que se especula acerca da saída de Jerónimo volto à notícia em que ninguém acreditou, a sua notícia. O PCP era ainda mais inexpugnável do que hoje, muito mais. Mas o Rogério conseguia tudo. E não queria nada para ele, deixava-me brilhar – vai tu, Luís, vai às televisões e defende a nossa manchete.
“Vai tu, Luís. Eu fico, estou bem, não preciso de nada, o que importa é a notícia”.
Depois estivemos em programas de televisão. E ajudou-me a lançar o Rádio Clube onde passámos dificuldades. A meio do processo, quando o projeto tinha apenas um ano e meio ou dois anos, a administração pressionou muito, o Grupo Prisa estava em grandes dificuldades e eu tinha de prescindir dos colaboradores, os que estavam a recibos verdes. Seriam os primeiros a ir e era inegociável. O Rogério, que era o meu consultor, adiantou-se: Luís, eu vou. Não é preciso falarmos mais nisso, sei o que está a acontecer e amigo não empata amigo. E foi.
E eu fiquei. Estúpido de merda fiquei. E deixei-o ir. Sem replica. Sem dizer à administração que o Rogério era a minha linha vermelha, inegociável para mim. Quando saiu daquela porta, quando deixei que saísse, o jornalismo morreu para mim. O jornalismo por quem me apaixonara em jovem. E nunca mais deixei de pensar que na vida há valores muito mais importantes do que a sobrevivência. Serviu-me para a vida.
Transmontano de Moncorvo, o Rogério. Com ele comi lampreia pela primeira vez. Com ele conheci poetas, escritores, livros, polícias e ladrões, sítios de informadores e o parlamento. Nunca elogiava da maneira como se elogia. Nunca abraçava da maneira como se abraça. Nunca festejava da forma como se festeja. Ou chorava da maneira como se chora, nunca o vi chorar.
Amava profundamente a mulher da sua vida. Contou-me num dia especial: a Arlete é a pessoa da minha vida, não saberei viver sem ela, mas não lhe quero dar esse peso, o peso dessa dependência, é apenas um problema meu.
E amava profundamente os seus dois filhos. Quando o Tiago começou a ter sucesso, falava do mais novo. Queria equilibrar as coisas. Mas quando o mais velho foi convidado para o lugar mais importante do teatro português perguntei-lhe: estás feliz, Rogério? Fumou um cigarro sem dizer uma única palavra. E no final tinha as lágrimas presas nos olhos. O Tiago era a sua prenda para o mundo. Sua e da Arlete.
Estou ainda no escritório. Precisei de ficar mais um pouco. Os meus filhos mais novos estão a dormir em casa. Os mais velhos ainda não sabem que morreu o Rogério, o último jornalista. O último jornalista que conheci entre todos os que viviam em função de uma ideia que foi morrendo no tempo.
Fui ao supermercado em frente comprar uma garrafa de Famous Grouse. Bebo à sua memória, à sua vida. E quis o destino que amanhã, sexta, sábado e domingo, esteja a moderar quatro debates sobre “Fake News”, no teatro Nacional Dona Maria II, dirigido pelo seu filho, Tiago Rodrigues.
E na quinta-feira, apresento um livro de entrevistas em que a última é com o seu filho, a pessoa que considero há muito como o mais talentoso entre todos os criadores portugueses.
Não há palavras, Rogério. Tinhas mesmo de abalar hoje? Bebes um copo comigo? Vem, estou aqui. A garrafa dá para os dois.
LO


"O Rogério foi o melhor, o mais extraordinário jornalista que conheci", escreveu Luís Osório.
"Ninguém escrevia sobre política como o Rogério. Nem sobre o Partido Comunista. Ou Álvaro Cunhal - no dia em que o conheci, na redação do semanário O Jornal, acabara de publicar um perfil sobre o histórico líder comunista, levei o jornal para casa e adormeci a sonhar com o dia em que escreveria como ele", acrescentou.

Rogério Rodrigues foi também diretor-adjunto de A Capital, quando Luís Osório dirigiu o vespertino, e passou também pela nova fase do Rádio Clube Português e por programas de televisão.
Henrique Monteiro, também no Facebook, lembrou que Rogério Rodrigues "foi perseguido antes do 25 de Abril, tolerante e aberto depois. Teimoso sempre.".


"O velório será realizado na Igreja Matriz da Amadora, a partir das 18:00 de sexta-feira. No sábado, pelas 14h, será realizada uma cerimónia de despedida na Igreja da Amadora, seguindo depois o corpo para o Crematório de Barcarena", divulgou o seu filho, Tiago Rodrigues, diretor do Teatro Nacional D. Maria II.


terça-feira, 8 de outubro de 2019

Adília César_ dois poemas


SE FOSSE INVULGAR A OPRESSÃO
esse espírito de vidro
caminharia descalço e desconcertado.

Lá fora a ternura adormece
e tu sais pela porta dos fundos. Ninguém te segue.
Outros sentidos são matéria molhada
pegadas no meu peito recolhido.

Não chores
não corporizes outras tristezas descampadas
sítios que se partem por dentro dos ossos.

É tão banal a dor, essa bengala quebradiça
essa partida sem dizer adeus.

Fica
e falar-te-ei de amor.


NOS MAPAS DE OUTRORA
os arrepios não faziam sentido
nem dentro da cabeça nem fora do coração
pois todas as flores se extinguiram
e o metal derretido ocupou o espaço vazio.

Cambaleiam caules negros e corolas fundentes
em fila indiana sinuosa. Esforçam-se por cair
nas tuas mãos mornas de esposa nobre e fiel.

Os teus dedos a tamborilar nas alianças das viúvas.
Os teus silêncios eróticos.

Mas é nas mãos da neve que gelas subitamente
e és de novo anónima na persistência do frio.

.....

Adília César reside em Faro. Exerce actividade profissional como educadora de infância e formadora no âmbito da Didáctica das Expressões Artísticas, sendo Mestre em Teatro e Educação pela Universidade do Algarve. Publicou livros de poesia: O que se ergue do fogo (2016); Lugar-Corpo (2017); e O Tempo O Tempo (2019). Tem colaborações dispersas, nomeadamente: LÓGOS – Biblioteca do Tempo, Eufeme, Piolho, Estupida, Debaixo do Bulcão, Enfermaria 6, Nervo, Nova Águia, Iberis, Gazeta de Poesia Inédita, Pa_lavra, A Bacana, Caliban e Tlön, além de ensaios e artigos de opinião. É co-coordenadora da revista literária LÓGOS – Biblioteca do Tempo.

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Michael Stipe a solo


 Conheça a canção com que Michael Stipe dos R.E.M. se estreia a solo

A primeira investida ‘a sério’ de Stipe depois do fim dos R.E.M.



Michael Stipe lançou este fim de semana o seu primeiro single a solo, desde o fim dos R.E.M., em 2011.
O tema tem como título 'Your Capricious Soul', e foi interpretado pelo músico num concerto surpresa que deu em maio, a abrir para Patti Smith.
'Your Capricious Soul' não se encontra disponível em nenhuma das tradicionais plataformas de streaming, podendo ser escutada e descarregada no website de Michael Stipe, num formato pague-o-que-quiser.
"Quero acrescentar a minha voz a esta entusiasmante mudança de consciência", afirmou, em comunicado. "Acredito que podemos trazer a mudança necessária à melhoria do nosso planeta Terra".
Ouça aqui 'Your Capricious Soul':

Your Capricious Soul - Michael Stipe from JMSPROJ on Vimeo.

Amália_Entrevistada em 1990




Amália
Arquivo Gesco

20 anos sem Amália. “Como poderia eu ser um mito se fui criada em Alcântara? Não posso inventar outra história”

“Não sou, nem de longe, a melhor voz que o fado já teve. Sou, isso sim, a pessoa com mais coisas negativas dentro de si. O fado gosta disso”. Numa entrevista publicada no jornal “A Capital” em 1990, por altura daquele que se tornaria o seu último álbum de originais, Amália Rodrigues confessava-se uma mulher-fado difícil de aturar, predestinada para cantar, mas avessa ao estatuto de mito. “É a minha maneira de ser que me dá cabo da vida, mas é graças à minha maneira de ser que tudo o que rodeia a Amália aconteceu”. Genial, lúcida, desassombrada e cortante, deixou-nos há 20 anos


Não é fácil entrevistá-la. Ao entrar-se em sua casa, subindo uma escada de degraus de pedra gastos pelo tempo, entra-se num mundo de recordações. A sua presença é avassaladora. As suas marcas adivinham-se não só na disposição dos móveis, mas também nos retratos – fotografados, pintados ou esculpidos. Estamos ali por causa do seu novo álbum, “Obsessão”. Os primeiros fados novos desde “Lágrima”, o disco de 1983. Na verdade, “Obsessão” mais não é do que um pretexto para se voltar, mais uma vez, a falar com Amália.
Na sala ampla onde a esperamos, duas meninas, alunas de uma escola secundária, esperam-na também. Ela chega e nós entregamos-lhe as flores. Rosas vermelhas. “Obrigado” é a primeira palavra que nos diz. De seguida pede desculpa, porque vai “atender as meninas”. Alguém nos diz que andam na escola e já há muito tempo que queriam falar com Amália. “Talvez para pedir conselhos”. As meninas dão-nos tempo para observar melhor os domínios da fadista. Azulejos portugueses na parede, flores por todo o lado, um piano ao canto da sala. Em cima do piano, uma fotografia oferecida “por aquele rapaz, o Leonel Moura”, aquele que pôs a palavra “Portugal” na boca de Amália.

“Nunca me senti um mito nem um deus. Só se eu fosse maluca e, por enquanto, ainda estou lúcida”

Quando, finalmente, Amália chega, corta-se a palavra a Vaclav Havel desligando a televisão. “Desculpem, vamos começar”, diz. Amália, como sempre, veste de negro. Não tira os óculos escuros porque o olho direito a incomoda – “treme e chora sem eu querer”. Enquanto o ‘flash’ da máquina fotográfica ilumina a sala semi-obscurecida, ela pede que eu conte uma anedota. Não sou capaz, é claro. “Eu gosto muito de anedotas, dizem até que tenho jeito para as contar. Todos os meus amigos dizem isso”. “Amigos”. Comecemos por aí.
“Quando cá estou, quase nunca saio de casa. As minhas amigas visitam-me muito” – afirma, justificando talvez a razão do desgaste dos degraus, depois prossegue: “Guardo muito os meus amigos. Tenho ainda amigos que conheci há vinte e trinta anos. Quando faço um amigo nunca o perco. Às vezes vêm da América, de França ou da Itália e nunca se esquecem de me visitar”.
Quando perguntamos se ela acarinha muito os amigos, ela ri e responde que é “ao contrário”: “Os meus amigos é que me acarinham a mim. Dão-me mimos. Eu sou esperta. Se tenho sede, digo “vou buscar um copo de água”. Não precisava de dizer isso, bastava-me levantar-me e ir à cozinha. Mas ao dizer aquilo eu sei que são eles que se levantam. Estou mimada, mas não estragada pelos mimos”.
Amália Rodrigues tem uma capacidade quase infinita para contar histórias. Está a falar e, de repente, faz uma pausa e desvia completamente o rumo ao seu discurso. Tem uma memória prodigiosa. Sendo uma figura histórica, Amália é, ao mesmo tempo, um mito vivo. Ela recusa, no entanto, essa condição, evidenciando uma modéstia desarmante. “Estão sempre a dizer coisas bonitas acerca de mim. Eu gosto muito de as ouvir, mas… no outro dia, um jornal de Barcelona chamava-me mito. Eu não sou um mito, sou apenas igual a mim mesma” – reclama Amália, antes de se justificar: “Um mito é um deus. As questões da filosofia e da mitologia interessam-me sempre. Nunca aprofundei na mitologia porque há muitos pais, muitos filhos e muitos primos naquelas histórias. Aprendi, no entanto, que os mitos são deuses. Eu nunca me senti um mito nem um deus. Só se eu fosse maluca e, por enquanto, ainda estou lúcida.
Comparamos Amália a outros ‘mitos’. Ela aproveita imediatamente a enumeração de outros ‘mitos’ para começar a falar. “Maria Callas… também lhe chamaram mito. Ela, para mim, era uma coisa extraordinária, mas nunca me passaria pela cabeça chamar-lhe um mito. Como poderia eu ser um mito se fui criada em Alcântara? Estou farta de dizer isto e ninguém quer acreditar. O que é que eu hei de fazer? Não posso inventar outra história. Os grandes artistas, como o Frank Sinatra, o Fred Astaire ou a Katharine Hepburn foram apenas artistas e eu exijo a essas pessoas coisas que não se podem pedir aos deuses”.

“A minha vida tem sido muito complicada, mas esses comprimidos que se tomam para se deixar de existir exigem muita coragem”

Talvez porque a luz, ainda que fraca, lhe cansa a vista, ou talvez porque assim as imagens de um passado que serve de fio condutor a esta entrevista sejam mais claras, Amália fala sempre com os olhos fechados. Como na capa de “Obsessão”. É exatamente desse álbum que agora começamos a falar. A primeira pergunta é inevitável: porquê tanto tempo sem editar um disco de originais?
“A minha vida tem sido muito complicada”. Amália prepara o terreno para falar de questões que lhe são difíceis: “estive doente há onze anos. Saí do hospital e fiz ‘Lágrima’, depois tive outra época em que estive mal. Eu julgava que estava muito mais doente do que o que realmente estava e isso ainda me deixava pior. Nessa época até pensei… em tomar uns comprimidos. Mas era muito difícil. Esses comprimidos que se tomam para se deixar de existir exigem muita coragem”.
O assunto é deveras delicado e Amália fala muito pausadamente. Com alguma dificuldade, vai recordando os factos que a mantiveram afastada dos estúdios durante tanto tempo. “Mais tarde passei por uma verdadeira ressurreição. Mas calaram-me na rádio, disseram que eu tinha fugido e, uma vez, num teatro em Itália, havia pessoas à porta que diziam ‘Amália fascista’. Tudo isso me manteve muito tempo longe dos discos”, explica a fadista. De repente, começa a tossir. Pede desculpa, diz que se engasgou e chama a empregada para lhe pedir um copo de água que é prontamente servido numa salva de prata. O incidente abre uma porta no passado que Amália aproveita para contar uma história que teve lugar em 1947. “Eu ainda estava no teatro. Quando estava a finalizar o meu número, algo que me entrou para a garganta, comecei a tossir tanto que fui obrigada a abandonar o palco lavada em lágrimas. As pessoas estavam a aplaudir e eu ainda consegui regressar ao palco. Fico preocupada quando começo a tossir assim”, comenta antes de retomarmos o fio à meada.



Capa de "Obsessão", álbum de originais de Amália Rodrigues lançado em 1990
Capa de "Obsessão", álbum de originais de Amália Rodrigues lançado em 1990

Sabendo já qual vai ser a resposta, pedimos a Amália que nos diga se está satisfeita com “Obsessão”. “Estou e não estou. Gosto de três ou quatro coisas. Há umas cantigas de roda que eu cantava na escola, ‘Chora Mariquinhas Chora’ e ‘Ó Ai Ó Linda’, que eu alterei para dizer às pessoas que o fado até se encontra nessas cantigas de roda. Gosto também do ‘Que Fazes Aí Lisboa’, do ‘Obsessão’ e ‘Flor de Verde Pinho’ está bem cantado. As outras…”. Interrompemos para saber a sua opinião sobre ‘Rondel do Alentejo’, sobre poema de Almada Negreiros. “Também é muito bonito. Mas não só. O fado ‘Prece’ é bonito, a ‘Entrega’ também. Só que estes dois não estão tão bem cantados porque me apanharam num dia em que estava doente. O disco, no geral, não está mal cantado, mas nota-se que às vezes falta garra”, afirma, num esforço notório de autocrítica. Amália raramente fica contente com o que grava, dizem-nos os seus mais próximos colaboradores, mas isso não a impede que grave sempre ao primeiro ‘take’. Há aqui um pequeno paradoxo.
“Eu não posso estar a mastigar um fado. Ou sai ou não sai, porque eu não posso cantar duas vezes igual. Em estúdio, quando canto mais do que três vezes uma coisa já não fico satisfeita. Além disso, tenho que me sentir disposta a gravar”, refere, para logo a seguir contar outra história: “Há muitos anos, fui a Londres. Como se sabe, os ingleses são muito rigorosos em horários. Pois eu cheguei ao estúdio, no primeiro dia, e não me apeteceu gravar. Eles ficaram doidos, nunca lhes tinha aparecido uma pessoa como eu. Não me trataram mal, mas vontade não lhes faltou”.
Amália confessa que há fados no disco que não ficaram como ela desejava, mas também acrescenta que ao vivo é capaz de os interpretar de tal maneira que levanta o público das cadeiras. “O disco – sublinha – tem uma carga minha suficiente, não tem 21 valores. Algumas interpretações têm 17, outras 18 e outras ainda só 12 ou 13. Destas eu não gosto”. Provando se realista, não se coíbe de fazer uma autocrítica, mas também reconhece que nunca cantou tão mal ao ponto que as pessoas dissessem “hoje não me apetece ouvir a Amália”.

“Agora façam favor de dizer ao Frank Sinatra que eu cantei e tive aqui muito êxito”




Capa do jornal "A Capital", de 19 de novembro de 1990
Capa do jornal "A Capital", de 19 de novembro de 1990

Pelas palavras que nos dispensa, quase podemos dizer que a obsessão de Amália é a perfeição, mas antes de nos esclarecer sobre este ponto, a fadista faz uma pausa significativa. “Acho que é a minha maneira de ser. Essa é a minha maior obsessão. Por um lado, é a minha maneira de ser que me dá cabo da vida e, por outro, é graças à minha maneira de ser que tudo o que rodeia a Amália aconteceu”.
Em “Obsessão” nota-se que há uma nova Amália. A voz suporta diferenças que não podem ser justificadas só pela idade. Amália diz simplesmente que está “mais triste”. E qual a razão de tanta tristeza? “Eu já era triste quando era mais nova. A tristeza dentro de nós nunca desaparece; cresce. A experiências da minha vida desencantaram-me. Sou muito exigente comigo mesmo, tão exigente que tenho dificuldade em encontrar pessoas que me aturem. Isto dá-me a certeza absoluta de que nasci predestinada para cantar o fado, sou um instrumento do fado”, afirma com a maior das certezas espelhada na voz, para depois continuar: “não quero com isto dizer que sou a melhor pessoa para cantar o fado. Eu não sou, nem de longe, a melhor voz que o fado já teve. Sou, isso sim, a pessoa com mais coisas negativas dentro de si. O fado gosta disso, exige essa condição. O fado quer que uma pessoa seja desgraçada, não no sentido de desgraçadinha, quer que uma pessoa seja triste como a noite e é esse o meu caso. Só não sou triste quando não estou sozinha. De resto, sou muito triste”.
Amália reclama para si o fado de viver guiada pelo instinto e de todas as decisões que toma serem totalmente espontâneas. Diz que isso se reflete na maneira como canta, na maneira como a sua carreira é gerida. “Eu nunca penso nas coisas. Faço-as e pronto. Às vezes, na rádio, querem-me dizer quais são as perguntas para eu pensar antes de entrar no ar e responder. Eu recuso. Não consigo pensar nessas coisas. Sou completamente espontânea a cantar e tudo. Sabe como é que eu terminei o meu espetáculo de Nova Iorque? Voltei ao palco depois dos encores e disse ‘agora fazem favor de dizer ao Frank Sinatra que eu cantei e tive aqui muito êxito’. Foi uma brincadeira que eu fiz sem pensar se devia fazê-la ou não”.
A deixa é boa e nós não hesitamos. Conheceu Frank Sinatra? Responde que sim e conta a história. “Estive na América há 40 anos, quando o Frank Sinatra tinha aquelas meninas que desmaiavam. A mim disseram-me que aquilo era tudo a fingir, que elas eram pagas para desmaiar nos espetáculos. E eu achei tão ridículo que embirrei com ele e não lhe dei confiança nenhuma. Eu andava no grupo do Eddie Fischer, Perry Como, Sammy Davis Jr., Nat King Cole e do Sinatra também. E como eu não tinha gostado nada do que me tinha contado, nunca lhe liguei. Acho que ninguém é capaz de fazer as pessoas desmaiar e depois continuar a fazê-las desmaiar ao longo de tantos anos. Mas tenho pena de ter embirrado com ele porque gostava de me ter mantido em contacto com ele, até para lhe mandar discos e saber a sua opinião acerca da minha voz”.



Amália entrevistada pelo jornalista Rui Miguel Abreu em novembro de 1990
Amália entrevistada pelo jornalista Rui Miguel Abreu em novembro de 1990
António José/Arquivo A Capital

“Tenho olhos de fado”

Em “Obsessão” Amália canta grandes poetas – Luís de Camões, Almada, Afonso Lopes Vieira, Pedro Homem de Mello, Francisco Bogalho… O que leva Amália a cantar estes poetas? “O Luís de Camões, por exemplo… isto é como as nêsperas: nós começamos sempre pelas maduras e acabamos por comer também as verdes. Bem, Camões não tem nêsperas verdes, são todas maduras. Eu cantei sempre Camões, acho que ele é um ‘poeta-fadista’”, sublinha Amália, citando depois o soneto ‘Com Que Voz Cantarei Este Meu Triste Fado”. “Isto é fado”, exulta a fadista, que revela ainda um plano secreto e pessoal de gravar um disco só com Camões, “para deixar, como homenagem”.
“Porque cantar é diferente de ler”, Amália, por vezes, altera poemas que lhe são entregues. “Geralmente, os poetas não se importam, porque eu discuto as alterações com eles. Costuma ser só uma palavra ou ou outra, mas é uma questão delicada para quem escreve. Nunca tive problemas, já alterei coisas do David Mourão Ferreira, por exemplo, e ele compreendeu. Mas, em ‘Obsessão’ houve um poema em que eu alterei uma palavra e o autor não gostou. Ele escreveu a dizer que estava contente por eu o ter escolhido, mas mostrou-se aborrecido pela mudança. Evidentemente, não vou dizer quem foi”, explica a fadista.
Com o Almada, de quem canta ‘Rondel do Alentejo’, o caso é diferente. Sem problemas, Amália confessa que “nem sequer sabia que ele era poeta”. “Eu conhecia-o só como pintor. Como não fui educada culturalmente, não sabia que ele também fazia poesia. Só mais tarde é que o Alain [Oulman] me apresentou à poesia em geral e ao Almada”. Amália é assim: não se importa de confessar uma certa ignorância, uma falta de cultura apenas aparente. Mas a cultura não se aprende só nos bancos da escola.
Depois de dar a sua visão pessoalíssima do fado – em sua opinião relacionada com o isolamento de Portugal, que “de um lado tinha as espadas dos espanhóis e do outro o mar” – e de nos falar do seu imenso amor pelas flores, Amália confessa o seu medo de algum dia deixar mal Portugal ao não ser capaz de cantar num palco estrangeiro.
Os seus projetos futuros são a homenagem a Camões e a gravação de um disco com poemas de Cecília Meireles musicados por Alain Oulman. Não se alonga no assunto porque lhe é difícil falar sobre esse amigo que morreu recentemente. Será a sua derradeira homenagem a um homem que lhe desbravou novos caminhos no fado.
Já depois de o botão ‘stop’ do gravador ter sido premido, Amália mostra-nos os quadros e fotografias que tem na sala para que possamos entender o que ela quer dizer quando fala em melancolia e tristeza. Um dos quadros da sala retrata-a aos 24 anos. “Como vê, aqueles olhos são os da cara, mas o olhar, esse, é o da alma. Tenho olhos de fado”.
Despedimo-nos. Obrigado. E, descendo as escadas de pedra que levam à rua, pensamos na sua última frase: “Tenho olhos de fado”. Para falar a verdade, achamos que Amália é a personificação do fado. Mas isso é outra história.
Publicado originalmente na edição de 19 de novembro de 1990 do jornal "A Capital"

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Dead Combo_



Dead Combo
on Tuesday
A quem possa interessar,
Poderíamos começar esta carta com um passeio pela nossa história, nesse longínquo 2003 quando o acaso decidiu juntar dois corpos escanzelados que mal se conheciam e vibravam por músicas distantes.
Mas sobre isso, já se escreveu e romantizou o suficiente…
Poderíamos, sem rodeios, começar pelo final, cru, directos ao assunto e sem nenhuma morna pelo caminho…
Ou então, poderíamos começar pela razão que nos leva a escrever esta carta, que é abrir-vos o jogo. Sim, é por aqui que iremos começar.
A razão destas palavras é simples: são vocês.
Vocês, as pessoas que acreditaram e apoiaram este duo que já dura há 16 anos.
Vocês, que permitiram à nossa sensibilidade entrar nas vossas casas.
Achámos que por este voto de confiança, devíamos ser honestos e dar-vos a escolher entre estar presentes ou ausentes neste próximos tempos da nossa banda.
Para nós, 2020 não será um ano qualquer.
Se o nosso encontro (Tó/Pedro) foi uma descoberta, uma grande amizade, um diálogo musical, um universo que se foi adensando e clarificando; se todos estes anos foram uma grande festa nas nossas vidas, não poderia ser de outra forma o nosso final. Decidimos acabar, mas acabar em grande.
Não é um final triste, há muita coisa para ser celebrada.
De uma forma concreta, acabamos como começámos: os dois.
Voltamos aos palcos com uma tour, num passeio pela nossa história.
Começará no final de 2019 e acabará em 2020.
Muita vida a todos,
Tó Trips e Pedro Gonçalves

"Em abril de 2018, em entrevista ao Observador, o “gangster” e o “cangalheiro”, como as figuras passam à história, falavam sobre o mais recente álbum, “Odeon Hotel”, novo caldeirão onde cabem os ingredientes que marcaram o trajeto da banda, do fado, ao jazz, do rock aos blues, sem esquecer os ritmos sul-americanos que agitam uma cidade em mudança acelerada. “Isto já é uma cidade virada só para pessoas cheias de dinheiro e estrangeiros. E isso não é uma cidade, é um resort turístico”, desabafavam então sobre Lisboa, ao sétimo disco, que contou com convidados como Mark Lanegan, e que prometia apontar caminho para a internacionalização da dupla. “Uma das condições de termos agora, ao final de 15 anos, um contrato com a Sony [uma editora major, uma das maiores da indústria musical] foi a promessa de editarmos lá fora dentro de uma estrutura sólida”, referia então Gonçalves. O disco foi editado digitalmente em todo o mundo e fisicamente em “muitos” países.
Em jeito de revisão da matéria, não esqueciam alguns dos momentos mais complicados, admitindo mesmo nessa entrevista ao Observador como um ano antes “chegou uma altura em que estivemos mesmo para dizer: ‘bora’ lá acabar com isto. Se é para ser assim…” — “Normalmente esses momentos não têm nada a ver com música, têm a ver com sermos só dois e chegarmos a uma determinada altura em que um de nós, ou os dois, está assim mais avariado da cabeça e desatinamos e pronto… chateamo-nos — e assinalavam encontros para a posteridade como a participação, em 2013, no programa “No Reservations”, nessa visita do chef Anthony Bourdain pela capital portuguesa.

Um western à beira Tejo

A guitarra de Tó Trips e o contrabaixo de Pedro V. Gonçalves, e ainda com melódica e kazoo pelo meio, e o que mais possa caber neste convite para a dança. Foi em 2001 que se conheceram e puseram em marcha um dos mais vibrantes projetos musicais da música contemporânea portuguesa — Tó Pediu boleia a Pedro, Pedro não tinha carro, e a pé seguiram para o Bairro Alto, a casa de partida destes Dead Combo, que então planeavam gravar um álbum de tributo ao guitarrista Carlos Paredes. Um par de anos depois, a banda de dois homens sós lança-se em definitivo, com 2004 a trazer o álbum de estreia, Vol.1, ensaio de estreia que convenceu a crítica, baralhou os rótulos e pôs Lisboa a ferver à beira rio.
Vol. 2 – Quando A Alma Não É Pequena (2006), Guitars From Nothing (2007), Lusitânia Playboys (2008), Lisboa Mulata (2011) e A Bunch of Meninos (2014) foram os capítulos que se seguiram antes deste Odeon Hotel, com alusão ao célebre hotel alfacinha.
“Sul”, a série policial que acaba de se estrear na RTP1 tem cereja em cima do bolo: banda sonora a cargo de Dead Combo para, mais uma vez, mostrar Lisboa como nunca a vimos. A 26 de outubro, atuam no Centro de Artes e Espetáculos da Figueira da Foz, o próximo concerto na agenda, e o começo desta despedida em palco da dupla." in: "Observador"

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Ferreira Gullar_PRIMEIROS ANOS

Ferreira Gullar



PRIMEIROS ANOS

Para uma vida de merda
nasci em 1930
na rua dos prazeres

Nas tábuas velhas do assoalho
por onde me arrastei
conheci baratas, formigas carregando espadas
caranguejeiras
que nada me ensinaram
exceto o terror

Em frente ao muro negro no quintal
as galinhas ciscavam, o girassol
gritava asfixiado
longe longe do mar
(longe do amor)

E no entanto o mar jazia perto
detrás de mirantes e palmeiras
embrulhado em seu barulho azul

E as tardes sonoras
rolavam
sobre nossos telhados
sobre nossas vidas .
Do meu quarto
ouvia o século XX
farfalhando nas árvores lá fora.

Depois me suspenderam pela gola
me esfregaram na lama
me chutaram os colhões
e me soltaram zonzo
em plena capital do país
sem ter sequer uma arma na mão.
Ferreira Gullar



.....

variações em do' maior

e, no entanto,
tudo igual
(se não pior), como então:
a Mata e o Capitão
mota-serra nessa mão
fuzil nesse "cabrão"
que e' primo do 
"meu primo Balduino"
um qualquer da areia capitã
para não falar da ditadura
longe de causar amargura
tem  exemplo
tem candura
seja no chile
seja onde quer que surja
nesta latina armadura
erradicar o "comuna"
tudo igual 
sem brandura.

assim penso e,
curioso
já pensava
só que o povo
acreditava
que era "eu", ou ninguém
para "ordem e progresso".

elegeu-me 
(mas que merda)...
mal sabiam
o que os espera.

lmc





















Amêndoa Amarga_ Amália Rodrigues

Amêndoa Amarga” foi uma das sete letras que Ary dos Santos escreveu para a Amália, todas elas musicadas por Alain Oulman.
Este fado só viria a ser conhecido, em 1977, no LP “Cantigas Numa Língua Antiga”, juntamente com "Alfama", "Rosa Vermelha", "Meu Amigo Está Longe" e "O Meu É Teu". E a estes acrescentou-se "É da Torre mais Alta", um inédito das sessões de 1975 que seria publicado apenas em 1997.
Porém, muitos destes fados foram escritos por Ary e musicados por Oulman muito antes - logo depois de “Meu Amor, Meu Amor”, o único fado dos dois editado antes do 25 de Abril, no álbum “Com que Voz” (1970).
E Amália também já os tinha "experimentado" e gravado, entre 1969 e 1973, em versões que ficaram inéditas até hoje e que, nalguns casos, diferem bastante do texto fixado depois nas versões “definitivas”.
Diz-nos Alain Oulman, no livro “Ary dos Santos - as Palavras das Cantigas”, coordenado por Ruben de Carvalho: “Amêndoa Amarga foi a segunda canção que fizemos. Uma das quadras que ele tinha escrito, que seria a penúltima, foi cortada: *)  Minha essência , meu perfume / meu lume minha lava meu labéu / como é possível não chegar ao cimo / de tão lavado céu.“ - nesta versão de "Amêndoa Amarga", Amália ainda a canta.

versão inédita:





Por ti falo e ninguém pensa
mas eu digo minha amêndoa, meu amigo, meu irmão
meu tropel de ternura, minha casa
meu jardim de carência, minha asa.

Por ti vivo e ninguém pensa
mas eu sigo um caminho de  nardos  empestados
uma intensa ternura que persigo
rodeada de cardos por tantos lados.

*) Meu perfume, minha essência  
meu lume, minha lava, meu labéu 
como é possível não chegar ao cimo 
de tão lavado céu.

Por ti morro e ninguém sabe
mas eu espero o teu corpo que sabe a madrugada
o teu corpo que sabe a desespero
ó minha amarga amêndoa desejada.

(Ary dos Santos/ Alain Oulman)

[versão que foi fixada nas gravações ate' agora conhecidas]:



Por ti falo e ninguém pensa
mas eu digo minha amêndoa, meu amigo, meu irmão
meu tropel de ternura, minha casa
meu jardim de carência, minha asa.

Por ti vivo e ninguém pensa
mas eu sigo um caminho de silvas e de nardos
uma intensa ternura que persigo
rodeada de cardos por tantos lados.

Por ti morro e ninguém sabe
mas eu espero o teu corpo que sabe a madrugada
o teu corpo que sabe a desespero
ó minha amarga amêndoa desejada.


domingo, 1 de setembro de 2019

"Muriel" _Ruy Belo


"É, desde sempre, não só o meu poema de amor favorito em toda a literatura portuguesa (que eu conheça) como é, mais do que isso, o meu poema favorito. Acontece que o tema dominante no que escreve é o amor, e dentro do amor, por razões muito pessoais e objectivas, o desencontro. Este poema fala de ambos, como a meu ver só o Ruy Belo soube fazer. Para além da música das palavras, como sempre incomparável, o Ruy consegue aqui uma emoção, uma intensa tristeza, uma maneira de ir ao encontro do amor tornando-o impossível que me comove sempre, e que se me entranha de cada vez que o leio, seja para mim, seja para outrem. Como sempre, a ferramenta certeira é, além disso, a morte. O Ruy utiliza a morte, seu tema obsessivo, tanto para falar de amor como para o que quer que seja. Ora fá-lo com uma profundidade e uma melancolia tais, que sempre, há trinta anos que leio este poema, ele renasce em mim, e põe-me a chorar por dentro. São razões muito físicas e emotivas, nada intelectuais." - Manuel Cintra, in jornal Observador



"Muriel", Ruy Belo


Às vezes se te lembras procurava-te
retinha-te esgotava-te e se te não perdia
era só por haver-te já perdido ao encontrar-te
Nada no fundo tinha que dizer-te
e para ver-te verdadeiramente
e na tua visão me comprazer
indispensável era evitar ter-te
Era tudo tão simples quando te esperava
tão disponível como então eu estava
Mas hoje há os papéis há as voltas dar
há gente à minha volta há a gravata
Misturei muitas coisas com a tua imagem
Tu és a mesma mas nem imaginas
como mudou aquele que te esperava
Tu sabes como era se soubesses como é
Numa vida tão curta mudei tanto
que é com certo espanto que no espelho da manhã
distraído diviso a cara que me resta
depois de tudo quanto o tempo me levou
Eu tinha uma cidade tinha o nome de madrid
havia as ruas as pessoas o anonimato
os bares os cinemas os museus
um dia vi-te e desde então madrid
se porventura tem ainda para mim sentido
é ser solidão que te rodeia a ti
Mas o preço que pago por te ter
é ter-te apenas quanto poder ver-te
e ao ver-te saber que vou deixar de ver-te
Sou muito pobre tenho só por mim
no meio destas ruas e do pão e dos jornais
este sol de Janeiro e alguns amigos mais
Mesmo agora te vejo e mesmo ao ver-te não te vejo
pois sei que dentro em pouco deixarei de ver-te
Eu aprendi a ver a minha infância
vim a saber mais tarde a importância desse verbo para os gregos
e penso que se bach hoje nascesse
em vez de ter composto aquele prelúdio e fuga em ré maior
que esta mesma tarde num concerto ouvi
teria concebido aqueles sweet hunters
que esta noite vi no cinema rosales
Vejo-te agora vi-te ontem e anteontem
E penso que se nunca a bem dizer te vejo
se fosse além de ver-te sem remédio te perdia
Mas eu dizia que te via aqui e acolá
e quando te não via dependia
do momento marcado para ver-te
Eu chegava primeiro e tinha de esperar-te
e antes de chegares já lá estavas
naquele preciso sítio combinado
onde sempre chegavas sempre tarde
ainda que antes mesmo de chegares lá estivesses
se ausente mais presente pela expectativa
por isso mais te via do que ao ter-te à minha frente
Mas sabia e sei que um dia não virás
que até duvidarei se tu estiveste onde estiveste
ou até se exististe ou se eu mesmo existi
pois na dúvida tenho a única certeza
Terá mesmo existido o sítio onde estivemos?
Aquela hora certa aquele lugar?
À força de o pensar penso que não
Na melhor das hipóteses estou longe
qualquer de nós terá talvez morrido
No fundo quem nos visse àquela hora
à saída do metro de serrano
sensivelmente em frente daquele bar
poderia pensar que éramos reais
pontos materiais de referência
como as árvores ou os candeeiros
Talvez pensasse que naqueles encontros
em que talvez no fundo procurássemos
o encontro profundo com nós mesmos
haveria entre nós um verdadeiro encontro
como o que apenas temos nos encontros
que vemos entre os outros onde só afinal somos felizes
Isso era por exemplo o que me acontecia
quando há anos nas manhãs de roma
entre os pinheiros ainda indecisos
do meu perdido parque de villa borghese
eu via essa mulher e esse homem
que naqueles encontros pontuais
Decerto não seriam tão felizes como neles eu
pois a felicidade para nós possível
é sempre a que sonhamos que há nos outros
Até que certo dia não sei bem
Ou não passei por lá ou eles não foram
nunca mais foram nunca mais passei por lá
Passamos como tudo sem remédio passa
e um dia decerto mesmo duvidamos
dia não tão distante como nós pensamos
se estivemos ali se madrid existiu
Se portanto chegares tu primeiro porventura
alguma vez daqui a alguns anos
junto de califórnia vinte e um
que não te admires se olhares e me não vires
Estarei longe talvez tenha envelhecido
Terei até talvez mesmo morrido
Não te deixes ficar sequer à minha espera
não telefones não marques o número
ele terá mudado a casa será outra
Nada penses ou faças vai-te embora
tu serás nessa altura jovem como agora
tu serás sempre a mesma fresca jovem pura
que alaga de luz todos os olhos
que exibe o sossego dos antigos templos
e que resiste ao tempo como a pedra
que vê passar os dias um por um
que contempla a sucessão de escuridão e luz
e assiste ao assalto pelo sol
daquele poder que pertencia à lua
que transfigura em luxo o próprio lixo
que tão de leve vive que nem dão por ela
as parcas implacáveis para os outros
que embora tudo mude nunca muda
ou se mudar que se não lembre de morrer
ou que enfim morra mas que não me desiluda
Dizia que ao chegar se olhares e não me vires
nada penses ou faças vai-te embora
eu não te faço falta e não tem sentido
esperares por quem talvez tenha morrido
ou nem sequer talvez tenha existido.


Às vezes se te lembras procurava-te
retinha-te esgotava-te e se te não perdia
era só por haver-te já perdido ao encontrar-te
Nada no fundo tinha que dizer-te
e para ver-te verdadeiramente
e na tua visão me comprazer
indispensável era evitar ter-te
Era tudo tão simples quando te esperava
tão disponível como então eu estava
Mas hoje há os papéis há as voltas dar
há gente à minha volta há a gravata
Misturei muitas coisas com a tua imagem
Tu és a mesma mas nem imaginas
como mudou aquele que te esperava
Tu sabes como era se soubesses como é
Numa vida tão curta mudei tanto
que é com certo espanto que no espelho da manhã
distraído diviso a cara que me resta
depois de tudo quanto o tempo me levou
Eu tinha uma cidade tinha o nome de madrid
havia as ruas as pessoas o anonimato
os bares os cinemas os museus
um dia vi-te e desde então madrid
se porventura tem ainda para mim sentido
é ser solidão que te rodeia a ti
Mas o preço que pago por te ter
é ter-te apenas quanto poder ver-te
e ao ver-te saber que vou deixar de ver-te
Sou muito pobre tenho só por mim
no meio destas ruas e do pão e dos jornais
este sol de Janeiro e alguns amigos mais
Mesmo agora te vejo e mesmo ao ver-te não te vejo
pois sei que dentro em pouco deixarei de ver-te
Eu aprendi a ver a minha infância
vim a saber mais tarde a importância desse verbo para os gregos
e penso que se bach hoje nascesse
em vez de ter composto aquele prelúdio e fuga em ré maior
que esta mesma tarde num concerto ouvi
teria concebido aqueles sweet hunters
que esta noite vi no cinema rosales
Vejo-te agora vi-te ontem e anteontem
E penso que se nunca a bem dizer te vejo
se fosse além de ver-te sem remédio te perdia
Mas eu dizia que te via aqui e acolá
e quando te não via dependia
do momento marcado para ver-te
Eu chegava primeiro e tinha de esperar-te
e antes de chegares já lá estavas
naquele preciso sítio combinado
onde sempre chegavas sempre tarde
ainda que antes mesmo de chegares lá estivesses
se ausente mais presente pela expectativa
por isso mais te via do que ao ter-te à minha frente
Mas sabia e sei que um dia não virás
que até duvidarei se tu estiveste onde estiveste
ou até se exististe ou se eu mesmo existi
pois na dúvida tenho a única certeza
Terá mesmo existido o sítio onde estivemos?
Aquela hora certa aquele lugar?
À força de o pensar penso que não
Na melhor das hipóteses estou longe
qualquer de nós terá talvez morrido
No fundo quem nos visse àquela hora
à saída do metro de serrano
sensivelmente em frente daquele bar
poderia pensar que éramos reais
pontos materiais de referência
como as árvores ou os candeeiros
Talvez pensasse que naqueles encontros
em que talvez no fundo procurássemos
o encontro profundo com nós mesmos
haveria entre nós um verdadeiro encontro
como o que apenas temos nos encontros
que vemos entre os outros onde só afinal somos felizes
Isso era por exemplo o que me acontecia
quando há anos nas manhãs de roma
entre os pinheiros ainda indecisos
do meu perdido parque de villa borghese
eu via essa mulher e esse homem
que naqueles encontros pontuais
Decerto não seriam tão felizes como neles eu
pois a felicidade para nós possível
é sempre a que sonhamos que há nos outros
Até que certo dia não sei bem
Ou não passei por lá ou eles não foram
nunca mais foram nunca mais passei por lá
Passamos como tudo sem remédio passa
e um dia decerto mesmo duvidamos
dia não tão distante como nós pensamos
se estivemos ali se madrid existiu
Se portanto chegares tu primeiro porventura
alguma vez daqui a alguns anos
junto de califórnia vinte e um
que não te admires se olhares e me não vires
Estarei longe talvez tenha envelhecido
Terei até talvez mesmo morrido
Não te deixes ficar sequer à minha espera
não telefones não marques o número
ele terá mudado a casa será outra
Nada penses ou faças vai-te embora
tu serás nessa altura jovem como agora
tu serás sempre a mesma fresca jovem pura
que alaga de luz todos os olhos
que exibe o sossego dos antigos templos
e que resiste ao tempo como a pedra
que vê passar os dias um por um
que contempla a sucessão de escuridão e luz
e assiste ao assalto pelo sol
daquele poder que pertencia à lua
que transfigura em luxo o próprio lixo
que tão de leve vive que nem dão por ela
as parcas implacáveis para os outros
que embora tudo mude nunca muda
ou se mudar que se não lembre de morrer
ou que enfim morra mas que não me desiluda
Dizia que ao chegar se olhares e não me vires
nada penses ou faças vai-te embora
eu não te faço falta e não tem sentido
esperares por quem talvez tenha morrido
ou nem sequer talvez tenha existido


Ruy Belo

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Às vezes se te lembras procurava-te
retinha-te esgotava-te e se te não perdia
era só por haver-te já perdido ao encontrar-te
Nada no fundo tinha que dizer-te
e para ver-te verdadeiramente
e na tua visão me comprazer
indispensável era evitar ter-te
Era tudo tão simples quando te esperava
tão disponível como então eu estava
Mas hoje há os papéis há as voltas dar
há gente à minha volta há a gravata
Misturei muitas coisas com a tua imagem
Tu és a mesma mas nem imaginas
como mudou aquele que te esperava
Tu sabes como era se soubesses como é
Numa vida tão curta mudei tanto
que é com certo espanto que no espelho da manhã
distraído diviso a cara que me resta
depois de tudo quanto o tempo me levou
Eu tinha uma cidade tinha o nome de madrid
havia as ruas as pessoas o anonimato
os bares os cinemas os museus
um dia vi-te e desde então madrid
se porventura tem ainda para mim sentido
é ser solidão que te rodeia a ti
Mas o preço que pago por te ter
é ter-te apenas quanto poder ver-te
e ao ver-te saber que vou deixar de ver-te
Sou muito pobre tenho só por mim
no meio destas ruas e do pão e dos jornais
este sol de Janeiro e alguns amigos mais
Mesmo agora te vejo e mesmo ao ver-te não te vejo
pois sei que dentro em pouco deixarei de ver-te
Eu aprendi a ver a minha infância
vim a saber mais tarde a importância desse verbo para os gregos
e penso que se bach hoje nascesse
em vez de ter composto aquele prelúdio e fuga em ré maior
que esta mesma tarde num concerto ouvi
teria concebido aqueles sweet hunters
que esta noite vi no cinema rosales
Vejo-te agora vi-te ontem e anteontem
E penso que se nunca a bem dizer te vejo
se fosse além de ver-te sem remédio te perdia
Mas eu dizia que te via aqui e acolá
e quando te não via dependia
do momento marcado para ver-te
Eu chegava primeiro e tinha de esperar-te
e antes de chegares já lá estavas
naquele preciso sítio combinado
onde sempre chegavas sempre tarde
ainda que antes mesmo de chegares lá estivesses
se ausente mais presente pela expectativa
por isso mais te via do que ao ter-te à minha frente
Mas sabia e sei que um dia não virás
que até duvidarei se tu estiveste onde estiveste
ou até se exististe ou se eu mesmo existi
pois na dúvida tenho a única certeza
Terá mesmo existido o sítio onde estivemos?
Aquela hora certa aquele lugar?
À força de o pensar penso que não
Na melhor das hipóteses estou longe
qualquer de nós terá talvez morrido
No fundo quem nos visse àquela hora
à saída do metro de serrano
sensivelmente em frente daquele bar
poderia pensar que éramos reais
pontos materiais de referência
como as árvores ou os candeeiros
Talvez pensasse que naqueles encontros
em que talvez no fundo procurássemos
o encontro profundo com nós mesmos
haveria entre nós um verdadeiro encontro
como o que apenas temos nos encontros
que vemos entre os outros onde só afinal somos felizes
Isso era por exemplo o que me acontecia
quando há anos nas manhãs de roma
entre os pinheiros ainda indecisos
do meu perdido parque de villa borghese
eu via essa mulher e esse homem
que naqueles encontros pontuais
Decerto não seriam tão felizes como neles eu
pois a felicidade para nós possível
é sempre a que sonhamos que há nos outros
Até que certo dia não sei bem
Ou não passei por lá ou eles não foram
nunca mais foram nunca mais passei por lá
Passamos como tudo sem remédio passa
e um dia decerto mesmo duvidamos
dia não tão distante como nós pensamos
se estivemos ali se madrid existiu
Se portanto chegares tu primeiro porventura
alguma vez daqui a alguns anos
junto de califórnia vinte e um
que não te admires se olhares e me não vires
Estarei longe talvez tenha envelhecido
Terei até talvez mesmo morrido
Não te deixes ficar sequer à minha espera
não telefones não marques o número
ele terá mudado a casa será outra
Nada penses ou faças vai-te embora
tu serás nessa altura jovem como agora
tu serás sempre a mesma fresca jovem pura
que alaga de luz todos os olhos
que exibe o sossego dos antigos templos
e que resiste ao tempo como a pedra
que vê passar os dias um por um
que contempla a sucessão de escuridão e luz
e assiste ao assalto pelo sol
daquele poder que pertencia à lua
que transfigura em luxo o próprio lixo
que tão de leve vive que nem dão por ela
as parcas implacáveis para os outros
que embora tudo mude nunca muda
ou se mudar que se não lembre de morrer
ou que enfim morra mas que não me desiluda
Dizia que ao chegar se olhares e não me vires
nada penses ou faças vai-te embora
eu não te faço falta e não tem sentido
esperares por quem talvez tenha morrido
ou nem sequer talvez tenha existido


Ruy Belo

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Às vezes se te lembras procurava-te
retinha-te esgotava-te e se te não perdia
era só por haver-te já perdido ao encontrar-te
Nada no fundo tinha que dizer-te
e para ver-te verdadeiramente
e na tua visão me comprazer
indispensável era evitar ter-te
Era tudo tão simples quando te esperava
tão disponível como então eu estava
Mas hoje há os papéis há as voltas dar
há gente à minha volta há a gravata
Misturei muitas coisas com a tua imagem
Tu és a mesma mas nem imaginas
como mudou aquele que te esperava
Tu sabes como era se soubesses como é
Numa vida tão curta mudei tanto
que é com certo espanto que no espelho da manhã
distraído diviso a cara que me resta
depois de tudo quanto o tempo me levou
Eu tinha uma cidade tinha o nome de madrid
havia as ruas as pessoas o anonimato
os bares os cinemas os museus
um dia vi-te e desde então madrid
se porventura tem ainda para mim sentido
é ser solidão que te rodeia a ti
Mas o preço que pago por te ter
é ter-te apenas quanto poder ver-te
e ao ver-te saber que vou deixar de ver-te
Sou muito pobre tenho só por mim
no meio destas ruas e do pão e dos jornais
este sol de Janeiro e alguns amigos mais
Mesmo agora te vejo e mesmo ao ver-te não te vejo
pois sei que dentro em pouco deixarei de ver-te
Eu aprendi a ver a minha infância
vim a saber mais tarde a importância desse verbo para os gregos
e penso que se bach hoje nascesse
em vez de ter composto aquele prelúdio e fuga em ré maior
que esta mesma tarde num concerto ouvi
teria concebido aqueles sweet hunters
que esta noite vi no cinema rosales
Vejo-te agora vi-te ontem e anteontem
E penso que se nunca a bem dizer te vejo
se fosse além de ver-te sem remédio te perdia
Mas eu dizia que te via aqui e acolá
e quando te não via dependia
do momento marcado para ver-te
Eu chegava primeiro e tinha de esperar-te
e antes de chegares já lá estavas
naquele preciso sítio combinado
onde sempre chegavas sempre tarde
ainda que antes mesmo de chegares lá estivesses
se ausente mais presente pela expectativa
por isso mais te via do que ao ter-te à minha frente
Mas sabia e sei que um dia não virás
que até duvidarei se tu estiveste onde estiveste
ou até se exististe ou se eu mesmo existi
pois na dúvida tenho a única certeza
Terá mesmo existido o sítio onde estivemos?
Aquela hora certa aquele lugar?
À força de o pensar penso que não
Na melhor das hipóteses estou longe
qualquer de nós terá talvez morrido
No fundo quem nos visse àquela hora
à saída do metro de serrano
sensivelmente em frente daquele bar
poderia pensar que éramos reais
pontos materiais de referência
como as árvores ou os candeeiros
Talvez pensasse que naqueles encontros
em que talvez no fundo procurássemos
o encontro profundo com nós mesmos
haveria entre nós um verdadeiro encontro
como o que apenas temos nos encontros
que vemos entre os outros onde só afinal somos felizes
Isso era por exemplo o que me acontecia
quando há anos nas manhãs de roma
entre os pinheiros ainda indecisos
do meu perdido parque de villa borghese
eu via essa mulher e esse homem
que naqueles encontros pontuais
Decerto não seriam tão felizes como neles eu
pois a felicidade para nós possível
é sempre a que sonhamos que há nos outros
Até que certo dia não sei bem
Ou não passei por lá ou eles não foram
nunca mais foram nunca mais passei por lá
Passamos como tudo sem remédio passa
e um dia decerto mesmo duvidamos
dia não tão distante como nós pensamos
se estivemos ali se madrid existiu
Se portanto chegares tu primeiro porventura
alguma vez daqui a alguns anos
junto de califórnia vinte e um
que não te admires se olhares e me não vires
Estarei longe talvez tenha envelhecido
Terei até talvez mesmo morrido
Não te deixes ficar sequer à minha espera
não telefones não marques o número
ele terá mudado a casa será outra
Nada penses ou faças vai-te embora
tu serás nessa altura jovem como agora
tu serás sempre a mesma fresca jovem pura
que alaga de luz todos os olhos
que exibe o sossego dos antigos templos
e que resiste ao tempo como a pedra
que vê passar os dias um por um
que contempla a sucessão de escuridão e luz
e assiste ao assalto pelo sol
daquele poder que pertencia à lua
que transfigura em luxo o próprio lixo
que tão de leve vive que nem dão por ela
as parcas implacáveis para os outros
que embora tudo mude nunca muda
ou se mudar que se não lembre de morrer
ou que enfim morra mas que não me desiluda
Dizia que ao chegar se olhares e não me vires
nada penses ou faças vai-te embora
eu não te faço falta e não tem sentido
esperares por quem talvez tenha morrido
ou nem sequer talvez tenha existido


Ruy Belo

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sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Let's Get Lost_Chet Baker





o admirável documentário de Bruce Weber:

Let’s Get Lost (1988) é um documentário sobre a vida turbulenta e a carreira do trompetista de jazz Chet Baker. Escrito e dirigido por Bruce Weber, Let’s Get Lost é um dos mais belos filmes reais feitos sobre o universo do jazz no séc. XX e o mais marcante dedicado à figura singular de Chet Baker.


"Há sempre uma encruzilhada na vida de um homem normal. Talvez várias na vida de um homem que escape à mediania. Uma ou várias implicam escolher. Pode ser a decisão de dar ou não dar um beijo, o destino de uma paixão, a escolha de um amor (sim, o amor também é uma escolha). Para alguns a descoberta de uma vocação, por vezes a opção entre uma vida livre a sofrer ou uma do tipo vegetativa, rica e sem dramas. Com princípio, meio e fim, ignorando a dor, própria ou alheia."


"Aos primeiros minutos de Let's Get Lost vemos um Chet Baker com 50 e muitos anos, de olhar enigmático, sentado num Cadillac descapotável, rodeado de duas jovens mulheres. O imaginário romântico típico de um músico de jazz. Esta- mos em 1987 e mal imaginava Bruce Weber, o realizador, que poucos meses depois dessas filmagens, Chet Baker acabaria morto numa rua de Amesterdão, depois de, conta a história, ter caído da janela do hotel onde estava instalado. O retrato daquele que foi uma das maiores referências do chamado cool jazz da costa oeste dos EUA chega agora ao formato DVD em Portugal.

No entanto nada há de romantismo na vida de Chet Baker. É verdade que, nos tempos de juventude, a sua figura lembrava estrelas como James Dean ou Montgomery Cliff. Apareceu em filmes como Hell's Horizon (1955) ou Howlers of the Dock (1960), e no mesmo ano a sua vida deu origem à longa-metragem All the Fine Young Cannibals. Mas este documentário de Bruce Weber não romantiza o trompetista. Em Let's Get Lost tanto vemos um Chet Baker que, dado ao seu talento, marcou a história do jazz, como um Chet Baker desapontado com a vida, viciado em heroína, que bateu nas mulheres que o acompanharam, que negligenciou os filhos.

Há ainda assim algo de poético na forma como Bruce Weber nos mostra Baker em Let's Get Lost. Provavelmente por tê-lo filmado sempre a preto e branco, ao que juntou várias imagens de arquivo, do auge criativo do trompetista, sem com isto criar um efeito perverso de contraste entre o esplendor da juventude e a decadência do fim da vida.

É verdade que Bruce Weber ficou conhecido especialmente pela sua carreira como fotógrafo de moda, tendo com grande referência a estética dos anos 1940/ /50. Já realizou também telediscos para Pet Shop Boys e Chris Isaak. Em Let's Get Lost entregou-se à vida de Chet Baker, experiência que, definiu ao Austin Chronicle como "selvagem e excêntrica".

Foi no início dos anos 1950 que Chet Baker começou a dar que falar no circuito jazz da costa oeste dos EUA, especialmente quando em 1952 se juntou ao Gerry Mulligan Quartet. Depressa o quarteto se torna um caso de sucesso, mas Baker acabaria por voar mais alto. Weber chegou mesmo por descrever o músico com alguém "que queria ser livre como um pássaro, alguém mágico e inesquecível".

Depois de reconhecido como trompetista, decide apostar no canto. A forma simples e sussurrada com que deu voz a um Almost Blue tornaram-no um ícone. Mas com o reconhecimento vieram também os problemas com drogas, que o levaram no início dos anos 60 a ficar preso durante mais de um ano em Itália e em 1966 a ficar sem os dentes, história que nem no documentário se descobre bem como se passou. Esteve durante anos ausente. Mas regressaria aos palcos com a ajuda de Dizzy Gillespie.

E este percurso é também revelado em Let's Get Lost, que celebra a vida e obra de um dos mais talentosos músicos de jazz."
in: AQUI: 

"Tirando aquela parte em que o entrevistador pergunta a Chet Baker qual terá sido o momento mais feliz da sua vida, cuja compreensão — digo eu, que não sou tão exagerado como ele ou Faulkner — só está ao alcance de um alfista(*), recordo aquele momento em que Baker, olhando para si próprio, diz o que aconselharia a um filho. Era mais ou menos isto: descobre o que queres ser, vai por ti, e depois procura ser um génio no que escolheste.

O problema é que nem todos têm o mesmo grau de loucura nas escolhas que fazem para atingirem a genialidade. E depois é preciso levar o resto da vida a conviver com isso. Uma chatice.

A diferença entre um homem e um génio está na sua dose de loucura.

E ser capaz de colocá-la ao serviço dos outros dando prazer a si próprio. Seja na literatura, na pintura, na música, na medicina, num artigo de jornal ou numa sala de audiências, sem nunca se esquecer que a genialidade só pode ser reconhecida se no meio de toda a loucura o génio ainda for capaz de realizar que vive em sociedade. E por causa dela.

Os outros tornam os génios menos infelizes quando reconhecem a sua loucura. Sem dizê-lo. E ao tirarem partido dela, em cada instante, ainda quando não o reconhecem, ajudam a prolongá-la. A realização do génio passa por trazê-lo até à nossa dimensão. Até à ignorância. É nisso que está a genialidade. E só os que humildemente o aceitam conseguem atingir esse estatuto. Almost Blue.

(*) Contra tudo o que se poderia imaginar, Baker diz ter sido o momento em que guiou pela primeira vez o seu Alfa Romeo. Eu não vou tão longe, embora não possa deixar de sorrir."
in: AQUI: