domingo, 11 de setembro de 2016

Geraldo Vandré_Caminhando e Cantando



(Esta é daquelas canções que vêm do  passado lembrar-nos que, ontem como hoje, há dias cinzentos a entristecer o Brasil.)

Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores
(Caminhando e Cantando)
Geraldo Vandré

Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não
Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Caminhando e cantando
E seguindo a canção

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Pelos campos há fome
Em grandes plantações
Pelas ruas marchando
Indecisos cordões
Ainda fazem da flor
Seu mais forte refrão
E acreditam nas flores
Vencendo o canhão

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Há soldados armados
Amados ou não
Quase todos perdidos
De armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam
Uma antiga lição
De morrer pela pátria
E viver sem razão

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Somos todos soldados
Armados ou não
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não

Os amores na mente
As flores no chão
A certeza na frente
A história na mão
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Aprendendo e ensinando
Uma nova lição

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Do medo e do milhafre_Ana Paula Tavares _conto

PALAVRAS DO DESERTO
Do medo e do milhafre
por Ana Paula Tavares

Do medo e do milhafre

O cacimbo é o tempo prolongado, o sonho que custa a ser sonhado, a casca da árvore presa por fios, as palavras contidas no silêncio dos velhos, denso como a pele que lhes marca os ossos nos dias que descontam a vida colhendo o sol com as mãos magras e finas. Ficam voltados para dentro, descobrindo nas muitas camadas depositadas as vidas que foram vivendo entre bois e filhos desatentos, enfim, a tudo o que mexe cá fora e tem peso e desce por gravidade a encontrar lugar na terra que tudo acolhe. A morte próxima é neles uma busca de dores maiores e desencontros e longos caminhos percorridos alinhados aos que nunca foram trilhados. Caminhos de pé posto e outros mais cortados das catanas, sempre escolhas — este e não o outro –, entre a curva da montanha e o desenho das estrelas. No cacimbo, enquanto as aves fogem da tempestade e do frio, como quem anuncia barcos e novos portos de abrigo, as mulheres mais velhas com as mãos vazias de ninho devolvem o sentido da vida inscrevendo provérbios nas novas cabaças da família. Sabem que todo o processo envolve três nós: nascimento, vida e morte e o ponto de convergência só se adivinha vivendo a separar e a adivinhar cada um dos caminhos que se apresentam em cruz. AnaNaPalavra chegou por esse tempo com poucas palavras: “há um tempo para chorar e um tempo para rir, o nosso tempo para chorar chegou e veio para ficar”. O rosto parecia velado, tantas eram as escarificações e as marcas dos anos na pele azulada, e o corpo parecia parado, tão lentos eram seus movimentos de barco ancorado no deserto de uma solidão antiga. Perdera a qualidade de fazer perguntas com que nos tinha iniciado para a vida. Vinha do seu último ritual de passagem onde devolvera a sua qualidade de mulher para assumir o ser em toda a sua espessura. Ainda parecia um de nós, mas nada na forma como se movia nos deixava perceber a memória partilhada de uma anterior figura que nos amparara o crescimento, levara pela mão até à casa redonda e ensinara o segredo dos silos e dos remédios mais sagrados. Estava ali para desatar nós, ausente e a mostrar-se num processo de transformação que nos deixava inquietos. O medo desceu sobre a montanha e a nossa vida ficou pequena, tanto era o tempo que perdíamos a olhar AnaNaPalavra e a adivinhar a eternidade que trazia para contar: “depois das mortes vieram mais mortes, há que saber os segredos”.

Voltámos às tarefas dos dias, avaros dos nossos e dos novos pastos, crentes em que o prodígio das sementeiras e das colheitas nos faria viver a vida que o chão da nossa terra nos pedia. As mulheres novas amamentavam os monas e as cabras pariam filhos no curral. Todos nós queríamos alargar os dias para que a hora da vergonha tardasse a chegar. A noite era dura e transparente e jogava connosco o jogo da vergonha. O segredo (pensávamos) estava escondido nos lugares sagrados e embora estivéssemos destinados a viver sem sonhar (estava-nos interdito o sonho), o guardião do sino e o mais velho de todos os ferreiros tinham pelo fogo conseguido proteger a aldeia de todos os castigos. Estávamos entre o céu e a terra (pensávamos), no universo ideal da eternidade diária. Não pensávamos.

AnaNaPalavra não era a pessoa por quem esperávamos. É verdade que ela era dos nossos. Tinha as marcas da linhagem. Tinha o segredo da linguagem. Não sabíamos porque tinha voltado agora, quase transparente e sobretudo sem a dupla face que a fazia ser uma de nós.

Foi tecendo à sua volta um último cesto: sepultura e berço de um chão e de uma vida longe da eternidade. As palavras ácidas caíram sobre nós como a chuva de Março: intensas, como se todas as estrelas do céu resolvessem apressar o nosso destino. A morte de Garita, a faca do crime, os amores selvagens e fora das regras foram punidos assim, pela mão de AnaNaPalavra e o regresso dos sonhos mais antigos. Antes de fechar o cesto disse:

“Eu vivi aí, há muito tempo, com os pastores e os camponeses. Vivi, portanto, nesse reino, vi com os meus próprios olhos e ouvi com as minhas orelhas os seres fabulosos por detrás das coisas: os espíritos guardiães das fontes, as sereias que cantam no rio, os mortos das aldeias dos antepassados que me falavam iniciando-me nas verdades alternativas dos dias e das noites. É-me portanto suficiente nomear as coisas, os elementos…”1







1 De um poema de Leopold Sedhar Sengor / Léopold Sédar Senghor

in: RedeAngola

domingo, 4 de setembro de 2016

quase um fado_Rodrigo Maranhão e António Zambujo




Quase Um Fado
Rodrigo Maranhão


(partic. Antonio Azambujo)  

Trago no peito segredos 
Amores confessos, 
ocultos desejos 
O tempo apressado, 
o beijo partido 
Inteiro aos pedaços 
da vida eu duvido 
Trago no peito um segredo 
Dos mares que desafio.   

Trago no peito o meu mundo Fagulha, 
centelha, 
amor vagabundo 
Que bate calado o seu bate fundo 
E sempre navega pro mesmo lugar
 Trago no peito um segredo  
Dos mares por navegar


quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Mário de Andrade_O valioso tempo dos maduros

Poema belíssimo



O VALIOSO TEMPO DOS MADUROS – de mário de andrade / são paulo

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui
para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas..
As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam
poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram,
cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir
assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar
da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo
de secretário geral do coral.
‘As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos’.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência,
minha alma tem pressa…
Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana,
muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com
triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua
mortalidade,
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!


quinta-feira, 25 de agosto de 2016

fado com dono_Aldina Duarte

Intensa e vibrante esta interpretação na voz da Aldina, mulher de alma e com alma.


letra: Maria do Rosário Pedreira
música: Armando Machado
voz: Aldina Duarte

Diz quem já me ouviu cantar 
Que, quando soa o meu canto, 
A terra inteira estremece; 
E os rios perdem o mar, 
E as pedras rolam de espanto, 
E até o mal se enternece  

Diz quem meu fado conhece 
Que ele enfeitiça e encanta, 
E comove, e tira o sono 
É a paixão que entretece 
Os fios de quem o canta 
Porque o meu fado tem dono  

Eu canto para procurar 
Aquele que já foi meu 
E a morte me arrebatou 
Não desisto de cantar, 
Chamando o nome de Orfeu 
Em todo o lado aonde vou  

Mesmo que o saiba fechado 
No Inferno mais profundo 
E não me aguarde outra sorte, 
Levo comigo o meu fado - 
Vou até ao fim do mundo 
Para morrer da sua morte.

sábado, 20 de agosto de 2016

Lugares_conto_Ana Paula Tavares



Lugares_conto
por Ana Paula Tavares


«Eu já não sou o que fui»
dos Salmos

Sentado em frente à porta da grande muralha o velho tropeçou no corpo inerte e ensanguentado do branco das pedras que costumava passar por ali com um saco às costas e uma mala na mão, ambos cheios de livros, pregos, arame, restos de tecido que o branco vendia e trocava por cabritos, bois e, por vezes, algum favor das mulheres. Com os anos e as vindas foi perdendo o nome para ficar o “branco das pedras” de quem era preciso esconder os melhores bois e as raparigas novas. Palavras fáceis, vinho difícil e a doença da escrita eram as coisas daquele branco que foi, com o passar do tempo, adquirindo a cor de colono velho, cheio de machas e marcas de cicatrizes.

O velho começou a tremer como se tivesse febre sem perceber porque é que a palavra rede se tornava tão insistente. Rede e fuga. Fugir era o que ele queria, desaparecer para o norte onde a família lhe arranjaria as falas da protecção. Só em sonhos vira aparecer uma face assim lívida e aquela espécie de gelo pesado insuportável. O corpo estava abandonado no esporão da muralha dupla que ali marcava antigos sítios de invenção do poder, a força de catanas e pontas de zagaia marcadas pelo tempo. Acendeu devagar a mutopa com folhas ainda novas enchendo os pulmões de fumo e tosse. Grossas bagas de suor desciam pelas fontes. Veio-lhe à mente a palavra veneno, ordálio tinha lido naqueles velhos livros da mala de lona do velho alemão que por ali andara quando ele ainda era um menino. Beber veneno para ficar vivo. Beber veneno para morrer assim. Beber veneno e queimar os pés para salvar a alma do peso das casas e das palavras dos velhos, nossos muito mais antigos.

Ali não eram casas como as nossas, que nos bebem a alma e o corpo até que começamos a ter o seu cheiro na nossa pele de adobo endurecida pelo passar dos dias e das noites. As muralhas do Eléu eram de outras vidas, outras histórias e outras casas, eram muralhas onde estavam inscritas as mãos dos homens escravos e o seu suor e sangue quando durante anos e por ordem do chefe maior arrancaram do chão da Chela as lajes dos bastiões das seteiras, as covas de lobo à volta do chão das cabanas para construir, abrigos individuais para experientes soldados que em certos momentos vigiavam de pé as transformações ao fundo do horizonte. Na parte norte eram precisas casas sãs e bem construídas para homens e montadas porque a saída da guerra era preparada aí atrás da muralha dupla, alternada com muralha simples torneando elevações e pequenos montes. O velho lembrou ainda o quanto seu tio, irmão da mãe, os impedia de se aproximar da muralha quando eram meninos e apenas guardavam cabritos longe dos bois e do chão que estes pisavam para a tornar mais doce e gorda a terra para a semente. Muralhas do Éleu, sua altitude e distâncias desiguais e um homem branco morto roto e sujo ali atirado sem que a vida tivesse chegado ao fim, ainda com muito lugar para os dias e as memórias. A guerra, por aquele tempo, não andava por ali. As mulheres, mesmo as mulheres de deus, estavam longe nas suas tarefas de filhos, leite azedo e manteiga. Aquele era um lugar da guerra, espaço de vida e de morte e nunca lugar de passagem de gente fugida dos outros, os que avançavam e os que recuavam na roda circular da ira e da raiva.

O velho afastou o corpo daquele chão sagrado, apagou o fumo na mutopa e começou a pensar nos dias da sua própria morte que havia que preparar.

Passou os dedos para avaliar o fio da sua própria catana. Um silêncio feroz toldava-lhe os sentidos. Onde estavam os chefes, agora que as pedras da farinha estavam vazias? Por que rios corriam os risos dos monas? Onde estariam as mulheres a tratar dos cabelos, das pulseiras de protecção e das falas doces da tarde? O velho desceu com o corpo pelo monte e sentou-se na base do morro a descansar. Retirou da mala o velho livro de capa preta que ele tão bem conhecia (rezas, dívidas de chefes, contas e a dificuldade daquela letra azul toda deitada para trás). Encontrou um osso com uma gravação que mais parecia um mapa do tesouro. Lembrou-se de ainda antes de adulto ter feito com o pai uma viagem de grandes dias e noites em busca de um tesouro perdido. Lembrou-se porque o pai lhe falara de papéis e ouro e de um osso gravado que deveriam decifrar.

Chegou ao fim da muralha pelo lado sul. No chão profano abriu com ajuda de um pau um buraco onde acomodou o branco, seguindo o desenho dos golpes da catana. Sabia que golpes antigos eram para permanecer em aberto. Regou o chão com os venenos de reserva para que a erva ou a árvore ali não voltasse a crescer. Subiu, como bom filho, a montanha em direcção aos amuralhados. Deitou-se a dormir, voltado para sul, à porta da embala do chefe. Seus sonhos azuis voltaram a sair da mutopa.

in: Rede Angola

 

sábado, 13 de agosto de 2016

Iracema_Elis Regina e Adorian Barbosa_1978




Iracema_no bar do Bixiga

Maravilhoso e Histórico

 Este vídeo foi gravado no
 bairro da Bela Vista, que tem o apelido de Bixiga, sim, não é Bexiga, mas Bixiga por causa de uma doença trazida pelos europeus no fim do século retrasado ou início do passado, se não me falha a memória. O Adorian Barbosa, que acompanhava a Elis Regina aí no vídeo era daqui, do bairro. Muito simpático e querido por todos. Dia desses foi aniversário dele, já falecido há uns 25 anos. Temos uma praça muito linda com o seu nome. Vou fotografar qualquer dia e enviar s você.  

A ELIS era gaúcha (nascida no Rio Grande do Sul). Faleceu muito jovem em 1981, vítima de drogas, infelizmente. 
by:Elena Martins

domingo, 19 de junho de 2016

Um Rosto_Nuno Júdice


Um Rosto

Apenas
uma coisa inteiramente transparente:
o céu, e por baixo dele a linha obscura do
nos teus olhos, que pude ver ainda
através de pálpebras semicerradas, pestanas húmidas
da geada matinal, uma névoa de palavras murmuradas
num silêncio de hesitações. Há quanto tempo,
tudo isto? Abro o armário onde o tempo antigo
se enche de bolor e fungos; limpo os papéis,
cartas que talvez nunca tenha lido até ao fim, foto-
grafias cuja cor desaparece, substituindo os corpos
por manchas vagas como aparições; e sinto, eu
próprio, que uma parte da minha vida se apaga
com esses restos.

Nuno Júdice

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Estrada de Água_ Laura Santos

Todos os navios se fundem num torpor
                                      de nevoeiro e maresias
                                      e o pássaro azul junto ao penhasco
                                      soltou-se mesmo agora do pavor
                                      das minhas mãos vazias.
 
                                      É jovem a maré que se  das algas
                                      enlaçada em areia movediça
                                      na boca da praia
                                      e o seu último grito de brancura
                                      salpica de espuma a minha saia.

                                     Afasto o pesado manto de nuvens
                                     que trago nos braços
                                     frágeis como ramos partidos
                                     trazidos ao areal onde cheira a resina
                                     e sal, a gestos aos bocados
                                     em agitação e deriva arrefecidos.

                                     Um barco balança ao longe na corrente
                                      que arrasta das noites sem tempo
                                      o eco em alto mar do último resgate.
                                      Ao horizonte lanço o meu olhar desfeito
                                      afogado no massacre rítmico que se esbate
                                      na ondulação das vagas do meu peito
                                      recortando a imagem do teu olhar
                                      gravado na face do rochedo
                                      sobrevoado por corvos marinhos,
                                      pelo vento, e pelo medo.

                                       Em todas as coisas que procuro
                                       existe um traço solene e obscuro,
                                       refém da exaltação das ondas e dos astros.
                                       Uma luz sem cor, intensa e derramada
                                        na mesma antiga estrada de água
                                        onde vagueiam altivos todos os mastros
                                        içados em miragem e sonolência.
                                        Lugar onde ninguém habita, e todas as cores
                                        do dia pintam ao fim da tarde
                                        os contornos da tua ausência.
                                        Transparência de aquário onde arde
                                        o derradeiro instante em movimento
                                        de conchas, estrelas, verdes peixes
                                         rutilantes em perene milagre lento.
                                        Mesmo que sem um adeus me deixes.

                                         Lemes, remos, sombras de uma velha nau,
                                         viagens de quimera e de tormenta,
                                         corações de papel, âncoras de pau...
                                         Mas a minha alma tudo inventa
                                         e encontra porto seguro onde se senta.



                   
Laura Santos

terça-feira, 31 de maio de 2016

Pai

À memória de meu pai, no centenário do seu nascimento

Hoje pensei na solidão dos pássaros
quando as searas se incendeiam. 
E pensei em ti, pai, que partiste tão cedo
 como se tivesses vindo do lado 
mais desolado das sombras. 
O que sei eu das uvas entre os teus dentes 
no tempo das vindimas? 
Que pássaro de cinza, diz, 
te sobrevoou o verde do olhar? 
Se prolongasse o poema 
dir-te-ia como os meus olhos te lembram. 
Mas não posso. Vou devolver ao mar 
as conchas negras da minha colecção.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013
Publicado por Graça Pires 

terça-feira, 1 de março de 2016

Ana Moura *Moura #1* Moura Encantada


"Ninharia" de Ana Moura entre as cem canções favoritas da rádio pública dos EUA

ACTUALIDADELUSA20:47, 28 jun
O tema "Ninharia", do mais recente álbum de Ana Moura, faz parte da lista das cem canções favoritas deste ano da NPR, a rádio pública dos Estados Unidos, que emite para a totalidade do território norte-americano.
"Ninharia" é uma letra de Maria do Rosário Pedreira, que Ana Moura gravou na melodia do Fado Carlos da Maia de Sextilhas, e faz parte do alinhamento do álbum "Moura", editado em dezembro de 2015.

Na ocasião, em declarações à Lusa, Ana Moura afirmou que o CD "é aberto ao mundo, fazendo pontes entre diferentes tradições musicais, não esquecendo a matriz fadista", de onde a artista partiu.

O fado cantado por Ana Moura faz parte de um lista que inclui, entre outras, canções de artistas como Beyoncé, Anohni, Aurora, David Bowie, Chance the Rapper, Esperanza Spalding, Gregory Porter, Caleb Caudle, Fuego, Boris Giltberg, James Blake, Leyla McCalla e Kanye West.

"Moura", que dá título ao CD, é um tema que a poetisa Manuela de Freitas ofereceu à fadista, que o canta na melodia tradicional do Fado Cravo, de Alfredo Marceneiro.

Neste CD, pela primeira vez, a fadista canta autores como Samuel Úria, Jorge Cruz, Edu Mundo, Carlos Tê, Kalaf, numa composição de Sara Tavares, e José Eduardo Agualusa, numa música do angolano Toty Sa'Med.

O produtor de "Moura" é Larry Klein, que também produziu o álbum anterior, "Desfado". Todavia, a intérprete de "Os búzios" afirmou à Lusa que "não queria um 'Desfado dois', que foi tão 'fora da caixa', queria voltar a fazer uma coisa diferente".

"Este CD, o 'Moura', é mais atento aos pormenores", rematou.

NL // MAG

Lusa/Fim


DISCOGRAFIA
10. NINHARIA

(Letra de Maria do Rosário Pedreira e Música: Fado Carlos da Maia (Sextilhas))

Foi nessa noite maldita
Que abri a porta à desdita
De que só eu sou culpada.
Precipitada, incontida,
Expulsei-te da minha vida
Por uma coisa de nada.

Quando ela vinha a passar,
Cismei ver no teu olhar
Um brilho que me ofendia
E logo rompi os laços,
Atirei-te p'rós seus braços
Só por essa ninharia.

O que fiz não tem remédio,
Tudo é solidão e tédio,
Não mereço ser feliz.
Porque não fui eu capaz
De logo voltar atrás
E desfazer o que fiz?

Agora, quando te vejo,
Suspiro pelo teu beijo,
Mas nem pergunto aonde vais.
Chamo baixinho o teu nome
Na culpa que me consome,
Mas sei que é tarde demais.

Ana Moura *Moura #1* Moura Encantada

Ana Moura (TVI24) concerto inédito 29-11-2015