sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Dulce Pontes "Meu Amor sem Aranjuez"


 


Letra: Dulce Pontes
Composição: Joaquín Rodrigo
Álbum: Peregrinação _2017  

Meu amor, ao passar das horas
Meu amor, o tempo leva o sonho dum amor maior
Fica pequeno sem sabor
Meu amor sem Aranjuez
O que fez a saudade ser outra vez
Uma gaivota em pleno céu a libertar o coração sem voar
Meu amor que amor não se fez
Só eu sei dos caminhos que não encontrei
Das duras pedras a cobrir tão fatigado coração
Sem pão de sustentar, sem dar a mão o céu se desfez
Sem sabor nossas vidas sempre por um fio
Um fio de fogo, um fio de prumo no vazio
Abismo antigo onde voar é abrir as asas e sangrar
Só eu sei dos caminhos onde me encontrei
Das rubras penas sem quebrar meu fatigado coração
Sem pão de sustentar das mãos de Deus me fiz renascer
Ó meu amor, que amor não se fez
Meu amor, nossas vidas sempre por um fio
Um fio de fogo, um fio de prumo no vazio
Abismo antigo onde voar é abrir as asas e sangrar

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Futuro aeroporto do Montijo: Um desastre anunciado

 "Investigadores escrevem artigo na Science a pressionar contra aeroporto no Montijo



Investigadores portugueses acusam o governo português de ir contra os objetivos do Pacto Ecológico Europeu ao persistir na construção do aeroporto no Montijo, apontando sobretudo o efeito destrutivo em centenas de milhares de aves no estuário do Tejo.



© ANA - Aeroportos de Portugal

DN/Lusa17 Setembro 2020 — 20:33

Num artigo em formato de carta, que sai esta quinta-feira na edição da revista científica Science, argumenta-se que prosseguir com o aeroporto é o contrário de "combater a mudança climática global e reverter a crise da biodiversidade", com um impacto que se verifica, sobretudo, nas aves que procuram o estuário do Tejo.

Em declarações à Lusa, o biólogo José Alves, da Universidade de Aveiro, coautor com Maria Dias, da organização Birdlife, afirmou esperar que "a mensagem chegue lá fora" e que isso ajude a pôr pressão sobre o Governo português, para que "o bom senso" impere e não se avance com a construção.

O que está em causa não diz respeito apenas a Portugal e a questão das aves migratórias, "não é uma discussão para fazer apenas a nível nacional", porque "há outros países que partilham estas aves e que investem na sua proteção, porque já estão numa trajetória de declínio".


Holanda, Dinamarca, Alemanha e Reino Unido são alguns dos países que partilham pontos nas rotas destas aves, que ocupam às centenas de milhares o espaço do estuário do rio Tejo.

"Estamos a falar de 200 mil aves no Inverno e 300 mil nos períodos migratórios", indicou.

Movimentos e investigadores na Holanda e na Alemanha, por exemplo, "estão atentos, a questionar o que se passa e o que está em cima da mesa", referiu.

O maçarico-de-bico-direito, de que há "80 mil exemplares no estuário do Tejo", tal como o pilrito-comum ou a seixoeira estão entre as espécies de aves sobre as quais o voo de aviões a baixa altitude terá "impactos muito assinaláveis".

"A ideia de que as aves, porque voam, se podem deslocar para outros lugares, não corresponde à realidade. Estas aves, apesar de voarem milhares de quilómetros, são fiéis aos locais para onde migram, por vezes ao quilómetro quadrado", referiu.

Haverá mesmo aviões a sobrevoar parte da Reserva Natural do Estuário do Tejo e, em última análise, as aves acabarão por morrer, salienta o biológo.

"Com os voos, com os altos níveis de ruído, o que acontece é uma perda de 'habitat', mesmo sem construção efetiva. Perdem o seu alimento e as populações diminuem. Perdemos aves", declarou.

Os autores salientam na carta que "praticamente metade do estuário do Tejo será impactado e não pode ser substituído", notando que a declaração de impacto ambiental da Agência Portuguesa do Ambiente tem por base um parecer favorável do Instituto de Conservação da Natureza e Florestas que contraria o "o parecer interno desfavorável dos seus técnicos".

Há "falta de informação, erros técnicos e adoção de critérios subjetivos", criticam, considerando ainda que "as medidas de compensação propostas para as aves não são eficazes" porque não terão para onde ir.

José Alves e Maria Silva assinalam a ironia de Portugal ter conseguido o título de Capital Verde Europeia alegando a proximidade do estuário do Tejo e de estar na calha um projeto como o do Montijo, que além do impacto nas aves irá gerar "um aumento substancial nas emissões de carbono" em torno da capital.

"Este é um exemplo evidente de uma tentativa de um estado-membro em desconsiderar diretrizes de conservação, acordos internacionais de proteção de espécies e habitats e os anúncios que o próprio Governo faz na promoção de um futuro mais sustentável e sem emissões de carbono", acusam os investigadores."

in: jornal "Diario de Noticias"

sábado, 22 de agosto de 2020

Ernest Dowson

"Não duram muito
O choro e o riso
O amor, o desejo e o ódio
Creio que não fazem parte de nós
Depois de passarmos o portal


Não duram muito
Os dias de vinho e de rosas
De um sonho brumoso
O nosso caminho emerge por um bocado
E depois fecha-se
Dentro de um sonho"


Ernest Dowson

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Iris Feijen & Tiago Lageira


Cantora holandesa vence concurso 
“We Want More”, no seu país, a cantar Carminho, Mariza e Camané

terça-feira, 11 de agosto de 2020

Waldemar Bastos_último canto

Um dia, meu irmão, hei-de
Homenagear-te
Hoje não
Hoje fica o silêncio da tua voz
A fazer-me companhia 
Hoje ainda não tenho palavras
Para  descrever tão triste emoção.
Recordo-te na primeira fila
Meu arrepio de pele
A cantares na "Expo 98"
Tanto tempo…
Quando o teu tempo
Era outro
Que hoje termina.
Só isso me vem 'a recordação.
LMC

Waldemar dos Santos Alonso de Almeida Bastos, conhecido como Waldemar Bastos,
nasceu em 4 de Janeiro de 1954 e faleceu ontem, 9 de Agosto de 2020

A  19 de Junho de 2020  (data de emissão), Waldemar Bastos canta provavelmente pela última vez. 
AQUI: o episódio completo.



"O músico angolano Waldemar Bastos, um dos mais respeitados artistas lusófonos da world music e dos primeiros artistas de Angola a alcançar a internacionalização, morreu esta segunda-feira de madrugada em Lisboa, aos 66 anos, disse à agência Lusa o Ministério da Cultura de Angola. Radicado em Portugal, estava em tratamentos oncológicos desde há um ano, referiu a mesma fonte.

Com um percurso profissional de mais de quatro décadas, Waldemar Bastos apresentava uma sonoridade que o próprio definia como afro-luso-atlântica, marcada por composições de cariz autobiográfico e influências da cultura africana e portuguesa. Rainha Ginga, Velha Chica e Muxima são alguns dos temas que o tornaram conhecido." - in: "Observador" AQUI:

sexta-feira, 24 de julho de 2020

Eu, Amália


AQUI:

"Um retrato de Amália por si mesma. A sua personalidade, as vivências, as ousadias, as canções, as alegrias e tristezas e um percurso que a levou a todo o mundo, são aqui contadas através de momentos em que Amália se cruzou com a história da rádio e da televisão e pública. Das memórias fixadas nos arquivos RDP e da RTP chega-nos a sua voz. Ora a falar, ora a cantar, diz-nos quem foi, o que procurou, o que viveu."



DAQUI: Entrevista

"Nunca fui nem nunca serei uma revolucionária. Canto o fado que sinto"


Assinala-se hoje o centenário do nascimento de Amália Rodrigues e o DN republica uma entrevista feita pela jornalista Maria Augusta Silva por ocasião dos 65 anos da fadista.



© ARQUIVO DN

Maria Augusta Silva23 Julho 2020 — 12:47


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Amália: um nome, um fado em muitos fados, uma voz. A voz sem igual com que canta desde os 20 anos. Tem, hoje 65, e diz ser uma pessoa desencantado, não com o público, porque esse, em todos os cantos do mundo, ao longo de mais de quatro décadas, deu-lhe sempre o testemunho da sua estima e da sua admiração por ela. Por essa Amália que nasceu em tempo de cerejas no Pátio dos Quintalinhos, ali para os lados da Rua da Palma; por essa mulher que foi criança pobre, de pés sem sapatos, e calcorreou as ruas da cidade apregoando limões.

Amália sonhava os sonhos dos simples. E assim sonhando, um dia cantou... E cantou de tal jeito que deixou a venda dos limões maduros para tomar a grande senhora de um fado com marca. De um fado sofrido. De um fado que tem amor e ciúme, lágrimas e esperança, carências e súplicas. De um fado que é nossa na expressão mais singela das palavras comuns a todos os mortais. Na voz de Amália esmoreceu aos poucos a gargalhada inocente e o pregão cristalino, a fugir da polícia... Mas trouxe para o fado a força da alma.

E Amália continuou amarrada ao sonho, com tais amarras e tão cegamente, que se foi esquecendo de criar defesas contra todos os riscos para acautelar a sua humildade e a sua grandeza...


Magoaram depois os seus sentimentos quando ela, fadista de encontros e desencontros, quis manter o seu fado sem desvios. Amália chorou então mais amargamente do que nunca e ficou-lhe uma ferida que sangra por dentro ao mais leve toque. Encontrou refúgio na seu temperamento dramático e tímido, pedindo ao fado perdão por o haver cantado e sentido como destino único. E continuou o correr para os campos de ar solto, num apelo à vida, colhendo flores à beira da estrada, carregando braçadas de folhas e giestas e alecrim aos molhos. E continuou à procura de um mar imenso e forte para sobre ele estender o utopia dos sonhos à margem da teia material da vida.

Amália Rodrigues volta agora a ser recordada (justiçada) na gravação dos seus maiores êxitos e revela-nos, a propósito, a sua sensibilidade de corpo inteiro, prometendo para breve a sua voz em poemas de Cecília Meireles. E prometendo, também e apesar de tudo, amar o fado até ao fim. O fado que, ontem como hoje, deseja cantar para toda a gente...


O melhor de Amália Rodrigues volta a ser apregoado em reedição discográfica. O que é para si o melhor de Amália?
Creio que a intenção é lembrar os meus primeiros sucessos e os fados que as pessoas mais têm gostado de me ouvir cantar. No início da minha carreira, eu tinha uma voz cristalina, cheia de frescura e plena de inocência. Tinha, afinal, a inocência de uma pessoa que não sabe o que é cantar nem coisa nenhuma...

Como diz que não sabia cantar se a descobriram precisamente por ter uma voz excecional para o fado?
Tinha voz, naturalmente, mas faltava-me um certo "calo", uma habituação às músicas e até a forma de dar a volta às interpretações, que já requer uma educação da voz, embora nenhuma técnica nos valha se não houver a tal intuição.

Quer dizer que a voz dos seus 20 anos não tem nada que ver com a voz dos seus 40 ou com a voz, hoje, dos seus 65 anos que a leva ainda a novas gravações?
Aos 20 anos, a minha voz era fresca e tinha, porventura, a beleza dessa juventude. Mas acho que aos 40 anos foi quando atingi uma capacidade de interpretar o fado com maior profundidade ou, se preferir, com maior maturidade. Não é porque soubesse cantar melhor. É outra coisa, até porque eu nunca saberei cantar na minha vida!

O quê, Amália?... Espanta-me que faça uma afirmação dessas. Tem andado nestes 45 anos a cantar sem ter consciência de cantar bem?
Não é isso. Sinto é que nunca canto hoje igual a ontem. Quem me ouve cantar duas ou três vezes sabe que isto é verdade. Tenho a intuição do fado. Foi qualquer coisa que Deus me deu, mas depois o meu estado de alma, os meus nervos, as minhas emoções. Tudo se prende com a nossa interioridade. O fado ou é isso ou não é nada.

Recusa-se a aceitar outros valores no fado?
De maneira nenhuma. Eu reconheço e aceito outros valores desde que sejam valores. Há alguns, mas também há por aí quem de fado não entenda nada e pretenda misturar o trigo com o joio... Isso dói-me!


Faz sempre questão em afirmar que a sua voz é um dom divino. Tem assim tanta convicção em Deus?
Tenho. Eu não fiz nada para ter esta voz... Então, porque é que a tenho? Alguém ma deu...

Nessa sua convicção, como define Deus?
Não tem definição. Deus, para mim, é Deus. Sinto essa força dentro de mim. Acredito em Deus mesmo que não exista o céu. Não vale a pena tentar explicar. Não encontro explicação em palavras ou em teorias, tal como, por mais explicar o que é uma árvore, também não encontro uma explicação inteira.

Uma árvore tem raiz, tronco, ramos, folhas... A botânica é uma ciência... A gente pode ver a árvore, apalpá-la...
Aprendi isso, apesar de só ter três anos e três meses de escola. Mas, cá dentro de mim, uma árvore é qualquer coisa mais forte, mais grandiosa, que a botânica não consegue definir. Da mesma forma acredito em Deus plenamente, ainda que tudo se acabe cá na terra. Acredito em Deus mesmo que a minha alma não vá para o Céu, nem para o Inferno, nem para o Paraíso... Sou uma pessoa inculta, e não tenho vergonha de o dizer, mas esta é a minha forma de estar na vida. É a minha filosofia.

Gosta de se comparar às árvores... Num fado seu, diz que o pinheiro é seu irmão, até no jeito de erguer braços em vão... Tem de si própria o sentido de grandeza?
Não é uma grandeza tola, é sentimento de libertação. O pinheiro é uma árvore alta, livre no espaço, se a não mutilarem... Eu também gostava de ser mais alta...

Tem complexos com a sua altura e a sua beleza. É um estado de morbidez ou puro masoquismo para ser ainda mais dramática?
Não dramatizo as coisas por via disso. São gostos femininos que julgo normais. Mas pronto, não sou mais alta nem bonita, tenho de aceitar-me como sou.


Quando fala em beleza tem como padrão a beleza helénica?
As palavras que você me diz... Helénica é dos gregos, não é? Bom, eu aceito que não haja padrões rígidos de beleza. E, pensando melhor, até quando vejo fotografias minhas dos tempos em que era jovem, posso concluir que estive quase para ser bonita e estive quase para ser muito feia. Fiquei no meio-termo...
Camões foi o maior fadista

Nessa sua tendência para o fatalismo costuma igualmente insistir no facto de ser uma mulher inculta. Será que tem da cultura a ideia de que esta só existe nas universidades, nos doutoramentos?
Julgo que só é culto quem aprendeu muito, quem teve a possibilidade de andar muitos anos na escola...

Amália, há multa gente que empinou livros na escola e não tem o mínimo de sensibilidade para aprender a descobrir coisas multo belas. Não será isto verdade?
Você tem razão, mas eu também tenho a minha. Reconheço que há gente que leu muito e não tem o entendimento das coisas com urna certa dose de sensibilidade. Só que é gente que sabe falar com eloquência e eu não sei. Gostava de ser culta para exprimir a minha própria sensibilidade, para dizer uma palavra sem ter de dar a volta ao Rossio até a encontrar.

Avalia as pessoas pelas palavras eloquentes... É isso, Amália?
Eu até costumo dizer que, se não fosse fadista, gostaria de ser psicóloga, porque sinto necessidade de analisar as pessoas.

Não fuja à minha pergunta... Só as pessoas eloquentes é que são gente?
Não fujo à sua pergunta, não. E então digo-lhe que, entre uma pessoa bem falante mas oca de sensibilidade, e uma outra sem discurso mas sensível, prefiro a última. Talvez por isso, quando penso que sou estúpida, porque não estudei, chego, às vezes, a não importar-me ser estúpida, já que me conheço e sei que sou pessoa uma sensível; sei que leio um livro e o sinto, mesmo que não saiba sequer dizer aos amigos quem é o autor...


Ora aí tem: não é só culto quem estuda tratados filosóficos...
Pois... O ideal é ser-se sensível. Mas nem todos podemos ser eruditos, embora fosse bom que, pelo menos, todos fôssemos sensíveis.

Quando canta Camões, por exemplo, sabe quem foi o poeta?
Não lhe falo do Camões épico, que tem muito valor, com certeza, mas de mitologia não entendo patavina. Mas sinto que Camões foi, na sua poesia, o nosso maior fadista. Eu li os seus sonetos, os seus versos de amor, e encontrei neles o fado, o destino, o sentir de uma alma. Compreendi-os sem precisar de ir ao dicionário. Sou toda coração e não me pergunte porque sou assim e não de outra maneira, porque isso seria o mesmo que perguntar a um cardo porque é um cardo e não é uma casa...
Um chilique em Hollywood

De qualquer modo, não constata que foi uma mulher que se fez por si e conquistou o sucesso à sua custa?
Não fiz nada para ser o que sou. José Galhardo e Frederico Valério compuseram-me um fado e nele se diz e canto que... "Amália, quis Deus que fosse o meu nome...". Por isso me deu esta voz. E o público, especialmente o povo de onde venho, acarinhou essa Amália. Sou o que sou por essa razão.

Não teve de trabalhar o seu talento para estar ao nível, logo no começo da sua carreira artística, de Jacquellne François, Edith Plaf, Charles Trenet, Maurice Chevalier, Nat King Cole?...
Não fiz mais do que cantar com a minha voz e humildade. Entrava em pânico (ainda hoje isso acontece) quando me via ao lado de nomes tão famosos. Aliás, fico sempre a tremer como varas
verdes quando entro num palco.

 

© ARQUIVO DN

Se fica, disfarça bem.
Só eu sei os nervos que se apoderam de mim! Numa ocasião tive um chilique!!!

Que lhe aconteceu, esqueceu-se da letra do fado?
Não... la cantar em Hollywood, e eu, que estava habituada a aparecer só com os violas e os guitarristas, tinha de enfrentar ali uma orquestra com mais de uma centena de músicos... Quando me apercebi bem do que me esperava, caí para o lado! Reanimaram-me mas supliquei a Deus que me desse naquele instante uma febre de 40 graus...

E Deus, sabedor da sua fé, atendeu a sua súplica?
Não! Pregou-me uma partida... tive mesmo de cantar. Mas ajudou-me e não me saí mal. As palmas do público tranquilizaram-me.

Sucessos iguais conquistou-os em todos os cantos do mundo. Ninguém se esquece de Amália no Olympia, na Broadway, no Lincoln Center, enfim, é quase impossível referenciar todo esse apogeu. Apesar disso, acha que não é uma vedeta?
Vedeta não sou. O que é isso de ser vedeta? Mas não posso negar-me nem negar a minha vida. O que eu digo é que esse talento, essa intuição, são um dom e não fruto de um grande esforço, de uma grande luta...

Não estará a cultivar uma vaidade através de uma falsa modéstia?
Falsa modéstia, não!!! Acreditem ou não as pessoas, eu sei que sou assim humilde e fico de bem com a minha consciência. A minha vida foi e continuará a ser o fado até que o público não me queira mais. Não tenho outras ambições. Não sou política, não gosto de vidas mundanas, nunca alterei a minha maneira de ser. Deixem-me ser quem sou...
Magoaram-me profundamente

Diz isso com tanta mágoa! Está com as lágrimas nos olhos... É por a terem quase ignorado nesta última década? Alguns colegas procuraram afronta-la depois do 25 de Abril... É essa a sua maior dor?
Colegas, compositores, intelectuais... Magoaram-me profundamente. Tanta calúnia, tanta mentira. Ao princípio, eu estava de olhos fechados, e não consegui entender porquê...

O que se passou: não lhe perdoavam a sua voz independente? Fazia-lhes sombra? Ou a própria Amália sentiu que não estava tão à vontade e ficou chocada?
Só não me perdoa quem não me conhece bem. Mas deixe-me chorar senão rebento!... Julgo que desejaram queimar-me dizendo que eu era um produto do fascismo, que era uma espia, uma contrabandista, uma bêbeda... Tantas mentiras horrorosas! Como hei de curar essa ferida? Eu quero esquecer, mas dói-me muito este desencanto...

Teria sido porque a Amália Rodrigues não emprestou a sua imagem a nenhuma força política?
Sei lá! Até chegaram a dizer que havia um subterrâneo no meu quintal por onde eu ia ter com Salazar para ele se aconselhar comigo!... Disseram também que tentei envenenar Humberto Delgado, no Brasil... Isto é duma imaginação incrível! Nunca admiti que pudesse haver tanta maldade.

Se tivesse apanhado alguma carruagem dos comboios político-partidários, julga que se teria livrado desses embaraços?
Não foram embaraços, foram calúnias! Foram mentiras tremendas que me destruíram a alegria e a saúde. Terei de pedir desculpa por já cantar o fado há 45 anos?... Não devia cantar o nosso fado só porque o regime era salazarista ou marcelista?...
Não sou uma revolucionária

Por vezes, os governantes servem-se de coisas que funcionam como um ópio para o povo... Não concorda?
Mas eu não sou servilista, tal "como não sou uma revolucionária. Por mim, sempre cantei o fado sem pensar em políticas. Nunca apanhei nenhum comboio ou avião, a não ser aqueles em que me deslocava e desloco para ir cantar a qualquer terra. Cantar do jeito que eu sei e sinto. Cantar o nosso fado e o nosso folclore de que tanto gosto. Nunca tive apoios de nenhum governo nem do anterior nem dos de depois do 25 de Abril.

Estas coisas são muito complicadas, Amália... O fado dramático, de amores e pecados, não era, nem é, propriamente, a chamada canção de intervenção revolucionária...
Mas eu repito, nunca fui nem nunca serei uma revolucionária. Nunca quis fazer acreditar o contrário. Nunca me mascarei (a não ser pelo Carnaval). Canto o fado que sinto, que gosto de cantar. Canto as letras que se identificam com a minha sensibilidade. Onde quer que eu esteja, onde quer que eu vá, é para cantar os meus fados e não para ir debater questões políticas com os governos... Quero ser o que sempre fui: a Amália que canta para toda a gente.

Não se conforma que possa haver quem não goste de si?

Que disparate. Ninguém pode ter a veleidade de pensar que agrada a todos. Mas não foi o público que me esqueceu! Eu sinto que não foi o público. Até é curioso como os jovens se aproximam de mim e se interessam pelo fado, são sensíveis ao fado, ao nosso fado. O publico nunca me tratou mal, nem no meu país nem noutro qualquer. .

Ainda antes do 25 de Abril cantou Povo que Lavas no Rio, de Pedro Homem de Mello. Esse seu fado parecia uma pedra no charco...
Cantei esse e muitos outros poemas que, aos olhos das tais políticas, talvez pudessem ter interpretações várias. Mas porque se há de meter a política em tudo? Cantei José Régio também. Mas cantei e canto por sensibilidade, por sentimento, e não para politizar... Naturalmente que num ou noutro fado pode estar mais a vida de um povo. O público ou uma pessoa podem sentir-se na pele desse fado conforme os seus sentimentos. O fado é uma coisa muito nossa exatamente porque traduz o nosso sentimentalismo. E é esse o fado que eu canto.

Também cantou o Extraterrestre... Foi a brincar?
Tenho coisas melhores e outras que o não são. O que eu não tenho é a mania de que a Amália não pode cantar isto ou aquilo porque é a Amália... Pelo facto de ter cantado o Extraterrestre... ou coisas parecidas, não deixei de ser exigente na qualidade da interpretação nem me caíram os parentes na lama... Nem foi por isso que deixei de sentir o fado como sempre o tenho sentido, o fado que está interiorizado na minha alma.
O meu sonho é o amor e a paz

E será a Amália uma pessoa tão passiva que se não aperceba, tantos anos a correr o mundo, das diferentes sociedades e dos diferentes regimes político-sociais que as comandam? Nunca estabeleceu comparações? Nunca sentiu injustiças? Nunca se sentiu impressionada com algumas situações?
Choca-me a fome em tantos países, por exemplo. Não sou insensível aos problemas do mundo que me rodeia. Mas eu sou por temperamento uma pacifista. Gostava que nunca tivesse de haver guerra para se resolverem os problemas. O meu sonho é o amor e a paz. Nem posso ver sangue... Fico petrificada! Gostava que as pessoas se entendessem sem terem de se matar ou de se injuriar. É por isso que eu não entendo a política nem tenho preparação para a analisar.



© ARQUIVO DN

Há precisamente 40 anos, estava a Amália a conquistar tantos povos com os seus fados. foi lançada a primeira bomba atómica, que ficou conhecida por bomba de Hiroxima. Já era adulta, o que sentiu?
Tenho memória dessa tragédia porque ouvia os comentários. ouvia a minha mãe contar coisas, ouvia falar na rua. Não ouvia na rádio. Nesse tempo, só tinha rádio quem era rei! E o que eu ouvia as pessoas dizer fazia-me apertar o coração. Mas penso que para as bombas acabarem, ou para que nem sequer existam, tem primeiro de deixar de haver gente videirinha, oportunista, que passa por cima de tudo. O mal de raiz, na minha opinião, é esse... E depois sofrem os inocentes, os que não sabem defender-se, que são a maioria.

Como é que a Amália foi à União Soviética numa ocasião em que Portugal não tinha relações diplomáticas com a Rússia?
Nunca mendiguei vistos para o meu passaporte. Nunca mendiguei contratos. Tive sempre curiosidade em conhecer a Rússia. Queria ver se também lá entendiam os meus fados, sem política. Um dia, a minha empresária em Paris (que está ainda viva, felizmente, e poderá dizer se isto é verdade ou não) contratou-me para ir à União Soviética. Foi ela quem me tratou do passaporte. Fui e cantei lá como em qualquer outro sítio. Estive no Circo Popov, estive com os coros do Exército Vermelho e não fiz mal a ninguém, tal como ninguém me fez mal a mim. O público soviético ouviu-me cantar e aplaudiu-me, como me aconteceu em tantos outros países.
Só espio o meu fado

Era multo difícil romper, então, a Cortina de Ferro... Não teria a Amália servido de isca ou de fachada?
Servir de isca? Olhe, ninguém me mordeu! De fachada? Olhe, levei a minha cara de sempre e o meu fado de sempre. A minha consciência estava tranquila e continua tranquila. Pretenderam insinuar que eu era espia. Que tristeza! Eu só espio o meu fado. E já não é pouco!·
A força do sentimento

Mas a maior parte desse público para quem tem cantado, em todos os continentes, não entende o nosso idioma e a Amália canta quase sempre em português... Que "milagre" é esse?
Há uma coisa que é universal e toda a gente entende: é a força sentimento que uma voz expressa; é a carga dramática do fado; é a melodia; é o timbre da voz. É uma linguagem sem fronteiras, e o nosso fado, o nosso autêntico fado, tem essa linguagem, tem essa força de amor e de comunicação. O cantar noutro idioma também canto, mas não é importante. Os meus fados, os meus sentimentos, são bem portugueses.

Tão portugueses que nunca quis ficar a viver noutro país... No fundo, continua com amarras ao Pátio dos Quintalinhos, onde nasceu?
Tenho muita ternura pelo Pátio dos Quintalinhos, onde nasci e onde vivi com mais sete irmãos (mais dois morreram antes de eu nascer). Mas não é só a ternura pela minha raiz humilde. É que eu gosto da minha terra, da minha casa, da minha família, dos meus amigos. Sou uma pessoa emotiva, mas não sou uma mulher frívola. Não troco nada por um convívio caseiro, familiar. Como é que eu, num país estrangeiro, ia viver sem a minha broa e a minha sardinha assada, sem as minhas sopas de feijão?! Como é que eu ia passar sem ver o Alentejo, sem ver Trás-os-Montes?! Tinha lá paciência para andar todos os dias em jantares e almoços de sociedade!!!

No entanto, os seus contratos no estrangeiro ajudaram-na bastante materialmente. Ainda agora os aceita. Está rica ou não?
Não tenho a fortuna que muita gente julga. Mas não me queixo. E se ainda aceito contratos é porque o público ainda me quer ouvir cantar.
Tenho outra fome

Parece uma mulher desencantada com tudo, apesar de ter conseguido vencer a pobreza da sua infância. Não lhe parece que está demasiado fechada em si mesma?
Estou desencantada, isso estou, porque, afinal, vejo que o meu mundo, o mundo que eu sonhava, não é possível. A realidade é completamente diferente daquilo que eu queria. Fiquei presa aos meus sonhos de criança...

Mas a sua infância foi de pobreza como a de tanta gente... e de tanta gente que não teve a sua estrela... Devia ter razões para se sentir feliz. Porque se embrulha nessa angústia, nessa tortura? Porque chega a ter saudades, como diz num fado recente da sua autoria, dos tempos em que "passava fome passava, lavava no rio, lavava..."?
Não é dessa fome que tenho saudades, como é óbvio. E também devo dizer, em abono da verdade, que éramos pobres (sapatos, onde estavam eles?) mas nunca passámos a fome que atinge, ainda hoje, milhares de crianças em todo o mundo. Não desejaria, naturalmente, voltar àqueles tempos em que eu e a minha irmã Celeste andávamos pelas ruas a vender limões para ganhar uns tostões. Mas do que eu tenho saudades é da minha alegria quando era pobre, da minha capacidade de sonhar. Sinto agora outra fome que nenhum pão, nenhumas azeitonas. podem saciar... Sinto saudades de quando os polícias iam atrás de nós e a gente corria às gargalhadas, a fugir com os limões no cesto...



© ARQUIVO DN

Nem o facto de os polícias a não quererem deixar vender os seus limões para ganhar una tostões para comer a fazia uma pessoa revoltada contra as discrepâncias sociais?
Quer eu quer meus irmãos fomos educados dentro de princípios de resignação, desse tal fatalismo que é o próprio fado. Éramos alegres. A revolta não fazia parte da alegria de sermos crianças. Aceitávamos as coisas como tendo de ser assim. É dessa alegria que sinto saudades. Era uma alegria inocente...

Mas ninguém gosta de ter um polícia a dar-lhe cabo da cabeça... É por isso que a Amália não simpatiza muito com homens fardados, segundo o que se escreveu em algumas entrevistas suas?
Essa é boa! Nunca disse que tinha aversão a homens fardados. Se forem bonitos até gosto deles! O que eu sou é supersticiosa. E desde miúda, se estava com alguma superstição, fechava a mão e só a abria quando via um homem com farda, porque diziam que dava sorte. Os homens de farda até são precisos se souberem cumprir as suas obrigações cívicas. E dão jeito para as minhas superstições!
Gosto do tipo aciganado

É católica, mas é supersticiosa... Gosta de homens bonitos, mas sente-se uma mulher desencantada e sem esperança. Tem fome de ser alegre. Teve uma educação conservadora. Preferiu a aceitação à revolta. Adiante: se o doutor Mário Soares lhe batesse à porta, neste momento, como o atenderia?
Atendia-o bem, educadamente.

E não lhe perguntava nada?
Como está, tem passado bem? Espero que sim...

Que idade dá a Freitas do Amaral?
Não sou lá muito forte a acertar em idades... Ele é um bocado pesado, mas deve ter para aí uns quarenta e tal anos...

Tinha vontade de cortar as sobrancelhas a Álvaro Cunhal?
Não... tinha medo. É melhor que ele fique com as sobrancelhas todas. São dele... o seu a seu dono!

Gostaria que Lucas Pires tivesse os olhos da outra cor?
Qual é a cor dos olhos do Lucas Pires, nunca reparei...

Tem uns olhos esverdeados...
Então é melhor ficar com os olhos que tem.

Quer dizer que a Amália gosta de homens com olhos claros?
Não. Por acaso eu até gosto de morenos. tipo aciganados... porque eu também sou meio aciganada!

Alguns dos nossos políticos têm esse tipo aciganado que tanto lhe agrada?
Eu acho que todos eles são um pouco aciganados... mas num outro sentido...

E, quanto a Cavaco Silva, acha que ele tem pouco peso para a sua altura?
Eu só o vi uma ou duas vezes e nem reparei se era gordo ou magro.

Daria um conselho a Maria de Lourdes Pintasilgo para mudar um pouco o penteado?
Aconselhava-a mais depressa a ser rouxinol...

Vive aqui em São Bento, tão pertinho do Parlamento, nunca sentiu ganas de dar um salto até lá e pôr-se a cantar o fado... por exemplo, a cantar o seu fado Povo Que Lavas no Rio ou aquele mais antigo, Conta Errada?
Não, não seria capaz duma coisa dessas. Sou muito passiva. Direi mesmo que até sou cobarde!

Cobarde porquê? Porque gosta ou prefere ser cobarde?
Para quem tem o meu feitio, é mais natural ser cobarde do que ser valente. Não sou uma agitadora. E tenho muito medo de ferir as pessoas, até mesmo aquelas que mereciam que eu lhes dissesse alguma coisa amarga e dura. Prefiro ficar em casa, chorar sozinha ou desabafar com os amigos. Prefiro chorar a cantar...
Admiro o infante D. Henrique

Muitas condecorações tem recebido, não só em Portugal. Mas no seu país recebeu, pelo menos, duas... duas altas condecorações, uma pelas mãos de Marcelo Caetano, outra pelas mãos da Ramalho Eanes. Da que mãos gostou mais de receber essas distinções, que representam o reconhecimento público do seu mérito?
É suposto ter-se uma reação de orgulho ou de honra ou de contentamento. Mas, não sei porquê, fiquei parada, sem alegria por dentro. Não consigo voltar a ter o meu sorriso de criança, a minha cabeça louca... De qualquer modo, a segunda condecoração que recebi, da Ordem do Infante D. Henrique, e me foi atribuída pelo general Ramalho Eanes, gostei mais dela por ser a do infante D. Henrique, figura histórica que sempre admirei.

Essa sua predileção pelo infante D. Henrique revelará uma simpatia da sua parte pela monarquia?
Não tenho nada que ver com a monarquia. Mas na pouca escola que tive aprendi (e ninguém tem culpa de aprender o que aprendeu) que Portugal era deste tamanho, que Angola era 14 vezes maior. E tudo estava ligado a feitos de homens como o infante D. Henrique...

Está contra a independência das ex-colónias portuguesas?
Eu não. Mas também não posso estar contra a história dos povos.
Feminina mas não feminista

Sentiu-se sempre uma mulher independente?
Independente nunca fui. Sou independente dentro de mim, nos meus sentimentos, mas estive sempre dependente de uma educação, de um tempo em que não se podia fumar à frente dos pais nem sair à rua de braço dado com o namorado... Quando um dia saí de braço dado com o meu namorado, apanhei uma valente sova!

Nunca desejou integrar um movimento feminista?
De maneira nenhuma. Sou muito feminina mas não sou pessoa de ir para a rua agitar bandeirinhas por um movimento feminista.

A emancipação da mulher, o direito à igualdade, não lhe dizem nada?
E isso consegue-se com bandeirinhas na rua? Penso que o importante é cada pessoa estruturar a sua personalidade e fazê-la respeitar.

O que pensa da homossexualidade? Acha que é uma aberração?
Natural não é... O natural é a procriação...

Bem, não lhe coloco a questão da sexualidade só em termos de procriação... Mas diga-me o que pensa da homossexualidade.
Tenho muitos amigos que são homossexuais. Não deixo de lhes ter amizade por isso. O que me importa é a boa educação, o respeito que devemos uns aos outros.

Não tem filhos, Amália. Recusou-se a tê-los ou algum problema a impediu de ser mãe?
Não me recusei, ou melhor, não fui capaz de fazer uma cirurgia de que necessitava para poder engravidar.

Foi egoísmo ou teve medo?
Tive medo. Fujo do bisturi como o diabo da cruz... Morro só de pensar numa operação!

Gosta multo da si mesma? Tem medo de morrer? Tem-lhe custado envelhecer?
Não é o gostar de mim mesma. Gosto de viver com os meus amigos, com a minha família. Felizmente, ainda tenho a minha mãe, já com 93 anos.

E a velhice atormenta-a?
Ora, se fosse só eu a envelhecer, ficava danada! Mas toda a gente envelhece, é a ordem natural da vida. Tenho de aceitar que é assim. E aproveito para lhe dizer que nunca fiz nenhuma operação plástica, no entanto, encarregaram-se de me inventar meia dúzia delas... Até nem me importaria de me rejuvenescer, mas operações já basta as que tiverem de ser, como uma pequenina que fiz agora para extrair um quisto junto ao ouvido. ·



© ARQUIVO DN

Que opinião tem sobre o aborto?
Não é fácil dar uma opinião de ânimo leve. Felizmente, nunca me senti numa situação dessas. É uma questão complicada. Só quem vive esse problema em toda a sua dimensão o poderá, de facto, avaliar.
Sou ciumenta mas não faço cenas

O seu primeiro grande sucesso foi com o fado do Ciúme. É uma mulher ciumenta?
Foi realmente o meu primeiro sucesso, graças ao Frederico Valério (marcou-me tanto a sua morte!). Sou uma mulher ciumenta, até porque sou muito insegura, mas sou incapaz de fazer uma cena de ciúmes. Vingo-me a chorar...

Ainda se lembra de quem foi o seu primeiro namorado?
Se me lembro! Casei com ele. Foi o meu primeiro casamento, era novinha. Chamava-se Francisco Cruz, era meu guitarrista.

Foi importante para si esse primeiro casamento?
Era muito nova e naquela altura o casamento era a consequência lógica do namoro. Ele até era bonitinho, tocava bem guitarra e, tal como eu, tinha a mania do fado. Depois, os nossos fados separaram-se...

Teve muitos homens apaixonados por si... Gostava de sentir-se amada? Maltratou alguns desses amores?
Tive muitos homens apaixonados, não sei se todos por mim se mais pela minha voz. Nunca confiei muito em que gostassem de mim se não cantasse. E reconheço que maltratei algumas paixões, mas duma maneira inconsciente.

Hoje, disposta a continuar a cantar o seu fado, sente que a sua vida de mulher foi sentimentalmente frustrada?
Digamos que, por força da minha vida, da minha carreira, dei menos de mim ao amor do que podia ter dado. Transportei o amor mais para o fado...

Esqueceu-se de si como mulher? Fez prevalecer a artista?
Talvez me tenha esquecido um pouco de mim própria. Mas voltei a casar-me e este casamento já dura há 25 anos.

Raramente as pessoas a veem acompanhada do seu marido. Quem é?
Não sei se ele quer que lhe diga o seu nome, por isso não digo. Nunca misturamos a nossa vida familiar com a minha vida profissional.

E este casamento deu-lhe alguma estabilidade sentimental e psicológica?
É uma pessoa com quem posso contar. Uma pessoa que gosta de mim, é um homem bem-educado, nunca discutimos. É um casamento que julgo feliz.

Ele não tem ciúmes dos seus fados, da sua entrega apaixonada ao fado?
Penso que não. Ele tem outras motivações. Tem também uma educação portuguesa, sabe como eu sou. Quando se casou comigo sabia que eu já tinha sido casada, que era uma mulher inculta e era fadista e amava o fado. Ele é engenheiro mecânico, tem a sua própria sensibilidade, não canta, até porque desafina... Mas penso que gosta de mim, independentemente de eu cantar o fado.

Nunca lhe disse que gostava da sua voz?
Não sei se ele já se cansou de me ouvir cantar ou se ainda é um espectador que me acompanha. Antigamente dizia-me que tinha ouvido fulano ou sicrano a cantarem coisas minhas mas que não sentia o arrepio que costumava sentir quando era eu mesma a cantar.

Então e a Amália não sabe se ele ainda se arrepia quando a ouve cantar?
Não me tem dito nada... No fundo, ele deve sentir que o fado, as minhas cantorias, lhe têm roubado a minha companhia, e tem alguma razão nesse aspeto. Embora eu seja uma mulher caseira que nem sequer gosta de ir a restaurantes, estou em casa mas estou sempre rodeada pelo fado. ·
Flores, sempre flores

Que melhor prenda lhe podem oferecer?
Flores. Muitas flores. Basta olhar para a minha casa. Quase todos os dias vou ao campo colher flores.

É uma espécie de apelo à vida?
Disse bem, é um apelo à vida. Gosto do campo e do mar. Então do mar nunca me canso. Sinto uma força, uma ânsia de libertação!

Libertação... Mas a própria Amália diz que acaba por ser cobarde e fica fechada sobre si mesma...
Sou muito paradoxal. Reconheço que o sou.



© ARQUIVO DN

Os poemas que tem feito ultimamente são a única forma de o seu grito fazer eco?
Não tenho pretensões a poeta. Deus me livre! Mas ao escrever algumas letras para os meus fados, agora que estou desiludida de todos os meus sonhos, talvez seja, sim, uma forma de gritar, de dizer o que me vai na alma. Tenho pena de mim... Sonhei um mundo tão diferente... Sou uma pessoa de mãos abertas. Entrego-me à amizade sem tomar precauções. Pensei sempre que não era preciso uma pessoa precaver-se quando a amizade existe e as pessoas falam abertamente. Mas há gente que engana tanto!...

Não teria fechado demasiado os olhos em sua própria defesa, para sua comodidade? Não temia, feitas as contas, que, se os abrisse, iria certamente encontrar uma realidade que não tem nada que ver com a Branca de Neve e os Sete Anões?
Pois é... eu sonhei muito com a Branca de Neve e os Sete Anões... Este maldito romantismo, esta falta de confiança em mim mesma... Tinha de ser fadista, fatalmente...

E quis ser sempre, também, uma menina mimada?
Julguei que poderia ser assim comigo e com toda a gente. Talvez seja do meu signo, sou Leão.

Em que mês nasceu?
A minha avó dizia-me que eu nasci com as cerejas. Registaram-me oficialmente a 23 de julho. Mas, ao certo, ao certo, não sei o dia em que nasci. Cá por mim, optei pelo dia 1 de julho, que é logo o princípio do mês...

Mas as cerejas começam a amadurecer em fins de maio... Afinal, qual é o seu signo?
Escolhi o de Leão, mas, se calhar, até sou Touro, Gémeos ou Caranguejo...

Tem pelo menos a certeza do ano em que nasceu?
Isso tenho. Foi em 1920. Agora o mês... Foi com as cerejas e não me desagrada a época do ano, embora eu aprecie mais pêssegos, figos e melão. Mas é tudo fruta da época!

Quer ficar na lenda, como a Severa?
Não quero lenda nenhuma. Só quero estar com as pessoas enquanto estou viva. Só preciso de amar e de amizade enquanto respiro e me sinto. Depois... bem, não me importa que vão pôr umas florinhas na minha campa, sempre ficará mais arranjadinha...

Não quer fazer um esforço para se libertar dessa angústia?
Mas como? Eu disse-lhe que perdi a capacidade de sonhar, mas é possível que o meu grande mal seja precisamente o não conseguir deixar de sonhar... É o meu destino.
O fado de Coimbra é muito sentido

Acha que o fado de Coimbra é tão fatalista como o fado que a Amália canta?
Não será fatalista, mas é um fado muito sentido, de que gosto imenso. A minha voz segue um pouco a melodia arrastada do fado de Coimbra. Não se canta fado sem sofrimento e o fado de Coimbra tem intérpretes muito bons, na voz e na música.

Quem são os seus intérpretes preferidos do fado coimbrão?
Não costumo indicar nomes, mas o Menano tinha o fado de Coimbra nas veias. E Artur Paredes fazia gemer a guitarra.

Sabe que o doutor Almeida Santos é político mas também canta o fado de Coimbra?
Sei, já o ouvi cantar. E olhe que ele para o fado até tem jeito. Canta bem!

E quando volta a Amália Rodrigues a gravar um disco com fados novos?
Tenho diversos trabalhos nesse sentido. Qualquer dia vão sair, se não ficar para aqui enrodilhada em lágrimas de cansaço.

Não sente que, ao reeditarem agora os seus maiores êxitos, estão a fazer-lhe uma justiça ou a tentar reparar uma injustiça?
É possível que sim. Mas o sofrimento que me causaram... sabe, é como quem corta as pernas a alguém, mesmo que seja sem querer, e depois, quem lhe volta a restituir as pernas, sadias? É esse frio que me gela.

sábado, 18 de julho de 2020

"Gaivota"_Alexandre O’Neill





Gaivota (1965)

Se uma gaivota viesse / trazer-me o céu de Lisboa / no desenho que fizesse, / nesse céu onde o olhar / é uma asa que não voa, / esmorece e cai no mar. // Que perfeito coração / no meu peito bateria. / meu amor na tua mão, / nessa mão onde cabia / perfeito o meu coração.
Se ao dizer adeus à vida / as aves todas do céu, / me dessem na despedida / o teu olhar derradeiro, / esse olhar que era só teu, / amor que foste o primeiro. // Que perfeito coração / no meu peito morreria, / meu amor na tua mão, / nessa mão onde perfeito / bateu o meu coração.

Alexandre O’Neill (1924-1986).

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Leituras



DAQUI: "Expresso Curto" - Excerto
Germano Oliveira
Editor online


"O QUE EU ANDO A LER
Creio que o fim da adolescência é uma circunstância: não acontece aos 18 da maioridade legal ou aos 21 da licenciatura nem aos 30 dos empréstimos à habitação, não é certamente aos 40 das lipoaspirações e dos implantes de cabelo ou aos 50 dos despedimentos amigáveis nem aos 60 do temor de um tumor, há adolescentes licenciados endividados calvos gordos desempregados doentes com as idades todas, creio que a adolescência, a genuína adolescência, aquela além-envelhecimento e antientorpecimento, a que é determinada pela expectativa de tornarmos o nosso mundo um lugar transformado pelas nossas intervenções, essa adolescência tão vaidosa de esperança e desejosa de feitos só é desfeita pela introdução da morte, quando as infinitas ilusões juvenis se tornam repentinas desilusões adultas assim que atendemos o telefonema que anuncia a finitude das nossas pessoas:

- ele morreu
ou
- ela morreu

e depois silêncio, o rigoroso silêncio da dor, nenhum adolescente sabe manter o diálogo da morte, nem os envelhecidos tão-pouco, ficar subitamente crescido é ser vítima-sobrevivente da colisão de nos noticiarem a primeira morte da nossa intimidade de avós pais tios maridos mulheres cunhados sogros namorados irmãos amigos e demais prolongamentos de afinidade: a adolescência é ir passar o fim de semana a casa da mãe ou do pai ou de ambos se ainda estiverem juntos e trazer melancias para guardar no frigorífico e hambúrgueres no congelador, é almoçar um assado ao domingo à tarde enquanto a avó conta a história do baile em que o avô esse galã a seduziu em 1925, é chamar o cunhado que sabe mudar pneus quando temos um furo no Volkswagen, é fumar um cigarro com o sogro enquanto ele se intumesce com o tempo da tropa em que entrou num bar e acabaram todos à porrada (ele saiu-se bem claro que se saiu), é ouvir a adjetivação viçosa da sogra sobre os novos músculos do Ricardo Araújo Pereira, é receber uma chamada do irmão-muito-mais velho camionista a dizer que se sente sozinho na viagem para Itália porque lá caramba há tanto covid, é insistir com o namorado para não deixar a tampa da sanita levantada e ficarmos furiosos-enternecidos por ele nunca o fazer, é estar no Primavera Sound e aquela amiga que não conseguimos encontrar na multidão escrever “a vida vai acabar num instante. merecemos estar todos juntos!”, exclamação, merecemos sim, a adolescência é estar com gente gente gente, toda a nossa e tão querida gente, mas um dia o telefone toca e fica gente-1, é subtração irreparável, e depois fica-se com medo, tanto mas tanto tanto medo, todo o tanto e tão maldito tanto, do dia do segundo telefonema, gente-2, eles morrem-nos, meu Deus, mas os números deles continuam no nosso telemóvel, 91 qualquer coisa, o que se faz ao número de um morto?, digam-me o 5G do além e eu fundo uma operadora de telerressurreição, que frase adolescente, eu sei, mas apesar de adulto ainda me recordo das técnicas juvenis, é da saudade desse tempo, todo esse distante mas tão bem lotado tempo que acaba com um telefonema - e então não se perde a expectativa de tornarmos o nosso mundo um lugar transformado pelas nossas intervenções, o mundo é um lugar demasiado imperfeito para o abandonarmos aos seus defeitos, mas perde-se a inocência, essa fundamental condição adolescente, porque a cada feito notável da nossa vida lembramo-nos de quem faz falta, toda a aguda e tão insuperável falta, para celebrar connosco essas conquistas esporádicas, os adolescentes não têm tempo para emoções destas, estão demasiado ocupados da gente toda, não sabem como dói uma memória, é nisto que creio porque ficar adulto é isto que li:

“Um dia alguém morre apressadamente e as referências
estruturais da memória são elementos geométricos
e decorativos no interior das casas, impressos
nos fragmentos de luz. E o amor
cabe dentro da morte como punhados de terra
em mãos fechadas”,

está na “Autópsia” do José Rui Teixeira, poeta da minha terra, o Porto onde acabou a minha adolescência, foi lá que fiquei adulto que é sentir desta maneira:

“a morte dos outros é mais difícil do que a nossa, porque vivemos a morte deles e não viveremos a nossa. E porque a morte dos outros significa o desmantelamento do nosso passado, a inexistência do nosso passado, do qual deixa de haver prova indiscutível. Ficam imagens, objectos, detritos, coisas em gavetas que nada dirão aos vindouros. E os nossos mortos fazem-se não apenas pó mas nevoeiro, figuras extintas, indistintas, irrecuperáveis”,

é das “Imagens Imaginadas” do Pedro Mexia, ando a folhear, o Mexia é do Expresso que é o jornal da minha vida adulta, o meu gente-1 ia ter orgulho de eu publicar onde o Mexia escreve, é preciso lembrar o que os mortos sentem por nós, reparem no verbo: “sentem” terceira pessoa do plural do presente, não é amor passado mas amor presente, é amor até com data, gente-1 faria anos daqui a dias, parabéns:

“O passado de qualquer ser humano transforma-se num fantasma, mas temos de fazer um esforço e recordar, porque recordar engrandece-nos, eleva-nos para lá da vida e da morte, para lá da História, da política e da humilhação. Quem recorda e o faz com toda a profundidade devida transforma-se num deus”, é do Manuel Vilas e do seu “E, de repente, a alegria”, é o que ando a ler, o Manuel Vilas sofreu gente-1 e depois gente-2, pai e mãe, gosto muito do arranque do livro, é assim, todo este aparentemente adulto mas na verdade tão adolescente assim: “Tudo aquilo que amámos e perdemos, que amámos imensamente, que amámos sem saber que um dia nos seria roubado, tudo aquilo que, após a sua perda, não conseguiu destruir-nos — embora tenha insistido com forças sobrenaturais e procurado a nossa ruína com crueldade e afinco — acaba, mais tarde ou mais cedo, transformado em alegria”.

Tenha um bom dia."

quarta-feira, 10 de junho de 2020

Strange Fruit_ Jill Scott




Strange Fruit
Árvores do sul dão uma fruta estranha
Southern trees bear a strange fruit

Sangue nas folhas e sangue na raiz
Blood on the leaves and blood at the root

Corpos negros balançando na brisa do sul
Black bodies swinging in the southern breeze

Frutas estranhas penduradas nas árvores de álamo
Strange fruit hanging from the poplar trees
Cena pastoral do galante sul
Pastoral scene of the gallant South

Os olhos esbugalhados e a boca torcida
The bulging eyes and the twisted mouth

Aroma de magnólia, doce e fresco
Scent of magnolia, sweet and fresh

Então o cheiro repentino de carne queimada
Then the sudden smell of burning flesh
Aqui está uma fruta para os corvos colherem
Here is a fruit for the crows to pluck

Para a chuva cair, para o vento sugar
For the rain to gather, for the wind to suck

Para o sol apodrecer, para a árvore cair
For the sun to rot, for the tree to drop

Aqui está uma colheita estranha e amarga
Here is a strange and bitter crop
Fonte: LyricFind
Compositores: Abel Meeropol
Letras de Strange Fruit © Warner Chappell Music, Inc

domingo, 7 de junho de 2020

João de Barros_Uma gaivota êxul...



UMA GAIVOTA ÊXUL...



Uma gaivota êxul morreu no Mar...

E o seu corpo, de cândida energia,

Sobre uma onda veio naufragar

Ao cais d´onde partira, certo dia...



Tinha as asas abrindo ao vento...O peito

Arqueado ainda, como se aspirasse

O perfume do largo - e insatisfeito

Mais distância quisesse e conquistasse.



E em seus olhos, que a Morte não cerrara,

Tanto a sede do ignoto os desvairou

- Fiquei-me a adivinhar a visão clara

D´um mundo que só ela desvendou...



Nesta doce manhã de Primavera

Não entristece vê-la morta, assim :

- Voo quebrado à hora da quimera,

Quando a vida parece não ter fim...



É que nesse cadáver pequenino,

Crispado num tormento quase humano,

Não se apaga a alegria dum destino

Que foi Sol, que foi Céu, que foi Oceano !...



Ah ! pudesse eu morrer de igual loucura,

Na avidez de voar e de partir,

Com asas de ansiedade e de aventura

Entre a graça de espumas a florir !...



Mas que o embalo das ondas não me traga

Ao porto onde embarcar o meu desejo :

- Que uma vaga me leve, que uma vaga

Á distância me enlei o último beijo...



Pois eu quero julgar que o ritmo ardente

Do meu sangue, sequioso de paixão,

Fica no Mar pulsando eternamente :

- Como se fosse o Mar que sonha e sente

O sangue do meu próprio coração !...



João de Barros

quinta-feira, 4 de junho de 2020

Em Casa d´ Amália






Programa inspirado nas célebres noites em que Amália Rodrigues recebia em sua casa, poetas, cantores, pintores, músicos, atores para tertúlias infindáveis. by RTP


AQUI: Episódio 0
10 Abr. 2020

AQUI:  Episódio 1
Kátia Guerreiro, Rui Veloso, Hélder Moutinho, João Mário Veiga, Pedro de Castro
17 Abr. 2020


AQUI: Episódio 2
FF, José Luís Geadas, Maria Emília, Maura Airez, Buba Espinho, Tiago Correia, João Filipe
24 Abr. 2020


AQUI: Episódio 3
Fábia Rebordão, Filipa Cardoso, João Pedro Pais, André Dias, Bernardo Viana
01 Mai. 2020

AQUI: Episódio 4 
Joaquim Vicente Rodrigues, Joel Pina, Jorge Fernando, Custódio Castelo, Alexandra
08 Mai. 2020

AQUI: Episódio 5 
Lenita Gentil, Tozé Brito, Pedro Moutinho, Ângelo Freire, Flávio Cardoso
15 Mai. 2020

AQUI:  Episódio  6
José Cid, António Pinto Basto, Miguel Ramos, Ângelo Freire, Flávio Cardoso
22 Mai. 2020

AQUI:  Episódio 7
Aldina Duarte, Maria da Fé, Miguel Lobo Antunes, Paulo Parreira, Rogério Ferreira, Francisco Salvação Barreto
29 Mai. 2020

AQUI: Episódio 8
Ricardo Ribeiro, Rodrigo, Luís Osório, José Manuel Neto, Carlos Manuel Proença
05 Jun. 2020

AQUI: Episodio 9
Fafá de Belém, Waldemar Bastos*, Dany Silva, André Dias, Bernardo Viana
19 Jun. 2020

*falecido hoje, dia 10 de Agosto de 2020. Esta foi a última actuação conhecida. 

AQUI: Episódio 11
 Ana Moura, Pedro Abrunhosa, Conan Osíris, Beatriz Silva, Ângelo Freire, Pedro Soares
10 Jul 2020

domingo, 17 de maio de 2020

Aldeia de Monsanto

Quando já achava que não tinha nada que me surpreendesse, eis que 
- após noticias e mais notícias sobre o covid - vem o João Pedro Mendonça, 
da RTP, oferecer-nos esta reportagem, unicamente filmada e editada com
um telemóvel. Uma obra de arte como crónica surpreendente. Vale a pena ver.

<<…há vidas que são quarentenas…>>

AQUI: "Confinado na aldeia". O isolamento em Monsanto


quinta-feira, 7 de maio de 2020

Uma pequena Luz


Covid-19: Coronavírus pode estar a perder força, avança estudo
06.05.2020 às 12h3

Investigadores da Universidade do Arizona, nos EUA, descobriram uma nova mutação no código genético do SARS-CoV-2 que acreditam ser muito semelhante a uma outra encontrada em 2003 no vírus da SARS quando este começou a enfraquecer


Uma nova mutação encontrada recentemente no código genético da Covid-19 deixou expectantes os investigadores da Universidade do Arizona, nos EUA. Segundo o professor Efren Lim, principal autor do trabalho, esta nova mutação apresenta fortes semelhanças com as alterações genéticas da SARS registadas na fase final do surto, em 2003, quando a doença começou a perder força.


O estudo, agora publicado no Journal of Virology, envolveu mais de 382 amostras de zaragatoa nasal extraída de pacientes hospitalizados com Covid-19. No entanto, apenas uma destas amostras apresentou a falta de um segmento considerável de material genético, identificada pela equipa como uma nova mutação do vírus. Os especialistas acreditam, porém, que este poderá ser um bom indício, tendo em conta que quando uma mutação semelhante foi identificada em 2003, espalhou-se rapidamente pela China e no prazo de cinco meses o surto de SARS foi interrompido.


Para saber mais
Covid-19: Como o plasma de doentes recuperados pode ajudar a tirar infetados dos cuidados intensivos
Médicos franceses descobrem que um paciente internado com “gripe” em dezembro estava, afinal, infetado com o coronavírus


“Uma das razões pelas quais essa mutação é interessante é porque reflete uma grande exclusão que surgiu no surto de SARS em 2003”, disse o professor Lim numa entrevista ao Daily Mail, na qual revelou também que esta nova mutação subtrai ao coronavírus uma das suas principais armas contra a resposta imunitária dos hospedeiros humanos, tornando a infeção significativamente mais fraca. “A conclusão é que o vírus teve uma grande exclusão, o que demonstra que é possível transmitir-se sem ter partes completas do seu material genético”, acrescentou o co-autor do estudo, Matthew Scotch, em comunicado.


Os resultados do estudo foram possível graças a uma nova tecnologia de sequenciação que permitiu à equipa de investigadores determinar como o vírus se está a espalhar, modificar e adaptar ao longo do tempo. Mas não só – a nova técnica permitiu também identificar que o código genético do novo coronavírus perdeu no total 81 “fragmentos” particularmente relevantes dos 30 mil que o constituem. Cada um desses “fragmentos” corresponde a unidades químicas que integram a sua composição, à semelhança do que acontece com o genoma humano que, ao todo, reúne mais de três mil milhões.


No entanto, os investigadores do estudo sublinham que ainda é cedo para garantir que o novo coronavírus está a perder força: “Trata-se apenas uma gota num balde de água”, rematou Lim.

De <https://visao.sapo.pt/visaosaude/2020-05-06-covid-19-coronavirus-pode-estar-a-perder-forca-avanca-estudo/

domingo, 3 de maio de 2020

humor luso

A criatividade lusa nunca pára, mesmo em estado de quarentena.
Até agora, a compilação de piadas lusas vai assim:

1. Hoje de manhã, no café, quando tomava a bica,
entraram duas pessoas com máscaras e foi o pânico geral.
Só quando eles disseram que era um assalto é que a malta sossegou.

2.– Amor, estou no supermercado, queres alguma coisa?
– Levaste a máscara?
– Sim.
– Traz a caixa registadora.

3– Amiga, acabo de ver o teu marido aqui, no Lidl, com uma gorda.
Vou segui-los. Já te conto.
– Cabra de merda. Sou eu.

4. Só me fazem disto. Disseram que para ir às compras bastava levar luvas e máscara.
Mentirosos! Os outros iam todos vestidos.

5. Mamã, porque é que o pai é tão feio?
– Foi assim, filha. Conhecemo-nos numa fila do supermercado, tínhamos uma máscara
e estávamos a dois metros de distância.
As coisas, na altura, eram muito complicadas para os míopes.

6. De repente, já cumprimos mais prisão domiciliária do que o Ricardo Salgado.

7. Sabe aquela parte da Cinderela em que entram os passarinhos e ajudam a arrumar a casa?
Então, alguém tem o contacto dos passarinhos?

8. Quem ainda não tem o Covid-19, já não vale a pena [ter].
Em setembro já vai sair o Covid-20, com muito mais funcionalidades.

9. Provérbios adaptados: ‘Março, marçagão, de manhã pijama, à tarde roupão’ ;
 "Em Abril, Covids mil".

10. Nem nos meus sonhos mais loucos imaginei entrar num banco com máscara
para levantar dinheiro.

11. Quando isto tudo terminar vou tirar uns dias de descanso.

12. Aviso: Quando isto acabar vou fazer uma quarentena ao contrário
– 14 dias sem ir a casa.

13. Sabem-me dizer quando podemos receber novamente pessoas em casa?
A minha mulher está há dois dias a bater à porta.

14. Esse vírus só pode ter sido criado por uma mulher. Conseguiu cancelar o futebol,
fechar os bares e manter os maridos em casa.

15. Fiquem tranquilos. Com 15 dias de escolas fechadas, as mães vão desenvolver a
vacina.

16. Hoje vou deixar uma garrafa em cada divisão da casa. Assim, logo à noite,
vou dar uma volta pelos bares.

17. Nunca vi uma merda ‘Made in China’ durar tanto!!!

18. Se este é o vírus chinês imaginem o original.

19. Esta é a primeira vez na História que o original vem da China e a cópia de Milão.

20. Falaram-me de uma série de abdominais, mas não a encontro na Netflix.

21. Última hora: as estatísticas de infidelidade baixaram 80%. Um êxito.

22. Não se pode tocar, beijar e tem de se manter distância…
 Porra! Isto não é um vírus; é uma casa de strip.

23. Uma conclusão é certa: ter coronavírus é igual a ter um par de cornos.
Uns já têm; outros vão ter; e muitos nunca vão saber que tiveram.

24. Desconfio que as abreviaturas a.C. e d.C. vão assumir um novo significado.

25. Bem-aventurados os que andam passeando à toa na rua, em breve eles verão o
Senhor. Teimosos 1.1.

26. É Semana Santa. Se você não sabe ressuscitar, fique em casa.

E ainda isto não acabou...

terça-feira, 28 de abril de 2020

Pandemia_Ensaio de José Manuel Fernandes



É esta pandemia que vai mudar a História? Ou é o braço de ferro da China com o resto do Mundo? 


Pequim tem muitas perguntas para responder. E quer tirar partido do que está a acontecer
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A China não tem aliados, só parceiros comerciais. Mas quer ter influência. Se a pandemia de Wuhan podia ser a Chernobyl do regime, Pequim quer fazer dela um triunfo. Um ensaio de José Manuel Fernandes
Há momentos em que a História acelera. E outros em que parece recuar. Qual destes momentos vivemos? A resposta parece estar nas mãos de um vírus, e não seria a primeira vez que uma praga mudaria o curso da História. Mas a resposta também depende muito – depende sobretudo? – do resultado de um duelo. O da China com o resto do mundo.

O mistério de Wuhan

Ou será antes duelo entre o Sapiens e o vírus, como defendem os diplomatas chineses, alegando que não é tempo para disputas políticas? A alegoria vem citada num artigo do New York Times que dá conta precisamente dessas disputas políticas e não é muito simpático para a União Europeia que, a semana passada, pressionada pela China, adocicou um relatório sobre a campanha de desinformação levada a cabo pelo regime de Pequim. “A China já ameaçou com retaliações se o relatório sair”, escreveu um diplomata europeu, Lutz Güllner, num mail que o diário de Nova Iorque viu. E como ameaçou, a Europa recuou e retirou do relatório referências a uma rede de desinformação online pró-chinesa criada na Sérvia, assim como uma condenação das críticas que a China tinha feito à França.
O pano de fundo desta tensão é o equilíbrio entre a vontade dos líderes europeus de manterem os negócios com a China e o crescente desconforto relativamente à forma com o Partido Comunista geriu a crise do coronavírus. Sobretudo porque ainda há muitos pontos de interrogação sobre o que verdadeiramente se passou.
Todas as dúvidas sobre o que realmente se passou no início da pandemia começam em Dezembro em Wuhan, ainda antes das tentativas das autoridades para abafarem as notícias da eclosão da doença e de terem mandado calar os médicos que falavam dela.
Aquilo que sabemos é que, algures em Novembro passado, alguém ficou contaminado com uma nova estirpe de vírus em Wuhan, uma cidade no centro da China, nas margens do Yangtzé. Como é que isso aconteceu ainda está por esclarecer e logo aqui começam as desconfianças.
A versão oficial é que o vírus passou de um outro mamífero para o homem num mercado animais vivos da cidade, no caso o mercado do peixe. Nesses mercados, comuns em toda a China, os animais são por regra vendidos vivos e depois são mortos à frente dos compradores, sejam galinhas, cobras, peixes ou… pangolins. Para além disso nesses mercados não se transacionam apenas as espécies “de criação”, mas também aparecem animais selvagens, alguns bastante exóticos.
Aqui surge o primeiro problema e depois a primeira dúvida. O primeiro problema é saber por que motivos as autoridades chinesas continuam a tolerar a existência deste tipo de mercados sabendo-se que neles o risco de transmissão de um vírus é muito elevado. Os mais recentes surtos de gripe das aves (H7N9), o primeiro dos quais em 2013, tiveram todos origem em mercados deste tipo. A explicação habitual é que esses mercados são parte tão integrante da cultura chinesa como para nós é consumir queijo ou beber vinho. Nesta frente o Partido Comunista não tem todo o poder, ou se o tem não o exerce.
 Shi Zhengli, uma virologista prestigiada conhecida no meio académico como “mulher morcego”, foi chamada de urgência em Dezembro de regresso ao seu laboratório em Wuhan
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Já a primeira dúvida tem a vem com saber se o vírus teve realmente como origem o mercado de Wuhan ou se se tratou de uma eventual falha de segurança num laboratório microbiológico situado a poucos quilómetros. É consensual que aquele tipo de coronavírus existe em espécies de morcegos que vivem na China, mas não na província de Hubei (onde fica Wuhan), antes na longínqua província de Yunnan, a quase dois mil quilómetros de distância. Haveria morcegos à venda no mercado? Os testemunhos de quem visitara recentemente aquele espaço é que não, não haveria. Mas havia vírus dos morcegos de Yunnan em Wuhan – só que no laboratório de virologia, uma unidade célebre mundialmente e onde trabalha Shi Zhengli, uma cientista prestigiada conhecida no meio académico como “mulher morcego”. Desde o surto de SARS de 2003, outro coronavírus, que Shi Zhengli tem procurado nas cavernas de Yunnan morcegos portadores de vírus semelhantes com o objectivo de os estudar e preparar vacinas.
O laboratório de Shi Zhengli – o Instituto de Virologia de Wuhan – fica na mesma cidade e quando, ainda em Dezembro de 2019, surgiram os primeiros casos em Wuhan, a cientista regressou de emergência à cidade, interrompendo a sua participação numa conferência em Shangai. Shi garante que a pegada genética do SARS-CoV-19 não coincide com a de nenhum dos espécimes em estudo no seu laboratório, mas mesmo assim não dissipou todas as dúvidas. E não dissipou porque um dos primeiros artigos científicos publicados sobre a epidemia, na prestigiada Lancet, indicava que 14 dos 41 primeiros casos identificados de Covid-19 eram de pessoas que não tinham qualquer relação com o mercado. Para além disso, dois investigadores chineses publicaram em Fevereiro um papper – que depois retiraram – em que afirmavam que o vírus provavelmente tivera mesmo origem no laboratório da “mulher morcego”.
E atenção: um acidente que tenha permitido a “fuga” de um vírus do laboratório não tem nada a ver com a hipótese fantasista de o SARS-CoV-19 ser um vírus fabricado, produto da engenharia genética. O desmentido desta segunda hipótese, que corresponde realmente a uma “teoria da conspiração”, tem servido para obscurecer a hipótese da fuga acidental, que só poderá ser descartada taxativamente se a China permitir uma investigação independente ao Instituto de Virologia de Wuhan.
É por isso que todas as dúvidas sobre o que realmente se passou no início da pandemia começam aqui, ainda antes de as tentativas das autoridades para abafarem as notícias da eclosão da doença e de terem mandado calar os médicos que falavam dela. Muito antes, mais de um mês antes, de a China continuar a dar informações erradas à Organização Mundial de Saúde sobre a transmissibilidade de pessoa para pessoa.
Na frente da ocultação e do controlo sobre o que pode ou não ser dito o poder do Partido Comunista ainda é imenso. Por isso não há forma de fugir às suas responsabilidades.

Luvas de boxe em vez de luvas de pelica

Poucos teriam até há pouco tempo ouvido falar de Roger Roth fora do estado norte-americano do Wisconsin, onde ele é senador estadual. Mas no final do mês de Março Roth recebeu um estranho pedido: a mulher de um diplomata chinês fez-lhe chegar uma proposta de resolução que ele deveria levar a votos no senado do Wisconsin. Uma resolução a saudar a forma como a China estava a combater o coronavírus.
Mesmo intransigentes defensores das regras da concorrência, como a comissária europeia Margrethe Vestager, abandonaram as suas posições tradicionais. Neste caso, para apelar aos estados membro da União Europeia que defendessem empresas fragilizadas pela crise de take-overs por empresas chinesas.
A abordagem não teve sucesso, pelo contrário, pois o senador acabou por propor uma resolução a saudar a civilização chinesa mas a condenar o regime comunista. Pior: o episódio mostrou que a diplomacia chinesa trocara a habitual discrição por uma agressividade nunca antes vista. A mesma agressividade que permitira, por exemplo, a um vice-ministro subscrever a teoria da conspiração de que o vírus fora levado para Wuhan por militares americanos. Ou que a levaria a pressionar a União Europeia por causa de um simples relatório diplomático.
As luvas de pelica foram trocadas por luvas de boxe num esforço para reverter o dano causado às ambições chinesas por ter sido o berço da pandemia global. Um esforço que no entanto está longe de sarar as feridas.
 Um mercado na província de Guangzhou: é neste tipo de mercados que continuam a ser vendidos animais vivos que são mortos no local, à frente dos clientes
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Por um lado, a “ajuda” que a China se prontificou a oferecer aos países que começaram a ser mais atingidos revelou-se problemática. Muitas vezes os testes que enviava vinham defeituosos. As máscaras eram de má qualidade. Encomendas eram desviadas em leilões de última hora.
E como se os defeitos na produção chinesa não fossem suficientes, a dimensão da crise tornou evidente um pouco por todo o lado que o mundo não podia depender tanto das fábricas chinesas. Pequenas empresas, como a irlandesa Oasis, que fabrica dispensadores de água, reorganizaram a sua produção para abdicarem dos fornecedores chineses trocando-os por fabricantes europeus, e países inteiros, como o Japão, lançaram programas nacionais de apoio à sua indústria para ela depender menos da China.
Mais: mesmo intransigentes defensores das regras da concorrência, como a comissária europeia Margrethe Vestager, abandonaram as suas posições tradicionais. Neste caso, para apelar aos estados membro da União Europeia que defendessem empresas fragilizadas pela crise de take-overs por empresas chinesas. E aquilo que parecia um passeio – o domínio chinês na migração para o 5G – pode tornar-se uma miragem, apesar de toda a vantagem tecnológica da Huawei.
Há mesmo o risco de uma avalanche de processos judiciais, com vários países a estudarem a hipótese de pedirem indemnizações – ou apresentarem a conta – a Pequim por a China ter violado o dever de comunicar devidamente o risco do surto epidémico.
É fundamental que Pequim explique porque decidiu isolar a província de Hubei das outras províncias chinesas, criando uma gigantesca cerca sanitária, mas permitiu que ela continuasse ligada ao resto do mundo.
Neste quadro a ofensiva de charme das autoridades chinesas – que procura transformar o desastre inicial de Wuhan num posterior triunfo do seu sistema autoritário, querendo fazer crer ao mundo que é com os seus métodos que se resolvem problemas desta dimensão e não com a “frouxidão” ocidental – arrisca-se mesmo a fazer ricochete. É que para além das dúvidas que continuam a rodear a forma como o vírus apareceu em Wuhan, há mais um conjunto importante de perguntas a que Pequim tem de responder.

As perguntas a que Pequim tem de responder

Primeiro que tudo é preciso esclarecer o que se passou ainda no mês de Dezembro, o mês em que Shi Zhengli foi chamada de urgência e o mês em que terão sido diagnosticados 105 casos e ocorrido as primeiras 12 mortes. Foi nessa altura que as autoridades mandaram calar médicos como o oftalmologista Li Wenliang, que mais tarde morreria com Covid-19, só porque ele avisara os seus colegas para terem cuidado. Fê-lo a 30 de Dezembro. No dia seguinte a versão oficial, dada a conhecer pela primeira vez, ainda foi que a doença não se transmitia de pessoa a pessoa, uma versão que se manteria até meados de Janeiro e seria mesmo adoptada acriticamente pela dócil e obediente Organização Mundial de Saúde. Seria também importante que as autoridades chinesas explicassem porque não alteraram essa versão até 20 de Janeiro, altura em que a doença já se tinha espalhado por toda a cidade.
Depois é fundamental que Pequim explique porque decidiu isolar a província de Hubei das outras províncias chinesas, criando uma gigantesca cerca sanitária, mas permitiu que ela continuasse ligada ao resto do mundo. Os chineses de Hubei não podiam infectar os seus compatriotas mas puderam continuar a voar para Londres, Paris, Roma ou Nova Iorque durante todo o mês de Janeiro, nalguns casos até mesmo Fevereiro.
 A Associated Press revelou documentos que provam que a 14 de Janeiro se realizou uma reunião ao mais alto nível em que se considerou a situação epidémica grave, mas o alarme só foi dados 6 dias depois
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Finalmente não é possível aceitar o secretismo e as proibições. Durante semanas correram rumores de que o número de mortos em Wuhan era muito superior ao reconhecido pelas autoridades. Quando os funerais foram autorizados, na China as redes sociais começavam a fazer conta ao número de casas mortuárias, ao número de urnas encomendadas e a quantos corpos podiam estar a ser incinerados por dia, e dessas contas resultava que o número de mortos na cidade só podia ter sido muito mais elevado do que o oficialmente reconhecido. A CIA admitiu que também estava a investigar. Até que de repente as autoridades de Pequim vieram fazer uma correcção às estatísticas, as quais estariam erradas devido a erros burocráticos durante o auge da pandemia. Dessa correcção resultou um aumento de 50% no número oficial de mortos. 50%, à décima (o número de mortos passou de 2.579 para 3.869, uma subida de exactamente 50,02%!). Um daqueles números tão exactos que mais parece ditado por ordens superiores do partido – os partidos comunistas sempre gostaram de estabelecer quotas – do que pela realidade. Naturalmente a OMS, pela boca da epidemiologista Maria Van Kerkhove, apressou-se a afirmar que a atualização foi feita para “não deixar nenhum caso por documentar”.
Da última correcção dos número de mortos em Wuhan resultou um aumento de 50% - à décima (o número de mortos passou de 2.579 para 4.636, uma subida de exactamente 50,02%!). É um daqueles números tão exactos que mais parece ditado por ordens superiores do partido. 
Tudo isto enquanto continuamos sem conhecer o paradeiro de figuras como Ren Ziqiang, um bilionário que foi detido por ter criticado o presidente Xi Jiping, ou de Ai Fen, a médica que alertou o mundo para a pandemia e está incontactável desde Março.
À lista das explicações que a China deve ao mundo há ainda acrescentar o atraso no alerta global numa altura em que em Pequim já ninguém duvidava da gravidade da situação. Recentemente a Associated Press revelou documentos que provam que a 14 de Janeiro se realizou uma teleconferência ao mais alto nível em que se considerou a situação epidémica grave e complexa. Mais: em que se disse que o desafio era o mais sério desde o surto da SARS em 2003. Só que os documentos dessa teleconferência foram classificados como “internos”, como “não podendo ser espalhados na internet” e sobretudo não sendo “para divulgação pública”. Pequim continuaria a manter o seu segredo mais seis dias, até 20 de Janeiro. Foram seis dias de encobrimento e seis dias que permitiram que a doença se continuasse a espalhar rapidamente pelo mundo.

O papel dos germes na História

A história da Humanidade não foi determinada apenas pela forma como as diferentes civilizações foram dominando a ciências e a arte da guerra – também foi fortemente influenciada pelo modo como algumas epidemias alteraram o equilíbrio dos poderes. O exemplo clássico é a “infecção” do Novo Mundo pelos conquistadores espanhóis: sem a ajuda do vírus da varíola provavelmente não saberíamos hoje quem haviam sido Cortez e Pizarro, pois as suas pequenas forças teriam certamente desaparecido às mãos dos muito mais poderosos exércitos astecas e incas. Mas não: a varíola precedeu-os e abriu caminho ao rápido domínio espanhol da América Central e dos Andes. Para se ter uma ideia, quando a doença chegou à capital do império asteca, em 1520, estima-se que vivessem no que hoje é o México 20 milhões de pessoas. Um século depois, em 1618, não restavam senão 1,6 milhões.
 A Peste Negra chegou à Europa vinda do Oriente e marcou o fim da Idade Média
Ninguém nas naus espanholas conhecia o poder da “arma biológica” que transportava consigo, mas esta esteve longe de ser a única vez que um vírus (ou uma bactéria) mudou o curso da História. O último dos “cinco bons imperadores” romanos, Marco Aurélio, terá sido uma das vítimas da “peste antonina”, que devastou as legiões e chegou a matar duas mil pessoas por dia em Roma. Uma peste que chegou ao Império vinda do Oriente, onde já fizera também enormes estragos, pois a devastação que causou na China levaria à queda da Dinastia Han, uma das mais prestigiosas de toda a história chinesa. Os dois maiores impérios que a Humanidade tinha conhecido até então, e as regiões do mundo onde melhor se vivia, entrariam num longo período de turbulência e decadência.
Mas essa pestilência – como durante séculos tratámos tais doenças – não foi a única a viajar através da Rota da Seda, pois a Peste Negra também chegou à Europa pela mesma via – e também mudou a história de Europa. Ao causar um choque demográfico devastador, provocou também um desequilíbrio nos poderes estabelecidos que minou as bases do feudalismo.
Curiosamente a mais devastadora pandemia da história – a “gripe espanhola” de 1918 –, que terá morto entre 20 e 100 milhões de pessoas, quase não provocou sobressaltos políticos, seguramente porque outros sobressaltos estavam a ser provocados pela I Guerra Mundial. Mais: durante muitos anos esta gripe foi quase esquecida até pelos especialistas, pouco estudada e pouco referenciada.
A China de resto é uma das regiões do mundo mais frequentemente afectada por grandes epidemias. Desde a escrita de Shi Ji, literalmente “Registos do Historiador”, um documento do ano 369 antes de Cristo, até ao final da dinastia Ming, no século XVII, há registo de nada menos de 238 epidemias. 
Mas se ainda hoje se discute onde teve realmente início a pandemia, uma das hipóteses mais fortes é ela ter vindo também da China apesar de na China serem raros os relatos de época sobre a doença. Mas como se explica em Flu, The Story of the Great Ibfluenza of 1918 and the Search for the Virus, de Gina Kolaza, a obra de referência sobre esta gripe, esse menor impacto é precisamente um sinal de que a população já teria ganho anticorpos e que o vírus poderia ter chegado a onde se pensa que começou a epidemia – os aquartelamentos de soldados – trazido pelos trabalhadores chineses que tinham vindo para a Europa para cavarem trincheiras.
A China de resto é uma das regiões do mundo mais frequentemente afectada por grandes epidemias. Desde a escrita de Shi Ji, literalmente “Registos do Historiador”, porventura o equivalente chinês de As histórias de Heródoto, um documento do ano 369 antes de Cristo, até ao final da dinastia Ming, no século XVII, há registo de nada menos de 238 epidemias. Ora isto não surpreende se nos lembrarmos do que Jared Diamond explicou em Armas, Germes e Aço: Os Destinos das Sociedades Humanas, os vírus dão-se especialmente bem em sociedades sedentarizadas e urbanizadas, e em nenhum outro local do mundo encontramos uma civilização que tenha persistido de forma ininterrupta durante tantos milénios como na China – pois é bom não esquecer que a civilização chinesa é contemporânea das civilizações egípcia e mesopotâmica, sendo a única que nunca conheceu uma ruptura até aos dias de hoje.
De resto, para termos uma noção de como as doenças flagelavam os meios urbanos, basta recordarmo-nos de que até ao final do século XIX, princípios do século XX, as nossas cidades não eram auto-sustentáveis: sem um constante afluxo de imigrantes vindos dos meios rurais as metrópoles não conseguiam manter a sua população, pois as doenças levavam mais pessoas do que aquelas que nasciam. Isso era verdade tanto na Roma antiga, como em Constantinopla, como em Pequim, como até na Londres do primeiro século da revolução industrial.
A China foi sempre assim, com a sua alta densidade populacional e com a proximidade – para não falar em promiscuidade – entre homens e animais, tanto domésticos como selvagens, um dos pontos de irradiação de doenças. Por isso não surpreende que as últimas grandes pandemias de gripe, e já não falando da hipótese 1918, tivessem tido origem na China: a “gripe asiática” de 1957/58 (que matou 1 a 1,5 milhões de pessoas em todo o mundo), a “gripe de Hong Kong” de 1968/69 e o surto de SARS de 2002/03 (também provocado por um coronavírus). E entre os vírus que mais preocupam os cientistas, e que os levavam a temer uma nova pandemia global antes da Covid-19, está um outro identificado na China, o já referido H7N9.
 A gripe de 1918 foi a pandemia mais mortífera da história da humanidade
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Aliás o povo chinês terá incorporado de certa forma na sua cultura esta convivência com doenças muito perigosas, sendo curioso o testemunho do editor Guilherme Valente, um conhecido hipocondríaco, casado com uma cidadã de origem chinesa, que conta que quando foi conhecer os sogros a primeira coisa para onde eles olharam foi para os seus sapatos, porque na China nunca se entra com o calçado da rua para dentro de casa. Também não se vê uma mãe dar de beber do seu copo a uma criança. Mesmo um abraço é um cumprimento desconsiderado – prefere-se um acenar com a cabeça.

O regresso do Império do Meio

Com as ruas das cidades de todo o Ocidente vazias, ou regressando muito lentamente à vida, e com a China já a reabrir até a confinada província de Hubei, num mundo em que a competição é mais económica do que bélica, irão os germes desempenhar o papel desequilibrador que desempenharam quando o Velho e o Novo Mundo se encontraram no século XVI, só que agora a favor de um Oriente que parece ter mais anticorpos, até culturais, para lidar com a pandemia?
O sonho de Xi Jiping era conseguir que o produto da China em 2020 duplicasse o produto de 2010. Depois do choque da Covid-19 é improvável, para não dizer impossível, que isso aconteça.
O sonho de Xi Jiping era conseguir que o produto da China em 2020 duplicasse o produto de 2010. Depois do choque da Covid-19 é improvável, para não dizer impossível, que isso aconteça. Pior: a China habituou-se crescer, crescer sempre e crescer depressa, sendo que aquando da crise financeira de 2008 a estimativa do regime era que fosse necessário manter um ritmo de crescimento de 8% ao ano para evitar tensões sociais. Em 2020 algo de parecido será sempre uma miragem, pois no primeiro trimestre a economia encolheu uns inéditos 6,8%. Nenhum milagre deverá conseguir inverter radicalmente esta dinâmica, sobretudo com um mundo todo ele em recessão e, ao mesmo tempo, desconfiado de uma China que nesta crise até sinais de aberta xenofobia deu (no sul da China, em particular na província de Guangzhou, multiplicaram-se as manifestações de discriminação contra africanos).
 Em 2017 o Presidente Xi Jiping afirmou que o seu país se tornaria um líder mundial em meados deste século, em termos de “influência internacional”
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Para além disso a China, ao contrário dos Estados Unidos, não faz parte de um sistema de alianças e não tem verdadeiros amigos. A China não deu ainda sinais de ter deixado de ser, e de se ver, como “o Império do Meio” – é esse o significado dos caracteres com que se escreve China – e isso significa que a sua preocupação central é a de sempre: a unidade do seu imenso país e evitar ser cercada.
A China desenvolveu-se numa geografia que aproximava quem nela vivia – os vastíssimos territórios centrais abarcados pelas bacias do Yangtsé e do Rio Amarelo, regiões de terras férteis capazes de alimentar uma enorme população – e que facilitava a criação de um único poder centralizado. O império chinês é a própria China, e por isso, os chineses, fiéis ao confucionismo, pacientes, nunca procuraram construir um império no sentido ocidental e expansionista do termo, antes garantir a sua segurança face a vizinhos mais pobres, menos cultos, mas mais aguerridos, como as tribos nómadas do Norte.
É muito significativo que a principal obra do pensamento estratégico chinês – A Arte da Guerra de Sun Tzu, um autor que viveu há 2500 anos – tenha como preocupação ensinar a estabelecer o cerco estratégico, bem diferente do conceito ocidental e clausewitziano.
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O nome que dá a si mesma, Império do Meio, reflecte essa relação com um mundo exterior habitado por “bárbaros” que lhe deviam tributo mas com os quais nada pensava ter a aprender. Tal como indicia o complexo de cerco, sempre visto como a maior ameaça.
Aliás é muito curioso, e significativo, que a principal obra do pensamento estratégico chinês – A Arte da Guerra de Sun Tzu, um autor que viveu há 2500 anos – tenha como preocupação ensinar a estabelecer o cerco estratégico. Henry Kissinger fez de resto, no seu livro Da China, uma interessante comparação entre esta obra e o seu equivalente ocidental, o Da Guerra, de Carl von Clausewitz. Para o antigo Secretário de Estado do Estados Unidos estas duas obras estão uma para a outra como o xadrez está para o wei qi (ou go, como é mais conhecido). No primeiro, o objectivo é conseguir a vitória total matando o rei do adversário; no wei qi pretende-se antes obter uma vantagem relativa através do cerco às peças do adversário. “Se o xadrez tem a ver com a batalha decisiva, o wei qi tem a ver com a campanha prolongada”, escreve Kissinger. “O xadrez ensina os conceitos clausewitzianos de ‘centro de gravidade’ e de ‘ponto decisivo’ (…). O wei qi ensina a arte do cerco estratégico”.

A História acelerou ou mudou de direção?

Mas o que é que isto tem a ver com o jogo destes dias? Conhecemos os objectivos da China. No último congresso do Partido Comunista Chinês, em 2017 (os congressos realizam-se de cinco em cinco anos), o Presidente Xi Jiping afirmou que o seu país se tornaria um líder mundial em meados deste século, em termos de “influência internacional”. O que isso possa significar exactamente nunca será o mesmo que significava o Império Britânico – que era acompanhado pela ocupação dos territórios, incorporados nos domínios da Coroa – ou mesmo o “Império” americano, alicerçado numa rede de alianças, na capacidade de projecção de forças e na exportação do “american way of life”.
A China quer manter e expandir a sua influência – e já está a fazê-lo agressivamente nos vários organismos internacionais, de que a OMS é apenas o mais discutido exemplo –, mas não exportar o seu modelo. O comunismo chinês não é internacionalista como foi nas suas origens o movimento comunista, e não há nenhum proselitismo mesmo nos esforços de propaganda do regime. Parece antes haver a preocupação de defender o que se tinha alcançado nos mercados mundiais.
Um bom exemplo disso é a operação de propaganda montada a 21 de Março passado, quando a imprensa chinesa deu enorme cobertura à partida para Madrid de um comboio com 110 mil máscaras e 800 fatos protectores doados por uma empresa estatal. A doação não valeria mais de 50 mil euros e só chegaria ao destino duas semanas mais tarde, bem depois de os aviões que já estavam a levar o material comprado pelo Estado espanhol, muito dele imprestável e pelo qual fora paga uma fatura de muitos milhões. Mesmo assim a operação foi apresentada como sendo “um ponto de viragem” e correspondendo a uma espécie de abertura de uma “rota de seda da saúde”, quando não visava mais do que proteger a imagem e os interesses comerciais das empresas chinesas em Espanha. Para isso valeu tudo, até afixar no comboio cartazes onde se lia “Vamos a isto, matadores!”
 Bandeiras desfraldadas durante uma visita a Pequim do presidente do Uzbequistão: a iniciativa "Belt and Road" tem sido uma forma de a China estender a sua influência
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A economia será mesmo assim o ponto mais forte de uma China que, apesar do abalo, está a tentar recuperar mais depressa. O balanço vem detrás. Em 1990, quando o mundo vivia a ilusão da “nova ordem internacional” que se seguiu à queda do Muro de Berlim, a economia chinesa valia 16 vezes menos do que a dos Estados Unidos, em 2019 já valia quase dois terços da economia americana. Como é que estaremos no final de 2020 e do choque económico a que estamos a assistir?
Ninguém sabe responder, mas uma das hipóteses é que este ano, mais do que um ano de viragem, seja um ano de aceleração de história. Num artigo na Spectator, o historiador Niall Ferguson escrevia recentemente que as suas previsões sobre o declínio do império americano, na triologia Colossus (2004), Civilization (2011) e The Great Degeneration (2012), pareciam estar a concretizar-se mas em “fast forward”. Na sua perspectiva “os pontos fortes que no passado tornaram as sociedades ocidentais tão dominantes desapareceram”. Pior: “As nossas instituições públicas decaíram tanto que agora nem estão a ser capazes de lidar com este coronavírus que é mais contagioso e mais mortífero que a gripe normal”.
“Os pontos fortes que no passado tornaram as sociedades ocidentais tão dominantes desapareceram”. Pior: “As nossas instituições públicas decaíram tanto que agora nem estão a ser capazes de lidar com este coronavírus que é mais contagioso e mais mortífero que a gripe normal”.
Niall Ferguson
Mesmo que este diagnóstico possa parecer exagerado, e ainda estejamos muito longe de poder fazer um balanço, esta ideia de que esta crise vai sobretudo acelerar a velocidade com que o mundo já vinha a mudar é também corroborada por Richard Hass, presidente do Council on Foreign Relations dos Estados Unidos, num artigo na Foreign Affairs. Entre essas tendências ele identifica três. A primeira é a de ainda maior fechamento dos Estados Unidos, pois muitos americanos verão na pandemia mais um sinal de como o seu bem estar pode ser afectado pelo que se passa no resto do mundo. A segundo é um reforço daquilo a que chama “recessão democrática” e que se traduz no avanço de regimes iliberais e de líderes autoritários, que terão nestas circunstâncias novos argumentos para, em nome da segurança, ainda restringirem mais as liberdades. E o terceiro é que o período para o qual devemos olhar para encontrarmos precedentes históricos não é para aquele que se seguiu à II Guerra, mas antes para o que veio depois da I Guerra, nomeadamente se pensarmos que é provável que o envolvimento dos Estados Unidos nos assuntos mundiais continue a cair e nesse vazio surjam mais situações de conflito e perturbações internacionais.

O progresso não é inevitável

Perto do local onde vivo, não longe do Cabo da Roca, existem umas escavações que se prolongam há muitos anos daquilo que terá sido villa mais ocidental do Império romano. Nela foram encontrados restos de cerâmicas finas vindas de vários pontos do Mediterrâneo, sinal de que nesse tempo – os primeiros dois séculos da era cristã – o comércio ainda florescia nesta região. Pouco depois, o fim do Império e o desaparecimento dessas linhas comerciais levou a uma rápida degradação do nível de vida nesta região e, provavelmente, ao abandono da villa e do estilo de vida senhorial que ela marcava.
“O vírus ensina-nos que o progresso não só é reversível – um facto que até os progressistas reconhecem –, como é possível destruir as suas bases”.
John Gray
Toda essa degradação está bem documentada por quase toda a metade ocidental da bacia do Mediterrâneo, assinalando o fim de um dos raros períodos em que, neste lado do mundo, a civilização tinha conseguido propiciar às populações o mesmo tipo de bens que, a Oriente, o império chinês sempre foi mais ou menos garantindo. Todo esse processo foi muito bem descrito por Ian Morris em Why the West Rules – For Now e quem quer que o tenha lido não fica entusiasmado com a ideia de que uma das consequências desta pandemia (nesse livro as pandemias são apesentadas com um dos cavaleiros dos Apocalipse que ciclicamente fizeram recuar ou mesmo colapsar as civilizações) será um recuo da globalização.
Esse é contudo o vaticínio do filósofo britânico John Gray, num texto onde defende que a história não vai acelerar, vai antes mudar de direcção. “O vírus ensina-nos que o progresso não só é reversível – um facto que até os progressistas reconhecem –, como é possível destruir as suas bases”. O exemplo que dá é precisamente o da globalização, que tirou milhares de milhões de pessoas da pobreza, mas que agora está em perigo: “A desglobalização em marcha é filha da globalização”, escreve.
A China, um dos países que mais beneficiou com este processo, pode ser agora um dos que mais venha a sofrer, mas não deve haver grandes dúvidas: bens que hoje são acessíveis devido à “divisão mundial do trabalho” tornar-se-ão mais escassos e mais caros e produtos que se democratizaram imensamente, como as viagens de avião, podem também deixar de ser tão “low cost”.
Por outro lado, como mostrou a reacção à doença, os Estados nacionais ainda são o porto de abrigo a que todos se referenciam e acolhem, e isso terá provavelmente consequências políticas. Mais: a doença recordou-nos, como também sublinhava John Gray nesse artigo, que a autonomia pessoal não é um valor absoluto e que nestas alturas a necessidade de segurança e o sentimento de pertença surgem como igualmente importantes. “Às vezes mais importantes”, acrescenta mesmo, o que levanta novas questões.

O pesadelo de Harari

A aplicação mais popular na China reproduz os 14 princípios da filosofia Xi Jiping. Para a instalar é necessário dar o número do telemóvel e o nome verdadeiro, duas condições que instintivamente repeliriam os ocidentais. Mas os chineses sabem que têm de ter aquela aplicação, consultá-la, ler os artigos que nela são partilhados e responder a inquéritos para ganharem os pontos que lhes permitem depois ter direito a viajar, a pedir empréstimos para comprar casa e, claro, a conseguir um emprego no Estado.
 “Se não tivermos cuidado, a epidemia representará um marco importante na história da vigilância", alertou Yuval Noah Harari
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Este é apenas um dos muitos instrumentos que esse mesmo Estado usa para controlar os seus cidadãos, instrumentos de que usou e abusou para controlar, “à chinesa”, o surto da doença em Wuhan. Por isso desde a primeira hora que se tornou claro que, como escreveu Yuval Noah Harari no Financial Times – naquele que terá sido um dos artigos mais lidos e partilhados das últimas semanas (versão portuguesa no Expresso) –, “se não tivermos cuidado, a epidemia representará um marco importante na história da vigilância. Não só porque poderá normalizar o uso de ferramentas de vigilância de massas em países que até agora as rejeitaram, mas ainda mais porque significa uma transição dramática da vigilância ‘sobre a pele’ para a vigilância ‘debaixo da pele’”.
As referências à concretização do pesadelo orwelliano imaginado em 1984 tornaram-se ubíquas, até porque nem no tempo da Stasi na Alemanha de Leste ou do KGB na URSS se tinha chegado a este ponto na capacidade de vigiar os cidadãos – e, neste caso, logo 1,4 mil milhões de cidadãos.
Contudo, apesar dos receios de Harari e do alerta de John Gray, não será por esta fenda que a influência chinesa crescerá. Esta obsessão com a solidez do poder central tem razões históricas – desde o final da dinastia Han, no ano 220, o conjunto das províncias chinesas só foram governadas metade do tempo por um poder central forte e unificado –, mas não é exportável sobretudo depois do que sabe sobre a forma como a censura oficial atrasou o conhecimento da verdadeira dimensão da doença.
Mas o mesmo não se passa com o dinheiro chinês, que tem sido usado para reconstituir o velho sistema de centralidade do Império do Meio. No passado essa centralidade afirmava-se através de uma constelação de estados vassalos, hoje a vassalagem tem um novo nome: chama-se dependência, sobretudo dependência financeira.
A obsessão chinesa com a solidez do poder central tem razões históricas: desde o final da dinastia Han, no ano 220, o conjunto das províncias chinesas só foram governadas metade do tempo por um poder central forte e unificado.
Ora tem sido precisamente uma teia de dependências que a China tem vindo a construir nos últimos anos, uma teia sempre assente no poder do dinheiro. Portugal viu, durante a crise, como isso pode ser feito, muitos países que ficam ao longo da “Belt and Road Iniciative” estão agora a descobri-lo. O dinheiro chinês que serviu para erguer as infraestruturas é dívida que Pequim depois usa para trazer esses Estados para o seu lado sempre que precisa em todos os jogos de influência internacionais.
E não esqueçamos que Pequim não olha a meios para prosseguir os seus objectivos. Basta recordar que em Outubro do ano passado, quando Daryl Morey, o director-geral dos Houston Rockets, uma equipa da NBA, tweetou o seu apoio aos manifestantes de Hong Kong, a televisão estatal chinesa cancelou logo a retransmissão dos jogos da equipa, obrigando-o a pedir desculpa.
Vivendo nós numa altura em que se prevê que as necessidades de capital sejam imensas, e que as dívidas públicas venham a aumentar exponencialmente em todo o mundo, a oportunidade parece criada para a criação de novas dependências. A vontade pode ser a de resistir ao dinheiro de Pequim, mas sabemos como na anterior crise essa resistência só durou até se ver o número de zeros que vinha nos cheques.