sexta-feira, 16 de outubro de 2020

RR_Opinião de Graça Franco

 

Calamidade é a ditadura sanitária que aí vem

15 out, 2020• Opinião de Graça Franco


Não quero. Não tenho dinheiro para pagar 500 euros de multa diária, mas disso já não tenho medo. Venham as multas. As leis que nos envergonham não são para cumprir. Venderam-nos a ideia de que a aplicação Stayaway Covid era de instalação meramente voluntária. Tudo bem. Obrigatória não aceito.

Garanto que não tenho segredos a esconder. Os meus passos podem ser escrutinados. Só tenho medo do medo. Do medo, acreditem que eu tenho mesmo muito medo. Não quero ter um número escrito no braço. Não quero ter um chip na pele. Não temo ter um polícia, sem mandato, a entrar-me, pela casa dentro, para contar quantos comensais tenho à mesa (normalmente são sete, mas muitas vezes são onze entre pais, filhos e netos).

Jantar é um direito. Não vou abdicar dele, mas reconheço que já percebi, a minha sala não o permite. Não voltaremos a jantar ao mesmo tempo. Vamos jantar por turnos: cinco primeiro e cinco na ronda seguinte. Rotativamente, um vai comer na cozinha. Os senhores agentes estejam tranquilos, não precisam de nos visitar. Mesmo se derem por sinais de festa. Mas instalar aplicações não instalo.

Por outro lado, não me indignarei se ignorando a sabedoria popular (“a boda e a batizado não vás sem ser convidado!”) se aplicar uma exceção para os guardas. Não me custa que fiscalizem se, em vez do máximo de 50 convidados estão lá 100, o que, além de ilegal, constitui ameaça grave à saúde e felicidade dos noivos. Ninguém quer ver a família e amigos hospitalizados no regresso da lua de mel. Se o bom senso prevalecer nada a opor à visita das autoridades. Mas obrigar os convivas a instalar a aplicação é que já me parece “abuso de autoridade”.

Um Governo que gasta milhares de milhares de milhões na TAP e Novo Banco, e continua a não ter uma estratégia para evitar notícias como a desta quinta-feira (em Évora lar de idosos com 97 infetados!) É um Governo sem moralidade para ir gastar dinheiro a oferecer telemóveis aos portugueses desses que possam trazer a aplicação (mantenha a Covid longe…) já instalada. Mas, mesmo que tivessem essa ideia peregrina, eu não queria. E senão que igualdade é essa que impõe aos portugueses, com dinheiro e bons telemóveis, uma aplicação, e deixa os pobres sem essa “importantíssima” arma de defesa?

Não quero. Não tenho dinheiro para pagar 500 euros de multa diária, mas disso já não tenho medo. Venham as multas. As leis que nos envergonham não são para cumprir. Venderam-nos a ideia de que a dita aplicação era de instalação meramente voluntária. Tudo bem. Obrigatória não aceito. Além disso, não gosto que me mintam. Deixem-na como está. Quem quer descarrega-a. Quem não quer, não descarrega. Eu não quero. Falo por mim. Se outros acharem bem, usem-na. Não quero ficar com o ónus de contribuir para que não se salve a vida de alguém.

Não gosto de ter um detetor de “localização de contactos” em permanência comigo. Nem em contexto laboral, nem entre funcionários públicos, nem nas escolas e universidades, nem em contexto nenhum. Acho coisa de má memória. Tipo caderno dos agentes da PIDE. Polícia que também achava o comunismo (e outras ideias subversivas, como as da doutrina social da Igreja) perigosas “doenças contagiosas”, que urgia erradicar da sociedade. Aliás recorria ao internamento compulsivo e ao isolamento obrigatório dos “doentes” detetados ou dos seus contactos “suspeitos” não fossem também contraírem esses vírus. No mínimo, colocava-os em quarentena.

Se querem passar do estado de calamidade para o estado de emergência, passem. Se querem limitar direitos liberdades e garantias em nome da saúde pública. façam-no. Há coisas que é preciso assumir antes, para agir depois. A Democracia tem regras e não as podemos “suspender”. Acredito que até um presidente hipocondríaco não deixará de nos proteger desse passo em falso. É preciso ter vergonha. Eu sinto vergonha alheia. Por ações e omissões como esta.


Agradeço o cuidado, mas não quero. Nem que me ofereçam. Mesmo uma aplicação embrulhada num telemóvel de última geração. Não quero que o ofereçam aos meus filhos e netos. Será a ideia mesmo essa? Alguém teve a ideia de em vez de comprar Magalhães comprar telemóveis para distribuir, nas escolas, com a falsa desculpa de que está a proceder à “digitalização” do projeto “escola segura”? Quem sabe a União Europeia ainda vai pagar às grandes operadoras, parceiras em novo negócio. Brinco? Não sei. Já nada nos espanta. Em matéria de negociatas já vimos de tudo.

Perdoem se exorbito. Desculpem lançar a suspeição. Mas se há alunos pobres, sem telemóvel, ou com aqueles básicos onde não cabe a aplicação e ricos que tem aparelhos de última geração como os obrigar a todos a usar um equipamento idêntico? Ou será apenas mais uma forma de garantir que num país tão “webizado” uma app tão cara não passou de um “flop”?

Para mim é uma questão de coerência. Defendo que como já existe em muitos países as novas tecnologias fiquem à porta da sala de aula exceto quando servem para aprender e ensinar. O espaço de ensino é sagrado. Exige concentração. Os alunos não precisam de controle a tempo inteiro. Devem ser autónomos e responsáveis. Devem ter o telemóvel “q.b” segundo a respetiva idade e necessidade. O tempo de estudar não deve conflituar com o tempo para “jogar” e menos ainda aceito que devam passar a usar pulseira sanitária eletrónica.

Os jovens, em vez de andar de cabeça baixa, precisam de aprender a usar a cabeça para a manter erguida e os olhos para contemplar o mundo e não para os fixar no ecrã, sobretudo nas escolas.

Tente António Costa impor a obrigatoriedade de uso de uma aplicação, como esta, e eu retirarei as devidas consequências: já estaremos em Estado de Emergência porque caiu subitamente sobre nós a pior das calamidades: a perda da liberdade e o início da uma ditadura sanitária.

A história ensina-nos que todas começaram assim: com o embalo e a aprovação de um povo temente, reverente e sobretudo ignorante e obrigado pouco consciente dos seus direitos. Cheio de medo. É este o nome do vírus? Ou ainda estamos a falar do Covid?

Não podemos contemporizar com uma sociedade assim que coloca os seus velhos em “solitária” encerrados em celas de isolamento profilático, mesmo que a prisão seja domiciliária, sem contar com os que de entre eles se encontram já condenados a prisão perpétua , num corredor de morte em solidão, vendo o fim minado por extremo e inexplicável sofrimento, numa tortura que a sociedade tolera e contra a qual ninguém se indigna.

Para cúmulo uma sociedade com um Parlamento que tem a lata de ir debater a eutanásia na próxima semana, sem rebuço e sem vergonha de antes não debater as verbas orçamentais exigíveis para resolver um problema urgente que lhes devolveria a dignidade e a vida envolvendo muito menos dinheiro do que o Orçamento tem destinado ao Novo Banco e à TAP?

Vale a pena ler a última nota da Comissão Nacional Justiça e Paz sobre o que se espera dos políticos em relação aos lares de idoso (o texto divulgado esta quarta-feira) e já agora ler também a par da carta aberta dos ex-bastonários enviada à ministra da saúde. Boas leituras de fim-de-semana.

Só vão pelo caminho certo os que o escolhem e sabem para onde vão e também os que não sabem nem o caminho nem para onde querem ir. O Governo não tem dúvidas de que vai pelo caminho certo. A certeza vem-lhe de qual dos dois motivos?

COMENTÁRIOS
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  • OBSERVADOR
    16 OUT, 2020 PORTUGAL 07:28
    A aplicação em si, é praticamente inútil: mesmo que todos a tenham e tenham colocado os códigos - coisa que muitos não fazem com receio de serem marginalizados e não só - a app demora no minimo 15 minutos a assinalar a presença próxima de infetado. Se o tempo de proximidade for inferior, então nem assinala nada. Acrescente-se que partes do código nunca foram publicadas - o que querem esconder? - e há sempre atualizações que acrescentam "coisas"- isso de a privacidade estar assegurada tem muito que se lhe diga. Porquê então este frenesim de A.Costa? Fácil: o governo falhou no controle da pandemia, mas como isso não pode ser assumido, Então anda à procura de desculpas: os "culpados" serão os partidos que votarem contra, o presidente que vetou uma "sábia" medida do governo, o Tribunal Constitucional que afinal é uma "força de bloqueio", ou por fim a população que é anti-patriota e irresponsável. Assim o governo-PS sacode a água do capote e pelo meio arrecada algum em multas. O PSD do parolo do norte como parceirinho manso do bloco Central, já admite viabilizar esta intrusão, felizmente BE e PCP têm votos suficientes para pedir a fiscalização pelo Tribunal Constitucional.
  • JOSÉ J C CRUZ PINTO
    15 OUT, 2020 ILHAVO 17:26
    Que relação há entre a "má disposição" e o "partir de loiça" no artigo desta habitualmente serena senhora e a notícia: "O Governo quer tornar obrigatório o uso da aplicação stayaway covid em contexto laboral, escolar e académico para quem tem um telemóvel que permita aquela aplicação que permite rastrear casos de covid-19. De acordo com a proposta de lei enviada para o Parlamento e a que a Renascença teve acesso essa obrigatoriedade abrange em especial os funcionários públicos, os agentes de segurança e as forças armadas."? Muito pouca, ou mesmo nenhuma. Nunca lhe li tanto fel a barrar um artigo, ainda para mais extremamente mal escrito (tanta a desvairada fúria), e sem outro nexo que não seja a de deixar explodir desmedida contrariedade e irritação, tudo nele misturando, arremessando cacos em todas as direcções - até a eutanásia (apesar de - diga -se - poder ser este o único tema em que, isoladamente e sem as fúrias, alguma ou mesmo muita razão lhe consigo reconhecer. Pronto - desisto. Nunca mais lerei nem ouvirei esta senhora! É uma total perda de tempo e fonte de forte indisposição.
  • IVO PESTANA
    15 OUT, 2020 FUNCHAL 16:23
    Eu também não quero aplicações tontas, que nada resolvem. Infetados vai haver sempre. Venham mas , as vacinas.
  • PEDRO FONSECA
    15 OUT, 2020 BRAGA 14:39
    Por favor leia o FAQ da aplicação Stayaway antes de escrever tanta parvoíce. Obrigado.
 
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sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Dulce Pontes "Meu Amor sem Aranjuez"


 


Letra: Dulce Pontes
Composição: Joaquín Rodrigo
Álbum: Peregrinação _2017  

Meu amor, ao passar das horas
Meu amor, o tempo leva o sonho dum amor maior
Fica pequeno sem sabor
Meu amor sem Aranjuez
O que fez a saudade ser outra vez
Uma gaivota em pleno céu a libertar o coração sem voar
Meu amor que amor não se fez
Só eu sei dos caminhos que não encontrei
Das duras pedras a cobrir tão fatigado coração
Sem pão de sustentar, sem dar a mão o céu se desfez
Sem sabor nossas vidas sempre por um fio
Um fio de fogo, um fio de prumo no vazio
Abismo antigo onde voar é abrir as asas e sangrar
Só eu sei dos caminhos onde me encontrei
Das rubras penas sem quebrar meu fatigado coração
Sem pão de sustentar das mãos de Deus me fiz renascer
Ó meu amor, que amor não se fez
Meu amor, nossas vidas sempre por um fio
Um fio de fogo, um fio de prumo no vazio
Abismo antigo onde voar é abrir as asas e sangrar

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Futuro aeroporto do Montijo: Um desastre anunciado

 "Investigadores escrevem artigo na Science a pressionar contra aeroporto no Montijo



Investigadores portugueses acusam o governo português de ir contra os objetivos do Pacto Ecológico Europeu ao persistir na construção do aeroporto no Montijo, apontando sobretudo o efeito destrutivo em centenas de milhares de aves no estuário do Tejo.



© ANA - Aeroportos de Portugal

DN/Lusa17 Setembro 2020 — 20:33

Num artigo em formato de carta, que sai esta quinta-feira na edição da revista científica Science, argumenta-se que prosseguir com o aeroporto é o contrário de "combater a mudança climática global e reverter a crise da biodiversidade", com um impacto que se verifica, sobretudo, nas aves que procuram o estuário do Tejo.

Em declarações à Lusa, o biólogo José Alves, da Universidade de Aveiro, coautor com Maria Dias, da organização Birdlife, afirmou esperar que "a mensagem chegue lá fora" e que isso ajude a pôr pressão sobre o Governo português, para que "o bom senso" impere e não se avance com a construção.

O que está em causa não diz respeito apenas a Portugal e a questão das aves migratórias, "não é uma discussão para fazer apenas a nível nacional", porque "há outros países que partilham estas aves e que investem na sua proteção, porque já estão numa trajetória de declínio".


Holanda, Dinamarca, Alemanha e Reino Unido são alguns dos países que partilham pontos nas rotas destas aves, que ocupam às centenas de milhares o espaço do estuário do rio Tejo.

"Estamos a falar de 200 mil aves no Inverno e 300 mil nos períodos migratórios", indicou.

Movimentos e investigadores na Holanda e na Alemanha, por exemplo, "estão atentos, a questionar o que se passa e o que está em cima da mesa", referiu.

O maçarico-de-bico-direito, de que há "80 mil exemplares no estuário do Tejo", tal como o pilrito-comum ou a seixoeira estão entre as espécies de aves sobre as quais o voo de aviões a baixa altitude terá "impactos muito assinaláveis".

"A ideia de que as aves, porque voam, se podem deslocar para outros lugares, não corresponde à realidade. Estas aves, apesar de voarem milhares de quilómetros, são fiéis aos locais para onde migram, por vezes ao quilómetro quadrado", referiu.

Haverá mesmo aviões a sobrevoar parte da Reserva Natural do Estuário do Tejo e, em última análise, as aves acabarão por morrer, salienta o biológo.

"Com os voos, com os altos níveis de ruído, o que acontece é uma perda de 'habitat', mesmo sem construção efetiva. Perdem o seu alimento e as populações diminuem. Perdemos aves", declarou.

Os autores salientam na carta que "praticamente metade do estuário do Tejo será impactado e não pode ser substituído", notando que a declaração de impacto ambiental da Agência Portuguesa do Ambiente tem por base um parecer favorável do Instituto de Conservação da Natureza e Florestas que contraria o "o parecer interno desfavorável dos seus técnicos".

Há "falta de informação, erros técnicos e adoção de critérios subjetivos", criticam, considerando ainda que "as medidas de compensação propostas para as aves não são eficazes" porque não terão para onde ir.

José Alves e Maria Silva assinalam a ironia de Portugal ter conseguido o título de Capital Verde Europeia alegando a proximidade do estuário do Tejo e de estar na calha um projeto como o do Montijo, que além do impacto nas aves irá gerar "um aumento substancial nas emissões de carbono" em torno da capital.

"Este é um exemplo evidente de uma tentativa de um estado-membro em desconsiderar diretrizes de conservação, acordos internacionais de proteção de espécies e habitats e os anúncios que o próprio Governo faz na promoção de um futuro mais sustentável e sem emissões de carbono", acusam os investigadores."

in: jornal "Diario de Noticias"

sábado, 22 de agosto de 2020

Ernest Dowson

"Não duram muito
O choro e o riso
O amor, o desejo e o ódio
Creio que não fazem parte de nós
Depois de passarmos o portal


Não duram muito
Os dias de vinho e de rosas
De um sonho brumoso
O nosso caminho emerge por um bocado
E depois fecha-se
Dentro de um sonho"


Ernest Dowson

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Iris Feijen & Tiago Lageira


Cantora holandesa vence concurso 
“We Want More”, no seu país, a cantar Carminho, Mariza e Camané

terça-feira, 11 de agosto de 2020

Waldemar Bastos_último canto

Um dia, meu irmão, hei-de
Homenagear-te
Hoje não
Hoje fica o silêncio da tua voz
A fazer-me companhia 
Hoje ainda não tenho palavras
Para  descrever tão triste emoção.
Recordo-te na primeira fila
Meu arrepio de pele
A cantares na "Expo 98"
Tanto tempo…
Quando o teu tempo
Era outro
Que hoje termina.
Só isso me vem 'a recordação.
LMC

Waldemar dos Santos Alonso de Almeida Bastos, conhecido como Waldemar Bastos,
nasceu em 4 de Janeiro de 1954 e faleceu ontem, 9 de Agosto de 2020

A  19 de Junho de 2020  (data de emissão), Waldemar Bastos canta provavelmente pela última vez. 
AQUI: o episódio completo.



"O músico angolano Waldemar Bastos, um dos mais respeitados artistas lusófonos da world music e dos primeiros artistas de Angola a alcançar a internacionalização, morreu esta segunda-feira de madrugada em Lisboa, aos 66 anos, disse à agência Lusa o Ministério da Cultura de Angola. Radicado em Portugal, estava em tratamentos oncológicos desde há um ano, referiu a mesma fonte.

Com um percurso profissional de mais de quatro décadas, Waldemar Bastos apresentava uma sonoridade que o próprio definia como afro-luso-atlântica, marcada por composições de cariz autobiográfico e influências da cultura africana e portuguesa. Rainha Ginga, Velha Chica e Muxima são alguns dos temas que o tornaram conhecido." - in: "Observador" AQUI:

sexta-feira, 24 de julho de 2020

Eu, Amália


AQUI:

"Um retrato de Amália por si mesma. A sua personalidade, as vivências, as ousadias, as canções, as alegrias e tristezas e um percurso que a levou a todo o mundo, são aqui contadas através de momentos em que Amália se cruzou com a história da rádio e da televisão e pública. Das memórias fixadas nos arquivos RDP e da RTP chega-nos a sua voz. Ora a falar, ora a cantar, diz-nos quem foi, o que procurou, o que viveu."



DAQUI: Entrevista

"Nunca fui nem nunca serei uma revolucionária. Canto o fado que sinto"


Assinala-se hoje o centenário do nascimento de Amália Rodrigues e o DN republica uma entrevista feita pela jornalista Maria Augusta Silva por ocasião dos 65 anos da fadista.



© ARQUIVO DN

Maria Augusta Silva23 Julho 2020 — 12:47


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Amália: um nome, um fado em muitos fados, uma voz. A voz sem igual com que canta desde os 20 anos. Tem, hoje 65, e diz ser uma pessoa desencantado, não com o público, porque esse, em todos os cantos do mundo, ao longo de mais de quatro décadas, deu-lhe sempre o testemunho da sua estima e da sua admiração por ela. Por essa Amália que nasceu em tempo de cerejas no Pátio dos Quintalinhos, ali para os lados da Rua da Palma; por essa mulher que foi criança pobre, de pés sem sapatos, e calcorreou as ruas da cidade apregoando limões.

Amália sonhava os sonhos dos simples. E assim sonhando, um dia cantou... E cantou de tal jeito que deixou a venda dos limões maduros para tomar a grande senhora de um fado com marca. De um fado sofrido. De um fado que tem amor e ciúme, lágrimas e esperança, carências e súplicas. De um fado que é nossa na expressão mais singela das palavras comuns a todos os mortais. Na voz de Amália esmoreceu aos poucos a gargalhada inocente e o pregão cristalino, a fugir da polícia... Mas trouxe para o fado a força da alma.

E Amália continuou amarrada ao sonho, com tais amarras e tão cegamente, que se foi esquecendo de criar defesas contra todos os riscos para acautelar a sua humildade e a sua grandeza...


Magoaram depois os seus sentimentos quando ela, fadista de encontros e desencontros, quis manter o seu fado sem desvios. Amália chorou então mais amargamente do que nunca e ficou-lhe uma ferida que sangra por dentro ao mais leve toque. Encontrou refúgio na seu temperamento dramático e tímido, pedindo ao fado perdão por o haver cantado e sentido como destino único. E continuou o correr para os campos de ar solto, num apelo à vida, colhendo flores à beira da estrada, carregando braçadas de folhas e giestas e alecrim aos molhos. E continuou à procura de um mar imenso e forte para sobre ele estender o utopia dos sonhos à margem da teia material da vida.

Amália Rodrigues volta agora a ser recordada (justiçada) na gravação dos seus maiores êxitos e revela-nos, a propósito, a sua sensibilidade de corpo inteiro, prometendo para breve a sua voz em poemas de Cecília Meireles. E prometendo, também e apesar de tudo, amar o fado até ao fim. O fado que, ontem como hoje, deseja cantar para toda a gente...


O melhor de Amália Rodrigues volta a ser apregoado em reedição discográfica. O que é para si o melhor de Amália?
Creio que a intenção é lembrar os meus primeiros sucessos e os fados que as pessoas mais têm gostado de me ouvir cantar. No início da minha carreira, eu tinha uma voz cristalina, cheia de frescura e plena de inocência. Tinha, afinal, a inocência de uma pessoa que não sabe o que é cantar nem coisa nenhuma...

Como diz que não sabia cantar se a descobriram precisamente por ter uma voz excecional para o fado?
Tinha voz, naturalmente, mas faltava-me um certo "calo", uma habituação às músicas e até a forma de dar a volta às interpretações, que já requer uma educação da voz, embora nenhuma técnica nos valha se não houver a tal intuição.

Quer dizer que a voz dos seus 20 anos não tem nada que ver com a voz dos seus 40 ou com a voz, hoje, dos seus 65 anos que a leva ainda a novas gravações?
Aos 20 anos, a minha voz era fresca e tinha, porventura, a beleza dessa juventude. Mas acho que aos 40 anos foi quando atingi uma capacidade de interpretar o fado com maior profundidade ou, se preferir, com maior maturidade. Não é porque soubesse cantar melhor. É outra coisa, até porque eu nunca saberei cantar na minha vida!

O quê, Amália?... Espanta-me que faça uma afirmação dessas. Tem andado nestes 45 anos a cantar sem ter consciência de cantar bem?
Não é isso. Sinto é que nunca canto hoje igual a ontem. Quem me ouve cantar duas ou três vezes sabe que isto é verdade. Tenho a intuição do fado. Foi qualquer coisa que Deus me deu, mas depois o meu estado de alma, os meus nervos, as minhas emoções. Tudo se prende com a nossa interioridade. O fado ou é isso ou não é nada.

Recusa-se a aceitar outros valores no fado?
De maneira nenhuma. Eu reconheço e aceito outros valores desde que sejam valores. Há alguns, mas também há por aí quem de fado não entenda nada e pretenda misturar o trigo com o joio... Isso dói-me!


Faz sempre questão em afirmar que a sua voz é um dom divino. Tem assim tanta convicção em Deus?
Tenho. Eu não fiz nada para ter esta voz... Então, porque é que a tenho? Alguém ma deu...

Nessa sua convicção, como define Deus?
Não tem definição. Deus, para mim, é Deus. Sinto essa força dentro de mim. Acredito em Deus mesmo que não exista o céu. Não vale a pena tentar explicar. Não encontro explicação em palavras ou em teorias, tal como, por mais explicar o que é uma árvore, também não encontro uma explicação inteira.

Uma árvore tem raiz, tronco, ramos, folhas... A botânica é uma ciência... A gente pode ver a árvore, apalpá-la...
Aprendi isso, apesar de só ter três anos e três meses de escola. Mas, cá dentro de mim, uma árvore é qualquer coisa mais forte, mais grandiosa, que a botânica não consegue definir. Da mesma forma acredito em Deus plenamente, ainda que tudo se acabe cá na terra. Acredito em Deus mesmo que a minha alma não vá para o Céu, nem para o Inferno, nem para o Paraíso... Sou uma pessoa inculta, e não tenho vergonha de o dizer, mas esta é a minha forma de estar na vida. É a minha filosofia.

Gosta de se comparar às árvores... Num fado seu, diz que o pinheiro é seu irmão, até no jeito de erguer braços em vão... Tem de si própria o sentido de grandeza?
Não é uma grandeza tola, é sentimento de libertação. O pinheiro é uma árvore alta, livre no espaço, se a não mutilarem... Eu também gostava de ser mais alta...

Tem complexos com a sua altura e a sua beleza. É um estado de morbidez ou puro masoquismo para ser ainda mais dramática?
Não dramatizo as coisas por via disso. São gostos femininos que julgo normais. Mas pronto, não sou mais alta nem bonita, tenho de aceitar-me como sou.


Quando fala em beleza tem como padrão a beleza helénica?
As palavras que você me diz... Helénica é dos gregos, não é? Bom, eu aceito que não haja padrões rígidos de beleza. E, pensando melhor, até quando vejo fotografias minhas dos tempos em que era jovem, posso concluir que estive quase para ser bonita e estive quase para ser muito feia. Fiquei no meio-termo...
Camões foi o maior fadista

Nessa sua tendência para o fatalismo costuma igualmente insistir no facto de ser uma mulher inculta. Será que tem da cultura a ideia de que esta só existe nas universidades, nos doutoramentos?
Julgo que só é culto quem aprendeu muito, quem teve a possibilidade de andar muitos anos na escola...

Amália, há multa gente que empinou livros na escola e não tem o mínimo de sensibilidade para aprender a descobrir coisas multo belas. Não será isto verdade?
Você tem razão, mas eu também tenho a minha. Reconheço que há gente que leu muito e não tem o entendimento das coisas com urna certa dose de sensibilidade. Só que é gente que sabe falar com eloquência e eu não sei. Gostava de ser culta para exprimir a minha própria sensibilidade, para dizer uma palavra sem ter de dar a volta ao Rossio até a encontrar.

Avalia as pessoas pelas palavras eloquentes... É isso, Amália?
Eu até costumo dizer que, se não fosse fadista, gostaria de ser psicóloga, porque sinto necessidade de analisar as pessoas.

Não fuja à minha pergunta... Só as pessoas eloquentes é que são gente?
Não fujo à sua pergunta, não. E então digo-lhe que, entre uma pessoa bem falante mas oca de sensibilidade, e uma outra sem discurso mas sensível, prefiro a última. Talvez por isso, quando penso que sou estúpida, porque não estudei, chego, às vezes, a não importar-me ser estúpida, já que me conheço e sei que sou pessoa uma sensível; sei que leio um livro e o sinto, mesmo que não saiba sequer dizer aos amigos quem é o autor...


Ora aí tem: não é só culto quem estuda tratados filosóficos...
Pois... O ideal é ser-se sensível. Mas nem todos podemos ser eruditos, embora fosse bom que, pelo menos, todos fôssemos sensíveis.

Quando canta Camões, por exemplo, sabe quem foi o poeta?
Não lhe falo do Camões épico, que tem muito valor, com certeza, mas de mitologia não entendo patavina. Mas sinto que Camões foi, na sua poesia, o nosso maior fadista. Eu li os seus sonetos, os seus versos de amor, e encontrei neles o fado, o destino, o sentir de uma alma. Compreendi-os sem precisar de ir ao dicionário. Sou toda coração e não me pergunte porque sou assim e não de outra maneira, porque isso seria o mesmo que perguntar a um cardo porque é um cardo e não é uma casa...
Um chilique em Hollywood

De qualquer modo, não constata que foi uma mulher que se fez por si e conquistou o sucesso à sua custa?
Não fiz nada para ser o que sou. José Galhardo e Frederico Valério compuseram-me um fado e nele se diz e canto que... "Amália, quis Deus que fosse o meu nome...". Por isso me deu esta voz. E o público, especialmente o povo de onde venho, acarinhou essa Amália. Sou o que sou por essa razão.

Não teve de trabalhar o seu talento para estar ao nível, logo no começo da sua carreira artística, de Jacquellne François, Edith Plaf, Charles Trenet, Maurice Chevalier, Nat King Cole?...
Não fiz mais do que cantar com a minha voz e humildade. Entrava em pânico (ainda hoje isso acontece) quando me via ao lado de nomes tão famosos. Aliás, fico sempre a tremer como varas
verdes quando entro num palco.

 

© ARQUIVO DN

Se fica, disfarça bem.
Só eu sei os nervos que se apoderam de mim! Numa ocasião tive um chilique!!!

Que lhe aconteceu, esqueceu-se da letra do fado?
Não... la cantar em Hollywood, e eu, que estava habituada a aparecer só com os violas e os guitarristas, tinha de enfrentar ali uma orquestra com mais de uma centena de músicos... Quando me apercebi bem do que me esperava, caí para o lado! Reanimaram-me mas supliquei a Deus que me desse naquele instante uma febre de 40 graus...

E Deus, sabedor da sua fé, atendeu a sua súplica?
Não! Pregou-me uma partida... tive mesmo de cantar. Mas ajudou-me e não me saí mal. As palmas do público tranquilizaram-me.

Sucessos iguais conquistou-os em todos os cantos do mundo. Ninguém se esquece de Amália no Olympia, na Broadway, no Lincoln Center, enfim, é quase impossível referenciar todo esse apogeu. Apesar disso, acha que não é uma vedeta?
Vedeta não sou. O que é isso de ser vedeta? Mas não posso negar-me nem negar a minha vida. O que eu digo é que esse talento, essa intuição, são um dom e não fruto de um grande esforço, de uma grande luta...

Não estará a cultivar uma vaidade através de uma falsa modéstia?
Falsa modéstia, não!!! Acreditem ou não as pessoas, eu sei que sou assim humilde e fico de bem com a minha consciência. A minha vida foi e continuará a ser o fado até que o público não me queira mais. Não tenho outras ambições. Não sou política, não gosto de vidas mundanas, nunca alterei a minha maneira de ser. Deixem-me ser quem sou...
Magoaram-me profundamente

Diz isso com tanta mágoa! Está com as lágrimas nos olhos... É por a terem quase ignorado nesta última década? Alguns colegas procuraram afronta-la depois do 25 de Abril... É essa a sua maior dor?
Colegas, compositores, intelectuais... Magoaram-me profundamente. Tanta calúnia, tanta mentira. Ao princípio, eu estava de olhos fechados, e não consegui entender porquê...

O que se passou: não lhe perdoavam a sua voz independente? Fazia-lhes sombra? Ou a própria Amália sentiu que não estava tão à vontade e ficou chocada?
Só não me perdoa quem não me conhece bem. Mas deixe-me chorar senão rebento!... Julgo que desejaram queimar-me dizendo que eu era um produto do fascismo, que era uma espia, uma contrabandista, uma bêbeda... Tantas mentiras horrorosas! Como hei de curar essa ferida? Eu quero esquecer, mas dói-me muito este desencanto...

Teria sido porque a Amália Rodrigues não emprestou a sua imagem a nenhuma força política?
Sei lá! Até chegaram a dizer que havia um subterrâneo no meu quintal por onde eu ia ter com Salazar para ele se aconselhar comigo!... Disseram também que tentei envenenar Humberto Delgado, no Brasil... Isto é duma imaginação incrível! Nunca admiti que pudesse haver tanta maldade.

Se tivesse apanhado alguma carruagem dos comboios político-partidários, julga que se teria livrado desses embaraços?
Não foram embaraços, foram calúnias! Foram mentiras tremendas que me destruíram a alegria e a saúde. Terei de pedir desculpa por já cantar o fado há 45 anos?... Não devia cantar o nosso fado só porque o regime era salazarista ou marcelista?...
Não sou uma revolucionária

Por vezes, os governantes servem-se de coisas que funcionam como um ópio para o povo... Não concorda?
Mas eu não sou servilista, tal "como não sou uma revolucionária. Por mim, sempre cantei o fado sem pensar em políticas. Nunca apanhei nenhum comboio ou avião, a não ser aqueles em que me deslocava e desloco para ir cantar a qualquer terra. Cantar do jeito que eu sei e sinto. Cantar o nosso fado e o nosso folclore de que tanto gosto. Nunca tive apoios de nenhum governo nem do anterior nem dos de depois do 25 de Abril.

Estas coisas são muito complicadas, Amália... O fado dramático, de amores e pecados, não era, nem é, propriamente, a chamada canção de intervenção revolucionária...
Mas eu repito, nunca fui nem nunca serei uma revolucionária. Nunca quis fazer acreditar o contrário. Nunca me mascarei (a não ser pelo Carnaval). Canto o fado que sinto, que gosto de cantar. Canto as letras que se identificam com a minha sensibilidade. Onde quer que eu esteja, onde quer que eu vá, é para cantar os meus fados e não para ir debater questões políticas com os governos... Quero ser o que sempre fui: a Amália que canta para toda a gente.

Não se conforma que possa haver quem não goste de si?

Que disparate. Ninguém pode ter a veleidade de pensar que agrada a todos. Mas não foi o público que me esqueceu! Eu sinto que não foi o público. Até é curioso como os jovens se aproximam de mim e se interessam pelo fado, são sensíveis ao fado, ao nosso fado. O publico nunca me tratou mal, nem no meu país nem noutro qualquer. .

Ainda antes do 25 de Abril cantou Povo que Lavas no Rio, de Pedro Homem de Mello. Esse seu fado parecia uma pedra no charco...
Cantei esse e muitos outros poemas que, aos olhos das tais políticas, talvez pudessem ter interpretações várias. Mas porque se há de meter a política em tudo? Cantei José Régio também. Mas cantei e canto por sensibilidade, por sentimento, e não para politizar... Naturalmente que num ou noutro fado pode estar mais a vida de um povo. O público ou uma pessoa podem sentir-se na pele desse fado conforme os seus sentimentos. O fado é uma coisa muito nossa exatamente porque traduz o nosso sentimentalismo. E é esse o fado que eu canto.

Também cantou o Extraterrestre... Foi a brincar?
Tenho coisas melhores e outras que o não são. O que eu não tenho é a mania de que a Amália não pode cantar isto ou aquilo porque é a Amália... Pelo facto de ter cantado o Extraterrestre... ou coisas parecidas, não deixei de ser exigente na qualidade da interpretação nem me caíram os parentes na lama... Nem foi por isso que deixei de sentir o fado como sempre o tenho sentido, o fado que está interiorizado na minha alma.
O meu sonho é o amor e a paz

E será a Amália uma pessoa tão passiva que se não aperceba, tantos anos a correr o mundo, das diferentes sociedades e dos diferentes regimes político-sociais que as comandam? Nunca estabeleceu comparações? Nunca sentiu injustiças? Nunca se sentiu impressionada com algumas situações?
Choca-me a fome em tantos países, por exemplo. Não sou insensível aos problemas do mundo que me rodeia. Mas eu sou por temperamento uma pacifista. Gostava que nunca tivesse de haver guerra para se resolverem os problemas. O meu sonho é o amor e a paz. Nem posso ver sangue... Fico petrificada! Gostava que as pessoas se entendessem sem terem de se matar ou de se injuriar. É por isso que eu não entendo a política nem tenho preparação para a analisar.



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Há precisamente 40 anos, estava a Amália a conquistar tantos povos com os seus fados. foi lançada a primeira bomba atómica, que ficou conhecida por bomba de Hiroxima. Já era adulta, o que sentiu?
Tenho memória dessa tragédia porque ouvia os comentários. ouvia a minha mãe contar coisas, ouvia falar na rua. Não ouvia na rádio. Nesse tempo, só tinha rádio quem era rei! E o que eu ouvia as pessoas dizer fazia-me apertar o coração. Mas penso que para as bombas acabarem, ou para que nem sequer existam, tem primeiro de deixar de haver gente videirinha, oportunista, que passa por cima de tudo. O mal de raiz, na minha opinião, é esse... E depois sofrem os inocentes, os que não sabem defender-se, que são a maioria.

Como é que a Amália foi à União Soviética numa ocasião em que Portugal não tinha relações diplomáticas com a Rússia?
Nunca mendiguei vistos para o meu passaporte. Nunca mendiguei contratos. Tive sempre curiosidade em conhecer a Rússia. Queria ver se também lá entendiam os meus fados, sem política. Um dia, a minha empresária em Paris (que está ainda viva, felizmente, e poderá dizer se isto é verdade ou não) contratou-me para ir à União Soviética. Foi ela quem me tratou do passaporte. Fui e cantei lá como em qualquer outro sítio. Estive no Circo Popov, estive com os coros do Exército Vermelho e não fiz mal a ninguém, tal como ninguém me fez mal a mim. O público soviético ouviu-me cantar e aplaudiu-me, como me aconteceu em tantos outros países.
Só espio o meu fado

Era multo difícil romper, então, a Cortina de Ferro... Não teria a Amália servido de isca ou de fachada?
Servir de isca? Olhe, ninguém me mordeu! De fachada? Olhe, levei a minha cara de sempre e o meu fado de sempre. A minha consciência estava tranquila e continua tranquila. Pretenderam insinuar que eu era espia. Que tristeza! Eu só espio o meu fado. E já não é pouco!·
A força do sentimento

Mas a maior parte desse público para quem tem cantado, em todos os continentes, não entende o nosso idioma e a Amália canta quase sempre em português... Que "milagre" é esse?
Há uma coisa que é universal e toda a gente entende: é a força sentimento que uma voz expressa; é a carga dramática do fado; é a melodia; é o timbre da voz. É uma linguagem sem fronteiras, e o nosso fado, o nosso autêntico fado, tem essa linguagem, tem essa força de amor e de comunicação. O cantar noutro idioma também canto, mas não é importante. Os meus fados, os meus sentimentos, são bem portugueses.

Tão portugueses que nunca quis ficar a viver noutro país... No fundo, continua com amarras ao Pátio dos Quintalinhos, onde nasceu?
Tenho muita ternura pelo Pátio dos Quintalinhos, onde nasci e onde vivi com mais sete irmãos (mais dois morreram antes de eu nascer). Mas não é só a ternura pela minha raiz humilde. É que eu gosto da minha terra, da minha casa, da minha família, dos meus amigos. Sou uma pessoa emotiva, mas não sou uma mulher frívola. Não troco nada por um convívio caseiro, familiar. Como é que eu, num país estrangeiro, ia viver sem a minha broa e a minha sardinha assada, sem as minhas sopas de feijão?! Como é que eu ia passar sem ver o Alentejo, sem ver Trás-os-Montes?! Tinha lá paciência para andar todos os dias em jantares e almoços de sociedade!!!

No entanto, os seus contratos no estrangeiro ajudaram-na bastante materialmente. Ainda agora os aceita. Está rica ou não?
Não tenho a fortuna que muita gente julga. Mas não me queixo. E se ainda aceito contratos é porque o público ainda me quer ouvir cantar.
Tenho outra fome

Parece uma mulher desencantada com tudo, apesar de ter conseguido vencer a pobreza da sua infância. Não lhe parece que está demasiado fechada em si mesma?
Estou desencantada, isso estou, porque, afinal, vejo que o meu mundo, o mundo que eu sonhava, não é possível. A realidade é completamente diferente daquilo que eu queria. Fiquei presa aos meus sonhos de criança...

Mas a sua infância foi de pobreza como a de tanta gente... e de tanta gente que não teve a sua estrela... Devia ter razões para se sentir feliz. Porque se embrulha nessa angústia, nessa tortura? Porque chega a ter saudades, como diz num fado recente da sua autoria, dos tempos em que "passava fome passava, lavava no rio, lavava..."?
Não é dessa fome que tenho saudades, como é óbvio. E também devo dizer, em abono da verdade, que éramos pobres (sapatos, onde estavam eles?) mas nunca passámos a fome que atinge, ainda hoje, milhares de crianças em todo o mundo. Não desejaria, naturalmente, voltar àqueles tempos em que eu e a minha irmã Celeste andávamos pelas ruas a vender limões para ganhar uns tostões. Mas do que eu tenho saudades é da minha alegria quando era pobre, da minha capacidade de sonhar. Sinto agora outra fome que nenhum pão, nenhumas azeitonas. podem saciar... Sinto saudades de quando os polícias iam atrás de nós e a gente corria às gargalhadas, a fugir com os limões no cesto...



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Nem o facto de os polícias a não quererem deixar vender os seus limões para ganhar una tostões para comer a fazia uma pessoa revoltada contra as discrepâncias sociais?
Quer eu quer meus irmãos fomos educados dentro de princípios de resignação, desse tal fatalismo que é o próprio fado. Éramos alegres. A revolta não fazia parte da alegria de sermos crianças. Aceitávamos as coisas como tendo de ser assim. É dessa alegria que sinto saudades. Era uma alegria inocente...

Mas ninguém gosta de ter um polícia a dar-lhe cabo da cabeça... É por isso que a Amália não simpatiza muito com homens fardados, segundo o que se escreveu em algumas entrevistas suas?
Essa é boa! Nunca disse que tinha aversão a homens fardados. Se forem bonitos até gosto deles! O que eu sou é supersticiosa. E desde miúda, se estava com alguma superstição, fechava a mão e só a abria quando via um homem com farda, porque diziam que dava sorte. Os homens de farda até são precisos se souberem cumprir as suas obrigações cívicas. E dão jeito para as minhas superstições!
Gosto do tipo aciganado

É católica, mas é supersticiosa... Gosta de homens bonitos, mas sente-se uma mulher desencantada e sem esperança. Tem fome de ser alegre. Teve uma educação conservadora. Preferiu a aceitação à revolta. Adiante: se o doutor Mário Soares lhe batesse à porta, neste momento, como o atenderia?
Atendia-o bem, educadamente.

E não lhe perguntava nada?
Como está, tem passado bem? Espero que sim...

Que idade dá a Freitas do Amaral?
Não sou lá muito forte a acertar em idades... Ele é um bocado pesado, mas deve ter para aí uns quarenta e tal anos...

Tinha vontade de cortar as sobrancelhas a Álvaro Cunhal?
Não... tinha medo. É melhor que ele fique com as sobrancelhas todas. São dele... o seu a seu dono!

Gostaria que Lucas Pires tivesse os olhos da outra cor?
Qual é a cor dos olhos do Lucas Pires, nunca reparei...

Tem uns olhos esverdeados...
Então é melhor ficar com os olhos que tem.

Quer dizer que a Amália gosta de homens com olhos claros?
Não. Por acaso eu até gosto de morenos. tipo aciganados... porque eu também sou meio aciganada!

Alguns dos nossos políticos têm esse tipo aciganado que tanto lhe agrada?
Eu acho que todos eles são um pouco aciganados... mas num outro sentido...

E, quanto a Cavaco Silva, acha que ele tem pouco peso para a sua altura?
Eu só o vi uma ou duas vezes e nem reparei se era gordo ou magro.

Daria um conselho a Maria de Lourdes Pintasilgo para mudar um pouco o penteado?
Aconselhava-a mais depressa a ser rouxinol...

Vive aqui em São Bento, tão pertinho do Parlamento, nunca sentiu ganas de dar um salto até lá e pôr-se a cantar o fado... por exemplo, a cantar o seu fado Povo Que Lavas no Rio ou aquele mais antigo, Conta Errada?
Não, não seria capaz duma coisa dessas. Sou muito passiva. Direi mesmo que até sou cobarde!

Cobarde porquê? Porque gosta ou prefere ser cobarde?
Para quem tem o meu feitio, é mais natural ser cobarde do que ser valente. Não sou uma agitadora. E tenho muito medo de ferir as pessoas, até mesmo aquelas que mereciam que eu lhes dissesse alguma coisa amarga e dura. Prefiro ficar em casa, chorar sozinha ou desabafar com os amigos. Prefiro chorar a cantar...
Admiro o infante D. Henrique

Muitas condecorações tem recebido, não só em Portugal. Mas no seu país recebeu, pelo menos, duas... duas altas condecorações, uma pelas mãos de Marcelo Caetano, outra pelas mãos da Ramalho Eanes. Da que mãos gostou mais de receber essas distinções, que representam o reconhecimento público do seu mérito?
É suposto ter-se uma reação de orgulho ou de honra ou de contentamento. Mas, não sei porquê, fiquei parada, sem alegria por dentro. Não consigo voltar a ter o meu sorriso de criança, a minha cabeça louca... De qualquer modo, a segunda condecoração que recebi, da Ordem do Infante D. Henrique, e me foi atribuída pelo general Ramalho Eanes, gostei mais dela por ser a do infante D. Henrique, figura histórica que sempre admirei.

Essa sua predileção pelo infante D. Henrique revelará uma simpatia da sua parte pela monarquia?
Não tenho nada que ver com a monarquia. Mas na pouca escola que tive aprendi (e ninguém tem culpa de aprender o que aprendeu) que Portugal era deste tamanho, que Angola era 14 vezes maior. E tudo estava ligado a feitos de homens como o infante D. Henrique...

Está contra a independência das ex-colónias portuguesas?
Eu não. Mas também não posso estar contra a história dos povos.
Feminina mas não feminista

Sentiu-se sempre uma mulher independente?
Independente nunca fui. Sou independente dentro de mim, nos meus sentimentos, mas estive sempre dependente de uma educação, de um tempo em que não se podia fumar à frente dos pais nem sair à rua de braço dado com o namorado... Quando um dia saí de braço dado com o meu namorado, apanhei uma valente sova!

Nunca desejou integrar um movimento feminista?
De maneira nenhuma. Sou muito feminina mas não sou pessoa de ir para a rua agitar bandeirinhas por um movimento feminista.

A emancipação da mulher, o direito à igualdade, não lhe dizem nada?
E isso consegue-se com bandeirinhas na rua? Penso que o importante é cada pessoa estruturar a sua personalidade e fazê-la respeitar.

O que pensa da homossexualidade? Acha que é uma aberração?
Natural não é... O natural é a procriação...

Bem, não lhe coloco a questão da sexualidade só em termos de procriação... Mas diga-me o que pensa da homossexualidade.
Tenho muitos amigos que são homossexuais. Não deixo de lhes ter amizade por isso. O que me importa é a boa educação, o respeito que devemos uns aos outros.

Não tem filhos, Amália. Recusou-se a tê-los ou algum problema a impediu de ser mãe?
Não me recusei, ou melhor, não fui capaz de fazer uma cirurgia de que necessitava para poder engravidar.

Foi egoísmo ou teve medo?
Tive medo. Fujo do bisturi como o diabo da cruz... Morro só de pensar numa operação!

Gosta multo da si mesma? Tem medo de morrer? Tem-lhe custado envelhecer?
Não é o gostar de mim mesma. Gosto de viver com os meus amigos, com a minha família. Felizmente, ainda tenho a minha mãe, já com 93 anos.

E a velhice atormenta-a?
Ora, se fosse só eu a envelhecer, ficava danada! Mas toda a gente envelhece, é a ordem natural da vida. Tenho de aceitar que é assim. E aproveito para lhe dizer que nunca fiz nenhuma operação plástica, no entanto, encarregaram-se de me inventar meia dúzia delas... Até nem me importaria de me rejuvenescer, mas operações já basta as que tiverem de ser, como uma pequenina que fiz agora para extrair um quisto junto ao ouvido. ·



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Que opinião tem sobre o aborto?
Não é fácil dar uma opinião de ânimo leve. Felizmente, nunca me senti numa situação dessas. É uma questão complicada. Só quem vive esse problema em toda a sua dimensão o poderá, de facto, avaliar.
Sou ciumenta mas não faço cenas

O seu primeiro grande sucesso foi com o fado do Ciúme. É uma mulher ciumenta?
Foi realmente o meu primeiro sucesso, graças ao Frederico Valério (marcou-me tanto a sua morte!). Sou uma mulher ciumenta, até porque sou muito insegura, mas sou incapaz de fazer uma cena de ciúmes. Vingo-me a chorar...

Ainda se lembra de quem foi o seu primeiro namorado?
Se me lembro! Casei com ele. Foi o meu primeiro casamento, era novinha. Chamava-se Francisco Cruz, era meu guitarrista.

Foi importante para si esse primeiro casamento?
Era muito nova e naquela altura o casamento era a consequência lógica do namoro. Ele até era bonitinho, tocava bem guitarra e, tal como eu, tinha a mania do fado. Depois, os nossos fados separaram-se...

Teve muitos homens apaixonados por si... Gostava de sentir-se amada? Maltratou alguns desses amores?
Tive muitos homens apaixonados, não sei se todos por mim se mais pela minha voz. Nunca confiei muito em que gostassem de mim se não cantasse. E reconheço que maltratei algumas paixões, mas duma maneira inconsciente.

Hoje, disposta a continuar a cantar o seu fado, sente que a sua vida de mulher foi sentimentalmente frustrada?
Digamos que, por força da minha vida, da minha carreira, dei menos de mim ao amor do que podia ter dado. Transportei o amor mais para o fado...

Esqueceu-se de si como mulher? Fez prevalecer a artista?
Talvez me tenha esquecido um pouco de mim própria. Mas voltei a casar-me e este casamento já dura há 25 anos.

Raramente as pessoas a veem acompanhada do seu marido. Quem é?
Não sei se ele quer que lhe diga o seu nome, por isso não digo. Nunca misturamos a nossa vida familiar com a minha vida profissional.

E este casamento deu-lhe alguma estabilidade sentimental e psicológica?
É uma pessoa com quem posso contar. Uma pessoa que gosta de mim, é um homem bem-educado, nunca discutimos. É um casamento que julgo feliz.

Ele não tem ciúmes dos seus fados, da sua entrega apaixonada ao fado?
Penso que não. Ele tem outras motivações. Tem também uma educação portuguesa, sabe como eu sou. Quando se casou comigo sabia que eu já tinha sido casada, que era uma mulher inculta e era fadista e amava o fado. Ele é engenheiro mecânico, tem a sua própria sensibilidade, não canta, até porque desafina... Mas penso que gosta de mim, independentemente de eu cantar o fado.

Nunca lhe disse que gostava da sua voz?
Não sei se ele já se cansou de me ouvir cantar ou se ainda é um espectador que me acompanha. Antigamente dizia-me que tinha ouvido fulano ou sicrano a cantarem coisas minhas mas que não sentia o arrepio que costumava sentir quando era eu mesma a cantar.

Então e a Amália não sabe se ele ainda se arrepia quando a ouve cantar?
Não me tem dito nada... No fundo, ele deve sentir que o fado, as minhas cantorias, lhe têm roubado a minha companhia, e tem alguma razão nesse aspeto. Embora eu seja uma mulher caseira que nem sequer gosta de ir a restaurantes, estou em casa mas estou sempre rodeada pelo fado. ·
Flores, sempre flores

Que melhor prenda lhe podem oferecer?
Flores. Muitas flores. Basta olhar para a minha casa. Quase todos os dias vou ao campo colher flores.

É uma espécie de apelo à vida?
Disse bem, é um apelo à vida. Gosto do campo e do mar. Então do mar nunca me canso. Sinto uma força, uma ânsia de libertação!

Libertação... Mas a própria Amália diz que acaba por ser cobarde e fica fechada sobre si mesma...
Sou muito paradoxal. Reconheço que o sou.



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Os poemas que tem feito ultimamente são a única forma de o seu grito fazer eco?
Não tenho pretensões a poeta. Deus me livre! Mas ao escrever algumas letras para os meus fados, agora que estou desiludida de todos os meus sonhos, talvez seja, sim, uma forma de gritar, de dizer o que me vai na alma. Tenho pena de mim... Sonhei um mundo tão diferente... Sou uma pessoa de mãos abertas. Entrego-me à amizade sem tomar precauções. Pensei sempre que não era preciso uma pessoa precaver-se quando a amizade existe e as pessoas falam abertamente. Mas há gente que engana tanto!...

Não teria fechado demasiado os olhos em sua própria defesa, para sua comodidade? Não temia, feitas as contas, que, se os abrisse, iria certamente encontrar uma realidade que não tem nada que ver com a Branca de Neve e os Sete Anões?
Pois é... eu sonhei muito com a Branca de Neve e os Sete Anões... Este maldito romantismo, esta falta de confiança em mim mesma... Tinha de ser fadista, fatalmente...

E quis ser sempre, também, uma menina mimada?
Julguei que poderia ser assim comigo e com toda a gente. Talvez seja do meu signo, sou Leão.

Em que mês nasceu?
A minha avó dizia-me que eu nasci com as cerejas. Registaram-me oficialmente a 23 de julho. Mas, ao certo, ao certo, não sei o dia em que nasci. Cá por mim, optei pelo dia 1 de julho, que é logo o princípio do mês...

Mas as cerejas começam a amadurecer em fins de maio... Afinal, qual é o seu signo?
Escolhi o de Leão, mas, se calhar, até sou Touro, Gémeos ou Caranguejo...

Tem pelo menos a certeza do ano em que nasceu?
Isso tenho. Foi em 1920. Agora o mês... Foi com as cerejas e não me desagrada a época do ano, embora eu aprecie mais pêssegos, figos e melão. Mas é tudo fruta da época!

Quer ficar na lenda, como a Severa?
Não quero lenda nenhuma. Só quero estar com as pessoas enquanto estou viva. Só preciso de amar e de amizade enquanto respiro e me sinto. Depois... bem, não me importa que vão pôr umas florinhas na minha campa, sempre ficará mais arranjadinha...

Não quer fazer um esforço para se libertar dessa angústia?
Mas como? Eu disse-lhe que perdi a capacidade de sonhar, mas é possível que o meu grande mal seja precisamente o não conseguir deixar de sonhar... É o meu destino.
O fado de Coimbra é muito sentido

Acha que o fado de Coimbra é tão fatalista como o fado que a Amália canta?
Não será fatalista, mas é um fado muito sentido, de que gosto imenso. A minha voz segue um pouco a melodia arrastada do fado de Coimbra. Não se canta fado sem sofrimento e o fado de Coimbra tem intérpretes muito bons, na voz e na música.

Quem são os seus intérpretes preferidos do fado coimbrão?
Não costumo indicar nomes, mas o Menano tinha o fado de Coimbra nas veias. E Artur Paredes fazia gemer a guitarra.

Sabe que o doutor Almeida Santos é político mas também canta o fado de Coimbra?
Sei, já o ouvi cantar. E olhe que ele para o fado até tem jeito. Canta bem!

E quando volta a Amália Rodrigues a gravar um disco com fados novos?
Tenho diversos trabalhos nesse sentido. Qualquer dia vão sair, se não ficar para aqui enrodilhada em lágrimas de cansaço.

Não sente que, ao reeditarem agora os seus maiores êxitos, estão a fazer-lhe uma justiça ou a tentar reparar uma injustiça?
É possível que sim. Mas o sofrimento que me causaram... sabe, é como quem corta as pernas a alguém, mesmo que seja sem querer, e depois, quem lhe volta a restituir as pernas, sadias? É esse frio que me gela.

sábado, 18 de julho de 2020

"Gaivota"_Alexandre O’Neill





Gaivota (1965)

Se uma gaivota viesse / trazer-me o céu de Lisboa / no desenho que fizesse, / nesse céu onde o olhar / é uma asa que não voa, / esmorece e cai no mar. // Que perfeito coração / no meu peito bateria. / meu amor na tua mão, / nessa mão onde cabia / perfeito o meu coração.
Se ao dizer adeus à vida / as aves todas do céu, / me dessem na despedida / o teu olhar derradeiro, / esse olhar que era só teu, / amor que foste o primeiro. // Que perfeito coração / no meu peito morreria, / meu amor na tua mão, / nessa mão onde perfeito / bateu o meu coração.

Alexandre O’Neill (1924-1986).

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Leituras



DAQUI: "Expresso Curto" - Excerto
Germano Oliveira
Editor online


"O QUE EU ANDO A LER
Creio que o fim da adolescência é uma circunstância: não acontece aos 18 da maioridade legal ou aos 21 da licenciatura nem aos 30 dos empréstimos à habitação, não é certamente aos 40 das lipoaspirações e dos implantes de cabelo ou aos 50 dos despedimentos amigáveis nem aos 60 do temor de um tumor, há adolescentes licenciados endividados calvos gordos desempregados doentes com as idades todas, creio que a adolescência, a genuína adolescência, aquela além-envelhecimento e antientorpecimento, a que é determinada pela expectativa de tornarmos o nosso mundo um lugar transformado pelas nossas intervenções, essa adolescência tão vaidosa de esperança e desejosa de feitos só é desfeita pela introdução da morte, quando as infinitas ilusões juvenis se tornam repentinas desilusões adultas assim que atendemos o telefonema que anuncia a finitude das nossas pessoas:

- ele morreu
ou
- ela morreu

e depois silêncio, o rigoroso silêncio da dor, nenhum adolescente sabe manter o diálogo da morte, nem os envelhecidos tão-pouco, ficar subitamente crescido é ser vítima-sobrevivente da colisão de nos noticiarem a primeira morte da nossa intimidade de avós pais tios maridos mulheres cunhados sogros namorados irmãos amigos e demais prolongamentos de afinidade: a adolescência é ir passar o fim de semana a casa da mãe ou do pai ou de ambos se ainda estiverem juntos e trazer melancias para guardar no frigorífico e hambúrgueres no congelador, é almoçar um assado ao domingo à tarde enquanto a avó conta a história do baile em que o avô esse galã a seduziu em 1925, é chamar o cunhado que sabe mudar pneus quando temos um furo no Volkswagen, é fumar um cigarro com o sogro enquanto ele se intumesce com o tempo da tropa em que entrou num bar e acabaram todos à porrada (ele saiu-se bem claro que se saiu), é ouvir a adjetivação viçosa da sogra sobre os novos músculos do Ricardo Araújo Pereira, é receber uma chamada do irmão-muito-mais velho camionista a dizer que se sente sozinho na viagem para Itália porque lá caramba há tanto covid, é insistir com o namorado para não deixar a tampa da sanita levantada e ficarmos furiosos-enternecidos por ele nunca o fazer, é estar no Primavera Sound e aquela amiga que não conseguimos encontrar na multidão escrever “a vida vai acabar num instante. merecemos estar todos juntos!”, exclamação, merecemos sim, a adolescência é estar com gente gente gente, toda a nossa e tão querida gente, mas um dia o telefone toca e fica gente-1, é subtração irreparável, e depois fica-se com medo, tanto mas tanto tanto medo, todo o tanto e tão maldito tanto, do dia do segundo telefonema, gente-2, eles morrem-nos, meu Deus, mas os números deles continuam no nosso telemóvel, 91 qualquer coisa, o que se faz ao número de um morto?, digam-me o 5G do além e eu fundo uma operadora de telerressurreição, que frase adolescente, eu sei, mas apesar de adulto ainda me recordo das técnicas juvenis, é da saudade desse tempo, todo esse distante mas tão bem lotado tempo que acaba com um telefonema - e então não se perde a expectativa de tornarmos o nosso mundo um lugar transformado pelas nossas intervenções, o mundo é um lugar demasiado imperfeito para o abandonarmos aos seus defeitos, mas perde-se a inocência, essa fundamental condição adolescente, porque a cada feito notável da nossa vida lembramo-nos de quem faz falta, toda a aguda e tão insuperável falta, para celebrar connosco essas conquistas esporádicas, os adolescentes não têm tempo para emoções destas, estão demasiado ocupados da gente toda, não sabem como dói uma memória, é nisto que creio porque ficar adulto é isto que li:

“Um dia alguém morre apressadamente e as referências
estruturais da memória são elementos geométricos
e decorativos no interior das casas, impressos
nos fragmentos de luz. E o amor
cabe dentro da morte como punhados de terra
em mãos fechadas”,

está na “Autópsia” do José Rui Teixeira, poeta da minha terra, o Porto onde acabou a minha adolescência, foi lá que fiquei adulto que é sentir desta maneira:

“a morte dos outros é mais difícil do que a nossa, porque vivemos a morte deles e não viveremos a nossa. E porque a morte dos outros significa o desmantelamento do nosso passado, a inexistência do nosso passado, do qual deixa de haver prova indiscutível. Ficam imagens, objectos, detritos, coisas em gavetas que nada dirão aos vindouros. E os nossos mortos fazem-se não apenas pó mas nevoeiro, figuras extintas, indistintas, irrecuperáveis”,

é das “Imagens Imaginadas” do Pedro Mexia, ando a folhear, o Mexia é do Expresso que é o jornal da minha vida adulta, o meu gente-1 ia ter orgulho de eu publicar onde o Mexia escreve, é preciso lembrar o que os mortos sentem por nós, reparem no verbo: “sentem” terceira pessoa do plural do presente, não é amor passado mas amor presente, é amor até com data, gente-1 faria anos daqui a dias, parabéns:

“O passado de qualquer ser humano transforma-se num fantasma, mas temos de fazer um esforço e recordar, porque recordar engrandece-nos, eleva-nos para lá da vida e da morte, para lá da História, da política e da humilhação. Quem recorda e o faz com toda a profundidade devida transforma-se num deus”, é do Manuel Vilas e do seu “E, de repente, a alegria”, é o que ando a ler, o Manuel Vilas sofreu gente-1 e depois gente-2, pai e mãe, gosto muito do arranque do livro, é assim, todo este aparentemente adulto mas na verdade tão adolescente assim: “Tudo aquilo que amámos e perdemos, que amámos imensamente, que amámos sem saber que um dia nos seria roubado, tudo aquilo que, após a sua perda, não conseguiu destruir-nos — embora tenha insistido com forças sobrenaturais e procurado a nossa ruína com crueldade e afinco — acaba, mais tarde ou mais cedo, transformado em alegria”.

Tenha um bom dia."

quarta-feira, 10 de junho de 2020

Strange Fruit_ Jill Scott




Strange Fruit
Árvores do sul dão uma fruta estranha
Southern trees bear a strange fruit

Sangue nas folhas e sangue na raiz
Blood on the leaves and blood at the root

Corpos negros balançando na brisa do sul
Black bodies swinging in the southern breeze

Frutas estranhas penduradas nas árvores de álamo
Strange fruit hanging from the poplar trees
Cena pastoral do galante sul
Pastoral scene of the gallant South

Os olhos esbugalhados e a boca torcida
The bulging eyes and the twisted mouth

Aroma de magnólia, doce e fresco
Scent of magnolia, sweet and fresh

Então o cheiro repentino de carne queimada
Then the sudden smell of burning flesh
Aqui está uma fruta para os corvos colherem
Here is a fruit for the crows to pluck

Para a chuva cair, para o vento sugar
For the rain to gather, for the wind to suck

Para o sol apodrecer, para a árvore cair
For the sun to rot, for the tree to drop

Aqui está uma colheita estranha e amarga
Here is a strange and bitter crop
Fonte: LyricFind
Compositores: Abel Meeropol
Letras de Strange Fruit © Warner Chappell Music, Inc

domingo, 7 de junho de 2020

João de Barros_Uma gaivota êxul...



UMA GAIVOTA ÊXUL...



Uma gaivota êxul morreu no Mar...

E o seu corpo, de cândida energia,

Sobre uma onda veio naufragar

Ao cais d´onde partira, certo dia...



Tinha as asas abrindo ao vento...O peito

Arqueado ainda, como se aspirasse

O perfume do largo - e insatisfeito

Mais distância quisesse e conquistasse.



E em seus olhos, que a Morte não cerrara,

Tanto a sede do ignoto os desvairou

- Fiquei-me a adivinhar a visão clara

D´um mundo que só ela desvendou...



Nesta doce manhã de Primavera

Não entristece vê-la morta, assim :

- Voo quebrado à hora da quimera,

Quando a vida parece não ter fim...



É que nesse cadáver pequenino,

Crispado num tormento quase humano,

Não se apaga a alegria dum destino

Que foi Sol, que foi Céu, que foi Oceano !...



Ah ! pudesse eu morrer de igual loucura,

Na avidez de voar e de partir,

Com asas de ansiedade e de aventura

Entre a graça de espumas a florir !...



Mas que o embalo das ondas não me traga

Ao porto onde embarcar o meu desejo :

- Que uma vaga me leve, que uma vaga

Á distância me enlei o último beijo...



Pois eu quero julgar que o ritmo ardente

Do meu sangue, sequioso de paixão,

Fica no Mar pulsando eternamente :

- Como se fosse o Mar que sonha e sente

O sangue do meu próprio coração !...



João de Barros

quinta-feira, 4 de junho de 2020

Em Casa d´ Amália






Programa inspirado nas célebres noites em que Amália Rodrigues recebia em sua casa, poetas, cantores, pintores, músicos, atores para tertúlias infindáveis. by RTP


AQUI: Episódio 0
10 Abr. 2020

AQUI:  Episódio 1
Kátia Guerreiro, Rui Veloso, Hélder Moutinho, João Mário Veiga, Pedro de Castro
17 Abr. 2020


AQUI: Episódio 2
FF, José Luís Geadas, Maria Emília, Maura Airez, Buba Espinho, Tiago Correia, João Filipe
24 Abr. 2020


AQUI: Episódio 3
Fábia Rebordão, Filipa Cardoso, João Pedro Pais, André Dias, Bernardo Viana
01 Mai. 2020

AQUI: Episódio 4 
Joaquim Vicente Rodrigues, Joel Pina, Jorge Fernando, Custódio Castelo, Alexandra
08 Mai. 2020

AQUI: Episódio 5 
Lenita Gentil, Tozé Brito, Pedro Moutinho, Ângelo Freire, Flávio Cardoso
15 Mai. 2020

AQUI:  Episódio  6
José Cid, António Pinto Basto, Miguel Ramos, Ângelo Freire, Flávio Cardoso
22 Mai. 2020

AQUI:  Episódio 7
Aldina Duarte, Maria da Fé, Miguel Lobo Antunes, Paulo Parreira, Rogério Ferreira, Francisco Salvação Barreto
29 Mai. 2020

AQUI: Episódio 8
Ricardo Ribeiro, Rodrigo, Luís Osório, José Manuel Neto, Carlos Manuel Proença
05 Jun. 2020

AQUI: Episodio 9
Fafá de Belém, Waldemar Bastos*, Dany Silva, André Dias, Bernardo Viana
19 Jun. 2020

*falecido hoje, dia 10 de Agosto de 2020. Esta foi a última actuação conhecida. 

AQUI: Episódio 11
 Ana Moura, Pedro Abrunhosa, Conan Osíris, Beatriz Silva, Ângelo Freire, Pedro Soares
10 Jul 2020