sábado, 16 de novembro de 2019

Isabel Allende_Entrevista_Livro "Longa Pétala de Mar"

Isabel Allende: "A raiva acumulada no Chile explodiu agora e foi uma surpresa para o mundo"

in: Jornal "Dario de Noticias" 
João Céu e Silva 16 Novembro 2019 - 00:28

Em 1939, 2 mil espanhóis fugiram de Franco para o Chile num navio requisitado pelo poeta Pablo Neruda. A escritora Isabel Allende refaz a história e conta algumas das situações vividas pelos refugiados. E explica a crise atual do Chile.
Há vários anos que Isabel Allende não vem a Portugal, mas os leitores que a descobriram no seu primeiro romance, A Casa dos Espíritos, são aos milhares - o mesmo se passou em todo o mundo a partir desse ano de 1982 - e nunca a esqueceram. Após uma carreira literária que resultou em mais de 70 milhões de exemplares traduzidos em 42 países, a escritora está a lançar Longa Pétala de Mar e falou com o DN sobre o romance que, a exemplo dos dois anteriores, trata da dramática questão dos imigrantes e dos refugiados que fogem dos seus países devido a guerras que matam homens e crianças, a violações e a abusos de mulheres e meninas - através de um facto real: a história de dois mil espanhóis que estavam no lado derrotado da Guerra Civil de Espanha e foram levados num navio para o Chile em 1939.

O título do romance é um verso de Pablo Neruda, o responsável pela contratação do navio Winnipeg, e o poeta chileno também aparece enquanto personagem do livro. Nada que não tenha irritado as feministas chilenas, pois as características pessoais do "machista" Neruda desagradaram de imediato. Isabel Allende explica porque manteve a presença de um dos mais importantes poetas do seu país natal, bem como outras razões para ter escrito um romance sobre uma realidade que também vive desde que se tornou imigrante por razões de exílio familiar, estatuto que até hoje vive por residir nos EUA.

Este foi mais um romance começado num dia 8 de janeiro, data que se tornou um ritual para a escritora dar início aos seus livros: "Tornou-se uma questão de disciplina. Se não organizar a minha vida para ter tempo, paz e solidão para escrever, e não marcar um dia para começar, adiarei sucessivamente a escrita do romance."

Quanto a continuar a escrever em espanhol, Isabel Allende garante que assim é: "Só escrevo romances nesta língua. Até poderei escrever um discurso ou um ensaio em inglês, mas no que respeita à ficção é apenas em espanhol. Creio que a língua é como o sangue que corre em nós e todas as coisas importantes na vida acontecem-me em espanhol: sonho, rezo, cozinho e faço amor em espanhol. É tudo sempre em espanhol."

Nota-se que a escritora está feliz e que ri em vários momentos da entrevista, mesmo que ao comentar situações dramáticas dos imigrantes, por exemplo, acabe por chorar. A parte da felicidade explica facilmente: "Casei há três meses." Está tudo dito.Este romance é o mais recente passo de uma longa caminhada desde A Casa dos Espíritos. Tem sido um bom percurso?
Sim, posso dizer que tem sido muito bom. Escrevi 24 livros e sinto que contei muitas histórias que criaram uma grande ligação com os meus leitores, e de uma maneira que nunca esperei que acontecesse. Nem suspeitaria que tal pudesse vir a acontecer.

Este romance trata principalmente de refugiados e imigrantes. Era um tema que estava no seu plano?
Não estava, apesar de este tema dos refugiados estar no ar atualmente e ser um problema global. De qualquer modo, o meu interesse nesta questão não é de agora, já que os meus dois romances anteriores eram em função dos desalojados e dos imigrantes, dos que pedem asilo ou são refugiados.

Este é um tema próximo para uma mulher que já foi obrigada a mudar de país mais do que uma vez. Vê o mundo de uma forma mais clara?
Talvez tenha uma visão mais global do mundo porque viajo muito. Pessoalmente, sempre fui uma estrangeira: nasci no Peru, vivi no Chile, fui refugiada política após o golpe de Pinochet na Venezuela e agora sou imigrante nos Estados Unidos. Portanto, tenho sempre o sentimento de quase não pertencer a um lugar, estou sempre a recear que a qualquer momento a situação se altere e de ter de mudar de novo. No caso da tragédia dos refugiados, relaciono-me sempre a um nível emocional porque sou uma imigrante muito privilegiada: tenho documentos, vivo do meu trabalho, tenho uma família, uma fundação... A minha fundação trabalha com imigrantes que estão numa situação desesperada, pessoas que vêm da Nicarágua, de El Salvador ou da Guatemala, que fogem de gangues, de cartéis de droga, dos governos, de polícias e militares corruptos; pessoas que perderam a vida onde moravam e que vêm para os EUA e são paradas na fronteira em condições desumanas e colocam-lhes os filhos em jaulas. Isto é uma vergonha, mas está a acontecer e eu não sou capaz de aceitar esta situação.

A sua fundação não tem que ver com a situação das mulheres e o seu empoderamento?
Sim, esse era o primeiro grande objetivo da fundação, no entanto, como 80% dos refugiados no mundo são mulheres e crianças, é preciso agir. Antes eram os homens que imigravam para achar trabalho, agora são famílias inteiras, além de que muitas mulheres foram violadas e exploradas. Muitas vezes até são mortas ou desaparecem, e ninguém quer saber o que lhes aconteceu. Não são importantes.

Sente-se como imigrante também?
Eu sou uma imigrante, mas posso estar nos EUA sem problemas porque vivo lá há mais de 30 anos e tornei-me cidadã americana ao casar com um americano. O que não me impede de ver o que sofrem, de viverem com medo de ser deportados dos Estados Unidos.

Esta era Trump é também um perigo para os próprios americanos?
Estou certa de que este é um tempo terrível, mas irá passar porque já vivi o suficiente - tenho 77 anos - para saber que as situações aparecem e desaparecem. A mudança é da natureza da vida e do mundo! Tivemos 17 anos de ditadura no Chile, onde tudo era controlado pelos militares e parecia não haver esperança, mas tudo sempre terá um fim. Penso que esta era Trump é terrível para os EUA, deixará cicatrizes profundas na sociedade dividindo-a, criando ódios, racismo e misoginia, mas irá passar.


Isabel Allende.© Lori Bara

Os tempos no Chile também estão perigosos. Esperava esta turbulência no seu país?
Não. O Chile aparecia como o país mais estável da América Latina e era o paraíso deste continente a nível político, económico e de estabilidade. No entanto, essas estatísticas não mostram a ausência da distribuição da riqueza. Tem havido realmente mais criação de riqueza e desenvolvimento, mas apenas para algumas pessoas. Mais de 40% da população não pode pagar os serviços de água, eletricidade, saúde, educação e transportes, vive de crédito. Se for a um supermercado no Chile comprar comida para as refeições do dia, os estabelecimentos oferecem o poder pagar em três prestações com juros. O que se passa é que a maioria da população não está representada politicamente e ainda vive sob uma Constituição não democrática imposta por Pinochet em 1998. Esta raiva acumulada ao longo dos anos explodiu agora e foi uma surpresa para os políticos chilenos e para o mundo porque ninguém esperava a expressão dessa raiva.


"Não tenho um plano e não sei o que irei escrever no próximo ano. Começo a sentir nascer qualquer coisa na minha barriga e não no cérebro e essa sensação é que me traz a inspiração"

Uma crise que afeta a maior parte da América Latina, pois a Bolívia, a Venezuela e o Brasil também estão em ebulição.
Creio que tem que ver com o sistema económico que vigora no continente. Existia a ideia de que um sistema económico liberal criaria prosperidade e desenvolveria a iniciativa empresarial, que a concentração da riqueza não era um problema porque de alguma forma seria distribuída pela população - só que isso não aconteceu. Tal como não aconteceu nos EUA, onde 400 pessoas dominam a maioria da riqueza americana, fazendo que a classe média [a trabalhadora] não melhore as suas condições de vida.

Os seus três últimos romances têm que ver com situações de refugiados. Faz parte de um plano, ou simplesmente aconteceu?
Foi por acaso. Não tenho um plano e não sei o que irei escrever no próximo ano. Começo a sentir nascer qualquer coisa na minha barriga e não no cérebro e essa sensação é que me traz a inspiração. Habitualmente, tem que ver com qualquer coisa que está a acontecer no mundo, que não precisa de ser nesse momento, mas que sinto estar madura o suficiente para escrever sobre ela.

Os protagonistas Roser e Victor têm uma história tão complexa que daria para um segundo ou mais romances. Vai ficar por este?
O Victor foi inspirado por um amigo meu, Victor Pey, que me contou a história dos passageiros do Winnipeg porque foi um deles. Chegou ao Chile em 1939, viveu ali muitos anos e, quando houve o golpe militar em 1973, teve de voltar a exilar-se na Venezuela. Foi lá que o conheci, há 40 anos, e tenho trazido a sua história dentro de mim durante todo este tempo. Agora escrevi-a, depois de o questionar sobre muitos detalhes que nunca apareceram em livros de história, como os dos campos de concentração, das prisões, os exílios, do navio, e ele ajudou-me a criar o romance. Infelizmente, morreu seis dias antes de terminar o manuscrito. Ele tinha 103 anos e estava muito lúcido, mas com a sua morte acho que não serei capaz de voltar a escrever sobre ele.

Este romance é mais ficção ou realidade?
Há muita ficção, mas não tanto assim, porque os acontecimentos históricos são verdadeiros e os protagonistas são baseados em pessoas de verdade. Roser existiu mesmo, foi pianista e reitora de uma escola de música.

Isabel Allende com a capa do livro da edição espanhola.

Começa com uma personagem masculina, mas a maioria das importantes irão ser mulheres...
No entanto, há um casal que tem a particularidade de ver o mundo a partir de diferentes perspetivas e com uma história de amor muito interessante: começa com um casamento por conveniência, cresce numa amizade durante muitos anos e um dia descobrem, porque um deles pode morrer, que estão perdidamente apaixonados. Portanto, é o contrário das histórias de amor, onde primeiro apaixonam-se perdidamente, depois são amigos e no fim vivem um casamento de conveniência.

Este romance inspirará mulheres a lutar por uma vida própria e pelo que têm direito?
Não podemos generalizar porque depende das pessoas, também não pretendo passar uma mensagem ou querer mudar certas mulheres por colocar certas ideias nos livros - apenas conto histórias. O que me interessa são homens e mulheres que se confrontam com grandes obstáculos nas suas vidas e conseguem ultrapassá-los sem perder a compaixão e a capacidade para serem alegres e amar. Não preciso de as inventar porque quando olho à minha volta muitas das mulheres com quem trabalho na fundação são pessoas assim. Algumas ultrapassaram verdadeiras tragédias, foram violadas ou raptadas, perderam os filhos, e mesmo assim continuaram a viver e continuam a ser capazes de cantar e dançar. Isso é fantástico.


"Quando García Márquez crescia não podia ler os autores latino americanos porque eles não eram vendidos no seu pais"

Uma das personagens principais é o poeta Pablo Neruda. Não se preocupou com a reação bastante crítica dos movimentos feministas chilenos?
Sem a sua ideia e trabalho, a viagem do Winnipeg nunca teria acontecido, nem estas duas mil pessoas teriam chegado ao Chile, Penso que Pablo Neruda deve ser olhado de forma separada entre o seu comportamento em vida com as mulheres e o seu trabalho enquanto criador. Se não o fizermos, então teríamos de julgar o trabalho de todos os artistas, cientistas, filósofos, etc., e separar as pessoas do que criaram não funciona, ou teríamos de eliminar metade da cultura mundial.

Mas as feministas não pensam assim e querem justiça seja em que época for.
É verdade e compreendo esse desejo de as feministas mais novas quererem fazer uma revisão da história do ponto de vista feminista. Isso faz parte do processo, mas sei que estes julgamentos irão longe e voltarão atrás de novo até se encontrar um ponto de equilíbrio. Haverá uma altura em que ainda julgaremos Neruda porque violou uma mulher e pelas questões com a filha, mas não podemos esquecer quão grande poeta ele era nem a sua poesia.

Pertence à primeira geração de escritores latino-americanos que foram influenciados por outros escritores latino-americanos e não por estrangeiros. Qual foi a influência?
É verdade que quando García Márquez crescia não podia ler os autores latino-americanos porque eles não eram vendidos no seu pais. No Chile era difícil ler autores do México ou da Argentina, como Borges. Tudo isso mudou quando uma editora de Barcelona começou a publicar escritores latino-americanos e exportava livros para a América Latina, criando o boom da nossa literatura e mostrando ao mundo que esse movimento era um coro com muitas vozes.

Quando publicou A Casa dos Espíritos havia muitas mulheres a escrever na América Latina?
Sim. Mas a sua escrita não era respeitada nem era considerada como a dos homens. Na verdade, elas sempre escreveram, mas as suas vozes foram silenciadas, tanto que quando publiquei esse primeiro livro, e como foi um sucesso na Europa, as pessoas queria ler também livros de outras mulheres. Então, começaram a dizer que eu não pertencia ao boom, que este era só de homens, que eu era pós-boom. Desde então, muitas outras mulheres foram publicadas e também com sucesso, afinal, as mulheres leem mais ficção do que os homens e queriam ler livros escritos por mulheres. Principalmente porque mostravam o mundo sob uma perspetiva feminina e não, como estamos acostumados, ver o mundo sob o olhar masculino.

É a primeira vez que fala da Guerra Civil Espanhola...
... Sim, porque a história o exigia e eu tinha de explicar por que razões as minhas personagens tinham abandonado o seu país. O meu objetivo não é retratar a Guerra Civil, mas o que aconteceu com os refugiados do Winnipeg no Chile, só que era impossível não referir o conflito para o conseguir. E não escrevi antes porque não sou espanhola e há muitos deles a escrever sobre este tema. Atualmente, ainda saem dezenas de investigações todos os anos sobre a Guerra Civil, o que mostra que continua a haver muitos leitores interessados no tema. Muitos destes escritores têm pais ou avós que estiveram na guerra, o que a torna muito presente, portanto não vejo motivo para interferir num assunto que eles conhecem muito melhor.

Era fundamental entrevistar sobreviventes dessa viagem?

Completamente. Já escrevi vários romances históricos e alguns são tão no passado que é difícil ou impossível encontrar um testemunho pessoal, antes é preciso consultar cartas ou diários, porque não ouvimos a voz real dessas pessoas. Neste caso, alguns dos passageiros ainda estão vivos, como algumas crianças que viajaram e que ainda se lembram do que viveram.

Esses testemunhos reais não complicaram a escrita do livro?
Não, pelo contrário, ficou mais fácil porque nos dão o sentimento do que aconteceu e não existe uma distância como a dos livros de história, além de que é sempre uma voz masculina que conta a história e são sempre os vencedores a relatá-la. Onde estão os derrotados, as mulheres, as crianças e as vítimas? São essas que me interessam mais.
Longa Pétala de Mar

Isabel Allende
Porto Editora
391 páginas

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Aldina Duarte_Vendaval e Rosa Enjeitada ·





Vendaval · Aldina Duarte
Álbum: Roubados 
℗ 2019 SME Portugal, Sociedade Unipessoal, Lda.

Composer: Joaquim Pimentel
Guitar: Paulo Parreira 
Viola: Rogério Ferreira 
Mixing Engineer, Recording Engineer: Joaquim Monte

letra
O vendaval passou nada mais resta
A nau do meu amor tem novo rumo
Igual a tudo aquilo que não presta
O amor que me prendeu desfez-se em fumo

Navego agora em mar de calmaria
Ao sabor da maré em verdes aguas
Ao leme o esquecimento e a alegria
Vai deixando para trás as minhas mágoas

Para onde vou? Não sei
O que farei? Sei lá
Só sei que me encontrei
E que sou eu em fim
E sei que ninguém mais rirá de mim

Longe no cais ficou a tua imagem
Mal a distingo já, desmaicida
Comigo a alegrarem-me a viagem
Vão andorinhas de paz de nova vida

Sigo tranquilo, rumo da esperança
Buscando aquela paz apetecida
Para ti eu fui um lago de bonança
Ai e tu um vendaval na minha vida




Rosa Enjeitada · Aldina Duarte · Antonio Zambujo 
Roubados 
℗ 2019 SME Portugal, Sociedade Unipessoal, Lda.
Released on: 2019-11-01 
Associated Performer: Aldina Duarte feat. António Zambujo 
Guitar: Paulo Parreira 
Composer: José Galhardo 
Viola: Rogério Ferreira 
Composer: Raul Ferrão 
Mixing Engineer, Recording Engineer: Joaquim Monte

letra
Sou essa rosa, caprichosa, sem ser má
Flor de alma pura e de ternura ao Deus dará
Que viu um dia, que sentia um grande amor
E de paixão o coração estalar de dor
Rosa enjeitada
Sem mãe sem pão sem ter nada
Que vida triste e chorada
O teu destino te deu
Rosa enjeitada
Rosa humilde e perfumada
Afinal desventurada quem és tu?
Rosa enjeitada
Uma mulher que sofreu
Tão pobrezinha…

[versão integral]
Sou essa rosa, caprichosa, sem ser má
Flor de alma pura e de ternura ao Deus dará
Que viu um dia, que sentia um grande amor
E de paixão o coração estalar de dor

Rosa enjeitada
Sem mãe sem pão sem ter nada
Que vida triste e chorada
O teu destino te deu
Rosa enjeitada
Rosa humilde e perfumada
Afinal desventurada quem és tu?
Rosa enjeitada
Uma mulher que sofreu

Tão pobrezinha que ainda tinha uma afeição
Alguém que amava e que sonhava uma ilusão
Mas esse alguém por outro bem se apaixonou
E assim fiquei sem ele que amei e me enjeitou

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Bernardo Sassetti Trio - Historia de un Amor


Bernardo Sassetti Trio - Historia de un Amor [Canção Nr. VI] Songwriter - Carlos Eleta Almarán Album - Motion Year Released - 2010 Record Label - Clean Feed Records Personnel: Bernardo Sassetti - piano; Carlos Barretto - bass; Alexandre Frazão - drums


Teresa Tarouca_ 1942/2019

In Memoriam




Morreu a fadista Teresa Tarouca

Cantora tinha 77 anos e estava internada no Hospital São Francisco Xavier, devido a uma pneumonia dupla
2019-11-11 11:44/ AG





A fadista Teresa Tarouca morreu esta segunda-feira de madrugada, no Hospital S. Francisco Xavier, em Lisboa, aos 77 anos, vítima de pneumonia dupla, disse à agência Lusa fonte próxima da família.

O corpo de Teresa Tarouca estará em câmara ardente a partir das 19:00 na Basílica da Estrela, em Lisboa, estando o funeral marcado para terça-feira, segundo a funerária Servilusa.

No local onde decorre o velório, haverá, pelas 10:30 de terça-feira, uma missa de corpo presente, seguindo depois o funeral para o Crematório do Cemitério dos Olivais, também em Lisboa.

Nascida em janeiro de 1942, Teresa de Jesus Pinto Coelho Telles da Silva adotou o nome artístico de Teresa Tarouca, indo buscar um velho apelido de família.



“Testamento”, na década de 1960, “Mouraria”, “Deixa que te cante um fado”, “Saudade, silêncio e sombra”, “Meu bergantim”, “O resineiro”, "Fado, dor e sofrimento", "Passeio à Mouraria", "Ora bate, bate" contam-se entre os sucessos de Teresa Tarouca.


Oriunda de uma família ligada à música – é prima de Frei Hermano da Câmara e prima afastada de Maria Teresa de Noronha –, Teresa Tarouca começou a cantar aos 11 anos em espetáculos de beneficência, o que levou especialistas em música a considerarem-na a “menina-prodígio” da década de 1950.

No fado, estreou-se aos 13 anos, no Salão dos Bombeiros de Oeiras, tendo em 1958 recebido o Óscar da Imprensa, segundo o ‘site’ do Museu do Fado.

Em 1962, assinou o primeiro contrato de gravação, com a então editora RCA, e, em 1964, recebeu o prémio da Imprensa, ou Prémio Bordalo, na categoria Fado.

Cantou poemas e músicas de fados clássicos de autores como António de Bragança, João de Noronha, Alfredo Marceneiro, Pedro Homem de Mello, Francisco Viana, Maria Manuel Cid, Casimiro Ramos, João de Noronha, Nuno de Lorena João Ferreira-Rosa, Alda Lara, entre outros.


Teresa Tarouca foi a primeira fadista a cantar Fernando Pessoa.

Em 1973 foi convidada para o Festival RTP da Canção, em cuja primeira parte interpretou “Cai chuva do céu cinzento”, fado que criou com letra do autor de “Mensagem”.

Durante a sua carreira artística, a fadista apresentou-se em palcos de vários países, nomeadamente, Dinamarca, Bélgica, Espanha, Estados Unidos da América, Brasil e em Macau.

Em 1989, foi editado o disco “Tereza Tarouca canta Pedro Homem de Mello”, trabalho considerado emblemático na carreira da fadista.

Em maio de 1994 comemorou os 33 anos de carreira no Teatro Tivoli, em Lisboa, tendo continuado a cantar com regularidade.

Em 1996, atuou no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, e em 2003, no restaurante e casa de fados “Velho Páteo de Sant´Ana”, em Lisboa, onde foi fadista residente.

Em 1997, participou como "Atração de Fado" na revista “Preço Único”, no Teatro ABC, ao Parque Mayer, e, um ano depois, participou no musical “Fado… Esse malandro vadio”, de João Núncio com encenação de Francisco Horta.


Em junho de 2013, o então Presidente da República Cavaco Silva atribuiu-lhe o grau de comendadora da Ordem do Infante D. Henrique.

A última atuação de Teresa Tarouca em público data de outubro de 2013, durante a VIII Gala Amália, no Teatro S. Luiz, em Lisboa, recebeu o Prémio Amália de Carreira.

in: TVI24

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Jazz_Charles Lloyd

"às vezes a vida lembra que ainda há beleza neste mundo"


Charles Lloyd & The Marvels with Bill Frisell - 2016-01-30 set 2 - Lincoln Center, New York, NY

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Carole Cadwalladr_ Brexit

O papel do Facebook no Brexit — e a ameaça à democracia


"Numa palestra imperdível, a jornalista Carole Cadwallard aborda um dos acontecimentos mais desconcertantes da actualidade: a votação super renhida para a saída do Reino Unido da União Europeia. Investigando os resultados até chegar a uma imensidão de anúncios falaciosos no Facebook, dirigidos a eleitores indecisos e vulneráveis — e ligando os mesmos jogadores e as mesmas táticas às eleições presidenciais dos EUA em 2016 — Cadwalladr acusa os "deuses de Silicon Valley" de estarem do lado negro da história e pergunta: Serão as eleições justas e livres uma coisa do passado?

In an unmissable talk, journalist Carole Cadwalladr digs into one of the most perplexing events in recent times: the UK's super-close 2016 vote to leave the European Union. Tracking the result to a barrage of misleading Facebook ads targeted at vulnerable Brexit swing voters -- and linking the same players and tactics to the 2016 US presidential election -- Cadwalladr calls out the "gods of Silicon Valley" for being on the wrong side of history and asks: Are free and fair elections a thing of the past?" in: https://www.ted.com/

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

"Vemos, ouvimos e lemos"_ de outro blog

DAQUI:, com a devida vénia:

Vemos, ouvimos e lemos



«Sou médica e regressei recentemente do Mediterrâneo Central onde me juntei aos esforços da sociedade civil nas missões de resgate e salvamento. Espero que as minhas perguntas vos sejam de resposta tão fácil como a facilidade com que votaram: Sabem quanto tempo demora um dinghy/bote de borracha a desinsuflar? Uma pessoa a afogar? Um coração a deixar de bater? Sabem quão assustador é assistir à voz a perder-se? O corpo a deixar de lutar? O mar a engolir o que resta? O silêncio a substituir os gritos, a morte a substituir a vida? (...) Sabem quão escuro pode ser o mar à noite? Quão solitário? Quão doloroso o abandono? Quão doloroso o silêncio do mundo que assiste inerte? Sabem qual é a sensação de tirar uma pessoa da água? Salvá-la como se estivesse salva para sempre? Sabem qual é a sensação de fazer isso e haver vozes que te tentam convencer que o que fizeste é um crime, errado, punível? Sabem o que é estar desesperado a tentar retirar da água o maior número de pessoas possível enquanto a milícia (também chamada por alguns de guarda-costeira) líbia aponta armas de fogo na tua direcção? Sabem quem pagou essas armas? Esses barcos? Essa “solução"?»

Ana Paula Cruz, Carta aos eurodeputados Nuno Melo, Álvaro Amaro e José Manuel Fernandes

«Quando se tranca a porta de um contentor frigorífico, as pessoas que lá estejam dentro correm o risco de morrer em poucas horas, de frio se a refrigeração estiver ligada, ou sufocadas se não estiver. Do mesmo modo, quando dezenas de pessoas embarcam num bote de borracha sobrelotado e com pouco combustível, correm sérios riscos de não chegar ao destino ou de acabar atiradas ao mar. (...) O que é incompreensível é a abordagem da Europa ao fenómeno. A UE não adere ao espírito dos protocolos da ONU e não separa claramente o tráfico de seres humanos da ajuda humanitária a pessoas traficadas. A Directiva 2002/90/CE do Conselho, de 28 de Novembro de 2002, usa um conceito que nos envergonha e permite criminalizar não apenas o crime organizado e o tráfico mas até a ação humanitária. (...) Para 24 países da União Europeia (até ao Brexit) salvar uma pessoa da morte no mar e entregá-la em terra por razões humanitárias é um crime equiparável a atirá-la para ganhar dinheiro para um camião ou um barco da morte. Há coisas em que a Europa nos envergonha.»

Paulo Pedroso, Os camiões e os barcos da morte. Há coisas em que a Europa nos envergonha

«Poucas votações me ficaram tão presas na pele como esta que hoje, quinta-feira, decorreu no plenário em Estrasburgo. Tratou-se do voto sobre a criação de mecanismos europeus de protecção de vidas no Mediterrâneo. Foi uma negociação longa que colmatou numa votação também ela longa e muito dividida. Quando todas as emendas ao texto proposto já tinham ido a votos e chegámos ao voto final, aconteceu o impensável na minha cabeça. A proposta de salvar vidas foi chumbada por dois votos, 290 contra 288. Um murro no estômago, um nó na garganta. Pensei para comigo: há mesmo uma maioria de representantes que quer que continuem a morrer pessoas no Mediterrâneo? Ainda não recomposta, a bancada da extrema-direita celebrou e gritou entusiasticamente o resultado final. Do outro lado do hemiciclo, silêncio e impotência. A maioria tinha mesmo decidido que quem se faz ao Mediterrâneo não deve ter acesso a salvamento ou resgate, que nenhuma das vidas perdidas contou.»

Marisa Matias, As vidas dos outros

«É uma atitude muito cristã, esta de deixar morrer pessoas no Mediterrâneo. Nuno Melo acha que se os refugiados fossem pessoas com boas intenções sabiam andar sobre a água. Só falta arranjar um barco do CDS para batizar as pessoas enquanto se afogam. Imagino que o Nuno Melo tenha um esgotamento se vir uma mulher grávida num bote. É contra a interrupção da gravidez, mas não ao ponto de salvar a senhora de morrer afogada. Provavelmente é deixá-la afogar-se e depois levá-la a tribunal. É gente que vai às manifestações pró-vida, mas só de fetos. O embrião é vida; o refugiado é demasiado grande para eles terem pena. Uma coisa é o que se vê numa ecografia; outra o que não vemos porque está lá em alto-mar.»

Bruno Nogueira, Melos aos refugiados



POSTADO POR NUNO SERRA ÀS 31.10.19
QUINTA-FEIRA, 31 DE OUTUBRO DE 2019

terça-feira, 29 de outubro de 2019

Livro_Em tudo havia beleza, Manuel Vilas



Germano Oliveira
Editor online, in:"Expresso Curto"

"O que eu ando a ler

Um dia disseram-me na escola que o Bruno Pinto tinha morrido, eu nem 10 anos tinha e ele também não, eu adorava o Bruno e o vício dele de comer fatias de fiambre enquanto jogávamos Mega Drive, eu só conhecia o paladar do fiambre dentro do pão e desconhecia quão melhor sabia dentro de nada, o Bruno ensinou-me isso e hoje parece-me uma metáfora esmagadoramente simples sobre tudo o que desperdiçamos na vida quando não fazemos coisas diferentes com as coisas que temos, hoje parece-me também um eufemismo simplesmente esmagador sobre as pequenas coisas rotineiras que nos fazem tanta falta quando perdemos essa coisa maior que são as pessoas das nossas vidas.

Explicaram-me que ele tinha morrido no hospital: nós vimos a ambulância levar o Bruno da escola, ele estava no recreio quando bateu com a cabeça, caiu mal, logo ele que vivia tão bem, mas afinal o Bruno estava vivo, a morte dele durou duas horas, o enfermeiro trocou nomes e enganou o diretor da escola, não se faz, e consequentemente a professora tinha enganado a turma, não o queria fazer, e quando o Bruno entrou na aula no dia seguinte parecia um anjo, acho que houve palmas, e quando o Bruno se sentou na carteira parecia só o meu amigo, acho que ele disse uma piada, o Bruno era engraçado.

Escrevo sobre ele porque foi a primeira pessoa importante da minha vida que morreu e a única dessas todas que ressuscitou, é a minha melhor história sobre a segunda oportunidade que desejamos tão desesperadamente quando já só conseguimos ressuscitar memórias: “Nalgumas tradições culturais, ou pelo menos na que me calhou, falar de um morto supõe um forte e áspero grau de despudor. De maneira que fiquei sozinho com o meu pai. E eu sou a única pessoa neste mundo (...) a lembrar-se dele diariamente. E a contemplar o seu desvanecimento, que acaba por se transformar em pureza. Não é que me lembre dele diariamente, é que ele está em mim de forma permanente, é que me retirei de mim mesmo para lhe dar espaço”. Manuel Vilas, que escreveu este “Em Tudo Havia Beleza” de onde vem a citação, tem histórias melhores que a minha mas sem segundas oportunidades - publicou um diário violento e não ficcionado sobre o desamparo irreparável que é a morte de uma das fontes de tudo, um pai, o meu pai, o seu pai, do pai que se ama incondicionalmente mas que condiciona a nossa maneira de amar, e de um filho, você, eu, que descobre no próprio carácter o carácter do pai:

“Um dia o meu pai deixou de se preocupar com o seu carro, um Seat Málaga antigo. Sempre se angustiara obsessivamente com o seu carro, com cuidar dele, com tê-lo sempre em perfeito estado. Abandonou-o numa garagem e deixou de conduzir. Fui eu próprio ver o carro, e estava cheio de pó. Disse-lhe: ‘Papá, o carro está cheio de pó’.

Olhou para mim, e parecia que isto sim lhe causava mossa.

‘Era um bom carro, faz o que quiseres com ele’, disse-me.

Ao desligar-se do seu carro, percebi que o meu pai ia morrer em breve; percebi que aquilo era o fim.

Foi um dos momentos mais tristes da minha vida, o meu pai estava a dizer-me adeus por interposta máquina.

Em vez de me dizer ‘temos de falar, isto está para acabar’, disse-me ‘era um bom carro’. Meu Deus, que maravilha. Viesse de onde viesse o espírito do meu pai, estava tocado pelo dom da elegância, pelo dom do inesperado, pela ingénua originalidade.

Pelo estilo.

Sentei-me numa cadeira da cozinha e fiquei a olhar para ele. Fiquei muito nervoso. Muito angustiado. Só eu em todo o universo sabia o que significavam aquelas palavras, ‘faz o que quiseres com ele’.

Estava a dizer-me algo devastador: ‘Faz o que quiseres comigo, não percebo o teu amor’.

Não percebo o teu amor.

Não te amei o suficiente, nem tu a mim.

Fomos malditamente iguais”.


Mas ser maldito é uma honra, não sê-lo também:

“O meu pai morreu com setenta e cinco anos, viverei eu mais anos do que o meu pai? Estou convencido de que viverei menos, ou talvez precisamente os mesmos anos: setenta e cinco. Mas acho que não, que partirei antes. Parece-me uma descortesia vivermos mais anos do que o nosso pai viveu. Uma deslealdade. Uma blasfémia. Um erro cósmico. Se vivermos mais anos do que os que viveu o nosso pai, deixamos de ser filhos, é a isso que me refiro. E, se deixarmos de ser filhos, somos nada”.

Pai e mãe: se os seus ainda estão vivos, e que vivam para sempre, torne-se repórter da sua família e pratique jornalismo da intimidade - pergunte-lhes o que não sabe da vida deles, faça-o hoje, daqui a pouco, agora, já, pode ser jornalismo de investigação, “mãe, o que é que lamentas nunca ter feito?”; pergunte-lhes o que não sabe das descobertas deles, pode ser jornalismo musical, “pai, when love is gone, where does it go?”. A informação aqui não é poder, é afeto. Pai e mãe: se perdeu um ou os dois, torne-se romancista, imagine grandes acontecimentos, paixões, amores, desgostos, erros, conquistas, fábulas, tragédias, contrições e contradições na existência deles. A imaginação aqui não é mais importante que o conhecimento, é saudade. Somos tantas vezes tão pouco curiosos sobre eles e que erro isso é e arrependimento será, eu sou um arrependido e o Manuel Vilas igual: “A morte dos nossos pais é abjeta, é uma declaração de guerra que a realidade nos faz. (...) Enfim, seja como for, a única coisa óbvia é que, se tiveres de perguntar algo a alguém, fá-lo logo. Não esperes por amanhã, porque o amanhã é dos mortos”. E não costumam ressuscitar como o meu Bruno."

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Em tudo havia beleza




Manuel Vilas

Penguin Random House Grupo Editorial Portugal, 01/03/2019


A história profundamente íntima e comovente de um homem que procura no passado o caminho para regressar ao presente.


"Melhor Livro do Ano" El País * El Mundo * El Heraldo * La Vanguardia


Manuel Vilas compõe, com uma voz corajosa, desencantada, poética, o relato íntimo de uma vida e de um país. Simultaneamente filho e pai, autor e narrador, Vilas escava no passado, procurando recompor as peças, lutando para fazer presente quem já não está. Porque os laços com a família, com os que amamos, mesmo que distantes ou ausentes, são o que nos sustém, o que nos define. São esses mesmos laços que nos permitem ver, à distância do tempo, que a beleza está nos mais simples gestos quotidianos, no afecto contido, inconfessado, e até nas palavras não ditas.


Falando desde as entranhas, Vilas revela a comovente debilidade humana, ao mesmo tempo que ilumina a força única da nossa condição, a inexaurível capacidade de nos levantarmos de novo e seguirmos em frente, mesmo quando não parece possível. É desenhando um caminho de regresso aos que amamos que o amor pode salvar-nos.


Confessional, provocador, comovente, Em tudo havia beleza é uma admirável peça de literatura, em que se entrelaçam destino pessoal e colectivo, romance e autobiografia. Manuel Vilas criou um relato íntimo de perda e vida, de luto e dor, de afecto e pudor, único na sua capacidade de comover o leitor, de fazer da sua história a história de todos nós.


Os elogios da crítica:

«Um livro magnífico, que é uma obra de arte sobre a vida. Mas não se sobressalte o leitor ou a leitora se, de vez em quando, tiver de suspender a leitura - para respirar, ir à janela olhar a rua, fumar um cigarro, procurar os seus mortos, como ele fazia. Voltará com ele. Porque a grande literatura é assim.»

Fernanda
 de Abreu, Jornal de Letras

«Um retrato pessoal, que no fundo é um espelho muito bem conseguido da condição humana. Pelo estilo e pelo destemor, merece a mais alta das notas."


Nuno Costa Santos, Observador

«Magnífico, corajoso, vai partir-vos o coração.»



Javier Cercas

«Um livro que nasce da perda e, ao mesmo tempo, da luminosidade do amor.»


La Vanguardia

«Uma narrativa que chega ao coração da verdade e faz da vida de uma personagem um ensinamento universal.»


El País

«Uma confissão bela e autêntica, uma tentativa do autor de salvar a sua própria família através da verdade de um livro extraordinário.»


La Razón

«Este é um livro escrito com uma clareza e uma força portentosas. Nenhuma retórica, nenhuma mentira.»


El Mundo

«Um monumento de carne e nervos. O mais importante deste livro é o seu tratamento descarnado de uma história, das quedas do próprio autor, dos seus pais perdidos, dos seus filhos, da sua hesitação num mundo de costas voltadas para a literatura. O importante é que todos temos um caminho de regresso a um lugar de amor, que começa a desenhar-se enquanto a vida nos obriga a olhar para outro lado.»


Diário de Córdoba

«Ninguém deve deixar de ler este livro. É o livro do ano, num ano de grandes livros. O amor como cura. A pobreza como doença. A literatura como poção.»


Luisgé Martín

«Basta ler a primeira página para perceber que aquele grito de socorro vem do mais fundo de nós. O livro reclama-nos, porque, de certo modo, além de seus protagonistas, somos também seus autores. Descreve com palavras novas, ordenadas de forma insólita, aquilo que fomos e aquilo de que pretendíamos salvar-nos. E isto através de uma prosa que vai e vem num movimento hipnótico, que alterna a ferocidade com a piedade, o sim com o não, o agora com o ontem.»


Juan José Millás

«Um livro belíssimo e arrebatador, composto em partes iguais de culpa, raiva e amor.» Ignacio Martínez de Pisón



«É necessária muita precisão para contar estas coisas, é necessário o ácido, a faca afiada, o alfinete que fura o balão da vaidade. O que fica no final é a limpa emoção da verdade e o desconsolo de tudo o que se perdeu.»

Antonio Muñoz Molina


«Livro potente, sincero, por vezes descarnado, sobre a perda dos pais, sobre a dor das palavras não ditas e sobre a necessidade de amar e ser amado. Além de tudo isto, muito bem escrito.»

Fernando Aramburu


«Um livro belo, tão selvagem como delicado, que faz doer e oferece alívio ao mesmo tempo.»

Isaac RosaMais »

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Acerca do autor (2019)

Manuel Vilas é um premiado poeta e narrador espanhol nascido na Galiza (Barbastro, 1962). Entre os seus livros de poesía destacam-se El cielo (2000); Resurrección (2005; XV Premio Jaime Gil de Biedma); Calor (2008; VI Premio Fray Luis de León); Gran Vilas (2012; XXXIII Premio Ciudad de Melilla) e El hundimiento (2015; XVII Premio Internacional de Poesía Generación del 27). A sua poesia reunida publicou-se em 2010 com o título Amor, e a antologia Poesía completa saiu em 2016. É autor dos romances España (2008), que foi eleito pela revista literária Quimera como um dos dez romances mais importantes da primeira década do século XXI; Aire Nuestro (2009), distinguido com o Prémio Cálamo; Los inmortales (2012) e El luminoso regalo (2013). Também é autor de livros de contos e crónicas.

Além dos prémios citados, venceu o Premio Llanes de literatura de viagens, e o Premio de Las Letras Aragonesas, em 2015. A sua obra poética e narrativa figura nas principais antologias espanholas. Escreve habitualmente na imprensa espanhola.

Em tudo havia beleza (publicado em Espanha com o título Ordesa) é o seu mais recente romance e o primeiro a ser publicado em Portugal.

Informação bibliográfica



Título

Em tudo havia beleza


Autor

Manuel Vilas


Editora

Penguin Random House Grupo Editorial Portugal, 2019


ISBN

9896657572, 9789896657574



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Público


MANUEL VILAS
“A felicidade é um pacto que se faz com a vida”
Após a morte dos pais e com a vida a desmoronar-se, o espanhol Manuel Vilas escreveu um romance em busca de redenção. Em tudo havia beleza é um livro autobiográfico, uma crónica de uma Espanha que já não existe, e uma longa carta de amor.
JOSÉ RIÇO DIREITINHO19 de março de 2019





FotoMIGUEL MANSO


O poeta e escritor espanhol Manuel Vilas (n. 1962) meteu ombros à tarefa de ordenar o seu passado para ter condições de viver o futuro. A sua vida desmoronava-se quando a mãe morreu: divorciara-se, o álcool passara a ser uma das coisas mais importantes da sua rotina, e deixara o emprego. A cabeça sentia o abismo em que a vida se transformara. Com os pés junto ao precipício decidiu reconstruir os seus então 50 anos de vida, ordenando-os, escrevendo um livro em busca da redenção. Mas esse livro — Em tudo havia beleza, acabado de publicar pela Alfaguara, e considerado em Espanha um dos melhores romances de 2018 — não foi apenas essa tentativa de se recompor. Mas já lá iremos.


De passagem por Lisboa, Manuel Vilas falou com o Ípsilon, e confessou, entre sorrisos: “Poderia ter ido a um psiquiatra ou a um psicanalista, mas escolhi escrever um livro e saiu-me mais barato. Escrevê-lo foi uma catarse no sentido em que a literatura clássica grega a define: dar um nome ao que nos causa dor, e com esse processo encontrar a cura.” Em tudo havia beleza é uma reconstrução fragmentada — uma sucessão caótica de memórias que surgem quase aleatoriamente — do seu passado, e sobretudo das histórias de vida dos pais numa Espanha que já não existe.





Em tudo havia beleza

Autoria: Manuel Vilas
(Trad. Vasco Gato)
Alfaguara
Ler excerto


Nos últimos anos, e um pouco por todo o lado, têm surgido romances escritos na primeira pessoa, assumidos como “retratos verdadeiros” do que realmente aconteceu. Chegam como se os escritores tivessem perdido o pudor de se exporem e de se manterem escondidos por detrás daquela cortina, mais ou menos transparente, a que se chama ficção — talvez o caso mais exemplificativo e conhecido, pelo número de leitores que teve, seja a obra em seis volumes do norueguês Karl Ove Knausgård, A Minha Luta. Para Manuel Vilas, as razões desta “onda”, que oscila entre a chamada autoficção e o romance biográfico, poderão ser várias, mas que a principal, pelo menos em Espanha — Vilas não foi o único autor a fazê-lo nos anos recentes — é de natureza sociológica.

“Acho que em Espanha tem a ver com a classe média. O meu pai não pôde estudar, mas eu fi-lo. O meu pai não lia livros, e eu não só os leio como os escrevo. Daí surge uma necessidade de contar a história. Como foi possível que tendo vindo de uma classe social onde não havia livros, se tenha começado a escrevê-los? Há muitos escritores que contaram as suas histórias e as da família por esta vontade de explicarem a sua origem social. Há uma espécie de necessidade sociológica de fazer isto. Não tive pudor em me expor porque o sentimento que domina o livro é o amor, se fosse ódio ou ajuste de contas seria diferente.” E acrescenta, ainda a propósito do escritor norueguês referido acima: “Penso que com ele [Knausgård] também havia, em parte, essa necessidade sociológica. Logo no primeiro volume, A Morte do Pai (Relógio d’Água, 2014), ele tenta explicar a família, a história de vida da avó, do pai, a separação dos pais. A família é a origem de todos nós, todos temos lá as grandes referências que marcaram a nossa vida.”
Manuel Vilas, com os pés junto ao precipício, decidiu reconstruir os seus então 50 anos de vida, ordenando-os, escrevendo um livro em busca da redenção. Ordenou o seu passado para ter condições de viver o futuro MIGUEL MANSO

Mas Manuel Vilas não concorda que o seu romance seja incluído nesta nova “prateleira” denominada autoficção, mas antes naquela dos romances autobiográficos. Apesar de confessar que a sua narrativa tem de maneira inevitável algumas partes ficcionadas, apenas para lhe dar forma, considera que a diferença entre as duas categorias passa pela distinção entre invenção (para a primeira) e confissão (para a segunda). “O que se conta no livro é verdadeiro, aquelas fotos que incluí são verdadeiras, são do meu pai e da minha mãe. Eu sou o que se divorcia, o que deixa o seu trabalho, é tudo autobiográfico. Mas isso não significa que não haja nele alguma ficção. Quando se quer falar na nossa vida, escolhemos um ponto de vista, e nisso há sempre muita subjectividade.”

Manuel Vilas é também um reconhecido poeta — tem mais livros de poesia publicados do que livros de ficção. Não admira, portanto, que a sua linguagem narrativa se aproxime muito da linguagem poética, no entanto sem nunca se confundirem — o epílogo do romance, esse sim, é constituído por uma sequência de uma dúzia de bons poemas. Mas, dada a natureza do material narrativo, havia sempre o risco (e isso percebe-se bem pela leitura de algumas partes do romance) de a escrita resvalar para um registo “lamechas”, a fronteira entre uma coisa e outra é ténue e permeável — tal não aconteceu. Manuel Vilas mostrou-se consciente desse risco: “Não me interessava escrever um romance lírico, mas sim utilizar o trabalho da poesia na linguagem, mas para contar uma história. Sentia que eram maiores os riscos de contar uma narrativa pessoal, da minha própria vida, do que os de cair num registo lamechas, ou mesmo piroso. Mas eu tinha uma necessidade de contar esta história, e isso acabou por se sobrepôr aos riscos.”

Uma carta de amor

FotoMIGUEL MANSO

Em tudo havia beleza é um trabalho literário de enorme fôlego, numa linguagem precisa e sem ademanes estilísticos, uma narrativa ao mesmo tempo corajosa e desencantada. De certa forma, vai-se construindo contra a ideia canónica de romance: não há nele uma linha narrativa, e no seu lugar surgem factos que preenchem uma obsessão que se vai tornando recorrente e que ao meu tempo vai surgindo como estilo. Logo nas primeiras páginas do livro, como que para dar o tom das centenas de páginas que se seguem, há um exemplo desse desassombro com que Vilas nos vai confrontar, mas sem nunca cair num pessimismo oco: “O meu pai fez o que pôde com Espanha: arranjou um trabalho, trabalhou, formou família e morreu. E há poucas alternativas a estes factos.” E é essa Espanha em que os seus pais nasceram, cresceram e viveram, que o autor retrata quase sempre em tons melancólicos. Este romance tem uma profunda dimensão sociológica ao fazer um retrato desse país cinzento que já não existe, e sobretudo da vida nas décadas de 1950, 60, 70. É também uma crónica dos anos da ditadura franquista. O tom melancólico da escrita é o tom de uma ausência.

“Tinha que falar destes tempos porque os meus pais viveram nesses tempos. Não é melancolia por essa Espanha que já não existe, mas sim pelos meus pais que a viveram. Era uma Espanha muito cinzenta, havia uma ditadura. Eu cresci em democracia, pude ir à universidade, ler livros, viajar. O meu pai não pôde fazer nada disso. Mas isso não significa que eu seja mais feliz do que ele.”

A questão da natureza da felicidade, daquilo que realmente precisamos para ser felizes, é recorrente ao longo do romance, ora de maneira explícita, ora subjacendo a pensamentos mais ou menos elaborados. E no fim, Vilas tenta defini-la: “A felicidade é um pacto que se faz com a vida.”

Disse no início deste texto, que Em tudo havia beleza não era apenas uma tentativa de redenção por parte do autor. É ainda um “manual de sobrevivência” à perda daqueles que amamos, com os seus exercícios de memória, o procurar lembranças onde elas parecem já não existir, com o acto de as tentar verbalizar (nisto assemelha-se em parte à técnica psicanalítica) tornando-as vívidas e assim as reconstruindo (embora de modo fragmentário) ao mesmo tempo que também o indivíduo se reconstrói. “É mais importante a minha vida escrita no livro do que aquilo que vivi. É um dos mistérios da literatura. Quando se escreve uma memória ela fica mais tangível, ganha uma outra existência. A memória amplia-se.” E, como referiu ainda Manuel Vilas, este romance é também uma longuíssima “carta de amor”: “Ficam sempre coisas por dizer àqueles de quem gostamos. E a tragédia está em que chegamos a uma altura em que já não há tempo nem oportunidade. E então escreve-se um livro, que é a única maneira de dizer tudo. Sim, este livro é uma carta de amor.” É o expiar da culpa pelo não-dito, o exorcizar os efeitos do facto de se ter podido fazer mais.

A narrativa de Em tudo havia beleza parece assentar na ideia de que só existimos em relação com os outros, não apenas a família, mas aqueles com quem nos relacionamos: são eles que dão uma espécie de aval para que “as coisas corram bem”. A existência como luta para nos posicionarmos no mundo. “A estima dos outros acaba por ser a única cédula da nossa existência. A estima é uma moral, molda os valores e o julgamento que existe sobre nós, e a nossa posição no mundo emana desse julgamento. É uma luta entre o corpo, o nosso corpo, onde mora a vida, e o valor do nosso corpo para os outros. Se as pessoas nos cobiçarem, se cobiçarem a nossa presença, a coisa há-de correr-nos bem.” (pág. 16)

Foi um dos romances mais elogiados em Espanha e mereceu boa recepção por parte dos leitores. Uma das razões do sucesso comercial (qualidade literária à parte) foi, para o autor, o facto de ter contado uma história de gente comum que sempre fez coisas comuns e anódinas. “Houve uma identificação dos leitores com este pai e com esta mãe, de uma forma ou de outra, em Espanha.”

A necessidade de amar e de ser amado, algo que espoletou a escrita deste livro, corre nele a par de uma luta contra o esquecimento e a morte. A condição da mortalidade é a condição humana, e Manuel Vilas tem-na agora bem presente: “Quando a minha mãe morreu, eu dei-me conta de que era também mortal, e que pela ordem natural das coisas, serei o próximo, aquele que já tem os dias contados.”

in: jornal "Público"






quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Um adeus catalão_ OPINIÃO


OPINIÃO
Um adeus catalão


Pedro Ferré
"OPINIÃO
Um adeus catalão


Espanha, convertendo-se cada vez mais na Sérvia do Ocidente, não conseguiu ainda perceber o problema. O seu nacionalismo cego faz com que esconda a cabeça, qual avestruz, e diga que o nacionalismo é propriedade privada dos outros: os que não querem ser nacionalistas espanhóis.
22 de Outubro de 2019, 6:16

Espanha, convertendo-se cada vez mais na Sérvia do Ocidente, não conseguiu ainda perceber o problema. O seu nacionalismo cego faz com que esconda a cabeça, qual avestruz, e diga que o nacionalismo é propriedade privada dos outros: os que não querem ser nacionalistas espanhóis.
22 de Outubro de 2019, 6:16

Num momento de paixão e de dor profunda – para não falar de revolta –, onde os mais vivos sentimentos vêm à flor da pele, exijo-me a mim próprio um mínimo de serenidade. Pretendo também advertir o leitor que, pese embora o meu discurso remeta para factos, não me conseguirei furtar às minhas posições ideológicas, o que inevitavelmente sempre acontece a todos os cronistas, ainda que muitos o pretendam escamotear. Acresce que neste momento se vive sob uma enorme pressão internacional do Estado do Reino de Espanha que, através das suas embaixadas, compele os meios de opinião pública a que seja veiculado o ponto de vista oficial de tudo quanto está a ocorrer, tentando abafar as razões profundas do sentimento de desprezo ou mesmo de repressão sentido pela nação catalã. Mas, porque o espaço não é muito e da paciência do leitor não se deve abusar, tentarei ser minimalista nas razões que pretendo expor nas seguintes linhas.

1. Em primeiro lugar, principalmente a partir da brutal repressão sobre o referendo de 1 de Outubro de 2017, ordenada pelo Estado e aceite sem reservas pelo nacionalismo espanhol (não esqueçamos como as forças da Guardia Civil eram aplaudidas à saída de certos quartéis com palavras de ordem como “A por ellos”, isto é, “Vamos a eles”), a Espanha mais profunda, incluindo muitos militantes e políticos do PSOE, sustentava as suas razões baseando-se em questões históricas, civilizacionais e políticas. Historicamente esquecia-se que a formação do Reino de Espanha fora sempre uma questão muito complexa. Pela força das armas, Castela foi-se sobrepondo aos restantes territórios peninsulares, criando-se, durante séculos, a ideia de uma mítica Espanha (que nação sem profundas questões identitárias sente a necessidade de constantemente se afirmar como nação ou mesmo afirmar, como o próprio presidente do Governo Mariano Rajoy, que “Espanha era a nação mais antiga da Europa"?). Ao mesmo tempo era forjado um dos mais chamativos argumentos, afirmando-se que a Catalunha nunca fora independente. Será que alguém de boa-fé pode esquecer que a Catalunha nasceu, ao contrário das restantes nações peninsulares, por uma actuação estrangeira, constituindo-se como a Marca Hispânica carolíngia (séc. VIII) e que dela derivaram os condados catalães subordinados ao Conde de Barcelona? Será que alguém de boa-fé pode esquecer que, quando a Catalunha se juntou ao reino de Aragão, o fez mediante o casamento de uma infanta aragonesa e do Conde de Barcelona, em 1150, e que desde essa data até 1410 a dinastia da casa de Barcelona reinou sobre Aragão, Valência, Maiorca, Perpinhão, Rossilhão, Córsega, etc.?


2. Acresce que, a propósito do chamado Procés, isto é, o recente processo de autodeterminação catalã, se tentou passar a ideia de que este sentimento era fruto de um conjunto de ideólogos contemporâneos que, aproveitando-se da recente crise da Europa, apelava de forma egoísta à separação, esquecendo por ignorância ou má-fé que, desde o último monarca da dinastia catalã, no reino de Aragão, o partido ‘catalanista’ procurou sempre retomar o poder – preocupado, primeiro, com o apogeu bélico e, mais tarde, económico – de Castela. Assim, e seguramente muito portugueses não o saberão, um príncipe português, o Condestável D. Pedro, filho do infante D. Pedro e de uma catalã (Isabel de Urgell), morreu em Granollers (Barcelona) a 29 de Julho de 1466, por ter sido chamado pelas instituições barcelonesas para defender a monarquia de linhagem catalã, no reino de Aragão, contra a dinastia castelhana dos Trastámaras. Mesmo quando os reinos de Aragão e de Castela se aproximaram politicamente, com o casamento de D. Fernando de Aragão e de D. Isabel de Castela, em 1469, as leis e a moeda, por exemplo, continuaram separadas (a conquista da América, por exemplo, era empresa exclusivamente castelhana) até que, em 1714, Felipe V arrasa Barcelona e, de facto, cria, pela força das armas, uma Espanha com as fronteiras que de certo modo corresponderão às dos nossos dias. Pelo exposto, a “nação mais antiga da Europa” vê, deste modo, drasticamente reduzido o período da sua existência. Cabe, por fim, destacar que, desde o século XV até aos nossos dias, o sentimento de autodeterminação catalã foi uma constante: a chamada “Guerra dos Segadores”, contemporânea dos sucessos ocorridos em Portugal, em 1640 (que conduziram este país à sua definitiva independência, recordo), chegou a proclamar, em 1641, a República da Catalunha; ou ainda a guerra de Sucessão (1710-1714), cujo fim, como já disse, correspondeu a uma das mais dramáticas repressões sobre a sociedade catalã; sem esquecer, também, um sentimento secessionista ao longo dos séculos XIX e XX que culmina, na segunda República Espanhola (1931-1936), com uma brevíssima independência de horas em 1934, por Lluís Companys, anulada pelas tropas fiéis ao unionismo.

3. Após breves tópicos de História, na qual, como se viu, este sentimento identitário tem profundas raízes, comecemos a centrar-nos em questões mais recentes. De facto, após uma pacificação alcançada após a morte de Franco e de certa forma reforçada pela Constituição de 1978 (redigida em condições muito especiais e com limitações contextuais óbvias), a Catalunha recupera uma importante autonomia que fazia supor anos, senão séculos de profunda acalmia e quase desaparecimento dos ideários independentistas. Mas eis que, uma vez mais, a Espanha ultranacionalista desequilibrará os pratos da balança. Um novo Estatuto da Catalunha, aprovado pelo Parlamento catalão, retocado pelo Parlamento de Espanha, mas ratificado finalmente pelo povo catalão em 2006 por uma maioria que rondava os 75%, foi submetido a fiscalização sucessiva pelo Partido Popular (PP) através do Tribunal Constitucional. Desse pedido formulado pelo PP, contra a votação das Cortes de Espanha e do povo catalão, em 2010 (após numerosas delongas provocadas por interferências políticas da direita espanhola), num momento em que as forças mais conservadoras constituíam maioria no Tribunal Constitucional, foram declarados inconstitucionais 14 artigos, várias disposições adicionais, para além de outros artigos submetidos a interpretação.

Eis a génese da crise actual. Sentindo-se a Catalunha minimizada e desautorizada pelo Estado, que procurou (como sempre) que a Justiça se encarregasse de uma questão política, boa parte do catalanismo federalista e até unionista começou a engrossar as fileiras dos partidários da independência. Note-se que nesta primeira ‘judicialização’ da política, feita em 2006, o Estatut é drasticamente reescrito e que as propostas de Rajoy pretendiam proibir para a Catalunha artigos já aprovados em estatutos de outras regiões autónomas. Porque esta afirmação é tão grave, remeto o leitor mais interessado, ou incrédulo, a comprovar o que agora aqui escrevi em https://www.publico.es/actualidad/rajoy-da-otros-territorios-niega.html.

Porque não posso entrar em minúcias, destacarei apenas dois pontos rejeitados pelo TC. Um deles, desrespeitando a meu ver a própria Constituição de 1978, nega à Catalunha o direito de ser nação dentro de um Estado. Ora, a Constituição clarifica, no seu artigo 2.º, que “garantiza el derecho a la autonomía de las nacionalidades y regiones que la integran y la solidaridad entre todas ellas”. Pergunto: será que pode haver nacionalidades sem nações? Outro dos artigos retocados (o 6.º) retira o vocábulo preferente da primitiva redacção “A língua própria da Catalunha é o catalão. Desse modo, o catalão é a língua de uso normal e preferente das Administrações públicas e dos meios de comunicação públicos da Catalunha”. Sendo a questão linguística um dos elementos mais estruturantes e simbólicos da sociedade catalã, o fogo estava ateado. Se nem na sua terra a língua veicular deveria ser preferentemente (e sublinho o preferentemente pois nem se exigia que figurasse como língua única), qual o destino da língua catalã? Recordo, a quantos ainda considerem, por mentalidades essencialmente economicistas e baseadas em métricas, que a dimensão de falantes de catalão não merece atenção, que existem mais falantes de catalão do que de croatas, dinamarqueses, albaneses, finlandeses, eslovacos, noruegueses, letões, etc.

4. Pelo exposto, se os desejos de autodeterminação são históricos, sendo a inserção da Catalunha em Espanha uma questão de difícil solução, a violência policial, totalmente desproporcionada, exercida a 1 de Outubro de 2017 e a sentença do Supremo Tribunal a nove políticos catalães encarregaram-se de fracturar ainda mais drasticamente a relação entre a Catalunha e Espanha. O diálogo, base de qualquer sociedade democrática, nunca foi desejado (especialmente pelo lado espanhol), cerrando fileiras com a justificação da defesa da Constituição. E eis que chegamos ao cerne de um problema que fragiliza a unidade da Espanha (ao contrário do que os partidos ‘constitucionalistas’ afirmam). A Constituição de 1978, como já aflorei, foi a mais virtuosa das constituições possíveis naquele momento. Ainda o franquismo estava vivo (mas será que chegou a morrer?), as forças armadas não davam suficientes garantias de se submeterem ao poder político (e dará a Guardia Civil, neste momento, essas garantias? Depois de ouvir o discurso profundamente político do general Garrido, intolerável em qualquer democracia avançada, como não se cansa de afirmar a propaganda oficial do Reino de Espanha, fiquei com muitos receios); os comunistas e até os socialistas eram vistos com enorme desconfiança e as nações espanholas continuavam a suscitar os discursos mais acalorados. Como seria possível ir mais longe? Por essa razão, a aprovação dessa Constituição foi um feito memorável, sendo, sem dúvida, um marco na história da civilização europeia do último quartel do século XX.

Onde reside então a minha reserva quando, hoje, não faço parte dos grupos que a sacralizam? A própria Bíblia ensina que há um tempo para tudo e que a jurisprudência foi feita para servir o bem público e regular uma sociedade enquanto objecto funcional: a partir de certo momento poderá ser uma peça perniciosa e causa motora dos maiores problemas políticos. Repare-se como, por razões de política interna e eleitoralista, o PSOE não pretende provocar alterações na Constituição, tendo-se até esquecido dos seus fundamentos ("valores") republicanos e federalistas. A Monarquia tornou-se inquestionável e o federalismo foi metido na gaveta. Se é certo que para alterar a Constituição são necessárias maiorias qualificadas, certo é também que não se tem visto este partido batalhar pelos seus próprios princípios sendo, deste modo, uma das forças com papel mais conservador na preservação do espírito e da letra do texto constitucional. Pois bem, a hora exige mudanças. E o que poderia não ter passado de um aprofundamento da autonomia mediante a criação de estados federados, hoje terá de ir mais longe: permitir constitucionalmente o recurso ao referendo.

5. As contradições do PSOE e do Partido dos Socialistas da Catalunha têm tido um papel extremamente negativo na problemática relação entre Espanha e Catalunha. Se do PP e do Cidadãos (para já não falar do Vox), pela sua posição ideológica contra a nação catalã, a sua língua e a sua cultura, ainda que profundamente nociva e irresponsável para a unidade de Espanha, nada haverá a dizer, pois é um comportamento coerente com as suas convicções, o volte face do PSOE, que a 1 de Outubro de 2017 condenou a brutalidade das forças da ordem vindas de Espanha para a Catalunha (ver, por exemplo, o título de caixa alta do periódico eldiario.es: “Pedro Sánchez critica las cargas policiales en Catalunya y emplaza a Rajoy al diálogo como solución"), contrasta com a total falta de diálogo com as forças independentistas (neste preciso momento em que escrevo, nega-se até a falar, telefonicamente, com Quim Torra, segundo a imprensa insuspeita).

Contudo, estas contradições já vêm de longe e, exceptuando o efeito antecipador de Zapatero e Maragall nas questões catalãs, se os políticos espanhóis têm uma característica é a de andar sempre atrás dos acontecimentos para, em momentos mais extremos, perder a arte da política e, ou magnificar a repressão, ou judicializar os problemas. Lamentavelmente, chegam sempre atrasados. E se o PP agravou esta já tão inquinada situação, infelizmente, o PSOE, ou melhor, Pedro Sánchez, não quis ou não pôde (intervenções dos barões do partido?) resolvê-la. Porque se a sentença emanada do Supremo resulta da irresponsabilidade dos políticos, que passaram a este Tribunal o ónus da decisão, por outro, a pressão sobre o Poder Judicial para castigar os presos (os cidadãos, intoxicados por uma imprensa profundamente unionista, exigiam um castigo exemplar), ao não conseguir encontrar razões para a mais alta das penas (rebelião), procuraram os juízes fundamentar, de forma muito forçada e perigosa (para a democracia de toda a Espanha e não só da Catalunha), uma sedição (transformando em manifestações com tumultos aquilo que eram simples manifestações). Deste modo, não se aplicaram as penas mínimas, correspondentes às de desobediência (que, de facto, existiu). Numa palavra, os políticos eximiram-se das suas responsabilidades; os juízes, por pressões e por convicções ideológicas, penalizaram escandalosamente presos políticos (expressão censurada em Espanha nos órgãos de comunicação social oficiais, sim, disse bem, censurada, mesmo antes da sentença). Espanha ficou jurídica e politicamente mais pobre e ainda mais dividida.

6. Dizia que, no momento em que escrevo, Sánchez não atende o telefone a Torra; o PP e Cidadãos juntam-se a Vox e vai-se exigindo ao Governo de Espanha a Lei de Segurança Nacional ou a aplicação, mais uma vez, do 155 (os mais radicais), com a consequente abolição da autonomia catalã. Por outro lado, a campanha eleitoral espanhola, com os mais vis interesses partidários, é seriamente responsável por não se tentar resolver, ou pelo menos mitigar, a crise que se vive na Catalunha. Os meios de comunicação extremam com alarmismo as manifestações dos jovens anti-sistema (alguns também independentistas), escamoteando as centenas de milhares de pessoas que se movimentam em manifestações pacíficas. O governo catalão entra em contradições, perturbado pelos excessos de certas cargas policiais dos próprios Mossos d'Esquadra (a polícia catalã): alguns do consellers consideram a actuação da Polícia Autonómica excessiva, outros calam por razões políticas esta evidência, outros ainda são incapazes de distinguir o trigo do joio e condenar abertamente os desordeiros e, mais preocupante, muitos jovens já se perguntam o que fazer, pois se com manifestações pacíficas a Catalunha não é ouvida (e até é condenada) por Espanha, será que terão de ir mais longe?

7. Espanha, convertendo-se cada vez mais na Sérvia do Ocidente, não conseguiu ainda perceber o problema. O seu nacionalismo cego faz com que esconda a cabeça, qual avestruz, e diga que o nacionalismo é propriedade privada dos outros: os que não querem ser nacionalistas espanhóis. Mas, na realidade, o problema espanhol, o seu nacionalismo radical, é bem simples: só a sua insegurança faz com que odeie a diversidade, imponha aos diversos territórios a cultura e a língua castelhanas como traço identitário e abomine a diversidade hispânica, reduzindo-a ao nível do folclore. E por essa razão, Espanha gostaria de acabar com o que chamam a escola catalã e encerrar o canal de televisão autonómico TV3, fonte da pretensa e falsa xenofobia da Catalunha, que é uma das regiões mais internacionalistas e cosmopolitas da Península. Seriam, assim, esta “escola” e este canal os responsáveis pela criação de seres “abduzidos” (esta é a expressão usada pelo pensamento dominante espanhol) por uma ideologia catalanista, bem como pela “fractura” da sociedade catalã (curiosa preocupação que só incide sobre os que se sentem espanhóis, não sendo capaz de se colocar nunca na pele dos que se sentem “fracturados” pelo facto de não quererem ser espanhóis). Curiosamente, eu, que sou o produto de uma escola espanhola, na qual a cultura catalã, a língua catalã e a literatura catalã eram uma página em branco, e que fui criado sob o espírito das glórias do espanhol D. Pelágio, do Cid Campeador, do Império de Carlos V, dos Terços de Flandres e da Armada Invencível, “abduzido” pela grandeza de uma Espanha una e não plural, no entanto aqui escrevo constatando, tarde demais, a grandiosidade de uma Península Ibérica, diversa, tão peculiar, que poderia ter sido imensa. Portugal saiu a tempo, pois hoje corria o risco de se ver protelado no uso da sua língua, entre muitas outras coisas. Quanto tempo se manterá a Catalunha subjugada?

Como palavras finais, defino-me como independentista à força, principalmente depois do 1 de Outubro e desta sentença. Explico: foi a Espanha que me expulsou, não fui eu que me quis ir embora."


Professor da Universidade do Algarve

in: Jornal "Publico"

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Colibri_4 poemas

...


Não sei...

Não sei...
Duvido do que quero
Quero o que não sabia
Não sei se quero o que queria
Ou se deixei de querer o que já quis
Talvez não saiba querer o que tenho
E tema não conquistar o que quero

Não sei....
Talvez apenas queira
Um querer que tudo se tem
Num estar de querer livremente
Sem querer estragar de contente
De quem tudo tem, na verdade
A partilha, e se queira sem ser metade!



Onde me perdi exactamente
No meio desta tempestade de ira
Onde ficou a pureza no olhar quente
Numa voz ausente que já não respira

Por onde ficaram os passos marcados
De uma busca esquecida de amargo
Por onde andaram os meus abraços
Que atormentaram a alma com desamparo

Por quem me transformei nesta corrida
Que não vejo ou entendo aqueles que magoam
Por quem me tomam, gente sem Vida?
So me desejam as lágrimas que desmoronam

Entre destroços de um campo rendido ao desamor
Espalhado nas cinzas convertidas em chamas
Do desencanto de um dia negro cheio de dor
Calaram de pranto as aguçadas labaredas

Como alcançar a esperança vencida?
De quem já não espera para ver o verde nascer...
Neste lugar inóspito largado à tristeza do rancor
Nascido de quereres demasiados sérios para merecer
Um novo amanhã repleto de energia e amor!

Como trazer até dentro deste tornado
A pacificidade de pólen vaguear na orla do vento
Salpicando o horizonte em tons saturados como que o pintando
Para alegrar este céu difícil de contentar no momento!

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Bonga_angola 72/74






Canção: Mona ki ngi xica
Artista: Bonga
Álbum: Bonga Live

Tradução do Kimbundo para Português:

Aviso-vos que estou a morrer 
Estou a pedir-vos 
Ele vai ficar aqui e eu vou partir 
Filho é filho mesmo, a morte é uma desgraça 
Deus me deu um filho 
E eu lhe gerei
Ele vai ficar aqui e eu vou embora. 
Filho é filho mesmo, se vier, é filho mesmo. 
A morte é uma desgraça.







domingo, 13 de outubro de 2019

Samuel Pimenta, Poesia

[ Nota: Um jovem Escritor/Poeta, indicado hoje pela minha Amiga Poeta Graça Pires]

«para mim a poesia serve para cantar, para cantar sobre o amor, sobre o que for. A prosa serve para contar. Quando quero contar uma história escrevo em prosa.» - Samuel Pimenta

Naufrágio
Por toda a noite o corvo cantou. Toda a noite o uivo do mar e toda a noite o medo dos homens. Por toda a noite o corvo cantou. As pedras, o sal, a morte. Os navios que jamais irão nascer no horizonte. Por toda a noite o corvo cantou.
O naufrágio estende-se na praia. Não corre leite nem mel na areia. Apenas os corpos, as águas tristes, os peixes. Por toda a noite o corvo cantou. Ainda há corvos que cantam para guiar os mortos.
Alcanhões, 19 de Outubro de 2014 – 00h50m
(inédito)

A sibila
As raízes das árvores entoam o som único da terra
e as aves emergem firmes, musicais.
Profere o cântico sagrado e fixa o instante
há-de nascer a voz e a profecia.
Possa a água ser luz no teu rosto
e o açúcar morar em cada sílaba que assobias.
Que teus olhos apenas vejam o bem e o bom no mundo.
As raízes das árvores são os teus pés sobre os montes
e as aves os teus gestos que emergem em espiral.
Dançam.
Danças.
O céu dança diante do teu nome
e o teu nome é o longe sem traço ou definição.
As raízes das árvores entoam o som único da terra
e as aves emergem firmes, musicais.
Nasce a sibila.
A palavra impõe-se
é teu o destino.
No dia em que a sibila morrer
o silêncio tomará de novo a terra.
Lisboa, 9 de Outubro de 2014 – 00h45m

(inédito)

Pórtico
A terra gerou-nos e o céu rasga-nos por dentro.
As estrelas d’alva são mestras, guias peregrinas
e o magma que nos dilata e endurece a raiz que nos liga
a deus, ao espírito sagrado dos filhos que encarnam
uma e outra vez.
A terra gerou-nos e o céu rasga-nos por dentro
sementes que o orvalho nutre e o luar amolece
luz hipnótica da mãe que nos ama do alto.
Sobre as pedras em bruto a brancura do talhe e da mestria.
A terra gerou-nos e o céu rasga-nos por dentro
a liberdade a vida e o esplendor
matriz de um sonho limpo, da profecia cumprida.
Somos os novos homens da madrugada que um sorriso anuncia
faróis que ao bruar das vagas jamais se apagarão.
Alcanhões, 19 de Maio de 2014 – 16h06m

in “GeoMetria”, Livros de Ontem, Lisboa, 2014

Fénix
Ísis rompeu
a margem dos rios
e já não espera
o corpo a caixa
ou as partes.
Sob a esfinge
chorou o sangue
e sobre o Egipto
abriu as asas.
Nenhum deus
ouse domar
o trono o laço
e o ventre.
Ísis nasceu mulher
e nunca os reis
a verão curvar-se.
Alcanhões, 7 de Abril de 2014 – 20h37m


in “Ágora”

Sílex
Mão e pedra.
Força do
gesto que
batebate e
rompe a
forma.
O gume rudimentar da
lasca que parte e
sangra, do
sílex que
quebra e
nasce, novo,
para cortar
o rude
golpe.

in “GeoMetria”, Livros de Ontem, Lisboa, 2014

......

Tífon
Há um desejo latente na respiração dos monstros
à espera.
Sabem ler os astros, decifrar as línguas dos homens
e ciciar o canto dos pássaros.
Aprenderam como embalar os olhos dos outros
e caminham invisíveis rumo ao sopé da montanha
que anseiam escalar.
Querem sentar-se no trono
ascender.



Ulisses
Esperar pelo regresso
saber que virás com a
visão
viste o mundo abrir-se
de como aplicar o gesto
e banir o mal.
Esperar que regresses
que digas o teu nome
e decretes o fim do
exílio.





As Plêiades
Julgava a fuga um acto de abandono
de desistência e suspensão
dos passos.
Julgava-a cobarde e vil.
Não via como pode ser o pórtico que nos salva da morte
o caminho para nos tornarmos luz
e ter domínio sobre as sombras.


A forma dos pássaros

Fosse a espuma do mar
as penas das aves
e o bruar o canto do gaio
do corvo e da cotovia.

Se o céu fosse feito de ondas
tomariam a forma dos pássaros.

Lithos
Parte.
Golpeia a
vida e dá-lhe
a forma, o liso
traço da perfeita
escultura.
Molda o firme
mármore
como se de barro
fosse.
Sê pedreiro de
ti, mestre
da simétrica
obra que
és.
É tua a
pedra, a mão
que a talha.

in “Geo Metria”, Livros de Ontem, Lisboa, 2014


Correr até que o gato fale como um homem

I

Correr em círculos enquanto o gato nos lê o peso de cada passo e nos vigia a fadiga até cairmos, até que a terra que pisamos fique gasta e se afunde, até que vislumbremos o núcleo do início e nos deitemos de olhos fechados à espera que o tempo sobre nós corroa os pés que tanto correm para não chegar a lugar nenhum.

II

Correr até que o gato fale como um homem e segurar-lhe cada palavra como se agarram os pássaros entre as mãos. Cada palavra proferida por um gato tem mais valor que um poema dito por gente.

III

Correr em círculos como o gato e nunca mais proferir um som. O silêncio é o maior poema de quem já nada espera além da morte.

in “Cintilações da Sombra III – Antologia de Poesia”, Editora Labirinto, Fafe, 2015
Samuel Pimenta





.............





A morte da laranja
Uma laranja é uma esfera
que eu corto em dois pedaços.

Antes de cortar a laranja ao meio
ela já morria no ramo da árvore.

Alcanhões, 19 de Novembro de 2014 – 02h47m
(inédito)

Khora
Que alimento nos sacia
e nos nutre a altivez?

O fruto da árvore
o ouro
ou a virtude?

Cultivem-se os campos
com o cereal dos mestres.
No dia da colheita
ceifaremos um novo
homem.

Lisboa, 4 de Junho de 2014 – 01h09m
in “Ágora”

Gineceu
Dentro de quatro
arestas se fecham
as mulheres.

Dentro de quatro
arestas aguardam servis
emudecidas.

Os vasos, os cálices e as ânforas
não são barro másculo e
viril.

Esperam que lhes nasça
um falo para que tenham
lugar entre os homens?

Lisboa, 22 de Maio de 2014 – 15h15m
in “Ágora”

O círculo
Existe um círculo no chão desenhado a giz e uma criança que brinca lá dentro. Essa criança sou eu. O céu exibe o rubor de um entardecer de outubro e nenhuma ave abraça o chão com as asas. Todas as aves dormem em árvores ocas e grutas sem som. Uma serpente entra no círculo e a criança olha-a de frente. Há nos olhos da criança o fogo indígena de quem dá sinal que existe. A serpente rasteja sobre o giz desenhado no chão e já não existe o branco do círculo, apenas as escamas de uma pele com fome. O eterno abraço da morte. Os olhos da criança não queimam mais, apagou-se o fogo. E do abraço da serpente emergem farpas, as mandíbulas de quem é mais forte que nós.
As serpentes são lanças que nos furam.
Alcanhões, 23 de Dezembro de 2014 – 13h30m
(inédito)


Génese
Possas olhar a larva
como se olham os espelhos.

De todos os traços do mundo
saiu uma linha do teu rosto.

Alcanhões, 19 de Novembro de 2014 – 02h15m
(inédito)

......

Samuel Pimenta nasceu a 26 de Fevereiro de 1990, em Alcanhões, Santarém. Começou a escrever com 10 anos e licenciou-se em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa. Em 2010, foi um dos contemplados com o VI Prémio Literário Valdeck Almeida de Jesus na vertente de Poesia, no Brasil. Em 2011, foi cronista na revista online “Clique”. Foi vencedor do Prémio Jovens Criadores 2012, na vertente de Literatura, promovido pelo Governo de Portugal e pelo Clube Português de Artes e Ideias, com o poema “O relógio”, hoje publicado pela editora Livros de Ontem. Em 2013, foi homenageado no VI Encontro de Escritores Moçambicanos na Diáspora, na Fundação José Saramago, pelo trabalho que tem vindo a desenvolver em prol da Literatura e da Cultura Lusófona, tendo sido nomeado Sócio Honorário do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora. Recebeu, em 2014, a Comenda Luís Vaz de Camões, atribuída pela “Literarte – Associação Internacional de Escritores e Artistas”, no Brasil, assim como o Prémio Liberdade de Expressão 2014, atribuído pela Associação de Escritores de Angra dos Reis, Brasil. Tem participado em diversas conferências e encontros literários nacionais e internacionais e tem colaborado com publicações em Portugal, Brasil, Angola e Moçambique. Actualmente, é Presidente do Núcleo Académico de Letras e Artes de Lisboa, Conselheiro em Portugal da “Literarte – Associação Internacional de Escritores e Artistas”, cronista do site de informação “Rede Regional” e da Revista “ID-Identidade”, além de dinamizar tertúlias literárias.

Obras Publicadas:

– “Geo Metria”, Livros de Ontem, Lisboa, 2014
– “Geo Metria”, Editora Literarte, Rio de Janeiro, 2013
– “O relógio”, Livros de Ontem, Lisboa, 2013
– “O Escolhido”, Planeta Editora, Lisboa, 2009

Participações em Antologias:

– Clepsydra – Antologia Poética, Coisas de Ler, Lisboa, 2014
– “Abril depois de Abril”, Livros de Ontem, Lisboa, 2014
– “Milandos da Diáspora – Revista Cultural”, Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora, Lisboa, 2013
– Antologia Universal Lusófona “Rio dos Bons Sinais”, Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora, Lisboa, 2013
– Participação na colectânea “Paralelos”, E-book, Portugal, 2013
– Participação na colectânea “Jovens Escritores 2012”, Clube Português de Artes e Ideias, Portugal, 2012
– Antologia de Poesia Contemporânea “Entre o Sono e o Sonho – Vol. III”, Chiado Editora, Lisboa, 2012
– Antologia do “VI Prémio Literário Valdeck Almeida de Jesus na vertente de Poesia”, Brasil, 2010.

Participações Diversas:

– Jornadas da Literatura Portuguesa do Instituto Camões em Bruxelas, Bélgica, 2014
– Raias Poéticas III – Afluentes Ibero-Afro-Americanas de Arte e Pensamento, Vila Nova de Famalicão, Portugal, 2014
– Bienal Internacional do Livro de S. Paulo, Brasil, 2014
– Salão Internacional do Livro e da Imprensa de Genebra, Suíça, 2014
– IV Festival Grito de Mulher, Lisboa, Portugal, 2014
– Aturujo à Terra – I Feira das Artes e das Letras para a Terra”, Ramil, Galiza, 2014
– Feira do Livro de Frankfurt, Alemanha, 2013
– Raias Poéticas II – Afluentes Ibero-Afro-Americanas de Arte e Pensamento, Vila Nova de Famalicão, Portugal, 2013
– VI Encontro de Escritores Moçambicanos na Diáspora, Lisboa, Portugal, 2013
– Mandatário para a Promoção da Cultura da Candidatura de Idália Salvador Serrão à Câmara Municipal de Santarém, Portugal, 2013
– Júri do Concurso Nacional de Leitura – Eliminatória Distrital de Portalegre, Portugal, 2013
– II Jornadas de Filosofia da Universidade do Minho – Filosofia e Arte/Poesia, Braga, Portugal, 2011.