quarta-feira, 10 de abril de 2019

Iannis Ritsos_HELENIDADE


HELENIDADE

I


Estas árvores não se acomodam senão ao céu,
estas pedras não se acomodam sob os passos estrangeiros,
estes rostos não se acomodam senão ao sol,
estes corações não se acomodam mais do que à justiça.


Esta paisagem é dura como o silêncio,
aperta no seu peito as suas pedras ardentes,
aperta à luz os seus órfãos olivais e vinhedos,
aperta as mandíbulas. Não há água. Apenas luz.
O caminho perde-se na luz, e a sombra da parede é de ferro,
petrificam-se as árvores, os rios e as vozes entre a cal do sol.
A raiz tropeça no mármore. Juncos pulverulentos.
A mula e a rocha. Ofegam. Não há água.
Todos têm sede. Há anos. Todos mastigam um bocado de céu
acima da sua amargura.
Os seus olhos estão vermelhos pela insónia.
Uma profunda fenda encravada entre as suas sobrancelhas
como um cipreste entre dois montes no ocaso.


A sua mão está presa ao fuzil,
o fuzil é a continuação da sua mão.
A sua mão é a continuação da sua alma –
têm nos lábios a ira
e têm a mágoa profunda – fundo nos seus olhos
como uma estrela numa cova de sal.
Quando apertam a mão, o sol vai seguro pelo mundo;
quando sorriem, uma jovem andorinha escapa das suas
barbas selvagens;
quando dormem, doze estrelas caem pelos seus bolsos vazios;
quando se matam, a vida atira encosta acima bandeiras e tambores.
Tantos anos de fome, de sede, todos se matam acossados pela terra
e o mar,
o mormaço comeu as suas terras e a água salobre regou as suas casas
o vento derrubou as suas portas e as escassas plantas da praça,
pelos buracos do seu abrigo entra e sai a morte
a sua língua é áspera como a pinha do cipreste,
morreram os seus cães envoltos nas suas sombras,
a chuva chocalha nos seus ossos.


Acima dos cumes fumegam petrificados o estrume a noite
vigiando o arquipélago enfurecido onde se afundou
o mastro quebrado da lua.


Acabou-se o pão, acabaram-se as balas,
carregam agora os seus canhões apenas com o seu coração.
Tantos anos acossados por terra e por mar
todos têm fome, todos se matam e nenhum morreu –
nos cumes brilham os seus olhos.


Uma grande bandeira, uma grande fogueira toda vermelha
E a cada aurora milhares de pombas saem das suas mãos
Em direcção às quatro portas do horizonte.




II
Cada anoitecer com o chamuscado tomilho junto
ao seio da pedra,
é uma gota de água que desde o passado escava o silêncio
até à medula,
é um sino pendurado no velho carvalho que apregoa os anos.


Dormitam as chispas na cinza do deserto
e os telhados meditam no velo dourado sobre o lábio superior
do mês da colheita
– velo amarelo como o grão de milho defumado pela pena do ocaso.


A virgem dorme sobre os mirtos com a sua saia larga
manchada pelas uvas.
No caminho chora uma criança e responde-lhe do campo
uma ovelha que perdeu os seus filhos.
Sombra na fonte. Gelado o barril.
A filha do ferreiro com os pés molhados.
Sobre a mesa o pão e a azeitona,
entre a parra o candil do luzeiro da tarde,
ali em cima, dando voltas no seu espeto, derrama perfume
a galáxia de gordura chamuscada, alho e pimenta.


Ah! Que marco miliar de estrela fará todavia falta
para que bordem as agulhas de pinheiro sobre a parede
tisnada do verão «e isto ocorrerá».


Quanto tem que verter ainda a mãe o seu coração
sobre os sete valentes moços mortos
até que encontre a luz o seu caminho na encosta da alma!


Este osso que sai da terra
está a medir com abraços a força, e as cordas do
alaúde
e o alaúde desde o entardecer junto com o violino
até à madrugada
cantam de pena em pena nos rosmaninhos e nos pinheiros
e tilintam as sogas nos barcos como cordas
e o marinheiro bebe amargo mar pelo copo de Ulisses.


Ah! Quem fechará então esta entrada e que espada
cortará o ânimo
e que chave te cerrará o coração que com as suas duas
folhas abertas de par em par
olha para os pomares de Deus aspergidos de estrelas?


Grande momento como as tardes de sábado
de maio na taberna marítima,
grande noite como bandeja na parede do funileiro,
grande canção como o pão na ceia do pescador de esponjas.
E vê como empreende o caminho pelas pedras
a lua cretense
grap – grap com vinte filas de tachas nos grossos sapatos,
e vê aqueles que sobem e descem as escadarias de Anapli
enchendo o seu cachimbo de folhas de obscuridade cortadas
toscamente
os seus bigodes de tomilho de Rumelia, orvalhado de estrelas
e os seus dentes raiz de pinheiro do penedo do Egeu e de sal.
Entraram no ferro e no fogo, falaram com as pedras
convidaram a morte a beber aguardente no crânio do seu avô,
sobre as próprias Eras encontraram-se com Digenis e puseram-se
a jantar
partindo a meio a mágoa, tal como partiam sobre o joelho
o seu pão de cevada.


Vem, Senhora, com as pestanas salgadas, com a mão
branca enegrecida
da preocupação com o pobre e os longos anos –
o amor espera-te entre os matagais,
a gaivota no seu ninho sustem o teu negro ícone
e o amargo ouriço do mar beija a unha do teu pé.
Dentro da vulva negra do vinhedo muito vermelho
coze o mosto,
coze o rododendro na mata incendiada,
dentro da terra a raiz do morto pede água
para fazer brotar um abeto
e a mãe debaixo das suas rugas agarra fortemente
a faca.
Vem, Senhora, que estás a incubar os ovos
de ouro do trovão –
em que dia azul tirarás o véu e tomarás
de novo as armas,
atingir-te-á forte o granizo de maio,
e explodirá como granada o sol sobre o teu avental
de sarja,
e repartirás sol grão a grão aos teus doze órfãos,
e brilhará em volta o pântano como brilha o fio
da espada e a neve de abril
e sairá da areia o caranguejo para apanhar sol
e cruzar as suas pinças.




III


Neste lugar o céu não priva nem um instante o óleo
do nosso olho
neste lugar o sol leva a metade da carga
da pedra que levamos sobre os nossos ombros
partem-se as telhas sem queixa sob o joelho
do meio-dia
os homens vão à frente das suas sombras como
os delfins diante dos barcos de Skiatos
logo a sua sombra se converte em águia que tinge
as suas asas de ocaso.
E mais tarde pousa nas suas cabeças e pensa nas estrelas
enquanto eles se estendem no descampado com a uva passa.


Neste lugar cada porta tem gravado um nome
de uns três mil e outros tantos anos
cada pedra tem pintada um santo com olhos
ferozes e cabelos de corda
cada homem tem gravada na sua mão
de ponta a ponta uma sereia vermelha
cada rapariga tem um punhado de luz salgada sob a saia
e as crianças têm cinco e seis cruzinhas de amargura
nos seus corações
como as pegadas das gaivotas sobre a areia
à tarde.
Não é preciso recordar. Sabemo-lo.
Todos os caminhos conduzem às Altas Palestras.
O ar é forte lá em cima.


Quando se desfia o mural minoico solitário do ocaso
e se apaga o incêndio no palheiro da praia
as avós sobem até aqui pelos degraus talhados na rocha,
sentam-se na Grande Pedra fiando o mar com os olhos,
sentam-se e contam as estrelas como se
contassem as facas, os garfos
e as colheres de prata herdadas dos seus antepassados
e mais tarde regressam para dar de comer aos netos
a pólvora de Mesologui.


Sim, é verdade, Elcomeno tem duas mãos tristes
entre o seu laço
mas a sua sobrancelha movimenta-se como a pedra que tenta
soltar-se sobre o seu amargo olho.
Da profundida sobe esta onda que não sabe de rogos
do alto roda o vento com resina como veia
e seiva como pulmão.


Ai! Soprará uma vez para arrastar as laranjas da recordação.
Ai! Soprará duas vezes para que saiam chispas
da pedra de ferro como detonador.
Ai! Soprará três vezes e enlouquecerá os bosques
de abetos de Liakoura.
Dará um murro para fazer saltar pelo ar a tirania
e retirará a argola da ursa nocturna e começará
uma dança «tsámica» no meio do recinto,
e a lua a tocar pandeireta que se encham
as varandas insulares
de crianças acordadas antes do tempo e de mães
de Souli.


Um mensageiro chega de Megali Langadia cada manhã
o seu rosto brilha a suar ao sol
sob o seu braço segura fortemente a helenidade
tal como um operário carrega o sobrolho dentro da igreja.
Chegou o momento, diz. Deveis estar preparados.
Cada momento é o nosso momento.




IV
Foram em frente pela madrugada com o desprezo
do homem que tem fome,
dentro dos seus olhos imóveis caiu uma estrela,
levavam às costas o ferido Verão.
Por aqui passou um exército com bandeiras sobre a pele
com a obstinação presa entre os dentes como
uma pera silvestre
com a areia da lua dentro das suas botas
e com o pó de carvão da noite colado dentro
dos seus narizes e das suas orelhas.
De árvore em árvore, de pedra em pedra atravessaram o mundo,
com espinhos por almofada atravessaram o sonho.
Traziam a vida nas suas mãos secas como um rio.


A cada passo ganhavam uma braçada de céu – para o oferecer.
Nos cumes ficavam petrificados como árvores chamuscadas.
E quando dançavam na praça,
dentro das casas tremiam os tectos e telintavam os frascos
nas prateleiras.


Ah! Que canção é está que estremeceu os picos dos montes –
nos seus joelhos estendiam as roupinhas da lua e jantavam,
e quebravam o ai entre as duas folhas do coração
como se esborrachassem uma pulga entre duas grossas unhas.
Quem te trará agora o pão quente pela noite para alimentar
os sonhos?
Quem ficará à sombra da oliveira a acompanhar a cigarra
para que não se cale a cigarra,
agora que a cal do meio-dia está a iluminar a parede
em volta do horizonte
apagando os seus sombrios nomes grandes?
Esta terra que exalava aroma pela madrugada
a terra que era deles e nossa – sangue deles –
como cheirava a terra –
e agora de que modo fecharam a sua porta os nossos
vinhedos
como se debilitou a luz sobre os telhados e das árvores
quem diria que se encontram metade debaixo
da terra
e outra metade dentro das cadeias?


Com tantas folhas o sol faz-te sinais, dá-te os bons-dias
Com tantos galhardetes brilhando ao céu
e estes nos cárceres e aqueles sob a terra.


Cala-te, não tardarão, de súbito soarão os sinos.
Esta terra é sua e nossa.
Sob a terra, entre as suas mãos cruzadas
prendem a corda do sino – esperam o momento,
não dormem,
esperam tocar a ressurreição. Esta terra
é deles e nossa –ninguém no-la pode tirar.


V
Sentaram-se sob as oliveiras após o meio-dia
a peneirar a luz cinzenta com os grossos dedos
retirando as cartucheiras e calculando quanto esforço
pode caber no caminho da noite
quanta amargura no caule da malva silvestre,
quanto ânimo nos olhos do menino descalço que segurava
a bandeira.


Ficou a destempo a última andorinha no campo,
equilibrava-se no ar como um negro cinturão na manga
do Outono.
Nada restou. Apenas fumegavam as casas incendiadas.
Os demais deixaram-nos há tempo sob as pedras
com a sua camisa rota e o seu juramento escrito
sobre a porta derrubada.
Ninguém chorou. Não havia tempo. Só o silêncio
crescia muito.
E a luz no pântano estava organizada como a casa
da morte.
Que será deles quando chegar a chuva dentro da terra
com as folhas apodrecidas do carvalho
que será deles quando o sol ficar seco sobre a manta
das nuvens como percevejos no leito camponês
quando estiver na chaminé do anoitecer embalsamada
a cegonha da neve?
Deitam sal ao fogo as velhas mães, deitam terra
nos seus cabelos
arrancam os seus vinhedos em Monemvasía não seja que
adoce a boca do inimigo a vulva negra da uva,
puseram num saco os ossos dos seus antepassados
juntamente com as colheres, os garfos e facas
e deambulam fora dos muros da sua terra a buscar
lugar para deitar raízes na noite.


Ser-nos-á difícil agora encontrar um idioma mais próximo
do convite, menos forte, menos pétreo –
As mãos que ficaram nas terras ou sobre a montanha
ou debaixo do mar, não esquecem –
ser-nos-á difícil esquecer as suas mãos
será difícil para as mãos que criaram calos por causa
do gatilho do fuzil fazer perguntas a uma margarida
dizer obrigado sobre o seu joelho, sobre o livro
ou dentro do mosto do céu estrelado.
Precisar-se-á de tempo. E temos que falar. Até que encontrem
O seu pão e a sua justiça.

Dois remos cravados na areia na madrugada
com a tempestade. Onde está a barca?
Um arado cravado na terra, e o vento a soprar. Onde está
o agricultor?
Cinza o olival, o vinhedo e a casa.
Noite cosida com cordel com as suas estrelas
dentro de uma peúga.
Louro e orégão seco no armário embutido
no muro. Não os tocou o fogo.
A onda esfumada no fogão – cozendo apenas a água
dentro da casa fechada. Não lhes deu
tempo de comer.
Na queimada folha da porta as veias do bosque –
o sangue corre dentro das veias.
Eis aqui o conhecido passo. Quem é?
Conhecido passo com as tachas encosta acima.
O arrastar da raiz dentro da pedra. Alguém
vem.
A senha, a contra-senha. Irmão. Bom-dia.
Encontrará, pois, a luz das suas árvores, encontrará
também um dia a árvore o seu fruto.
O cantil do morto tem ainda água e luz.
Boa tarde, meu irmão. Sabe-lo. Boas tardes.
Na sua barraca vende bichos e sedalinas o velho ocaso.
Ninguém compra, partiram para cima.
É difícil que voltem.
Difícil também que digam os seus valores.


Na era onde jantaram uma noite os moços
valentes
restam os caroços de azeitona e o sangue seco da lua
e o decassílabo das suas armas.
No dia seguinte os pardais as migas do seu pão,
As crianças fizeram brinquedos com os fósforos
com que acenderam os seus cigarros e com os espinhos
das estrelas.
E da pedra onde se sentaram sob as oliveiras após
o meio-dia em frente ao mar
amanhã far-se-á cal no forno.
E passado amanhã branquearemos as nossas casas
e o escabelo de Haghia Sotira
e no dia seguinte plantaremos a semente alí
onde dormiram
e de um grão de romã brotará o primeiro
sorriso da criança
no seio do dia ensolarado.
E depois sentar-nos-emos na pedra para ler
todo o seu coração
como se lêssemos pela primeira vez a história do mundo.




VI


Assim com o sol sobre o peito perante o mar
encalhando a ladeira do dia.
Calcula-se em dobro e em triplo a reclusão
e o martírio da sede
calcula-se desde o princípio a velha ferida
e o coração torra lentamente no calor
como as telhas de Vatica diante das portas.
À distância as suas mãos assemelham-se cada vez
mais à terra
à distância os seus olhos parecem-se mais com o céu.
Acabou o azeite na almotolia. Alguns passos
pararam ao fundo. E o rato morreu.
Esgotou-se o ânimo da mãe junto com a barra
de barro e da charca.
Desoladas as gengivas do deserto pela pólvora.


Aonde azeite agora para o candil de Santa Bárbara
aonde hortelã para incensar o ícone da tarde
aonde um pedaço de pão para passar a noite – mendiga
a tocar o canto de estrelas com a lira.
No castelo do alto da ilha movimentaram-se as figueiras
e os asfódelos.
A terra cavada pelos canhões e as tumbas.
O edifício do município derrubado remendado
pelo céu. Não há já lugar
para mais mortos. Não tem lugar a tristeza
para ficar a entrançar os seus cabelos.
Casas queimadas que olham com olhos vazios
o mar petrificado
e as balas cravadas nos muros
como punhais nas costas do Santo que ataram ao cipreste.


Todos os dias os mortos apanham sol de boca para cima.
E só ao anoitecer os soldados se arrastam com a beata
entre as pedras enegrecidas
procurando respirar o ar fora da morte
procurando os sapatos da lua mastigando um pedaço
de meia sola
golpeiam com o punho a rocha não vá que a gota
de água corra
mas do outro lado o muro está oco
e voltam a ouvir o golpe com as mesmas estrofes
que a bomba produz ao cair no mar
e ouvem uma vez mais o queixume dos feridos
diante da entrada.
Para onde atirar? O teu irmão chama-te.
Em volta a noite erigida de sombras de barcos
estrangeiros.
Fechando os caminhos pelas paredes.
Só para cima há ainda caminho.
E eles maldizem os barcos e apertam as mandíbulas
Para escutar a sua dor que não endureceu.
Nas ameias os capitães mortos permanecem de pé
no castelo.
Sob a sua roupa a carne apodrece. Eh, irmão! Não
te cansaste?
Floresceu a bala dentro do seu coração,
Cinco abrolhos brotaram nas axilas da árida rocha,
de fôlego em fôlego o perfume conta o conto –
não te recordas?
dentada a dentada a ferida conta-te a vida,
a camomila que cresce na sujidade da unha do dedo
grande do teu pé
conta-te a beleza do mundo.


Agarras a mão. É tua. Empapada pelo salitre.
Teu o mar. Como se arrancasse um cabelo
da cabeça do silêncio
goteja amargo o leite da figueira. Estejas onde
estejas o céu observa-te.
Junta nos seus dedos a estrela da tarde a tua alma
como um cigarro
para que a fumes deitado com a boca para cima
molhando a tua mão esquerda no rio de estrelas
a destra agarrada ao teu fuzil-noiva
para te lembrares que o céu nunca te esqueceu
enquanto vais retirando do bolso interior a sua velha
carta
e vais desfraldando com os dedos a lua
lerás valor e glória.
Então subirás ao alto cume da tua ilha
e usando como munição uma estrela dispararás
para o ar
por cima de muros e de mastros
por cima das montanhas que se inclinam como soldados
feridos
assim simplesmente e só para gritar aos espectros
que se escondem na manta da sombra –
disparas certeiro ao seio do céu para encontrar
a pegada azul
como se encontrasses sobre a camisa o mamilo
que amanhã dará de mamar ao teu filho
como se encontrasses após anos o botão
da entrada da casa dos teus pais.




VII


A casa, a rua, a figueira, as cascas do sol
no pátio, as galinhas debicando-as.
Conhecemo-los, e conhecem-nos. Aqui em baixo
entre as silvas
deixou a serpente abandonada a sua camisa amarela.
Aqui em baixo está a cabana da formiga e a torre
da esfinge com as inumeráveis ameias,
sobre a mesma oliveira a concha da cigarra
do ano passado e a voz da cigarra deste ano,
os juncos e a tua sombra que te segue como um cão
muito aflito e silencioso,
cão fiel – a todos os meios-dias senta-se ao lado
do teu sonho da terra farejando as adelfas,
à noite enrola-se sobre os teus pés a olhar as estrelas.
É um silêncio de peras que crescem nas pernas
do Verão
um sonho de água que observa as raízes da alfarrobeira
a Primavera tem três órfãos adormecidos no seu regaço
uma águia meio morta nos seus olhos
seca a ermida de Haghi-Ynni tou Nistefti
como excremento branco do gorrião numa larga
folha de amoreira emurchecida pelo calor.
Este pastor envolto na sua peliça
tem em cada pêlo do seu corpo um rio seco
tem um bosque de carvalhos em cada buraco da sua flauta
o seu cajado tem os mesmos nós que o remo
que tocou pela primeira vez o azul do Helesponto.
Não é preciso que recordes. A veia do carvalho
tem o teu sangue. E o asfódelo da ilha e a alcaparra.
O silencioso poço eleva depois do meio-dia
uma voz redonda de negro cristal e de vento branco
redonda com as velhas vasilhas – a mesma voz ancestral.
A cada noite a lua dá a volta aos mortos
procura as suas caras com dedos gelados o seu filho
pelo forma do queixo e das sobrancelhas de pedra,
procura nos seus bolsos. Encontra sempre alguma coisa.
Alguma coisa encontramos.
Uma chave, uma carta, um relógio parado nas sete.
Damos corda
de novo ao relógio. Andam as horas.
Quando amanha se desfizerem as suas roupas e fiquem
nus entre os seus botões militares,
como ficam os pedaços do céu entre as estrelas do Verão,
então poderemos encontrar o seu nome e gritar:
Eu amo.
Então. Mas estas coisas são muito longínquas.
Estão como que muito próximas, como quando tomas
na obscuridade uma mão e dizes boa tarde
com a amarga boa intenção da pessoa que faltou
muito tempo fora da sua casa e volta à casa paterna,
e nem os seus o conhecem, porque conheceu a morte
e conheceu a vida antes da vida e por cima da morte
e as conhece. Não se zanga. Amanhã, diz. E está
seguro
de que o caminho mais distante é o mais próximo
do coração de Deus.
E no momento em que a lua lhe beija o pescoço
com alguma tristeza,sacudindo a cinza do seu cigarro da grades
da varanda, pode chorar com firmeza,
pode chorar pela firmeza das árvores e das estrelas
e dos seus irmãos.

Iannis Ritsos
Atenas, 1945-1947

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Iannis Ritsos nasceu na Grécia a 1 de Maio de 1909. Aderiu ao Partido Comunista Grego, em 1931. Publicou Tractor, em 1934, inspirado no futurismo de Maiakovski. Devido às suas ideias políticas, algumas das suas obras foram queimadas em público. Foi internado em vários campos de reabilitação. No entanto, a sua produção poética é imparável, com dezenas de títulos. Em 1956, é-lhe atribuído o prémio nacional de poesia pelo livro Sonata ao Luar. Conjuntamente com Giorgios Seferis e Odysseus Elytis, é considerado um dos mais importantes poetas gregos do século XX. Faleceu a 11 de Novembro de 1990.


terça-feira, 9 de abril de 2019

Márcia_do que eu sou capaz


do album "Vai e Vem"_ "do que eu sou capaz" Video: Produção - Márcia Realização, edição e pós produção - Filipe C. Monteiro Música: Márcia - Voz, Coros Dadi Carvalho - Baixo, Sintetizador Rui Freire - Bateria Manuel Dordio - Guitarra Eléctrica Filipe C Monteiro - Baixo, Guitarra Acústica, Guitarra Eléctrica Kid Gomez - Hammond, Beats Produzido por Kid Gomez, Márcia e Filipe C. Monteiro Música e letra de Márcia Gravado e misturado por Nelson Carvalho Masterizado por Andy Vandette MANAGEMENT: pedro.trigueiro@arruada.com BOOKING: ines.lopes@arruada.com www.arruada.com

::Letra:: Eu sei que um dia tudo muda Sei do que o tempo é capaz Onde vês sol haverá chuva onde avançar a febre, haverá cura Onde há guerra haverá paz. E quem quiser que se iluda mas o que foi não volta atrás Quem dera ter a fé criança espreguiçar o sono e a arrogância que o viver da vida traz Nem o brilho, nem a sombra Não se agarra quase nada. Que haja sempre o dom de Ser no que nos faz Que eu sei bem daquilo que sou capaz. Eu sei que um dia tudo muda tudo é o tempo que faz Do que era eu sobrou o Ser e o que eu julgava meu deixei de ter; O que pesou deixei pra trás.

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letra:

Quando o dia entardeceu E o teu corpo tocou Num recanto do meu Uma dança acordou E o sol apareceu De gigante ficou Num instante apagou O sereno do céu E a calma a aguardar lugar em mim O desejo a contar segundo o fim. Foi num ar que te deu E o teu canto mudou E o teu corpo no meu Uma trança arrancou E o sangue arrefeceu E o meu pé aterrou Minha voz sussurrou O meu sonho morreu Dá-me o mar, o meu rio, minha calçada. Dá-me o quarto vazio da minha casa Vou deixar-te no fio da tua fala. Sobre a pele que há em mim Tu não sabes nada. Quando o amor se acabou E o meu corpo esqueceu O caminho onde andou Nos recantos do teu E o luar se apagou E a noite emudeceu O frio fundo do céu Foi descendo e ficou. Mas a mágoa não mora mais em mim Já passou, desgastei Para lá do fim É preciso partir É o preço do amor Para voltar a viver Já nem sinto o sabor A suor e pavor Do teu colo a ferver Do teu sangue de flor Já não quero saber. Dá-me o mar, o meu rio, a minha estrada. O meu barco vazio na madrugada Vou deixar-te no frio da tua fala. Na vertigem da voz Quando enfim se cala.

lawrence-ferlinghetti-poemas-escolhidos




Café Notre Dame

Uma espécie de trauma sexual
prende um casal abismado
Ele está segurando as duas mãos dela
nas suas
Ela está beijando as mãos dele
Estão olhando-se
nos olhos
de muito perto
Ela tem um casaco de peles
feito duma centena de coelhos correndo
Ele
tem um casaco clássico sombrio
e calças cinza-de-pardo
Agora estão a examinar as palmas
das mãos um do outro
como se fossem mapas de Paris
ou do mundo
como se estivessem à procura do Metrô
que os levasse juntos
através dos caminhos subterrâneos
através das «estações do desejo»
até ao terminal do amor
até às portas da cidade-luz
É um caso sem saída
e estão perdidos
nas linhas cruzadas
das suas palmas enlaçadas
suas linhas de cabeça e linhas de coração
suas linhas de sorte e linhas de vida
ilegíveis e misturadas
no mons veneris
da sua paixão
In “A boca da verdade”, Antologia Portuguesa
Trad. André e Isabelle Lima
1986

...............

Lawrence Ferlinghetti, nasceu na cidade de Yonkers, Nova York, em 1919. Foi o precursor dos poetas beats americanos e os seus poemas receberam influência de expoentes da poesia contemporânea do século XX, como e.e. cummings, T.S. Eliot, Ezra Pound e, principalmente, William Carlos Williams.

Ferlinghetti utilizou, na sua construção poética, elementos banais do quotidiano, como telefones, assentos de privada, lâminas de barbear e pontas de cigarro, construindo uma visão das ruas, a realidade entrelaçada a uma idéia surrealista no improviso andarilho, elemento tipicamente underground dos poetas dessa geração.

Resumo biográfico extraído do site da Editora L&PM

domingo, 7 de abril de 2019

Max Ehrmann_“Desiderata”


[O poema “Desiderata” foi escrito em 1927 pelo poeta e filósofo americano Max Ehrmann (1872-1945)]

DESIDERATA


Siga tranquilamente entre a pressa e a inquietude, lembrando-se que há sempre paz no silêncio.
Tanto quanto possível, sem se humilhar, mantenha boas relações com todas as pessoas.
Fale a sua verdade mansa e claramente e ouça a dos outros, mesmo a dos insensatos e ignorantes, pois eles também têm sua própria história.
Evite as pessoas escandalosas e agressivas. Elas afligem o nosso espírito.
Se você se comparar com os outros, tornar-se-á presunçoso e magoado, pois haverá sempre alguém superior e alguém inferior a você.
Você é filho do Universo, irmão das estrelas e árvores. Você merece estar aqui, e mesmo sem você perceber, a Terra e o Universo vão cumprir o seu destino.
Desfrute das suas realizações, bem como dos seus planos. Mantenha-se interessado em sua carreira, ainda que humilde, pois ela é um ganho real na fortuna cambiante do tempo.
Tenha cautela nos negócios, pois o mundo está cheio de astúcias, mas não se torne um cético porque a virtude sempre existirá. Muita gente luta por altos ideais e em toda a parte a vida está cheia de heroísmo.
Seja você mesmo, principalmente. Não simule afeição. Não seja descrente do amor, porque mesmo diante de tanta aridez e tanto desencanto ele é tão perene quanto a selva.
Aceite com carinho o conselho dos mais velhos e seja compreensivo com os arroubos inovadores da juventude.
Alimente a força do espírito que o protegerá no infortúnio inesperado, mas não se desespere com perigos imaginários. Muitos temores nascem do cansaço e da solidão, e a despeito de uma disciplina rigorosa. Seja gentil para consigo mesmo.
Portanto, esteja em paz com Deus como quer que você o conceba e quaisquer que sejam seus trabalhos e as aspirações. Na fatigante confusão da vida, mantenha-se em paz com sua própria alma, apesar de todas as falsidades, fadigas e desencantos. O mundo ainda é bonito.
Seja prudente e faça tudo para ser feliz!

***

DESIDERATA
Go placidly amid the noise and haste,
and remember what peace there may be in silence.
As far as possible without surrender
be on good terms with all persons.
Speak your truth quietly and clearly;
and listen to others,
even the dull and the ignorant;
they too have their story.
Avoid loud and aggressive persons,
they are vexations to the spirit.
If you compare yourself with others,
you may become vain and bitter;
for always there will be greater and lesser persons than yourself.
Enjoy your achievements as well as your plans.
Keep interested in your own career, however humble;
it is a real possession in the changing fortunes of time.
Exercise caution in your business affairs;
for the world is full of trickery.
But let this not blind you to what virtue there is;
many persons strive for high ideals;
and everywhere life is full of heroism.
Be yourself.
Especially, do not feign affection.
Neither be cynical about love;
for in the face of all aridity and disenchantment
it is as perennial as the grass.
Take kindly the counsel of the years,
gracefully surrendering the things of youth.
Nurture strength of spirit to shield you in sudden misfortune.
But do not distress yourself with dark imaginings.
Many fears are born of fatigue and loneliness.
Beyond a wholesome discipline,
be gentle with yourself.
You are a child of the universe,
no less than the trees and the stars;
you have a right to be here.
And whether or not it is clear to you,
no doubt the universe is unfolding as it should.
Therefore be at peace with God,
whatever you conceive Him to be,
and whatever your labors and aspirations,
in the noisy confusion of life keep peace with your soul.
With all its sham, drudgery, and broken dreams,
it is still a beautiful world.
Be cheerful.
Strive to be happy.
– Max Ehrmann, em “Desiderata: um caminho para a vida”. [tradução Iva Sofia Gonçalves Lima]. Edições de Bolso. Rio de Janeiro: Editora Sextante, 2006. (Max Ehrmann, Desiderata, Copyright 1952).

domingo, 31 de março de 2019

nuno judice_o poeta

O Poeta

Trabalha agora na importação
e exportação. Importa
metáforas, exporta alegorias.
Podia ser um trabalhador
por conta própria,
um desses que preenche
cadernos de folha azul com
números
de deve e haver. De facto, o que
deve são palavras; e o que tem
é esse vazio de frases que lhe
acontece quando se encosta
ao vidro, no inverno, e a chuva cai
do outro lado. Então, pensa
que poderia importar o sol
e exportar as nuvens.
Poderia ser
um trabalhador do tempo. Mas,
de certo modo, a sua
prática confunde-se com a de um
escultor do movimento. Fere,
com a pedra do instante, o que
passa a caminho
da eternidade;
suspende o gesto que sonha o céu;
e fixa, na dureza da noite,
o bater de asas, o azul, a sábia
interrupção da morte.

Nuno Júdice

quinta-feira, 28 de março de 2019

carta a um amigo

CARTA AO PEDRO (Santos Guerreiro)

GERMANO OLIVEIRA
EDITOR EXECUTIVO

In: Expresso Curto, jornal “Expresso”
27 de Março de 2019

Já olhou para um amigo e pensou como o amigo se fez assim amigo, tão fundamental e inabdicável, eu já e espanto-me sempre, nunca sei como aquele amigo aconteceu mas desejo que me aconteça enquanto eu acontecer, e ele às vezes transforma-se e já não o amamos da mesma maneira, às vezes é de maneira ainda maior ou nem por isso, só assim-assim ou assim-mais ou assim-menos, e depois o amigo vai embora e sabemos que continuamos a amá-lo muito-muito e aos amigos que ficam passamos a amá-los mais-mais, mas voltando:

já olhou para um amigo e pensou no primeiro abraço, eu recordo-me só do último e é este que vou lembrar sempre haja outros ou nenhum, há amigos bons a quem abraçamos pouco ou nada e um amigo é para aproveitá-lo todo e desperdiçá-lo nunca, é agarrá-lo com os músculos que temos e fazer exercício com o amor que lhe sentimos, abram um ginásio de abraços que eu vou já pôr-me em forma, tenho aprendido que abraçamos de menos e sem a lentidão devida, um abraço longo tem as palavras todas que queremos falar mas também as que não tivemos coragem de dizer, até nisso os abraços são nobres e bravos, resolvem a cobardia das coisas caladas, e daí a urgência humilde de um abraço que mostre ao amigo que aquilo é para durar a vida inteira nem que a vida que conhecemos esteja a acabar ali e por isso aperte os seus amigos e demore-se nisso, mas voltando:

já olhou para um amigo e pensou na primeira zanga, eu lembro-me de várias e às vezes esqueço-me de todas porque há zangas pequenas cheias de razão que se vão acumulando numa grande zanga vazia de sentido e depois os equívocos e as desilusões que resultam da soma das pequenas zangas deixam danos irreparáveis na grande zanga sem fundamento, mas depois há uma desgraça que é maior que os desentendimentos sem graça e a fortaleza da amizade reabre os portões, os amigos têm as lágrimas e os gestos e a lealdade e o olhar e a bondade e o perdão e as palavras e sim, os abraços, para se repararem e reiniciarem o ciclo das zangas, e eles zangam-nos tanto porque a amizade é sentimento tão puro e perfeito mas o Homem demasiado impuro e imperfeito para praticá-la mas também o mais necessitado e habilitado para salvá-la, mas voltando:

já olhou para um amigo e pensou como os outros olham para ele, contestam que ele se expresse de determinada maneira e nós achamos que é a da maneira determinada, lamentam que ele fale pouco e nós elogiamos que fala tudo, dizem que ele é demasiado reservado mas nós reservamos-lhe mesas onde dança sobre elas, apontam-lhe aquele erro e outro e mais outro e nós respondemos com aquele acerto e outro e mais outro, eles criticam e nós rebatemos e não criticam por mal é porque tem de ser e nós rebatemos por bem porque está certo, às vezes fala-se pior de quem se espera tudo e contrapõe-se com o melhor de quem sabemos ter tudo, nós temos o privilégio da intimidade e os demais o direito da dúvida, a amizade é informação e informação a menos é incompreensão, as pessoas boas precisam de um site de breaking news sobre elas, última hora: foi um mal-entendido a perceção que têm de mim, e depois uma notificação magnífica no telemóvel: eu sou melhor do que pensas e devias tentar vê-lo porque vou fazer o mesmo contigo, mas voltando:

já olhou para um amigo e pensou como ele o inspira, como ele tem as mesmas palavras que eu e você mas porque sabe escrevê-las melhor é assim:

ele diz liberdade e acreditamos que o fogo não queima,

ele diz paixão e acreditamos que o amor não mata,

ele diz coragem e acreditamos que a dor não fere,

ele diz saudade e acreditamos que a solidão fortalece,

ele diz tristeza e acreditamos que a felicidade existe,

ele diz bondade e acreditamos que os desamparados triunfam,

ele diz lealdade e acreditamos que a franqueza enobrece,

ele diz chora e acreditamos que a força vem,

ele diz luta e acreditamos que a desilusão passa,

ele diz faz e acreditamos que o talento impõe-se,

ele diz orgulho e é o que temos por ele.

Dedicado ao Pedro, que me trouxe para o Expresso, e dedicado a si, caro leitor, que me traz para o Expresso todos os dias. Somos o maior e melhor jornal deste país.

sexta-feira, 22 de março de 2019

Angola_ Margarida Paredes_"Eu estava la'"






“Eu estava lá”

Margarida Paredes, investigadora social portuguesa, foi guerrilheira do 
MPLA na luta pela independência de Angola. Quando chegou a Brazzaville, 
em 1974, o homem na recepção perguntou-lhe: “Quem é você?” 
O homem era José Eduardo dos Santos.
 







“Eu fui guerrilheira e pertenço à família do MPLA.” É assim que Margarida Paredes fala de si, hoje. Mais de 40 anos depois de ter chegado a Brazzaville, com uma mochila às costas e decidida a pegar numa arma para combater ao lado do MPLA na luta pela independência de Angola. Foi em 1974. Pouco depois entrava em Luanda, já tinha vendido o bilhete de regresso para poder sobreviver. Ficou em Angola até 1981. Desde então e até 2006, quando publicou o romance O Tibete de África, silenciou esse passado. “Só se consegue recomeçar uma vida nova se uma pessoa cortar. Não falava sobre esse tempo. Nos sítios onde trabalhei não dizia que tinha sido guerrilheira. Imagine dizer isso nos anos 80, quando ainda se estão a digerir os retornados! Havia coisas que eu não falava a ninguém.”

Nessa altura ouviu chamarem-lhe pela primeira vez traidora à pátria. “Coisas de ultranacionalistas”, comenta. No final de 2015, publicou Combater duas Vezes, Mulheres na Luta Armada em Angola, a sua tese de doutoramento em Antropologia. É o resultado de um regresso onde ouviu mais de cem mulheres que como ela pegaram em armas, fizeram guerra e guerrilha, foram operacionais, primeiro na guerra nacionalista e depois na guerra civil, pelo MPLA e UNITA. A leitura que faz agora desse período, enquanto cientista social, é mais dura e crítica em relação ao poder angolano e à História que foi sendo oficialmente construída do que a da mulher que combateu convicta de estar no lado certo do conflito. “Este livro pacificou-me”, diz.


Como muitas das mulheres que escutou, sentiu trauma. Quando chegou a Portugal, em 1981, atirava-se para o chão sempre que ouvia um foguete, pensando que era uma rajada de tiros. “Havia dois lados da guerra e eu estava do lugar certo. Os países africanos tinham direito à sua soberania. O facto de estar do lado certo da História, em termos de trauma é completamente diferente. Os soldados portugueses sempre tiveram consciência, no fundo, de que estavam do lado errado da História.”


FotoO livro, lançado em final de 2015, resulta da sua tese de doutoramento DR

A voz da cientista social e a da ex-combatente cruzam-se nesta conversa. O livro foi construído também a partir desse “diálogo introspectivo” com a sua história pessoal. “Os campos da Antropologia não são a-históricos, nem a-políticos”, escreve no prólogo. Este é um livro que nasceu a partir de um pressuposto claro: “Eu estava lá”.

Margarida Paredes vive em Salvador, no Brasil, onde é professora na Universidade Federal da Baía. “A identidade vai-se construindo. Hoje assumo que sou portuguesa. Uma portuguesa de entrelugares”, afirma. De Portugal, África e Brasil, os sítios que a moldam, um entrelugares geográfico que é também o da investigadora no duplo lugar de “nativa e pesquisadora” que esteve em Lisboa em vésperas de Natal a apresentar este “exercício de auto-reflexão antropológica”, o livro que lhe custou “três anos e vinte quilos” — quilos ganhos, avisa. Ri.

A conversa vai sendo intercalada por muitas emoções, mas nunca largando o fio à volta do qual a tese também se estruturou: “O meu projecto é feminista, a minha análise é feminista”, diz. Ela é uma mulher a estudar o papel de outras mulheres que se movimentaram num espaço “historicamente masculino” e a analisar as relações de poder que se iam estabelecendo, negociando. “Uma mulher com uma arma subverte códigos culturais e sociais dominantes”, escreve na sua tese. Porque é que decidiu, aos 20 anos, sendo mulher, portuguesa, branca, ir para Angola e ter uma arma na mão? Essa história pessoal está implícita, mas o livro não conta.


Nasceu em Coimbra, no “Penedo da Saudade” — precisa, para situar o sítio privilegiado de onde veio —, numa casa com 40 quartos e “um batalhão de empregadas”, neta de uma latifundiária do Alentejo, filha única. O pai doutorou-se em biologia marítima e oceanografia, em Londres, era professor universitário e fazia comissões de serviço em África. Ela e a mãe acompanhavam-no. Foi assim que Margarida chegou pela primeira vez àquele continente, tinha um ano e meio. “Eu circulava numa elite, mas pertenço a uma geração filha do Império colonial e a maioria dos meus amigos era anti-ditadura. Éramos de esquerda, influenciados pela ideologia romântica e revolucionária do Che Guevara, da Revolução Cubana. Todos tínhamos cartazes do Che na parede — proibidos pela PIDE, claro. Conseguíamos que os livreiros nos passassem livros clandestinamente, do Lenine, do Marx, da Rosa Luxemburgo. Eu era ávida de acção. E os rapazes fugiram quase todos à guerra colonial. Tínhamos dinheiro, podíamos fugir.”

Não falava sobre esse tempo. Nos sítios onde trabalhei não dizia que tinha sido guerrilheira. Imagine dizer isso nos anos 80, quando ainda se estão a digerir os retornados!

FotoMargarida Paredes no Centro de Instrução Revolucionária Hojy-Ya-Henda, perto de Luanda DR

Ela estava em Angola por essa altura. Em 1971 fez uma exposição de batiques nas ruas de Luanda e foi presa. O pai intercedeu, ela foi solta, “mas ele ficou assustado, disse-me que eu tinha de me ir embora, sabia que deixaria de ter influência, e a minha mãe estava em Moçambique”. Foi de Luanda para Lovaina, na Bélgica, onde estavam os amigos do Penedo da Saudade. “Em Lovaina tive uma vida muito diferente da deles. Eles andam numa de contracultura, experiências psicadélicas, música, na literatura eram muito Alain Robbe-Grillet, Marguerite Duras. Eu tinha a experiência de África e eles não. Comecei a ligar-me a associações de estudantes africanos em Lovaina e ao Angola Comité. A sede era em Amesterdão. Ia a manifestações contra a guerra do Vietname e sempre que havia manifestações anticoloniais, lá estava eu.

As leituras intensificaram-se na universidade. “Havia o mito da revolução e eu queria juntar-me à revolução.” Sabia onde lutar. “Eu estava do lado dos africanos na luta colonial. Sempre me pareceu o lado justo. Mesmo criança, eu percebia a desigualdade social e racial. Não me identificava com a comunidade branca, nem em Angola nem em Moçambique.” Em Moçambique era mais fácil movimentar-se. Esteve lá antes de Angola, numa comissão do pai. Havia um grupo de esquerda que se relacionava com africanos como o poeta e artista Malangatana ou o escritor Luís Bernardo Honwana. “Eu pertencia a esse grupo. Ia às festas do Malangatana, em Matalana, que duravam toda a noite. Era miúda. Teria uns 15 anos.”

Já circulava no meio africano anti-colonial, mas em Angola não conhecia ninguém. “Consegui integrar-me num grupo também de esquerda, mas que não tinha ligações com o MPLA. Ouvíamos o Angola Combatente, emitido de Brazzaville e que a PIDE proibia, tentávamos fazer ligações à luta de libertação”, continua.

Quando estava na Bélgica, trabalhava pelos três movimentos de libertação africana, a FRELIMO (Moçambique), o PAIGC (Guiné e Cabo Verde) e MPLA (Angola), mas sentia uma ligação mais forte a Angola, “talvez por achar que era um movimento anti-racista, cosmopolita, mais moderno, mais a ver comigo. Eu gostava muito de Angola.” O que é que Angola tinha? “Não sei. Acho que aquela desorganização total me dizia alguma coisa. A desordem e a cultura dos musseques, sobretudo a música e a dança. Era muito forte.”

Em 1973, com 19 anos, tornou-se militante do MPLA. “Achei que o passo seguinte era aderir ao movimento de libertação. Escrevi para o MPLA. Quem recebeu a carta foi o camarada Mbinda [Afonso Van-Dúnem], em Dar Es Salaam [Tanzânia]. Aceitou a minha inscrição. Disse-lhe que me queria juntar ao movimento, que queria ser guerrilheira. Ele disse que não.” Margarida Paredes diz que já não interessava ao MPLA receber mais brancos, “isso criava problemas raciais”; interessava-lhes que estivessem no exterior a fazer trabalho de propaganda, mobilização, recolha de fundos, mas não que fossem para o terreno “criar problemas”. Não desistiu. “Ser guerrilheira e lutar contra o colonialismo português era um sonho”, afirma, como se falasse de um lugar de que está muito longe, embora familiar.

Ficou no exterior a trabalhar e o 25 de Abril apanha-a em Lovaina. “Achei que já tinha esperado de mais e resolvi chegar a Brazzaville [de onde o MPLA dirigia a luta de libertação nacional] pelos meus meios. Eles não me mandaram carta de chamada, mas arranjei maneira de lá chegar, mesmo não havendo relações diplomáticas entre o Congo Brazzaville e Portugal e tendo eu apenas um passaporte português.” Convenceu o embaixador do Congo Brazzaville em França a passar-lhe um visto especial, levando-lhe as cartas do MPLA a provar que era militante. “Expliquei que não me chamavam porque eu era branca mas queria ir para a revolução”.

Nessa altura ainda não havia diálogo entre o Movimento das Forças Armadas portuguesas e os movimentos de libertação. Passou-lhe o visto. “Com a minha mochilinha, apanhei o avião em Paris e quando cheguei a Brazzaville perguntei a um senhor onde era a delegação do MPLA, ele deu-me boleia. E quando cheguei, quem é que está sentado à mesa na recepção do movimento? O José Eduardo dos Santos. Ficou muito pasmado de me ver, uma branca. Perguntou: “Quem é você? O que vem cá fazer?”


Ser guerrilheira e lutar contra o colonialismo português era um sonho

Foto5 de Maio de 1961: Cerca de 3 mil soldados portugueses embarcam no Vera Cruz para combater em Angola

José Eduardo dos Santos era o representante do MPLA em Brazzaville. “Nunca tinha ouvido falar de mim. Mas todos circulávamos no mesmo meio. A mulher do Lopo do Nascimento [primeiro-ministro de Angola entre 1975 e 78] estava lá e tinha sido secretária do meu pai no Instituto de Investigação em Luanda; havia outra senhora que também sabia bem quem era o meu pai, disse: ‘Ela é muito doida!’ Em pouco tempo eu estava integrada.”

Não tardou a conhecer a primeira manifestação de violência. Ainda em Brazzaville. “Apanhei as cisões do MPLA, entre a Revolta Activa e a Revolta de Leste [dividiu intelectuais e militares formados sobretudo pelas forças que lutavam no Leste de Angola]. Eu primeiro fui viver para uma casa da OMA [Organização da Mulher Angolana] mas que tinha homens. Um dia apareceram uns camaradas que me perguntaram de que lado estava. ‘Está do lado da Revolta Activa, não é?’ Perguntei porquê? ‘Porque é intelectual e os intelectuais estão todos desse lado,’ Respondi que não, ‘estou do lado do Neto’.” De Agostinho Neto, o líder político do MPLA que via a sua autoridade em causa com este conflito interno. “Os militares ficaram com Neto e eu estava com eles”, justifica Paredes, e prossegue: “Os intelectuais na Revolta Activa não eram guerrilheiros. Eram dirigentes, quase todos. Era evidente que entre os militares e os intelectuais eu estivesse do lado dos guerrilheiros. Havia um grande respeito pelo Neto enquanto nacionalista.”

Quando disse que estava “com o Neto” pediram-lhe que fosse buscar a sua mochila e saísse daquela casa. “Esta casa é revolta activa”, informaram-na. Foi muito violento porque as pessoas com quem me dava no dia seguinte passaram a ser inimigos. Eu passava por eles e não os cumprimentava, fazia parte das lógicas daquele tempo. Depois o MPLA deixou de receber ajuda da União Soviética e começámos a nem sequer ter dinheiro para comer.” Quando foi para Brazzaville comprou uma passagem de ida e volta porque não sabia se a deixariam entrar. Nesse caso teria de regressar à Bélgica. Trocou esse bilhete de regresso por dinheiro. “Durante um mês sustentei a casa onde estávamos, mesmo assim a comida era uma panela de água com uma posta de peixe e um tomate que fervia ali. Comíamos aquele caldo, meio pão e uma caneca de chá ao pequeno-almoço, mais nada. Passámos mesmo fome.” No momento em que vai trocar a passagem de volta sabe que está a fazer uma opção arriscada, mas não teve dúvidas nem medo. “Só tinha certezas”, sorri, enquanto mexe num dos anéis que usa nas mãos.

Ainda não tinha pegado numa arma. Foi para Luanda em Dezembro, “chego mesmo no último dia do ano de 74 com o MPLA debilitado por todas estas cisões, muitos militares da Frente Leste ficaram com o Chipenda [Daniel Chipenda], havia que reconstruir as FAPLA [as Forças Armadas Populares de Libertação de Angola]. As FAPLA são proclamadas em 1974 e sem nenhuma mulher assinar.”

No livro, Margarida Paredes escreve: “Depois do 25 de Abril de 1974, os três movimentos nacionalistas, MPLA, FNLA e UNITA, que lutaram entre si durante a luta anticolonial, saíram das matas e entraram nas cidades, continuando a competir no sentido de ganharem legitimidade política e militar no país. […] No MPLA, jovens urbanos de todas as origens sociais desempenharam um papel fundamental na mobilização militar de milhares de homens e mulheres que, sob a palavra de ordem ‘Resistência Popular Generalizada’ rumaram em direcção aos Centros de Instrução Revolucionária, os CIR, que foram criados para as FAPLA se recomporem militarmente da purga sofrida com as divisões internas da Revolta do Leste e da Revolta Ativa em 1974.”
As armas

É criado um Centro de Instrução Revolucionária próximo de Luanda, no Caxito. Margarida Paredes vai como instrutora política e como instruenda militar. Só por isso, por esse duplo papel, não integra o Destacamento Feminino. Ao contrário da FRELIMO, em Moçambique, que tinha um destacamento militar feminino desde 1966, no MPLA só foi criado em 1975. “Eu não tinha instrução militar. Faço a instrução com o malogrado Destacamento Feminino de que as comandantes serão fuziladas [na sequência da revolta de 27 de Maio de 1977]. É aí a primeira vez que pego numa arma”, refere.

Uma das mulheres com quem falou para este livro, Eunice Mendes, coronel das FAA [Forças Armadas Angolanas], tinha 16 anos quando saiu do liceu para receber instrução militar no CIR Certeza, comandado por Nito Alves, mentor do movimento de contestação a Agostinho Neto, que seria chamado ‘Fraccionista’ em 1977. Eunice conta que eram “oito a dez mulheres” e uns 200 homens. “Quando cheguei ao CIR, por causa da minha idade e da minha altura, duvidaram da minha capacidade. A primeira pergunta que fizeram era se eu estava preparada de facto para aguentar o treino militar. No primeiro dia havia uma marcha de 16 km e como eu em Luanda treinava atletismo no Sport Luanda e Benfica, destaquei-me nessa marcha e fui das primeiras pessoas a chegar, até os instrutores ficaram para trás. Aí não houve dúvidas em relação à minha resistência e aptidões físicas.”


No MPLA, jovens urbanos de todas as origens sociais desempenharam um papel fundamental na mobilização militar de milhares de homens e mulheres

FotoFevereiro de 1976: soldados do MPLA patrulham uma aldeia sob o seu controlo. A guerra civil só terminaria em 2002 AFP

É uma história diferente da de Filomena de Carvalho, nome de guerra Mena Bodega, actual tenente-coronel na reserva. “Tinha 15 anos quando fugiu com a irmã e outros jovens para o Congo sem a mãe saber. Fingiu que ia comprar pão e não regressou a casa”, escreve Margarida Paredes. Diferente da de Eunice excepto na motivação. A voz agora é de Mena: “Eu era criança, mas tinha consciência de que havia movimentos que lutavam pela independência de Angola. O meu pai foi preso pela PIDE nos anos 60, ouvia o Angola Combatente, e o meu primo Luís Kiambata, alferes das FAP, trabalhava no laboratório de engenharia, foi ele que desviou um avião para o MPLA, no Congo.”

No livro, Eunice contextualiza. Lembra a instrução que recebiam: “… tínhamos uma cartilha à base do marxismo-leninismo”. E Margarida Paredes escreve: “A instrução militar não garantia às mulheres uma relação de igualdade com os homens”. Deixemos a cientista social e voltemos à ex-combatente: “É verdade, as mulheres sempre foram secundarizadas. Na instrução militar davam-nos as armas piores. A PPSH, uma metralhadora, não tinha segurança nenhuma, assim que a púnhamos no chão começava a disparar sozinha. Ou então a G3 do exército português, que não queríamos por ser a arma do inimigo. Se conseguíamos uma Kalashnikov era um orgulho, a arma do guerrilheiro. Eu tive uma Kalashnikov. Apesar de ter disparado com uma PPSH, mas nunca com uma G3.”

Margarida Paredes só lutou durante a guerrilha urbana. “É preciso conhecer bem a cidade e os musseques. A maior parte dos combates era nos musseques. A não ser numa luta corpo a corpo uma pessoa não tem consciência se atinge o adversário ou não.” Matou alguém? “Não sei”.

Não diz nada durante uns segundos. E depois: “Vi muita gente cair ao meu lado, eram atingidos e eu não. Pouca gente tem consciência de que morreram muitos mais militantes e guerrilheiros nas guerras por Luanda — um ano — do que durante os 14 anos da luta de libertação. Os movimentos lutavam entre si. Apesar de eu ter sido feita prisioneira pelas FAP no ataque à Vila Alice [27 de Julho de 75, de que resultou a morte de 14 militares das FAPLA depois das FAP terem pensado que um militar português fora atingido], os combates não eram contra as Forças Armadas Portuguesas. Eram entre os três movimentos de libertação.”
A “ferida”

Mas a “maior ferida” estava por abrir. Aconteceu a 27 de Maio de 1977. “Foi a maior ferida humana do MPLA. Porque foi interno, foi irmão contra irmão, pai contra filho, era entre famílias. As pessoas desapareciam, não se sabia se estavam presas ou se tinham sido fuziladas. Eram pessoas com quem nos dávamos. Perguntávamos: ‘então fulano?’; ‘Não sei, já deve ter ido.’ Nunca se sabia o que lhe acontecia. Toda a gente tinha medo de falar, até de perguntar pelas pessoas e com isso conotá-las com os Nitistas.” Margarida Paredes refere-se à sublevação que se seguiu à exoneração de Nito Alves do MPLA por contestar a política de Agostinho Neto, o presidente desde 11 de Novembro de 1975, o dia da independência da Angola.

A versão desse momento da história recente de Angola difere da oficial e rompe com o silêncio que se seguiu à reacção de Neto a essa revolta. Segundo Paredes, foi o Destacamento Feminino, comandado por Elvira da Conceição, a Virinha, quem dirigiu as acções militares de 27 de Maio. Para defender a sua tese, recorre mais uma vez ao seu testemunho pessoal e aos do que sobreviveram para contar, bem como a trabalhos que foram sendo publicados.


A não ser numa luta corpo a corpo uma pessoa não tem consciência se atinge o adversário ou não.” Matou alguém? “Não sei”

FotoAbril de 1997: Casa destruída pela guerra civil entre o MPLA e a UNITA no Cuíto MIGUEL SILVA

Para a investigadora, o facto de o papel das mulheres na sublevação ter sido silenciado foi também por representar “um golpe à masculinidade” do exército. “Para o Destacamento Feminino, o Nitismo talvez tenha representado a possibilidade de mais respeito, menos injustiça e maior igualdade de género”, escreve sobre a provável motivação das mulheres para participar no golpe que nesse dia forçou a entrada na Cadeia de S. Paulo, com o objectivo de libertar presos políticos. Foram “quatro horas de combate intenso”, contou Américo Cardos Botelho, um preso português que então estava naquela prisão e é citado por Paredes. Pela manhã, Virinha e Nandi, a número dois do Destacamento, grávida de oito meses, “foram vistas na Rádio Nacional em cima dos tanques que ocupavam a rádio”, conclui em defesa dessa versão.

Nesse dia Agostinho Neto, no Jornal de Angola, declarava: “Não haverá perdão nem tolerância para estes aliados da reacção.” A frase é recuperada por Margarida Paredes, com outra: “Não haverá contemplações”. Para Paredes, acabava de ser ateado “o rastilho para a mais brutal das repressões”, isso “institucionalizava a morte e a tortura como política de Estado”.

Esta conclusão só lhe foi possível agora, confessa, enquanto investigadora social, dando dados sobre as execuções, as prisões que se sucederam. “Não sabemos quantas mulheres foram vítimas da repressão pós-27 de Maio”, refere no livro num subcapítulo onde “serão as sobreviventes a recordar a tortura, a violência extrema, as ofensas e humilhações sofridas após a derrota Nitista”.

Onde estava Margarida Paredes nessa altura? “Eu estava numa situação muito diferente. Estava para casar com um comandante do MPLA, o Dangereux [comandante Paulo da Silva Mugongo, membro do Comité Central do MPLA, do Estado-Maior das FAPLA e do Conselho da Revolução] que foi morto pelos Nitistas. O que desencadeia a repressão foi a morte de comandantes como ele.” Faz uma pausa. “Era evidente que a minha posição era tranquila em relação ao regime porque o Dangereux era uma espécie de delfim do Agostinho Neto e se eu estava para casar com ele isso fazia de mim Netista. E eu era Netista. Nunca estive do lado do Nito. Mais tarde fui viver com aquele que viria a ser o pai do meu filho, angolano da comunidade branca. Chegou uma altura em que ele disse que ia embora, que não aguentava aquilo. Eu também já não aguentava, mas não tinha coragem de dizer. Ele acabou por ir. Veio fugido, como se viesse de férias e não regressou. Eu fiquei.”

As razões começam a ser pouco claras vistas a partir de agora. “Sentia-me tão parte daquele processo, há tantos anos ligada a Angola, à luta de libertação, aos angolanos, que não conseguia ir embora. Era verdade que não aguentava, mas não tinha consciência. Por exemplo, de questionar a posição da elite dirigente.” Faz outra pausa. “Ele veio embora e eu só venho um ano depois. Aquilo ficou muito complicado. Virou um regime marxista-leninista. O MPLA passou a partido do trabalho, todo o discurso ideológico se extremou, com ligações ao regime soviético, não havia um certo liberalismo que tinha existido durante a luta de libertação. Eu nessa altura nunca tinha ouvido falar do Matias Miguéis, que foi o primeiro a ser morto pelo MPLA. Esse tipo de informação não circulava dentro do movimento. Tive acesso a ela fora, anos depois.”

Recorda o testemunho ouvido em 2012 à mãe de Virinha. “A Virinha foi uma das fuziladas. Foi a única entrevista que a mãe dela deu e faleceu sem ler o livro, o que me desgostou. A mãe dela passou 40 anos a ouvir dizer que a filha era uma ‘fraccionista’ e uma criminosa, sempre a acusarem-na. Gostava que ela tivesse lido o que escrevi, talvez ficasse reconciliada com a memória da filha. Ela vivia com a dor. A estratégia de sobrevivência foi não falar da filha, tentar esquecer.”

É um trauma individual e colectivo, considera Paredes. “A ferida nunca sarou nem pode sarar porque continua sem se falar disso. Alastrou ao tecido social. Não houve uma tentativa de reconciliação entre as partes em conflito. Estas mães não tinham atestado de óbito dos filhos. Não podem fazer um luto. Recentemente, quando estes activistas foram presos [acusados em Junho passado de preparar uma revolta contra o presidente angolano e que levou à greve de fome de Luaty Beirão, em protesto contra o prolongamento da prisão preventiva sem julgamento], José Eduardo dos Santos acenou com o conflito de 27 de Maio. As pessoas sentiram isto como uma ameaça. E a razão por que é tão difícil mobilizar, por exemplo, os jovens para as manifestações é porque a memória dessa repressão ainda está muito presente. As pessoas têm medo de serem mortas. Mesmo esta geração, é uma pós-memória, as mães e os pais dizem-lhes ‘não te metas em política senão podes desaparecer’; ‘olha que te matam’; ‘não fales’.”
A mudança

Margarida Paredes ficou em Angola até 1981. Trabalhou com “crianças-soldado”, órfãos da guerra, assistiu às movimentações no poder.


Sentia-me tão parte daquele processo, há tantos anos ligada a Angola, à luta de libertação, aos angolanos, que não conseguia ir embora

FotoHuambo, 1976: uma criança soldado do MPLA com a fotografia de Agostinho Neto por trás AFP

José Eduardo dos Santos sucedeu a Agostinho Neto em 1979, que morreu nesse ano em Moscovo, de cancro. O homem que a recebeu em Brazzaville era agora o Presidente da República de Angola. “São duas pessoas diferentes. O que está no poder e o de 1974”, refere. “Conheci-o pobre, com a ajuda de um dicionário de russo-francês ensinei a primeira mulher, a Tatiana [Tatiana Kukanova, mãe de Isabel dos Santos], a falar português.”

Margarida Paredes movimentava-se bem nos musseques, impenetráveis para brancos. “Eu era conhecida e circulava sem problemas. Os pais do José Eduardo moravam num casebre no musseque do Rangel, em Luanda. A Tatiana queria ir levar comida, cobertores, dinheiro, porque eles viviam em grandes dificuldades e a maneira de lá chegar era comigo. Íamos no meu carro. Os pais dele moravam num dos casebres mais pobres. Foi logo a seguir à independência, e apesar do filho ser ministro das Relações Exteriores, na altura ninguém tinha acesso a bens. Com a guerra às portas de Luanda e após os brancos da comunidade portuguesa terem saído, não havia comida. De uma maneira geral todos passámos mal. Eu nem por isso. A minha mãe mandava um caixote de comida todas as semanas para Angola através de um indivíduo da TAP. Mandava-me tudo, queijo, bacalhau, sempre duas garrafas de vinho. Eu era uma privilegiada e distribuía o que recebia pelos amigos. A Tatiana sabia sempre quando o meu caixote tinha chegado e pedia-me as garrafas de vinho. Trocaram-nas por um carro. Veja a ironia, o primeiro carro que eles tiveram foi comprado com as minhas garrafas de vinho. Ensinei-a a conduzir nesse carro.”

Não há mais episódios em comum. “Na altura em que ele foi nomeado, deixei de ter acesso à presidência. Com o Neto, tinha. “Se José Eduardo tivesse abandonado o poder depois do fim da guerra civil [em 2002] seria recordado como o ‘arquitecto da paz’ porque integrou os homens (as mulheres ficaram de fora dos acordos de paz) das FALA/UNITA nas Forças Armadas Angolanas e condenou qualquer reacção contra os perdedores da guerra. Mas o facto depersistir no poder ao fim de 36 anos, reprimir violentamente toda a oposição e manifestações que questionam o seu poder e se ter tornado num dos homens mais ricos do mundo à custa da apropriação do erário, coloca-o no mesmo lugar dos tão detestados ‘ditadores africanos’.” E acrescenta: “Estou convencida de que se tivesse passado por ele durante estes anos todos ele fingia que não me conhecia. Esta não é uma boa memória. Estou a dar testemunho de que ele era pobre.”

Margarida Paredes não quer que a sua biografia faça sombra ao trabalho que desenvolveu. O que vai dizendo é com essa preocupação. Mas não é possível separar as trajectórias das mulheres que ouviu da sua, porque foi o seu percurso que a fez interessar-se pelo tema para uma tese. “Defendo que foi a participação das mulheres nas listas de libertação, sobretudo, que lhes deu a hipótese de negociar e neste momento ocuparem posições de poder.” Muitas são hoje deputadas, oficiais das forças armadas, diplomatas.

Mas há um efeito espelho, através dos testemunhos daquelas mulheres, Margarida consegue perceber-se melhor nesse processo. As do MPLA, as da FNLA, as da UNITA. “As mulheres no exército, lutem onde lutarem, sentem necessidade de se masculinizarem porque estão inseridas numa estrutura com uma cultura masculina. Há uma militar que diz que no exército não há mulheres nem homens, só há soldados. A ideia é essa. Têm de ser todos iguais e atingir os objectivos dos homens, por isso elas têm que negociar... Elas dissociam género e sexualidade. De biologia são mulheres, a cultura ou género é masculino, e na sexualidade são heterossexuais... Sujeitam-se a tudo. Aos castigos, oferecem-se como voluntárias para a frente, estão sempre numa de mostrar mais coragem do que os homens. Há uma que diz que deu uma chapada a um homem porque ele não ia para a frente.”


Se José Eduardo tivesse abandonado o poder depois do fim da guerra civil seria recordado como o ‘arquitecto da paz’

Foto6 de Maio de 1995:Encontro entre José Eduardo dos Santos e Jonas Savimbi com vista à reconciliação nacional BERNARD GARY/AFP

A voz do livro é a voz dessas mulheres e reflecte diferenças de classe, de educação, de origem, de etnia. Todas pegaram em armas, fizeram a guerra quando se espera que a mulher “faça a paz”. Nessa guerra, alguma vez se interrogou sobre se esteve do lado errado? “Continuo a considerar que na altura o MPLA era o movimento mais indicado para conduzir o país. Mas neste momento estou nitidamente na oposição ao regime. Sou da família MPLA. Assumo, em termos afectivos e não ideológicos. Continuo a dizer isso. Como investigadora, tentei ser isenta. Não tomei partido. Escrevi a pensar também que ele pode contribuir para a reconciliação nacional. A ideia de as mulheres angolanas serem só uma”, refere. “Elas lutaram no seu país, pelo seu país. É um trabalho influenciado pelo tipo de diálogo que se estabeleceu entre mim e elas.”

É através dessas vozes que quer dizer que o conflito de 27 de Maio “foi uma sublevação militar em que os tanques saíram dos quartéis da 9.ª Brigada e foram ocupar a prisão e a rádio, e não uma manifestação como algumas pessoas dizem. Foi uma sublevação militar comandada pelas mulheres. Isso ninguém diz, nem a Lara Pawson [jornalista britânica autora de Em Nome do Povo — O Massacre que Angola Silenciou, Tinta da China]. Isso vai entrar em conflito com a História que se está a construir sobre o 27 de Maio”, refere.

Espera que por essas vozes se perceba que é preciso olhar para o que se está a escrever da parte de Portugal sobre essa história recente. “Estamos habituados aos testemunhos dos homens militares das Forças Armadas Portuguesas e à história colonial que se construiu à volta disso. Falam muito das terroristas ou das ‘putas’, que é como muitos se referem às nacionalistas. Tratam-nas como se fossem umas selvagens, atrasadas, primitivas. Sobre o 15 de Março de 1961, quando a UPA atacou o Norte de Angola, a visão em Portugal é a de que foi uma carnificina. Este livro é a versão africana desses factos a partir dos quais Portugal faz a leitura colonial. É o outro lado da História, para mais através de mulheres.” A revolta do Kassange, as prisioneiras do campo de concentração de São Nicolau, o Batalhão 69 da UNITA. São nomes familiares de uma história recente que Margarida Paredes revisita num livro que espera seja lido em Angola e em Portugal e contribua para mudanças.

Quando regressou a Portugal, em 1981, também ficou em silêncio sobre esse tempo. “Comecei a ficar muito infeliz porque não acontecia nada”, comenta, sobre o tédio que sentiu. O que fazia? “Nada. Estava deprimida, faltava adrenalina.” Foi passando. Nos empregos que foi tendo, não se revelava como ex-guerrilheira e aos 50 anos voltou à universidade. “Quando o meu filho entrou para Arquitectura eu fui para Estudos Africanos”. Seguiu-se o doutoramento em Antropologia, no ISCTE. Ganhou uma bolsa da Fundação para a Ciência e Tecnologia e foi para Angola estudar as mulheres guerrilheiras, “resgatar vozes e memórias”. Esteve um ano em Angola em condições precárias que descreve no prólogo a esta tese orientada por Miguel Vale de Almeida.

Está feita. Vai voltar para o Brasil, onde dá aulas e onde vive o pai, há 40 anos, desde que saiu de Angola, e também a sua meia-irmã. A mãe está em Portugal. “O meu pai e a minha mãe admiram-me, faça eu o que fizer”, diz, sobre como reagiram a ter uma filha guerrilheira. “Quando se deu a independência ficámos cada um num continente: o meu pai no Brasil, a minha mãe em Portugal e eu em Angola. Sou desses lugares.”


A minha mochila tinha sempre o pano, um lençol e o resto eu desenvencilhava. Eu era a única que fazia aquilo. Aí, acho que não era uma questão de género, mas mais uma questão de classe

FotoMargarida Paredes no deserto do Namibe, junto a uma bandeira do MPLA, quando foi estudar as mulheres guerrilheiras DR

Falta uma pergunta: o que levava na mochila que não largava, coisas de mulher? “Vai-se rir. O que marcava mais a minha posição na guerrilha era a questão de classe. Num processo revolucionário, ser burguês era ser contra-revolucionário. Eu estava-me um bocado nas tintas. Andava com um lençol com elástico que tinha levado da Bélgica, ajustável. Era castanho. Mesmo com capim, na caserna, fazia cama, depois arranjava um caixotinho de papelão ou madeira, fazia uma mesinha de cabeceira e punha um pano africano na parede. Dormíamos vestidos, não tirávamos a farda, mas o meu cantinho era o cantinho burguês. Eu não prescindia. A minha mochila tinha sempre o pano, um lençol e o resto eu desenvencilhava. Eu era a única que fazia aquilo. Aí, acho que não era uma questão de género, mas mais uma questão de classe.”


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AQUI:

Vitória Queiroz da Fonseca não é Yara Monteiro. Mas é mulher e é negra como ela. As duas nasceram no Huambo, com um ano de diferença: a primeira, em 1978, é a personagem principal de Essa Dama Bate Bué (Guerra e Paz); a segunda, em 1979, é a autora do romance.

Filha de uma combatente da guerra e revolucionária da independência em Angola, Vitória é uma jovem que regressa a Luanda num périplo em busca da mãe. Essa é a narrativa central de Essa Dama Bate Bué. Mas o romance desenha-se ainda no confronto com um ambiente que para a personagem é familiar e estranho ao mesmo tempo, acabando por ser uma espécie de viagem de iniciação que a irá envolver com a parte da história do país que se confunde com a sua.


A Luanda que a personagem central descreve terá diferenças com a actual, sobretudo porque o tempo do romance está situado no início dos anos 2000, pouco depois do fim da guerra civil em 2002. Estamos em pleno período de reconstrução e início do florescimento económico de um país onde o fosso económico e social entre a elite e a maioria da população está mais do que documentado.

Vitória anda pelo mundo da juventude urbana de elite que estuda no estrangeiro, pelas organizações não-governamentais, pelas discotecas e bares, pelas ruas caóticas de trânsito onde as zungueiras vendem o que podem e os meninos andam de mão esticada sem terem o que comer; anda, enfim, pelo caos de uma cidade desigual. Observa-a com “os clichés de quem visita Luanda pela primeira vez”, como diz a páginas 111.

O fito é sempre o mesmo, conhecer a mãe que a abandonou. Para isso terá a ajuda de um general, Zacarias Vindu, e da companheira de armas da mãe, Juliana Tijamba.

Vitória é também a neta de um homem assimilado que se considera “acima de tudo português”. E quando vai em busca da sua origem confronta-se também com a memória de facções opostas na família e sobretudo de uma mãe — Rosa Chitula — que, quando se insurge contra o colonialismo, está a afrontar o pai. Rosa Chitula irá ser uma das mulheres angolanas que foi para a frente da luta de libertação e da guerra civil. A dada altura engravida, regressa a casa dos pais ao fim de 15 anos de andar desaparecida, mas fá-lo apenas para deixar a filha Vitória — e nunca mais a ver.
Descreve a sua escrita como “intuitiva”. É fã do norte-americano Paul Auster, e só mais recentemente entrou no universo dos autores afro-americanos — Tony Morrisson e Maya Angelou são as leituras mais recentes. Mas sente grande influência de latino-americanos como Gabriel García Marquez e Isabel Allende

Presença decisiva no romance, sobretudo pelo que representa na dicotomia entre poder colonial-país ocupado, é ainda o avó, um homem mestiço que acabava por “trabalhar” para os dois lados, descreve a neta Vitória, narradora na primeira pessoa até determinada altura do romance. “A cor do meio colocara-o num mundo intermédio. Para uns não era negro o suficiente e, para outros, precisava de aclarar a pele”.

As inquietações com a negritude

Essa Dama Bate Bué ficciona uma história como tantas que existiram na vida real. Com uma escrita fluída e descritiva, a autora criou um romance que também poderia ser um guião de cinema. É a estreia de Yara Monteiro, que veio para Portugal ainda bebé, cresceu no Seixal e hoje vive no Alentejo.

O retrato da Angola pós-colonial e do pós-guerra que está em Essa Dama Bate Bué — de resto, o título vem de um rap que ela própria escreveu e que é uma homenagem a Luanda — não nasce, de resto, da literatura mas da sua experiência, das idas frequentes ao país para visitar o pai e de um período em que viveu na capital durante cinco anos, em meados de 2000. Era a altura do boomdas indústrias petrolíferas e Yara Monteiro trabalhava em gestão de recursos humanos numa dessas empresas.


“Não sou a Vitória, mas estou em muito da Vitória, nomeadamente no percurso da memória familiar das três gerações”, diz na cafetaria da Sociedade de Geografia de Lisboa, o lugar onde escolheu para fazer a entrevista por causa do universo que aborda, o colonialismo. A verdade é que há cruzamentos biográficos entre a escritora e a personagem.
Mulheres na luta armada

Yara Monteiro começou a escrever o livro em 2016 numa altura em que as suas inquietações tinham a ver com “a negritude, com ser-se mulher, com o posicionamento na sociedade”. Já tinha vivido em vários países antes de se instalar de novo em Portugal — Copenhaga, Atenas, Rio de Janeiro, Londres — e foi no Brasil que encontrou os movimentos sociais de afirmação com que se identificou, foi lá que se deu o “despertar” da sua negritude.

FotoNUNO FERREIRA SANTOS

Num dos posts da sua conta de Instagram, a dada altura Yara Monteiro escreveu: “Sou trineta da escravatura, bisneta da mestiçagem, neta da independência e filha da diáspora”.

De facto, durante “a caminhada” que fez para escrever o livro foi descobrindo muita coisa sobre a sua família e ouvindo histórias contadas pela avó materna de mais de 80 anos. Explica alguma parte daquela frase: a trisavó angolana foi comprada duas vezes, a última pelo trisavô português que depois acabou por arranjar uma outra mulher; a bisavô foi forçada a casar com o bisavô, que conheceu no dia que a foram buscar a casa.

A mestiçagem é, de facto, um tópico presente no livro, questão por vezes complexa de discutir. Yara Monteiro: “Eu sei onde me situar. Onde é que os outros me situam? Isto é mutável de acordo com a localização onde estou. Mas decidi que a minha identidade é negra.”
O bué foi das primeiras palavras angolanas a entrar no dicionário de português. E eu gosto do bué: é levar a margem para o centroYara Monteiro

A questão deve ser levantada, refere, porque a “a sociedade e a caixa da identidade o pedem”. Assim como devem ser levantados outros temas que têm sido esquecidos e que ela aborda no livro, afirma. Por exemplo: a participação das mulheres na luta armada angolana. Porque para a autora era importante abordar as condições das mulheres de diferentes pontos de vista.

Yara Monteiro leu Combater Duas Vezes, de Margarida Paredes, e aquele livro-investigação sobre as mulheres na luta armada angolana inspirou-a a criar a figura da mãe de Vitória. “Era uma história que queria que fosse contada e celebrada porque houve o reconhecimento para os generais — e há o general Zacarias no livro — mas muitas mulheres não foram reconhecidas”, afirma.

Fascinou-a particularmente a combatente Carlota (que foi retratada pelo jornalista polaco Ryszard Kapuscinski), por causa da sua “capacidade de luta, da independência, da definição de prioridades” de quem é colocada pela sociedade como “biologicamente feita para procriar” mas que não precisa de o ser.

Vitória é de resto uma mulher lésbica, o que foi importante para si como mais outra tentativa de quebrar tabus. “Tentei abordar muita da discriminação que existe contra as mulheres angolanas. Só agora é que Angola discriminalizou as relações homossexuais”, afirma.

Mas o romance é também uma crítica à Luanda actual, não apenas aos angolanos. Yara Monteiro faz uma retrato do mundo das organizações não-governamentais e dos expatriados, a “abusos de poder da condição de privilegiado” de quem chega a um país e tira vantagem da miséria social e económica.

Houve, de resto, muitos aspectos sobre os quais só tomou consciência depois de sair de Angola. Por exemplo: “Hoje acho inadmissível pagar 200 dólares a uma empregada doméstica”, é a perpetuação de um “sistema de escravatura”, diz. “O que é que vão fazer com 200 dólares? O que é que não está bem? Habituamo-nos à pobreza, mas temos que questionar”.

Entre o antigo o novo presidente, entre José Eduardo dos Santos e João Lourenço, entre os anos em que lá esteve e o presente, muito mudou. A economia retraiu-se, a falta de dólares é uma realidade, a cidade está deprimida, as pessoas têm mais consciência social e com o novo presidente “acabou muita da impunidade”, considera. “A elite também era corrupta, toda a gente tinha uma tia na Sonangol, no Governo. Hoje acho que há maior consciência de que o povo não pode sofrer como está a sofrer”.

Sem formação em Literatura, descreve a sua escrita como “intuitiva”. É fã do escritor norte-americano Paul Auster, e conta que só mais recentemente é que entrou no universo dos autores afro-americanos — Tony Morrisson e Maya Angelou são as leituras mais recentes. Mas sente grande influência de autores latino-americanos como Gabriel García Marquez e Isabel Allende.

Djaimilia Pereira de AlmeidaKalaf Epalanga e Telma Tvon são escritores que, como ela, pertencem a uma geração que nasceu em Angola mas veio viver para Portugal. Com percursos diferentes, fazem, porém, parte da mesma “maka (problema) e alegria”, diz. “Somos afrodescendentes que tocamos nos mesmos pontos da identidade, da vivência em Portugal, dos desafios de um africano.”

Já no final, explica sobre o título: “O bué foi das primeiras palavras angolanas a entrar no dicionário de português. E eu gosto do bué: é levar a margem para o centro.”

tp.ocilbup@hgj

in: Jornal "Publico"

terça-feira, 19 de março de 2019

ligada a ti

Estou ligada a ti
Fizeste parte de tudo o que, hoje, honro
Fazes parte do meu coração
E escolheste a minha mãe para dar a mão

Estou ligada a ti
Mais que pelo sangue, no Amor!
Mais que pela genética, pela conexão
E, Sempre que te penso, sorrio

Estou ligada a ti
Fazes-me sentir em casa
És das poucas almas que me traz essa noção
..Não cabes dentro do meu coração!

Estou ligada a ti
E agradeço-te profundamente
Por tudo o que trazes para ensinar
Mesmo quando não quero ouvir..
Principalmente nesses momentos...!

Estou ligada a ti
Desde todos os tempos
Em que caminhavámos descalços na terra
E as coisas eram tão simples
Como escutar um lobo a uivar

Estou tão ligada a ti
De uma forma que não há palavras,
Poesia ou canções
Que cheguem para abraçar
O quanto és importante para mim!

Eu não te amo apenas, meu pai,....
Transbordo!

Direito de imagem e texto reservados
Sofia Almeida



sábado, 16 de março de 2019

Maria Judite de Carvalho_Obra reeditada

AQUI: 
Os tres primeiros volumes ja' editados.

Maria Judite de Carvalho - A reedição da obra completa, em seis volumes, dezasseis títulos, que reúne contos, novelas, crónicas e que foi escrevendo em diferentes jornais, uma peça de teatro e um livro de poesia.


quarta-feira, 13 de março de 2019

gal costa e zeca baleiro_ Flor da pele

um "casamento" perfeito de  duas vozes, dois estilos, duas musicas e um poema sublime


letra de zeca baleiro:

Ando tão à flor da pele,
Que qualquer beijo de novela me faz chorar,
Ando tão à flor da pele,
Que teu olhar flor na janela me faz morrer,
Ando tão à flor da pele,
Que meu desejo se confunde com a vontade de não ser,
Ando tão à flor da pele,
Que a minha pele tem o fogo do juízo final.

Um barco sem porto,
Sem rumo,
Sem vela,
Cavalo sem sela,
Um bicho solto,
Um cão sem dono,
Um menino,
Um bandido,
Às vezes me preservo noutras suicido.

Oh sim eu estou tão cansado,
Mas não pra dizer,
Que não acredito mais em você
Eu não preciso de muito dinheiro graças a Deus
Mas vou tomar aquele velho navio,
Aquele velho navio..

Um barco sem porto,
Sem rumo,
Sem vela,
Cavalo sem sela,
Um bicho solto,
Um cão sem dono,
Um menino,
Um bandido,
Às vezes me preservo noutras suicido.

sexta-feira, 8 de março de 2019

mulher

para que^ dizer que este e' o teu dia
se tantos outros de ti ficaram esquecidos?

um só dia a celebrar e' tão pouco para
quem todos os dias tem tudo para dar.

a ti, mulher
a minha gratidão.



Calçada de Carriche
poema de António Gedeão

Luisa sobe,
sobe a calçada
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe Luisa,
sobe que sobe
sobe a calçada.
Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.
Anda, Luisa,
Luisa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Luisa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.
Anda, Luisa.
Luisa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas
não dá por nada.
Anda, Luisa,
Luisa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu a sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o hommem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.
Anda, Luisa.
Luisa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Na manhã débil,
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho
a cada passada,
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce o passeio,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina,
volta à toada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga.
Regrassa a casa
é já noite fechada.
Luisa arqueja
pela calçada.
Anda, Luisa,
Luisa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Anda, Luisa,
Luisa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
....//.....

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Arquitectura_ O rosto desfeito

A arquitectura e' também vítima de poderes e regimes políticos destruidores.
No primeiro caso, foi arrasado o mais emblemático edifício de Luanda.
Uma obra de interesse publico, social e paisagístico, na moderna e humana arquitectura.
No segundo, preservou-se este, igualmente magnifico, edifício, também porque serve os
fins políticos. Lamentável.


1. Mercado Municipal do Kinaxixe/Kinaxixi (Quinaxixe)

2. Rádio Nacional de Angola (ex- Emissora Oficial de Angola)


Mercado Municipal do Kinaxixe/Kinaxixi (Quinaxixe)


Mercado Municipal do Kinaxixe/Kinaxixi (Quinaxixe)
Luanda [São Paulo de Luanda], Luanda, Angola
Equipamentos e infraestruturas

O Mercado do Kinaxixe (1950-1958), demolido em 2008, constituía uma referência do movimento moderno em Luanda correspondendo à primeira obra desenhada por Vasco Vieira da Costa (1911-1982) depois do estágio realizado em Paris no atelier de Le Corbusier. O projecto responde à encomenda do Governador-Geral de Angola, Capitão José Agapito da Silva Carvalho, e será desenvolvido entre 1950 e 1952 por Vasco Vieira da Costa, no âmbito das suas funções como arquitecto municipal, na zona alta da cidade: junto ao Museu Nacional de História Natural de Angola (1956) e do cinema Miramar (1964), onde surgirá no início dos anos 50 o bloco “Edifício Cuca” (demolido em 2011), do arquitecto Luís Taquelim da Silva.

É também nos anos 50 que Vasco Vieira da Costa elabora o Plano para a Baía de Luanda desenhando uma linha de edifícios que limitam o crescimento da cidade e, simultaneamente a abrem para a baía através da criação de uma extensa galeria ao nível do piso térreo que marca o embasamento criando um espaço de transição e um percurso confortável. O Mercado do Kinaxixe será um dos edifícios desenhado nos anos 50 que transformará a cidade de Luanda, organizando o espaço circundante com a sua geometria simples e reinventando o lugar.

Situado no Largo do Kinaxixe, área de expansão da cidade, o Mercado funcionou como um instrumento estruturante da área de expansão urbana de Luanda para Norte localizando-se no cruzamento de vias relevantes na organização da cidade, como a Avenida Comandante Valódia e a Rua Gamal Abdel Nasser, definindo-as, e limitando a fachada do largo do Kinaxixe, como um espaço público de encontro.

O Mercado do Kinaxixe afirmava-se como um edifício monumental paralelepipédico elevado do chão, cuja continuidade com a cidade era garantida através do piso térreo ajustado à topografia: pé direito duplo a nascente e piso intermédio a poente. Recuado em três lados, o piso térreo é desenhado com recurso a uma estrutura porticada de duplo pé direito, ocupado por espaços comerciais em relação directa com a cidade, o recuo relativamente ao plano da fachada protegia-os do sol. Na fachada Norte, o piso térreo avança para o limite da fachada e é desenhada uma rampa de acesso ao piso intermédio.

A planta de forma rectangular com 100 metros de comprimento por 60 metros de largura conforma dois pátios, em cotas distintas devido à inclinação do terreno, e em volta dos quais Vasco Vieira da Costa organiza todo o programa. No piso térreo os espaços comerciais virados para a cidade e os armazéns e serviços virados para o interior dos pátios, e no piso superior a área destinada à venda de produtos constituída por galerias de 6,5 metros de pé direito onde se localizavam as bancas fixas que organizavam o espaço.

Entre os dois pátios, no centro da composição, localizavam-se as entradas no Mercado, e organizavam-se as circulações verticais, escadas e elevadores, desde a cave até à cobertura em terraço, marcado por elementos escultóricos modernos, com vista sobre a cidade.

A pele exterior contínua definida por um brise-soleil de elementos verticais de betão assegurava a ventilação e o sombreamento de toda a galeria comercial no 1º piso, cuja continuidade era quebrada pela introdução linhas diagonais, rasgos horizontais, volumes escultóricos ou caixas de betão revestidas com pastilha vidrada de grande diversidade cromática.

Esta obra confirma a pesquisa de Vasco Vieira da Costa procede numa arquitectura capaz de responder eficazmente às condições climáticas procurando uma ventilação permanente aliada a um sombreamento dos espaços potenciando soluções formais expressivamente modernas. De acordo com Manuel Correia Fernandes, o Mercado do Kinaxixe “representou a síntese do Movimento Moderno na época da sua construção, e por isso considerado o ex-libris da arquitectura moderna em Angola. Foi, ainda, o “grito de liberdade” que, desafiando o regime colonial, impôs uma nova postura arquitectónica. Foi demolido em Agosto em 2008, com grande mágoa dos luandenses, que se habituaram a ver e a sentir esse “grito de liberdade”.”



Original de Maria João Teles Grilo

(FCT: PTDC/AUR-AQI/103229/2008)

Adaptação de Ana Tostões e Daniela Arnaut.

in: http://www.hpip.org/

"Kinaxixe O mercado que era um símbolo de Luanda já não existe
Autor do texto 22 de Setembro de 2008, 0:00

Entre as décadas de 40 e 60, vários arquitectos formados em Portugal construíram edifícios modernos em Angola. Aquele que era provavelmente o mais emblemático de todos, o Mercado do Kinaxixe, foi demolido e no seu lugar vai nascer um centro comercial com seis pisos e duas torres. Mas há outros exemplos desse "modernismo tropical". Por Alexandra Prado Coelho
Há um buraco vazio no meio de Luanda. Antes estava lá um mercado grande, que todos conheciam. Chamava-se Kinaxixe (alguns escreviam Qinaxixe outros Kinaxixi, mas todos sabiam do que falavam) e tinha sido construído, nos anos 50, por um arquitecto angolano de origem portuguesa, Vasco Vieira da Costa (1911-1982). Há cerca de um mês o Kinaxixe foi demolido, já não existe, e sabe-se que no vazio que deixou irá ser construído um centro comercial. Houve tentativas de travar o processo, houve indignações, mas o Kinaxixe, que fora construído entre 1950 e 52, veio mesmo abaixo. A Ordem dos Arquitectos de Angola insurgiu-se num manifesto: "Conhecido mundialmente como uma peça de arquitectura moderna notável, foi considerada pela UNESCO a hipótese de ser classificado património arquitectónico da Humanidade. Com lucidez e sabedoria o Kinaxixe seria o nosso "Edifício Manifesto": o corpo simbólico da nossa independência, do nosso grito de liberdade presente na cidade e de contestação ao regime colonial".
A arquitecta portuguesa Ana Magalhães fotografou o Kinaxixe em Julho, pouco antes da queda (são dela as imagens que acompanham este artigo). Era um dos edifícios - provavelmente o maior exemplo - da arquitectura moderna construída nas décadas de 40, 50 e 60 em Angola e também Moçambique (tema de um livro que Ana Magalhães está a preparar, e da sua tese de doutoramento intitulada Migração do Moderno - Arquitectura na Diáspora - Portugal, Brasil e África colonial (Moçambique e Angola), 1948-1974.
"É um tipo de arquitectura que fez escola", explica. "Quando se anda em Luanda praticamente não se vê a arquitectura mais colonial, porque o peso desta arquitectura dos anos 50 e 60 é tão forte que marca tudo". Percorrendo a cidade, a arquitecta foi fotografando esses edifícios - os que são referência e estão identificados, como o bloco da Mutamba, hoje Ministério das Obras Públicas (de Vasco Vieira da Costa) ou o edifício da Radiodifusão de Angola - e muitos outros, de arquitectos anónimos, mas que seguiram as linhas modernistas que a chamada "geração africana" lançou em Luanda e Maputo.
Viajou depois até ao Lobito, onde encontrou os edifícios construídos por Francisco Castro Rodrigues, o liceu, e a cine-esplanada Flamingo, que as fotografias da época mostram cheia de gente a ver os filmes projectados no grande ecrã, e que hoje está vazia, mas ainda preservada - sobretudo o chão, notou Ana Magalhães - e mantendo um charme decadente. Pelo meio do antigo cinema ao ar livre passam crianças pequenas, de mochilas às costas, a caminho de uma escola improvisada. Já não passam filmes, é possível até que alguém habite dentro da cabina de projecção, e no meio das paredes rosa e dos desenhos de flamingos as crianças sentam-se em pequeninas cadeiras de plástico a ouvir a professora.
Obras para clima tropical
Os arquitectos partiram - alguns deles já morreram, outros voltaram para Lisboa - os edifícios ficaram, atravessando períodos conturbados da história de Angola. Hoje são cada vez mais olhados como obras de arquitectura com um valor único. "É uma arquitectura que não tivemos em Portugal por circunstâncias específicas nossas", explica Ana Magalhães. Os arquitectos que estudaram em Portugal e que foram, nessa época, para Angola e Moçambique gozaram, por um lado, de "maior liberdade" e, por outro, tiveram "a possibilidade de fazer uma arquitectura tropical que aqui não seria possível".
Uma arquitectura que não precisava de se preocupar com o frio, mas que tinha que lidar com questões como a chuva ou a ventilação. "[Estes arquitectos] fizeram o que hoje designamos por arquitectura sustentável, que procura dar respostas não com a ortodoxia e ideias feitas, mas explorando os sombreados, criando lugares de circulação do ar, espaços de transição que não estão dentro nem fora", diz a arquitecta Ana Tostões, autora de vários livros sobre a arquitectura moderna portuguesa.
A arquitecta confirma que "em Portugal, na mesma época, não existe nada comparável", em grande parte porque "as encomendas institucionais eram altamente vigiadas", e só no final dos anos 50, graças às encomendas dos municípios, é que começamos a ter "obras mais arriscadas".
"O Vasco Vieira da Costa é um dos arquitectos da geração moderna que faz uma obra de alguma forma contra o regime", considera Ana Tostões, que é também representante de Portugal no Docomomo, organização internacional de defesa do património arquitectónico moderno. Aliás, defende, é precisamente no hemisfério Sul (em África, mas sobretudo no Brasil) que "a arquitectura moderna ganha grande liberdade e toma uma expressão brilhante como resposta a uma situação muito diferente da da Europa".
Passagem por Le Corbusier
Fernão Simões de Carvalho foi um desses arquitectos (e, no caso dele, também urbanista). Nascido em Luanda, estudou em Portugal e depois foi para Paris onde, numa mistura de coragem e algum descaramento, foi bater à porta do atelier do grande arquitecto Le Corbusier [com quem Vieira da Costa também trabalhou), propondo-se como estagiário - e conseguiu lá ficar durante quatro anos. Foi só em 1959/60 que voltou para Angola e começou a trabalhar para a Câmara Municipal de Luanda.
Ao contrário de outros colegas, Simões de Carvalho não saíra de Portugal por razões políticas, por isso não sentiu que em Luanda houvesse mais liberdade para fazer arquitectura do que havia, na mesma altura, em Lisboa ou no Porto. "Nunca me impuseram soluções, nem lá nem cá. Aliás, nunca me meti na política, a minha política é o urbanismo". Mas concorda que os edifícios que ali nasceram naquela época têm características especiais. "Os quebra-sóis, as protecções solares, as varandas... qualquer arquitecto tem que fazer arquitectura adaptada ao clima. Se é no interior é de uma maneira, se é na faixa marítima é de outra. Claro que havia ali soluções que não fariam sentido para a Avenida António Augusto de Aguiar, por exemplo".
Regressou a Portugal em 67, e depois do 25 de Abril foi para o Brasil - "o país onde fui mais acarinhado, onde trabalhei mais, projectei três cidades". A Angola não voltou. Sabe que o plano director que fizera para a cidade nunca chegou a ser aplicado, desconhece se alguns dos projectos que desenhou chegaram ou não a ser construídos, mas sabe que o edifício da Radiodifusão, que fez com José Pinto da Cunha e Fernando Alfredo Pereira e de que muito se orgulha, é tratado com carinho pelos luandenses e é também para eles um motivo de orgulho na cidade.
Um "shopping multiusos"
Mas também ouviu coisas menos positivas. "Tenho notícia de algumas asneiras que fizeram lá, prédios altos no centro da cidade, quando os prédios altos equivalem a muito mais automóveis. A baixa de Luanda está atulhada de arranha-céus e assim ninguém pode circular".
A estes juntar-se-á, nos próximos quatro anos (tempo previsto para a construção) o centro comercial que ocupará o lugar do Kinaxixe e que o Semanário Angolense, a partir de uma conversa com o director técnico do projecto, Luciano Dzik, descreve como "um shopping multiusos com seis pisos e duas torres comerciais situadas nas laterais norte e sul, com 20 pisos cada" e que terá ainda uma cave de cinco pisos destinada ao estacionamento. O Shopping Center Kinaxixe terá 200 lojas, sete salas de cinema e um piso inteiro para restauração. Quanto às duas torres, destinam-se a escritórios e terão caves com dois mil lugares de estacionamento.
O Semanário Luandense explica que há quatro anos, quando o Grupo Macon (ligado aos transportes públicos) recebeu a concessão sobre o Kinaxixe, chegou a organizar uma gala para apresentar, em tecnologia digital, o novo centro comercial. Mas durante quatro anos nada aconteceu. Segundo Dzik, foi o tempo necessário para o "aprimoramento" do projecto e a sua adaptação à "realidade actual". "O desenho do shopping daquela época [há quatro anos] seria inadequado para os dias de hoje", afirmou ao jornal. Grande parte do debate durante esse período teve a ver com a possibilidade de se aproveitar a estrutura original do Kinaxixe - hipótese que acabou por ser afastada.
Desapareceu, portanto, o velho mercado de Luanda, peça essencial de uma arquitectura a que começa agora a dar-se o devido valor. Mas qual é o nosso olhar - de portugueses - hoje sobre este património? O manifesto da Ordem dos Arquitectos de Angola diz claramente: "Os edifícios nas cidades são marcos da identidade civilizacional dos povos", e, mais à frente, "Vasco Vieira da Costa era um Arquitecto Angolano (alguém diria... 'mas nasceu em Aveiro'... mas quantos angolanos nasceram e nascem em Londres, Paris, Joanesburgo ou Rio de Janeiro?)". Os subscritores deste manifesto vêem o Kinaxixe como um edifício "que se queria assumir como um grito de liberdade e oposição ao regime colonial português" e que "desafiava o regime pela imposição de uma nova postura da arquitectura".
João Rodeia, presidente da Ordem dos Arquitectos portuguesa, (mas que faz estas declarações ao P2 a título individual) defende que temos que olhar para estes edifícios como "uma coisa que não é nossa, é património dos países onde está, mas que tem uma ligação com a nossa cultura arquitectónica". Estamos, portanto, perante uma arquitectura que é "por um lado internacional, porque acrescenta novas lições ao movimento moderno, tem alguma raiz portuguesa dada a formação dos seus autores, mas é sobretudo arquitectura africana dentro da modernidade".
O Kinaxixe pertencia - como pertencem outros edifícios - à ideia de uma Luanda "cosmopolita, aberta ao mundo, sofisticada", sublinha Rodeia. "Numa altura em que as cidades competem entre si através das diferenças, uma cidade com ambição não pode dar-se ao luxo de atirar para o lixo um edifício que atrairia turismo especializado e a colocaria na rota do mundo".

in: jornal "Publico"

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Rádio Nacional de Angola (ex- Emissora Oficial de Angola)







Rádio Nacional de Angola (antigo Centro de Radiodifusão de Angola)


Rádio Nacional de Angola
Luanda [São Paulo de Luanda], Luanda, Angola
Equipamentos e infraestruturas

Edifício desenhado e construído entre 1963 e 1967, segundo projeto do arquiteto Fernão Lopes Simões de Carvalho, com colaboração de José Pinto da Cunha e Fernando Alfredo Pereira. Representa, sem margem de dúvida, a liberdade conceptual da linguagem arquitetónica do Movimento Moderno. Os espaços vão‐se multiplicando entre ambientes abertos, com jardins interiores e água, elementos fundamentais de conforto. A entrada principal é ensombrada por uma arrojada pala em betão, elemento de grande impacto visual.
Localizado na parte alta da cidade, foi projetado como um conjunto de edifícios autónomos, apenas parcialmente edificado, tendo no bloco de estúdios o seu elemento referencial. Dimensionado segundo as regras do Modulor, este vasto prisma de um piso tem a cobertura pontuada por volumes salientes e vazios correspondentes a pátios de iluminação e ventilação. As suas fachadas denotam a influência da arquitetura de Le Corbusier na expressividade do betão aparente e no jogo de luz e sombra protagonizado pelos profundos brise‐soleil de composição dominantemente vertical ou em malha alternada de lâminas verticais e horizontais. Nas instalações existentes funciona atualmente a Rádio Nacional de Angola.

Elisiário Miranda

in: http://www.hpip.org/