Partilhado da página, com a devida sugestão da cantora.
segunda-feira, 3 de outubro de 2016
sexta-feira, 30 de setembro de 2016
Teresa Salgueiro _ a solo
O novo Horizonte de Teresa Salgueiro
Gonçalo Palma
Quatro anos depois de "O Mistério", Teresa Salgueiro regressa com "O Horizonte"
| SUSANA PEREIRA
Teresa Salgueiro apresenta o novo álbum a solo O Horizonte em concertos hoje na Casa da Música, no Porto, e amanhã no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Conversámos com a antiga vocalista dos Madredeus num hotel lisboeta.
Com nove anos de percurso em nome individual, Teresa Salgueiro está a viver o início de uma nova etapa a solo com o álbum O Horizonte, editado na semana passada. Hoje e amanhã, na Casa da Música e no Centro Cultural de Belém, Teresa Salgueiro vai interpretar os temas do novo disco, promete recuperar algum do reportório do longo antecessor O Mistério, e vai cantar "algumas versões de temas da cultura portuguesa", sem esquecer os Madredeus.
Teresa Salgueiro passa a assumir no novo disco o comando de todos os aspetos da sua música - letras, composição, interpretação e até produção a meias com o seu multi-instrumentista Rui Lobato. "De facto, este disco foi uma grande luta, porque começou a ser composto logo depois de O Mistério, o disco que gravei em 2012. Entretanto, houve muitas alterações. O Horizonte representa aquela linha que está ali [Teresa aponta ao fundo], sempre longe. É o limite daquilo que conseguimos ver e que nos convida a fazer um caminho. À medida que caminhamos, o horizonte muda mas o sonho permanece. Nesse caminho vamos encontrando o mundo real. Sendo o sonho de ser músico, este disco teve de passar por várias fases e obstáculos que se tornam oportunidades para melhorarmos as coisas. Acredito que o disco é melhor agora. Se tivesse sido feito há quatro anos, o disco teria sido outro. Acho que a música está mais profunda do que a de O Mistério. Mudaram pessoas, saiu o guitarrista que queria fazer um masterclass em Nova Iorque. Há dois anos saiu a acordeonista. É uma muito maior responsabilidade, a de gerir esta atividade para a qual colaboram pessoas cujas vidas dependem disto."
Nesta nova formação, além de Rui Lobato, o coletivo de Teresa Salgueiro conta com o contrabaixista Óscar Torres, o acordeonista Marlon Valente e o guitarrista Graciano Caldeira. "Os músicos que vieram trouxeram a sua linguagem. Se calhar, o tempo que levou podia ter sido um pouco menor. Mas o percurso que tem sido feito tem sido muito enriquecedor para mim."
A curiosidade é que Teresa Salgueiro continua a ser acompanhada por mais quatro instrumentistas, o que aconteceu em vários períodos dos Madredeus. "É uma coincidência mas também uma procura. Aquilo que eu quis era um som que fosse novo, que não me fizesse repetir. Pensei no acordeão porque era um instrumento que tinha estado no meu início. E é um instrumento bastante versátil, parece uma orquestra. E é muito português. O contrabaixo é um instrumento também bastante versátil. Ainda por cima, o contrabaixo do Óscar é elétrico e permite o uso de pedaleiras e de uma série de recursos. A ideia era encontrar uma música que fosse ao encontro da minha voz e de um som com o qual me identificasse."
Na comparação inevitável de O Horizonte com os Madredeus, notam-se algumas diferenças substanciais, nomeadamente na secção rítmica. Mas há associações evidentes, como o ar do acordeão. "Poderá haver uma proximidade sonora nalgumas coisas e até de inspiração, pois sou a mesma pessoa. Passei muitos anos a cantar o meu amor a Portugal e continuo a fazê-lo. Mas a música é muito diferente. Nos Madredeus, os temas são mais canções, com uma estrutura clássica. Nós hoje não fazemos bem isso. Há pontualmente canções, mas o que fazemos são essencialmente peças, as letras raramente se repetem. É outra fórmula de música. Mas se me compararem aos Madredeus, só posso ficar contente, estive lá tanto anos. Gostei muito dos Madredeus quando lá estive."
Outra das razões que ajudam a diferenciar o novo álbum de Teresa Salgueiro do legado dos Madredeus prende-se com o facto de a cantora lisboeta passar a assinar as letras. "Estes temas que tocamos sabemos que vão suportar a voz e as palavras cantadas e um pensamento - tanto n"O Mistério como n"O Horizonte. Acho que este disco é muito pessoal mas não num sentido autobiográfico. É pessoal porque representa o meu pensamento e a minha visão sobre a realidade. Quando estou a escrever, estou a imaginar quem vai ouvir-me. Claro que imagino uma plateia, mas também imagino um a um. Nesse sentido, é um disco dirigido a cada um."
Nessa escrita de letras, Teresa Salgueiro conseguiu inspirar-se para o tema mais interventivo que jamais cantou: chama-se Êxodo. "Esse tema já tem quatro anos. E sempre se chamou Êxodo mas só escrevi as letras há pouco tempo. O Êxodo inspirou-me sempre a falar nos povos excluídos. Há séculos que cruzam o planeta, expulsos por outras comunidades. Isso é uma coisa que me faz muita confusão. Portugal é também um país de diásporas, se bem que a emigração foi muitas vezes forçada, de que temos casos recentes. Quando comecei a escrever este tema, aconteceu a guerra da Síria que tem provocado este êxodo terrível. Estava a lembrar-me de povos, que para além de perderem as suas casas não têm para onde ir. Se houvesse vontade política, nós poderíamos estar a viver num mundo extraordinário. Mas o pior da natureza humana ainda está a vencer. É assustador. Temos de lutar."
Durante vinte anos, Teresa Salgueiro habituou-se ao amparo de uma retaguarda altamente profissional chamada Madredeus. Mas Teresa Salgueiro não se sente hoje mais desamparada: "Sinto-me livre. E tenho outra retaguarda, de músicos extraordinários que me acompanham. Há um núcleo duro na banda, formado por mim, pelo Rui Lobato e pelo Óscar Torres, e há um trabalho de equipa que me faz sentir apoiada. Tenho a sorte de contar com estas pessoas, com quem consigo falar, e que se preocupam tanto quanto eu com a qualidade. Há muita liberdade criativa em que eu sou o filtro."
Saída pacífica dos Madredeus
O que será mais difícil: uma rapariga de 17 anos a enveredar pela carreira de cantora no início dos Madredeus ou uma mulher com mais vinte anos em cima a decidir aventurar-se num percurso a solo? Para a cantora, a decisão de sair dos Madredeus não foi "nada difícil porque foi pacífica e a única possível. E a decisão de ingressar nos Madredeus também não foi nada difícil porque foi uma alegria, ninguém sabia no que aquilo ia tornar-se. Eu era ainda miúda. O grupo depois profissionalizou-se mas no início foi um encontro feliz. Saí por um desentendimento de agenda. Tínhamos combinado um tipo de ocupação e estava a ser-me exigido outro. "Ou é este ou é nada!". Neste caso, escolhi o nada. Era a única opção possível, não ia ficar a fazer uma coisa que não tínhamos combinado e que não me ia permitir estar de corpo e alma no projeto como sempre estive ou como sempre tentei estar. Nesse sentido, foi pacífico. Somos responsáveis pelos sonhos que escolhemos. Claro que isso tem consequências. No meu caso, o meu sonho era continuar a cantar."
E para continuar a cantar, Teresa Salgueiro tem os cuidados normais com a voz, como explica: "Tentar ter uma vida regrada a nível de dormidas, não fumar, não beber. Já fumei no passado mas já deixei há muito tempo porque não me faz bem nenhum. Bebo muita água, gosto muito de gengibre, mascado e por vezes em chá. E faço o aquecimento normal de voz antes de cantar."
in: "DN"
domingo, 18 de setembro de 2016
Kitaro_Silk Road [HD]
Como se a música fosse Universo e o Universo coubesse na música.
belo e gigante...
domingo, 11 de setembro de 2016
Geraldo Vandré_Caminhando e Cantando
Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores
(Caminhando e Cantando)
Geraldo Vandré
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não
Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer
Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer
Pelos campos há fome
Em grandes plantações
Pelas ruas marchando
Indecisos cordões
Ainda fazem da flor
Seu mais forte refrão
E acreditam nas flores
Vencendo o canhão
Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer
Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer
Há soldados armados
Amados ou não
Quase todos perdidos
De armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam
Uma antiga lição
De morrer pela pátria
E viver sem razão
Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer
Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer
Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Somos todos soldados
Armados ou não
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não
Os amores na mente
As flores no chão
A certeza na frente
A história na mão
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Aprendendo e ensinando
Uma nova lição
Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer
Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer
segunda-feira, 5 de setembro de 2016
Do medo e do milhafre_Ana Paula Tavares _conto
PALAVRAS DO DESERTO
Do medo e do milhafre
por Ana Paula Tavares

Do medo e do milhafre
O cacimbo é o tempo prolongado, o sonho que custa a ser sonhado, a casca da árvore presa por fios, as palavras contidas no silêncio dos velhos, denso como a pele que lhes marca os ossos nos dias que descontam a vida colhendo o sol com as mãos magras e finas. Ficam voltados para dentro, descobrindo nas muitas camadas depositadas as vidas que foram vivendo entre bois e filhos desatentos, enfim, a tudo o que mexe cá fora e tem peso e desce por gravidade a encontrar lugar na terra que tudo acolhe. A morte próxima é neles uma busca de dores maiores e desencontros e longos caminhos percorridos alinhados aos que nunca foram trilhados. Caminhos de pé posto e outros mais cortados das catanas, sempre escolhas — este e não o outro –, entre a curva da montanha e o desenho das estrelas. No cacimbo, enquanto as aves fogem da tempestade e do frio, como quem anuncia barcos e novos portos de abrigo, as mulheres mais velhas com as mãos vazias de ninho devolvem o sentido da vida inscrevendo provérbios nas novas cabaças da família. Sabem que todo o processo envolve três nós: nascimento, vida e morte e o ponto de convergência só se adivinha vivendo a separar e a adivinhar cada um dos caminhos que se apresentam em cruz. AnaNaPalavra chegou por esse tempo com poucas palavras: “há um tempo para chorar e um tempo para rir, o nosso tempo para chorar chegou e veio para ficar”. O rosto parecia velado, tantas eram as escarificações e as marcas dos anos na pele azulada, e o corpo parecia parado, tão lentos eram seus movimentos de barco ancorado no deserto de uma solidão antiga. Perdera a qualidade de fazer perguntas com que nos tinha iniciado para a vida. Vinha do seu último ritual de passagem onde devolvera a sua qualidade de mulher para assumir o ser em toda a sua espessura. Ainda parecia um de nós, mas nada na forma como se movia nos deixava perceber a memória partilhada de uma anterior figura que nos amparara o crescimento, levara pela mão até à casa redonda e ensinara o segredo dos silos e dos remédios mais sagrados. Estava ali para desatar nós, ausente e a mostrar-se num processo de transformação que nos deixava inquietos. O medo desceu sobre a montanha e a nossa vida ficou pequena, tanto era o tempo que perdíamos a olhar AnaNaPalavra e a adivinhar a eternidade que trazia para contar: “depois das mortes vieram mais mortes, há que saber os segredos”.
Voltámos às tarefas dos dias, avaros dos nossos e dos novos pastos, crentes em que o prodígio das sementeiras e das colheitas nos faria viver a vida que o chão da nossa terra nos pedia. As mulheres novas amamentavam os monas e as cabras pariam filhos no curral. Todos nós queríamos alargar os dias para que a hora da vergonha tardasse a chegar. A noite era dura e transparente e jogava connosco o jogo da vergonha. O segredo (pensávamos) estava escondido nos lugares sagrados e embora estivéssemos destinados a viver sem sonhar (estava-nos interdito o sonho), o guardião do sino e o mais velho de todos os ferreiros tinham pelo fogo conseguido proteger a aldeia de todos os castigos. Estávamos entre o céu e a terra (pensávamos), no universo ideal da eternidade diária. Não pensávamos.
AnaNaPalavra não era a pessoa por quem esperávamos. É verdade que ela era dos nossos. Tinha as marcas da linhagem. Tinha o segredo da linguagem. Não sabíamos porque tinha voltado agora, quase transparente e sobretudo sem a dupla face que a fazia ser uma de nós.
Foi tecendo à sua volta um último cesto: sepultura e berço de um chão e de uma vida longe da eternidade. As palavras ácidas caíram sobre nós como a chuva de Março: intensas, como se todas as estrelas do céu resolvessem apressar o nosso destino. A morte de Garita, a faca do crime, os amores selvagens e fora das regras foram punidos assim, pela mão de AnaNaPalavra e o regresso dos sonhos mais antigos. Antes de fechar o cesto disse:
“Eu vivi aí, há muito tempo, com os pastores e os camponeses. Vivi, portanto, nesse reino, vi com os meus próprios olhos e ouvi com as minhas orelhas os seres fabulosos por detrás das coisas: os espíritos guardiães das fontes, as sereias que cantam no rio, os mortos das aldeias dos antepassados que me falavam iniciando-me nas verdades alternativas dos dias e das noites. É-me portanto suficiente nomear as coisas, os elementos…”1
1 De um poema de Leopold Sedhar Sengor / Léopold Sédar Senghor
in: RedeAngola
Do medo e do milhafre
por Ana Paula Tavares

Do medo e do milhafre
O cacimbo é o tempo prolongado, o sonho que custa a ser sonhado, a casca da árvore presa por fios, as palavras contidas no silêncio dos velhos, denso como a pele que lhes marca os ossos nos dias que descontam a vida colhendo o sol com as mãos magras e finas. Ficam voltados para dentro, descobrindo nas muitas camadas depositadas as vidas que foram vivendo entre bois e filhos desatentos, enfim, a tudo o que mexe cá fora e tem peso e desce por gravidade a encontrar lugar na terra que tudo acolhe. A morte próxima é neles uma busca de dores maiores e desencontros e longos caminhos percorridos alinhados aos que nunca foram trilhados. Caminhos de pé posto e outros mais cortados das catanas, sempre escolhas — este e não o outro –, entre a curva da montanha e o desenho das estrelas. No cacimbo, enquanto as aves fogem da tempestade e do frio, como quem anuncia barcos e novos portos de abrigo, as mulheres mais velhas com as mãos vazias de ninho devolvem o sentido da vida inscrevendo provérbios nas novas cabaças da família. Sabem que todo o processo envolve três nós: nascimento, vida e morte e o ponto de convergência só se adivinha vivendo a separar e a adivinhar cada um dos caminhos que se apresentam em cruz. AnaNaPalavra chegou por esse tempo com poucas palavras: “há um tempo para chorar e um tempo para rir, o nosso tempo para chorar chegou e veio para ficar”. O rosto parecia velado, tantas eram as escarificações e as marcas dos anos na pele azulada, e o corpo parecia parado, tão lentos eram seus movimentos de barco ancorado no deserto de uma solidão antiga. Perdera a qualidade de fazer perguntas com que nos tinha iniciado para a vida. Vinha do seu último ritual de passagem onde devolvera a sua qualidade de mulher para assumir o ser em toda a sua espessura. Ainda parecia um de nós, mas nada na forma como se movia nos deixava perceber a memória partilhada de uma anterior figura que nos amparara o crescimento, levara pela mão até à casa redonda e ensinara o segredo dos silos e dos remédios mais sagrados. Estava ali para desatar nós, ausente e a mostrar-se num processo de transformação que nos deixava inquietos. O medo desceu sobre a montanha e a nossa vida ficou pequena, tanto era o tempo que perdíamos a olhar AnaNaPalavra e a adivinhar a eternidade que trazia para contar: “depois das mortes vieram mais mortes, há que saber os segredos”.
Voltámos às tarefas dos dias, avaros dos nossos e dos novos pastos, crentes em que o prodígio das sementeiras e das colheitas nos faria viver a vida que o chão da nossa terra nos pedia. As mulheres novas amamentavam os monas e as cabras pariam filhos no curral. Todos nós queríamos alargar os dias para que a hora da vergonha tardasse a chegar. A noite era dura e transparente e jogava connosco o jogo da vergonha. O segredo (pensávamos) estava escondido nos lugares sagrados e embora estivéssemos destinados a viver sem sonhar (estava-nos interdito o sonho), o guardião do sino e o mais velho de todos os ferreiros tinham pelo fogo conseguido proteger a aldeia de todos os castigos. Estávamos entre o céu e a terra (pensávamos), no universo ideal da eternidade diária. Não pensávamos.
AnaNaPalavra não era a pessoa por quem esperávamos. É verdade que ela era dos nossos. Tinha as marcas da linhagem. Tinha o segredo da linguagem. Não sabíamos porque tinha voltado agora, quase transparente e sobretudo sem a dupla face que a fazia ser uma de nós.
Foi tecendo à sua volta um último cesto: sepultura e berço de um chão e de uma vida longe da eternidade. As palavras ácidas caíram sobre nós como a chuva de Março: intensas, como se todas as estrelas do céu resolvessem apressar o nosso destino. A morte de Garita, a faca do crime, os amores selvagens e fora das regras foram punidos assim, pela mão de AnaNaPalavra e o regresso dos sonhos mais antigos. Antes de fechar o cesto disse:
“Eu vivi aí, há muito tempo, com os pastores e os camponeses. Vivi, portanto, nesse reino, vi com os meus próprios olhos e ouvi com as minhas orelhas os seres fabulosos por detrás das coisas: os espíritos guardiães das fontes, as sereias que cantam no rio, os mortos das aldeias dos antepassados que me falavam iniciando-me nas verdades alternativas dos dias e das noites. É-me portanto suficiente nomear as coisas, os elementos…”1
1 De um poema de Leopold Sedhar Sengor / Léopold Sédar Senghor
in: RedeAngola
domingo, 4 de setembro de 2016
quase um fado_Rodrigo Maranhão e António Zambujo
Quase Um Fado
Rodrigo Maranhão
(partic. Antonio Azambujo)
Trago no peito segredos
Amores confessos,
ocultos desejos
O tempo apressado,
o beijo partido
Inteiro aos pedaços
da vida eu duvido
Trago no peito um segredo
Dos mares que desafio.
Trago no peito o meu mundo Fagulha,
centelha,
amor vagabundo
Que bate calado o seu bate fundo
E sempre navega pro mesmo lugar
Trago no peito um segredo
Dos mares por navegar
quarta-feira, 31 de agosto de 2016
Mário de Andrade_O valioso tempo dos maduros
Poema belíssimo
O VALIOSO TEMPO DOS MADUROS – de mário de andrade / são paulo
Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui
para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas..
As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam
poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram,
cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir
assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar
da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo
de secretário geral do coral.
‘As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos’.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência,
minha alma tem pressa…
Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana,
muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com
triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua
mortalidade,
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!
para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas..
As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam
poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram,
cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir
assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar
da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo
de secretário geral do coral.
‘As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos’.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência,
minha alma tem pressa…
Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana,
muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com
triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua
mortalidade,
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!
quinta-feira, 25 de agosto de 2016
fado com dono_Aldina Duarte
Intensa e vibrante esta interpretação na voz da Aldina, mulher de alma e com alma.
letra: Maria do Rosário Pedreira
música: Armando Machado
voz: Aldina Duarte
Diz quem já me ouviu cantar
Que, quando soa o meu canto,
A terra inteira estremece;
E os rios perdem o mar,
E as pedras rolam de espanto,
E até o mal se enternece
Diz quem meu fado conhece
Que ele enfeitiça e encanta,
E comove, e tira o sono
É a paixão que entretece
Os fios de quem o canta
Porque o meu fado tem dono
Eu canto para procurar
Aquele que já foi meu
E a morte me arrebatou
Não desisto de cantar,
Chamando o nome de Orfeu
Em todo o lado aonde vou
Mesmo que o saiba fechado
No Inferno mais profundo
E não me aguarde outra sorte,
Levo comigo o meu fado -
Vou até ao fim do mundo
Para morrer da sua morte.
sábado, 20 de agosto de 2016
Lugares_conto_Ana Paula Tavares
Lugares_conto
por Ana Paula Tavares
«Eu já não sou o que fui»
dos Salmos
Sentado em frente à porta da grande muralha o velho tropeçou no corpo inerte e ensanguentado do branco das pedras que costumava passar por ali com um saco às costas e uma mala na mão, ambos cheios de livros, pregos, arame, restos de tecido que o branco vendia e trocava por cabritos, bois e, por vezes, algum favor das mulheres. Com os anos e as vindas foi perdendo o nome para ficar o “branco das pedras” de quem era preciso esconder os melhores bois e as raparigas novas. Palavras fáceis, vinho difícil e a doença da escrita eram as coisas daquele branco que foi, com o passar do tempo, adquirindo a cor de colono velho, cheio de machas e marcas de cicatrizes.
O velho começou a tremer como se tivesse febre sem perceber porque é que a palavra rede se tornava tão insistente. Rede e fuga. Fugir era o que ele queria, desaparecer para o norte onde a família lhe arranjaria as falas da protecção. Só em sonhos vira aparecer uma face assim lívida e aquela espécie de gelo pesado insuportável. O corpo estava abandonado no esporão da muralha dupla que ali marcava antigos sítios de invenção do poder, a força de catanas e pontas de zagaia marcadas pelo tempo. Acendeu devagar a mutopa com folhas ainda novas enchendo os pulmões de fumo e tosse. Grossas bagas de suor desciam pelas fontes. Veio-lhe à mente a palavra veneno, ordálio tinha lido naqueles velhos livros da mala de lona do velho alemão que por ali andara quando ele ainda era um menino. Beber veneno para ficar vivo. Beber veneno para morrer assim. Beber veneno e queimar os pés para salvar a alma do peso das casas e das palavras dos velhos, nossos muito mais antigos.
Ali não eram casas como as nossas, que nos bebem a alma e o corpo até que começamos a ter o seu cheiro na nossa pele de adobo endurecida pelo passar dos dias e das noites. As muralhas do Eléu eram de outras vidas, outras histórias e outras casas, eram muralhas onde estavam inscritas as mãos dos homens escravos e o seu suor e sangue quando durante anos e por ordem do chefe maior arrancaram do chão da Chela as lajes dos bastiões das seteiras, as covas de lobo à volta do chão das cabanas para construir, abrigos individuais para experientes soldados que em certos momentos vigiavam de pé as transformações ao fundo do horizonte. Na parte norte eram precisas casas sãs e bem construídas para homens e montadas porque a saída da guerra era preparada aí atrás da muralha dupla, alternada com muralha simples torneando elevações e pequenos montes. O velho lembrou ainda o quanto seu tio, irmão da mãe, os impedia de se aproximar da muralha quando eram meninos e apenas guardavam cabritos longe dos bois e do chão que estes pisavam para a tornar mais doce e gorda a terra para a semente. Muralhas do Éleu, sua altitude e distâncias desiguais e um homem branco morto roto e sujo ali atirado sem que a vida tivesse chegado ao fim, ainda com muito lugar para os dias e as memórias. A guerra, por aquele tempo, não andava por ali. As mulheres, mesmo as mulheres de deus, estavam longe nas suas tarefas de filhos, leite azedo e manteiga. Aquele era um lugar da guerra, espaço de vida e de morte e nunca lugar de passagem de gente fugida dos outros, os que avançavam e os que recuavam na roda circular da ira e da raiva.
O velho afastou o corpo daquele chão sagrado, apagou o fumo na mutopa e começou a pensar nos dias da sua própria morte que havia que preparar.
Passou os dedos para avaliar o fio da sua própria catana. Um silêncio feroz toldava-lhe os sentidos. Onde estavam os chefes, agora que as pedras da farinha estavam vazias? Por que rios corriam os risos dos monas? Onde estariam as mulheres a tratar dos cabelos, das pulseiras de protecção e das falas doces da tarde? O velho desceu com o corpo pelo monte e sentou-se na base do morro a descansar. Retirou da mala o velho livro de capa preta que ele tão bem conhecia (rezas, dívidas de chefes, contas e a dificuldade daquela letra azul toda deitada para trás). Encontrou um osso com uma gravação que mais parecia um mapa do tesouro. Lembrou-se de ainda antes de adulto ter feito com o pai uma viagem de grandes dias e noites em busca de um tesouro perdido. Lembrou-se porque o pai lhe falara de papéis e ouro e de um osso gravado que deveriam decifrar.
Chegou ao fim da muralha pelo lado sul. No chão profano abriu com ajuda de um pau um buraco onde acomodou o branco, seguindo o desenho dos golpes da catana. Sabia que golpes antigos eram para permanecer em aberto. Regou o chão com os venenos de reserva para que a erva ou a árvore ali não voltasse a crescer. Subiu, como bom filho, a montanha em direcção aos amuralhados. Deitou-se a dormir, voltado para sul, à porta da embala do chefe. Seus sonhos azuis voltaram a sair da mutopa.
in: Rede Angola
sábado, 13 de agosto de 2016
Iracema_Elis Regina e Adorian Barbosa_1978
Iracema_no bar do Bixiga
Maravilhoso e Histórico
Este vídeo foi gravado no
bairro da Bela Vista, que tem o apelido de Bixiga, sim, não é Bexiga, mas Bixiga por causa de uma doença trazida pelos europeus no fim do século retrasado ou início do passado, se não me falha a memória. O Adorian Barbosa, que acompanhava a Elis Regina aí no vídeo era daqui, do bairro. Muito simpático e querido por todos. Dia desses foi aniversário dele, já falecido há uns 25 anos. Temos uma praça muito linda com o seu nome. Vou fotografar qualquer dia e enviar s você.
A ELIS era gaúcha (nascida no Rio Grande do Sul). Faleceu muito jovem em 1981, vítima de drogas, infelizmente.
by:Elena Martins
terça-feira, 21 de junho de 2016
domingo, 19 de junho de 2016
Um Rosto_Nuno Júdice
Um Rosto
Apenas
uma coisa inteiramente transparente:
o céu, e por baixo dele a linha obscura do
nos teus olhos, que pude ver ainda
através de pálpebras semicerradas, pestanas húmidas
da geada matinal, uma névoa de palavras murmuradas
num silêncio de hesitações. Há quanto tempo,
tudo isto? Abro o armário onde o tempo antigo
se enche de bolor e fungos; limpo os papéis,
cartas que talvez nunca tenha lido até ao fim, foto-
grafias cuja cor desaparece, substituindo os corpos
por manchas vagas como aparições; e sinto, eu
próprio, que uma parte da minha vida se apaga
com esses restos.
Nuno Júdice
domingo, 12 de junho de 2016
sábado, 11 de junho de 2016
sexta-feira, 10 de junho de 2016
Estrada de Água_ Laura Santos
Todos os navios se fundem num torpor
de nevoeiro e maresias
e o pássaro azul junto ao penhasco
soltou-se mesmo agora do pavor
das minhas mãos vazias.
É jovem a maré que se das algas
enlaçada em areia movediça
na boca da praia
e o seu último grito de brancura
salpica de espuma a minha saia.
Afasto o pesado manto de nuvens
que trago nos braços
frágeis como ramos partidos
trazidos ao areal onde cheira a resina
e sal, a gestos aos bocados
em agitação e deriva arrefecidos.
Um barco balança ao longe na corrente
que arrasta das noites sem tempo
o eco em alto mar do último resgate.
Ao horizonte lanço o meu olhar desfeito
afogado no massacre rítmico que se esbate
na ondulação das vagas do meu peito
recortando a imagem do teu olhar
gravado na face do rochedo
sobrevoado por corvos marinhos,
pelo vento, e pelo medo.
Em todas as coisas que procuro
existe um traço solene e obscuro,
refém da exaltação das ondas e dos astros.
Uma luz sem cor, intensa e derramada
na mesma antiga estrada de água
onde vagueiam altivos todos os mastros
içados em miragem e sonolência.
Lugar onde ninguém habita, e todas as cores
do dia pintam ao fim da tarde
os contornos da tua ausência.
Transparência de aquário onde arde
o derradeiro instante em movimento
de conchas, estrelas, verdes peixes
rutilantes em perene milagre lento.
Mesmo que sem um adeus me deixes.
Lemes, remos, sombras de uma velha nau,
viagens de quimera e de tormenta,
corações de papel, âncoras de pau...
Mas a minha alma tudo inventa
e encontra porto seguro onde se senta.

Laura Santos
de nevoeiro e maresias
e o pássaro azul junto ao penhasco
soltou-se mesmo agora do pavor
das minhas mãos vazias.
É jovem a maré que se das algas
enlaçada em areia movediça
na boca da praia
e o seu último grito de brancura
salpica de espuma a minha saia.
Afasto o pesado manto de nuvens
que trago nos braços
frágeis como ramos partidos
trazidos ao areal onde cheira a resina
e sal, a gestos aos bocados
em agitação e deriva arrefecidos.
Um barco balança ao longe na corrente
que arrasta das noites sem tempo
o eco em alto mar do último resgate.
Ao horizonte lanço o meu olhar desfeito
afogado no massacre rítmico que se esbate
na ondulação das vagas do meu peito
recortando a imagem do teu olhar
gravado na face do rochedo
sobrevoado por corvos marinhos,
pelo vento, e pelo medo.
Em todas as coisas que procuro
existe um traço solene e obscuro,
refém da exaltação das ondas e dos astros.
Uma luz sem cor, intensa e derramada
na mesma antiga estrada de água
onde vagueiam altivos todos os mastros
içados em miragem e sonolência.
Lugar onde ninguém habita, e todas as cores
do dia pintam ao fim da tarde
os contornos da tua ausência.
Transparência de aquário onde arde
o derradeiro instante em movimento
de conchas, estrelas, verdes peixes
rutilantes em perene milagre lento.
Mesmo que sem um adeus me deixes.
Lemes, remos, sombras de uma velha nau,
viagens de quimera e de tormenta,
corações de papel, âncoras de pau...
Mas a minha alma tudo inventa
e encontra porto seguro onde se senta.

Laura Santos
terça-feira, 31 de maio de 2016
Pai
À memória de meu pai, no centenário do seu nascimento
Hoje pensei na solidão dos pássaros
quando as searas se incendeiam.
E pensei em ti, pai, que partiste tão cedo
como se tivesses vindo do lado
mais desolado das sombras.
O que sei eu das uvas entre os teus dentes
no tempo das vindimas?
Que pássaro de cinza, diz,
te sobrevoou o verde do olhar?
Se prolongasse o poema
dir-te-ia como os meus olhos te lembram.
Mas não posso. Vou devolver ao mar
as conchas negras da minha colecção.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013
Publicado por Graça Pires
Hoje pensei na solidão dos pássaros
quando as searas se incendeiam.
E pensei em ti, pai, que partiste tão cedo
como se tivesses vindo do lado
mais desolado das sombras.
O que sei eu das uvas entre os teus dentes
no tempo das vindimas?
Que pássaro de cinza, diz,
te sobrevoou o verde do olhar?
Se prolongasse o poema
dir-te-ia como os meus olhos te lembram.
Mas não posso. Vou devolver ao mar
as conchas negras da minha colecção.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013
Publicado por Graça Pires
sábado, 14 de maio de 2016
sexta-feira, 22 de abril de 2016
domingo, 17 de abril de 2016
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