Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora. Tenho muito mais passado do que futuro. Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.. As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço. Já não tenho tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte. Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha. Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos. Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral. ‘As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos’. Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa… Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade, Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, O essencial faz a vida valer a pena. E para mim, basta o essencial!
Sentado em frente à porta da grande muralha o velho tropeçou no corpo inerte e ensanguentado do branco das pedras que costumava passar por ali com um saco às costas e uma mala na mão, ambos cheios de livros, pregos, arame, restos de tecido que o branco vendia e trocava por cabritos, bois e, por vezes, algum favor das mulheres. Com os anos e as vindas foi perdendo o nome para ficar o “branco das pedras” de quem era preciso esconder os melhores bois e as raparigas novas. Palavras fáceis, vinho difícil e a doença da escrita eram as coisas daquele branco que foi, com o passar do tempo, adquirindo a cor de colono velho, cheio de machas e marcas de cicatrizes.
O velho começou a tremer como se tivesse febre sem perceber porque é que a palavra rede se tornava tão insistente. Rede e fuga. Fugir era o que ele queria, desaparecer para o norte onde a família lhe arranjaria as falas da protecção. Só em sonhos vira aparecer uma face assim lívida e aquela espécie de gelo pesado insuportável. O corpo estava abandonado no esporão da muralha dupla que ali marcava antigos sítios de invenção do poder, a força de catanas e pontas de zagaia marcadas pelo tempo. Acendeu devagar a mutopa com folhas ainda novas enchendo os pulmões de fumo e tosse. Grossas bagas de suor desciam pelas fontes. Veio-lhe à mente a palavra veneno, ordálio tinha lido naqueles velhos livros da mala de lona do velho alemão que por ali andara quando ele ainda era um menino. Beber veneno para ficar vivo. Beber veneno para morrer assim. Beber veneno e queimar os pés para salvar a alma do peso das casas e das palavras dos velhos, nossos muito mais antigos.
Ali não eram casas como as nossas, que nos bebem a alma e o corpo até que começamos a ter o seu cheiro na nossa pele de adobo endurecida pelo passar dos dias e das noites. As muralhas do Eléu eram de outras vidas, outras histórias e outras casas, eram muralhas onde estavam inscritas as mãos dos homens escravos e o seu suor e sangue quando durante anos e por ordem do chefe maior arrancaram do chão da Chela as lajes dos bastiões das seteiras, as covas de lobo à volta do chão das cabanas para construir, abrigos individuais para experientes soldados que em certos momentos vigiavam de pé as transformações ao fundo do horizonte. Na parte norte eram precisas casas sãs e bem construídas para homens e montadas porque a saída da guerra era preparada aí atrás da muralha dupla, alternada com muralha simples torneando elevações e pequenos montes. O velho lembrou ainda o quanto seu tio, irmão da mãe, os impedia de se aproximar da muralha quando eram meninos e apenas guardavam cabritos longe dos bois e do chão que estes pisavam para a tornar mais doce e gorda a terra para a semente. Muralhas do Éleu, sua altitude e distâncias desiguais e um homem branco morto roto e sujo ali atirado sem que a vida tivesse chegado ao fim, ainda com muito lugar para os dias e as memórias. A guerra, por aquele tempo, não andava por ali. As mulheres, mesmo as mulheres de deus, estavam longe nas suas tarefas de filhos, leite azedo e manteiga. Aquele era um lugar da guerra, espaço de vida e de morte e nunca lugar de passagem de gente fugida dos outros, os que avançavam e os que recuavam na roda circular da ira e da raiva.
O velho afastou o corpo daquele chão sagrado, apagou o fumo na mutopa e começou a pensar nos dias da sua própria morte que havia que preparar.
Passou os dedos para avaliar o fio da sua própria catana. Um silêncio feroz toldava-lhe os sentidos. Onde estavam os chefes, agora que as pedras da farinha estavam vazias? Por que rios corriam os risos dos monas? Onde estariam as mulheres a tratar dos cabelos, das pulseiras de protecção e das falas doces da tarde? O velho desceu com o corpo pelo monte e sentou-se na base do morro a descansar. Retirou da mala o velho livro de capa preta que ele tão bem conhecia (rezas, dívidas de chefes, contas e a dificuldade daquela letra azul toda deitada para trás). Encontrou um osso com uma gravação que mais parecia um mapa do tesouro. Lembrou-se de ainda antes de adulto ter feito com o pai uma viagem de grandes dias e noites em busca de um tesouro perdido. Lembrou-se porque o pai lhe falara de papéis e ouro e de um osso gravado que deveriam decifrar.
Chegou ao fim da muralha pelo lado sul. No chão profano abriu com ajuda de um pau um buraco onde acomodou o branco, seguindo o desenho dos golpes da catana. Sabia que golpes antigos eram para permanecer em aberto. Regou o chão com os venenos de reserva para que a erva ou a árvore ali não voltasse a crescer. Subiu, como bom filho, a montanha em direcção aos amuralhados. Deitou-se a dormir, voltado para sul, à porta da embala do chefe. Seus sonhos azuis voltaram a sair da mutopa.
bairro da Bela Vista, que tem o apelido de Bixiga, sim, não é Bexiga, mas Bixiga por causa de uma doença trazida pelos europeus no fim do século retrasado ou início do passado, se não me falha a memória. O Adorian Barbosa, que acompanhava a Elis Regina aí no vídeo era daqui, do bairro. Muito simpático e querido por todos. Dia desses foi aniversário dele, já falecido há uns 25 anos. Temos uma praça muito linda com o seu nome. Vou fotografar qualquer dia e enviar s você.
A ELIS era gaúcha (nascida no Rio Grande do Sul). Faleceu muito jovem em 1981, vítima de drogas, infelizmente.
Apenas
uma coisa inteiramente transparente:
o céu, e por baixo dele a linha obscura do
nos teus olhos, que pude ver ainda
através de pálpebras semicerradas, pestanas húmidas
da geada matinal, uma névoa de palavras murmuradas
num silêncio de hesitações. Há quanto tempo,
tudo isto? Abro o armário onde o tempo antigo
se enche de bolor e fungos; limpo os papéis,
cartas que talvez nunca tenha lido até ao fim, foto-
grafias cuja cor desaparece, substituindo os corpos
por manchas vagas como aparições; e sinto, eu
próprio, que uma parte da minha vida se apaga
com esses restos.
Todos os navios se fundem num torpor
de nevoeiro e maresias
e o pássaro azul junto ao penhasco
soltou-se mesmo agora do pavor
das minhas mãos vazias.
É jovem a maré que se das algas
enlaçada em areia movediça
na boca da praia
e o seu último grito de brancura
salpica de espuma a minha saia.
Afasto o pesado manto de nuvens
que trago nos braços
frágeis como ramos partidos
trazidos ao areal onde cheira a resina
e sal, a gestos aos bocados
em agitação e deriva arrefecidos.
Um barco balança ao longe na corrente
que arrasta das noites sem tempo
o eco em alto mar do último resgate.
Ao horizonte lanço o meu olhar desfeito
afogado no massacre rítmico que se esbate
na ondulação das vagas do meu peito
recortando a imagem do teu olhar
gravado na face do rochedo
sobrevoado por corvos marinhos,
pelo vento, e pelo medo.
Em todas as coisas que procuro
existe um traço solene e obscuro,
refém da exaltação das ondas e dos astros.
Uma luz sem cor, intensa e derramada
na mesma antiga estrada de água
onde vagueiam altivos todos os mastros
içados em miragem e sonolência.
Lugar onde ninguém habita, e todas as cores
do dia pintam ao fim da tarde
os contornos da tua ausência.
Transparência de aquário onde arde
o derradeiro instante em movimento
de conchas, estrelas, verdes peixes
rutilantes em perene milagre lento.
Mesmo que sem um adeus me deixes.
Lemes, remos, sombras de uma velha nau,
viagens de quimera e de tormenta,
corações de papel, âncoras de pau...
Mas a minha alma tudo inventa
e encontra porto seguro onde se senta.

À memória de meu pai, no centenário do seu nascimento Hoje pensei na solidão dos pássaros quando as searas se incendeiam. E pensei em ti, pai, que partiste tão cedo como se tivesses vindo do lado mais desolado das sombras. O que sei eu das uvas entre os teus dentes no tempo das vindimas? Que pássaro de cinza, diz, te sobrevoou o verde do olhar? Se prolongasse o poema dir-te-ia como os meus olhos te lembram. Mas não posso. Vou devolver ao mar as conchas negras da minha colecção. Graça Pires De Caderno de significados, 2013 Publicado por Graça Pires
"Ninharia" de Ana Moura entre as cem canções favoritas da rádio pública dos EUA
ACTUALIDADELUSA20:47, 28 jun
O tema "Ninharia", do mais recente álbum de Ana Moura, faz parte da lista das cem canções favoritas deste ano da NPR, a rádio pública dos Estados Unidos, que emite para a totalidade do território norte-americano.
"Ninharia" é uma letra de Maria do Rosário Pedreira, que Ana Moura gravou na melodia do Fado Carlos da Maia de Sextilhas, e faz parte do alinhamento do álbum "Moura", editado em dezembro de 2015.
Na ocasião, em declarações à Lusa, Ana Moura afirmou que o CD "é aberto ao mundo, fazendo pontes entre diferentes tradições musicais, não esquecendo a matriz fadista", de onde a artista partiu.
O fado cantado por Ana Moura faz parte de um lista que inclui, entre outras, canções de artistas como Beyoncé, Anohni, Aurora, David Bowie, Chance the Rapper, Esperanza Spalding, Gregory Porter, Caleb Caudle, Fuego, Boris Giltberg, James Blake, Leyla McCalla e Kanye West.
"Moura", que dá título ao CD, é um tema que a poetisa Manuela de Freitas ofereceu à fadista, que o canta na melodia tradicional do Fado Cravo, de Alfredo Marceneiro.
Neste CD, pela primeira vez, a fadista canta autores como Samuel Úria, Jorge Cruz, Edu Mundo, Carlos Tê, Kalaf, numa composição de Sara Tavares, e José Eduardo Agualusa, numa música do angolano Toty Sa'Med.
O produtor de "Moura" é Larry Klein, que também produziu o álbum anterior, "Desfado". Todavia, a intérprete de "Os búzios" afirmou à Lusa que "não queria um 'Desfado dois', que foi tão 'fora da caixa', queria voltar a fazer uma coisa diferente".
"Este CD, o 'Moura', é mais atento aos pormenores", rematou.
NL // MAG
Lusa/Fim
DISCOGRAFIA
10. NINHARIA
(Letra de Maria do Rosário Pedreira e Música: Fado Carlos da Maia (Sextilhas))
Foi nessa noite maldita
Que abri a porta à desdita
De que só eu sou culpada.
Precipitada, incontida,
Expulsei-te da minha vida
Por uma coisa de nada.
Quando ela vinha a passar,
Cismei ver no teu olhar
Um brilho que me ofendia
E logo rompi os laços,
Atirei-te p'rós seus braços
Só por essa ninharia.
O que fiz não tem remédio,
Tudo é solidão e tédio,
Não mereço ser feliz.
Porque não fui eu capaz
De logo voltar atrás
E desfazer o que fiz?
Agora, quando te vejo,
Suspiro pelo teu beijo,
Mas nem pergunto aonde vais.
Chamo baixinho o teu nome
Na culpa que me consome,
Mas sei que é tarde demais.
Quando o Fim volta ao Início | Marco Rodrigues Autor da Letra: Tiago Torres da Siva Autor da Música: Alfredo Marceneiro Intérprete: Marco Rodrigues Fado Tradicional: Fado Menor com Versículo Letra: Nunca tive tanto amor para oferecer E sem ter a quem o dar vivo tão triste Já nem percebo se é dor ou se é prazer O que sinto ao recordar quando partiste Já nem percebo se é dor ou se é prazer O que sinto ao recordar quando partiste
Sinto ter chegado ao fim e no entanto Sei que o fim volta ao início para nós E que vai nascer em mim e no meu canto Esta dor que é o meu vício e minha voz E que vai nascer em mim e no meu canto Esta dor que é o meu vício e minha voz
Hei-de por os teus lençóis na minha cama Para quando adormecer longe de ti Lembrar que uma vida a dois para quem ama É razão para se viver como eu vivi Lembrar que uma vida a dois para quem ama É razão para se viver como eu vivi
E se hei-de entregar ao fado o nosso amor Este amor que terminou ao começar Mesmo que eu esteja calado e sem compor É no fado que eu me dou por te adorar Mesmo que eu esteja calado e sem compor É no fado que eu me dou por te adorar.
Um programa radiofónico semanal, de duas horas, com o Fado como conteúdo integral e de muito boa qualidade- Na Antena 1_ RDP, aos domingos (início da madrugada)_24.00h