segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Bonga_angola 72/74






Canção: Mona ki ngi xica
Artista: Bonga
Álbum: Bonga Live

Tradução do Kimbundo para Português:

Aviso-vos que estou a morrer 
Estou a pedir-vos 
Ele vai ficar aqui e eu vou partir 
Filho é filho mesmo, a morte é uma desgraça 
Deus me deu um filho 
E eu lhe gerei
Ele vai ficar aqui e eu vou embora. 
Filho é filho mesmo, se vier, é filho mesmo. 
A morte é uma desgraça.







domingo, 13 de outubro de 2019

Samuel Pimenta, Poesia

[ Nota: Um jovem Escritor/Poeta, indicado hoje pela minha Amiga Poeta Graça Pires]

«para mim a poesia serve para cantar, para cantar sobre o amor, sobre o que for. A prosa serve para contar. Quando quero contar uma história escrevo em prosa.» - Samuel Pimenta

Naufrágio
Por toda a noite o corvo cantou. Toda a noite o uivo do mar e toda a noite o medo dos homens. Por toda a noite o corvo cantou. As pedras, o sal, a morte. Os navios que jamais irão nascer no horizonte. Por toda a noite o corvo cantou.
O naufrágio estende-se na praia. Não corre leite nem mel na areia. Apenas os corpos, as águas tristes, os peixes. Por toda a noite o corvo cantou. Ainda há corvos que cantam para guiar os mortos.
Alcanhões, 19 de Outubro de 2014 – 00h50m
(inédito)

A sibila
As raízes das árvores entoam o som único da terra
e as aves emergem firmes, musicais.
Profere o cântico sagrado e fixa o instante
há-de nascer a voz e a profecia.
Possa a água ser luz no teu rosto
e o açúcar morar em cada sílaba que assobias.
Que teus olhos apenas vejam o bem e o bom no mundo.
As raízes das árvores são os teus pés sobre os montes
e as aves os teus gestos que emergem em espiral.
Dançam.
Danças.
O céu dança diante do teu nome
e o teu nome é o longe sem traço ou definição.
As raízes das árvores entoam o som único da terra
e as aves emergem firmes, musicais.
Nasce a sibila.
A palavra impõe-se
é teu o destino.
No dia em que a sibila morrer
o silêncio tomará de novo a terra.
Lisboa, 9 de Outubro de 2014 – 00h45m

(inédito)

Pórtico
A terra gerou-nos e o céu rasga-nos por dentro.
As estrelas d’alva são mestras, guias peregrinas
e o magma que nos dilata e endurece a raiz que nos liga
a deus, ao espírito sagrado dos filhos que encarnam
uma e outra vez.
A terra gerou-nos e o céu rasga-nos por dentro
sementes que o orvalho nutre e o luar amolece
luz hipnótica da mãe que nos ama do alto.
Sobre as pedras em bruto a brancura do talhe e da mestria.
A terra gerou-nos e o céu rasga-nos por dentro
a liberdade a vida e o esplendor
matriz de um sonho limpo, da profecia cumprida.
Somos os novos homens da madrugada que um sorriso anuncia
faróis que ao bruar das vagas jamais se apagarão.
Alcanhões, 19 de Maio de 2014 – 16h06m

in “GeoMetria”, Livros de Ontem, Lisboa, 2014

Fénix
Ísis rompeu
a margem dos rios
e já não espera
o corpo a caixa
ou as partes.
Sob a esfinge
chorou o sangue
e sobre o Egipto
abriu as asas.
Nenhum deus
ouse domar
o trono o laço
e o ventre.
Ísis nasceu mulher
e nunca os reis
a verão curvar-se.
Alcanhões, 7 de Abril de 2014 – 20h37m


in “Ágora”

Sílex
Mão e pedra.
Força do
gesto que
batebate e
rompe a
forma.
O gume rudimentar da
lasca que parte e
sangra, do
sílex que
quebra e
nasce, novo,
para cortar
o rude
golpe.

in “GeoMetria”, Livros de Ontem, Lisboa, 2014

......

Tífon
Há um desejo latente na respiração dos monstros
à espera.
Sabem ler os astros, decifrar as línguas dos homens
e ciciar o canto dos pássaros.
Aprenderam como embalar os olhos dos outros
e caminham invisíveis rumo ao sopé da montanha
que anseiam escalar.
Querem sentar-se no trono
ascender.



Ulisses
Esperar pelo regresso
saber que virás com a
visão
viste o mundo abrir-se
de como aplicar o gesto
e banir o mal.
Esperar que regresses
que digas o teu nome
e decretes o fim do
exílio.





As Plêiades
Julgava a fuga um acto de abandono
de desistência e suspensão
dos passos.
Julgava-a cobarde e vil.
Não via como pode ser o pórtico que nos salva da morte
o caminho para nos tornarmos luz
e ter domínio sobre as sombras.


A forma dos pássaros

Fosse a espuma do mar
as penas das aves
e o bruar o canto do gaio
do corvo e da cotovia.

Se o céu fosse feito de ondas
tomariam a forma dos pássaros.

Lithos
Parte.
Golpeia a
vida e dá-lhe
a forma, o liso
traço da perfeita
escultura.
Molda o firme
mármore
como se de barro
fosse.
Sê pedreiro de
ti, mestre
da simétrica
obra que
és.
É tua a
pedra, a mão
que a talha.

in “Geo Metria”, Livros de Ontem, Lisboa, 2014


Correr até que o gato fale como um homem

I

Correr em círculos enquanto o gato nos lê o peso de cada passo e nos vigia a fadiga até cairmos, até que a terra que pisamos fique gasta e se afunde, até que vislumbremos o núcleo do início e nos deitemos de olhos fechados à espera que o tempo sobre nós corroa os pés que tanto correm para não chegar a lugar nenhum.

II

Correr até que o gato fale como um homem e segurar-lhe cada palavra como se agarram os pássaros entre as mãos. Cada palavra proferida por um gato tem mais valor que um poema dito por gente.

III

Correr em círculos como o gato e nunca mais proferir um som. O silêncio é o maior poema de quem já nada espera além da morte.

in “Cintilações da Sombra III – Antologia de Poesia”, Editora Labirinto, Fafe, 2015
Samuel Pimenta





.............





A morte da laranja
Uma laranja é uma esfera
que eu corto em dois pedaços.

Antes de cortar a laranja ao meio
ela já morria no ramo da árvore.

Alcanhões, 19 de Novembro de 2014 – 02h47m
(inédito)

Khora
Que alimento nos sacia
e nos nutre a altivez?

O fruto da árvore
o ouro
ou a virtude?

Cultivem-se os campos
com o cereal dos mestres.
No dia da colheita
ceifaremos um novo
homem.

Lisboa, 4 de Junho de 2014 – 01h09m
in “Ágora”

Gineceu
Dentro de quatro
arestas se fecham
as mulheres.

Dentro de quatro
arestas aguardam servis
emudecidas.

Os vasos, os cálices e as ânforas
não são barro másculo e
viril.

Esperam que lhes nasça
um falo para que tenham
lugar entre os homens?

Lisboa, 22 de Maio de 2014 – 15h15m
in “Ágora”

O círculo
Existe um círculo no chão desenhado a giz e uma criança que brinca lá dentro. Essa criança sou eu. O céu exibe o rubor de um entardecer de outubro e nenhuma ave abraça o chão com as asas. Todas as aves dormem em árvores ocas e grutas sem som. Uma serpente entra no círculo e a criança olha-a de frente. Há nos olhos da criança o fogo indígena de quem dá sinal que existe. A serpente rasteja sobre o giz desenhado no chão e já não existe o branco do círculo, apenas as escamas de uma pele com fome. O eterno abraço da morte. Os olhos da criança não queimam mais, apagou-se o fogo. E do abraço da serpente emergem farpas, as mandíbulas de quem é mais forte que nós.
As serpentes são lanças que nos furam.
Alcanhões, 23 de Dezembro de 2014 – 13h30m
(inédito)


Génese
Possas olhar a larva
como se olham os espelhos.

De todos os traços do mundo
saiu uma linha do teu rosto.

Alcanhões, 19 de Novembro de 2014 – 02h15m
(inédito)

......

Samuel Pimenta nasceu a 26 de Fevereiro de 1990, em Alcanhões, Santarém. Começou a escrever com 10 anos e licenciou-se em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa. Em 2010, foi um dos contemplados com o VI Prémio Literário Valdeck Almeida de Jesus na vertente de Poesia, no Brasil. Em 2011, foi cronista na revista online “Clique”. Foi vencedor do Prémio Jovens Criadores 2012, na vertente de Literatura, promovido pelo Governo de Portugal e pelo Clube Português de Artes e Ideias, com o poema “O relógio”, hoje publicado pela editora Livros de Ontem. Em 2013, foi homenageado no VI Encontro de Escritores Moçambicanos na Diáspora, na Fundação José Saramago, pelo trabalho que tem vindo a desenvolver em prol da Literatura e da Cultura Lusófona, tendo sido nomeado Sócio Honorário do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora. Recebeu, em 2014, a Comenda Luís Vaz de Camões, atribuída pela “Literarte – Associação Internacional de Escritores e Artistas”, no Brasil, assim como o Prémio Liberdade de Expressão 2014, atribuído pela Associação de Escritores de Angra dos Reis, Brasil. Tem participado em diversas conferências e encontros literários nacionais e internacionais e tem colaborado com publicações em Portugal, Brasil, Angola e Moçambique. Actualmente, é Presidente do Núcleo Académico de Letras e Artes de Lisboa, Conselheiro em Portugal da “Literarte – Associação Internacional de Escritores e Artistas”, cronista do site de informação “Rede Regional” e da Revista “ID-Identidade”, além de dinamizar tertúlias literárias.

Obras Publicadas:

– “Geo Metria”, Livros de Ontem, Lisboa, 2014
– “Geo Metria”, Editora Literarte, Rio de Janeiro, 2013
– “O relógio”, Livros de Ontem, Lisboa, 2013
– “O Escolhido”, Planeta Editora, Lisboa, 2009

Participações em Antologias:

– Clepsydra – Antologia Poética, Coisas de Ler, Lisboa, 2014
– “Abril depois de Abril”, Livros de Ontem, Lisboa, 2014
– “Milandos da Diáspora – Revista Cultural”, Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora, Lisboa, 2013
– Antologia Universal Lusófona “Rio dos Bons Sinais”, Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora, Lisboa, 2013
– Participação na colectânea “Paralelos”, E-book, Portugal, 2013
– Participação na colectânea “Jovens Escritores 2012”, Clube Português de Artes e Ideias, Portugal, 2012
– Antologia de Poesia Contemporânea “Entre o Sono e o Sonho – Vol. III”, Chiado Editora, Lisboa, 2012
– Antologia do “VI Prémio Literário Valdeck Almeida de Jesus na vertente de Poesia”, Brasil, 2010.

Participações Diversas:

– Jornadas da Literatura Portuguesa do Instituto Camões em Bruxelas, Bélgica, 2014
– Raias Poéticas III – Afluentes Ibero-Afro-Americanas de Arte e Pensamento, Vila Nova de Famalicão, Portugal, 2014
– Bienal Internacional do Livro de S. Paulo, Brasil, 2014
– Salão Internacional do Livro e da Imprensa de Genebra, Suíça, 2014
– IV Festival Grito de Mulher, Lisboa, Portugal, 2014
– Aturujo à Terra – I Feira das Artes e das Letras para a Terra”, Ramil, Galiza, 2014
– Feira do Livro de Frankfurt, Alemanha, 2013
– Raias Poéticas II – Afluentes Ibero-Afro-Americanas de Arte e Pensamento, Vila Nova de Famalicão, Portugal, 2013
– VI Encontro de Escritores Moçambicanos na Diáspora, Lisboa, Portugal, 2013
– Mandatário para a Promoção da Cultura da Candidatura de Idália Salvador Serrão à Câmara Municipal de Santarém, Portugal, 2013
– Júri do Concurso Nacional de Leitura – Eliminatória Distrital de Portalegre, Portugal, 2013
– II Jornadas de Filosofia da Universidade do Minho – Filosofia e Arte/Poesia, Braga, Portugal, 2011.

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Graça Pires_ Uma vara de medir o sol _ crítica literária


A minha amiga e poeta, Graça Pires, tem nesta crítica literária, elaborada por Maria DoVigo, publicada hoje na Revista [AQUI:   (Link) ], uma análise intensa e objectiva do seu livro «Uma vara de medir o sol», digna de figurar como prefácio nesta obra excepcional, como excepcional e maravilhosa e’ toda a sua Poesia.

Espero que venha a ser muito mais conhecida/reconhecida do que, infelizmente, tem sido.

‘A Autora desta crítica literária, a minha [também] admiração.

Tomo a liberdade de a transcrever para o m/blog https://planetaorbital.blogspot.com/ . Se não concordar, agradecia que mo comunicasse, afim de a eliminar.


Bem-haja.








"O livro começa com um “Regressei”, com um movimento de viagem e uma cartografia em que existem os longes inacabados como desenhados com um fino lápis. A linha do regresso e o alento afetivo e narrativo que abre é cortada bruscamente com o movimento assimétrico da foice a ceifar o trigo e o tempo em ciclos e círculos que deu metáfora ao pensamento para inventar a agricultura. E ainda se abre no poema uma outra possibilidade temporal e narrativa, a do mar e a potência do humano a metaforizar o movimento primordial e constante das marés. Todos os fios narrativos são atravessados por imagens que são metonímia da presença humana, evocando dum lado o agudo, o cortante, nas unhas e nos dentes e a degradação na palidez, e doutro esse alarme para qualquer cousa como a possibilidade dum desenlace catastrófico, dum futuro de terra devastada, que já vai como carga nessa “dupla sombra dos barcos”, imagem do humano e as suas dualidades, sejam elas a marca de como apreendemos o mundo ou a representação das escolhas e as bifurcações dos sentidos.


Todo o livro está atravessado por estas linhas de fuga inacabadas e dinâmicas, portadoras de energias e sentidos: o paraíso que se lembra ou se profetiza, descrito como frágil ou dificilmente percetível, a força do ritual que por vezes consegue impregnar a palavra e dar-lhe o seu fim transformador, o testemunho da destruição e a precariedade, dos estilhaços do mundo, a esperança no caminho da salvação aberto pelo afeto e a capacidade de ver longe, de manter rotas certas ou de portar luz dos personagens femininos, dos viajantes, dos rios e das aves. Narra a história da civilização como um relato das relações entre o humano e o material com a mediação do logos, palavra e pensamento, com estilo fundamentado nas elipses e na captação do essencial por metonímias que nos dão acesso ao todo: a presença primigénia, soberana e mágica da terra, a irrupção do humano, a invenção da agricultura na repetida metonímia do cereal, a perda da transparência dos signos e do sentido do destino, a continuidade da enunciação do natural e a esperança na reconstrução da harmonia entre o humano e o cósmico. Episódios todos relatados sem sequência, mas numa linha de constante presença do todo e a tensão à volta das suas relações, como se tudo convergisse para o momento do corte da harmonia ou a esperança no seu retorno, não se sabe nunca se previsto ou não, que vertebra sem organizar, sem sentidos únicos, a presença humana no seu habitat.


“Antes do homem havia a terra:

geografia mágica, sagrada…

Depois da terra veio o homem.

E o homem tornou-se um morador incauto

e perdeu o paraíso onde agora os deuses,

quando passam, desviam o olhar” (página 46).


Habitat, porque este é um livro sobre o habitar, sobre a casa. Alguns poemas põem o foco sobre o habitar fazendo, plantando e cultivando. O poema titulado “Desconhecemos as cicatrizes das mãos” toma as mãos como metonímia do humano, mãos que se transformam e que ficam marcadas com cicatrizes e gretas pelos instrumentos de lavoura, mós, enxadas ou arados, com os que o humano transforma a natureza para o seu sustento. Mãos, que como os olhos, entram na matéria e a transformam e que, por sua vez, são veículo da transformação do humano no próprio ato de fazer, diluindo relações hierárquicas entre sujeitos e objetos numa realidade de influência, dissolução de margens e interpenetração constante.


Noutros poemas se representa o humano como uma certa tensão na postura que lhe vem da sua verticalidade e uma existência paradoxal que se sente por um destino que se deseja, “invocando”, mas do que não se tem a certeza, pois parece que o centro, a emanação da energia, o sol que traça a linha e projeta o humano em sombras, sempre está fora, como no poema que contem o verso que dá título ao livro:


“De pé, demoradamente invocando

o grito do destino, somos a sombra

de uma vara, presa à inclinação do sol,

que define a vertigem que nos derruba

e que nos ergue” (página 37).


Percorre os poemas uma esperança de que o humano exceda o textual, que tenha a natureza do orgânico e o cósmico. Assim a palavra por momentos consegue representar a fluidez do mundo material em imagens de continuidade e liquidez, num quadro em que começa com um gesto de vontade de fazer e prender, de ter raiz, no poema “Plantei na janela uma hera inclinada para dentro”, poema sem medo ao corte da mutilação que noutros poemas é ameaça constante. Ou no poema “Escavo no peito um declive de seara”, em que a continuidade material entre o terreal e o corpo humano é tal que permite em ambos o labor agrícola.


Os verbos de enunciação, lembrar, esquecer, contar…, são ditos com a esperança de estabelecer uma aliança entre a presença humana e o habitat natural que se situa num momento que por vezes é remoto e por vezes é profetizado. Em vários poemas recolhe-se a ideia de linguagem ritual, sagrada ou mágica que vai atravessando esse relato da humanidade a habitar a terra, como no poema “Temos um quebranto no friso do olhar”. A aprendizagem do ritual na infância permite ter esperança no poema “Os rituais da infância não nos deixam esquecer”, significado reforçado pela repetição constante do adjetivo “verde”, na possibilidade do paraíso, a harmonia, o sentido no passar do tempo. Em outros poemas a enunciação não atinge toda a potência da sua energia e só nos dão testemunho dum movimento de fuga neste mundo dessacralizado da ordem artificial, como no poema que começa com os versos “Nem sempre as janelas oferecem às casas/ todas as possibilidades da luz”.


Outra possibilidade de sentido para o tempo humano se abre com os poemas que variam sobre o movimento, seja o movimento das aves, dos rios ou dos humanos. As aves, os viajantes e os rios fluem para uma mesma mensagem, o de uma rota, um destino, uma memória semelhantes, signos de um alfabeto cifrado que o humano conhece na viagem, como nos poemas “Conta-se que há laranjais que rebentam”, “O viajante ajoelhou-se sobre a terra”, “Seguimos pela noite indiferentes”, em que lemos o verso “destino das aves que trazem a luz das auroras riscada em suas penas”. Ou no poema final, “Naquele mês espalhara-se a insólita notícia”, com a mínima história das mulheres que abandonam as casas e sobem às colinas por terem pressentido a vinda das andorinhas. Ou aqueles poemas que descrevem situam o humano nas margens: a “curva do tempo na concha ansiosa do olhar”, “os homens [que] caminharão na berma das estradas carregando os filhos”, os que “vivem na linha costeira dos continentes” e “enfeitam os pulsos com amuletos de búzios”.


Mas o que fica mesmo inscrito na memória são os versos que falam de um momento de corte, que trouxe o “desvario dos caminhos” e “o exílio de pássaros e aves”, momento catastrófico da cisão entre a ordem natural e a humana que se pressagia nos poemas “Vem do rio um vento interminável, como um cerco” e “Quando as espigas surgiram de repente” ou que se lembra no poema “Conhecemos a obscuridade dos quintais”, impedindo com este cruzamento de perspetivas temporais contar a história humana em linha reta ou em sequência irreversível. É um episódio que parece poder acontecer em qualquer momento, o dum antes e um depois de uma vivência primordial, paradisíaca, essencialmente frágil, que algum saber desfaz, como no poema “No verão todas as manhãs são belas” e a partir do qual o humano já não consegue decifrar o mundo, a pesar de a natureza continuar a ser tão transparente como quando a habitava como paraíso, como no poema que começa com os versos “Envelhecemos com uma vara/ de medir o sol na linha do olhar”: não entendemos os sinais inscritos, ainda que o piar dos pássaros seja tão nítido. Mas a perda do sentido pode ser reversível, como no poema de tom profético “Um dia nos pátios das casas” ou no poema “Aguardamos uma luz de seiva”, um poema de esperança na repetição dum “fiat lux”, duma luz que afaste o humano do caos, da morte e da culpa e dê um sentido único e farto ao cósmico, o orgânico e o humano.


Há o texto, há a autora e a leitora que escreve estas linhas, há a presença da palavra que venha dos longes que vier sempre se faz presente. Há o contexto do tempo com que a poeta fala em palavra transformada pela ação do dizer poético em símbolo que irradia e que é necessário à existência situada no tempo e no espaço. E há o meu olhar que recebe, que compreende desde a sua memória sensitiva, emocional e lírica. Nasci virada a norte, com um dialeto lírico levemente diverso ao da poeta Graça Pires no que ao signo do sol diz respeito. Conheço, estão gravados na minha memória espiritual galega, nos ritos com que cresci, as metáforas que se vivem nos rituais da roda anual do sol, mas também uma tradição lírica, musical e literária, mais recente, que oscila entre o discurso irónico sobre o símbolo solar e a invocação da sua vinda nas alvoradas, tradição, ou vaga contemporânea, que se sente confortável em cenários de luz noturna e diálogos com o luar. Dou como exemplo os cenários em que nos “roubarom o sol” ou em que se prepara “um naufrágio com a ausência cúmplice do sol” dos poemas de Manuel António ou o “Vem-te aurora” da “Alvorada” de Rosália de Castro.


Por outro lado leio com a minha memória mais pessoal, a da criança que se apaixonou por um romance intitulado Os filhos do sol, que contava a história do faraó herege fundador de uma nova religião, a que fixou na sua arca imaginária pessoal o cenário do sol traçador de caminhos sobre o mar que lia à sombra da torre de Brigântia. Apaixonei-me por esta linha da tradição lírica lusitana que dá sinal da descoberta e a contínua demanda duma medida do universo. Compreendo os achados poéticos como achados sem mais e tenho este livro nas mãos com a emoção de um manuscrito encontrado que não quero datar, que me dá testemunho de quem se situa para além do tempo, na tradição, como dizia Daniel Castelão, para encontrar chaves e interpretar o tempo sequencial, essa dimensão em que o humano se desenvolve sempre em linha reta sem nunca poder voltar.


E no entanto este livro tem data, está enraizado neste tempo de dissolução dos territórios e as suas culturas, na duplicidade da metáfora no agrícola e no linguístico de diversas linguagens, da desfeita da mater como matéria que informa todo o pensamento. A palavra “casa” dos versos de Albano Martins que servem de abertura, uma casa que herdamos e que é a própria vida, dão a moldura para pensarmos como poetas a casa, a comunidade e o destino que se decide nesta linha do tempo que passa cortando e que não podemos deixar de transmitir. Há uma postura que se torna emocional e energética, essa vara que é o humano. Na literalidade do livro não leio outra intenção para além da enunciação das palavras, e para mim, como leitora e poeta, é suficiente, pois todo o livro é atravessado por um tom de dizer ritual, como quem quer trazer a emoção e a ação de um tempo em que dizer a palavra é fazer presente a cousa. Uma vara de medir o sol é um exercício de imaginação material, de leitura do mundo e de narração, poesia com movimento de escavação, inscrição, poesia côncava que explora o que se passa no “ângulo interior dos séculos”, da fibra mais íntima do devir humano, poesia que nos faz compreender porquê a escrita nasceu como inscrição, simbolizando os sons aéreos em signos sobre a pedra. Poesia que se sustenta na compreensão de que a natureza é literal e que os poetas leem quando escrevem e os humanos traduzem quando falam."

Cf. .

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Posted By
Maria DoVigo

(Galiza-Portugal) Nasci na Crunha em 1972 e vivo desde 2000 em Portugal. A minha formação é a Filologia, exerço a docência e sou poeta por vocação. No labor criativo ligo a minha vontade de intervenção cívica com a convicção de que a criação é a verdadeira natureza do ser humano. Colaboro com diferentes associações do espaço lusófono, tecendo redes de afetos e projetos à volta da vivência da língua portuguesa. Sou académica de número da Academia Galega da Língua Portuguesa.

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Outra apreciação:




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Sobre a Autora e a colectânea "Poemas Escolhidos":




Graça Pires Poemas Escolhidos (1990-2011) De uma dúzia de livros publicados entre 1990 e 2011, Graça Pires editou Poemas Escolhidos, uma antologia organizada pela autora que nos diz em nota de abertura: «Não foi fácil a escolha. Não pretendi questionar-me ou questionar alguém sobre a emoção e a sensibilidade que a poesia reclama. Escolhi aqueles poemas onde o meu olhar se deteve mais tempo ou se sobressaltou com as palavras escritas. Aqueles poemas onde o rosto da poesia se confunde com o rosto do poeta que procura um compromisso entre a linguagem estética e o sentimento, entre o sonho e a realidade. É uma poesia de cariz intimista onde falo de amor, de solidão, do mar, das coisas da vida: aquelas que me vão acontecendo a mim e aos outros. Procuro misturar o pessoal com o social na mesma vertigem do quotidiano, em que as palavras se tornam um espaço de afectos ou de mágoas, de esperança ou de angústias». Graça Pires tem uma poética de invulgar sensibilidade, recusando sempre a facilidade. Em cada verso alcança a unidade perfeita entre o Ser total e o jogo magnífico das metáforas, da significação. Nesta relação com a imagética, a autora não recorre a figuras de estilo pomposas e vazias. Pelo contrário, há na sua lírica uma infinita preocupação com as palavras, depurando o poema até este ser uma luz natural, profunda, espelhando uma autenticidade que constrói a grande partilha de afetos e reflexões. Estamos perante uma antologia que nos permite avaliar a evolução da poesia de Graça Pires, criadora de obras como Poemas (livro de estreia, vencedor do Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores, 1988), passando por mais trabalhos de referência, nomeadamente Uma Certa Forma de Errância (Prémio


Maria Amália Vaz de Carvalho, 2003), O Silêncio: Lugar Habitado(Prémio Nacional Poeta Ruy Belo, 2008) e A Incidência da Luz, 2011. Devemos igualmente destacar um outro livro seu, intitulado Uma Vara de Medir o Sol (editado no Brasil), do qual reproduzimos um poema a testemunhar a clareza de um discurso poético que navega uma linguagem sublime: «Escavo no peito um declive de seara / para ceifar o pão e roçar o ventre / no aroma dos fenos, até que o fermento / levede o trigo por entre os dedos do estio. / As farpas de um arado podem sulcar-me a pele / porque é de terra o molde do meu corpo». O "sentido das palavras" é visceral nos passos literários de Graça Pires e indissociável dos grandes temas do amor, do tempo, da memória, do meio ambiente, da natureza em todas as suas grandezas e fragilidades, das artes, da vida e morte, do Eu e o Outro num diálogo intenso que demanda a claridade mesmo quando (ou sobretudo) «Um duplo estremecimento lateja nos espelhos». Falamos de uma poesia de busca constante na qual se conciliam «íntimas paragens» e «a dupla teia dos lábios», onde o quotidiano e a idealização são um só lugar, o da coerência poética. Repare-se neste poema da antologia pessoal de Graça Pires: «O ofício das mãos não se intimida / com a apressada cadência do tempo. / Não tem fim o silencioso enleio / que se esconde por entre a argila / nos dedos do oleiro; ou se enrola no linho/ dos lençóis tecido pelas mães; ou se prolonga / no pão quando chega o mês do trigo. / Porque esse é o destino das mãos, / tão alheio à urgência de cada dia». Graça Pires costuma dizer que chegou tarde a todas as coisas, inclusive à escrita. Discordamos. A sua antologia é prova bastante de que a consciência do poema é intemporal. Depois, naturalmente, há um itinerário: «(...) E sobre o chão da página me debruço e me procuro».


Avessa a parangonas e à ribalta, Graça Pires tem uma carreira literária sólida, marcada pela exigência de uma autora que conhece bem as «máscaras dos búzios», «a lâmina do silêncio», «a ácida solidão das letras», «a lança das memórias», «os desígnios da morte», e, também, «a respiração do mar», «o clamor das antigas oliveiras» e o «chamamento do corpo». Uma obra que atingiu a maturidade plena. © MARIA AUGUSTA SILVA


quarta-feira, 9 de outubro de 2019

A Morte de um grande Jornalista


Um jornalista só deve ser notícia num dia triste como o de hoje:
- Morreu um Homem de Bem!
O Luís Osório deixou na sua página do BF a mais sentida e bela homenagem que um Amigo pode transmitir.  
Junto-me a ele para deixar os meus pêsames ‘a Família enlutada. lmc 
......

Morreu o jornalista Rogério Rodrigues

O jornalista Rogério Rodrigues morreu no final da tarde de terça-feira, aos 72 anos, confirmou hoje à Lusa fonte familiar.





O jornalista, natural de Peredo dos Castelhanos, Torre de Moncorvo, estava doente e tinha sido hospitalizado no domingo.
Rogério Rodrigues começou a trabalhar no Diário de Lisboa em 1974, de onde saiu em 1981 para O Jornal.
Em 1989 foi para a revista Sábado e em 1990 para o Público. Voltou ao O Jornal em 1992, onde permaneceu até 1994.

O jornalista Luís Osório reagiu à notícia, na sua página da rede social Facebook, expressando o seu lamento pela morte daquele que considera "o último jornalista".




Luís Osório
há 22 horas

POSTAL DO DIA
Morreu o último jornalista
Talvez nunca tenham ouvido falar do Rogério, mas com isso não se sintam culpados com tal ignorância, ele fez tudo para nunca se falado, para nunca ser elogiado, para passar sempre ao largo dos holofotes, dos aplausos, das condecorações, dos puxa-saco.
O Rogério foi o melhor, o mais extraordinário jornalista que conheci. A pessoa com quem mais aprendi, a pessoa com quem bebi o primeiro whisky, a pessoa a quem confessei não ser capaz, a pessoa a quem pedi refúgio nos meus divórcios, nas minhas falhas, pecados, tragédias.
Atropelo-me, falo do que não interessa. Desculpe-me. Comecei a lê-lo no Público, no início do Público. Eu adolescente, ávido de conhecimento e sempre de jornal na mão, e ele um grande repórter, porventura o único jornalista capaz de contar uma história de crime com o génio de um Truman Capote. Li o seu livro sobre o assassino Faustino Cavaco antes de o conhecer. Li e disse aos meus amigos: vocês já leram Rogério Rodrigues, já leram a sua prosa?
E ninguém escrevia sobre política como o Rogério. Nem sobre o Partido Comunista. Ou Álvaro Cunhal – no dia em que o conheci, na redação do semanário O Jornal, acabara de publicar um perfil sobre o histórico líder comunista, levei o jornal para casa e adormeci a sonhar com o dia em que escreveria como ele.
A sua cultura era lendária. Sabia tudo. Conhecia todos. Viajava pela língua como poucos, manobrava-a como ninguém. Até o José Cardoso Pires, com quem bebia copos nas pausas das notícias ou da escrita, gostava de dizer que ele é que era. Eu ficava em silêncio a ouvi-los, tinha 19 anos e era um miúdo cheio de complexos, borrado de medo de estar ali com aqueles gigantes que fumavam como Bogart e bebiam com estilo, lentamente, deixando que as palavras se espalhassem à sua volta como o fumo dos cigarros. Havia também o Fernando Assis Pacheco, claro. O Afonso Praça, transmontano como ele. O Vítor Bandarra, que só conheci uns anos mais tarde, não naqueles primeiros anos, o puto como era chamado pelos velhos mestres.
Embarcou comigo na aventura de A Capital. Fiz-lhe o convite com alguma vergonha: queres ser diretor adjunto, meu diretor adjunto? Não pediu para pensar, vamos Luís. E foi. durante um ano e meio virámos do avesso o que podia ser virado do avesso. Naquele ano e meio afundei-me em trabalho e ele esteve sempre na primeira linha. A trabalhar mais de 12 horas por dia. A “sacar” notícias como só ele sacava. Estranha coincidência: foi ele quem, no princípio de novembro de 2004, deu a notícia em quem ninguém acreditou, o operário Jerónimo de Sousa seria o novo secretário geral do PCP. Nos dias em que se especula acerca da saída de Jerónimo volto à notícia em que ninguém acreditou, a sua notícia. O PCP era ainda mais inexpugnável do que hoje, muito mais. Mas o Rogério conseguia tudo. E não queria nada para ele, deixava-me brilhar – vai tu, Luís, vai às televisões e defende a nossa manchete.
“Vai tu, Luís. Eu fico, estou bem, não preciso de nada, o que importa é a notícia”.
Depois estivemos em programas de televisão. E ajudou-me a lançar o Rádio Clube onde passámos dificuldades. A meio do processo, quando o projeto tinha apenas um ano e meio ou dois anos, a administração pressionou muito, o Grupo Prisa estava em grandes dificuldades e eu tinha de prescindir dos colaboradores, os que estavam a recibos verdes. Seriam os primeiros a ir e era inegociável. O Rogério, que era o meu consultor, adiantou-se: Luís, eu vou. Não é preciso falarmos mais nisso, sei o que está a acontecer e amigo não empata amigo. E foi.
E eu fiquei. Estúpido de merda fiquei. E deixei-o ir. Sem replica. Sem dizer à administração que o Rogério era a minha linha vermelha, inegociável para mim. Quando saiu daquela porta, quando deixei que saísse, o jornalismo morreu para mim. O jornalismo por quem me apaixonara em jovem. E nunca mais deixei de pensar que na vida há valores muito mais importantes do que a sobrevivência. Serviu-me para a vida.
Transmontano de Moncorvo, o Rogério. Com ele comi lampreia pela primeira vez. Com ele conheci poetas, escritores, livros, polícias e ladrões, sítios de informadores e o parlamento. Nunca elogiava da maneira como se elogia. Nunca abraçava da maneira como se abraça. Nunca festejava da forma como se festeja. Ou chorava da maneira como se chora, nunca o vi chorar.
Amava profundamente a mulher da sua vida. Contou-me num dia especial: a Arlete é a pessoa da minha vida, não saberei viver sem ela, mas não lhe quero dar esse peso, o peso dessa dependência, é apenas um problema meu.
E amava profundamente os seus dois filhos. Quando o Tiago começou a ter sucesso, falava do mais novo. Queria equilibrar as coisas. Mas quando o mais velho foi convidado para o lugar mais importante do teatro português perguntei-lhe: estás feliz, Rogério? Fumou um cigarro sem dizer uma única palavra. E no final tinha as lágrimas presas nos olhos. O Tiago era a sua prenda para o mundo. Sua e da Arlete.
Estou ainda no escritório. Precisei de ficar mais um pouco. Os meus filhos mais novos estão a dormir em casa. Os mais velhos ainda não sabem que morreu o Rogério, o último jornalista. O último jornalista que conheci entre todos os que viviam em função de uma ideia que foi morrendo no tempo.
Fui ao supermercado em frente comprar uma garrafa de Famous Grouse. Bebo à sua memória, à sua vida. E quis o destino que amanhã, sexta, sábado e domingo, esteja a moderar quatro debates sobre “Fake News”, no teatro Nacional Dona Maria II, dirigido pelo seu filho, Tiago Rodrigues.
E na quinta-feira, apresento um livro de entrevistas em que a última é com o seu filho, a pessoa que considero há muito como o mais talentoso entre todos os criadores portugueses.
Não há palavras, Rogério. Tinhas mesmo de abalar hoje? Bebes um copo comigo? Vem, estou aqui. A garrafa dá para os dois.
LO


"O Rogério foi o melhor, o mais extraordinário jornalista que conheci", escreveu Luís Osório.
"Ninguém escrevia sobre política como o Rogério. Nem sobre o Partido Comunista. Ou Álvaro Cunhal - no dia em que o conheci, na redação do semanário O Jornal, acabara de publicar um perfil sobre o histórico líder comunista, levei o jornal para casa e adormeci a sonhar com o dia em que escreveria como ele", acrescentou.

Rogério Rodrigues foi também diretor-adjunto de A Capital, quando Luís Osório dirigiu o vespertino, e passou também pela nova fase do Rádio Clube Português e por programas de televisão.
Henrique Monteiro, também no Facebook, lembrou que Rogério Rodrigues "foi perseguido antes do 25 de Abril, tolerante e aberto depois. Teimoso sempre.".


"O velório será realizado na Igreja Matriz da Amadora, a partir das 18:00 de sexta-feira. No sábado, pelas 14h, será realizada uma cerimónia de despedida na Igreja da Amadora, seguindo depois o corpo para o Crematório de Barcarena", divulgou o seu filho, Tiago Rodrigues, diretor do Teatro Nacional D. Maria II.


terça-feira, 8 de outubro de 2019

Adília César_ dois poemas


SE FOSSE INVULGAR A OPRESSÃO
esse espírito de vidro
caminharia descalço e desconcertado.

Lá fora a ternura adormece
e tu sais pela porta dos fundos. Ninguém te segue.
Outros sentidos são matéria molhada
pegadas no meu peito recolhido.

Não chores
não corporizes outras tristezas descampadas
sítios que se partem por dentro dos ossos.

É tão banal a dor, essa bengala quebradiça
essa partida sem dizer adeus.

Fica
e falar-te-ei de amor.


NOS MAPAS DE OUTRORA
os arrepios não faziam sentido
nem dentro da cabeça nem fora do coração
pois todas as flores se extinguiram
e o metal derretido ocupou o espaço vazio.

Cambaleiam caules negros e corolas fundentes
em fila indiana sinuosa. Esforçam-se por cair
nas tuas mãos mornas de esposa nobre e fiel.

Os teus dedos a tamborilar nas alianças das viúvas.
Os teus silêncios eróticos.

Mas é nas mãos da neve que gelas subitamente
e és de novo anónima na persistência do frio.

.....

Adília César reside em Faro. Exerce actividade profissional como educadora de infância e formadora no âmbito da Didáctica das Expressões Artísticas, sendo Mestre em Teatro e Educação pela Universidade do Algarve. Publicou livros de poesia: O que se ergue do fogo (2016); Lugar-Corpo (2017); e O Tempo O Tempo (2019). Tem colaborações dispersas, nomeadamente: LÓGOS – Biblioteca do Tempo, Eufeme, Piolho, Estupida, Debaixo do Bulcão, Enfermaria 6, Nervo, Nova Águia, Iberis, Gazeta de Poesia Inédita, Pa_lavra, A Bacana, Caliban e Tlön, além de ensaios e artigos de opinião. É co-coordenadora da revista literária LÓGOS – Biblioteca do Tempo.

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Michael Stipe a solo


 Conheça a canção com que Michael Stipe dos R.E.M. se estreia a solo

A primeira investida ‘a sério’ de Stipe depois do fim dos R.E.M.



Michael Stipe lançou este fim de semana o seu primeiro single a solo, desde o fim dos R.E.M., em 2011.
O tema tem como título 'Your Capricious Soul', e foi interpretado pelo músico num concerto surpresa que deu em maio, a abrir para Patti Smith.
'Your Capricious Soul' não se encontra disponível em nenhuma das tradicionais plataformas de streaming, podendo ser escutada e descarregada no website de Michael Stipe, num formato pague-o-que-quiser.
"Quero acrescentar a minha voz a esta entusiasmante mudança de consciência", afirmou, em comunicado. "Acredito que podemos trazer a mudança necessária à melhoria do nosso planeta Terra".
Ouça aqui 'Your Capricious Soul':

Your Capricious Soul - Michael Stipe from JMSPROJ on Vimeo.