[ Nota: Um jovem Escritor/Poeta, indicado hoje pela minha Amiga Poeta Graça Pires]
«para mim a poesia serve para cantar, para cantar sobre o amor, sobre o que for. A prosa serve para contar. Quando quero contar uma história escrevo em prosa.» - Samuel Pimenta Naufrágio
Por toda a noite o corvo cantou. Toda a noite o uivo do mar e toda a
noite o medo dos homens. Por toda a noite o corvo cantou. As pedras, o
sal, a morte. Os navios que jamais irão nascer no horizonte. Por toda a
noite o corvo cantou.
O naufrágio estende-se na praia. Não corre leite nem mel na areia.
Apenas os corpos, as águas tristes, os peixes. Por toda a noite o corvo
cantou. Ainda há corvos que cantam para guiar os mortos.
Alcanhões, 19 de Outubro de 2014 – 00h50m
(inédito)
A sibila
As raízes das árvores entoam o som único da terra
e as aves emergem firmes, musicais.
Profere o cântico sagrado e fixa o instante
há-de nascer a voz e a profecia.
Possa a água ser luz no teu rosto
e o açúcar morar em cada sílaba que assobias.
Que teus olhos apenas vejam o bem e o bom no mundo.
As raízes das árvores são os teus pés sobre os montes
e as aves os teus gestos que emergem em espiral.
Dançam.
Danças.
O céu dança diante do teu nome
e o teu nome é o longe sem traço ou definição.
As raízes das árvores entoam o som único da terra
e as aves emergem firmes, musicais.
Nasce a sibila.
A palavra impõe-se
é teu o destino.
No dia em que a sibila morrer
o silêncio tomará de novo a terra.
Lisboa, 9 de Outubro de 2014 – 00h45m
(inédito)
Pórtico
A terra gerou-nos e o céu rasga-nos por dentro.
As estrelas d’alva são mestras, guias peregrinas
e o magma que nos dilata e endurece a raiz que nos liga
a deus, ao espírito sagrado dos filhos que encarnam
uma e outra vez.
A terra gerou-nos e o céu rasga-nos por dentro
sementes que o orvalho nutre e o luar amolece
luz hipnótica da mãe que nos ama do alto.
Sobre as pedras em bruto a brancura do talhe e da mestria.
A terra gerou-nos e o céu rasga-nos por dentro
a liberdade a vida e o esplendor
matriz de um sonho limpo, da profecia cumprida.
Somos os novos homens da madrugada que um sorriso anuncia
faróis que ao bruar das vagas jamais se apagarão.
Alcanhões, 19 de Maio de 2014 – 16h06m
in “GeoMetria”, Livros de Ontem, Lisboa, 2014
Fénix
Ísis rompeu
a margem dos rios
e já não espera
o corpo a caixa
ou as partes.
Sob a esfinge
chorou o sangue
e sobre o Egipto
abriu as asas.
Nenhum deus
ouse domar
o trono o laço
e o ventre.
Ísis nasceu mulher
e nunca os reis
a verão curvar-se.
Alcanhões, 7 de Abril de 2014 – 20h37m
in “Ágora”
Sílex
Mão e pedra.
Força do
gesto que
batebate e
rompe a
forma.
O gume rudimentar da
lasca que parte e
sangra, do
sílex que
quebra e
nasce, novo,
para cortar
o rude
golpe.
in “GeoMetria”, Livros de Ontem, Lisboa, 2014
......
Tífon
Há um desejo latente na respiração dos monstros
à espera.
Sabem ler os astros, decifrar as línguas dos homens
e ciciar o canto dos pássaros.
Aprenderam como embalar os olhos dos outros
e caminham invisíveis rumo ao sopé da montanha
que anseiam escalar.
Querem sentar-se no trono
ascender.
Ulisses
Esperar pelo regresso
saber que virás com a
visão
viste o mundo abrir-se
de como aplicar o gesto
e banir o mal.
Esperar que regresses
que digas o teu nome
e decretes o fim do
exílio.
As
Plêiades
Julgava a fuga um acto de abandono
de desistência e suspensão
dos passos.
Julgava-a cobarde e vil.
Não via como pode ser o pórtico que nos salva da morte
o caminho para nos tornarmos luz
e ter domínio sobre as sombras.
A forma dos pássaros Fosse a espuma do mar as penas das aves e o bruar o canto do gaio do corvo e da cotovia.
Se o céu fosse feito de ondas tomariam a forma dos pássaros.
Lithos Parte. Golpeia a vida e dá-lhe a forma, o liso traço da perfeita escultura. Molda o firme mármore como se de barro fosse. Sê pedreiro de ti, mestre da simétrica obra que és. É tua a pedra, a mão que a talha.
in “Geo Metria”, Livros de Ontem, Lisboa, 2014
Correr até que o gato fale como um homem I
Correr em círculos enquanto o gato nos lê o peso de cada passo e nos vigia a fadiga até cairmos, até que a terra que pisamos fique gasta e se afunde, até que vislumbremos o núcleo do início e nos deitemos de olhos fechados à espera que o tempo sobre nós corroa os pés que tanto correm para não chegar a lugar nenhum.
II
Correr até que o gato fale como um homem e segurar-lhe cada palavra como se agarram os pássaros entre as mãos. Cada palavra proferida por um gato tem mais valor que um poema dito por gente.
III
Correr em círculos como o gato e nunca mais proferir um som. O silêncio é o maior poema de quem já nada espera além da morte.
in “Cintilações da Sombra III – Antologia de Poesia”, Editora Labirinto, Fafe, 2015 Samuel Pimenta
Existe um círculo no chão desenhado a
giz e uma criança que brinca lá dentro. Essa criança sou eu. O céu exibe
o rubor de um entardecer de outubro e nenhuma ave abraça o chão com as
asas. Todas as aves dormem em árvores ocas e grutas sem som. Uma
serpente entra no círculo e a criança olha-a de frente. Há nos olhos da
criança o fogo indígena de quem dá sinal que existe. A serpente rasteja
sobre o giz desenhado no chão e já não existe o branco do círculo,
apenas as escamas de uma pele com fome. O eterno abraço da morte. Os
olhos da criança não queimam mais, apagou-se o fogo. E do abraço da
serpente emergem farpas, as mandíbulas de quem é mais forte que nós.
As serpentes são lanças que nos furam.
Alcanhões, 23 de Dezembro de 2014 – 13h30m
(inédito)
Génese
Possas olhar a larva
como se olham os espelhos.
De todos os traços do mundo
saiu uma linha do teu rosto.
Alcanhões, 19 de Novembro de 2014 – 02h15m
(inédito)
......
Samuel Pimenta nasceu a
26 de Fevereiro de 1990, em Alcanhões, Santarém. Começou a escrever com
10 anos e licenciou-se em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova
de Lisboa. Em 2010, foi um dos contemplados com o VI Prémio Literário
Valdeck Almeida de Jesus na vertente de Poesia, no Brasil. Em 2011, foi
cronista na revista online “Clique”. Foi vencedor do Prémio Jovens
Criadores 2012, na vertente de Literatura, promovido pelo Governo de
Portugal e pelo Clube Português de Artes e Ideias, com o poema “O
relógio”, hoje publicado pela editora Livros de Ontem. Em 2013, foi
homenageado no VI Encontro de Escritores Moçambicanos na Diáspora, na
Fundação José Saramago, pelo trabalho que tem vindo a desenvolver em
prol da Literatura e da Cultura Lusófona, tendo sido nomeado Sócio
Honorário do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora. Recebeu, em
2014, a Comenda Luís Vaz de Camões, atribuída pela “Literarte –
Associação Internacional de Escritores e Artistas”, no Brasil, assim
como o Prémio Liberdade de Expressão 2014, atribuído pela Associação de
Escritores de Angra dos Reis, Brasil. Tem participado em diversas
conferências e encontros literários nacionais e internacionais e tem
colaborado com publicações em Portugal, Brasil, Angola e Moçambique.
Actualmente, é Presidente do Núcleo Académico de Letras e Artes de
Lisboa, Conselheiro em Portugal da “Literarte – Associação Internacional
de Escritores e Artistas”, cronista do site de informação “Rede
Regional” e da Revista “ID-Identidade”, além de dinamizar tertúlias
literárias.
Obras Publicadas:
– “Geo Metria”, Livros de Ontem, Lisboa, 2014
– “Geo Metria”, Editora Literarte, Rio de Janeiro, 2013
– “O relógio”, Livros de Ontem, Lisboa, 2013
– “O Escolhido”, Planeta Editora, Lisboa, 2009
Participações em Antologias:
– Clepsydra – Antologia Poética, Coisas de Ler, Lisboa, 2014
– “Abril depois de Abril”, Livros de Ontem, Lisboa, 2014
– “Milandos da Diáspora – Revista Cultural”, Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora, Lisboa, 2013
– Antologia Universal Lusófona “Rio dos Bons Sinais”, Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora, Lisboa, 2013
– Participação na colectânea “Paralelos”, E-book, Portugal, 2013
– Participação na colectânea “Jovens Escritores 2012”, Clube Português de Artes e Ideias, Portugal, 2012
– Antologia de Poesia Contemporânea “Entre o Sono e o Sonho – Vol. III”, Chiado Editora, Lisboa, 2012
– Antologia do “VI Prémio Literário Valdeck Almeida de Jesus na vertente de Poesia”, Brasil, 2010.
Participações Diversas:
– Jornadas da Literatura Portuguesa do Instituto Camões em Bruxelas, Bélgica, 2014
– Raias Poéticas III – Afluentes Ibero-Afro-Americanas de Arte e Pensamento, Vila Nova de Famalicão, Portugal, 2014
– Bienal Internacional do Livro de S. Paulo, Brasil, 2014
– Salão Internacional do Livro e da Imprensa de Genebra, Suíça, 2014
– IV Festival Grito de Mulher, Lisboa, Portugal, 2014
– Aturujo à Terra – I Feira das Artes e das Letras para a Terra”, Ramil, Galiza, 2014
– Feira do Livro de Frankfurt, Alemanha, 2013
– Raias Poéticas II – Afluentes Ibero-Afro-Americanas de Arte e Pensamento, Vila Nova de Famalicão, Portugal, 2013
– VI Encontro de Escritores Moçambicanos na Diáspora, Lisboa, Portugal, 2013
– Mandatário para a Promoção da Cultura da Candidatura de Idália Salvador Serrão à Câmara Municipal de Santarém, Portugal, 2013
– Júri do Concurso Nacional de Leitura – Eliminatória Distrital de Portalegre, Portugal, 2013
– II Jornadas de Filosofia da Universidade do Minho – Filosofia e Arte/Poesia, Braga, Portugal, 2011.
A minha amiga e poeta, Graça Pires, tem nesta crítica literária, elaborada por Maria DoVigo, publicada hoje na Revista [AQUI: (Link) ], uma análise intensa e objectiva do seu livro «Uma vara de medir o sol», digna de figurar como prefácio nesta obra excepcional, como excepcional e maravilhosa e’ toda a sua Poesia.
Espero que venha a ser muito mais conhecida/reconhecida do que, infelizmente, tem sido.
‘A Autora desta crítica literária, a minha [também] admiração.
Tomo a liberdade de a transcrever para o m/blog https://planetaorbital.blogspot.com/ . Se não concordar, agradecia que mo comunicasse, afim de a eliminar.
Bem-haja.
"O livro começa com um “Regressei”, com um movimento de viagem e uma cartografia em que existem os longes inacabados como desenhados com um fino lápis. A linha do regresso e o alento afetivo e narrativo que abre é cortada bruscamente com o movimento assimétrico da foice a ceifar o trigo e o tempo em ciclos e círculos que deu metáfora ao pensamento para inventar a agricultura. E ainda se abre no poema uma outra possibilidade temporal e narrativa, a do mar e a potência do humano a metaforizar o movimento primordial e constante das marés. Todos os fios narrativos são atravessados por imagens que são metonímia da presença humana, evocando dum lado o agudo, o cortante, nas unhas e nos dentes e a degradação na palidez, e doutro esse alarme para qualquer cousa como a possibilidade dum desenlace catastrófico, dum futuro de terra devastada, que já vai como carga nessa “dupla sombra dos barcos”, imagem do humano e as suas dualidades, sejam elas a marca de como apreendemos o mundo ou a representação das escolhas e as bifurcações dos sentidos.
Todo o livro está atravessado por estas linhas de fuga inacabadas e dinâmicas, portadoras de energias e sentidos: o paraíso que se lembra ou se profetiza, descrito como frágil ou dificilmente percetível, a força do ritual que por vezes consegue impregnar a palavra e dar-lhe o seu fim transformador, o testemunho da destruição e a precariedade, dos estilhaços do mundo, a esperança no caminho da salvação aberto pelo afeto e a capacidade de ver longe, de manter rotas certas ou de portar luz dos personagens femininos, dos viajantes, dos rios e das aves. Narra a história da civilização como um relato das relações entre o humano e o material com a mediação do logos, palavra e pensamento, com estilo fundamentado nas elipses e na captação do essencial por metonímias que nos dão acesso ao todo: a presença primigénia, soberana e mágica da terra, a irrupção do humano, a invenção da agricultura na repetida metonímia do cereal, a perda da transparência dos signos e do sentido do destino, a continuidade da enunciação do natural e a esperança na reconstrução da harmonia entre o humano e o cósmico. Episódios todos relatados sem sequência, mas numa linha de constante presença do todo e a tensão à volta das suas relações, como se tudo convergisse para o momento do corte da harmonia ou a esperança no seu retorno, não se sabe nunca se previsto ou não, que vertebra sem organizar, sem sentidos únicos, a presença humana no seu habitat.
“Antes do homem havia a terra:
geografia mágica, sagrada…
Depois da terra veio o homem.
E o homem tornou-se um morador incauto
e perdeu o paraíso onde agora os deuses,
quando passam, desviam o olhar” (página 46).
Habitat, porque este é um livro sobre o habitar, sobre a casa. Alguns poemas põem o foco sobre o habitar fazendo, plantando e cultivando. O poema titulado “Desconhecemos as cicatrizes das mãos” toma as mãos como metonímia do humano, mãos que se transformam e que ficam marcadas com cicatrizes e gretas pelos instrumentos de lavoura, mós, enxadas ou arados, com os que o humano transforma a natureza para o seu sustento. Mãos, que como os olhos, entram na matéria e a transformam e que, por sua vez, são veículo da transformação do humano no próprio ato de fazer, diluindo relações hierárquicas entre sujeitos e objetos numa realidade de influência, dissolução de margens e interpenetração constante.
Noutros poemas se representa o humano como uma certa tensão na postura que lhe vem da sua verticalidade e uma existência paradoxal que se sente por um destino que se deseja, “invocando”, mas do que não se tem a certeza, pois parece que o centro, a emanação da energia, o sol que traça a linha e projeta o humano em sombras, sempre está fora, como no poema que contem o verso que dá título ao livro:
“De pé, demoradamente invocando
o grito do destino, somos a sombra
de uma vara, presa à inclinação do sol,
que define a vertigem que nos derruba
e que nos ergue” (página 37).
Percorre os poemas uma esperança de que o humano exceda o textual, que tenha a natureza do orgânico e o cósmico. Assim a palavra por momentos consegue representar a fluidez do mundo material em imagens de continuidade e liquidez, num quadro em que começa com um gesto de vontade de fazer e prender, de ter raiz, no poema “Plantei na janela uma hera inclinada para dentro”, poema sem medo ao corte da mutilação que noutros poemas é ameaça constante. Ou no poema “Escavo no peito um declive de seara”, em que a continuidade material entre o terreal e o corpo humano é tal que permite em ambos o labor agrícola.
Os verbos de enunciação, lembrar, esquecer, contar…, são ditos com a esperança de estabelecer uma aliança entre a presença humana e o habitat natural que se situa num momento que por vezes é remoto e por vezes é profetizado. Em vários poemas recolhe-se a ideia de linguagem ritual, sagrada ou mágica que vai atravessando esse relato da humanidade a habitar a terra, como no poema “Temos um quebranto no friso do olhar”. A aprendizagem do ritual na infância permite ter esperança no poema “Os rituais da infância não nos deixam esquecer”, significado reforçado pela repetição constante do adjetivo “verde”, na possibilidade do paraíso, a harmonia, o sentido no passar do tempo. Em outros poemas a enunciação não atinge toda a potência da sua energia e só nos dão testemunho dum movimento de fuga neste mundo dessacralizado da ordem artificial, como no poema que começa com os versos “Nem sempre as janelas oferecem às casas/ todas as possibilidades da luz”.
Outra possibilidade de sentido para o tempo humano se abre com os poemas que variam sobre o movimento, seja o movimento das aves, dos rios ou dos humanos. As aves, os viajantes e os rios fluem para uma mesma mensagem, o de uma rota, um destino, uma memória semelhantes, signos de um alfabeto cifrado que o humano conhece na viagem, como nos poemas “Conta-se que há laranjais que rebentam”, “O viajante ajoelhou-se sobre a terra”, “Seguimos pela noite indiferentes”, em que lemos o verso “destino das aves que trazem a luz das auroras riscada em suas penas”. Ou no poema final, “Naquele mês espalhara-se a insólita notícia”, com a mínima história das mulheres que abandonam as casas e sobem às colinas por terem pressentido a vinda das andorinhas. Ou aqueles poemas que descrevem situam o humano nas margens: a “curva do tempo na concha ansiosa do olhar”, “os homens [que] caminharão na berma das estradas carregando os filhos”, os que “vivem na linha costeira dos continentes” e “enfeitam os pulsos com amuletos de búzios”.
Mas o que fica mesmo inscrito na memória são os versos que falam de um momento de corte, que trouxe o “desvario dos caminhos” e “o exílio de pássaros e aves”, momento catastrófico da cisão entre a ordem natural e a humana que se pressagia nos poemas “Vem do rio um vento interminável, como um cerco” e “Quando as espigas surgiram de repente” ou que se lembra no poema “Conhecemos a obscuridade dos quintais”, impedindo com este cruzamento de perspetivas temporais contar a história humana em linha reta ou em sequência irreversível. É um episódio que parece poder acontecer em qualquer momento, o dum antes e um depois de uma vivência primordial, paradisíaca, essencialmente frágil, que algum saber desfaz, como no poema “No verão todas as manhãs são belas” e a partir do qual o humano já não consegue decifrar o mundo, a pesar de a natureza continuar a ser tão transparente como quando a habitava como paraíso, como no poema que começa com os versos “Envelhecemos com uma vara/ de medir o sol na linha do olhar”: não entendemos os sinais inscritos, ainda que o piar dos pássaros seja tão nítido. Mas a perda do sentido pode ser reversível, como no poema de tom profético “Um dia nos pátios das casas” ou no poema “Aguardamos uma luz de seiva”, um poema de esperança na repetição dum “fiat lux”, duma luz que afaste o humano do caos, da morte e da culpa e dê um sentido único e farto ao cósmico, o orgânico e o humano.
Há o texto, há a autora e a leitora que escreve estas linhas, há a presença da palavra que venha dos longes que vier sempre se faz presente. Há o contexto do tempo com que a poeta fala em palavra transformada pela ação do dizer poético em símbolo que irradia e que é necessário à existência situada no tempo e no espaço. E há o meu olhar que recebe, que compreende desde a sua memória sensitiva, emocional e lírica. Nasci virada a norte, com um dialeto lírico levemente diverso ao da poeta Graça Pires no que ao signo do sol diz respeito. Conheço, estão gravados na minha memória espiritual galega, nos ritos com que cresci, as metáforas que se vivem nos rituais da roda anual do sol, mas também uma tradição lírica, musical e literária, mais recente, que oscila entre o discurso irónico sobre o símbolo solar e a invocação da sua vinda nas alvoradas, tradição, ou vaga contemporânea, que se sente confortável em cenários de luz noturna e diálogos com o luar. Dou como exemplo os cenários em que nos “roubarom o sol” ou em que se prepara “um naufrágio com a ausência cúmplice do sol” dos poemas de Manuel António ou o “Vem-te aurora” da “Alvorada” de Rosália de Castro.
Por outro lado leio com a minha memória mais pessoal, a da criança que se apaixonou por um romance intitulado Os filhos do sol, que contava a história do faraó herege fundador de uma nova religião, a que fixou na sua arca imaginária pessoal o cenário do sol traçador de caminhos sobre o mar que lia à sombra da torre de Brigântia. Apaixonei-me por esta linha da tradição lírica lusitana que dá sinal da descoberta e a contínua demanda duma medida do universo. Compreendo os achados poéticos como achados sem mais e tenho este livro nas mãos com a emoção de um manuscrito encontrado que não quero datar, que me dá testemunho de quem se situa para além do tempo, na tradição, como dizia Daniel Castelão, para encontrar chaves e interpretar o tempo sequencial, essa dimensão em que o humano se desenvolve sempre em linha reta sem nunca poder voltar.
E no entanto este livro tem data, está enraizado neste tempo de dissolução dos territórios e as suas culturas, na duplicidade da metáfora no agrícola e no linguístico de diversas linguagens, da desfeita da mater como matéria que informa todo o pensamento. A palavra “casa” dos versos de Albano Martins que servem de abertura, uma casa que herdamos e que é a própria vida, dão a moldura para pensarmos como poetas a casa, a comunidade e o destino que se decide nesta linha do tempo que passa cortando e que não podemos deixar de transmitir. Há uma postura que se torna emocional e energética, essa vara que é o humano. Na literalidade do livro não leio outra intenção para além da enunciação das palavras, e para mim, como leitora e poeta, é suficiente, pois todo o livro é atravessado por um tom de dizer ritual, como quem quer trazer a emoção e a ação de um tempo em que dizer a palavra é fazer presente a cousa. Uma vara de medir o sol é um exercício de imaginação material, de leitura do mundo e de narração, poesia com movimento de escavação, inscrição, poesia côncava que explora o que se passa no “ângulo interior dos séculos”, da fibra mais íntima do devir humano, poesia que nos faz compreender porquê a escrita nasceu como inscrição, simbolizando os sons aéreos em signos sobre a pedra. Poesia que se sustenta na compreensão de que a natureza é literal e que os poetas leem quando escrevem e os humanos traduzem quando falam."
Cf. .
.....
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Maria DoVigo
(Galiza-Portugal) Nasci na Crunha em 1972 e vivo desde 2000 em Portugal. A minha formação é a Filologia, exerço a docência e sou poeta por vocação. No labor criativo ligo a minha vontade de intervenção cívica com a convicção de que a criação é a verdadeira natureza do ser humano. Colaboro com diferentes associações do espaço lusófono, tecendo redes de afetos e projetos à volta da vivência da língua portuguesa. Sou académica de número da Academia Galega da Língua Portuguesa.
...... Outra apreciação:
Com a luz nas mãos, do corpo pulsante à claridade solar
Notas de leitura ao livro Uma Vara de Medir o Sol, de Graça Pires
Por Gisela Gracias Ramos Rosa
Editora Coisas de Ler, Colecção de Poesia Clepsydra, nº 11, 2018
De pé, demoradamente invocando
o grito do destino, somos a sombra
de uma vara, presa à inclinação do sol,
que define a vertigem que nos derruba
e que nos ergue.
Graça Pires, em Uma Vara de Medir o Sol
O Sol, estrela central do sistema solar é, também, âmago da Poesia de Graça Pires.
Quando a autora me convidou para escrever umas palavras sobre o seu livro Uma Vara de Medir o Sol, senti
um feliz desafio, o privilégio de traçar umas linhas sobre a intensa
claridade que a autora nos oferece. Por outro lado o título liga-se de
imediato ao nome da Colecção de poesia em que agora se integra — Clepsydra1 — sugerindo um encontro feliz com o projecto de poesia em que tenho vindo a colaborar com a editora Coisas de Ler.
Esta
é a vigésima publicação da autora e o seu décimo nono livro, embora
sendo uma reedição, trata-se da primeira vez que é editado em Portugal
(a primeira edição brasileira de 2012, teve a chancela da editora Intermeios
de São Paulo). Nascida em 1946 e Licenciada em História, Graça Pires é
detentora de cerca de nove prémios literários reconhecidos, convivendo
com a sua já extensa publicação e o seu talento literário, sem
exuberâncias. Revela-se na poesia com a obra Poemas, em
1990 (editora Vega), publicada após ter recebido o Prémio Revelação de
Poesia da APE, em 1988. Em 1993, recebe o Prémio Nacional de Poesia
Sebastião da Gama, com a obra Labirintos, que virá a
ser publicada em 1997, numa edição da Câmara Municipal de Murça que lhe
atribuiu o prémio Fernão Magalhães Gonçalves. No mesmo ano de 1993,
recebe o Prémio Nacional de Poesia da Vila de Fânzeres, para Outono: Lugar Frágil, livro publicado pela Junta de Freguesia de Fânzeres, no mesmo ano. A premiação das suas obras de poesia, repete-se com Ortografia do Olhar (1995), Conjugar Afectos (1996), Uma certa forma de errância (2003), Quando as Estevas entraram no Poema (2004), O silêncio: lugar habitado (2008). Ainda que várias vezes premiada, denotando o gosto unânime dos seus leitores, é “(…)surpreendente
e contraditório o facto de ser simultaneamente uma figura discreta da
poesia portuguesa e do panorama crítico literário, sempre tão “urgente”
nas suas descobertas e revelações literárias.” (Maria João Cantinho, em apresentação do livro Poemas Escolhidos 1990–2011).
Se
a medição da inclinação do Sol (2), quer pela vara (gnômon 3) ou por um
relógio de água (Clepsydra) na ausência daquele, sugeria um modo de
orientação cronológica daquilo que se convencionou chamar “tempo”, no
presente livro a autora Graça Pires traz-nos a evocação de um
instrumento antigo com recurso a fontes poéticas, à forma tão própria de
abraçar as preocupações inerentes ao humano e ao seu meio com a
transversal corrente da palavra poética. Natureza e humano interagindo
com aspectos psicológicos, sociais e culturais marcadamente presentes
nas imagens que Graça Pires nos oferece. Vejamos o poema que se segue:
Há lugares que têm a feição
das coisas instáveis e perecíveis.
Lugares sobrepovoados
onde os gatos vagueiam em silêncio
como se ouvissem os passos dos mortos.
Lugares com ruas sem saída e casas precárias.
Lugares que são faca e cinza,
lume e vento, lixo e medo.
Lugares onde empalidecem os dias
e as pessoas e os deuses, cada vez mais falíveis.
(Graça Pires, em Uma Vara de medir o sol)
Neste
poema a autora mostra-nos a condição de alguns “lugares sobrepovoados”,
traçando o mundo degradado e perecível, em que vivemos, com metáforas
reveladoras de uma sociedade onde convivem guetos, miséria e morte. Atente-se às palavras “medos”, “lixo”, “cinza” e “silêncio” e aos dois últimos versos “Lugares onde empalidecem os dias/ e as pessoas e os deuses, cada vez mais falíveis.”(GP). Os poetas têm uma função social primordial e necessária, como já referia Georges Bataille, quando a humanidade vê negada a possibilidade de existir e transpôr
os limites do possível, limitada que está a sua voz perante políticas
sistemáticas de silenciamento, decorrentes da agressividade dos mercados
ou por questões de mentalidade economicista e desumana.
Este
é um livro que é também lugar construído como um processo de energias
conscientes e “inconscientes”, numa dinâmica criativa e reflexiva em que
se foram vincando problemáticas ambientais importantes que têm origem
na cisão que o “progresso” vem instalando entre a natureza e o humano.
Este é um dos temas flagelo do nosso tempo, a que os poetas não se
deveriam furtar, e a que Graça Pires faz jus trazendo a claridade do seu
corpo poético a este livro com que nos presenteia e chama a atenção.
A propósito da luz dos lugares, diz-nos António Salvado num seu poema com o título lugar:
“Onde a flor seja gravidez de cravos/e se descubram gritos das
montanhas/ a traçar rios, mares, continentes.//Onde o sol não se esconda
porque não/ e a claridade seja eternidade/ e a eternidade seja fé e
pão.(…)” (A.S, em La hora sagrada, p. 68). Assim é a poesia de Graça
Pires “fé” e “pão”, hino silencioso do corpo ancorado à palavra. Do
corpo onde nasce a poesia de Graça Pires, um jogo de margens necessárias
articula meticulosamente emoções e raízes num quotidiano que oscila
entre o lírico, o social e o metafísico.
Não
foi em vão que Graça Pires seleccionou os versos de Albano Martins para
abrir o seu livro. A “Casa” esse lugar herdado e por nós habitado é
também passado, presente e futuro, tempo-lugar vincado pela acção humana
e por todos os condicionalismos envolventes.
Conta-nos a autora:
Antes do homem havia a terra
Geografia mágica, sagrada
Que, na luz e na treva, explodiu
De espanto e guardou, milenarmente,
Os mistérios da vida e da morte.
Depois da terra veio o homem.
E o homem tornou-se um morador incauto
E perdeu o paraíso onde agora os deuses,
Quando passam, desviam o olhar.
(GP, em Uma Vara de Medir o Sol)
Aqui
Graça Pires mostra a ruptura entre a natureza e o humano e o
consequente desequilíbrio, “E o homem tornou-se um morador incauto//E
perdeu o paraíso onde agora os deuses,/ Quando passam, desviam o olhar.”
Se
o corpo é um campo de memórias vive-se com ele a percepção do desamparo
e do abismo, dos medos com que somos confrontados no planeta azul. E se
a criação mostra aos poetas um lugar liminar, entre o ser e o não-ser,
dando-lhe recursos de permanente mutação, face ao mundo exterior, os
receios persistem em angústias sem horizonte onde se estreitam as
janelas de interacção reparadora.
Este
livro de uma imensa claridade com que a poeta já nos habituou em todas
as suas obras, ressurge entre metáforas metalinguísticas imprevistas e
uma linguagem simples, sinal de depurada maturação, de um exercício de
escrita em busca do “Absoluto” que a poesia sugere representar na
“máxima condensação da linguagem humana” (Eduardo Lourenço, em Tempo e Poesia).
Corpo-espaço,
desassossego e espanto, testemunho paradoxal de um mundo moribundo que
se faz voz precisa na poeta. Nos poemas de Graça Pires, as palavras são
já acção transformadora, lente lúcida e transparente da poeta
descobrindo as manhãs, o futuro.
A
palavra mede aqui a inclinação do sol na terra e no humano revelando a
extensão da sombra mas, essencialmente, o seu contraste. Reflexo de si e
dos outros a autora cria a partir de uma geografia de sentidos de um
quotidiano assimilado e vertido na água do poema.
Conheço
a obra da poeta e a autora e posso referir que nela a ambivalência
onírica e melancólica é seciada por uma semente “amarga” que velozmente
se ilumina com a palavra que incide na página, com o sol que faz eclodir a sua poeticidade. “Só a palavra poética é libertação do mundo.”(Eduardo Lourenço, idem).
Apesar
da solidão e do silêncio sempre presentes na escrita da autora, esta
nunca está só, no sentido literal da palavra. Acompanham-na todas as nuances
do mundo vivido, por viver e, ainda, o dos leitores presentes neste
círculo próximo da palavra poética que ao leitor é oferecido, uma
espécie de “encarnação sensível do Infinito no finito” uma das
descrições do acto poético como nos refere Eduardo Lourenço.
Graça
Pires recorre a instrumentos antigos, move o seu arado lavrando a terra
poética com a transparência e a intensidade de autores como Daniel
Faria, Herberto Helder ou Rilke.
Se por um lado a riqueza metafórica da poesia da autora a aproxima de Herberto Helder naquilo que Maria Cantinho afirma ser “uma componente alucinatória fortíssima”
e, ainda, se na poesia de Herberto Helder encontramos uma linha que se
estende do mítico ao utópico, em Graça Pires o fluxo poético estende-se
do concreto (quotidiano) ao utópico assente nas mãos do humano e por
isso possível de transformar. Vejamos alguns versos dos dois autores:
De Herberto Helder,
“Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.
Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol. (…)
(Herberto Helder, Sobre um poema).
Da leitura da obra de Graça Pires reconheço na dinâmica pulsante da sua poesia, um fluxo veloz, “um grito do destino” “que define a vertigem que nos derruba/ e que nos ergue”
e esse movimento ou força em que progride o poema aproxima-a mais de
Daniel Faria com os seus instrumentos de lavoura e a sua arte metafórica
tão próxima do sol, como um “candeeiro branco” “que se ergue entre as mãos” (Daniel Faria, em Poesia),
onde julgo encontrar algumas afinidades entre escritas e vocações. Se
não consegues mudar o teu mundo, imagina essa possibilidade com a tua
solidão:
De Daniel Faria,
Escrevo do lado mais invisível das imagens
Na parede de dentro da escrita e penso
Erguer à altura da visão o candeeiro
Branco da palavra com as mãos
Como paveia atrás do segador
Vejo os pés descalços dos que morrem sem nunca terem provado o pão
Grito-lhes: imaginai o que nunca tivestes nas mãos
Correi. Como o segador seguindo o segador
Numa ceifa terrestre, tombando. Digo:
Imaginai
(DF, Poesia)
Em Graça Pires a poesia é branca e move-se a uma velocidade infinitaque encontro na poesia de Daniel Faria: “Correi. Como o segador seguindo o segador” (DF), “nessa vertigem e nessa claridade repousa a nossa existência sem repouso” refere Eduardo Lourenço (ibidem).
No entanto, a escrita de Graça Pires é peculiar no que se liga à
tentativa de modelação do quotidiano através da poesia que nela se faz
voz terceira, “Aguardamos uma luz de seiva/ que reacenda a treva que nos cega” (GP, em Uma Vara de medir o sol)
Diz a autora no poema com que iniciei este texto,
De
pé, demoradamente invocando/o grito do destino, somos a sombra /de uma
vara, presa à inclinação do sol,/ que define a vertigem que nos derruba/
e que nos ergue.
(GP, em Uma Vara de medir o sol)
Diria Rilke sobre o tema de Uma Vara de Medir o Sol:
(…) Mal notam
Como arde tudo o que as suas mãos tocam,
De modo que quando se à sua última orla chegar
Não a podem segurar sem se queimar.(…)
(em O Livro de Horas, p. 273)
Em Uma Vara de Medir o Sol,
a poesia é material suspenso do desejo de uma nova transformação
perante a destruição do mundo. Assistimos neste livro a uma chamada de
atenção ao leitor para as grandes ameaças do planeta
e à aspiração de perpetuar o devir, a luz do sol em manhãs vindouras,
pois somos responsáveis quando “O chão arde em nossos passos, vítimas/e
culpados do desvario dos caminhos.” (Graça Pires, em Uma Vara de Medir o Sol).
E diz, ainda, a autora,
“Por quem tocam os sinos a rebate
quando estremecemos voltados para a terra?”
(GP)
Graça Pires inscreve a sua voz e o seu silêncio numa escrita-apelo transversal à Terra, à Humanidade, a todos os tempos, à Vida.
Gisela M. Gracias Ramos Rosa, (Poeta, (1964, Maputo), tem formação em Relações Internacionais, é Mestre em Relações Interculturais e pós-graduada em Migrações Etnicidade e Racismo. Profissionalmente foi perita forense durante de trés décadas. É poeta e tem os seguintes livros publicados: Vasos Comunicantes, Diálogo poético com António Ramos Rosa (2006, ed. Labirinto), reeditado em 2017 (Poética edições), em formato bilingue português/ /espanhol; tradução das manhãs (2013, Lua de Marfim) vencedor do Prémio Glória de Sant´Anna 2014; as palavras mais simples, (2014 Poética edições); O livro das mãos (2017, Coisas de Ler) vencedor do Prémio Glória de Sant´Anna 2018. A pedra e o corpo (2018,Poética edições), é o livro mais recente.
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Autores visitados:
António Salvado, Daniel Faria, Eduardo Lourenço, Georges Bataille,
Graça Pires, Herberto Helder, Maria João Cantinho, Rainer Maria Rilke,
Ronaldo Cagiano, Victor Oliveira Mateus.
*
1 A clepsydra ou relógio de água
foi um dos primeiros sistemas criados pelo homem para medir o tempo.
Trata-se de um dispositivo movido a água, que funciona por gravidade, no
mesmo princípio da ampulheta (de areia).
2 O relógio de sol
é o mais antigo instrumento de medição do tempo, foi inventado há pelo
menos 3.500 anos. Nele, as horas são indicadas pela sombra que o gnômon (
objeto que, pela direção ou comprimento de sua sombra, indica a hora do
dia numa superfície horizontal.) faz na superfície do relógio.
3 O Gnômon é a parte do relógio solar que possibilita a projeção da sombra.
.......
Sobre a Autora e a colectânea "Poemas Escolhidos":
Graça Pires Poemas Escolhidos (1990-2011) De uma dúzia de livros publicados entre 1990 e 2011, Graça Pires editou Poemas Escolhidos, uma antologia organizada pela autora que nos diz em nota de abertura: «Não foi fácil a escolha. Não pretendi questionar-me ou questionar alguém sobre a emoção e a sensibilidade que a poesia reclama. Escolhi aqueles poemas onde o meu olhar se deteve mais tempo ou se sobressaltou com as palavras escritas. Aqueles poemas onde o rosto da poesia se confunde com o rosto do poeta que procura um compromisso entre a linguagem estética e o sentimento, entre o sonho e a realidade. É uma poesia de cariz intimista onde falo de amor, de solidão, do mar, das coisas da vida: aquelas que me vão acontecendo a mim e aos outros. Procuro misturar o pessoal com o social na mesma vertigem do quotidiano, em que as palavras se tornam um espaço de afectos ou de mágoas, de esperança ou de angústias». Graça Pires tem uma poética de invulgar sensibilidade, recusando sempre a facilidade. Em cada verso alcança a unidade perfeita entre o Ser total e o jogo magnífico das metáforas, da significação. Nesta relação com a imagética, a autora não recorre a figuras de estilo pomposas e vazias. Pelo contrário, há na sua lírica uma infinita preocupação com as palavras, depurando o poema até este ser uma luz natural, profunda, espelhando uma autenticidade que constrói a grande partilha de afetos e reflexões. Estamos perante uma antologia que nos permite avaliar a evolução da poesia de Graça Pires, criadora de obras como Poemas (livro de estreia, vencedor do Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores, 1988), passando por mais trabalhos de referência, nomeadamente Uma Certa Forma de Errância (Prémio
Maria Amália Vaz de Carvalho, 2003), O Silêncio: Lugar Habitado(Prémio Nacional Poeta Ruy Belo, 2008) e A Incidência da Luz, 2011. Devemos igualmente destacar um outro livro seu, intitulado Uma Vara de Medir o Sol (editado no Brasil), do qual reproduzimos um poema a testemunhar a clareza de um discurso poético que navega uma linguagem sublime: «Escavo no peito um declive de seara / para ceifar o pão e roçar o ventre / no aroma dos fenos, até que o fermento / levede o trigo por entre os dedos do estio. / As farpas de um arado podem sulcar-me a pele / porque é de terra o molde do meu corpo». O "sentido das palavras" é visceral nos passos literários de Graça Pires e indissociável dos grandes temas do amor, do tempo, da memória, do meio ambiente, da natureza em todas as suas grandezas e fragilidades, das artes, da vida e morte, do Eu e o Outro num diálogo intenso que demanda a claridade mesmo quando (ou sobretudo) «Um duplo estremecimento lateja nos espelhos». Falamos de uma poesia de busca constante na qual se conciliam «íntimas paragens» e «a dupla teia dos lábios», onde o quotidiano e a idealização são um só lugar, o da coerência poética. Repare-se neste poema da antologia pessoal de Graça Pires: «O ofício das mãos não se intimida / com a apressada cadência do tempo. / Não tem fim o silencioso enleio / que se esconde por entre a argila / nos dedos do oleiro; ou se enrola no linho/ dos lençóis tecido pelas mães; ou se prolonga / no pão quando chega o mês do trigo. / Porque esse é o destino das mãos, / tão alheio à urgência de cada dia». Graça Pires costuma dizer que chegou tarde a todas as coisas, inclusive à escrita. Discordamos. A sua antologia é prova bastante de que a consciência do poema é intemporal. Depois, naturalmente, há um itinerário: «(...) E sobre o chão da página me debruço e me procuro».
Um jornalista só deve ser notícia num dia triste como o de
hoje:
- Morreu um Homem de Bem!
O Luís Osório deixou na sua página do BF a mais sentida e
bela homenagem que um Amigo pode transmitir.
Junto-me a ele para deixar os meus pêsames ‘a Família enlutada.lmc
......
Morreu o jornalista Rogério Rodrigues
O jornalista Rogério Rodrigues morreu no final da tarde de terça-feira, aos 72 anos, confirmou hoje à Lusa fonte familiar.
O jornalista, natural de Peredo dos Castelhanos, Torre de Moncorvo, estava doente e tinha sido hospitalizado no domingo.
Rogério Rodrigues começou a trabalhar no Diário de Lisboa em 1974, de onde saiu em 1981 para O Jornal.
Em 1989 foi para a revista Sábado e em 1990 para o Público. Voltou ao O Jornal em 1992, onde permaneceu até 1994.
O
jornalista Luís Osório reagiu à notícia, na sua página da rede social
Facebook, expressando o seu lamento pela morte daquele que considera "o último jornalista".
POSTAL DO DIA
Morreu o último jornalista
Talvez nunca tenham ouvido falar do Rogério, mas com isso não se sintam
culpados com tal ignorância, ele fez tudo para nunca se falado, para
nunca ser elogiado, para passar sempre ao largo dos holofotes, dos
aplausos, das condecorações, dos puxa-saco.
O Rogério foi o melhor, o mais extraordinário jornalista que conheci. A
pessoa com quem mais aprendi, a pessoa com quem bebi o primeiro whisky,
a pessoa a quem confessei não ser capaz, a pessoa a quem pedi refúgio
nos meus divórcios, nas minhas falhas, pecados, tragédias.
Atropelo-me, falo do que não interessa. Desculpe-me. Comecei a lê-lo no
Público, no início do Público. Eu adolescente, ávido de conhecimento e
sempre de jornal na mão, e ele um grande repórter, porventura o único
jornalista capaz de contar uma história de crime com o génio de um
Truman Capote. Li o seu livro sobre o assassino Faustino Cavaco antes de
o conhecer. Li e disse aos meus amigos: vocês já leram Rogério
Rodrigues, já leram a sua prosa?
E ninguém escrevia sobre
política como o Rogério. Nem sobre o Partido Comunista. Ou Álvaro Cunhal
– no dia em que o conheci, na redação do semanário O Jornal, acabara de
publicar um perfil sobre o histórico líder comunista, levei o jornal
para casa e adormeci a sonhar com o dia em que escreveria como ele.
A sua cultura era lendária. Sabia tudo. Conhecia todos. Viajava pela
língua como poucos, manobrava-a como ninguém. Até o José Cardoso Pires,
com quem bebia copos nas pausas das notícias ou da escrita, gostava de
dizer que ele é que era. Eu ficava em silêncio a ouvi-los, tinha 19 anos
e era um miúdo cheio de complexos, borrado de medo de estar ali com
aqueles gigantes que fumavam como Bogart e bebiam com estilo,
lentamente, deixando que as palavras se espalhassem à sua volta como o
fumo dos cigarros. Havia também o Fernando Assis Pacheco, claro. O
Afonso Praça, transmontano como ele. O Vítor Bandarra, que só conheci
uns anos mais tarde, não naqueles primeiros anos, o puto como era
chamado pelos velhos mestres.
Embarcou comigo na aventura de A
Capital. Fiz-lhe o convite com alguma vergonha: queres ser diretor
adjunto, meu diretor adjunto? Não pediu para pensar, vamos Luís. E foi.
durante um ano e meio virámos do avesso o que podia ser virado do
avesso. Naquele ano e meio afundei-me em trabalho e ele esteve sempre na
primeira linha. A trabalhar mais de 12 horas por dia. A “sacar”
notícias como só ele sacava. Estranha coincidência: foi ele quem, no
princípio de novembro de 2004, deu a notícia em quem ninguém acreditou, o
operário Jerónimo de Sousa seria o novo secretário geral do PCP. Nos
dias em que se especula acerca da saída de Jerónimo volto à notícia em
que ninguém acreditou, a sua notícia. O PCP era ainda mais inexpugnável
do que hoje, muito mais. Mas o Rogério conseguia tudo. E não queria nada
para ele, deixava-me brilhar – vai tu, Luís, vai às televisões e
defende a nossa manchete.
“Vai tu, Luís. Eu fico, estou bem, não preciso de nada, o que importa é a notícia”.
Depois estivemos em programas de televisão. E ajudou-me a lançar o
Rádio Clube onde passámos dificuldades. A meio do processo, quando o
projeto tinha apenas um ano e meio ou dois anos, a administração
pressionou muito, o Grupo Prisa estava em grandes dificuldades e eu
tinha de prescindir dos colaboradores, os que estavam a recibos verdes.
Seriam os primeiros a ir e era inegociável. O Rogério, que era o meu
consultor, adiantou-se: Luís, eu vou. Não é preciso falarmos mais nisso,
sei o que está a acontecer e amigo não empata amigo. E foi.
E
eu fiquei. Estúpido de merda fiquei. E deixei-o ir. Sem replica. Sem
dizer à administração que o Rogério era a minha linha vermelha,
inegociável para mim. Quando saiu daquela porta, quando deixei que
saísse, o jornalismo morreu para mim. O jornalismo por quem me
apaixonara em jovem. E nunca mais deixei de pensar que na vida há
valores muito mais importantes do que a sobrevivência. Serviu-me para a
vida.
Transmontano de Moncorvo, o Rogério. Com ele comi
lampreia pela primeira vez. Com ele conheci poetas, escritores, livros,
polícias e ladrões, sítios de informadores e o parlamento. Nunca
elogiava da maneira como se elogia. Nunca abraçava da maneira como se
abraça. Nunca festejava da forma como se festeja. Ou chorava da maneira
como se chora, nunca o vi chorar.
Amava profundamente a mulher da
sua vida. Contou-me num dia especial: a Arlete é a pessoa da minha
vida, não saberei viver sem ela, mas não lhe quero dar esse peso, o peso
dessa dependência, é apenas um problema meu.
E amava profundamente
os seus dois filhos. Quando o Tiago começou a ter sucesso, falava do
mais novo. Queria equilibrar as coisas. Mas quando o mais velho foi
convidado para o lugar mais importante do teatro português
perguntei-lhe: estás feliz, Rogério? Fumou um cigarro sem dizer uma
única palavra. E no final tinha as lágrimas presas nos olhos. O Tiago
era a sua prenda para o mundo. Sua e da Arlete.
Estou ainda no
escritório. Precisei de ficar mais um pouco. Os meus filhos mais novos
estão a dormir em casa. Os mais velhos ainda não sabem que morreu o
Rogério, o último jornalista. O último jornalista que conheci entre
todos os que viviam em função de uma ideia que foi morrendo no tempo.
Fui ao supermercado em frente comprar uma garrafa de Famous Grouse.
Bebo à sua memória, à sua vida. E quis o destino que amanhã, sexta,
sábado e domingo, esteja a moderar quatro debates sobre “Fake News”, no
teatro Nacional Dona Maria II, dirigido pelo seu filho, Tiago Rodrigues.
E na quinta-feira, apresento um livro de entrevistas em que a
última é com o seu filho, a pessoa que considero há muito como o mais
talentoso entre todos os criadores portugueses.
Não há palavras,
Rogério. Tinhas mesmo de abalar hoje? Bebes um copo comigo? Vem, estou
aqui. A garrafa dá para os dois.
LO
"O Rogério foi o melhor, o mais extraordinário jornalista que conheci", escreveu Luís Osório.
"Ninguém escrevia sobre política como o Rogério. Nem sobre o Partido Comunista. Ou Álvaro Cunhal - no
dia em que o conheci, na redação do semanário O Jornal, acabara de
publicar um perfil sobre o histórico líder comunista, levei o jornal
para casa e adormeci a sonhar com o dia em que escreveria como ele", acrescentou.
Rogério Rodrigues foi também diretor-adjunto de A Capital, quando Luís Osório dirigiu o vespertino, e passou também pela nova fase do Rádio Clube Português e por programas de televisão.
Henrique Monteiro, também no Facebook, lembrou que Rogério Rodrigues "foi perseguido antes do 25 de Abril, tolerante e aberto depois. Teimoso sempre.".
"O
velório será realizado na Igreja Matriz da Amadora, a partir das 18:00
de sexta-feira. No sábado, pelas 14h, será realizada uma cerimónia de
despedida na Igreja da Amadora, seguindo depois o corpo para o
Crematório de Barcarena", divulgou o seu filho, Tiago Rodrigues, diretor
do Teatro Nacional D. Maria II.
SE FOSSE INVULGAR A OPRESSÃO esse espírito de vidro caminharia descalço e desconcertado.
Lá fora a ternura adormece e tu sais pela porta dos fundos. Ninguém te segue. Outros sentidos são matéria molhada pegadas no meu peito recolhido.
Não chores não corporizes outras tristezas descampadas sítios que se partem por dentro dos ossos.
É tão banal a dor, essa bengala quebradiça essa partida sem dizer adeus.
Fica e falar-te-ei de amor.
NOS MAPAS DE OUTRORA os arrepios não faziam sentido nem dentro da cabeça nem fora do coração pois todas as flores se extinguiram e o metal derretido ocupou o espaço vazio.
Cambaleiam caules negros e corolas fundentes em fila indiana sinuosa. Esforçam-se por cair nas tuas mãos mornas de esposa nobre e fiel.
Os teus dedos a tamborilar nas alianças das viúvas. Os teus silêncios eróticos.
Mas é nas mãos da neve que gelas subitamente e és de novo anónima na persistência do frio.
.....
Adília César reside em Faro. Exerce actividade profissional como educadora de infância e formadora no âmbito da Didáctica das Expressões Artísticas, sendo Mestre em Teatro e Educação pela Universidade do Algarve. Publicou livros de poesia: O que se ergue do fogo (2016); Lugar-Corpo (2017); e O Tempo O Tempo (2019). Tem colaborações dispersas, nomeadamente: LÓGOS – Biblioteca do Tempo, Eufeme, Piolho, Estupida, Debaixo do Bulcão, Enfermaria 6, Nervo, Nova Águia, Iberis, Gazeta de Poesia Inédita, Pa_lavra, A Bacana, Caliban e Tlön, além de ensaios e artigos de opinião. É co-coordenadora da revista literária LÓGOS – Biblioteca do Tempo.
Michael Stipe lançou este fim de semana o seu primeiro single a solo, desde o fim dos R.E.M., em 2011.
O
tema tem como título 'Your Capricious Soul', e foi interpretado pelo
músico num concerto surpresa que deu em maio, a abrir para Patti Smith.
'Your Capricious Soul' não se encontra disponível em nenhuma das tradicionais plataformas de streaming, podendo ser escutada e descarregada no website de Michael Stipe, num formato pague-o-que-quiser.
"Quero
acrescentar a minha voz a esta entusiasmante mudança de consciência",
afirmou, em comunicado. "Acredito que podemos trazer a mudança
necessária à melhoria do nosso planeta Terra".
Ouça aqui 'Your Capricious Soul':