sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Graça Pires_ Uma vara de medir o sol _ crítica literária


A minha amiga e poeta, Graça Pires, tem nesta crítica literária, elaborada por Maria DoVigo, publicada hoje na Revista [AQUI:   (Link) ], uma análise intensa e objectiva do seu livro «Uma vara de medir o sol», digna de figurar como prefácio nesta obra excepcional, como excepcional e maravilhosa e’ toda a sua Poesia.

Espero que venha a ser muito mais conhecida/reconhecida do que, infelizmente, tem sido.

‘A Autora desta crítica literária, a minha [também] admiração.

Tomo a liberdade de a transcrever para o m/blog https://planetaorbital.blogspot.com/ . Se não concordar, agradecia que mo comunicasse, afim de a eliminar.


Bem-haja.








"O livro começa com um “Regressei”, com um movimento de viagem e uma cartografia em que existem os longes inacabados como desenhados com um fino lápis. A linha do regresso e o alento afetivo e narrativo que abre é cortada bruscamente com o movimento assimétrico da foice a ceifar o trigo e o tempo em ciclos e círculos que deu metáfora ao pensamento para inventar a agricultura. E ainda se abre no poema uma outra possibilidade temporal e narrativa, a do mar e a potência do humano a metaforizar o movimento primordial e constante das marés. Todos os fios narrativos são atravessados por imagens que são metonímia da presença humana, evocando dum lado o agudo, o cortante, nas unhas e nos dentes e a degradação na palidez, e doutro esse alarme para qualquer cousa como a possibilidade dum desenlace catastrófico, dum futuro de terra devastada, que já vai como carga nessa “dupla sombra dos barcos”, imagem do humano e as suas dualidades, sejam elas a marca de como apreendemos o mundo ou a representação das escolhas e as bifurcações dos sentidos.


Todo o livro está atravessado por estas linhas de fuga inacabadas e dinâmicas, portadoras de energias e sentidos: o paraíso que se lembra ou se profetiza, descrito como frágil ou dificilmente percetível, a força do ritual que por vezes consegue impregnar a palavra e dar-lhe o seu fim transformador, o testemunho da destruição e a precariedade, dos estilhaços do mundo, a esperança no caminho da salvação aberto pelo afeto e a capacidade de ver longe, de manter rotas certas ou de portar luz dos personagens femininos, dos viajantes, dos rios e das aves. Narra a história da civilização como um relato das relações entre o humano e o material com a mediação do logos, palavra e pensamento, com estilo fundamentado nas elipses e na captação do essencial por metonímias que nos dão acesso ao todo: a presença primigénia, soberana e mágica da terra, a irrupção do humano, a invenção da agricultura na repetida metonímia do cereal, a perda da transparência dos signos e do sentido do destino, a continuidade da enunciação do natural e a esperança na reconstrução da harmonia entre o humano e o cósmico. Episódios todos relatados sem sequência, mas numa linha de constante presença do todo e a tensão à volta das suas relações, como se tudo convergisse para o momento do corte da harmonia ou a esperança no seu retorno, não se sabe nunca se previsto ou não, que vertebra sem organizar, sem sentidos únicos, a presença humana no seu habitat.


“Antes do homem havia a terra:

geografia mágica, sagrada…

Depois da terra veio o homem.

E o homem tornou-se um morador incauto

e perdeu o paraíso onde agora os deuses,

quando passam, desviam o olhar” (página 46).


Habitat, porque este é um livro sobre o habitar, sobre a casa. Alguns poemas põem o foco sobre o habitar fazendo, plantando e cultivando. O poema titulado “Desconhecemos as cicatrizes das mãos” toma as mãos como metonímia do humano, mãos que se transformam e que ficam marcadas com cicatrizes e gretas pelos instrumentos de lavoura, mós, enxadas ou arados, com os que o humano transforma a natureza para o seu sustento. Mãos, que como os olhos, entram na matéria e a transformam e que, por sua vez, são veículo da transformação do humano no próprio ato de fazer, diluindo relações hierárquicas entre sujeitos e objetos numa realidade de influência, dissolução de margens e interpenetração constante.


Noutros poemas se representa o humano como uma certa tensão na postura que lhe vem da sua verticalidade e uma existência paradoxal que se sente por um destino que se deseja, “invocando”, mas do que não se tem a certeza, pois parece que o centro, a emanação da energia, o sol que traça a linha e projeta o humano em sombras, sempre está fora, como no poema que contem o verso que dá título ao livro:


“De pé, demoradamente invocando

o grito do destino, somos a sombra

de uma vara, presa à inclinação do sol,

que define a vertigem que nos derruba

e que nos ergue” (página 37).


Percorre os poemas uma esperança de que o humano exceda o textual, que tenha a natureza do orgânico e o cósmico. Assim a palavra por momentos consegue representar a fluidez do mundo material em imagens de continuidade e liquidez, num quadro em que começa com um gesto de vontade de fazer e prender, de ter raiz, no poema “Plantei na janela uma hera inclinada para dentro”, poema sem medo ao corte da mutilação que noutros poemas é ameaça constante. Ou no poema “Escavo no peito um declive de seara”, em que a continuidade material entre o terreal e o corpo humano é tal que permite em ambos o labor agrícola.


Os verbos de enunciação, lembrar, esquecer, contar…, são ditos com a esperança de estabelecer uma aliança entre a presença humana e o habitat natural que se situa num momento que por vezes é remoto e por vezes é profetizado. Em vários poemas recolhe-se a ideia de linguagem ritual, sagrada ou mágica que vai atravessando esse relato da humanidade a habitar a terra, como no poema “Temos um quebranto no friso do olhar”. A aprendizagem do ritual na infância permite ter esperança no poema “Os rituais da infância não nos deixam esquecer”, significado reforçado pela repetição constante do adjetivo “verde”, na possibilidade do paraíso, a harmonia, o sentido no passar do tempo. Em outros poemas a enunciação não atinge toda a potência da sua energia e só nos dão testemunho dum movimento de fuga neste mundo dessacralizado da ordem artificial, como no poema que começa com os versos “Nem sempre as janelas oferecem às casas/ todas as possibilidades da luz”.


Outra possibilidade de sentido para o tempo humano se abre com os poemas que variam sobre o movimento, seja o movimento das aves, dos rios ou dos humanos. As aves, os viajantes e os rios fluem para uma mesma mensagem, o de uma rota, um destino, uma memória semelhantes, signos de um alfabeto cifrado que o humano conhece na viagem, como nos poemas “Conta-se que há laranjais que rebentam”, “O viajante ajoelhou-se sobre a terra”, “Seguimos pela noite indiferentes”, em que lemos o verso “destino das aves que trazem a luz das auroras riscada em suas penas”. Ou no poema final, “Naquele mês espalhara-se a insólita notícia”, com a mínima história das mulheres que abandonam as casas e sobem às colinas por terem pressentido a vinda das andorinhas. Ou aqueles poemas que descrevem situam o humano nas margens: a “curva do tempo na concha ansiosa do olhar”, “os homens [que] caminharão na berma das estradas carregando os filhos”, os que “vivem na linha costeira dos continentes” e “enfeitam os pulsos com amuletos de búzios”.


Mas o que fica mesmo inscrito na memória são os versos que falam de um momento de corte, que trouxe o “desvario dos caminhos” e “o exílio de pássaros e aves”, momento catastrófico da cisão entre a ordem natural e a humana que se pressagia nos poemas “Vem do rio um vento interminável, como um cerco” e “Quando as espigas surgiram de repente” ou que se lembra no poema “Conhecemos a obscuridade dos quintais”, impedindo com este cruzamento de perspetivas temporais contar a história humana em linha reta ou em sequência irreversível. É um episódio que parece poder acontecer em qualquer momento, o dum antes e um depois de uma vivência primordial, paradisíaca, essencialmente frágil, que algum saber desfaz, como no poema “No verão todas as manhãs são belas” e a partir do qual o humano já não consegue decifrar o mundo, a pesar de a natureza continuar a ser tão transparente como quando a habitava como paraíso, como no poema que começa com os versos “Envelhecemos com uma vara/ de medir o sol na linha do olhar”: não entendemos os sinais inscritos, ainda que o piar dos pássaros seja tão nítido. Mas a perda do sentido pode ser reversível, como no poema de tom profético “Um dia nos pátios das casas” ou no poema “Aguardamos uma luz de seiva”, um poema de esperança na repetição dum “fiat lux”, duma luz que afaste o humano do caos, da morte e da culpa e dê um sentido único e farto ao cósmico, o orgânico e o humano.


Há o texto, há a autora e a leitora que escreve estas linhas, há a presença da palavra que venha dos longes que vier sempre se faz presente. Há o contexto do tempo com que a poeta fala em palavra transformada pela ação do dizer poético em símbolo que irradia e que é necessário à existência situada no tempo e no espaço. E há o meu olhar que recebe, que compreende desde a sua memória sensitiva, emocional e lírica. Nasci virada a norte, com um dialeto lírico levemente diverso ao da poeta Graça Pires no que ao signo do sol diz respeito. Conheço, estão gravados na minha memória espiritual galega, nos ritos com que cresci, as metáforas que se vivem nos rituais da roda anual do sol, mas também uma tradição lírica, musical e literária, mais recente, que oscila entre o discurso irónico sobre o símbolo solar e a invocação da sua vinda nas alvoradas, tradição, ou vaga contemporânea, que se sente confortável em cenários de luz noturna e diálogos com o luar. Dou como exemplo os cenários em que nos “roubarom o sol” ou em que se prepara “um naufrágio com a ausência cúmplice do sol” dos poemas de Manuel António ou o “Vem-te aurora” da “Alvorada” de Rosália de Castro.


Por outro lado leio com a minha memória mais pessoal, a da criança que se apaixonou por um romance intitulado Os filhos do sol, que contava a história do faraó herege fundador de uma nova religião, a que fixou na sua arca imaginária pessoal o cenário do sol traçador de caminhos sobre o mar que lia à sombra da torre de Brigântia. Apaixonei-me por esta linha da tradição lírica lusitana que dá sinal da descoberta e a contínua demanda duma medida do universo. Compreendo os achados poéticos como achados sem mais e tenho este livro nas mãos com a emoção de um manuscrito encontrado que não quero datar, que me dá testemunho de quem se situa para além do tempo, na tradição, como dizia Daniel Castelão, para encontrar chaves e interpretar o tempo sequencial, essa dimensão em que o humano se desenvolve sempre em linha reta sem nunca poder voltar.


E no entanto este livro tem data, está enraizado neste tempo de dissolução dos territórios e as suas culturas, na duplicidade da metáfora no agrícola e no linguístico de diversas linguagens, da desfeita da mater como matéria que informa todo o pensamento. A palavra “casa” dos versos de Albano Martins que servem de abertura, uma casa que herdamos e que é a própria vida, dão a moldura para pensarmos como poetas a casa, a comunidade e o destino que se decide nesta linha do tempo que passa cortando e que não podemos deixar de transmitir. Há uma postura que se torna emocional e energética, essa vara que é o humano. Na literalidade do livro não leio outra intenção para além da enunciação das palavras, e para mim, como leitora e poeta, é suficiente, pois todo o livro é atravessado por um tom de dizer ritual, como quem quer trazer a emoção e a ação de um tempo em que dizer a palavra é fazer presente a cousa. Uma vara de medir o sol é um exercício de imaginação material, de leitura do mundo e de narração, poesia com movimento de escavação, inscrição, poesia côncava que explora o que se passa no “ângulo interior dos séculos”, da fibra mais íntima do devir humano, poesia que nos faz compreender porquê a escrita nasceu como inscrição, simbolizando os sons aéreos em signos sobre a pedra. Poesia que se sustenta na compreensão de que a natureza é literal e que os poetas leem quando escrevem e os humanos traduzem quando falam."

Cf. .

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Maria DoVigo

(Galiza-Portugal) Nasci na Crunha em 1972 e vivo desde 2000 em Portugal. A minha formação é a Filologia, exerço a docência e sou poeta por vocação. No labor criativo ligo a minha vontade de intervenção cívica com a convicção de que a criação é a verdadeira natureza do ser humano. Colaboro com diferentes associações do espaço lusófono, tecendo redes de afetos e projetos à volta da vivência da língua portuguesa. Sou académica de número da Academia Galega da Língua Portuguesa.

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Outra apreciação:




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Sobre a Autora e a colectânea "Poemas Escolhidos":




Graça Pires Poemas Escolhidos (1990-2011) De uma dúzia de livros publicados entre 1990 e 2011, Graça Pires editou Poemas Escolhidos, uma antologia organizada pela autora que nos diz em nota de abertura: «Não foi fácil a escolha. Não pretendi questionar-me ou questionar alguém sobre a emoção e a sensibilidade que a poesia reclama. Escolhi aqueles poemas onde o meu olhar se deteve mais tempo ou se sobressaltou com as palavras escritas. Aqueles poemas onde o rosto da poesia se confunde com o rosto do poeta que procura um compromisso entre a linguagem estética e o sentimento, entre o sonho e a realidade. É uma poesia de cariz intimista onde falo de amor, de solidão, do mar, das coisas da vida: aquelas que me vão acontecendo a mim e aos outros. Procuro misturar o pessoal com o social na mesma vertigem do quotidiano, em que as palavras se tornam um espaço de afectos ou de mágoas, de esperança ou de angústias». Graça Pires tem uma poética de invulgar sensibilidade, recusando sempre a facilidade. Em cada verso alcança a unidade perfeita entre o Ser total e o jogo magnífico das metáforas, da significação. Nesta relação com a imagética, a autora não recorre a figuras de estilo pomposas e vazias. Pelo contrário, há na sua lírica uma infinita preocupação com as palavras, depurando o poema até este ser uma luz natural, profunda, espelhando uma autenticidade que constrói a grande partilha de afetos e reflexões. Estamos perante uma antologia que nos permite avaliar a evolução da poesia de Graça Pires, criadora de obras como Poemas (livro de estreia, vencedor do Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores, 1988), passando por mais trabalhos de referência, nomeadamente Uma Certa Forma de Errância (Prémio


Maria Amália Vaz de Carvalho, 2003), O Silêncio: Lugar Habitado(Prémio Nacional Poeta Ruy Belo, 2008) e A Incidência da Luz, 2011. Devemos igualmente destacar um outro livro seu, intitulado Uma Vara de Medir o Sol (editado no Brasil), do qual reproduzimos um poema a testemunhar a clareza de um discurso poético que navega uma linguagem sublime: «Escavo no peito um declive de seara / para ceifar o pão e roçar o ventre / no aroma dos fenos, até que o fermento / levede o trigo por entre os dedos do estio. / As farpas de um arado podem sulcar-me a pele / porque é de terra o molde do meu corpo». O "sentido das palavras" é visceral nos passos literários de Graça Pires e indissociável dos grandes temas do amor, do tempo, da memória, do meio ambiente, da natureza em todas as suas grandezas e fragilidades, das artes, da vida e morte, do Eu e o Outro num diálogo intenso que demanda a claridade mesmo quando (ou sobretudo) «Um duplo estremecimento lateja nos espelhos». Falamos de uma poesia de busca constante na qual se conciliam «íntimas paragens» e «a dupla teia dos lábios», onde o quotidiano e a idealização são um só lugar, o da coerência poética. Repare-se neste poema da antologia pessoal de Graça Pires: «O ofício das mãos não se intimida / com a apressada cadência do tempo. / Não tem fim o silencioso enleio / que se esconde por entre a argila / nos dedos do oleiro; ou se enrola no linho/ dos lençóis tecido pelas mães; ou se prolonga / no pão quando chega o mês do trigo. / Porque esse é o destino das mãos, / tão alheio à urgência de cada dia». Graça Pires costuma dizer que chegou tarde a todas as coisas, inclusive à escrita. Discordamos. A sua antologia é prova bastante de que a consciência do poema é intemporal. Depois, naturalmente, há um itinerário: «(...) E sobre o chão da página me debruço e me procuro».


Avessa a parangonas e à ribalta, Graça Pires tem uma carreira literária sólida, marcada pela exigência de uma autora que conhece bem as «máscaras dos búzios», «a lâmina do silêncio», «a ácida solidão das letras», «a lança das memórias», «os desígnios da morte», e, também, «a respiração do mar», «o clamor das antigas oliveiras» e o «chamamento do corpo». Uma obra que atingiu a maturidade plena. © MARIA AUGUSTA SILVA


quarta-feira, 9 de outubro de 2019

A Morte de um grande Jornalista


Um jornalista só deve ser notícia num dia triste como o de hoje:
- Morreu um Homem de Bem!
O Luís Osório deixou na sua página do BF a mais sentida e bela homenagem que um Amigo pode transmitir.  
Junto-me a ele para deixar os meus pêsames ‘a Família enlutada. lmc 
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Morreu o jornalista Rogério Rodrigues

O jornalista Rogério Rodrigues morreu no final da tarde de terça-feira, aos 72 anos, confirmou hoje à Lusa fonte familiar.





O jornalista, natural de Peredo dos Castelhanos, Torre de Moncorvo, estava doente e tinha sido hospitalizado no domingo.
Rogério Rodrigues começou a trabalhar no Diário de Lisboa em 1974, de onde saiu em 1981 para O Jornal.
Em 1989 foi para a revista Sábado e em 1990 para o Público. Voltou ao O Jornal em 1992, onde permaneceu até 1994.

O jornalista Luís Osório reagiu à notícia, na sua página da rede social Facebook, expressando o seu lamento pela morte daquele que considera "o último jornalista".




Luís Osório
há 22 horas

POSTAL DO DIA
Morreu o último jornalista
Talvez nunca tenham ouvido falar do Rogério, mas com isso não se sintam culpados com tal ignorância, ele fez tudo para nunca se falado, para nunca ser elogiado, para passar sempre ao largo dos holofotes, dos aplausos, das condecorações, dos puxa-saco.
O Rogério foi o melhor, o mais extraordinário jornalista que conheci. A pessoa com quem mais aprendi, a pessoa com quem bebi o primeiro whisky, a pessoa a quem confessei não ser capaz, a pessoa a quem pedi refúgio nos meus divórcios, nas minhas falhas, pecados, tragédias.
Atropelo-me, falo do que não interessa. Desculpe-me. Comecei a lê-lo no Público, no início do Público. Eu adolescente, ávido de conhecimento e sempre de jornal na mão, e ele um grande repórter, porventura o único jornalista capaz de contar uma história de crime com o génio de um Truman Capote. Li o seu livro sobre o assassino Faustino Cavaco antes de o conhecer. Li e disse aos meus amigos: vocês já leram Rogério Rodrigues, já leram a sua prosa?
E ninguém escrevia sobre política como o Rogério. Nem sobre o Partido Comunista. Ou Álvaro Cunhal – no dia em que o conheci, na redação do semanário O Jornal, acabara de publicar um perfil sobre o histórico líder comunista, levei o jornal para casa e adormeci a sonhar com o dia em que escreveria como ele.
A sua cultura era lendária. Sabia tudo. Conhecia todos. Viajava pela língua como poucos, manobrava-a como ninguém. Até o José Cardoso Pires, com quem bebia copos nas pausas das notícias ou da escrita, gostava de dizer que ele é que era. Eu ficava em silêncio a ouvi-los, tinha 19 anos e era um miúdo cheio de complexos, borrado de medo de estar ali com aqueles gigantes que fumavam como Bogart e bebiam com estilo, lentamente, deixando que as palavras se espalhassem à sua volta como o fumo dos cigarros. Havia também o Fernando Assis Pacheco, claro. O Afonso Praça, transmontano como ele. O Vítor Bandarra, que só conheci uns anos mais tarde, não naqueles primeiros anos, o puto como era chamado pelos velhos mestres.
Embarcou comigo na aventura de A Capital. Fiz-lhe o convite com alguma vergonha: queres ser diretor adjunto, meu diretor adjunto? Não pediu para pensar, vamos Luís. E foi. durante um ano e meio virámos do avesso o que podia ser virado do avesso. Naquele ano e meio afundei-me em trabalho e ele esteve sempre na primeira linha. A trabalhar mais de 12 horas por dia. A “sacar” notícias como só ele sacava. Estranha coincidência: foi ele quem, no princípio de novembro de 2004, deu a notícia em quem ninguém acreditou, o operário Jerónimo de Sousa seria o novo secretário geral do PCP. Nos dias em que se especula acerca da saída de Jerónimo volto à notícia em que ninguém acreditou, a sua notícia. O PCP era ainda mais inexpugnável do que hoje, muito mais. Mas o Rogério conseguia tudo. E não queria nada para ele, deixava-me brilhar – vai tu, Luís, vai às televisões e defende a nossa manchete.
“Vai tu, Luís. Eu fico, estou bem, não preciso de nada, o que importa é a notícia”.
Depois estivemos em programas de televisão. E ajudou-me a lançar o Rádio Clube onde passámos dificuldades. A meio do processo, quando o projeto tinha apenas um ano e meio ou dois anos, a administração pressionou muito, o Grupo Prisa estava em grandes dificuldades e eu tinha de prescindir dos colaboradores, os que estavam a recibos verdes. Seriam os primeiros a ir e era inegociável. O Rogério, que era o meu consultor, adiantou-se: Luís, eu vou. Não é preciso falarmos mais nisso, sei o que está a acontecer e amigo não empata amigo. E foi.
E eu fiquei. Estúpido de merda fiquei. E deixei-o ir. Sem replica. Sem dizer à administração que o Rogério era a minha linha vermelha, inegociável para mim. Quando saiu daquela porta, quando deixei que saísse, o jornalismo morreu para mim. O jornalismo por quem me apaixonara em jovem. E nunca mais deixei de pensar que na vida há valores muito mais importantes do que a sobrevivência. Serviu-me para a vida.
Transmontano de Moncorvo, o Rogério. Com ele comi lampreia pela primeira vez. Com ele conheci poetas, escritores, livros, polícias e ladrões, sítios de informadores e o parlamento. Nunca elogiava da maneira como se elogia. Nunca abraçava da maneira como se abraça. Nunca festejava da forma como se festeja. Ou chorava da maneira como se chora, nunca o vi chorar.
Amava profundamente a mulher da sua vida. Contou-me num dia especial: a Arlete é a pessoa da minha vida, não saberei viver sem ela, mas não lhe quero dar esse peso, o peso dessa dependência, é apenas um problema meu.
E amava profundamente os seus dois filhos. Quando o Tiago começou a ter sucesso, falava do mais novo. Queria equilibrar as coisas. Mas quando o mais velho foi convidado para o lugar mais importante do teatro português perguntei-lhe: estás feliz, Rogério? Fumou um cigarro sem dizer uma única palavra. E no final tinha as lágrimas presas nos olhos. O Tiago era a sua prenda para o mundo. Sua e da Arlete.
Estou ainda no escritório. Precisei de ficar mais um pouco. Os meus filhos mais novos estão a dormir em casa. Os mais velhos ainda não sabem que morreu o Rogério, o último jornalista. O último jornalista que conheci entre todos os que viviam em função de uma ideia que foi morrendo no tempo.
Fui ao supermercado em frente comprar uma garrafa de Famous Grouse. Bebo à sua memória, à sua vida. E quis o destino que amanhã, sexta, sábado e domingo, esteja a moderar quatro debates sobre “Fake News”, no teatro Nacional Dona Maria II, dirigido pelo seu filho, Tiago Rodrigues.
E na quinta-feira, apresento um livro de entrevistas em que a última é com o seu filho, a pessoa que considero há muito como o mais talentoso entre todos os criadores portugueses.
Não há palavras, Rogério. Tinhas mesmo de abalar hoje? Bebes um copo comigo? Vem, estou aqui. A garrafa dá para os dois.
LO


"O Rogério foi o melhor, o mais extraordinário jornalista que conheci", escreveu Luís Osório.
"Ninguém escrevia sobre política como o Rogério. Nem sobre o Partido Comunista. Ou Álvaro Cunhal - no dia em que o conheci, na redação do semanário O Jornal, acabara de publicar um perfil sobre o histórico líder comunista, levei o jornal para casa e adormeci a sonhar com o dia em que escreveria como ele", acrescentou.

Rogério Rodrigues foi também diretor-adjunto de A Capital, quando Luís Osório dirigiu o vespertino, e passou também pela nova fase do Rádio Clube Português e por programas de televisão.
Henrique Monteiro, também no Facebook, lembrou que Rogério Rodrigues "foi perseguido antes do 25 de Abril, tolerante e aberto depois. Teimoso sempre.".


"O velório será realizado na Igreja Matriz da Amadora, a partir das 18:00 de sexta-feira. No sábado, pelas 14h, será realizada uma cerimónia de despedida na Igreja da Amadora, seguindo depois o corpo para o Crematório de Barcarena", divulgou o seu filho, Tiago Rodrigues, diretor do Teatro Nacional D. Maria II.


terça-feira, 8 de outubro de 2019

Adília César_ dois poemas


SE FOSSE INVULGAR A OPRESSÃO
esse espírito de vidro
caminharia descalço e desconcertado.

Lá fora a ternura adormece
e tu sais pela porta dos fundos. Ninguém te segue.
Outros sentidos são matéria molhada
pegadas no meu peito recolhido.

Não chores
não corporizes outras tristezas descampadas
sítios que se partem por dentro dos ossos.

É tão banal a dor, essa bengala quebradiça
essa partida sem dizer adeus.

Fica
e falar-te-ei de amor.


NOS MAPAS DE OUTRORA
os arrepios não faziam sentido
nem dentro da cabeça nem fora do coração
pois todas as flores se extinguiram
e o metal derretido ocupou o espaço vazio.

Cambaleiam caules negros e corolas fundentes
em fila indiana sinuosa. Esforçam-se por cair
nas tuas mãos mornas de esposa nobre e fiel.

Os teus dedos a tamborilar nas alianças das viúvas.
Os teus silêncios eróticos.

Mas é nas mãos da neve que gelas subitamente
e és de novo anónima na persistência do frio.

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Adília César reside em Faro. Exerce actividade profissional como educadora de infância e formadora no âmbito da Didáctica das Expressões Artísticas, sendo Mestre em Teatro e Educação pela Universidade do Algarve. Publicou livros de poesia: O que se ergue do fogo (2016); Lugar-Corpo (2017); e O Tempo O Tempo (2019). Tem colaborações dispersas, nomeadamente: LÓGOS – Biblioteca do Tempo, Eufeme, Piolho, Estupida, Debaixo do Bulcão, Enfermaria 6, Nervo, Nova Águia, Iberis, Gazeta de Poesia Inédita, Pa_lavra, A Bacana, Caliban e Tlön, além de ensaios e artigos de opinião. É co-coordenadora da revista literária LÓGOS – Biblioteca do Tempo.

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Michael Stipe a solo


 Conheça a canção com que Michael Stipe dos R.E.M. se estreia a solo

A primeira investida ‘a sério’ de Stipe depois do fim dos R.E.M.



Michael Stipe lançou este fim de semana o seu primeiro single a solo, desde o fim dos R.E.M., em 2011.
O tema tem como título 'Your Capricious Soul', e foi interpretado pelo músico num concerto surpresa que deu em maio, a abrir para Patti Smith.
'Your Capricious Soul' não se encontra disponível em nenhuma das tradicionais plataformas de streaming, podendo ser escutada e descarregada no website de Michael Stipe, num formato pague-o-que-quiser.
"Quero acrescentar a minha voz a esta entusiasmante mudança de consciência", afirmou, em comunicado. "Acredito que podemos trazer a mudança necessária à melhoria do nosso planeta Terra".
Ouça aqui 'Your Capricious Soul':

Your Capricious Soul - Michael Stipe from JMSPROJ on Vimeo.

Amália_Entrevistada em 1990




Amália
Arquivo Gesco

20 anos sem Amália. “Como poderia eu ser um mito se fui criada em Alcântara? Não posso inventar outra história”

“Não sou, nem de longe, a melhor voz que o fado já teve. Sou, isso sim, a pessoa com mais coisas negativas dentro de si. O fado gosta disso”. Numa entrevista publicada no jornal “A Capital” em 1990, por altura daquele que se tornaria o seu último álbum de originais, Amália Rodrigues confessava-se uma mulher-fado difícil de aturar, predestinada para cantar, mas avessa ao estatuto de mito. “É a minha maneira de ser que me dá cabo da vida, mas é graças à minha maneira de ser que tudo o que rodeia a Amália aconteceu”. Genial, lúcida, desassombrada e cortante, deixou-nos há 20 anos


Não é fácil entrevistá-la. Ao entrar-se em sua casa, subindo uma escada de degraus de pedra gastos pelo tempo, entra-se num mundo de recordações. A sua presença é avassaladora. As suas marcas adivinham-se não só na disposição dos móveis, mas também nos retratos – fotografados, pintados ou esculpidos. Estamos ali por causa do seu novo álbum, “Obsessão”. Os primeiros fados novos desde “Lágrima”, o disco de 1983. Na verdade, “Obsessão” mais não é do que um pretexto para se voltar, mais uma vez, a falar com Amália.
Na sala ampla onde a esperamos, duas meninas, alunas de uma escola secundária, esperam-na também. Ela chega e nós entregamos-lhe as flores. Rosas vermelhas. “Obrigado” é a primeira palavra que nos diz. De seguida pede desculpa, porque vai “atender as meninas”. Alguém nos diz que andam na escola e já há muito tempo que queriam falar com Amália. “Talvez para pedir conselhos”. As meninas dão-nos tempo para observar melhor os domínios da fadista. Azulejos portugueses na parede, flores por todo o lado, um piano ao canto da sala. Em cima do piano, uma fotografia oferecida “por aquele rapaz, o Leonel Moura”, aquele que pôs a palavra “Portugal” na boca de Amália.

“Nunca me senti um mito nem um deus. Só se eu fosse maluca e, por enquanto, ainda estou lúcida”

Quando, finalmente, Amália chega, corta-se a palavra a Vaclav Havel desligando a televisão. “Desculpem, vamos começar”, diz. Amália, como sempre, veste de negro. Não tira os óculos escuros porque o olho direito a incomoda – “treme e chora sem eu querer”. Enquanto o ‘flash’ da máquina fotográfica ilumina a sala semi-obscurecida, ela pede que eu conte uma anedota. Não sou capaz, é claro. “Eu gosto muito de anedotas, dizem até que tenho jeito para as contar. Todos os meus amigos dizem isso”. “Amigos”. Comecemos por aí.
“Quando cá estou, quase nunca saio de casa. As minhas amigas visitam-me muito” – afirma, justificando talvez a razão do desgaste dos degraus, depois prossegue: “Guardo muito os meus amigos. Tenho ainda amigos que conheci há vinte e trinta anos. Quando faço um amigo nunca o perco. Às vezes vêm da América, de França ou da Itália e nunca se esquecem de me visitar”.
Quando perguntamos se ela acarinha muito os amigos, ela ri e responde que é “ao contrário”: “Os meus amigos é que me acarinham a mim. Dão-me mimos. Eu sou esperta. Se tenho sede, digo “vou buscar um copo de água”. Não precisava de dizer isso, bastava-me levantar-me e ir à cozinha. Mas ao dizer aquilo eu sei que são eles que se levantam. Estou mimada, mas não estragada pelos mimos”.
Amália Rodrigues tem uma capacidade quase infinita para contar histórias. Está a falar e, de repente, faz uma pausa e desvia completamente o rumo ao seu discurso. Tem uma memória prodigiosa. Sendo uma figura histórica, Amália é, ao mesmo tempo, um mito vivo. Ela recusa, no entanto, essa condição, evidenciando uma modéstia desarmante. “Estão sempre a dizer coisas bonitas acerca de mim. Eu gosto muito de as ouvir, mas… no outro dia, um jornal de Barcelona chamava-me mito. Eu não sou um mito, sou apenas igual a mim mesma” – reclama Amália, antes de se justificar: “Um mito é um deus. As questões da filosofia e da mitologia interessam-me sempre. Nunca aprofundei na mitologia porque há muitos pais, muitos filhos e muitos primos naquelas histórias. Aprendi, no entanto, que os mitos são deuses. Eu nunca me senti um mito nem um deus. Só se eu fosse maluca e, por enquanto, ainda estou lúcida.
Comparamos Amália a outros ‘mitos’. Ela aproveita imediatamente a enumeração de outros ‘mitos’ para começar a falar. “Maria Callas… também lhe chamaram mito. Ela, para mim, era uma coisa extraordinária, mas nunca me passaria pela cabeça chamar-lhe um mito. Como poderia eu ser um mito se fui criada em Alcântara? Estou farta de dizer isto e ninguém quer acreditar. O que é que eu hei de fazer? Não posso inventar outra história. Os grandes artistas, como o Frank Sinatra, o Fred Astaire ou a Katharine Hepburn foram apenas artistas e eu exijo a essas pessoas coisas que não se podem pedir aos deuses”.

“A minha vida tem sido muito complicada, mas esses comprimidos que se tomam para se deixar de existir exigem muita coragem”

Talvez porque a luz, ainda que fraca, lhe cansa a vista, ou talvez porque assim as imagens de um passado que serve de fio condutor a esta entrevista sejam mais claras, Amália fala sempre com os olhos fechados. Como na capa de “Obsessão”. É exatamente desse álbum que agora começamos a falar. A primeira pergunta é inevitável: porquê tanto tempo sem editar um disco de originais?
“A minha vida tem sido muito complicada”. Amália prepara o terreno para falar de questões que lhe são difíceis: “estive doente há onze anos. Saí do hospital e fiz ‘Lágrima’, depois tive outra época em que estive mal. Eu julgava que estava muito mais doente do que o que realmente estava e isso ainda me deixava pior. Nessa época até pensei… em tomar uns comprimidos. Mas era muito difícil. Esses comprimidos que se tomam para se deixar de existir exigem muita coragem”.
O assunto é deveras delicado e Amália fala muito pausadamente. Com alguma dificuldade, vai recordando os factos que a mantiveram afastada dos estúdios durante tanto tempo. “Mais tarde passei por uma verdadeira ressurreição. Mas calaram-me na rádio, disseram que eu tinha fugido e, uma vez, num teatro em Itália, havia pessoas à porta que diziam ‘Amália fascista’. Tudo isso me manteve muito tempo longe dos discos”, explica a fadista. De repente, começa a tossir. Pede desculpa, diz que se engasgou e chama a empregada para lhe pedir um copo de água que é prontamente servido numa salva de prata. O incidente abre uma porta no passado que Amália aproveita para contar uma história que teve lugar em 1947. “Eu ainda estava no teatro. Quando estava a finalizar o meu número, algo que me entrou para a garganta, comecei a tossir tanto que fui obrigada a abandonar o palco lavada em lágrimas. As pessoas estavam a aplaudir e eu ainda consegui regressar ao palco. Fico preocupada quando começo a tossir assim”, comenta antes de retomarmos o fio à meada.



Capa de "Obsessão", álbum de originais de Amália Rodrigues lançado em 1990
Capa de "Obsessão", álbum de originais de Amália Rodrigues lançado em 1990

Sabendo já qual vai ser a resposta, pedimos a Amália que nos diga se está satisfeita com “Obsessão”. “Estou e não estou. Gosto de três ou quatro coisas. Há umas cantigas de roda que eu cantava na escola, ‘Chora Mariquinhas Chora’ e ‘Ó Ai Ó Linda’, que eu alterei para dizer às pessoas que o fado até se encontra nessas cantigas de roda. Gosto também do ‘Que Fazes Aí Lisboa’, do ‘Obsessão’ e ‘Flor de Verde Pinho’ está bem cantado. As outras…”. Interrompemos para saber a sua opinião sobre ‘Rondel do Alentejo’, sobre poema de Almada Negreiros. “Também é muito bonito. Mas não só. O fado ‘Prece’ é bonito, a ‘Entrega’ também. Só que estes dois não estão tão bem cantados porque me apanharam num dia em que estava doente. O disco, no geral, não está mal cantado, mas nota-se que às vezes falta garra”, afirma, num esforço notório de autocrítica. Amália raramente fica contente com o que grava, dizem-nos os seus mais próximos colaboradores, mas isso não a impede que grave sempre ao primeiro ‘take’. Há aqui um pequeno paradoxo.
“Eu não posso estar a mastigar um fado. Ou sai ou não sai, porque eu não posso cantar duas vezes igual. Em estúdio, quando canto mais do que três vezes uma coisa já não fico satisfeita. Além disso, tenho que me sentir disposta a gravar”, refere, para logo a seguir contar outra história: “Há muitos anos, fui a Londres. Como se sabe, os ingleses são muito rigorosos em horários. Pois eu cheguei ao estúdio, no primeiro dia, e não me apeteceu gravar. Eles ficaram doidos, nunca lhes tinha aparecido uma pessoa como eu. Não me trataram mal, mas vontade não lhes faltou”.
Amália confessa que há fados no disco que não ficaram como ela desejava, mas também acrescenta que ao vivo é capaz de os interpretar de tal maneira que levanta o público das cadeiras. “O disco – sublinha – tem uma carga minha suficiente, não tem 21 valores. Algumas interpretações têm 17, outras 18 e outras ainda só 12 ou 13. Destas eu não gosto”. Provando se realista, não se coíbe de fazer uma autocrítica, mas também reconhece que nunca cantou tão mal ao ponto que as pessoas dissessem “hoje não me apetece ouvir a Amália”.

“Agora façam favor de dizer ao Frank Sinatra que eu cantei e tive aqui muito êxito”




Capa do jornal "A Capital", de 19 de novembro de 1990
Capa do jornal "A Capital", de 19 de novembro de 1990

Pelas palavras que nos dispensa, quase podemos dizer que a obsessão de Amália é a perfeição, mas antes de nos esclarecer sobre este ponto, a fadista faz uma pausa significativa. “Acho que é a minha maneira de ser. Essa é a minha maior obsessão. Por um lado, é a minha maneira de ser que me dá cabo da vida e, por outro, é graças à minha maneira de ser que tudo o que rodeia a Amália aconteceu”.
Em “Obsessão” nota-se que há uma nova Amália. A voz suporta diferenças que não podem ser justificadas só pela idade. Amália diz simplesmente que está “mais triste”. E qual a razão de tanta tristeza? “Eu já era triste quando era mais nova. A tristeza dentro de nós nunca desaparece; cresce. A experiências da minha vida desencantaram-me. Sou muito exigente comigo mesmo, tão exigente que tenho dificuldade em encontrar pessoas que me aturem. Isto dá-me a certeza absoluta de que nasci predestinada para cantar o fado, sou um instrumento do fado”, afirma com a maior das certezas espelhada na voz, para depois continuar: “não quero com isto dizer que sou a melhor pessoa para cantar o fado. Eu não sou, nem de longe, a melhor voz que o fado já teve. Sou, isso sim, a pessoa com mais coisas negativas dentro de si. O fado gosta disso, exige essa condição. O fado quer que uma pessoa seja desgraçada, não no sentido de desgraçadinha, quer que uma pessoa seja triste como a noite e é esse o meu caso. Só não sou triste quando não estou sozinha. De resto, sou muito triste”.
Amália reclama para si o fado de viver guiada pelo instinto e de todas as decisões que toma serem totalmente espontâneas. Diz que isso se reflete na maneira como canta, na maneira como a sua carreira é gerida. “Eu nunca penso nas coisas. Faço-as e pronto. Às vezes, na rádio, querem-me dizer quais são as perguntas para eu pensar antes de entrar no ar e responder. Eu recuso. Não consigo pensar nessas coisas. Sou completamente espontânea a cantar e tudo. Sabe como é que eu terminei o meu espetáculo de Nova Iorque? Voltei ao palco depois dos encores e disse ‘agora fazem favor de dizer ao Frank Sinatra que eu cantei e tive aqui muito êxito’. Foi uma brincadeira que eu fiz sem pensar se devia fazê-la ou não”.
A deixa é boa e nós não hesitamos. Conheceu Frank Sinatra? Responde que sim e conta a história. “Estive na América há 40 anos, quando o Frank Sinatra tinha aquelas meninas que desmaiavam. A mim disseram-me que aquilo era tudo a fingir, que elas eram pagas para desmaiar nos espetáculos. E eu achei tão ridículo que embirrei com ele e não lhe dei confiança nenhuma. Eu andava no grupo do Eddie Fischer, Perry Como, Sammy Davis Jr., Nat King Cole e do Sinatra também. E como eu não tinha gostado nada do que me tinha contado, nunca lhe liguei. Acho que ninguém é capaz de fazer as pessoas desmaiar e depois continuar a fazê-las desmaiar ao longo de tantos anos. Mas tenho pena de ter embirrado com ele porque gostava de me ter mantido em contacto com ele, até para lhe mandar discos e saber a sua opinião acerca da minha voz”.



Amália entrevistada pelo jornalista Rui Miguel Abreu em novembro de 1990
Amália entrevistada pelo jornalista Rui Miguel Abreu em novembro de 1990
António José/Arquivo A Capital

“Tenho olhos de fado”

Em “Obsessão” Amália canta grandes poetas – Luís de Camões, Almada, Afonso Lopes Vieira, Pedro Homem de Mello, Francisco Bogalho… O que leva Amália a cantar estes poetas? “O Luís de Camões, por exemplo… isto é como as nêsperas: nós começamos sempre pelas maduras e acabamos por comer também as verdes. Bem, Camões não tem nêsperas verdes, são todas maduras. Eu cantei sempre Camões, acho que ele é um ‘poeta-fadista’”, sublinha Amália, citando depois o soneto ‘Com Que Voz Cantarei Este Meu Triste Fado”. “Isto é fado”, exulta a fadista, que revela ainda um plano secreto e pessoal de gravar um disco só com Camões, “para deixar, como homenagem”.
“Porque cantar é diferente de ler”, Amália, por vezes, altera poemas que lhe são entregues. “Geralmente, os poetas não se importam, porque eu discuto as alterações com eles. Costuma ser só uma palavra ou ou outra, mas é uma questão delicada para quem escreve. Nunca tive problemas, já alterei coisas do David Mourão Ferreira, por exemplo, e ele compreendeu. Mas, em ‘Obsessão’ houve um poema em que eu alterei uma palavra e o autor não gostou. Ele escreveu a dizer que estava contente por eu o ter escolhido, mas mostrou-se aborrecido pela mudança. Evidentemente, não vou dizer quem foi”, explica a fadista.
Com o Almada, de quem canta ‘Rondel do Alentejo’, o caso é diferente. Sem problemas, Amália confessa que “nem sequer sabia que ele era poeta”. “Eu conhecia-o só como pintor. Como não fui educada culturalmente, não sabia que ele também fazia poesia. Só mais tarde é que o Alain [Oulman] me apresentou à poesia em geral e ao Almada”. Amália é assim: não se importa de confessar uma certa ignorância, uma falta de cultura apenas aparente. Mas a cultura não se aprende só nos bancos da escola.
Depois de dar a sua visão pessoalíssima do fado – em sua opinião relacionada com o isolamento de Portugal, que “de um lado tinha as espadas dos espanhóis e do outro o mar” – e de nos falar do seu imenso amor pelas flores, Amália confessa o seu medo de algum dia deixar mal Portugal ao não ser capaz de cantar num palco estrangeiro.
Os seus projetos futuros são a homenagem a Camões e a gravação de um disco com poemas de Cecília Meireles musicados por Alain Oulman. Não se alonga no assunto porque lhe é difícil falar sobre esse amigo que morreu recentemente. Será a sua derradeira homenagem a um homem que lhe desbravou novos caminhos no fado.
Já depois de o botão ‘stop’ do gravador ter sido premido, Amália mostra-nos os quadros e fotografias que tem na sala para que possamos entender o que ela quer dizer quando fala em melancolia e tristeza. Um dos quadros da sala retrata-a aos 24 anos. “Como vê, aqueles olhos são os da cara, mas o olhar, esse, é o da alma. Tenho olhos de fado”.
Despedimo-nos. Obrigado. E, descendo as escadas de pedra que levam à rua, pensamos na sua última frase: “Tenho olhos de fado”. Para falar a verdade, achamos que Amália é a personificação do fado. Mas isso é outra história.
Publicado originalmente na edição de 19 de novembro de 1990 do jornal "A Capital"

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Dead Combo_



Dead Combo
on Tuesday
A quem possa interessar,
Poderíamos começar esta carta com um passeio pela nossa história, nesse longínquo 2003 quando o acaso decidiu juntar dois corpos escanzelados que mal se conheciam e vibravam por músicas distantes.
Mas sobre isso, já se escreveu e romantizou o suficiente…
Poderíamos, sem rodeios, começar pelo final, cru, directos ao assunto e sem nenhuma morna pelo caminho…
Ou então, poderíamos começar pela razão que nos leva a escrever esta carta, que é abrir-vos o jogo. Sim, é por aqui que iremos começar.
A razão destas palavras é simples: são vocês.
Vocês, as pessoas que acreditaram e apoiaram este duo que já dura há 16 anos.
Vocês, que permitiram à nossa sensibilidade entrar nas vossas casas.
Achámos que por este voto de confiança, devíamos ser honestos e dar-vos a escolher entre estar presentes ou ausentes neste próximos tempos da nossa banda.
Para nós, 2020 não será um ano qualquer.
Se o nosso encontro (Tó/Pedro) foi uma descoberta, uma grande amizade, um diálogo musical, um universo que se foi adensando e clarificando; se todos estes anos foram uma grande festa nas nossas vidas, não poderia ser de outra forma o nosso final. Decidimos acabar, mas acabar em grande.
Não é um final triste, há muita coisa para ser celebrada.
De uma forma concreta, acabamos como começámos: os dois.
Voltamos aos palcos com uma tour, num passeio pela nossa história.
Começará no final de 2019 e acabará em 2020.
Muita vida a todos,
Tó Trips e Pedro Gonçalves

"Em abril de 2018, em entrevista ao Observador, o “gangster” e o “cangalheiro”, como as figuras passam à história, falavam sobre o mais recente álbum, “Odeon Hotel”, novo caldeirão onde cabem os ingredientes que marcaram o trajeto da banda, do fado, ao jazz, do rock aos blues, sem esquecer os ritmos sul-americanos que agitam uma cidade em mudança acelerada. “Isto já é uma cidade virada só para pessoas cheias de dinheiro e estrangeiros. E isso não é uma cidade, é um resort turístico”, desabafavam então sobre Lisboa, ao sétimo disco, que contou com convidados como Mark Lanegan, e que prometia apontar caminho para a internacionalização da dupla. “Uma das condições de termos agora, ao final de 15 anos, um contrato com a Sony [uma editora major, uma das maiores da indústria musical] foi a promessa de editarmos lá fora dentro de uma estrutura sólida”, referia então Gonçalves. O disco foi editado digitalmente em todo o mundo e fisicamente em “muitos” países.
Em jeito de revisão da matéria, não esqueciam alguns dos momentos mais complicados, admitindo mesmo nessa entrevista ao Observador como um ano antes “chegou uma altura em que estivemos mesmo para dizer: ‘bora’ lá acabar com isto. Se é para ser assim…” — “Normalmente esses momentos não têm nada a ver com música, têm a ver com sermos só dois e chegarmos a uma determinada altura em que um de nós, ou os dois, está assim mais avariado da cabeça e desatinamos e pronto… chateamo-nos — e assinalavam encontros para a posteridade como a participação, em 2013, no programa “No Reservations”, nessa visita do chef Anthony Bourdain pela capital portuguesa.

Um western à beira Tejo

A guitarra de Tó Trips e o contrabaixo de Pedro V. Gonçalves, e ainda com melódica e kazoo pelo meio, e o que mais possa caber neste convite para a dança. Foi em 2001 que se conheceram e puseram em marcha um dos mais vibrantes projetos musicais da música contemporânea portuguesa — Tó Pediu boleia a Pedro, Pedro não tinha carro, e a pé seguiram para o Bairro Alto, a casa de partida destes Dead Combo, que então planeavam gravar um álbum de tributo ao guitarrista Carlos Paredes. Um par de anos depois, a banda de dois homens sós lança-se em definitivo, com 2004 a trazer o álbum de estreia, Vol.1, ensaio de estreia que convenceu a crítica, baralhou os rótulos e pôs Lisboa a ferver à beira rio.
Vol. 2 – Quando A Alma Não É Pequena (2006), Guitars From Nothing (2007), Lusitânia Playboys (2008), Lisboa Mulata (2011) e A Bunch of Meninos (2014) foram os capítulos que se seguiram antes deste Odeon Hotel, com alusão ao célebre hotel alfacinha.
“Sul”, a série policial que acaba de se estrear na RTP1 tem cereja em cima do bolo: banda sonora a cargo de Dead Combo para, mais uma vez, mostrar Lisboa como nunca a vimos. A 26 de outubro, atuam no Centro de Artes e Espetáculos da Figueira da Foz, o próximo concerto na agenda, e o começo desta despedida em palco da dupla." in: "Observador"