quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Sara Correia _ Nova Voz no Fado_Entrevista

Ana Bela Ferreira 20 Fevereiro 2019 — 06:16, in: jornal "Diário de Noticias"






E que canção sonhavas cantar e agora já podes e que canção ainda sonhas um dia ter maturidade para poder cantar?

Não tem que ver com o facto de não conseguir cantar, tem que ver com a experiência de vida. Acho que ainda não é o momento. Por exemplo, fui convidada para fazer uma série francesa em que tinha que cantar O Grito, da dona Amália. Estamos a falar de um fado que fala "vem morte que tanto tardas" e eu tinha 17 anos. Fiz, com todo o gosto, e foi incrível a experiência, mas jamais cantaria isto num concerto meu. Não vivi isso e não estou à espera de que a morte venha já. Acho que quando cantamos alguma coisa tem de ter uma história nossa e tem de fazer parte de nós para o podermos cantar. E há letras como O Grito que têm o seu tempo, quando tiver uns 50, 60 anos quem sabe. Não falo de idade, falo de experiência de vida e do que se viveu para se poder cantar. Daí estar a falar há pouco que quando somos mais novas temos de ter esse cuidado. Lembro-me de querer cantar a Maria Madalena que é o Fado das Horas - "quem por amor se perdeu" [diz em voz cantada] - e há um senhor, que entretanto já não está connosco, que era o Manuel Coelho, que tocava, que me dizia "nem penses, não vais cantar isto com 10 anos". E eu dizia "mas eu estou a contar uma história, que é a história de alguém, não é minha" e ele dizia "não interessa, não tens idade para cantar isto". Tudo tem o seu tempo. Sempre fui muito acarinhada nesse sentido e tenho uma forma de estar assim um bocadinho diferente para os meus 25 anos pelo facto de crescido mais depressa, porque sempre me dei com pessoas mais velhas. Hoje está muita gente jovem à procura dos fados, lembro-me de começar a cantar e haver pessoas a dizer "o quê, cantas fado, mas isso não é para velhos?". Hoje vê-se que não é assim. Há outra forma de se cantar o fado, eu apaixonei-me por aquele antigo. Isto tudo para dizer que neste disco [o seu disco de estreia Sara Correia] gravei coisas que sempre quis gravar. Alguns temas como Zé Maria, da dona Lucília do Carmo, que foi gravado em 1962. E depois há temas que um dia mais tarde, quando achar que estou preparada para isso e que vivi o suficiente, vou gravar.


Quando cantamos alguma coisa tem de ter uma história nossa e tem de fazer parte de nós para o podermos cantar.


O fado é isso. Não ter só originais, mas ir buscar a história?

Sim. Há imensos fadistas, músicos, poetas que as pessoas não têm a noção, que nos deixaram coisas lindíssimas, incríveis. Faço esta pesquisa indo buscar vinis, tudo o que é antigo, coisas que ninguém tem noção de que existem. Os primeiros discos da dona Beatriz da Conceição, da dona Deolinda Maria. Há muita coisa que as pessoas não têm a noção, que está gravado e que não foi tão badalado e conhecido, como A Gaivota e muitos fados conhecidos. Desde que comecei a cantar até ao fim dos meus dias, vou fazer sempre essa pesquisa e tentar ir buscar sempre coisas que estão lá atrás e são sempre lindas de morrer, mas que a maior parte nunca ouviu e é incrível ir buscar a história e continuar a história.


Quando decidiste que ias ser fadista a tempo inteiro?

Era muito rebelde e lembro-me de que quando comecei a cantar ainda estudava e a minha mãe muitas vezes queria molhar a sopa porque eu chegava a casa muito tarde dos fados. Imagina, começava-se às sete da noite a acabava-se às cinco, seis da manhã. Era fados a noite inteira. Houve uma altura que a minha mãe já não estava a achar muita piada, só que eu estava mesmo fascinada, queria era estar ali com os mais velhos e aprender. Até que houve ali uma altura que andei balançada com o que queria fazer. Mas a escola é muito importante até mesmo para se cantar e ter-se noção daquilo que se está a ler, é bom que a gente tenha escola. Mas o fado - não digo que a culpa seja dele, mas comecei mesmo a trabalhar a tempo inteiro e então isso também não me ajudava muito na escola, porque quase não dormia e, portanto, ia para a escola a dormir. Até que comecei a crescer um bocadinho e quando ganhei a Grande Noite do Fado com 13 anos disse, "quero isto para a minha vida e para querer isto tenho de estudar e tenho de continuar a escola e tenho de conseguir fazer as duas coisas ao mesmo tempo". Eram outros tempos, não sei explicar. Venho de um fado que é o antigo. Não havia o sonho de "ah eu quero ser isto", não havia. Canto porque gosto de cantar. Canto porque gosto de música. Não canto para ser conhecida. A única coisa que quero deixar para as pessoas é música, a voz e o fado. Não tenho mais nada para oferecer. Não houve esse sonho de ser uma pessoa conhecida, queria ser era uma fadista como as antigas.


Era fados a noite inteira. Houve uma altura que a minha mãe já não estava a achar muita piada, só que eu estava mesmo fascinada, queria era estar ali com os mais velhos e aprender.


Achas que as novas vozes do fado querem mais do que apenas cantar?

Não. É um complemento. E ainda bem que existe, porque o fado está a chegar a pontos que muito dificilmente chegaria se não fosse uma Ana Moura, uma Mariza, uma dona Amália. Precisamos de todos os artistas e estamos a falar de pessoas que começaram em casa de fado também. A Ana Moura e a Mariza começaram no Senhor Vinho e ainda bem que há esta roupagem nova porque também me sinto dessa roupagem. Tenho 25 anos e havia sempre um medo de "não vamos fazer isto porque isto foi criado assim". Tem de haver respeito pela música que já está feita, claro que sim, mas também acho que tem de haver uma lufada de ar fresco, outra forma de se ouvir o fado, outra forma de se cantar, outras letras, até mesmo para chamar esta geração nova que está a aparecer agora.


Mas para ti há uma diferença. Falas na dona Amália e na Mariza...

Não é haver uma diferença. Não gosto de fazer comparações, odeio quando fazem comigo, quanto mais com os outros.


Mas quando te referes às fadistas mais antigas fazes questão de dizer dona.

Sim, mas as fadistas mais antigas são antigas para mim e para a Mariza e para a Ana [Moura]. São onde fomos todas beber o que é o verdadeiro fado. Digo-te uma coisa, gosto muito de ouvir homens a cantar, há quem só goste de ouvir mulheres. Gosto de timbres fortes. É inacreditável aquilo que se fazia antigamente, não há uma fadista que seja igual ou que faça uma imitação, são todas exemplos de serem genuínas - é o caso da Ana, da Mariza, da Carminho, da Raquel Tavares. São todas diferentes e todas estão a fazer aquilo que as antigas fizeram que é deixar uma marca diferente. É necessário haver aqui outra abordagem, respeitando sempre o fado tradicional. Costumo dizer que não estamos aqui a inventar nada, já foi inventado por estas fadistas todas, elas já cantavam o folclore, em francês, em espanhol. Portanto, estamos a dar continuidade àquilo que nos deixaram que é tão bonito e este património tão bonito. O meu grande objetivo é chegar à minha geração para que ouçam fado como ouvem outro tipo de música. Gostava muito.


Estamos a dar continuidade àquilo que nos deixaram que é tão bonito e este património tão bonito.


Identificas-te como a voz do fado tradicional na nova geração?

O fado tradicional é a minha base, é aquilo para que eu nasci. Isso eu sinto. Imagina, estou a cantar outro tipo de música, por exemplo Frank Sinatra, e vai puxar o timbre de fado quer eu queira quer não, porque o fado está em mim. E fica quase parecido porque o jazz também é uma música do povo. O fado é uma música do povo e não digo que seja só português, é português, mas é do mundo. Temos é de fazer exatamente o que estas fadistas de agora estão a fazer que é o trabalho de mostrar que é possível fazer música boa, sendo fado na mesma. E esse é o mais difícil: fazer bem e correto.


O fado é a verdadeira expressão da língua portuguesa?

Claro que sim. O fado é a nossa música, o fado nasce numa altura - daí ser como as pessoas dizem uma música muito triste -, em que os marinheiros partiam e as mulheres ficavam aqui a chorar pelo marido que não voltava - como o fado português que gravei no meu disco conta isso, "o fado nasceu um dia/ quando o vento mal bulia/ e o céu o mar prolongava/ na amurada de um veleiro/ no peito de um marinheiro/ que, estando triste, cantava". O fado é do povo triste e é muito difícil explicar de onde é que ele vem. É uma coisa que se sente, não se explica, não dá para descrever, é emoção. Se estiver triste e for cantar nesse dia, é outra história, sai com outro peso na palavra.











Gostas mais desse peso?

Gosto. Tenho essa forma de estar e de viver que é o fado. Sou um bocado dramática. Ou estou muito feliz ou muito triste. E é exatamente como o fado é: ou 8 ou 80.


Como está a correr o primeiro disco?

Tive três anos para preparar este disco com o Diogo Clemente. Foi uma longa viagem de trabalho, pesquisa e a cantar. Com concertos no meio e a pensar que queria fazer este disco e que estava preparada para o fazer e que sentia que estava com a maturidade certa para o fazer. Encaro este disco como uma marca no mundo, um disco em que me revejo, daí se chamar Sara Correia. As letras todas que canto são tudo quase autobiografias da minha vida, de amores que tive, ou desamores, então não quis dar outro tema ao disco que não fosse Sara Correia. Estou muito contente, sinto que há muita gente da minha idade que me procura e quer saber desde quando canto. As pessoas acham que comecei a cantar agora. E sinto que há aqui uma boa abordagem, em relação àquilo que queria que é chamar mais esta geração de adolescentes para cá e que fossem um bocadinho mais preocupados com aquilo que é nosso. E forçar um bocadinho mais essa praia.


Como é que te vês: mais dos concertos ou das casas de fado?

Vou ver-me eternamente como a fadista. Adoro cantar em casas de fado, é onde o fado acontece, várias vezes. Só que vejo-me em cima de um palco, não tenho medo de holofote nenhum. O que costumo dizer é que é o único sítio onde me sinto inteiramente feliz e fadista. Porque é o único sítio onde posso estar com a minha equipa, as pessoas que quis para estarem comigo: o Diogo Clemente, o Ângelo Freire, o Marino de Freitas, o Vicky Marques, são pessoas que tenho em grande estima, grandes músicos. Tive o grande privilégio de eles aceitarem fazer o disco comigo e estar com eles em palco. Fazer aquilo de que mais gosto e mostrar ao mundo é das coisas mais gratificantes que podemos fazer na vida. Sou muito abençoada, mesmo. Faço aquilo de que gosto, portanto só posso ser feliz.


Há o risco de te afastares das casas de fado?

Sempre que tiver oportunidade vou às casas de fado. Estou quatro vezes por mês numa casa de fado que é o Fado em Si, em Alfama. Estou a trabalhar naquela casa há nove anos, então não faz sentido, só porque faço palco, deixar as minhas raízes, nem quero mesmo, porque faz-me muita falta a casa de fado.


É aí que vais buscar inspiração?

Ora aí está, até mesmo com outros colegas. Vou buscar inspiração, a energia de que preciso quando estou mais em baixo.


Para um fadista, que ambiente é esse das casas de fado?

É mágico, porque no palco temos uma coisa que já está programada, já está escrito o que vamos cantar. Na casa de fado temos a magia de dizer "não canto o Fado Bagdadhá dez anos, toca-me o Fado Bagdad em si". São coisas que podemos ir buscar ao baú, é um sítio mais intimista. É mais difícil cantar numa casa de fado do que num palco, porque as pessoas estão mais ali, connosco.


Pedem-vos músicas também...

Claro...


Mas se não vos apetece cantar essa música, como é que se contorna?

Às vezes as pessoas pedem o Foi Deus da dona Amália e eu digo "por acaso não faz parte do meu reportório" e não faz, mas proponho cantar outro fado da dona Amália. Tento sempre ir por este caminho, porque não é que não saiba as letras, mas não me identifico ou não faz parte do meu reportório. Mas normalmente aquilo que as pessoas pedem são as mais conhecidas. Nós já sabemos o que as pessoas vão pedir, é o Nem às Paredes Confesso, Amália, Rua do Capelão, as pessoas gostam é destes fados, os tais ícones do fado que ficaram sempre e que as pessoas conhecem. Às vezes ouvem-nos a cantar outros temas e ficam "uau" e as pessoas não sabem que também são músicas por exemplo da dona Amália Rodrigues. Acho que a casa de fado é o sítio onde nós verdadeiramente somos nós.











E quem são as tuas referências?

A dona Amália Rodrigues - digo dona Amália porque é um respeito muito grande e vou sempre falar destas senhoras desta forma -, mas tenho muitas referências. Gosto muito de ouvir homens fadistas. Desde Ricardo Ribeiro, que para mim é incrível, mas incrível, e depois dos antigos gosto muito de Fernando Maurício, Fernando Farinha, Carlos Zel, António Calvário, António Rocha, sei lá, tanta gente. Mulheres: Fernanda Maria, Deolinda Maria - nunca mais saio daqui -, Beatriz da Conceição, muita gente. Às vezes dou por mim a ter de ir ver quem é aquela fadista que está na minha playlist, porque são tantas de quem ninguém ouviu falar e que são referências minhas. O fadista tem isto que é podermos beber de muitos sítios, porque havia muita boa música antiga.


Teres começado tão nova também te permitiu trabalhares com algumas das tuas referências?

Sim, trabalhei com a dona Maria da Nazaré, a dona Celeste Rodrigues - de quem tenho muitas saudades e vou ter eternamente -, a dona Cidália Moreira, do Jorge Fernando, trabalhei com eles oito anos numa casa de fado e foi uma grande escola para mim. Foi o sítio onde me sentia todos os dias com aquela responsabilidade de "uau, o que estou aqui a fazer no meio de tanta fera" e o principal era saber ouvir. Eu saía da mesa onde estava para ir lá para dentro ouvi-los cantar todas as noites e isso é o mais importante: saber ouvir e beber o fado.


Saía da mesa onde estava para ir lá para dentro ouvi-los cantar todas as noites e isso é o mais importante: saber ouvir e beber o fado.


O que foi que eles te ensinaram?

Aquilo que se ensina como te disse não é a cantar - ou se tem ou não se tem, ponto - mas lembro-me de levar muito na cabeça porque tinha de saber dividir os poemas. É mais importante teres o peso da palavra e conseguires transmitir a letra do que o cantar. Gosto mais de ouvir pessoas que tenham o poder da palavra do que aquelas que cantam e isso para mim na altura era muito difícil porque eu não tinha aquela história toda para contar, aquela vivência toda, nem tantos anos de fados como estas pessoas com quem cantei. É ter uma letra à frente e estares com um artista destes e dizer "eu gostava de cantar esta letra neste fado" e essa fadista dizer-te assim: "Ok, há que ter aqui o cuidado da dicção, de fazer vírgulas nos temas, de passar uma história a alguém." O principal da música é exatamente isto. É conseguir estar a cantar para ti e transmitir-te a letra do início ao fim e tu ouvires do início ao fim sem piscares o olho. É isso que te prende.


Uma boa voz só distrai, é isso?

Pode ter-se isso tudo, mas o principal é passar a mensagem. É passar a história do que estás a cantar, isso sim. Daí estes artistas serem todos tão genuínos, porque todos eram diferentes e todos com um respeito e com uma sabedoria a cantar que dificilmente se vai ter hoje nos fados.


Vês-te a passar estes ensinamentos a novos fadistas nas casas de fado?

As coisas estão diferentes. O fado nunca vai mudar, o fado é o fado, por mais que exista nova roupagem. É difícil transmitir coisas a alguém que não viveu. Tem de se viver para se sentir, e o que tenho pena é que a maior parte dos fadistas de quem eu bebi já não estejam entre nós, essas são as histórias que a nova geração devia ter presentes.


Quero levar o fado ao mundo. Cantar em vários palcos e deixar sempre ali a plantinha que é o fado.


Sentes que os novos fadistas estão mais a começar pelos palcos do que pelas casas de fado?

É normal. Daí dizer que tem de haver este cuidado daquilo que se passa para as pessoas do que é o fado. É muito complicado estar a falar disto porque não se vai ver mais aquele fado, a não ser quando esta geração de agora envelhecer e ficar pelas casas de fado, quem sabe dê esta palavra aos outros e consiga passar o que se viveu lá atrás. Costumo dizer que um dos meus maiores sonhos era ter uma máquina do tempo para ir lá atrás beber o que se passava nas casas de fado. Gostava muito de ter ouvido ao vivo a dona Amália - quem é que não gostava - e não tive essa oportunidade. É muito importante quem queira fazer disto vida que se interesse por ir às casas de fado e que se preocupe em ir aos fados mais vezes. Eu vou aos fados todos os dias desde sempre. Essa é a escola: ir aos fados e ouvir toda a gente e beber de toda a gente um pouco.


Como vês a tua carreira daqui a dez anos?

Não faço planos. Vejo-me a fazer mais discos, quero gravar mais vezes, mostrar algumas coisas minhas que ainda não tive oportunidade de mostrar. Quero viver mais, porque tenho 25 anos, tenho muito para viver, muita coisa ainda para sentir e daqui a dez anos espero continuar a cantar para o grande público. Levar o fado ao mundo. Cantar em vários palcos e deixar sempre ali a plantinha que é o fado. Só me vejo a cantar o fado. Não quer dizer que não cante outras coisas. Às vezes ponho no Instagram outras coisas como o Rodrigo Amarante com a música do Narcos. Ouvi aquilo e fiz uma versão. Vou fazendo versões de música de que gosto.









terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Dulce Maria Cardoso_sobre "Eliete"





Palavra de Autor 16# Dulce Maria Cardoso: “Não é por acaso que escrevo sobre a menstruação”


13.02.2019 às 10h31


Demorou sete anos a voltar. Mas fê-lo em grande. “Eliete”, o último romance de Dulce Maria Cardoso, tornou-se rapidamente um sucesso, tal como o anterior. O “retorno” da escritora acontece com a história de uma mulher, que vive uma vida normal, urbana, nas franjas do Tinder, e das experiências eróticas que a aplicação lhe proporciona. E que começa menina, com vergonha do corpo feminino e dos seus ciclos. O livro é o primeiro de uma possível trilogia (ou de um romance em contínuo), ancorada na realidade portuguesa, no passado e no presente, nos maus poemas de Salazar, a que a escritora rouba frases e títulos. Neste Palavra de Autor, Dulce Maria Cardoso lê passagens de “Eliete” e fala com Cristina Margato, também sobre o que pode ser o segundo volume, a publicar na Tinta da China, ainda em 2019



CRISTINA MARGATO


Eliete cresceu na ressaca de quarenta e oito anos de ditadura e descobriu-se livre e inteira na era do Tinder, do WhatsApp, do Facebook, e do Instagram. Personagem quase exclusiva do último romance de Dulce Maria Cardoso, Eliete é uma mulher solitária, que dá corpo à solidão de muitas mulheres acompanhadas. Uma mulher que cresceu dominada pelo medo do seu próprio corpo, que casou com o primeiro homem que julgou gostar, e que no meio do golo do Éder no Europeu se descobriu profundamente isolada, sozinha.

Eliete é também uma marioneta que acompanha as ondas de especulação imobiliária, que ora atiram os remediados para a margem da cidade, ora os alimentam, porque lhes dão trabalho, e heroína de uma narrativa colada à “linha”, aos arrabaldes de Cascais, aos hotéis de encontros no IC19, aos bairros de construção económica onde foram viver os retornados, ao Shopping, aos cadernos da Hello Kitty, ao ZX Spectrum, às fotonovelas e à memória dos romances de Konsalik que a mãe comprava ao homem do Círculo de Leitores.

Neste episódio do Palavra de Autor, Dulce Maria Cardoso lê partes deste romance que recebe como título o nome da sua personagem central. Partilha alguns dos seus obsessivos métodos de escrita e algumas das suas preocupações feministas. Explica ainda como andou a roubar maus poemas a Salazar.



Dulce Maria Cardoso nasceu em Trás-os-Montes, em 1964. Cresceu em Angola e regressou a Portugal na adolescência. Licenciou-se em Direito. Publicou o primeiro livro em 2001, “Campo de Sangue”, Prémio Acontece. Seguiu-se “Os Meus Sentimentos”, em 2005, prémio da União Europeia para a Literatura. “O Chão dos Pardais”, em 2009, Prémio Pen Clube.

Publicou dois livros de contos, e dois livros infanto-juvenis. Em 2011, publicou “O Retorno”, o último sucesso antes de “Elite”, publicado no final de 2018.

Recebeu as Insígnias de Cavaleira da Ordem das Artes e das Letras de França.


Nicholas Oulman_entrevista


"Estamos a ficar cada vez mais estúpidos. Somos facilmente enganados por um discurso populista"


ENTREVISTAS VISÃO

17.02.2019 às 20h00


José Carlos Carvalho

"Pensava que o ser humano aprendia com os erros, que evoluía e se tornava mais sábio, mas é o oposto", diz o realizador de cinema Nicholas Oulman, em entrevista à VISÃO



MIGUEL CARVALHO


Debaixo do Céu é o regresso do realizador Nicholas Oulman, 51 anos, à longa-metragem documental, depois do êxito de Com que Voz (2009), filme biográfico sobre o pai, o compositor Alain Oulman, e a cumplicidade poética e artística com Amália Rodrigues, que acabaria por revolucionar o fado e elevar o reportório da cantora a patamares líricos e musicais nunca antes alcançados.

Desta vez, Nicholas Oulman “viaja” ao universo dos refugiados judeus que encontraram, em Portugal, um lugar para refazerem as suas vidas, depois da fuga dramática à perseguição nazi. Este, porém, não é mais um filme sobre o Holocausto. Inspirado nas histórias ouvidas à família, nos relatos da comunidade judaica e em diversas narrativas sobre o tema, o realizador nascido em Londres mas criado entre Paris e Lisboa, onde vive, ensaia uma corajosa e arriscada ponte entre o passado e a atualidade.

A ideia é desassossegar as nossas vidas confortáveis, o pensamento preguiçoso, a anestesia diária e desafiar-nos a tomar em mãos, em nome da harmonia coletiva, o nosso “destino pequeno”, citando a expressão usada no filme por um dos sobreviventes.

Oulman insta o espectador a tornar-se, ele próprio, uma espécie de protagonista, abanando-o e sacudindo-o ao ponto de convocar a sua imersão na narrativa da longa jornada de escape ao abominável, à boleia de dolorosas recordações, de trágicos percursos, de imaginários infantis e de territórios de redenção. Neste filme, não há fornos crematórios, campos de concentração ou de extermínio – nem sequer exibição da violência gratuita e coletiva que a História registou. O que mais pesa é o quotidiano – arrastado, intuído, magoado – que desfez vidas e sonhos mas encontrou, dentro de si próprio e no encontro com os outros, a salvação. Pretexto, pois, para uma conversa com o realizador, entre o Porto e o Dafundo, na semana após a estreia deste documentário com um título tão óbvio quanto simbólico de casa comum.

Quais foram os impulsos e reflexões que o levaram a fazer este filme?

Tudo isto começou quando fiz a pesquisa para o Com que Voz sobre o meu pai. Nessa altura, investiguei a infância dele e a época em que viveu no Dafundo. Descobri que Portugal foi uma placa giratória para milhares de refugiados e que a minha família ajudou alguns a fugir ao regime nazi, dando-lhes casa ou fazendo o que podia. O facto de saber que o meu tio fugiu e se alistou na Royal Air Force (RAF) e que a minha tia se tornou enfermeira voluntária e seguiu para Londres foram elementos que deram substância ao que eu procurava e que me impulsionaram a ir mais fundo. Em Portugal, não havia a perseguição antissemita que existia no resto da Europa. O País era uma porta do Ocidente. O meu desconhecimento, o ter ascendência judia e o ter falado com a comunidade fizeram-me perceber que teria material para fazer qualquer coisa sobre este tema.

Que obstáculos encontrou e como chegou a estes testemunhos?

Foi complexo encontrar sobreviventes que tivessem passado por Portugal durante aquele período. As pessoas que podiam prestar depoimentos estavam numa idade avançada, não lhes era possível deslocarem-se e eram crianças à época dos acontecimentos, e isso obrigou-me a rever a ideia inicial. Precisei de tempo para conquistar parte dessas pessoas e ganhar a sua confiança, antes de invadir um pouco a privacidade delas e de ouvi-las a propósito de momentos delicados e dolorosos das suas vidas. Acresce que, como tinham fugido, deixaram para trás muitas das recordações. Tive pouca coisa a que recorrer para concretizar a reconstrução das personagens e criar empatia entre os relatos e o espectador. Encontrei uma linguagem alternativa para transmitir o que pretendia e que, ao mesmo tempo, fosse visualmente interessante, sem usar fórmulas gastas. A ideia é que o espectador mergulhe neste passado e faça também estas viagens, por dentro da narrativa.

Não aparecem as imagens típicas destes filmes, com campos de concentração e de extermínio. No entanto, a carga emotiva do quotidiano acaba por tornar-se mais pesada...

Não queria fazer mais um filme sobre o Holocausto. A maneira mais forte de comunicar o que pretendia era criar um universo narrativo que transportasse o espectador para aquele período e que, de certa maneira, o obrigasse a vivenciar, através da incerteza e da empatia que se estabelecem com as histórias e o destino dos seus protagonistas. Quando se cria empatia, cria-se sentimento – e isso obriga a pensar. Além do mais, recorri a imagens que nunca tinha visto e que podiam ser algo novo para o espectador. A redução da velocidade das imagens, os grandes planos e o registo humano geram um lado etéreo, memorialístico, fantasmagórico. No fundo, não queria fazer mais um filme sobre o Holocausto.


O Portugal de Salazar, autoritário, conservador, miserável, vigiado, que prendeu o seu pai e que o deportou por atividades consideradas subversivas, é olhado por protagonistas do filme como o melhor dos mundos. Surpreendeu-o esse olhar idílico?

Foi uma questão complicada com a qual me debati. A Península Ibérica era governada por ditadores fascistas. O regime oprimia os portugueses mas, para pessoas que vinham de um mundo horrível que as perseguia por serem o que são, Portugal era um paraíso. O olhar que elas tinham desse tempo não estava contaminado por políticas, governantes ou regimes. É o olhar puro de crianças. Relatam memórias boas de infância, não são insultadas, não há uma consciência, uma maturidade. Para elas, que eram perseguidas, que não podiam entrar em sítios públicos e não tinham comida, chegar cá e ter acesso a isso, e em segurança, era algo idílico, embora houvesse sempre receio de a Península ser invadida pelos alemães ou de elas serem recambiadas.

Portugal foi a salvação?


Para esses refugiados, Portugal foi sempre um porto de espera, uma escapatória. Não era o destino final. Era apenas a possibilidade de refazer uma vida. E muitos conseguiram-no, nos Estados Unidos da América ou na América do Sul. Vingaram, fizeram as suas carreiras, criaram famílias e novas gerações. Só o facto de o País não lhes ter fechado a porta faz com que falem sempre de Portugal com muito carinho e afeto. O único momento em que há referência ao caráter do salazarismo é quando se conta a história de um bibliotecário da Figueira da Foz, que quer aprender francês com o estrangeiro refugiado para lhe poder dizer o quanto o regime é mau.

Uma das mensagens poderosas do filme começa logo no próprio título: a ideia de que ontem, como hoje, vivemos todos debaixo do mesmo céu. Não estamos, contudo, a habitar um tempo de memória curta?

Sim! E de que maneira! A Europa, os EUA, o Brasil, a Hungria, a Polónia estão a passar por isso. Tenho muita dificuldade em entender o que está a acontecer – a facilidade com que os extremistas têm palco, exercem poder e expressam sentimentos xenófobos, antirracistas e antissemitas com total impunidade. E fazem-no com a mais completa impunidade, perante a nossa indiferença. Pensava que o ser humano aprendia com os erros, que evoluía e se tornava mais sábio, mas é o oposto: estamos a ficar cada vez mais estúpidos. Somos facilmente enganados por um discurso populista, aqui ou ali. Não percebo o mundo em que vivemos. Mesmo os mais educados e esclarecidos esqueceram-se das dificuldades pelas quais passaram os seus antepassados. Estão acomodados à sua vida confortável, mais egoístas e habituados a ver apenas o seu jardinzinho. De facto, todos vivemos debaixo do mesmo céu, mas eles não se lembram de que aquilo que acontece hoje noutros sítios terá, mais cedo ou mais tarde, repercussões nas nossas vidas. Não há lugar para individualismos e protecionismos.

“Não vos queremos cá, ide embora!” é uma frase que atravessa os testemunhos e que alguns sobreviventes sentiram na pele na Alemanha nazi. Em que medida isto remete para a atualidade e como se combate?

Estamos a viver numa sociedade profundamente capitalista, consumista, que só se preocupa com o instantâneo. E esquecemos que temos de manter uma certa harmonia. Virarmos as costas uns aos outros, e agirmos cada um por si não é solução. As pessoas não aprenderam nada com as guerras anteriores? Quando penso na frase que citou, não posso deixar de refletir na vida dos filhos de imigrantes ilegais que já nasceram nos EUA, a quem agora é dito para se irem embora. É a mesma coisa que sentiram muitas pessoas que viviam na Alemanha, quando Adolf Hitler chegou ao poder. É chocante! Enquanto pai e responsável pela minha família, se um dia eu tivesse de encarar uma situação dessas, não sei o que faria, como reagiria... Mas tenho sempre esperança de que isto dê uma reviravolta, de que as pessoas tomem consciência...

“Para mim há dois destinos na vida: o destino menor, relativo a cada um de nós, e o destino maior”, ouve-se num dos testemunhos. O que é termos nas mãos o destino menor?

Significa que podemos não ter o controlo sobre o destino maior – guerras ou tragédias globais –, mas que somos donos do nosso destino menor – fazer boas ações, trabalhar, ajudar e ser solidário com os outros, cultivar a empatia com os nossos vizinhos, etc. Isto pode soar a cliché, mas tudo junto pode fazer a diferença. O ser humano não foi feito para viver sozinho. Precisamos uns dos outros. Ouço falar muito em lobbies, em grupos de interesses, em fortunas nas mãos de um por cento da população, e eu pensava que isso era rejeitado pela sociedade, mas a verdade é que é tolerado. Se os outros são descartados, não é o enriquecimento material que faz as pessoas melhores. Tenho 51 anos e achava que, à medida que envelhecia, a vida tornar-se-ia mais fácil. Mas penso no futuro dos meus filhos e fico preocupado. Não é isso que está a acontecer.

O documentário, apesar de ressalvar o fosso que deve separar a compreensão e o perdão, não cede a uma visão maniqueísta. Ou seja: também nele se contam histórias de alemães bons. Foi importante para si separar os seres humanos daquilo que eles representam?

As coisas não são a preto-e-branco, há muitas zonas cinzentas na vida. Apesar de os alemães, enquanto povo, terem sido muito complacentes com o nazismo, ou terem mesmo fechado os olhos aos seus crimes, houve alemães que fizeram o que podiam para salvar outros seres humanos. Tenho alguma dificuldade em julgar... Um dos protagonistas diz algo como isto: “Eu não acho que aquilo aconteceu por eles serem alemães. Acho que aconteceria em qualquer sítio.” Partilho desta ideia. Isto pode repetir-se num sítio qualquer – basta fechar os olhos.

E quando um extremista condenado por diversos crimes tem direito a uma descontraída entrevista, num programa matinal de televisão de grande audiência, isso diz-nos o quê?

Significa que estamos a brincar com o fogo. As pessoas têm direito às suas opiniões, mas não ao direito de defender ideais ou regimes, cujo objetivo é causar danos ao seu semelhante.

O passado relatado no filme e a atualidade estão demasiado próximos?

A minha intenção foi, em parte, estabelecer essa ponte. Quando estava a fazer as pesquisas, a ouvir aqueles discursos de Hitler e de Goebbels, a ver aqueles desfiles militares, foi inevitável associá-los a Donald Trump e às suas intervenções que incitam à violência. As situações dramáticas pelas quais a Humanidade passou na sua História recente já deveriam ser suficientes para aprendermos... No fundo, é isto: We should know better!

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Francisco Seixas da Costa_ Notícias do Brasil

Notícias do Brasil (1ª parte)






O novo governo brasileiro acaba de garantir, na chefia das duas câmaras do Congresso, figuras cuja orientação política se lhe apresenta como favorável. Rodrigo Maia e o até agora desconhecido Davi Alcolumbre, ambos oriundos do DEM, respetivamente na Câmara de Deputados e no Senado, parece serem uma boa notícia para o novo presidente. O DEM, aliás, surge, nesta fase política, como o principal partido do espetro tradicional que, até agora sem falhas, se apresta a apoiar abertamente Bolsonaro.


Bolsonaro está, para já, a encontrar um ambiente confortável no Congresso. Não há nenhuma surpresa neste facto: é da lógica dos regimes presidencialistas que aos presidentes recém-eleitos, independentemente da lógica do número de deputados, seja conferida uma trégua parlamentar para o início da governação, mesmo que depois se conclua que não há uma maioria automática para aprovar os “pacotes” legislativos. A legitimidade decorrente da eleição tem, além disso, um tradicional tropismo, que leva quase sempre a uma onda inicial de adesões à ala “governista”, facilitada no Brasil pela imensa flexibilidade do sistema partidário.


Bolsonaro tem, sob o seu controlo, um novo partido, o PSL, que não saiu maioritário das eleições legislativas, embora tenha tido um resultado não despiciendo. Isso também é normal.


Nos tempos de Lula ou Dilma, o PT - contrariamente à imagem mítica que se criou - nunca teve mais de 20% dos votos e, por isso, foi sempre obrigado a “costurar” apoios com várias outras formações partidárias, a fim de garantir maiorias no Congresso. O “mensalão” foi um dos métodos para sustentar esse apoio, sendo outro a distribuição de lugares no aparelho de Estado, de ministérios a empresas públicas.


O vencedor conjuntural deste primeiro “round” no âmbito legislativo é o DEM, que sempre foi o partido mais à direita do espetro político tradicional do Brasil. Um partido que também tem três ministros no governo. O que é o DEM?


Convém lembrar que, durante a ditadura militar, para alimentar a ficção de que existia um mínimo de pluralismo, haviam sido criados, “manu militari”, dois partidos: a Arena, um partido de aberto apoio ao regime militar, que deu suporte a algumas das sua medidas mais sinistras, e o MDB, onde se juntava alguma oposição legalista (isto é, a que não optou pela luta clandestina e mesmo armada, de resistência à ditadura), às vezes muito complacente, outras com registos de rutura, a qual, de certo modo, ia aceitando fazer o jogo da tropa, em troca de um mínimo de voz pública.


No regresso à democracia, em 1985, estas duas formações políticas colocaram-se, com alguma naturalidade, na primeira linha no novo sistema político.


A Arena, “absolvida” pelo ambiente de transição do apoio dado à barbárie militar, evoluiu para se transformar no PFL, que, anos depois, mudaria o nome para DEM. O DEM esteve várias vezes associado ao poder político democrático, afirmando-se sempre como uma estrutura política muito conservadora.


O MDB, após 1985, transformou-se no PMDB (hoje chama-se de novo MDB) e foi, até 2018, o maior partido do Brasil, embora com uma heterogeneidade que sempre o levou a ter, simultaneamente, uma ala de suporte dos governos e uma outra que se lhes opunha.


Perceber o PMDB é meio caminho andado para perceber o Brasil. Mas não vale a pena tentar saber se o PMDB/MDB é de esquerda ou de direita. Tem sido, muitas vezes, as duas coisas simultaneamente. Tanto esteve com Lula como se aliou frequentemente à direita. A sua única “ideologia” visível, ao longo destes anos, foi sempre tentar ocupar espaços de poder a todo o custo.


O mais mais relevante sobressalto dentro do PMDB, em termos históricos, foi a cisão que deu origem ao PSDB, por emancipação da sua ala dita social-democrata, basicamente criada à volta de Fernando Henrique Cardoso. Muito polarizado contra o PT nos tempos de Lula e Dilma (candidaturas presidenciais de José Serra, Geraldo Alckmin e Aécio Neves), o PSDB acabou por ter uma forte “virada” conservadora e hoje, no Congresso, “namora” visivelmente o bolsonarismo, ao lado do DEM.


Nas últimas eleições, e apesar da derrota presidencial de Haddad, acabou por ser o PT, de entre os partidos tradicionais brasileiros o que melhor se sustentou, debaixo do “tsunami” que foi o efeito Bolsonaro. Essa “vitória”, que o fez ter a maior “bancada” na Câmara de Deputados, de pouco lhe serve, porquanto, no atual cenário político brasileiro, qualquer aliança com o PT é “tóxica”. O caminho das pedras que o partido de Lula vai ter de fazer, ainda por cima sem uma liderança personalizada evidente, deve ser longo.


Voltemos ao MDB que perdeu, pela primeira vez desde 1985, a sua tradicional liderança em termos de eleitos. Ontem, perdeu também a presidência do Senado, deixando assim de ter qualquer lugar institucional na estrutura central do Estado (recordo que tinha a presidência com Temer e a chefia do Senado, antes com Renan Calheiros e depois com Eunício Oliveira). Passará agora a fazer oposição a Bolsonaro? É cedo para dizer, até porque o equilíbro interno do partido vai depender muito das relações de forças que se gerarem nos diversos Estados - e a leitura que os observadores hoje fazem prospetivamente sobre isso não é unívoca.


Em síntese: Bolsonaro teve um bom resultado nas presidências do Congresso, e tem, à partida, um ambiente favorável nas câmaras legislativas, mas tudo vai depender do modo como se vier a articular com os partidos. E, até agora, o novo presidente, neste domínio, está a seguir uma orientação atípica. Amanhã explicarei porquê e a minha perspetiva, na segunda parte deste texto.

Publicado por Francisco Seixas da Costa à(s) 20:59 _ 03.fev.2019




Notícias do Brasil (2ª parte)


A representação parlamentar brasileira saiu altamente fragmentada das últimas eleições. Aproveitando essa circunstância, Bolsonaro terá sido aconselhado pelos militares a constituir o governo de uma forma diferente do que tem sido corrente no Brasil, isto é, não desenhar um executivo pletórico onde pudesse acomodar um conjunto de representantes de partidos que, somados, lhe pudessem garantir maiorias na aprovação de legislação. O seu governo é mais pequeno (embora maior do que inicialmente anunciado) e tem uma composição atípica. O modelo de suporte parlamentar que visa é diferente.


Vale a pena lembrar que, na tradição do parlamentarismo brasileiro, aos partidos do “setor governista” eram atribuídos ministérios que esses mesmos partidos enchiam com o seu pessoal político. Se o partido tinha muita força no Congresso, ocupava todo o espaço dos chamados “escalões” (níveis) de acolhimento de fiéis: eram os ministérios “de portada fechada”. Se se tratava de partidos mais pequenos, a sua ocupação dos ministérios era mais restringida: tinham de dar espaço, nos “escalões” inferiores, a pessoal indicado por outros partidos. Eram os chamados ministérios “de portada aberta”.


Essa prática era estendida, como modelos adaptados, à plêiade de empresas públicas, com particular interesse por postos de onde saíssem fortes “recursos”. Ficou em tempos célebre o modo como um patusco presidente da Câmara de Deputados, Severino Cavalcanti, oriundo do “baixo clero” (deputados menos importantes), eleito inesperadamente por virtude de um dissídio dentro do PT, reclamou para um seu apaniguado um lugar na Petrobrás, que esclareceu que tinha de ser “daqueles de fura-poço”...


Bolsonaro seguiu, ao que se diz por influência dos militares, um outro modelo, que agora se verá se conseguirá pôr a funcionar no futuro. Assim, além de colocar sete militares (!) em cargos governativos, e mais de 40 em lugares de topo da administração, optou por, na Câmara de Deputados, procurar uma aliança com os interesses organizados, em lugar dos partidos.


Assim, apoiou-se prioritariamente nas chamadas “bancadas” (frentes de interesses, que atravessam as linhas partidárias) mais representativas de setores conservadores e, em alguns casos, de direita muito radical.


É o caso da “bancada evangélica”, onde se acolhem os eleitos oriundos e financiados pelas poderosíssimas igrejas evangélicas (com uma agenda ultra-conservadora para a educação pública e política familiar, recusa do aborto, privilégio das relações com Israel, etc), a “bancada do boi”, com deputados protetores dos interesses de proprietários agrícolas (favoráveis ao desmatamento da Amazónia, à redução dos cuidados ambientais, com grande desprezo pelos interesses e direitos indígenas) e a “bancada da bala”, constituída pelos promotores de um alargamento da posse privada de armamento e, simultaneamente, com uma política ultra-securitária, favorável a uma repressão da criminalidade que, em alguns casos, poderia passar as barreiras legais mais elementares e civilizacionais. Há semanas, um relevante bolsonarista reclamava da dificuldade de fazer passar legislação que, em lugar da castração química dos violadores, autorizasse a castração “por facão”...


Na constituição do governo, acolheu, para além do seu novo partido PSL, uma única formação do núcleo tradicional de partidos brasileiros, sem surpresa o mais à direita - o DEM (ver história na 1ª parte). Raramente na história da democracia brasileira o DEM (que é um partido ausente de representação em muitos Estados brasileiros) havia conseguido ser tão poderoso: tem hoje três ministros, um dos quais, Onyx Lorenzoni, no decisivo posto de chefe da casa civil. E, como referi no texto anterior, tem agora a presidência das duas câmaras do Congresso: a Câmara dos Deputados e o Senado. Para um partido que, nesta eleição, viu reduzida fortemente a sua representação parlamentar trata-se de uma vitória indiscutível.


Um filósofo brasileiro ultra-reacionário, Olavo de Carvalho, que vive nos EUA e é uma espécie de guru de alguns setores próximos de Bolsonaro, terá também tido “direito” a indicar os nomes do ministro da Educação (um colombiano naturalizado brasileiro, que tem uma obsessão contra o método de alfabetização de Paulo Freire, um património e um orgulho para muitas gerações brasileiras), do ministro das Relações Exteriores e do consultor internacional do presidente.


O caso do chefe da diplomacia, Ernesto Araújo, é, provavelmente, o maior erro de “casting” de um governo onde eles não parece faltarem (o caso da ministra evangélica, indicada para a pasta da Família, Damares Alves, é uma fonte regular de episódios hilariantes).


Funcionário diplomático de nível baixo, o novo ministro das Relações Externas, um fanático anti-multilateralismo, negacionista das alterações climáticas, com uma cultura de extrema subserviência face aos EUA (que não é muito bem acolhida numa escola militar muito nacionalista e às vezes com um ligeiro tropismo anti-“yankee”), fez já uma série de “gaffes” que, ao que parece, terão levado os militares em torno de Bolsonaro a propor a criação de uma espécie de “conselho estratégico”, para regular as decisões com implicações externas mais relevantes.


Há uma tese a correr segundo o qual este bizarro ministro será utilizado para fazer o “dirty work” de “remoções” de chefes de missão menos agradáveis ao novo poder, como nomeações de diplomatas mais fiéis e ideologicamente “like-minded” com o novo poder e que, daqui por uns tempos, ele será “posto com dono” numa embaixada simpática e a chefia do Itamaraty será entregue a alguém responsável, com outro estatuto, capacidade e prestigio.


Duas notas para dois ministérios particulares e bastante poderosos - cujos titulares, não por acaso, acompanharam Bolsonaro em encontro de Davos - onde a impreparação manifesta do presidente fez passar uma humilhação ao Brasil.


Um superministério económico foi entregue por Bolsonaro a Paulo Guedes, um cultor da “escola de Chicago”, admirador do “choque” económico de Pinochet no Chile, restando ver quão longe conseguirá ir num processo intensivo de privatizações que se propôs desencadear, no que poderá vir a ter algumas reticências da área militar. O segundo importante super-ministério foi entregue ao juiz-vedeta Sérgio Moro, adorado pelos diabolizadores de Lula, que tem na sua pasta a estranha combinação da justiça com a ordem pública. Há muito quem pense que pelo sucesso, ou não, destes dois ministros passará muito o destino do governo Bolsonaro.


E chegamos, finalmente, aos militares. Aparentemente, a tropa tem um “droit de regard” muito forte sobre o novo governo. Devo dizer que nunca pensei que a sua influência pudesse ir tão longe, mas vai. Nos dias de hoje, essas figuras não eleitas, ungidas de uma espécie juízo de “neutralidade” patriótica, quase “sebastiânica”, constituiram-se como um elemento fulcral do poder político brasileiro. Estamos já quase numa espécie de “governo militar”, em modelo de “coabitação” democrática com os civis? Se não estamos lá, não estamos muito longe disso. Na estrutura governamental, dois nomes se impõem: os generais Augusto Heleno e Santos Cruz. O primeiro parece ser o “master mind” do governo, mas o segundo tem também forte prestígio. Parecem ser eles quem “define a linha” e, embora na reserva, quem faz a articulação com as chefias militares no ativo - que parecem verdadeiramente empenhadas no sucesso deste governo.


Mas há um terceiro nome, que a cada dia que passa tem vindo a ganhar mais evidência, mas também alguma polémica: é o vice-presidente Hamilton Mourão. Um filho de Bolsonaro confessava há dias que a escolha de Mourão para a vice-presidência havia sido feita para evitar um eventual processo de “impechment” de Bolsonaro. O raciocínio era simples: o general Mourão dera provas de ser um radical desbocado, atribiliário e cáustico, um ultra que trazia as piores memórias do regime militar. Assim, ninguém se atreveria a afastar Bolsonaro porque, se isso acontecesse, seria pior a emenda do que o soneto...


Ora Mourão, empossado que foi do cargo de vice-presidente, decidiu passar de Dr. Jeckill para Mr. Hyde. O seu discurso suavizou, deu mostras de compreensão perante o caso de um deputado de extrema-esquerda que se disse perseguido, teve uma linguagem contemporizadora para com a questão do aborto e, em vários outros dossiês, tem-se revelado, dia após dia, cada vez mais distanciado de certos aspetos mais radicais discurso do “bolsonarismo”.


Um líder evangélico fez já um video quase a insultar Mourão, o filósofo reaça Olavo de Carvalho, lá dos Estados Unidos, tem vindo a dizer em “tweets” cobras e lagartos do vice-presidente e a “famiglia” de Bolsonaro já deu claras e públicas notas de estar à beira de um ataque de nervos. O próprio presidente, no leito do hospital onde recupera dos efeitos do atentado, descontente com as liberdades auto-assumidas pelo seu vice, decidiu avocar, mesmo nesse estado físico, a plenitude dos poderes presidenciais.


Tudo isto a fim de evitar que Mourão continue a utilizar a presidência interina para mostrar estatuto, “gravitas” de Estado e um já indisfarçável tropismo para se sugerir como alternativa futura ao presidente. Ah! E, de caminho, o vice-presidente tornou-se a coqueluche dos diplomatas estrangeiros em Brasília, que correm a visitá-lo. Há dias, também recebeu uma delegação palestiniana à qual quase garantiu que a promessa de Bolsonaro a Netanyahu, de transferir a embaixada brasileira de Tel-Aviv para Jerusalém, afinal pode não ser para levar a serio.


Enfim, neste novo e nóvel governo brasileiro, tudo aponta para que se esteja a “armar uma estrangeirinha” dos demonios.

Publicado por Francisco Seixas da Costa à(s) 04:29 _09.fev.2019: AQUI


quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

António Lobo Antunes_O livro novo






O LIVRO NOVO

01.02.2019 às 8h22

António Lobo Antunes


Um livro não é uma prenda que cai do céu, é uma coisa conquistada migalha a migalha, o resultado, pelo menos para mim, de uma paciência infinita, um – Anda lá rapaz sem termo à vista. E o rapaz lá vai, cheio de cuidado com os sítios onde pôr os pés, dado que tudo escorrega à minha volta. Ao mesmo tempo gosto destes desafios, desta luta. Lembra-me a guerra e eu não gosto de perder, não me resigno a perder


Ilustração: Susa Monteiro

E, finalmente, ao cabo de quase dois meses sem escrever, sinto o próximo livro a aproximar-se devagarinho de mim. Hoje, sem que eu esperasse, a meio de uma conversa acerca de Tolstoi e quando o meu sócio de trabalho me lembrou uma passagem de Ivan Ilitch, que diz “a história passada da vida de Ivan Ilitch fora a mais simples e vulgar e, por isso, a mais horrível”, vibrei numa espécie de explosão interior e, de repente, todo o trabalho ali estava, numa evidência absoluta. Tinha passado parte de novembro às voltas com um projecto que, tal como estava, não me servia e continuava a não me servir apesar de todas as alterações que lhe introduzi. Acabei por desistir dele e tornar-me mais pobre do que os mortos, sem soluções alternativas, sem caminho nenhum para parte alguma, julguei que a torneira se havia fechado para sempre

(julgo sempre que a torneira se fechou para sempre)

os dias começaram a arrastar-se como lesmas, passava-os sentado à mesa, de caneta na mão, a olhar o papel vazio numa paciência imóvel que me doía, a perder esperança e hoje, de súbito, a frase que citei acima escancarou a porta e eis o livro à minha frente, à espera, dava ideia que a olhar-me, quer dizer não bem o livro, apenas o material inteiro do livro amontoado em desordem como um modelo para armar, com as suas inúmeras peças apesar de dispersas, prontas a encaixarem umas nas outras e eu com medo de tocar-lhes e cheio de vontade de principiar a utilizá-las, ainda incrédulo com esse favor dos deuses. Agora tenho que dar-lhe uma estrutura antes de principiar a construir, há imensos ocos aqui e ali, inúmeros problemas técnicos ainda sem solução, montes de direções enganosas. Mas tenho-o e isso provoca-me um alívio difícil de exprimir. Eu pensava acabar o meu trabalho com dois livros, o primeiro dos quais agora à minha frente, depois espero que o outro e pronto. Mas este já está. Quer dizer espero que já esteja. É apenas necessário estruturar o material, ajeitar aquilo tudo, principiar, cheio de medo, a compô-lo. Eu funciono por aperfeiçoamentos sucessivos, corrigindo, corrigindo. É um livro difícil de fazer mas que livro até hoje não foi difícil de fazer? E depois gosto de desafios. O pior, o nada que existia em mim, já passou. E aí vou eu, tem-te não caias, páginas fora. Que trabalho tão estranho escrever. Chama-se “Pássaros Quase Mortais Da Alma”, vamos ver o que consigo com ele. Mas hei-de ganhar nem que deixe lá os ossinhos todos. Possuo uma dúzia vozes, faltam-me outras que é necessário colocar nos buracos respectivos. Estes “Pássaros” hão-de voar porque eu quero. Um livro não é uma prenda que cai do céu, é uma coisa conquistada migalha a migalha, o resultado, pelo menos para mim, de uma paciência infinita, um

– Anda lá rapaz

sem termo à vista. E o rapaz lá vai, cheio de cuidado com os sítios onde pôr os pés, dado que tudo escorrega à minha volta. Ao mesmo tempo gosto destes desafios, desta luta. Lembra-me a guerra e eu não gosto de perder, não me resigno a perder. Daqui a não sei quanto tempo ficará pronto, como os restantes. Mas deixa-se a pele

(e um bom bocado de carne)


nisto. De resto por que motivo me lamento se não trocava a minha vida por nada? Acho que não escolhi este caminho, limitei-me a aceitá-lo, respondi

– De acordo

a uma qualquer voz desconhecida que me propôs este pacto, uma espécie de encontro entre duas solidões. Olho para a janela, é noite agora. Tudo preto. Casas ao longe. E eu, sei lá porquê, a pensar nos meus pais. Gostava que me houvessem dado colo, nunca me deram. Sou tão pequeno às vezes, sabiam? É verdade: sou tão pequeno às vezes. Onde pára o meu aviãozito de madeira? Apetece-me fazer

– Vvvvvvvv

com ele até sair pela janela a caminho de mim.

(Crónica publicada na VISÃO 1351 de 24 de janeiro de 2019)

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

sophia_ falso poema



Cultura-Ípsilon
LIVROS
Um falso poema de Sophia que se tornou viral


Se procurar poemas de Sophia de Mello Breyner Andresen na Internet, é quase certo que cairá nuns versinhos intitulados O mar dos meus olhos. Estão transcritos em milhares de páginas, são comentados em artigos académicos, até os traduziram para alemão e holandês. O poema diga-se, é fraquinho, mas Sophia não tem culpa: nunca o escreveu.
Luís Miguel Queirós 4 de Fevereiro de 2019, 7:21
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Há anos que Maria Andresen Sousa Tavares, filha de Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), assiste, exasperada, à imparável proliferação, na Internet, de um poema sistematicamente atribuído à sua mãe, mas que esta nunca escreveu. Tem procurado desfazer o equívoco, mas é uma luta desigual. Uma rápida pesquisa no Google, teclando o título do poema entre aspas, indica cerca de 14 mil ocorrências. Verificámos as primeiras centenas e em todas elas, sem excepção, o texto aparece atribuído a Sophia.


E a partir da Internet, é quase inevitável que esta criatura de mãe incógnita comece a saltar para a página impressa. Ainda há poucos dias a filha de Sophia conseguiu evitar in extremis que O Mar dos Meus Olhos fosse publicado numa antologia pessoal de um advogado do Porto. Como o livro, embora impresso, não fora distribuído, ainda houve tempo para proceder à substituição, deveras vantajosa, deste apócrifo de qualidade mais do que duvidosa por um poema maior da lírica portuguesa de todos os tempos: Meditação do Duque de Gandia sobre a Morte de Isabel de Portugal.


E não foi esta, aliás, a primeira vez que O Mar dos Meus Olhos esteve prestes a partilhar o prestígio de uma lombada com poemas de autoria mais canónica. “Um jornalista cultural pediu-me para o incluir numa antologia, porque era, dizia ele, o poema da minha mãe de que gostava mais…”, conta Maria Andresen Sousa Tavares.

Também é verdade que Sophia está longe de ser a única vítima, ou sequer a mais recorrente, da profusão de textos erradamente atribuídos que circula na Internet, e que adquire uma dimensão ainda mais avassaladora se incluirmos citações de aforismos, ditos espirituosos e afins. Na literatura portuguesa, o autor mais sacrificado é seguramente Fernando Pessoa, a ponto de já existir mesmo uma página de Facebook exclusivamente dedicada a denunciar apócrifos do autor doLivro do Desassossego.



FotoSophia DANIEL ROCHA

Se em vários casos tem sido possível identificar os verdadeiros autores de textos que correm como sendo de Pessoa, ninguém até hoje parece ter vindo reclamar a autoria do suposto poema de Sophia. Circunstância que tenderá a alimentar a suspeita de que, na sua origem, estaria talvez um qualquer apontamento manuscrito da autora que alguém tivesse transcrito mal, ou ao qual pudesse mesmo ter acrescentado alguma coisa da sua própria lavra. Um cenário que Maria Andresen Sousa Tavares descarta, quer por nunca ter topado, na sua longa intimidade com os papéis da mãe, com nada que pareça poder estar na base deste poema, quer porque, argumenta, “há alguma semelhança de temas, mas a escrita é diferente”.
Um apelo desesperado

Sophia, cem anos depois: uma figura exemplar de poeta



Também Carlos Mendes de Sousa, grande conhecedor da obra de Sophia – está neste momento a preparar para a Assírio e Alvim um volume que reunirá toda a sua prosa de ficção –, duvida de que O Mar dos Meus Olhos decorra de algo que a autora tenha efectivamente escrito. O ensaísta preparou, com a colaboração de Maria Andresen Sousa Tavares, o volume da Obra Poética de Sophia que a Caminho lançou em 2010 (a edição mais actualizada é a que a Assírio & Alvim publicou em 2018) e também não tem memória de se ter cruzado com estes versos. “Parece-me mais provável que isto seja obra de um epígono”, sugere. De facto, reconhece, parece ter havido a intenção de adoptar alguns tópicos geralmente associados à lírica de Sophia, como o mar ou as praias, mas “a voz não é a dela”.

Para o leitor avaliar por si próprio, aqui fica o poema: “Há mulheres que trazem o mar nos olhos/ Não pela cor/ Mas pela vastidão da alma// E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos/ Ficam para além do tempo/ Como se a maré nunca as levasse/ Da praia onde foram felizes// Há mulheres que trazem o mar nos olhos/ pela grandeza da imensidão da alma/ pelo infinito modo como abarcam as coisas e os homens.../ Há mulheres que são maré em noites de tardes.../ e calma”.

Não faltam motivos para se suspeitar de que Sophia dificilmente poderia ter escrito boa parte destes versos. Por lamechices no estilo de “trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos”, por redundâncias enfáticas como “pela grandeza da imensidão da alma”, ou ainda pelo involuntário prosaísmo de certas formulações – “Não pela cor/ Mas pela vastidão da alma” –, que o afinado ouvido musical da autora dificilmente deixaria passar.

FotoMaria Andresen Sousa Tavares MIGUEL NOGUEIRA

Por isso mesmo, se não espanta que estes versos encharquem a blogosfera, muitas vezes acompanhando postais ilustrados de praias ao crepúsculo ou desenhos fantasistas, já surpreende encontrá-los em sites dos quais o internauta desprevenido poderia esperar um mínimo de fiabilidade, como o Portal da Literatura, que não apenas transcreve o poema, como lhe acrescenta a irresponsabilidade de indicar uma falsa referência bibliográfica: “Em Obra Poética (Ed. Caminho, 2010)”. Trata-se da já referida edição organizada por Carlos Mendes de Sousa, que se folheará em vão à procura de O Mar dos Meus Olhos.
Há alguma semelhança de temas, mas a escrita é diferenteMaria Andresen Sousa Tavares

A própria referência bibliográfica tornou-se viral e está hoje replicada em inúmeras páginas da Internet. A autora de um blogue inteiramente dedicado a Sophia assume ter ido buscar o poema ao Portal da Literatura, ainda que depois a “análise” do dito lhe deva ser inteiramente creditada. “Há quem diga que os olhos são o espelho da alma, ou seja, um olhar pode revelar quem é realmente aquela pessoa. É seguindo essa linha de pensamento que Sophia de Mello conduziu o poema acima”, explica a blogger, saudada por um leitor entusiástico: “Ótima análise de um poema bastante profundo em sua essência inicialmente fácil de compreender, mas com reflexões mais trabalhadas dos desejos e sensações humanas”.

Mal sabia que tinha a papinha toda feita nesta página a aluna que lançou este desesperado apelo no site brasileiro Brainly: “Por favor preciso de ajuda!!! Alguém pode me ajudar a analisar o poema O Mar dos meus olhos, de Sophia de Mello Breyner Andresen. Indicando o tema, o assunto, os recursos expressivos e a sua explicação e pudendo [sic] utilizar versos do poema e a mensagem do poema. Obrigada!!”
Do nudismo ao paranormal

O facto de a transcrição do texto vir acompanhada da indicação do livro onde este supostamente teria sido publicado, como acontece no Portal da Literatura, contribui certamente para que o leitor menos familiarizado com a obra de Sophia não questione a sua autoria. E há que reconhecer que o poema cativa gente de todas as idades. Não fora o detalhe de não ter sido escrito por Sophia e teríamos de o considerar um candidato credível à short list dos seus poemas mais populares. Abre, aliás, uma lista dos seus “15 melhores poemas” proposta pelo site Notaterapia, que por acaso também encerra com outro texto falsamente atribuído: Poema Azul. Como Maria Bethânia inclui esta canção de Sérgio Ricardo num disco onde também interpreta alguns poemas da escritora portuguesa, pronto, Sophia passou a ser autora de versos como estes: “E a lua cheia/ Que prateia os cabelos do meu bem”.

É impossível dar sequer uma reduzida amostra da ecléctica propagação de O Mar dos Meus Olhos. Serve de legenda, no YouTube, ao vídeo de uma jovem surfista, mas também surge numa página de promoção do nudismo, Alma Naturista, ou no site Portugal Paranormal, aqui talvez não inteiramente deslocado, ou num jornal da Associação de Solidariedade Social dos Trabalhadores e Reformados da EDP e da REN, escolhido por uma associada para preencher a rubrica “Um poema que eu amo”, ou ainda como epígrafe de uma tese de doutoramento sobre a Estrutura genética populacional do camarão rosa (…) nas costas sul e sudeste brasileira.

FotoA assinatura da escritora num dos muitos manuscritos que integram o seu espólio, doado pela família à Biblioteca Nacional DANIEL ROCHA

Bastante menos desculpável é que uma revista académica brasileira ligada aos estudos literários, como a Intertexto, publique um artigo – A Representação Feminina em Poemas de Florbela Espanca, Maria Teresa Horta e Sophia de Mello Breyner Andresen –, co-assinado por um “mestre e doutor em Letras, área de Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade Estadual Paulista”, no qual se elege O Mar dos Meus Olhos como exemplo da “grande força expressiva” e da “qualidade inquestionável” da poesia de Sophia.

“O texto poético escolhido para esta parte de nosso estudo, e que transcrevemos abaixo, faz parte da coletânea intitulada Obra poética(2010)”, escrevem os autores do artigo. Se replicar referências bibliográficas presumivelmente encontradas na Internet sem se dar ao trabalho de as verificar não constitui propriamente uma prática académica recomendável, esse é ainda um pecadilho menor quando comparado com a quase improvável insensibilidade literária deste “doutor em Letras”.

Mas há muitas páginas ligadas ao ensino que também transcrevem o poema, de projectos de bibliotecas escolares a uma newsletter da “coordenação do ensino de Português do Reino Unido e Ilhas do Canal”, datada do final de 2016, na qual uma professora responsável pela organização de um recital de poesia em Jersey explica que um dos poemas que escolheu para serem ditos pelos alunos foi O Mar dos Meus Olhos.

E há muitos outros exemplos de que a divulgação do poema também se faz por via oral. Uma reportagem da gala de entrega de 2015 dos Prémios Sophia (patrona um tanto desconcertante destes prémios destinados ao cinema português), que pode ler-se online na revista ESCS Magazine, da Escola Superior de Comunicação Social, conta-nos que a cerimónia incluiu a leitura de O Mar dos Meus Olhos pela voz de uma conhecida actriz. E num número de Março de 2018 do jornal Entre Margens, de Vila das Aves, lemos uma descrição de uma peça levada a cena pelo Teatro Aviscena, na qual uma “secretária humilde e servil”, após “dar um murro na mesa” e dizer “basta” ao patrão, “declama O mar dos meus olhos de Sophia de Mello Breyner”.

in: jornal "Publico"



......
actualização 




FOI DESCOBERTA A AUTORA DE FALSO POEMA DE SOPHIA DE MELLO BREYNER
RAQUEL LOPES15 FEVEREIRO, 2019
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No passado dia 4 de fevereiro, o jornal Público chamou à atenção para um poema que circulava nas redes sociais que se dizia ser de Sophia de Mello Breyner Andresen – mas que na verdade, não o era. A origem do poema e o seu autor ainda não tinham sido encontrados mas esta sexta-feira, segundo investigação do mesmo jornal, descobriu-se que o poema é afinal da juíza Adelina Barradas de Oliveira que apenas queria homenagear a poetisa Sophia.


O poder da ‘bola de neve’ nas redes sociais

“Há mulheres que trazem o mar nos olhos” assim começa um poema acerca do mar, que supostamente teria sido escrito por Sophia de Mello Breyner Andresen. Tudo parecia bater certo: Sophia era uma conhecida fascinada pelo mar, escreveu vários contos e poemas onde o mar era o protagonista e apenas alguém bastante conhecedor da sua obra conseguiria detetar o erro.

O poema foi sendo partilhado pela internet e inúmeras redes sociais e rapidamente se criou a ideia de que esse poema era, de facto, um poema da autora portuguesa. Nem os meios de comunicação escaparam à confusão: entre eles, o Espalha-Factos, que no seu artigo acerca das celebrações do nascimento centenário da autora (ainda que nunca o tenhamos atribuído diretamente a Sophia), mencionou a frase em questão.


Esta manhã, o jornal Público desvendou o mistério: o poema foi afinal escrito pela juíza desembargadora no Tribunal da Relação de Lisboa, Adelina Barradas de Oliveira. A juíza diz ter um blogue chamado Cleopatra Moon, no qual apenas escreve por amor à escrita, e que nunca pensou que um poema seu pudesse gerar tanta polémica. Diz nunca ter atribuído a autoria do poema a Sophia e que este era apenas uma homenagem à mesma.

“Sophia de Mello de Breyner Andresen” seria apenas isso, um título de um poema em homenagem à escritora. Mas transformou-se em muito mais. Apesar de estar assinado com as iniciais com que geralmente assina os seus poemas, bastou apenas um leitor partilhar o poema como sendo de Sophia e a bola de neve estava em andamento.


Uma homenagem que se transformou num mistério por resolver

O poema em causa foi escrito pela autora no seu blogue no dia 2 de julho de 2009, data que marcava 5 anos após a morte de Sophia, mas a polémica veio muitos anos mais tarde. Foi apenas no dia 4 de fevereiro deste ano que o Público detetou o erro da partilha deste poema e publicou um artigo acerca da questão, sem saber ainda a origem do mesmo.

Pedro Ferreira, um leitor do mesmo jornal, intrigado com a notícia decidiu tentar descobrir de onde teria vindo o tal poema que tantos (até alguns académicos de Letras) atribuíam a Sophia. Ao descobrir a página da juíza, percebeu que o equívoco teria começado ali mesmo e partilhou a descoberta na sua página de Facebook, onde é conhecido pelo pseudónimo Amadeu Liberto Fraga.


O Público tratou de confirmar os factos, confirmando tudo esta manhã – a juíza diz ter escrito aquele poema como homenagem à poetisa e também à sua filha, que faz anos no mesmo dia. O jornal confirmou ainda que a juíza é sempre correta nas atribuições aos poemas que publica, sendo dela ou não – algo que pode ser confirmado numa rápida navegação pelo blogue em causa.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

ana rebelo (ana de amsterdam) _ Trovoada

Nota:
Em 2017/01/26 a ana rebelo  publicou na sua pa'gina - AQUI: o magnífico texto que tomo a liberdade de  partilhar. No seu blog nao existem opções de comentar, seguir, ou partilhar. Assim, se a autora vir qualquer impedimento, inconveniente ou proibição, nesta partilha, a mesma será de imediato eliminada.     

"Trovoada

Começou a chover. Parece chuva de trovoada. Olho uma última vez a estatueta de porcelana. Com a ponta de um lenço de assoar, que humedeço com saliva, limpo as pequenas reentrâncias onde o pó se acumula. Pouso-a em cima da cómoda. Escuto passos que rangem no soalho do corredor. Já passa da meia-noite, a minha espera terminou. Mal me deito, a vivacidade do meu pensamento abandona-me, deixa-me numa fadiga que me torna as ideias confusas. Conheço esse adormecimento, desejo-o, nunca contrario a sua chegada. O meu marido entra no quarto. Parece não trazer pressa, anda devagar, e, ao contrário do que é habitual, alguma energia transparece no seu passo. A expressão do seu rosto também está diferente, descontraída, um sorriso aberto, olhos brilhantes, bochechas elevadas. O que tornará a sua passada mais enérgica? E o seu rosto animado? Talvez seja ainda a euforia do futebol que nele transparece, talvez as sobras dessa satisfação o tornem assim, revigorado, ágil. Senta-se na cama, mãos apoiadas no colchão, a olhar a janela. Deixa-se estar nessa posição durante algum tempo a escutar a chuva nas vidraças. Não diz nada, volta a sorrir, dá uma palmadinha na minha perna como que a querer partilhar comigo a sua satisfação. Depois de dar uma fungadela no spray que usa para as alergias, diz-me boa noite e apaga a luz. Não fecho os olhos. Gosto de olhar a escuridão, descobrir o que nela se esconde, vejo manchas irregulares, parecem lagartos gigantes, cobras gordas, serpenteando por ali. Quando um carro chega à praceta e o clarão dos faróis entra pelas frinchas dos estores, chega-me uma memória antiga, quase esquecida: estou deitada com a Violante num campo de ervas altas a adivinhar as formas das nuvens, divertimo-nos a encontrar coelhos, vacas, galos, algumas nuvens parecem objectos, outras parecem gente. Olha a D. Antónia, de marreca e tudo!, diz de repente a minha irmã e rimos com a descoberta. A recordação desse instante traz-me uma tristeza passageira, mas muito intensa, volto à infância, um tempo antigo em que fui feliz. Pouco a pouco, os meus olhos deixam de ver sombras alaranjadas, a escuridão cresce, só o coração luminoso da estatueta de loiça a quebra. A escuridão confunde. É na noite que o corpo do meu marido ganhará dureza. Escuto o ruído da sua respiração e, pouco depois, sinto o seu corpo voltar-se na minha direcção. 

Não perde tempo, os seus braços aumentam de volume, alongam-se, parecem ser capazes de dar várias voltas ao meu corpo. A sua respiração é cada vez mais acelerada, sinto o seu bafo na cova do meu pescoço. Lá fora, o céu desfaz-se agora em pingos grossos, a chuva estala nos vidros. O meu marido levanta-me a camisa de noite, as suas mãos tocam-me. Deixo que me tome. O meu corpo está aqui, na cama, à sua mercê, para que faça dele o que quiser. Um corpo é apenas um corpo, o meu fica aqui, daqui a nada, quando tudo acabar, venho buscá-lo para o lavar e tratar. Ausento-me: estar deitada na cama ou sentada na sala em frente do televisor ou na cozinha a lavar a loiça passa a ser igual. Tanto faz. Estou simplesmente deitada, sem fazer nada, à espera que isto acabe depressa. Mal me liberto do meu corpo sinto-me tranquila, cheia de silêncio. Pairo como um fantasma sobre o meu quarto, sobre a minha cama, sobre o meu corpo. Agora é a altura certa para me entregar aos meus pensamentos íntimos. Procuro o coração luminoso da estatueta de loiça. Aqui está, mesmo ao meu lado, uma pequena lágrima de luz capaz de quebrar a escuridão mais cerrada. El corazón de los novios alumbra la oscuridad, disse-me o homem naquela tarde e abraçou-me. Recordo o desconhecido de Ceuta, o armazém abafado, a realidade suspensa num abraço demorado. Um instante eterno, sem futuro, nem passado. Começou a trovejar. Continuo a ter medo de trovoadas, mentalmente, começo a dizer a oração a Santa Bárbara, só ela é capaz de apaziguar as tempestades que a natureza lança aos homens. O tempo parece alongar-se. Geralmente, em três, quatro minutos, tudo está terminado, mas hoje o meu marido não só intensifica a firmeza dos seus movimentos como parece querer prolongar o tempo que leva a satisfazer-se. Em movimentos repetidos, entra e sai, sai e entra, sempre na mesma persistência. O movimento parece não ter fim. Oiço os seus gemidos, sinto o cheiro do seu suor peganhento, a murchidão da barriga a roçar-me o ventre, tudo é desolador, mas descanso na perfeição dos meus pensamentos secretos. O meu marido transpira de esforço. Sinto-o dentro de mim, sinto as contracções dos músculos, o sangue a latejar. O meu marido está caído sobre o meu corpo, mas eu não estou aqui. Estou longe, muito longe, nos braços de um homem que me aperta. Consigo sentir o cheiro desse homem. Consigo sentir até a sua respiração no meu rosto. O calor desse abraço, clandestino, mas puro, perdura na minha vida. Escuta-se outro trovão, mais forte do que o primeiro. O meu marido larga por fim um grito descontrolado de dor e prazer. Sinto-me aliviada por tudo ter finalmente terminado. Assim que o meu marido resvala para o lado, acendo a luz. Levanto-me com cuidado, procuro a camisa de noite e visto o robe que está aos pés da cama. Caminho até à casa de banho para me lavar. O calor que se sente é cada vez maior, parece escorrer pelos azulejos, cobrir as loiças sanitárias, esconde-se dentro do pequeno armário com puxadores dourados. Abro a pequena janela da casa de banho, mas da rua chega apenas ar quente. Os trovões estão mais espaçados, cada vez mais longínquos, mal se ouvem. Olho-me no espelho. Noto o cabelo em desalinho, o meu rosto está tenso e, exposta à luz fosforescente da casa de banho, a minha pele mostra marcas evidentes de cansaço, as rugas parecem mais profundas, os olhos estão inchados, as olheiras, escuras, parecem borrões de tinta. Regresso ao quarto, os meus passos tornam-se leves, os pés mal tocam no chão. Vou sossegada. O cheiro da cera do soalho volta a confortar-me; a minha irmã sorri na moldura que está sobre o móvel da entrada e a Nossa Senhora, olhos moles de solidão, padece, como é próprio da sua natureza, no seu nicho de gesso dourado. Entro no quarto e sento-me na cama. Sinto-me esgotada, finalmente poderei deitar-me, fechar os olhos, adormecer, deixar o cansaço escorrer do meu corpo. Talvez já não o sinta ao acordar. O meu marido ressona baixinho, tem a boca ligeiramente aberta e a cabeça apoiada nas mãos entrelaçadas. Apago a luz. Lá fora, escuta-se apenas o vento nos plátanos da praceta. Depois da trovoada, a noite voltou a encher-se de silêncio."