quarta-feira, 10 de outubro de 2018

André Gil Mata_Cinema





"“Estamos sempre à procura de coisas que nos distraiam para não pensarmos em nós próprios”






O medo e o frio entranham-se e andam de mãos dadas. Entre janeiro e fevereiro de 2017, o realizador André Gil Mata enfrentou as baixas temperaturas do inverno na Bósnia para filmar a absoluta solidão de um homem no meio da guerra. Numa obra lenta e contemplativa, somos levados por paisagens nevadas que nos dizem que as noites não são apenas perigosas - são muito tristes. Há um velho que carrega às costas a memória e a loucura de todas as guerras enquanto guarda o terror nos olhos da criança que já foi. Apesar de tudo, continua a caminhar, continua a sua missão

No filme “A árvore” temos dois tempos. O tempo de uma criança, na Segunda Guerra Mundial, e o tempo de um velho, na guerra da Bósnia nos anos 90. No tempo desta rodagem, em 2017, a guerra ainda é palpável em Sarajevo?
Foi uma das coisas que mais me marcou. Tanto quando cheguei à cidade, como quando saí. Quando cheguei, teve um impacto que passa muito pela arquitetura e pelos edifícios, que ainda hoje têm os buracos das balas e dos projéteis. Vês edifícios completamente destruídos e isso tem um impacto muito grande. Cheguei num inverno que depois foi muito longo. Nevou até maio e esses meses para mim foram marcantes. Estava a chegar a uma cidade onde nunca tinha estado e sabia que tinha de lá passar os próximos três anos. Senti algum medo e alguma ansiedade, e o facto de o inverno ser assim tão rigoroso faz com que às 18h já não vejas pessoas na rua. Como sou noctívago, acabei por caminhar muito a essa hora e foi estranho ter a sensação de estar numa cidade que parecia não ter ninguém, quase como uma cidade fantasma. Cheia de neve e sem ninguém a não ser os cães. Lá há cães, não é como cá [Portugal] que são retirados da rua.
Sempre quis ter um cão no filme?
O cão não apareceu imediatamente na minha cabeça, mas a determinada altura tornou-se um elemento importante e o velho não seria o mesmo personagem sem o cão. Aquele velho teria de ter uma relação de sentimento por alguém e, como vivia isolado, essa relação teria de ser com um animal. Antes tinha muito medo de não conseguir filmar a Arna [nome da cadela], mas não foi difícil. Nós rodámos praticamente durante a noite e sempre que ela entrava os donos estavam presentes. E tínhamos uma regra: só o Petar, ator principal, é que falava com ela, para não dispersar a atenção.
Esta é a sua segunda longa-metragem em Sarajevo. Não é difícil fazer cinema numa língua que não se domina? 
A dificuldade prende-se mais com conhecer ou sentir os espaços, as pessoas. Não é tanto uma barreira linguística, mas sim uma barreira de afeto. Quando cheguei a Sarajevo pareceu-me quase impossível filmar. Depois, à medida que o tempo foi passando, essas barreiras foram desaparecendo. O facto de não saber a língua deu-me de certa forma uma liberdade maior, porque tive de delegar isso em alguém, um assistente que soubesse a língua e estivesse atento. Por um lado, deu-me uma liberdade muito maior para estar atento a outras coisas. Se fosse em português, com diálogos, estaria muito preso a essa questão. Acho que até me ajudou a dar liberdade e a confiar nos atores, confiar neles sem estar a impor-lhes a minha forma de como as coisas devem ser ditas. Já tinha sentido essa liberdade no ‘Como me apaixonei por Eva Ras’ [o primeiro filme que André Gil Mata realizou em Sarajevo] e voltei a sentir isso agora.
Os primeiros filmes do André são sobre geografias íntimas, que conhece bem. Podemos dizer que Sarajevo se tornou um desses territórios? 
Sim, Sarajevo tornou-se uma geografia íntima. Foi a única forma de conseguir viver lá aquele tempo [André Gil Mata passou três anos em Sarajevo a fazer doutoramento em cinema]. Mas sim, o ‘Como me apaixonei por Eva Ras’ é filmado num lugar que se tornou íntimo para mim, com uma pessoa que se tornou das mais íntimas na minha vida lá.


FOTO SANJA VRZIC

Este filme só podia ter sido rodado naquele local? 
Podia ter sido rodado noutro lado qualquer, mas para mim chegou um momento em que só fazia sentido ser rodado lá, porque eu não conseguia imaginar transportá-lo para outro lugar. Se calhar por essa razão de afetividade. Se fosse transportado para outro lugar, deixaria de ser aquele filme e passaria a ser outro.
Como encontrou aqueles atores?
O mais velho é pai de uma amiga minha. Não é ator. Em jovem foi realizador, depois isolou-se e neste momento é pescador na costa da Croácia. Pesca para ele e para os vizinhos. O miúdo é filho de amigos de amigos. Quando o filme terminou, disse-me que nunca mais faria cinema na vida, mas em Berlim, na estreia do filme, voltei a encontrá-lo e aí já estava com mais vontade de voltar [risos].
Durante o filme, o espectador apercebe-se da guerra apenas pelo som dos tiros e das bombas. Foi sempre essa a intenção ou chegou a pensar mostrar a guerra?
Na minha cabeça foi sempre assim. Acho que a questão maior é que a imagem - não só daquela guerra mas de todas as guerras - está muito banalizada. Hoje, se ligarmos o telejornal vemos imagens de guerra e o filme que eu tinha na cabeça não era um filme sobre uma guerra específica, mas mais a questão de como é que a personagem lida com uma guerra numa idade em que já passou por outra guerra e, se calhar, já nem acredita na espécie humana. De certa forma, o velho tem de levar com aquilo e aturar essa loucura da sociedade. E eu sempre tive a certeza que as únicas figuras que apareceriam seriam a mãe, ele criança, ele mais velho e o cão. Acho que assim conseguimos falar sobre esse estado, sobre essa loucura que é a guerra, sem dispersar.
E o espectador acompanha o personagem em silêncio durante grande parte do filme...
Sim, este é um filme sobre alguém que está só no meio da guerra. Se estás a tentar filmar essa solidão, é impossível que a pessoa esteja a falar, a não ser que esteja a falar com ela própria, mas isso nunca me passou pela cabeça.



Apesar dessa solidão, o velho recolhe vários garrafões porta a porta e depois segue em direção a uma fonte. Há aqui uma ideia de serviço à comunidade e de contacto com o outro, não há?
Sim. O que mais me marcou nos amigos que fiz em Saravejo, amigos que passaram pelo cerco da cidade ou que passaram pela guerra noutras cidades da Bósnia, é que as pessoas voltaram de repente a ter esse sentimento, ou essa necessidade, e precisavam umas das outras. De certa forma, durante a guerra, os vizinhos voltam a juntar-se. O que eu sinto é que nós já não conhecemos os nossos vizinhos nem falamos com eles. Chegamos a casa ao fim do dia e não temos qualquer relação com o espaço em que vivemos. Mas nos períodos críticos, as pessoas têm de se juntar para sobreviver. A minha ideia, se calhar um pouco ingénua, porque não vivi a guerra, é que eu posso fazer uma tarefa, tu outra e um vizinho outra. O sentido de comunidade para mim seria esse…. A tarefa daquele velho é ir buscar água e os vizinhos certamente teriam outras. Além disso, é difícil viveres em Sarajevo e as pessoas não te falarem sobre a guerra. Muitos dos amigos que fiz disseram-me que tinha sido o período mais feliz da vida deles. É estranho ouvir isso, mas chega uma altura em que começas a entender. A nível artístico nunca houve uma pulsão artística tão grande.
Tinha que ver com a intensidade com que viviam?
Sim, porque depois parece que nada interessa mais. Tudo deixa de fazer sentido, imagino eu, porque vives um período com uma intensidade tão grande que depois nada se equipara. A seguir, as pessoas são incapazes de produzir a esse nível. E certamente essa intensidade cria momentos que as pessoas nunca mais esquecem.



Há vários planos-sequência no filme. Qual era a intenção?
Tem que ver com a liberdade para te relacionares com o personagem. Na vida precisas de tempo para criar laços de afeto com alguém e no cinema o que podes trabalhar é essa questão de dilatar ou comprimir o tempo. As coisas têm de ser dilatadas - no sentido de fazeres demorar a ação mais tempo do que o tempo que ela realmente leva - para o espectador sentir uma relação mais profunda com o personagem.
Existe também um momento de sonho/pesadelo e aí reconhecemos uma veia tarkovskiana. 
Para mim, esse momento tinha de existir por ser um momento de transição: deixas de acompanhar o velho e passas a acompanhá-lo em criança. E o único lugar onde tens efetivamente dois tempos é através da memória ou do sonho. Para mim, aquele plano é quase uma reminiscência bela para o velho, que se lembra de si próprio em criança a andar de trenó perto da mãe e, simultaneamente, um pesadelo da criança por se lembrar da mãe que ele procura.
O filme é uma jornada de resistência e de resiliência. O espectador acompanha, no silêncio da sala de cinema, os personagens na sua solidão absoluta até chegarmos ao momento de encontro e de diálogo. Aí ouvimos: “resiste”, aconteça o que acontecer resiste, e sobrevive. Hoje ir ao cinema é também um pouco isso, não é? Uma escolha que se faz, sem telemóveis, sem conversas, um encontro absolutamente a sós com um filme? 
É sempre difícil para um realizador pensar no que nos leva a fazer as coisas. Mas há coisas em que acredito e que se calhar se refletem nos meus filmes. Uma dessas coisas surgiu na minha adolescência, pois tive a possibilidade de ir regularmente a um cineclube em Santa Maria da Feira. E esse era um momento em que sentia que me encontrava de certa forma comigo mesmo, no cinema. Quando digo encontrar é poder estar num sítio com pessoas à volta, mas com uma espécie de regras de jogo - sentar, não falar com a pessoa que está ao lado durante aquele tempo - e que te obriga a estar contigo mesmo. Acho que antes tínhamos isso através das religiões, no nosso caso íamos à missa e não podíamos falar. Estávamos só a ouvir e de certa forma o exercício era o de refletir sobre aquilo. De outra forma, mas na mesma linha, o cinema pode dar-te isso, mas sem impor nada. Confrontas-te contigo sem haver uma imposição do outro lado. E eu acredito mesmo nessa possibilidade de o cinema ser alguma coisa em que tu podes pensar nos erros todos que tens feito na tua vida - até porque se calhar estás a ver em espelho os erros de personagens que estão na tela e que te fazem pensar nas coisas. E se calhar é por isso que tens as salas de cinema vazias. Hoje ninguém quer ser, ou tem muito medo de ser, confrontado consigo mesmo. Estamos sempre à procura de coisas que nos distraiam para não pensarmos em nós próprios.
“A Árvore” (104min) está em exibição até 10 de outubro nos cinemas da Trindade (Porto), Nos Alma Shopping (Coimbra) e Ideal (Lisboa)."

in: jornal "Expresso"

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

"Novo" Aeroporto...(?)



"Opinião



MARCO CAPITÃO FERREIRA
O Montijo é uma má solução: vamos a ela?


03.10.2018 às 8h20


Portela mais o que quer que fosse – Montijo, Alverca, Sintra, até havia quem alvitrasse Beja – nunca seria uma solução boa para o problema, em tempos objeto de acesa discussão, hoje largamente pacífico, de que Lisboa não tem, hoje, um aeroporto capaz de dar resposta às necessidade do país e da região.

Em abril do ano passado, escrevi por aqui que o Montijo é uma má solução.

É uma má solução ambiental. É uma má solução aeronáutica. É uma má solução para a mobilidade da Grande Lisboa porque vai pôr milhares de carros e autocarros nas estradas e em eixos sobrecarregados, cria novas zonas de ruído em meio urbano, e, aposto já aqui, é uma solução que não dura nem 20 anos.

É curto para um “novo” aeroporto. Como já aqui escrevi, “é certo que o país anda a discutir o assunto Aeroporto de Lisboa há décadas. Mas também é verdade que a solução Montijo nunca teve este protagonismo. Estudámos a Ota, Rio Frio, Alcochete. Estudámos tudo menos o que vamos fazer? Isso não tem ponta por onde se lhe pegue.” Seguiu-se o apelo, talvez um nadinha otimista: “Podemos, seguramente, esperar mais uns meses e fazer as coisas bem feitas.”.

Os meses vieram. O resto não. A Vinci, dona da ANA e acionista com 37,3% da Lusoponte (mas já sabemos que sobre isso a nossa imprensa não fala), vai ficar com mais um aeroporto por meros mil milhões, e ganha mais uns muitos milhões ano em portagens ali ao lado. Deve dar para pagar três vezes ou quatro as obras. O costume, portanto. Má solução? Para os franceses não. A discussão pública, aberta, franca, ou o que por ela passou já lá vai e ficamos na mesma. Montijo, pois claro.

Vamos fingir que o Montijo não é, atualmente, a mais importante base da Força Aérea na zona de Lisboa, e o coração da componente aérea do nosso sistema de busca e salvamento? Vamos fingir que não vemos que com duas pistas, só uma das quais interessa para o que pretendem militares e civis, a corda vai partir para o lado dos mais fracos? Aparentemente, vamos.

Antes uma má decisão que nenhuma, dizem-me. Uso a Portela 20 ou 30 vezes por ano. Não preciso que me expliquem. Eu sei, e sinto nos meus ossos doridos de estar sentado no chão do terminal, que alguma coisa temos de fazer. Só não me convencem que seja preciso ir para o Montijo e, ainda por cima, dar o Montijo à ANA/Vinci até 2062 em troca de um investimento de mil milhões de euros.

Eu sei que o anterior Governo lhe entregou 10 aeroportos do país por três mil milhões mas, quer dizer, até por isso: não chega já? Não há um nadinha de vergonha? Não há. Conhecemos demasiado bem esta história: é por causa dela, e de tantas outras iguais que, dizem-nos, não se pode aumentar pensões. Ou baixar o IVA da eletricidade. Ou outra coisa qualquer que não fosse dar mais aos que já tanto têm. Não se pode? Mas isto, isto é perfeitamente natural. Meus caros amigos, vão gozar com outro. Aquele abraço."


in:jornal "Expresso"

Zeca Pagodinho: "O Samba"_ MTV2003_Acústico





"Zeca Pagodinho: "O Samba é que é a verdadeira música do Brasil"


Verdadeira lenda da música brasileira, o cantor Zeca Pagodinho está de regresso a Portugal para dois concertos muito especiais, para comemorar com os fãs nacionais os 35 anos de carreira. O primeiro é já hoje à note, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, seguindo-se, no dia 10, o Coliseu do Porto



Zeca Pagodinho

© DR
Miguel Judas03 Outubro 2018

TÓPICOS
Cultura
zeca pagodinho
Coliseu de Lisboa
Coliseu do Porto


Foi, em tempos, classificado como "uma das poucas unanimidades nacionais" no Brasil, onde poucos reconhecerão à primeira o nome de Jessé Gomes da Silva Filho. Pelo contrário, se numa qualquer rua do Rio de Janeiro, São Paulo ou São Salvador, for mencionado o epíteto Zeca Pagodinho o mais certo é a o rosto do transeunte iluminar-se num largo sorriso, possivelmente seguido pelo trautear de um dos seus muitos clássicos, acompanhado, até, de uns improvisados passos de samba. Afinal, são já 35 anos de carreira, alicerçados em mãos de duas dezenas de discos, ao longo dos quais, de uns e de outros, tornou a música mais popular do Brasil num verdadeiro fenómeno pop, na aceção mais transversal e abrangente deste anglicismo. Foi, por exemplo, o primeiro artista da área do samba a gravar um espetáculo acústico para a MTV Brasil, em 2003, quando em apenas músicos e bandas da área do pop-rock o faziam. Pelo caminho, vendeu mais de 12 milhões de cópias e conquistou 4 Grammys latinos, sempre, claro está, na categoria de Melhor Álbum de Samba e Pagode.

"Não vejo as coisas assim, só faço a minha arte e tenho tido a sorte de as pessoas gostarem dela. De bebés a velhos, todos cantam das minhas canções e isso é um privilégio para qualquer artista. Devo isso ao samba. Tem o bossanova e o MPB, mas samba é samba, é a verdadeira música do Brasil", refere Zeca Pagodinho ao DN, dias antes de regressar a Portugal para dos espetáculos muitos especiais, que vão servir para celebrar com os fãs deste lado do Atlântico os tais 35 anos de carreira. "É isso mesmo, vão ser 35 anos de canções numa única noite. Um apanhado desde o início até hoje", explica o cantor, nascido há 59 anos no bairro carioca de Irajá, não conseguindo evitar um sincero desabafo: "Pôxa, já passaram mesmo 35 anos".

Um dos maiores desafios para este espetáculo foi precisamente o de selecionar os temas. "Não foi fácil, porque tive de resumir mais de 500 canções a apenas 15. Para festejar isso como devia teria de ser um dia inteiro de show", diz com humor. Do alinhamento farão com toda a certeza clássicos como Jura e Judia de mim, imortalizados nas novelas da Globo, mas também Coração em desalinho, Brincadeira tem hora, Casal sem vergonha, Deixa a vida me levar, o mais recente êxito Ser humano e, claro, o hino Deixa a vida me levar, o tema escolhido por Scolari para festejar o pentacampeonato do mundo, em 2002, ou mais recentemente pelo ex-presidente Lula da Silva, para as cerimónias fúnebres da mulher, Letícia.

Pelo meio haverá também tempo para homenagear mestres como Cartola, Elton Medeiros ou Ivone Lara e Délcio Carvalho, os autores do icónico Sonho Meu, que Zeca Pagodinho convidou um dia Maria Bethania para cantar com ele, dando assim início a uma amizade entretanto transposta também para o palco, com uma digressão conjunta que tem sido um verdadeiro sucesso no Brasil. "Está a ser muito legal essa amizade com a Maria Bethania. Gostaria muito de apresentar esse show também cá, mas isso é com vocês, porque eu gosto sempre muito de voltar a Portugal, é realmente um sítio onde me sinto em casa", confessa o cantor, cujos bisavós, "de pai e de mãe", são portugueses. "já não vou há algum tempo ao Porto e vai ser bom regressar lá agora, mas Lisboa é a minha casa em Portugal", assume. Em especial o restaurante Pinóquio, mesmo ao pé do Coliseu, onde um dia entrou por acaso, para beber uma cerveja. "O António, o Barbosa e o Jorge são hoje a minha família portuguesa. Se não estiverem a trabalhar, espero que consigam ir ao concerto".



Zeca Pagodinho

Coliseu dos Recreios, Lisboa. 3 de Outubro, quarta-feira, 21h. €30 a €50

Coliseu do Porto. 10 de outubro, quarta-feira, 22h. €20 a €60"

in: jornal "DN"

Elias diá Kimuezo_ 84 anos do Rei


AQUI: escrever e' triste.. "ps – Maravilha de guitarras com nostalgia de musseque, teclado Yamaha a rasgar, percussão e sopros. Ah, e o resplandecente ombro nu da cantora do trio de vozes."

.....

" Ressurreição":



segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Charles Aznavour 1924-2018_ Entrevista






"
CULTURA

“Estamos sempre apaixonados pelas pessoas que têm talento”: Charles Aznavour 1924-2018


01.10.2018 às 13h30





D.R.


Aquele que foi um dos nomes fundamentais da grande canção francesa morreu durante a noite de domingo, aos 94 anos. É uma espécie de Pelé das canções, fez mais de mil. E há praticamente dois anos concedeu ao Expresso uma entrevista que evidencia as suas virtudes e complexidades e que é relevante revisitar num dia em que há menos uma voz para nos contar a vida. Esta é a republicação ipsis verbis desse momento



DANIEL RIBEIRO, CORRESPONDENTE EM PARIS

Escreveu mais de mil canções e vendeu mais de cem milhões de discos. Com 92 anos de idade, é a última grande estrela viva da chamada grande canção francesa. Já cantou praticamente em todo o mundo, menos na Turquia. É uma pessoa simples e não recorre a truques para escamotear os danos provocados pela idade. É um dos seus filhos que lhe coloca, à frente do jornalista, o aparelho auricular que lhe permitirá ouvir as perguntas. Assume a idade, é brincalhão e passa toda a entrevista bem-disposto, mesmo quando assume ter falhas de memória e informa que necessita de um ecrã de apoio no palco para não se enganar nas letras das canções durante os concertos. Esta é uma entrevista com um homem livre que apenas colocou um limite às perguntas: não falar de política francesa, agora que estamos a poucos meses das eleições presidenciais. De resto, falou de tudo sem problemas, designadamente das causas que mais lhe interessam: a música e a Arménia, o país onde nem primos nem avós do lado turco chegou a conhecer, devido ao genocídio dos arménios. Adorava Amália Rodrigues e Édith Piaf. Só gosta de canções com grandes textos e grandes vozes. E acha que Calouste Gulbenkian não deveria ter legado toda a sua colossal fortuna a Portugal, poderia também ter deixado uma pequena parte aos arménios. Charles Aznavour estava tão ansioso que começou a falar quando o jornalista ainda nem sequer se tinha sentado.


Gosto mais da língua portuguesa do que da espanhola, mas falo melhor espanhol, porque o português é para mim mais próximo do italiano e do francês, e eu confundo-os. Mas conheço Portugal há muitos anos, mesmo muitos anos.


Desde os anos 60?

Desde os anos 50, mesmo... Ia lá todos os anos.


Ia lá para quê? Cantar, passar férias?

Sobretudo para cantar e também porque gostava da comida e do país.


Na época gostava muito de Amália Rodrigues...

Amália era uma amiga verdadeiramente próxima, entendíamo-nos muito bem, até gostávamos dos mesmos cantores brasileiros, e chegámos a estar juntos no Brasil, uma vez, pouco tempo depois de nos conhecermos. Ela foi buscar-me ao aeroporto do Rio de Janeiro com uma amiga brasileira. A primeira canção que ela interpretou em francês fui eu que lha escrevi.


Sim, ‘Ay, mourir pour toi’. Escreveu essa canção porque estava apaixonado por ela?

Estamos sempre apaixonados pelas pessoas que têm talento, mas com Amália não se tratava de amor sexual.


A vossa relação apenas ficou por aí, pela amizade?

Sim, mas era uma relação muito próxima. Eu podia abraçá-la, beijá-la, como se fosse uma irmã, e esse tipo de relação é frequentemente mais forte do que o amor. Era o que se costuma chamar em francês uma ‘amizade amorosa’.


Nesses anos 50/60 via-a muito, em Lisboa, Paris?

Sim, por vezes até no Líbano, no Egito... Cruzávamo-nos muito e cantámos uma vez juntos em Lyon.


Amália era uma pessoa importante para si, em termos da música e da voz?

Sim, foi importante, como Piaf foi importante. Eram duas grandes artistas.


Piaf tinha uma importância à parte...

Não, nessa época, ao princípio, não. Alguns anos depois é que se transformou em alguém mais particular.


E o fado era o quê para si?

Adorava. Escrevi a canção ‘Ay, mourir pour toi’ porque ouvi a palavra Mouraria. Gosto imenso de fado, sempre adorei o fado.


Então, ‘Ay, mourir pour toi’ tem a ver com Mouraria?

Sim, queria encontrar uma expressão que se aproximasse de Mouraria, palavra que me soava bem, e foi assim que surgiu esse título. Estive sempre apaixonado por Lisboa, gosto dos portugueses, são boas pessoas, bons trabalhadores, e sempre gostei das pessoas que trabalham bem.


Também há bons artistas...

Sim, só que eu não conhecia muitos artistas. Mas havia um que adorava, era o Alfredo Marceneiro, outro grande fadista.


Os portugueses acolheram igualmente um arménio, que se chamava Calouste Gulbenkian e que deixou uma fabulosa fortuna em Portugal. O que acha disso?

Deveria ter deixado também alguma coisa para os arménios. Penso que depois do genocídio arménio, com a guerra, deve ter sido muito bem recebido em Portugal, e por isso deixou lá tudo. Os meus pais também fizeram coisas espantosas em França. Esconderam judeus em nossa casa. Nós, os arménios, somos pessoas muito fiéis, e quando nos tratam bem nós também tratamos bem os outros.


Portanto, acha normal que ele deixasse essa fortuna colossal toda em Portugal.

Penso que deveria ter guardado um pouco para a Arménia, mas na época a Arménia era soviética, por isso não se pensava nela. Foi depois que se começou a pensar na Arménia. Até comigo aconteceu assim. Fiz muitas coisas pelo país, mas só depois da época soviética.


É embaixador da Arménia, talvez o maior dos grandes defensores da causa do seu país...

Sim, é o país das minhas raízes. Eu não tive avô nem avó, nem primos nem primas. Na minha família éramos apenas quatro: os meus pais, eu e a minha irmã. Depois, pouco a pouco, encontrámos outros arménios, não muitos... O meu pai era mais próximo dos russos.


Mas hoje o senhor é uma glória na Arménia, até tem lá uma estátua.

Tento ajudar o mais que posso. Quando soube que as mães não podiam lavar a roupa das crianças porque não havia eletricidade a horas fixas, fiz tudo para resolver esse problema, para que as mães soubessem que teriam eletricidade, por exemplo, às 13 horas durante uma hora, para poderem funcionar com as máquinas, para costurar, etc... Sim, sou uma pessoa muito próxima da Arménia.


É uma tragédia. Quem são os inimigos da Arménia? Os russos, os turcos?

Não temos inimigos, temos é pessoas que não querem reconhecer as suas faltas.


O genocídio?

Sim. Essas pessoas não são minhas inimigas, são inimigas delas próprias, porque a toda a hora lhes apontam o dedo dizendo: “Eis os assassinos.” Eu não tenho nada contra o povo turco, não vou dizer às novas gerações, que na época ainda nem tinham nascido, “vocês mataram a minha família”. O que desejava era que eles fossem tão abertos como eu sou.


Foi um verdadeiro genocídio.

Sim, foi. Toda a minha família do lado turco desapareceu, nunca ouvi falar deles, nunca nenhum deles foi encontrado.


Em criança conheceu a pobreza em Paris, onde nasceu, com os seus pais?

Não éramos pobres nem infelizes, os meus pais trabalhavam. Os arménios têm isso em comum com os portugueses, sabem trabalhar e não receiam meter as mãos na massa. Os turcos também trabalham. Ao mesmo tempo que os critico por não reconhecerem o genocídio até chego a ter relações amigáveis com alguns turcos.


Quando alguém lhe diz “o senhor é um monstro sagrado da grande música francesa e internacional”, como é que reage?

Não acontece nada. Eu escrevo, não passo o tempo ao espelho a dizer “sou o maior”, tenho horror disso. Sou um homem simples, um artesão, não sou uma estrela, tenho a minha profissão, só encontrará neste escritório coisas sobre as canções. Gosto de literatura, de línguas estrangeiras, gosto de encontrar pessoas que aprendam coisas novas umas com as outras. É isso que me interessa.


Cantou em quase todos os países do mundo, vendeu milhões de discos...

E continuo a cantar, quase só não cantei na Turquia. Mas a questão não é essa do dinheiro, o que interessa é que o dinheiro sirva para qualquer coisa. Ajudei muito a Arménia, ajudei amigos e sei que nunca receberei essas ajudas de volta. O dinheiro nunca foi um motor para mim, o motor é sim a bela escrita.


‘La bohème’, por exemplo, como nasceu?

Não fui eu que escrevi a letra, foi um amigo, mas é uma das mais belas que tenho no meu reportório.


É uma das mais belas canções do mundo!

Bem, mas há outras.


Conheceu e foi amigo de gente famosíssima, como Édith Piaf...

Sim, sempre fui muito próximo das pessoas. Adorava Piaf, mas fui amigo também de Ray Charles, Frank Sinatra, Nina Simone, Charles Trenet, Maurice Chevalier, Amália...


E de Yves Montand?

Nunca fui muito amigo dele, apresentava-lhe projetos e ele recusava-os.


Demorou alguns anos a alcançar o sucesso. Qual foi o seu primeiro grande êxito?

Foi ‘Je m’voyais déjà’, uma canção que Yves Montand, precisamente, tinha recusado cantar. Tive muita sorte na minha vida. Muita gente não gostava de mim no início, durante muitos anos, nem a imprensa, mas as pessoas gostavam. O que aconteceu comigo é quase inimaginável, sabe? Como não gostavam de mim em França, decidi ir cantar para o estrangeiro, para os Estados Unidos, por exemplo... Lá também foi difícil, mas acabou por funcionar.


Tem uma longa vida, e desejo que seja ainda mais longa... Quando pensa no passado, pensa em quê?

O passado serve-me para escrever. Ainda há pouco tempo saiu um novo disco meu. Escrevo todos os dias, leio todos os dias, aprendo todos os dias, incluindo línguas estrangeiras, estudo...


Em Portugal, houve um cineasta, Manoel de Oliveira, que nunca deixou de trabalhar mesmo com mais de 100 anos...

Pois, eu sei... Eu acho que vou trabalhar ainda mais tempo. Estive duas vezes com a pessoa mais idosa do mundo, creio que tinha mais de 120 anos e bebia vinho e fumava um cigarro depois das refeições.


O senhor fuma?

Fumei até aos 47 anos três pacotes de Gauloises por dia.


Bebe álcool?

Também deixei de beber fora das refeições e aprendi a apreciar melhor o vinho às refeições.


Pode dizer-se que Piaf foi uma das suas verdadeiras grandes amigas?

Sim, e Amália também foi. Eram pessoas muito boas.


Um dia, Georges Moustaki, que já faleceu, disse-me que Édith Piaf o ajudou imenso a singrar na canção. Também o ajudou a si?

Verdadeiramente, não. Eu vivi em casa dela, ela gostava muito de mim, mas dava preferência aos seus apaixonados, esses estavam sempre em primeiro lugar. Mas mesmo assim uma vez disse-me: “Vais fazer uma grande carreira.” Mas não era na cama dela a que se referia...


O que vai apresentar no próximo concerto em Portugal? O reportório clássico?

Não tenho reportório clássico, misturo coisas novas com antigas.


Vai cantar ‘La bohème’, claro...

Bem, isso é o que eu chamo a descida aos infernos... Canto, mas também interpreto muitas coisas novas.




FRANCIS TSANG/GETTY IMAGES




Há pouco cortei-lhe a palavra quando falava sobre Amália, dizia que ela era verdadeiramente sua amiga...

Para mim, era a Santa Amália. Falávamos de música, de arte... Conheci-a na Bélgica, no fim dos anos 50, ela cantava numa sala do primeiro andar e eu no rés do chão.


Como nasceu ‘Ay, mourir pour toi’? Foi o senhor que lhe propôs essa canção?

Não, foi ela que me disse um dia: “Gostaria de cantar uma canção em francês.” E eu disse-lhe: “Vou escrever uma para si.”


E inspirou-se na palavra Mouraria por que razão?

Pensava que estava relacionada com a morte e quando soube que não fartei-me de rir. Na realidade, foi a palavra que cantou no meu ouvido.


Tratavam-se por você?

Sim, eu sou assim, quando admiro muito as pessoas trato-as por você. Também tratava a Piaf por você.


Voltando a Calouste Gulbenkian. Senti uma certa mágoa sua quando lhe disse que ele deixou toda a sua fortuna a Portugal...

Sim, mas eu não sei tudo... Sei que há uma Fundação, mas não sei o que faz essa Fundação... Creio que há ou houve programas para apoiar arménios, bolsas de estudo, por exemplo. Isso seria importante. Em vez de construírem qualquer coisa na Arménia, uma ou duas casas, seria bom apoiarem com bolsas os estudantes que não podem estudar sem ajudas. Acho que já o fizeram no passado, mas não sei se o continuam a fazer. Para mim, a instrução é importante. Eu não estudei na escola, aprendi tudo sozinho na rua.


A grande canção francesa, com grandes textos, fortes composições musicais, grandes encenações, que o senhor representa tão bem, acabou?

Não, não acabou, porque continua a existir, mas evoluiu noutro sentido, porque os artistas agora gostam de trabalhar à moda da música americana e inglesa... Mas as pessoas continuam a apreciar os cantores que cantam em francês, sem dúvida, e esses, os que trabalham à moda americana, não dão a volta ao mundo, como eu dou, e canto sobretudo em francês. Por exemplo, vocês, em Portugal, também não têm necessidade de cantar à moda americana, têm o fado, que é uma canção bem específica. Nós não temos isso, temos os textos. Nunca se deve estragar as coisas importantes do passado. Mas, de qualquer modo, as coisas verdadeiramente importantes, fundamentais, voltam sempre. Vou adorar voltar a Lisboa, uma cidade de que gosto muito, incluindo a calçada e naturalmente a comida e os azulejos...


Porque é que continua com vontade de cantar em concertos, no estrangeiro, por exemplo?

Certamente porque sou um pouco aventureiro, gosto de correr riscos. Comecei assim a carreira e assim continuarei. Aliás, alguns dos países estrangeiros onde comecei a cantar foram precisamente a Espanha e Portugal.


Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 26 de novembro de 2016 "

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Eugénia de Vasconcellos_Despedida

Despedida

DESPEDIDA

Podes ficar com os Teus exércitos
e suas espadas flamejantes,
arcanjos à frente,
anjos ao centro,
voz do Espírito adiante;
e com os Teus milagres,
protecções, provações, profecias;
e com a inamovível montanha -
a semente de mostarda, devolvo-Ta.
Pelo baptismo, renunciamos ao mal,
pela vida ao bem prometido.
A ti, e eu chamava-te Amor,
lugar onde amanheciam todos os prodígios,
devolvo-te os futuros cancelados
como qualquer outro voo.
Aos meus pares, amados iguais
neste pacto de sangue a preto e branco
a correr pelas páginas:
aprendi, para o bem, o que não vem,
e para o mal, a que renunciei,
sou ímpar, estou só.
Nada mais tenho a devolver
além do corpo de hoje, amanhã pó.
Fecho a porta. Entrego a chave.
Adeus.

Eugénia de Vasconcellos 

escrever e' triste_"a voz de quem escreve"


À memória do Escrever é Triste


Publicado em Setembro 23, 2018 por Diogo Leote




“Porque começou a escrever”? “Porque escreve”? As perguntas foram-me lançadas à cara, sem qualquer preparação prévia. A meio metro de mim, numa manhã em que os Tristes andaram a ser entrevistados num inspirador jardim lisboeta, um microfone e uma câmara aguardavam a minha resposta. Dois, três segundos de hesitação, e saiu-me: “por necessidade”, “porque a minha vida paralela não podia continuar aprisionada num recanto fechado e inacessível da minha cabeça”.


Isto, dito assim, até pode parecer que tinha uma vida dupla, que, fora de portas, e do alcance da família e dos amigos, ia ali à cabine telefónica mais próxima mudar de roupa e vestir a pele de personagens que guardavam segredos inconfessáveis. E quem o pensar não anda longe da verdade. Desde que me lembro de existir, alimento uma vida paralela onde vivo vidas de outros. Desde o primeiro dia em que me contaram uma história, assentou arraiais no reduto mais privado da minha intimidade uma existência paralela, que tem lugar num mundo de fingimentos e fantasias, e que corre a par da sucessão de atos que faz o meu dia-a-dia.


Ao que julgo saber, isso não fez de mim um alienado anti-social, ou um hipócrita em quem não se pode confiar, e muito menos um pobre infeliz à procura de satisfação e realização em identidades forjadas. Isto porque todas as vidas paralelas que vivi e continuo a viver são as que a ficção me dá. As que histórias empolgantes, personagens arrebatadoras e lugares de maravilhamento me trazem. E que, apesar de imaginadas, inventadas, fantasiosas, acabam invariavelmente a cruzar-se com a minha rotina de acontecimentos diários. O modo como se cruzam as histórias a fingir com as verdadeiras, o efeito que as primeiras provocam nas segundas, é matéria que não cabe aqui, num texto de meia dúzia de linhas. Até porque, ao longo das dezenas de textos que deixei no Escrever é Triste, não fiz outra coisa senão a de chamar a atenção – umas vezes de megafone na mão, outros sussurrando ao ouvido, como as circunstâncias impunham – para o poder transformador das palavras, das imagens e da música de outros. Eu disse transformador, podia ter dito redentor, inspirador, enriquecedor.


No meu caso particular, podia ter dito salvador. Não fossem as histórias imaginadas de outros, não fosse a minha vida paralela, a minha outra vida pouco ou nenhum sentido teria. Sem essas histórias, não teria, provavelmente, conhecido muitas das pessoas mais importantes da minha vida. Não teria tido a inspiração e a coragem para tudo aquilo de que me orgulho. Não teria dado aquele passo decisivo que tantas vezes faz a diferença nas nossas escolhas. E, provavelmente, outros não dei porque me faltou o impulso de tudo aquilo que ainda não li, que não vi, que não ouvi, que é quase tudo.


Onde surge o “porque escreve?” lá de cima, onde surge o Escrever é Triste nesta história de vida, torna-se fácil de perceber. Sem a escrita, a do Escrever é Triste sobretudo mas também a de todas as que o antecederam, sucumbiria como Sherazade se finaria se não tivesse histórias para contar. Sem a escrita do Escrever é Triste, não poderia devolver ao mundo tudo o que o mundo de ficção me trouxe, que foi quase tudo do que sou. Não conseguiria libertar a minha consciência do peso que foi e é guardar só para mim os segredos e mistérios de décadas de uma vida dupla.


Agora, é tempo de o Escrever é Triste dar lugar a outras escritas. Ficará, para sempre, com lugar cativo no sítio onde a estrada da minha vida terrena se cruza com as alamedas de acesso reservado (quase sempre sombrias, porque eu sempre fui de preferir “as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo de artifício dos refrões fáceis”) a que a ficção, e imaginação que dela nasce, me levam. Em nome de todos os que fizeram o Escrever é Triste, agradeço a atenção com que nos leram ao longo destes últimos sete anos. À nossa modestíssima escala, esperamos ter feito despontar ou crescer algumas vidas paralelas por aí. Até breve."


Nota sobre esta partilha:


Obrigado ao blog, agora DESCONTINUADO, "escrever e' triste...sempre", e ao autor deste magnifico texto - Diogo Leote - que expressa o muito que eu próprio penso e que nao saberia dize-lo de forma tao eloquente.

AQUI: Novo Blog_"Pagina Negra"


lm_27.set.2018

sábado, 22 de setembro de 2018

Aline Frazão_novo disco



"Aline Frazão leva-nos para dentro da chuva










A cantautora angolana lançou esta sexta-feira o seu quarto álbum, que, embora tenha os pés entre o Rio de Janeiro e Luanda, atravessa o mundo inteiro.

Mariana Pereira
21 Setembro 2018








Aline Frazão.
© Fradique


Foi numa dessas noites de dezembro último, época marcada pelo regresso de Aline Frazão a Angola, seu país natal, que ao ler os últimos dois parágrafos do livro Como Se o mundo não Tivesse Leste, do seu conterrâneo Ruy Duarte de Carvalho, o velho personagem Adriano Kapiapia como que a agarrou pela roupa e a levou para dentro da chuva.


O que é que isso significa? Significa que ela, que então trabalhava no disco de voz e violão hoje lançado, transpôs para canção o que ali estava escrito. "Para mim estava tudo ali, tudo aquilo de que andava à procura. Até é comovente falar sobre isso, porque a gente esquece-se de estar atento", explica ao DN numa manhã bem cedo, sentada no café Luanda, nome tão a propósito, agora que, depois de 10 anos fora, essa voltou a ser a sua cidade, e com mais vida cultural do que nunca, "onde à terça e à quarta-feira se tem de escolher onde ir", tantos são os lugares onde a vida pulsa.


"Toda a descrição final desse personagem é quase a descrição da atenção plena, desse homem, desse velho, nesse lugar no meio do nada, no mato, a conseguir ler a humidade do ar, a mudança das nuvens, a cor das montanhas, o cheiro da terra, sentir a chuva chegar. Essa sabedoria que faz que ele seja aquilo tudo, todos aqueles elementos estão dentro dele e ele está fundido com todos, com a vida, é como se ele fosse igual a ela própria. É uma imagem muito potente, muito inspiradora". E depois recita aqueles agora versos da canção Kapiapia, que canta com Luedji Luna: "É mundo e se é mundo progride em silêncio porque é o silêncio que governa tudo. Está dentro da chuva."


Falamos então de Dentro da chuva, álbum de voz e violão, formato que a autora de Insular (2015) ou Movimento (2013), hoje com 30 anos, há muito queria gravar. É o seu quarto álbum. "Num contexto de muita demanda, muito ruído, barulho, de certa forma esse olhar para dentro, esse despir da canção é uma mensagem importante. [É um disco] de menos elementos, de introspeção, de menos é mais."


"Acho que a música é um balão de oxigénio"

O facto de ter deixado para trás Lisboa e a sua banda também fazia daquele um momento mais solitário e, por isso, propício a este formato. A voz e a guitarra ficam mais despidas naquelas canções, cuja maioria Aline também escreveu. Nelas percebe-se uma certa geografia pessoal, desde logo, claro, em Um Corpo sobre o Mapa (música de João Pires, dos Cordel), com as suas passagens por Barcelona, Lisboa "para não voltar" ou até Zanzibar. Mas não é disso que a cantautora fala quando se refere à exposição que este formato implica."



Aline Frazão.
© Fradique
in:"DN"

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Um "filme" português ou, como a Historia se escreve.



O reencontro da filha e do pai que Salazar e Mao separaram


Vera Wang era filha de um chinês e de uma portuguesa. Com o pai preso na China, refugiou-se no Japão. Conheceu lá Franco Nogueira, futuro MNE de Salazar, e casaram-se. Só depois do 25 de Abril conseguiu rever o pai. Quem conta agora a história é Aida, a filha.



Leonídio Paulo Ferreira16 Setembro 2018 — 06:32
in: DN


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Franco Nogueira, Vera Wang e a filha Aida.
Foto Arquivo DN





Aida Franco Nogueira mostra-me a foto dos avós maternos. Uma lindíssima jovem portuguesa e um atraente diplomata chinês, com o cabelo puxado para trás graças à brilhantina, que tinha vindo em missão a Lisboa. Otília Machado Duarte e Wang Shuyao. Conheceram-se numa festa, dançaram toda a noite, apaixonaram-se e casaram-se, alheios à diferença de culturas, embora ele ser católico tenha facilitado o sim. O retrato a preto e branco, agora protegido por uma moldura de vidro, exibe um pequeno rasgão, como que a relembrar que passou quase um século desde aquela inesperada paixão em Lisboa na década de 1920 que acabou por se transformar numa história trágica de separação, com a política a ter muitas culpas.

Otília Machado Duarte e Wang Shuyao, pais de Vera Wang.

© Arquivo família Franco Nogueira

Apanhado na China pela invasão japonesa e pela guerra civil entre nacionalistas e comunistas, o casal teve de se separar. Wang foi mesmo preso, mas ainda conseguiu enviar Otília e as duas filhas, Vera e Teresa, para o Japão, como refugiadas. Seguiram-se décadas de separação, e Otília, professora de Francês, morreu sem nunca reencontrar o marido. Vera, a mais velha das filhas, foi quem um dia conseguiu ir a Xangai rever o pai, já muito frágil. Como o destino fez que a luso-chinesa se casasse com Alberto Franco Nogueira (que viria a ser ministro dos Negócios Estrangeiros), enquanto Salazar e Mao viveram e Portugal e a China estiveram de relações cortadas, nada pôde ser feito. Foi preciso acontecer o 25 de Abril e voltarmos a ter representação diplomática em Pequim para que uma filha e um pai separados há 35 anos se revissem.

"A minha mãe estava emocionadíssima com a viagem à China. Mas ela, com a dignidade habitual, nunca mostrou exuberância nos sentimentos, percebe? Nunca chorou, nunca riu, mas estava emocionada, claro! E eu, à pressa, arranjo dois álbuns das minhas filhas - o da Filipa foi um bocadinho maior porque ela já tinha 14 meses e mais fotografias do que a Joana que nascera havia três meses. A minha mãe levou em 1981 esses álbuns para mostrar as bisnetas. Ele nunca as conheceu, nem a mim", conta Aida, sentada num sofá numa salinha cheia de fotografias de família, várias dos já três netos. Numa estante alguns livros de encadernação antiga que pergunto se eram do pai, advogado como ela, mas que afinal pertenceram ao avô paterno, juiz. A conversa é num sétimo andar no Restelo, no mesmo prédio onde Alberto Franco Nogueira e Vera Wang Franco Nogueira viveram.
Pai e filha falavam em mandarim

É um tema delicado de conversa para Aida. A voz por vezes embarga-se e os olhos chegam a lacrimejar. A mãe morreu há poucos dias, o pai faria 100 anos neste dia 17 (e vai haver uma cerimónia no Ministério dos Negócios Estrangeiros). Diz-me que quase tudo o que está a contar foi o que ouviu da mãe, que nem sempre sabe as datas certas. Agradeço-lhe ter aceitado contar o episódio do reencontro de Vera Wang (é assim que Aida acha que faz sentido a mãe ser referida nesta reportagem) com o pai chinês, depois de uma hesitação há quase três anos quando a contactei pela primeira vez depois de descobrir a comovente história no livro Em Torno da China, as memórias diplomáticas de João de Deus Ramos. Como primeiro diplomata português nessa Pequim capital da República Popular da China, chegado em 1979, João de Deus Ramos esteve com Vera e o pai. "Um senhor muito distinto, mas que evidenciava claramente que a vida tinha sido dura para ele", relembra agora o embaixador, figura importante nas negociações para a transferência de Macau para a China em 1999.

"Nós nunca pudemos comunicar com o meu avô e o meu pai, sobretudo no período em que foi ministro, teve de ter todas as cautelas para não se fragilizar nem a ele nem ao país. Mas às vezes, chegadas não sei de onde, com imensos carimbos, recebíamos cartas do meu avô. Tinham conselhos para a minha mãe, mas não sei bem o quê, estavam em chinês. Eram baseadas na filosofia chinesa de vida", relata Aida, que conta que a mãe falava cinco línguas, incluindo chinês e japonês. No livro de memórias, João de Deus Ramos diz ter conversado em francês com o antigo diplomata da República da China e que ficou surpreendido por pai e filha falarem em mandarim.




Vera em criança, na Bélgica.

© Arquivo da família Franco Nogueira

Aida pede-me desculpa para atender um telefonema. Está a preparar a missa de 30.º dia da mãe. Durante a conversa o telefone dá sinal mais algumas vezes. Ainda há gente a querer apresentar condolências. Como mulher do mais emblemático ministro dos Negócios Estrangeiros de Salazar, Vera Wang era uma figura muito conhecida, mas a filha gosta que se lembrem dela não só como a viúva de Franco Nogueira mas também como a fundadora da Academia de Música de Santa Cecília. Mostra-me alguns álbuns de família. Num deles, de folhas já a soltar-se, está uma foto de Vera, talvez com uns 3 anos (nasceu cá em 1927).
Uma luso-chinesa em Tóquio

Depois de se casar em Portugal, o casal Wang foi para a Bélgica. Ele era diplomata da República da China, fundada por Sun Yat-Sen e depois presidida por Chiang Kai-shek. Na derradeira guerra civil chinesa, já depois da Segunda Guerra Mundial, o generalíssimo foi derrotado por Mao Tsé-tung e refugiou-se em Taiwan em 1949, onde continuou a reivindicar ser o legítimo governante de toda a China. Ainda hoje a pequena ilha aloja a República da China, mas os nacionalistas do Kuomintang estão na oposição e há um crescente sentimento independentista na população, que apesar de ser de cultura chinesa aprecia o sistema democrático que ali vingou depois da morte de Chiang. Os líderes de Pequim só admitem, porém, a solução da reunificação, como aconteceu com Macau, portuguesa desde o século XVI, e com Hong Kong, colónia britânica de 1841 a 1997.

Há num dos álbuns muitas fotografias de Aida, tiradas em Richmond Park, quando Franco Nogueira esteve colocado como diplomata em Londres no final dos anos 1950. Aproveito para pedir a Aida que me conte como se conheceram os pais, que é outra das histórias míticas da nossa diplomacia, durante muito tempo relembrada por quem fazia carreira no Palácio das Necessidades. Ri-se. É uma recordação feliz, que lhe agrada contar um pouco como terá ouvido tantas vezes contada pelo pai e pela mãe: "O meu pai é colocado no Japão em 1946, como representante de Portugal junto do alto-comando liderado pelo general MacArthur. Na altura os Estados Unidos ocupavam o Japão, que em agosto de 1945 se tinha rendido depois das bombas atómicas. Ele vai alojar-se em Tóquio no hotel onde viviam os estrangeiros não americanos. E ninguém fala nada que ele entenda e vice-versa. Mas percebem que é português e vão buscar a minha mãe. E aparece ela e a minha tia pequenina, com 10 anos ou coisa parecida. É no Japão que começa o amor deles e no Japão casam-se e ficam mais oito anos." Mas faltava a autorização de Salazar para que um diplomata pudesse casar-se.
O sim de Salazar ao casamento

"Houve uma peripécia: o meu pai, como diplomata português, não podia casar-se com quem lhe apetecesse. A autorização estava difícil porque naquela altura o meu pai não tinha nenhum contacto com Salazar, não o conhecia. A autorização é pedida, mas demora. Salazar exigiu ver uma fotografia da minha mãe porque alguém terá dito que era uma jovem comunista, revolucionária e aventureira e que não devia ser dada a autorização. O Salazar, com aquela calma dele, pede para ver a fotografia e quando a viu autorizou o casamento. Simplesmente, a minha avó Otília estava, por causa da demora, a tratar da viagem de regresso a Portugal, dela própria e das filhas. A viagem veio e as três embarcaram para Portugal, a caminho primeiro de Macau e, num dos portos em que o navio atracou, chega de repente um telegrama com a autorização do casamento e a minha mãe pegou nas suas coisas e voltou para o Japão. Só vêm para a Europa oito anos depois. Regressam para um posto para Londres e ficam aqui pouco tempo - o tempo de eu nascer, porque eu nasci aqui. Depois foram para Londres, tinha eu 9 meses", acrescenta Aida, hoje com 63 anos. Portanto, Vera, que saíra de Portugal com uns 3 anos, regressa mais de 20 anos depois. "Não tinha qualquer memória do que era Portugal e quando chega o português dela não era muito bom, apesar de já estar a melhorar. Mas o hábito dos meus pais era falar em inglês. Só mais tarde é que começaram a falar em português. E quando o meu pai se torna ministro dos Negócios Estrangeiros e ela acaba por ter um protagonismo público, aí já fala português corretamente."




Beijo de Aida a Franco Nogueira, quando o pai era diplomata em Londres.

© Arquivo da família Franco Nogueira

Ministro entre 1961 e 1969, com Salazar e depois, por pouco tempo, com Marcelo Caetano à frente do governo, Franco Nogueira teve de lidar com um período de grande isolamento internacional de Portugal, que se esforçou por contrariar, sobretudo junto dos países da NATO. No arquivo do DN são muitas as fotografias suas com líderes internacionais, destacando-se uma na Casa Branca com John Kennedy, a 7 de novembro de 1963, duas semanas antes do atentado em Dallas. Considerado um liberal na juventude, Franco Nogueira foi-se tornando mais conservador ao longo dos anos, mas mesmo Francisco Seixas da Costa, da geração de diplomatas que surgiu logo a seguir à revolução, reconhece o brilhantismo intelectual. E, diz ao DN, valoriza o antigo MNE por ter sabido rodear-se "para a "missão impossível" que fora defender o patético colonialismo tardio de Salazar, de muitos daqueles que eram, de facto, grandes funcionários das Necessidades, a esmagadora maioria dos quais viria a transitar, com escassos sobressaltos, para o tempo democrático". Já o antigo ministro chegou a ser preso depois do 25 de Abril e Aida recorda-se de ser acordada em casa por militares com G3 em punho. "Senti o frio do cano da arma encostado à pele", diz.




Franco Nogueira na Casa Branca com Kennedy.

© Arquivo DN
Fato para o verão, outro para o inverno

Constrangido durante uma década de tentar qualquer contacto com a China comunista enquanto chefiava a diplomacia do Estado Novo, já em 1979, quando João de Deus Ramos se instalou em Pequim, nada impedia Franco Nogueira de aceitar ajuda dos antigos subordinados (como era o caso do encarregado de negócios com cartas de gabinete) para tentar encontrar o sogro. E foi assim que chegou a licença das autoridades chinesas para a viagem de Vera Wang. Mao já morrera e Deng Xiaoping estava prestes a iniciar as reformas económicas, mas ainda era uma China pobre aquela que a luso-chinesa vai encontrar quando viaja em 1981, lá ficando um mês.

"A minha mãe contou-me algumas coisas bastante chocantes. Aliás, quando fez a mala ela sabia que o pai não tinha nem dinheiro nem roupa nem casa, não tinha nada, porque na China era assim, tinha um fato para o verão, um fato para o inverno, um pijama para o verão e um pijama para o inverno, acabou", relembra Aida. Que prossegue com o relato daquilo que viu e ouviu: "Era arriscado, mas mesmo assim, à cautela, levou algumas peças, uma camisa, umas calças, um pijama, mas nada de valor. Levou três ou quatro peças de roupa. Levou aquilo com que podia ajudar o pai sem ser ostensiva, sem ser revistada e presa também. Depois, para não ser muito ostensiva, teve muito cuidado nas roupas que levou, umas simples calças e uma blusa, de uma cor só. Mas sentiu a mudança dos tempos. Apesar de tudo ela sentiu que a ajudaram, se eles não quisessem que ela fosse lá não deixavam." Foi mais ou menos um mês que a filha passou na China com o pai. Conta ainda Aida que o avô tinha voltado a casar-se e que tinha uma filha jovem, engenheira. E que "ter conseguido ser professor, depois de todas as humilhações sofridas pelos letrados durante a Revolução Cultural, significava que se tinha conseguido reerguer". Mostra-me mais algumas fotos da mãe. "Era bem bonita, não era?" As fotografias respondem por si, mas quem conheceu Vera Wang fala também de uma autoridade natural. João de Deus Ramos recorda-se de um jantar em Lisboa em 1968, na legação da República da China, em que "a mulher do ministro, num tom firme mas cândido", o aconselhou "a usar os pauzinhos chineses". E recorda que Salazar tinha grande admiração por esta pequena luso-chinesa de personalidade forte a ponto de se "darem como deus com os anjos", sublinha o antigo administrador da Fundação Oriente.




Franco Nogueira, já MNE, e Vera Wang numa visita a Moçambique.

© Arquivo DN

Hoje com 76 anos, o nosso diplomata pioneiro em Pequim diz que se recorda bem do pai de Vera, que surgiu vestido tão pobremente que pediu desculpa. Pediu para ver os livros de João de Deus Ramos "e confessou que há muito não via tantos livros ocidentais". A ida à capital foi uma exceção, pois a maior parte do tempo foi passada em Xangai, onde, sublinha Aida, a mãe foi obrigada a procurar um hotel pois não a deixaram ir para a casa onde o pai vivia.

A despedida de pai e filha foi definitiva ao fim daquele mês de reencontro e muitas emoções. Wang Shuyao, que já deveria andar na casa dos 80, morreu "talvez uns cinco anos depois", diz Aida, que passou a receber cartas em inglês. Numa delas, que me relê em voz trémula, o avô aconselha-a "a viver perto da água e a olhar para o mar".

A notícia da morte "veio com fotografias dele morto. Alguém comunica, não se sabe bem quem, eu pelo menos não sei. Alguém comunica e manda umas dez fotografias da cerimónia em que ele está morto numa bancada de pedra." Não é coisa para se pôr num álbum de família, mas Aida conta que estão guardadas, "muito bem guardadas".


quarta-feira, 5 de setembro de 2018

opinião_manuel alegre



"Não consigo ficar calado"

"Sete séculos depois ardeu o pinhal de D. Dinis, o das "naus a haver", morreu o verde pinho do rei poeta. Dá vontade de chorar e não consigo ficar calado. É um símbolo triste da falência do Estado, fruto de décadas de desleixo, de incompetência, de amiguismos múltiplos, da submissão do interesse geral a interesses instalados e da capitulação perante lógicas que não são a dos fins superiores do Estado e do país. Olho o rosto do camponês publicado na primeira página do Público e não consigo ficar calado. É o rosto de séculos de pobreza, o rosto do Portugal esquecido e abandonado pelo próprio Estado democrático, o rosto daquela parte do país que foi deixada para trás quando a agricultura foi vendida a Bruxelas a troco de fundos para auto-estradas que hoje levam a lado nenhum. Um Portugal que já só existe nas páginas de Aquilino e de Torga. Vi as imagens televisivas, aldeias destruídas, casas a arder, homens e mulheres a defender com as próprias mãos os seus bens ou o pouco e quase nada que lhes resta. Vi outra vez automóveis calcinados, ouvi as notícias dos mortos e não consigo ficar calado. Porque passou a haver cada vez mais incêndios desde que foram extintas as quatro regiões militares e os governadores civis a quem cabia a respectiva prevenção e coordenação? Não sei. Só sei que se fizeram grandes reformas e que os meios de combate aos fogos foram saindo das mãos do Estado, entregues ou partilhados com empresas privadas. Não sou um especialista, mas é preciso corrigir o que não deu bons resultados. Vi o meu país a arder, sei que morreram cem pessoas em quatro meses e não consigo ficar calado. Talvez a culpa seja minha, porque fui deputado e participei na construção de uma democracia que a páginas tantas se distraiu e não soube resolver problemas estruturais, como o reordenamento do território e das florestas, assim como o combate ao abandono e à desertificação do país. Não se ouviu como se devia ter ouvido o arquitecto Gonçalo Ribeiro Teles. É certo que por vezes protestei, mesmo contra o meu próprio partido. Mas não foi suficiente. Não consigo calar-me e sinto-me culpado. Já disse que não sou um especialista. Mas acho que os meios de combate aos incêndios devem passar para o Estado. Os meios aéreos para a Força Aérea Portuguesa. E é óbvio que se torna urgente a criação de um corpo nacional de bombeiros profissionais organizado segundo normas e regras de tipo militar, como de certo modo já acontece em Espanha. Vai ser preciso enfrentar preconceitos e interesses instalados, mas este é um tempo em que é preciso coragem para tomar decisões para que o Estado não se demita de exercer as suas funções de soberania e seja capaz de proteger o território e garantir a segurança dos portugueses."
in: jornal DN





terça-feira, 4 de setembro de 2018

sobre a memória_artigo DN


"Lembrar, esquecer, inventar: que sabemos da memória?



De cada vez que nos lembramos de algo alteramos essa memória, diz um ramo da investigação recente; outro afiança que memórias, pelo menos as olfativas, podem passar de pais para filhos. Mergulho na complexidade de um mecanismo que nos permite recordar -- e esquecer - e que conforma e certifica a nossa identidade individual, mas também a da espécie: sem memória, que seria da consciência do eu?








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Fernanda Câncio - 03 Setembro 2018 — 23:07


Numa série recente de TV, Westworld, a memória é o tema principal. A ação passa-se num enorme parque de diversões onde máquinas de aparência humana - os anfitriões - vivem uma narrativa situada no faroeste. A cada um desses androides é conferida uma história pessoal com uma memória associada, mas essa memória é supostamente apagada no fim de cada ciclo de narrativa - geralmente quando são mortos, já que os humanos que visitam o parque podem matá-los e fazer-lhes tudo o que lhes apeteça, enquanto os anfitriões não podem fazer mal aos humanos. No fim de cada "ciclo", são reparados e a sua memória original reinstalada. Mas algures fica qualquer coisa - e a partir daí, da memória traumática que se vai acumulando dessas sucessivas "vidas", nasce a consciência de si e do papel que estão a desempenhar, e a revolta.

A questão da série, como de outras ficções como Blade Runner (1982), na qual o caçador de replicants (outro nome dado aos androides) os distinguia precisamente pela deficiente memória de infância, quando lhes perguntava pela mãe, é o que distingue o humano - o que é ser humano, ou como se é ou não humano. E de como a memória, como noção da história de vida e da individualidade, desempenha um papel primordial nisso. Uma espécie de "lembro-me, logo sou".

O argumento de Westworld é de Jonathan Nolan, irmão do cineasta Christopher Nolan, cujo segundo filme, com argumento de Jonathan, é o extraordinário Memento (2000), sobre um homem que perdeu a capacidade de criar memórias. A personagem de Leonard Shelby, interpretada por Guy Pearce, lembra-se - ou julga lembrar-se - de tudo até ao momento em que uma pancada na cabeça o tornou incapaz de formar novas memórias. Tem apenas alguns minutos de memória das coisas, até a perder. Ou seja: se entrar num café e pedir uma bebida, passados três ou quatro minutos já não sabe o que está ali a fazer, se já pediu, se já tomou alguma coisa. Para lidar com essa afeção, tira polaroides e toma notas - tem uma polaroide do seu carro, por exemplo, para o reconhecer --, mandando tatuar no corpo os factos mais importantes. O twist do filme, que é todo ele um twist por ser filmado em reverso, algo que só percebemos no fim, é que Shelby tira partido da sua própria afeção para se enganar a si mesmo, criando narrativas alternativas para justificar as suas ações sem sofrer dilemas morais. Algo que, naturalmente, pode ser visto como uma metáfora da forma como regemos a nossa memória - o que lembramos e esquecemos, ou como criamos a nossa própria história de modo a justificarmo-nos, ou seja, a sobreviver. Ou seja, de como todas as vidas são uma obra de ficção, na qual cada um de nós tem de acreditar, quer acreditar.


O homem que esquecia tudo

O grande feito de Memento, como muitos já disseram, é fazer o espetador comungar da afeção do protagonista: não há uma narrativa fluida, só a aflição de fragmentos que tentamos unir para encontrar um sentido, descobrindo que estamos sempre a enganar-nos sobre o que está a acontecer e obrigando-nos assim a refletir sobre o processo da memória...

Definida como a complexa forma como adquirimos, armazenamos, retemos e recuperamos informação, ou, como diz o psiquiatra Frederico Simões do Couto ao DN, "a capacidade de reter e utilizar secundariamente a informação", a memória divide-se em vários tipos. Há aquelas que duram apenas alguns segundos, e têm a ver com o darmo-nos conta de informação sobre o que nos rodeia (a chamada memória sensória); seguem-se as memórias de curta duração, que duram de 20 a 30 segundos; e finalmente as memórias que podem durar a vida toda, ou de longa duração. Esta classificação, conhecida desde 1968 como o modelo de memória de Atkinson-Shiffrin (cientistas americanos, ambos de primeiro nome Richard), cruza-se com outros conceitos de psicologia e psiquiatria, como o consciente e o inconsciente, correspondendo o primeiro à memória de curta duração e o segundo à de longa duração.

Mas como funciona isto exatamente? Sabe-se que diferentes áreas do cérebro estão envolvidas. O hipocampo é aquela em que as novas memórias se formam. Danos no hipocampo resultam na situação do protagonista de Memento; é também lá, frisa Frederico Simões do Couto, que se iniciam os problemas nos pacientes de Alzheimer, pelo depósito de uma proteína que bloqueia a capacidade de criar novas memórias; daí que comecem por perder a memória de curta duração, continuando a lembrar-se de coisas antigas (também essas se perdem com o avançar do processo degenerativo, até que a pessoa deixa completamente de saber quem é e de ter consciência de si).

A descoberta ou prova deste facto deveu-se a uma tragédia, a de Henry Gustave Molaison. Nascido em 1926 no Connecticut, começou a sofrer de crises de epilepsia aos 10 anos, provavelmente após uma queda de bicicleta. Em 1953, um médico sugeriu uma intervenção cirúrgica radical. Molaison concordou e foi-lhe extraído quase todo o hipocampo, assim como outras partes do cérebro, incluindo a amígdala. As crises de epilepsia melhoraram e, incrivelmente, Molaison conservou a sua personalidade e capacidade cognitiva em geral. Mas deixou de ter capacidade de formar novas memórias, como o protagonista de Memento. Os médicos responsáveis pela operação escreveram na altura: "Ele não consegue lembrar-se de onde é a casa de banho nem de coisa nenhuma do quotidiano no hospital." Podia ler a mesma revista todos os dias, por exemplo, achando que nunca a tinha lido: era um caso puro de amnésia anterógrada (em contraste com a amnésia retrógrada, em que o esquecimento diz respeito aos eventos anteriores a um trauma, mantendo-se a capacidade de criar novas memórias).

Praticamente incapaz de trabalhar, dependente de notas para se lembrar de tudo - se tinha tomado banho, se tinha almoçado, se a mãe e o pai ainda eram vivos ou já tinham morrido - Molaison, que não conseguia ter noção da sua idade por não ser capaz de se dar conta da passagem do tempo, foi para o resto da vida uma espécie de cobaia de laboratório, uma experiência viva sobre o funcionamento do cérebro. Quando morreu, em 2008, aos 82 anos, o órgão foi-lhe extraído para mais estudo.


Proust era um neurocientista?

Mas voltemos à forma como guardamos a informação. Saul McLeod, investigador em psicologia da Universidade de Manchester, explica em "Os estádios da memória - codificação do armazenamento e recuperação" como guardamos a informação: "Há três formas de a codificar. A visual (imagem), a acústica (som) e a semântica (significado)." E dá um exemplo, o de um número de telefone. Se o vemos na nossa memória, usámos a codificação visual; se o repetimos para nós próprios, estamos a usar o modo acústico. Segundo McLeod, a codificação acústica é a mais usada na memória de curta duração. Já na memória de longa duração, cuja "consolidação" ou "construção" demora algumas horas, a regra é a codificação por significado. Mas também pode usar-se aí a codificação visual e acústica. Há mais diferenças de codificação entre os dois tipos de memória: a de curta duração é guardada e recuperada "em sequência", a de longo termo por associação. E, mais uma vez, exemplifica: "Se numa experiência dermos a um grupo de pessoas uma sequência de objetos para memorizar e a seguir lhes perguntarmos qual o quarto objeto, eles terão de rememorar a sequência para responder; quando vamos ao primeiro andar buscar uma coisa e chegamos lá e não nos lembramos do quê, podemos recordar-nos se voltarmos ao sítio onde estávamos quando decidimos ir buscar a coisa."

Ok. Mas, e para usar um exemplo clássico e misterioso de funcionamento da memória, como é que um cheiro ou um sabor - como o do pedaço de madalena molhado em chá no romance Em busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, nos projeta num tempo e lugar que julgávamos esquecidos? Em Proust era um neurocientista, de 2007, o autor Jonah Lehrer, com formação em neurociência, procura demonstrar que aquilo que o romancista francês e outros contemporâneos descreviam na literatura foi décadas mais tarde "provado" pela ciência. No caso, como defendido em 2002 pela psicóloga Rachel Brown, que o olfato e o paladar são os únicos sentidos com ligação direta à área no cérebro onde são armazenadas as memórias de longa duração.

Esta informação ganha densidade face a uma descoberta (ou devemos chamar-lhe hipótese?) recente, a de que determinadas experiências, nomeadamente relacionadas com o olfato, stress e trauma, podem passar de pais para filhos. Uma equipa da Emory University (Atlanta, EUA) treinou ratos para temer um determinado cheiro, associando-o a choques elétricos. Tendo permitido a seguir que esses ratos se reproduzissem, a equipa detetou respostas semelhantes ao odor em causa na primeira e segunda ninhada. Os resultados, publicados em 2013 na revista Nature Neuroscience, permitem perceber, explica um dos cientistas responsáveis, Brian Dias, "como as experiências tidas por mães e pais, antes de se reproduzirem, influenciam tanto a estrutura como a função do sistema nervoso dos descendentes. Este fenómeno pode contribuir para a compreensão da etiologia e da possível transmissão intergeracional de risco para afeções neuropsiquiátricas como fobias, ansiedade e stress pós-traumático."

A ideia de que podemos herdar memórias, e nomeadamente medos e traumas, é tão surpreendente e inquietante como a de que o ato de lembrar altera o passado -- entendido não como o que aconteceu realmente mas aquilo de que nos recordamos. Não apenas, como crê a escritora Dulce Maria Cardoso, no sentido filosófico, ou literário -- "Estamos sempre a reconstruir. Costuma-se dizer que só o futuro é desconhecido e o passado é certo mas não é assim. O passado pode trazer tanta novidade como o futuro" - mas no sentido bioquímico, material.


Memória como plasticina?

Essa é a teoria de Karim Nader, neurocientista da Universidade de McGill, no Canadá, a da "maleabilidade da memória". Exemplifica-a, numa entrevista de 2011, com a sua lembrança do 11 setembro. A viver em Nova Iorque na época, estava a preparar-se para sair quando ouviu na rádio a notícia do ataque às torres. Subiu ao terraço do prédio - estava a menos de três quilómetros - e viu-as cair.

Da experiência desse dia faziam parte as imagens, vistas na TV, do primeiro avião a atingir as torres. Mas, veio depois a descobrir, só foram divulgadas no dia 12. Curiosamente, a sua perceção era a de muita gente: num estudo de 2003 em que se inquiriram 569 universitários, 73% diziam o mesmo.

A hipótese de Nader para explicar isto é que de que cada vez que recordamos algo, ou seja, "vamos buscar" uma memória, ela é reconsolidada, ou "reescrita". "O mero ato de lembrar afeta a lembrança", diz. "Pode ser impossível para os humanos ou outros animais rememorar algo sem alterar essa memória de algum modo." Memórias de acontecimentos como o 11 de setembro, crê, serão particularmente suscetíveis de ser alteradas por serem tantas vezes rememoradas. Ou, aventa-se, algo de especial significado para cada um de nós: o nascimento de um filho, a morte de alguém que amámos, o momento em que vimos pela primeira vez a pessoa por quem nos apaixonámos.

A explicação para isto prende-se com o processo "material" da formação e recolecção da memória. Crê-se que as memórias, de curta e de longa duração, envolvem um ajustamento nas conexões entre os neurónios; esse ajustamento ocorre através de alterações químicas nas sinapses - o espaço entre os neurónios -- e da utilização de proteínas. Se as memórias de curta duração correspondem a alterações químicas simples e rápidas nas sinapses, para construir uma memória duradoura os neurónios têm de trabalhar muito mais, produzindo novas proteínas.

Esta descoberta, que valeu ao neurocientista Eric Kandel a partilha do Nobel da Medicina de 2000, apontava no sentido de que uma vez criadas, essas memórias de longa duração tendiam a não mexer: daí darem-lhe o nome de memória "consolidada".

A ideia de que as memórias "antigas" não mudavam resistira a experiências que nos anos 1960 registaram o facto de ratos submetidos a choques elétricos ou a substâncias que afetavam um neurotransmissor específico aquando do relembrar (induzido) de uma determinada memória demonstrarem a seguir um enfraquecimento dessa memória. Nader resolveu voltar a essa linha de investigação em 1999, experimentando também com ratos, e chegou à mesma conclusão que os investigadores dos anos 1960. Experiências posteriores com animais e pessoas permitiram reforçar a ideia de que as memórias podem ser alteradas quando são suscitadas. Em 2013, uma experiência com eletrochoques aplicados a pacientes com depressão testou a teoria, concluindo que estes tinham dificuldade em lembrar os pormenores de uma série de imagens que lhes haviam sido mostradas antes dos eletrochoques. Uma das maiores esperanças que esta possibilidade oferece é a de que se possa reescrever a memória ou memórias que causam o stress pós-traumático.

Mas a ideia de que as memórias podem ser alteradas não é, na verdade, nova; há estudos mais antigos, nomeadamente os da psicóloga americana Elizabeth Loftus, que apontam no sentido de que é possível não só falsear parcialmente determinadas memórias - através de perguntas que induzem versões incorretas -- como criar memórias de acontecimentos que nunca existiram. Nas suas experiências, que procuravam criar nos objetos a memória de enquanto crianças se terem perdido num centro comercial, cerca de 30% descreviam o acontecimento como verdadeiro.

Dulce Maria Cardoso, cujo segundo romance, Os meus sentimentos, é a narração fragmentada, circular, contraditória, das recordações de uma mulher que se despistou no meio de um temporal e revê a sua vida, invoca uma das suas memórias de em criança: "A minha mãe contou-me que quando me levou para Angola eu rejeitei o meu pai, porque ele tinha barba, não o reconhecia. Durante muito tempo, julguei ter memória disso, tinha imagens, via a minha irmã, a minha mãe. Mas tinha seis meses, não é possível que me lembre disso. A memória é muito criativa."

É-o no que reescreve e "inventa" como no que faz desaparecer; a supressão da memória, sobretudo de acontecimentos traumáticos, é a outra face desta maleabilidade. Que sentido guia essas alterações desconhecemos. Como os "hóspedes" de Westworld e ao contrário do protagonista de Memento, que paradoxalmente, por tudo esquecer, controla o processo, só podemos interrogar-nos sobre o que sabemos de nós."

in: jornal "Diário de Noticias"