Apenas
uma coisa inteiramente transparente:
o céu, e por baixo dele a linha obscura do
nos teus olhos, que pude ver ainda
através de pálpebras semicerradas, pestanas húmidas
da geada matinal, uma névoa de palavras murmuradas
num silêncio de hesitações. Há quanto tempo,
tudo isto? Abro o armário onde o tempo antigo
se enche de bolor e fungos; limpo os papéis,
cartas que talvez nunca tenha lido até ao fim, foto-
grafias cuja cor desaparece, substituindo os corpos
por manchas vagas como aparições; e sinto, eu
próprio, que uma parte da minha vida se apaga
com esses restos.
Todos os navios se fundem num torpor
de nevoeiro e maresias
e o pássaro azul junto ao penhasco
soltou-se mesmo agora do pavor
das minhas mãos vazias.
É jovem a maré que se das algas
enlaçada em areia movediça
na boca da praia
e o seu último grito de brancura
salpica de espuma a minha saia.
Afasto o pesado manto de nuvens
que trago nos braços
frágeis como ramos partidos
trazidos ao areal onde cheira a resina
e sal, a gestos aos bocados
em agitação e deriva arrefecidos.
Um barco balança ao longe na corrente
que arrasta das noites sem tempo
o eco em alto mar do último resgate.
Ao horizonte lanço o meu olhar desfeito
afogado no massacre rítmico que se esbate
na ondulação das vagas do meu peito
recortando a imagem do teu olhar
gravado na face do rochedo
sobrevoado por corvos marinhos,
pelo vento, e pelo medo.
Em todas as coisas que procuro
existe um traço solene e obscuro,
refém da exaltação das ondas e dos astros.
Uma luz sem cor, intensa e derramada
na mesma antiga estrada de água
onde vagueiam altivos todos os mastros
içados em miragem e sonolência.
Lugar onde ninguém habita, e todas as cores
do dia pintam ao fim da tarde
os contornos da tua ausência.
Transparência de aquário onde arde
o derradeiro instante em movimento
de conchas, estrelas, verdes peixes
rutilantes em perene milagre lento.
Mesmo que sem um adeus me deixes.
Lemes, remos, sombras de uma velha nau,
viagens de quimera e de tormenta,
corações de papel, âncoras de pau...
Mas a minha alma tudo inventa
e encontra porto seguro onde se senta.

À memória de meu pai, no centenário do seu nascimento Hoje pensei na solidão dos pássaros quando as searas se incendeiam. E pensei em ti, pai, que partiste tão cedo como se tivesses vindo do lado mais desolado das sombras. O que sei eu das uvas entre os teus dentes no tempo das vindimas? Que pássaro de cinza, diz, te sobrevoou o verde do olhar? Se prolongasse o poema dir-te-ia como os meus olhos te lembram. Mas não posso. Vou devolver ao mar as conchas negras da minha colecção. Graça Pires De Caderno de significados, 2013 Publicado por Graça Pires
"Ninharia" de Ana Moura entre as cem canções favoritas da rádio pública dos EUA
ACTUALIDADELUSA20:47, 28 jun
O tema "Ninharia", do mais recente álbum de Ana Moura, faz parte da lista das cem canções favoritas deste ano da NPR, a rádio pública dos Estados Unidos, que emite para a totalidade do território norte-americano.
"Ninharia" é uma letra de Maria do Rosário Pedreira, que Ana Moura gravou na melodia do Fado Carlos da Maia de Sextilhas, e faz parte do alinhamento do álbum "Moura", editado em dezembro de 2015.
Na ocasião, em declarações à Lusa, Ana Moura afirmou que o CD "é aberto ao mundo, fazendo pontes entre diferentes tradições musicais, não esquecendo a matriz fadista", de onde a artista partiu.
O fado cantado por Ana Moura faz parte de um lista que inclui, entre outras, canções de artistas como Beyoncé, Anohni, Aurora, David Bowie, Chance the Rapper, Esperanza Spalding, Gregory Porter, Caleb Caudle, Fuego, Boris Giltberg, James Blake, Leyla McCalla e Kanye West.
"Moura", que dá título ao CD, é um tema que a poetisa Manuela de Freitas ofereceu à fadista, que o canta na melodia tradicional do Fado Cravo, de Alfredo Marceneiro.
Neste CD, pela primeira vez, a fadista canta autores como Samuel Úria, Jorge Cruz, Edu Mundo, Carlos Tê, Kalaf, numa composição de Sara Tavares, e José Eduardo Agualusa, numa música do angolano Toty Sa'Med.
O produtor de "Moura" é Larry Klein, que também produziu o álbum anterior, "Desfado". Todavia, a intérprete de "Os búzios" afirmou à Lusa que "não queria um 'Desfado dois', que foi tão 'fora da caixa', queria voltar a fazer uma coisa diferente".
"Este CD, o 'Moura', é mais atento aos pormenores", rematou.
NL // MAG
Lusa/Fim
DISCOGRAFIA
10. NINHARIA
(Letra de Maria do Rosário Pedreira e Música: Fado Carlos da Maia (Sextilhas))
Foi nessa noite maldita
Que abri a porta à desdita
De que só eu sou culpada.
Precipitada, incontida,
Expulsei-te da minha vida
Por uma coisa de nada.
Quando ela vinha a passar,
Cismei ver no teu olhar
Um brilho que me ofendia
E logo rompi os laços,
Atirei-te p'rós seus braços
Só por essa ninharia.
O que fiz não tem remédio,
Tudo é solidão e tédio,
Não mereço ser feliz.
Porque não fui eu capaz
De logo voltar atrás
E desfazer o que fiz?
Agora, quando te vejo,
Suspiro pelo teu beijo,
Mas nem pergunto aonde vais.
Chamo baixinho o teu nome
Na culpa que me consome,
Mas sei que é tarde demais.
Quando o Fim volta ao Início | Marco Rodrigues Autor da Letra: Tiago Torres da Siva Autor da Música: Alfredo Marceneiro Intérprete: Marco Rodrigues Fado Tradicional: Fado Menor com Versículo Letra: Nunca tive tanto amor para oferecer E sem ter a quem o dar vivo tão triste Já nem percebo se é dor ou se é prazer O que sinto ao recordar quando partiste Já nem percebo se é dor ou se é prazer O que sinto ao recordar quando partiste
Sinto ter chegado ao fim e no entanto Sei que o fim volta ao início para nós E que vai nascer em mim e no meu canto Esta dor que é o meu vício e minha voz E que vai nascer em mim e no meu canto Esta dor que é o meu vício e minha voz
Hei-de por os teus lençóis na minha cama Para quando adormecer longe de ti Lembrar que uma vida a dois para quem ama É razão para se viver como eu vivi Lembrar que uma vida a dois para quem ama É razão para se viver como eu vivi
E se hei-de entregar ao fado o nosso amor Este amor que terminou ao começar Mesmo que eu esteja calado e sem compor É no fado que eu me dou por te adorar Mesmo que eu esteja calado e sem compor É no fado que eu me dou por te adorar.
Um programa radiofónico semanal, de duas horas, com o Fado como conteúdo integral e de muito boa qualidade- Na Antena 1_ RDP, aos domingos (início da madrugada)_24.00h
O meu amor foi para o Brasil nesse vapor Gravou a fumo o seu adeus no azul do céu Quando chegou ao Rio de Janeiro Nem uma linha escreveu Já passou um ano inteiro
Deixou promessa de carta de chamada Nesta barriga deixou uma semente A flor nasceu e ficou espigada Quer saber do pai ausente E eu não lhe sei dizer nada
Anda perdido no meio das caboclas Mulheres que não sabem o que é pecado Os santos delas são mais fortes do que os meus Fazem orelhas moucas do peditório dos céus Já deve estar por lá amarrado Num rosário de búzios que o deixou enfeitiçado
O meu amor foi seringueiro no Pará Foi recoveiro nos sertões do Piauí Foi funileiro em terras do Maranhão Alguém me disse que o viu Num domingo a fazer pão
O meu amor já tem jeitinho brasileiro Meteu açúcar com canela nas vogais Já dança o forró e arrisca no pandeiro Quem sabe um dia vem Arriscar outros carnavais
Anda perdido no meio das mulatas Já deve estar noutros braços derretido Já sei que os santos delas são milagreiros Dançam com alegria no batuque dos terreiros Mas tenho esperança de que um dia a saudade bata E ele volte para os meus braços caseiros
Está em São Paulo e trabalha em telecom Já deve ter “doutor” escrito num cartão À noite samba no “Ó do Borogodó” Esqueceu o Solidó, já não chora a ouvir Fado Não sei que diga, ele era tão desengonçado Se o vir já não quero, deve estar um enjoado
01-Do Chiado Até Ao Cais 00:00 02-A Plenos Pulmões 03:17 03-Dia Novo 06:27 04-Recomeçar 09:27 05-Pomar 12:49 06-Con Toda Palabra 16:08 07-Trajei-me De Branco 19:21 08-Vai Mole A Manhã 22:10 09-Era A Voz 25:46 10-A Outra 29:19 11-Poema Do Viúvo Jovem 32:10 12-Comment Te Dire Adieu 35:03
RUA DA SAUDADE Canções de Ary dos Santos No ano em que assinala os 25 anos da morte de um dos mais talentosos poetas portugueses, Mafalda Arnauth, Susana Félix, Viviane e Luanda Cozetti reúnem-se para homenagear José Carlos Ary dos Santos. Numa selecção de 11 temas do vasto legado de Ary dos Santos, Rua da Saudade apresenta nova roupagem de canções singulares como Estrela da Tarde, Retalhos, Cavalo a Solta, entre outras. Um projecto único para se ouvir da primeira à última música, com interpretações que tocam diferentes sonoridades do pop, ao fado, passando pelo jazz e até o ritmo da bossa nova.
"Não apagues o amor" - tema do album "As Pequenas gavetas do Amor" de Viviane.
Apaga todas as palavras As palavras ocas Que trocamos à toa Que escaparam das nossas bocas
Que atiramos ao ar E cairam no chão Que dissemos em vão Apaga as palavras
Não apagues o amor Deixa-o arder à vontade Não apagues o amor Esse fogo sem idade Não apagues o amor Deixa-o arder a vontade Que nos venha queimar Não apagues o amor
O amor é fogo que arde Sem se ver... Quanto mais se tenta apagá-lo Mais se acende outra vez
Não apagues o amor Deixa-o arder à vontade Não apagues o amor Esse fogo sem idade Não apagues o amor Deixa-o arder a vontade Que nos venha queimar Não apagues o amor