quarta-feira, 29 de outubro de 2014

ADRIANO CORREIA DE OLIVEIRA - CANTAR DE EMIGRAÇÃO






emigração

Rio de fogo estendido
Em rasgado voo planado
Pássaro branco perdido
Num horizonte amado.

Jovem ainda em viagem
Com destino incerto e sombrio
Rasgo de espaço sem paragem
Dum porto inseguro sem brio.

Mar a tocar o céu
Em noite escura de breu.

Oh! Jovem sem pais
Avós e outros mais
Partiste só com as mágoas
Num caminho sem margens
Um destino no olhar
Perdido no verbo amar.


Oh! Jovem oráculo da verdade
Tanta saudade
Hás-de deixar
Presa à terra
E ao cheiro
Deste padecer sem luar.

Partes para terra fria
De gelo nos sentimentos
Emoções estranguladas
Nas tuas próprias razões
Já não há estrelas douradas
A guiar-te o percurso de anões
Dum horizonte esquecido
Na memória de menino ferido.

Lembras-te quando o ocaso
Aquecia o futuro do teu passo?


Eras criança com destino
Eras alegria todo o dia
Eras a mão guiada pelo chão
Eras tudo o que ainda não foste.
Ficavas preso ao deslumbre da noite
Sem medo do amanhã ainda cedo
Foste projecto e ambição
Foste o sonho grande num pequeno coração
Que batia sorrindo no carinho e paixão

Tanta emoção…

Hoje perdido olhas p’ra trás
E não vês o caminho de quem o faz
- Quem te levou ao momento
deste tamanho sofrimento?

(dia em que o T.C. chumbou a convergência das pensões)

Luís M. Castanheira_19.dez.2013

Banda do Casaco - Natação Obrigatória

Banda do Casaco - No Jardim da Celeste (1980, album completo)

Manuel Moua Guedes_Foram cardos Foram prosas

BANDA DO CASACO - MORGADINHA DOS CANIBAIS

Arte&oficiO 02

Anos 70' _Talvez a Maior Banda de Rock Portuguesa_


Arte & Ofício - Arquivo RTP 70's

Talvez a maior Banda Rock Portuguesa de sempre...
















Cante Alentejano - Hino ao Alentejo - Alentejo Alentejo.

Cante Alentejano_Taberna em Cuba - Baixo Alentejo

CANTE ALENTEJANO: PARA PATRIMÓNIO IMATERIAL DA HUMANIDADE !!!

terça-feira, 28 de outubro de 2014

sem título

Esta espécie de loucura
Que é pouco chamar talento
E que brilha em mim, na escura
Confusão do pensamento,
Não me traz felicidade;
Porque, enfim, sempre haverá
Sol ou sombra na cidade
Mas em mim não sei o que há.

(sem data) Fernando Pessoa

Ep. #6: Alentejo | The McNamara Surf Trip

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

sem título

Sim, sei bem
Que nunca serei alguém.
Sei de sobra
Que nunca terei uma obra.
Sei, enfim,
Que nunca saberei de mim,.
Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
Este lugar, estes ramos,
Esta paz em que estamos,
Deixem-me crer (até ver)*
O que nunca poderei ser.

*Deixem-me crer, até ver (primeira versão)

8/7/1931, Ricardo Reis (Fernando Pessoa) 



Já não há baleias no mar do Japão


Projecto Kaya - Fangolê




Andrea


Neste bairro que é Lisboa
Bairro alto, estendo o meu não á solidão
Sem lei
Sou boémia na cidade
Só sei
Que hoje a noite acaba tarde

Sem ter rumo ou direcção
Sigo a voz desta cidade
O meu fado é caminhar
É cantar na confusão

Liliana


Muxima
Muxima de Angola
Muxima
Muxima de Angola
É p’ra ti que danço
É p’ra ti que canto
Até ao amanhecer

Meu coração está no semba
Da tua canção
O meu fado é não chorar
É sorrir em união



Muxima L


Sou boémia na cidade A
Muxima de Angola L
Hoje a noite acaba tarde A
(Sem lei)é p’ra ti que canto L
É p’ra ti que danço, até ao amanhecer L
O meu fado é caminhar A
O meu fado é não chorar L
é cantar em união L A

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

David Mourão Ferreira_Obra Poética









É como se tivesses mãos ou garras
                              I


É como se tivesses mãos ou garras
milhões de dedos braços infinitos
É como se tivesses também asas
libertas do minério dos sentidos
É como se nos píncaros pairasses
quando nas nossas veias é que vives
É como se te abrisses - ó terraço
rodeado de abutres e raízes -
sobre o perene pânico dos astros
sobre a constante insónia dos abismos
E é como se te abrisses e fechasses
sobre a antepalavra do Espírito
É como se morresses quando nasces
É como se nascesses quando expiras

                               II

Ó claridade Ó vaga Ó luz Ó vento
que no sangue desvendas labirintos
Ó varanda no mar sempre Setembro
Ó dourada manhã sempre Domingo
Ó sereia nas dunas irrompendo
com as dunas e o mar se confundindo
Ó corpo de desperta adolescente
já no centro de incógnitos caminhos
que por fora te aceitas e por dentro
pões em dúvida o sol do teu fascínio
Ó dúvida que avanças mas por entre
volutas de pavor que vais cingindo
Ó altas labaredas Ó incêndio
Ó Musa a renascer das próprias cinzas

                              III

Só tu a cada instante nos declaras
que renegas a voz de quem divide
Que a única verdade é haver almas
terrível impostura haver países
Que tanto tens das aves o desgarre
como o expectante frémito do tigre
tanto o céu indiviso que há nas águas
quanto o múltiplo fogo que há no trigo
Que és igual e diversa em toda a parte
Que és do próprio Universo o que o sublima
Que nasces que te apagas que renasces
em procura da límpida medida
Que reges o mais puro e o mais alto
do que Deus concedeu às nossas vidas



David Mourão Ferreira
Ode à Música_Obra Poética
1948-1988

Editorial Presença



Casa
Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.

Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.

Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão. . .

Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que sem voz me sai do coração.



David Mourão Ferreira
Infinito Pessoal
(1959-1962)
Obra Poética
1948-1988

Editorial Presença

Vinicius de Morais_(soneto)


De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.


Vinicius de Morais

Cecília Meireles_Despedida

Despedida

Por mim, e por vós, e por mais aquilo 
que está onde as outras coisas nunca estão, 
deixo o mar bravo e o céu tranquilo: 
quero solidão. 

Meu caminho é sem marcos nem paisagens. 
E como o conheces? - me perguntarão. 
- Por não ter palavras, por não ter imagens. 
Nenhum inimigo e nenhum irmão. 

Que procuras? - Tudo. Que desejas? - Nada. 
Viajo sozinha com o meu coração. 
Não ando perdida, mas desencontrada. 
Levo o meu rumo na minha mão. 

A memória voou da minha fronte. 
Voou meu amor, minha imaginação... 
Talvez eu morra antes do horizonte. 
Memória, amor e o resto onde estarão? 

Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra. 
(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão! 
Estandarte triste de uma estranha guerra...) 

Quero solidão.

(Cecília Meireles)

The Sound of Silence_Simon & Garfunkel


quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Noturno

Miguel Araújo - Os Maridos Das Outras



Os Maridos Das Outras
Miguel Araújo


Toda a gente sabe que os homens são brutos
Que deixam camas por fazer
E coisas por dizer.
São muito pouco astutos, muito pouco astutos.
Toda a gente sabe que os homens são brutos.
Toda a gente sabe que os homens são feios
Deixam conversas por acabar
E roupa por apanhar.
E vêm com rodeios, vêm com rodeios.
Toda a gente sabe que os homens são feios.
Mas os maridos das outras não
Porque os maridos das outras são
O arquétipo da perfeição
O pináculo da criação.
Dóceis criaturas, de outra espécie qualquer
Que servem para fazer felizes as amigas da mulher.
E tudo os que os homens não...
Tudo o que os homens não...
Tudo o que os homens não...
Os maridos das outras são
Os maridos das outras são.
Toda a gente sabe que os homens são lixo
Gostam de música que ninguém gosta
Nunca deixam a mesa posta.
Abaixo de bicho, abaixo de bicho.
Toda a gente sabe que os homens são lixo.
Toda a gente sabe que os homens são animais
Que cheiram muito a vinho
E nunca sabem o caminho.
Na na na na na na, na na na na na.
Toda a gente sabe que os homens são animais.
Mas os maridos das outras não
Porque os maridos das outras são
O arquétipo da perfeição
O pináculo da criação.
Amáveis criaturas, de outra espécie qualquer
Que servem para fazer felizes as amigas da mulher.
E tudo o que os homens não...
Tudo o que os homens não...
Tudo o que os homens não...
Os maridos das outras são
Os maridos das outras são
Os maridos das outras são
Os maridos das outras são...

U2_Song for Someone_the Graham Norton Show


Cecília Meireles_A arte de ser feliz


A arte de ser feliz


Houve um tempo em que minha janela se abria
sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada,
e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde,
e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas.
Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse.
E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas.
Avisto crianças que vão para a escola.
Pardais que pulam pelo muro.
Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.
Ás vezes, um galo canta.
Às vezes, um avião passa.
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem,
outros que só existem diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.


Cecília Meireles

(sem título)

Pessoa, um homem infeliz, grandioso, até no sonho de ser tantos, e que nem dele conseguiu ser:



Tudo quanto penso,
Tudo quanto sou
É um deserto imenso
Onde nem eu estou.

(18/3/1935)_Fernando Pessoa


Se em certa altura
Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita,
Se em certo momento
Tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim;
Se em certa conversa
Tivesse tido as frases que só agora, no meio-sono, elaboro -
Se tudo isso tivesse sido assim,
Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro
Seria insensivelmente levado a ser outro também.

(11/5/1928)_Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)





segunda-feira, 20 de outubro de 2014

O meu olhar ...


O meu olhar ...

O meu olhar é nítido como um girassol...

Tenho o costume de andar pelas estradas,
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez en quando, olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes tinha visto.
Eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial,
Que tem uma criança se,
ao nascer reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento 
para a eterna novidade do mundo!


Alberto Caeeiro


destino


O destino plantou-me aqui
e arrancou-me daqui.
E nunca mais as raízes me seguraram
bem em nenhuma terra.

Ter um destino
é não caber no berço onde o corpo nasceu,
e transpor as fronteiras uma a uma
e morrer sem nenhuma.

Miguel Torga



domingo, 19 de outubro de 2014

Pai_Graça Pires

22.10.13

Pai

Georges de La Tour


À memória de meu pai, no centenário do seu nascimento

Hoje pensei na solidão dos pássaros
quando as searas se incendeiam. 
E pensei em ti, pai, que partiste tão cedo
 como se tivesses vindo do lado 
mais desolado das sombras. 
O que sei eu das uvas entre os teus dentes 
no tempo das vindimas? 
Que pássaro de cinza, diz, 
te sobrevoou o verde do olhar? 
Se prolongasse o poema 
dir-te-ia como os meus olhos te lembram. 
Mas não posso. Vou devolver ao mar 
as conchas negras da minha colecção.
Graça Pires
De Caderno de significados, 2013

A tremenda voz de um país calado_Graça Pires

4.1.14

A tremenda voz de um país calado

Magno Torres

Ouves? Não é um tumulto. É a tremenda voz de um país calado.
Não, não é um choro.São inúteis as lágrimas nos tempos da revolta.
Também não é uma reza. Há muito que os deuses não passam por aqui.
Podiam ser canções para enganar a mágoa,mas quem quer cantar agora?
Ouves? É o silêncio feroz dos que resistem.
Ignoremos, então, a exacta trama que nos deforma o pranto.
Cortemos o arame farpado que enlouquece as aves e os homens.
Quebremos os vidros que roubam a entrada livre do ar na planície do peito.
Passo a passo, a alvorada será a revelação do alento 
que, desesperadamente, imploramos. 

Graça Pires, 2014

sábado, 18 de outubro de 2014

Camané_sei de um rio



Sei de um rio…
Sei de um rio
Em que as únicas estrelas
Nele, sempre debruçadas
São as luzes da cidade
Sei de um rio…
Sei de um rio
Rio onde a própria mentira
Tem o sabor da verdade
Sei de um rio
Meu amor, dá-me os teus lábios!
Dá-me os lábios desse rio
Que nasceu na minha sede!
Mas o sonho continua…
E a minha boca (até quando?)
Ao separar-se da tua
Vai repetindo e lembrando
"- Sei de um rio…
Sei de um rio…"
Sei de um rio…
Ai!
Até quando?

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

um pedido

uM Pedido...



Sussurra-me
Entra em sintonia
Dança delicadamente em meus passos

Eleva-me
faz-me flutuar
permite-me levitar num ser em suspensão

Ensina-me
com toda a dedicação
Que as mais belas palavras são trazidas com o tempo

Traz-me
E envolve-me
Num mundo de harmonia em que tudo se torna perfeito
Em cada olhar
A cada palavra
Em cada suspiro
A cada momento...

Torna a simplicidade em eternidade
E amor em plenitude! 

Colibri
in: *Jardim de Palavras*,  9 de Setembro de 2009


Permite-me...sentir-te

Permite-me.. sentir-te!...

Estou isolada
numa ilha distante
naufrago em lágrimas
por um rumo perdido

Tento levar a força comigo
mas fujo do amor
refugio-me na solidão
perco a vontade de falar, rir, ou dançar..

Para onde foste alegria?
Para onde me levas destino?
O que esperas de mim vida?

Rastejo contra a tentação de correr
Quero e preciso de acreditar
que existe um lugar para mim!
Lugar onde seja possível voar

Vento, carrega-me no teu pairar
Sol, ilumina-me com o teu calor
Água, leva-me para onde devo de estar
Terra suporta o meu caminhar
Vida...
ensina-me a embarcar!

colibri 

in: *Jardim de Palavras*, 9 de Fevereiro de 2009



Velha Chica - Waldemar Bastos ft Dulce Pontes




Velha Chica


Antigamente a velha Chica
Formerly the old Chica
vendia cola e gengibre
selling cola and ginger
e lá pela tarde ela lavava a roupa 
and there in the evening she did the laundry
do patrão importante;
important to the boss;
e nós os miúdos lá da escola
us and the kids there from school
perguntávamos à vóvó Chica
we asked the grandma Chica
qual era a razão daquela pobreza,
what the reason was that poverty,
daquele nosso sofrimento.
that our suffering.
Xé menino, não fala política,
Xé boy, do not talk politics
não fala política, não fala política.
do not talk politics, not political speech.

Mas a velha Chica embrulhada nos pensamentos,
But the old Chica wrapped in thoughts,
ela sabia, mas não dizia a razão daquele sofrimento.
she knew, but he said the reason for this suffering.
Xé menino, não fala política,
Xé boy, do not talk politics
não fala política, não fala política.
do not talk politics, not political speech.

E o tempo passou e a velha Chica, só mais velha ficou.
And time passed and the old Chica, just got older.
Ela somente fez uma kubata com tecto de zinco, com tecto de zinco...!
She just made
Xé menino, não fala política, não fala política.
Xé boy, do not talk politics, not political speech.

Mas quem vê agora 
But who now sees
o rosto daquela senhora, daquela senhora,
the face of that lady, that lady,
só vê as rugas do sofrimento, do sofrimento, do sofrimento!
only see the wrinkles of suffering, the suffering, the suffering!
Xé menino, não fala política,
Xé boy, do not talk politics
não fala política, não fala política.
do not talk politics, not political speech.
E ela agora só diz:
And now she just says:
“- Xé menino, quando eu morrer, quero ver Angola viver em paz!
- X is a boy, when I die, I want to see Angola live in peace!
Xé menino, quando morrer, quero ver Angola e o Mundo em paz!” 
X is a boy, when I die, I want to see peace in Angola and the World! "


Romaria



Romaria

É de sonho e de pó
O destino de um só 
Feito eu perdido em pensamento
Sobre meu cavalo
É de laço e de nó
De jibeira ou jiló
Dessa vida
Cumprida à sol
Sou caipira pirapora nossa 
Senhora de aparecida 
Ilumina a mina escura e funda 
O trem da minha vida 
O meu pai foi peão
Minha mãe solidão
Meus irmãos perderam-se na vida
Em busca de aventuras
Descasei, e joguei
Investi, desisti
Se há sorte, eu não sei, nuca vi
Sou caipira Pirapora nossa
Senhora de aparecida
Ilumina a mina escura e funda
O trem da minha vida
Me disseram porém
Que eu vivesse aqui
Pra pedir em
Romaria e prece
Paz nos desaventos
Como eu não sei rezar
Só queria mostrar
Meu olhar, meu olhar, meu olhar
Sou caipira Pirapora nossa
Senhora de aparecida
Ilumina a mina escura e funda 
O trem da minha vida

Dulce Pontes & E. Morricone _ La Luz Prodigiosa _



La Luz Prodigiosa

Nana, ninõ, nana
Del caballo grande
Que no quiso el agua.
El agua era negra
Dentro de las ramas.
Cuando llega el puente
Se detiene e canta.
Quien dirá, mi niño,
Lo que tiene el agua con su larga cola
Por su verde sala?

Duérmete, clavel,
Que el caballo no quiere beber.
Duérmete, rosal,
Que el caballo se pone a llorar.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Ana Moura - Desfado




Desfado
Ana Moura

Quer o destino que eu não creia no destino
E o meu fado é nem ter fado nenhum
Cantá-lo bem sem sequer o ter sentido
Senti-lo como ninguém, mas não ter sentido algum
Ai que tristeza, esta minha alegria
Ai que alegria, esta tão grande tristeza
Esperar que um dia eu não espere mais um dia
Por aquele que nunca vem e que aqui esteve presente
Ai que saudade
Que eu tenho de ter saudade
Saudades de ter alguém
Que aqui está e não existe
Sentir-me triste
Só por me sentir tão bem
E alegre sentir-me bem
Só por eu andar tão triste
Ai se eu pudesse não cantar "ai se eu pudesse"
E lamentasse não ter mais nenhum lamento
Talvez ouvisse no silêncio que fizesse
Uma voz que fosse minha cantar alguém cá dentro
Ai que desgraça esta sorte que me assiste
Ai mas que sorte eu viver tão desgraçada
Na incerteza que nada mais certo existe
Além da grande certeza de não estar certa de nada




Ana Moura _ A Fadista_*2012 FNAC Chiado*




A Fadista
Ana Moura
Vestido negro cingido
Cabelo negro comprido
E negro xaile bordado
Subindo à noite a Avenida
Quem passa julga-a perdida
Mulher de vício e pecado
E vai sendo confundida
Insultada e perseguida
P'lo convite costumado
Entra no café cantante
Seguida em tom provocante
P'los que querem comprá-la
Uma guitarra a trinar
Uma sombra devagar
Avança para o meio da sala
Ela começa a cantar
E os que a queriam comprar
Sentam-se à mesa a olhá-la
Canto antigo e tão profundo
Que vindo do fim do mundo
É prece, pranto ou pregão
E todos os que a ouviam
À luz das velas pareciam
Devotos em oração
E os que há pouco a ofendiam
De olhos fechado ouviam
Como a pedir-lhe perdão
Vestido negro cingido
Cabelo negro comprido
E negro xaile traçado
Cantando pra aquela mesa
Ela dá-lhes a certeza
De já lhes ter perdoado
E em frente dela na mesa
Como em prece a uma deusa
Em silêncio ouve-se o fado
compositor: Ana Moura (Fado Primavera)
Àlbum: Desfado

Guitarra Portuguesa: Ângelo Freire
Viola de Fado: Pedro Soares
Contrabaixo: André Moreira