sábado, 8 de fevereiro de 2020

Ricardo Domeneck



[SOBRE O TEXTO] 
Este é um poema inédito, ainda
sem previsão de publicação em livro.

Pintura - Patrícia Brandstter

No começo era como uma areia
movediça. Um angu de caroço.
Pouco a pouco se engrossou
o caldo de enxofre nesse inferno.
Dia a dia cresciam os bolores
nos pães amassados pelo demo,
mas críamos ser nossas flores.
Ali vivíamos. “É a nossa terra,
nossa vida”. Semelhava um poço
de onde, ao menos, um sustento
colheríamos pra nosso proveito,
o nosso fim de anciãos bobos.
Cantava-se um samba glorioso.
Marchava-se de verde e amarelo
num dia esquecido de setembro.
Vinham as marés cheias de dejeto
e a cada janeiro, a cada agosto,
depositavam em nossas covas
a sua argamassa. Os seus tijolos
coziam-se aos poucos no calor
brando de nossa grã-paciência.
Hoje cá estamos, com o cimento
que nos abotoa até o pescoço.
Olhamos a paisagem lacrimosos.
Que belo país! À linha dos olhos
enxergamos já os sinais de fogo
e além dele um colosso deserto.
Ah! nosso colosso, nosso colosso.

Ricardo Domeneck é poeta; seus livros mais recentes são ‘Odes a Maximin’ (2018) e ‘Doze Cartas’ (2019), ambos pela Garupa Edições

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Manuel Resende _ 1948-2020

Com a manhã chuvosa veio a notícia:
Ontem morreu o Poeta.
Abro a janela, fumo um cigarro e fico a pensar
que “ A poesia e’ muito rara para ser desperdiçada em porcarias”
Quase nada dele sabia. 
Hoje, o tempo alinhou-se com a vida. 
a poesia é também esta água do céu caída em gotas a escrever poemas de
nostálgica sinfonia. 
Descanse em Paz, Manuel Resende. - lm





MANUEL RESENDE

A poesia é muito rara para ser desperdiçada com porcarias

Uma vida poética em 250 páginas. Poesia Reunida, de Manuel Resende, é um livro raro de um poeta raro. Insubmisso, desalinhado, descomprometido – excepto com o mundo.
 

“Ósenhora... não estamos aqui a perder tempo?”, com o sotaque do Porto bem vincado, já com a conversa a meio. Manuel Resende fazia uma pausa ao falar da sua poesia. “A minha poesia é uma colagem. Tem as mais diversas influências. Desde o Sófocles ao Rui Veloso e ao Sérgio Godinho; tem os Beatles, André Gide, Breton, Cesariny, Jorge de Sena... As coisas mais díspares. E as formas poéticas são as mais desencontradas e aparentemente desconexas. Eu atiro aquilo para lá e de vez em quando começa a sair um soneto, compreende?” Segundo o poeta, esta é a génese dos seus poemas. Cabem todos em pouco mais de 250 páginas, volume que acaba de sair numa edição da Cotovia com o título Poesia Reunida. Nele são visíveis as influências. Aquelas já referidas, e outras: Fernando Pessoa, Alexandre O’Neill, Rimbaud, Kaváfis, Aquilino Ribeiro, Manuel António Pina, Ruy Belo, Homero, Frei Bartolomeu de Las Casas, Walt Whitman, Adília Lopes. E ainda os dadaístas, os futuristas, os surrealistas, os concretistas. Tudo contido no total da obra poética de alguém que muito sumariamente se resume assim na sua relação com a poesia: “Começou muito cedo, mas não me entreguei completamente...” Porquê? “As condições do fabrico da poesia são muito más.”


Se há razão para Manuel Resende ter publicado tão pouco numa vida que acaba de fazer 70 anos, talvez seja esse descomprometimento com que encarou a sua poesia e a percepção, com o exemplo de António Maria Lisboa, da precariedade não apenas da produção como do lugar da poesia no mundo. Ele explicará mais adiante. Por agora fica essa dupla precariedade como justificação para terem sido apenas três livros numa vida, publicados entre 1983 e 2004: Natureza Morta com Desodorizante (1983), Em Qualquer Lugar (1988) e O Mundo Clamoroso, ainda (2004) a que se juntam agora alguns inéditos e dispersos.


Está sentado à mesa onde todos os dias lê e escreve. Uma superfície quadrada em que fica de costas para uma janela. À esquerda tem uma porta pela qual vai vigiando o cão a brincar no jardim. Não há sinal da sua poesia. Apenas um computador portátil aberto e um dicionário de grego sobre uma pilha de papéis à luz da tarde chuvosa que entra, filtrada. Quase em frente há o mar, mas não se vê dali. Separa-os a estrada e uma fila de casas. Manuel Resende cruza as mãos e, em silêncio, olha de frente com a timidez sem disfarce de quem não está habituado à atenção fixada em si. O seu nome costuma estar nos bastidores enquanto tradutor de poetas como Konstantinos Kaváfis, Odysséas Elytis, Kiki Dimoulá, escritores como Bertolt Brecht ou Franz Kafka. E é naturalmente pelos outros que começa a falar de si. “Aprendi grego a traduzir o Kaváfis”, afirma. E nem sequer era uma paixão. “Tenho respeito por ele, mas não é dos meus poetas preferidos. A tradução de poesia é diferente da do romance. A gente lê um poema e em cinco minutos está lido e aquilo fica ali e dá mais jeito para aprender a língua. Além do original, tinha a tradução do Jorge de Sena e outras e sabia aquilo. Fui percebendo a língua.” Foi em 1985, mais poetas gregos se seguiram. Mas, por essa altura, já publicara o seu primeiro livro. “Por mim, não tinha publicado. O Vasco Graça Moura, que estava na Imprensa Nacional [Casa da Moeda], queria fazer uma colecção de poesia e o Manuel António Pina sugeriu o meu nome.”
Se há razão para Manuel Resende ter publicado tão pouco numa vida de 70 anos — três livros, entre 1983 e 2004 — talvez seja o descomprometimento com que encarou a sua poesia e a percepção da precariedade do lugar da poesia no mundo.


Eram amigos. “Conhecemo-nos, porque eu ia muito ao Piolho [um café no Porto] e o Pina também. Nunca falávamos da nossa poesia, nem ele da dele, nem eu da minha. Havia muito em comum. Éramos de uma esquerda nova que não tinha nada que ver com o PC. Ele andava com as mais variadas pessoas, muitos católicos progressistas, e eu fui conhecendo muita gente. Gostava muito de falar com ele, aliás toda a gente gostava muito de falar com o Pina. Ele era um grande conversador e ficámos muito amigos. Foi ele quem me revelou os poetas americanos, da Beat Generation, por exemplo, ou Carl Sandburg. O [T. S.] Eliot, o Ezra Pound... Ele papava isso tudo, e isso distinguia-o porque naquela altura a cultura era a francesa. Era uma lufada de ar fresco. Imagine aqueles tipos da Beat Generation... diziam poemas para audiências, como na Grécia!”

Os dois tinham ainda em comum o mesmo nome, eram ambos Manuel António. Em Poesia Reunida, há um poema que Resende diz ter “roubado” à física moderna e, precisamente, a M. A. Pina. Chama-se Deve estar a brincar, senhor Feynman: “Onde estão as partículas elementares / Quando a gente não está a olhar? / A questão é de se pôr, só que elas estão, / Ou qualquer coisa, não sei o quê, em qualquer lugar.” Faz parte de Em Qualquer Lugar, o livro de 1998. Mas Pina não foi o único, esse roubo, esse contágio, melhor dizendo, é feito de uma enorme pluralidade que teve em Resende um filtro capaz de resultar numa marca singular. “Eu não tenho um estilo, ou o meu estilo é aceitar tudo”, refere, incluindo o que lhe veio da tradução. “Sim, isso tem que ver também com a tradução, porque acho que uma das coisas que me caracterizam é a aceitação das mais diversas correntes. Embora tenha uma filiação surrealista, não tenho uma filiação antagónica a ninguém. Aceito mais ou menos tudo. E, portanto, a tradução é uma das vertentes da minha experiência poética. É deixar falar em mim as outras vozes. Essencialmente foi isso que fiz na minha vida.”
Compromisso com o mundo


A poesia de Manuel Resende é comprometida com o mundo; mais do que isso, com a história do mundo, sublinha Osvaldo M. Silvestre no posfácio a esta Poesia Reunida. “Se algo define a poesia de Manuel Resende, é a forma como não evita as solicitações da História, que tende, aliás, a grafar com maiúscula, num gesto que se foi tornando raro no panorama da poesia portuguesa recente.” Confrontado com a afirmação, Manuel Resende encolhe os ombros. “Que acha?” E depois afirma: “Eu também escrevo sobre o quotidiano, mas nunca é um quantificado trivial e fútil. É sempre a pensar nas coisas, perdoe a presunção, nas coisas mais essenciais da vida.”

FotoDANIEL ROCHA
Há momentos mágicos em que o que está dentro de nós e o que está fora de nós se une; é o ‘acaso objectivo’, e esses momentos são preciosos na existência. Há pessoas que chamam a isto Deus. É lá com elas, respeito.

E que coisas são essas? Há nova pausa, breve. “A poesia é muita rara para ser desperdiçada com porcarias. Essas coisas são o amor, a liberdade...” Se houvesse um cigarro, como houve durante os muitos anos em que fumou, este seria o momento de uma baforada, e só depois continuaria. “É isso. E falo muito do tempo, porque o tempo é a natureza de que somos feitos. O ser humano é um animal muito delicado e frágil. Tem de aprender tudo, excepto mamar e fazer xixi e outras coisas que tais. Tem de ser ensinado, precisa de uma família, precisa de tempo, precisa de um lastro histórico. Senão, não existiríamos, nunca seríamos o que somos.”

É o momento para recuar bastante no tempo e tentar entender a ligação de Manuel Resende à poesia. Começou em casa. “O meu pai andava sempre a recitar poemas e eu li Fernando Pessoa muito novo, não tinha idade para aquilo, mas ia escrevendo umas coisas.” Começou a aperceber-se das vanguardas poéticas, e, entre futuristas, clubistas e expressionistas, escolheu a radicalização e reviu-se nos dadaístas. “O dadaísmo é uma reacção contra as condições de cultura e de literatura da sociedade. Uma reacção de rejeição de uma sociedade que, com tão elevada cultura, faz a II Guerra Mundial! Essa relação conflituosa com o mundo tal como ele é esteve sempre comigo.”

Por outro lado, a consciência das condições da morte de António Maria Lisboa, em 1953, aos 25 anos, vítima de tuberculose, sublinhou a ideia de precariedade que sempre associou à poesia. Lisboa fora um dos mais brilhantes poetas da sua geração, um abjeccionista, insubmisso face a tudo o que eram regras criativas e avesso à pretensão de transformar o surrealismo numa escola. “Morreu em pleno voo”, refere Manuel Resende, que, como o pai, se inscreveu num curso de Engenharia, enquanto fazia traduções. O primeiro trabalho pago foi um ensaio sobre a Comuna de Paris da autoria de Jacques Rougerie. Gostava de traduzir, mas o dinheiro era incerto e, quando abriu um concurso para jornalistas no Jornal de Notícias, concorreu e reencontrou o amigo Pina e ficou durante seis anos ligado à Economia. Mas foi o gosto pelas línguas, e em particular pelo grego moderno, que o levou a Bruxelas e a aceitar o trabalho de tradutor na então CEE, ainda Portugal não era membro. Conta esse percurso e refere Alexandre O’Neill. Um e outro com questões diferentes com Portugal. Para Resende Portugal são as pessoas. Viver em Bruxelas deu-lhe essa consciência. Para O’Neill era outra coisa. Há um poema em que brinca com uma das expressões mais conhecidas do autor de Uma Coisa em Forma de Assim, e noutro escreve: “Os teus versos perseguem-me pelos corredores, agarram-se-me à depressão ou à suspeita alegria para-fora, como uma caspa / inconveniente, mas sempre fiel amiga.” O poema chama-se Alexandre, o Grande, e Alexandre, o Grande, não é outro senão O’Neill.

Tudo se cola ao que escreve, parece querer dizer com as histórias que conta com a ajuda de uma oralidade que também está na poesia. Tudo se cola, parece também soar quando se lê o que escreveu nesse e noutros poemas, como em Voltar para casa. “Mas porque tem a pessoa de voltar para casa / E seguir o rasto das árvores no chão, / Pelo caminho conhecido, com o coração mirrado nas mãos / E as mão nos bolsos como um apontamento antigo? / Não haverá outra história para viver, um jornal para cada um, / E súbdita a esperança a queimar os lábios, a palpitar na boca, / Pronta a saltar e a arder todo o corpo? / Mas porque tem a pessoa de voltar para casa, / Cabisbaixa?”

Há, pois, uma coisa com O’Neill. Confirma: “Tenho um verso também que tem uma coisa do O’Neill, mas não foi de propósito. Lembrei-me, é uma questão que tenho comigo.” Sorri. “A dele era com Portugal”, volta a sorrir. Já a questão de Resende parece ser com o mundo. “Nós somos fruto da História”, a tal do h grande. “Somos um resumo do que se passou; o eu é uma luta constante para sobressair do magma. Faz-se contra o outro, mas com os outros.” É a individualidade no meio da História da civilização, a que se constrói no quotidiano. “Estou sempre a pensar nisso”, salienta. Quando escreve sobre amor e guerra, sobre lugares massacrados e a relação com o que chama “a ralidade”.

FotoDANIEL ROCHA
Comecei por lhe dizer que a minha reacção é um bocado uma reacção contra o mundo, mas compreendendo que somos um produto do mundo. Mas sinto-me fora do mundo.

Escreve-a assim: “S’a ralidade não me chatiar, / Não vou eu chatiar a ralidade. / Porém, essa megera sem idade / não tem tempo e fronteiras, não tem lar.”

O que é ralidade? Resposta simples, coerente com o que sempre escreveu e sempre disse. “Comecei por lhe dizer que a minha reacção é uma reacção contra o mundo, mas compreendendo que somos um produto do mundo. Mas sinto-me fora do mundo.” É apenas um dos paradoxos. “Todos somos um poço de contradições. A realidade que conhecemos é rala e reles. As pessoas que não têm dinheiro para acabar o mês, os soldados na guerra... Parecendo que não, é um dado quotidiano. Há uma música de fundo, mas é uma música de guerra, de conquista, de luta pelos recursos do planeta. É essa a nossa ralidade. É nessa realidade que a gente vive e contra a qual temos de afirmar o nosso eu; temos de reagir. Isto é profundamente político. Mas ninguém conseguiria dirigir as massas com um discurso como o meu.” Ri, uma gargalhada rouca, arrastada, com vontade. Porque não?, indaga-se. “Porque é um discurso que parece um bocado disparatado; é um discurso que quer levar à interrogação. Sou de extrema-esquerda, sempre fui, e acho que vou morrer assim. Um dos poemas do livro é uma reflexão sobre Rosa Luxemburgo, que dizia que cada morto é irredimível, e a gente não pode deixar de pensar nisso. Não me quero pôr acima dos outros, como grande defensor da moral, porque, se estivesse numa situação extrema, não sei qual seria a minha reacção, assim como não sei qual seria a reacção de todos os justiceiros. Mas a minha concepção é a de uma pessoa que sabe que vive no mundo, que não está acima do mundo. É uma tragédia, a tragédia em que vivemos sempre.”

Na poesia de Manuel Resende há a tragédia pessoal e a de quem esteve em Sarajevo, Auschwitz, num gueto de Varsóvia ou em Dubrovnik. Valem todas as existências que contam essa relação com o real, que fazem a História, que levam a pensar como será ser o Outro no contexto mais doméstico ou colectivo. Ser o soldado, a mulher, a vítima, o excluído. Por isso há tantas vozes na sua poesia, personagens com uma tremenda profundidade psicológica e filosófica. Algumas têm nomes, por vezes reconhecidos, mas a maioria são anónimas. “Às vezes falo como se fosse uma mulher. O Kaváfis tem isso, tem muitas vozes lá dentro. Mas muitas vezes tento pôr a voz feminina. Há uma coisa curiosa, à sombra do feminismo apareceu o movimento de libertação dos costumes sexuais e isso trouxe tanta coisa na minha geração.” O pensamento parece ir para longe e regressa logo depois. “Quero pôr em questão ideias feitas. Tentar entrar na pele do diferente para tentar chegar a uma unidade. É assim no amor, no sexo. Essa é a grande força do amor, a aspiração a uma ideia completa de vida. Ser uno com o outro.” A pele sensual que pode, mais uma vez, encerrar a tragédia. “Os seios dos poemas também são os seios que podem ter cancro e só a mulher vive isso, esse medo.” Quer tentar chegar perto desse sentimento. Por isso tanto ficciona como deixa entrar pessoas reais. “A maior parte das pessoas que estão nos meus poemas existe. Fantasio um bocado, depois elas entram. Digo-lhes: ‘Entra aí, rapaz, entra, rapariga.’

E depois há também outras personagens que são mais do que isso. Ou outra coisa, uma “coisa esquisita”, uma paródia ao Pessoa. “Eu estava a engendrar uma maneira de publicar poemas sem ser em meu nome e então inventei um.” Chamou-lhe Mika Ahtisaari. É finlandês, nascido em Tempere em 1960. São-lhe atribuídos os poemas finais deste Poesia Reunida. Ele terá vindo para Portugal no final da adolescência e é apresentado como “esquivo em contactos mundanos”, alguém que “tratava da sua horta biológica”, aspectos comuns a Resende, também ele fora da rede de contactos literários, de uma independência pouco comum nas letras, irónico como ele. “Pediu a M.R. que lhe arredondasse o português perro dos poemas que ia produzindo e, no final, teve esta frase: ‘São teus.’” Eis aqui os temas de Mika Ahtisaari por Manuel Resende. “Como uma cereja e, / Comendo a cereja, o meu corpo / Pede as cerejas todas do mundo, / Mas não posso comer as cerejas todas do mundo, / Pois faltam-me as cerejas que comeram / Sócrates, Hipasos de Metaponto / E os velhos camponeses da Gália, / Ou até os escravos de Roma. / Assim, como uma cereja / e deixo o gosto de a comer / Ficar em mim pelo gosto / De todas as cerejas que possa haver. / Uma cereja como todas as cerejas, / uma cereja por todas as cerejas.”

O heterónimo finlandês

Vê esta sua fase, a última publicada, como um regresso a Aberto Caeiro, que, no seu caso, é finlandês. Mas também como um modo de fugir. A quê? “Todos os meus livros acabam com uma despedida, um adeus até mais ver; praticamente todos dizem que não escrevo mais. Estava a fazer uma reflexão profunda sobre tudo isto, sobre a linguagem, sobre a filosofia, comecei a estudar os pré-socráticos e outras coisas engraçadas como a matemática babilónica... e o Mika Ahtisaari apareceu como uma maneira de escapar pela lateral e começar a escrever outro tipo de poesia, menos palavrosa.” Ainda não sabe bem o que é, nem se haverá mais. Sabe apenas que ao fazer um poema está “a afirmar uma aspiração que às vezes não é humana por excelência e a dizer: ‘Tomem lá disto e não me chateiem, eu não vos faço mal nenhum, não me aborreçam agora.’” “É uma afirmação de vida essencial para mim. É um acto de resistência contra toda a iniquidade que existe e não sei se é entendido como isso.” É um acto de resistência? “Para mim é um acto de resistência, sim.”

Contra a tal precariedade, ou apesar da tal precariedade de que falava no início da conversa. “A poesia não é uma coisa garantida. Não sei se vai morrer ou não, mas não há nada que a favoreça neste momento. Mas vale a pena lutar por isso.” Nem que não escreva nem mais um poema, porque depois deste livro não voltou a escrever poesia. “Tenho o projecto de traduzir o Heráclito e está a dar-me água pela barba. Está praticamente traduzido, o problema é a introdução. Tenho medo. Quando o Heráclito fala do logos, para mim é logos, é linguagem apenas.” Uma leitura recente consubstanciou essa sua convicção. Foi sobre o papiro mais antigo escrito na Grécia que apareceu recentemente. “Os papiros gregos desapareceram todos, porque, ao contrário do Egipto, a Grécia tem Inverno e chuva e aquilo estraga-se. Esse papiro, que é de 400 anos antes de Cristo, é curioso. Anda a ser estudado e tem uma coisa engraçada, uma citação do Heráclito que não aparecia nos Fragmentos [sobre a Natureza]. Tem uma linguagem que não se pode dizer que seja do Heráclito, mas os temas são semelhantes. Como dizer que a linguagem é comum, mas o vulgo, as pessoas, os muitos, não a percebe — ou seja, são poucos os que sabem a verdade. E há outra coisa: a crítica à linguagem. Ele põe as coisas assim: agora o Zeus comeu o pénis do Cronos?! Não pode ser, isso é simbólico, tem de se perceber que isso é simbólico. Zeus assenhorou-se do poder, porque o phalos é o poder, portanto assenhorou-se do poder divino do Cronos. Temos de compreender o que a linguagem quer dizer e não o que está lá escrito... Está a ver, é isto que me anda a ocupar.”

São interrogações como esta que também leva para a sua poesia. Ela não está a salvo de nada. Percorrer as páginas do volume que agora permite estar diante de toda a obra de Resende é perceber essa capacidade de englobar uma visão do mundo que não exclui — nem temas, nem formas, nem ritmos. “Experimentei vários ritmos num soneto, porque com a mesma métrica pode-se fazer ritmos muito diferentes.” E cita exemplos, lê alto a partir do ecrã do computador. Há muito tempo que não escreve à mão e nem a ler poesia se refugia no papel. E, na sua voz, ouvimos o erudito, o calão, o sarcasmo e a ironia, a voz da rua e a do filósofo. Parece haver cantigas pelo meio. “A ironia é para manter uma certa distância em relação à minha pessoa, à poesia, deixar-me contaminar. Estou sempre de pé atrás.” Há outra gargalhada, e para explicar o riso convoca à conversa um cantor francês, George Brassens. “Ele era um sujeito com uma cultura de língua muito profunda, capaz de misturar linguagem clássica, da Idade Média com a linguagem do dia-a-dia. É uma coisa saborosa, porque há indivíduos que fazem isso e parecem novos-ricos. Nele era autêntico. E contribui para dar sentido. Acho que — gaba-te, cesta — também consigo. E é então que regressa a Aquilino e a outra paródia que faz ao que também chama “mestre”. “Ele faz parte da minha poesia. Sabe qual é o poema?” Abre na página 41, pede que leia, alto, um poema a que deu o título Libertino Belisário em seu Jardim... e segue cada palavra em mais um texto onde se nota outra proximidade: a da paisagem. “Quando vivia em Santarém, gostava de muito de dar uma volta de carro pelo campo. Via o vale ao fundo, os prados, os campos... Olhava para tantas horas, tanto trabalho ali ao longo de décadas, séculos. Porque a paisagem não foi posta por Deus ali; o que vemos é a natureza humana, a natureza trabalhada pelo homem. É como se o tempo estivesse cristalizado em espaço.”

FotoDANIEL ROCHA

E, acrescente-se, como se cada um dos seus poemas fosse uma montagem de toda a multiplicidade de elementos até ela ganhar o sentido, transmitir a ideia. Como num filme. “É mesmo, vejo o poema quase como a montagem de um filme. Primeiro andamos às voltas e depois é preciso juntar aquilo tudo. Ou como fazer um bolo — é preciso seguir uma certa receita para a massa ficar leve.” Cozinha? “Cozinho sim, e estava agora a lembrar-me que tenho de arranjar uma solução para os falafel. Comecei a fazer há pouco tempo, porque como cada vez menos carne. Há um problema — se a massa tiver um bocadinho de água, quando se deita na frigideira, desfaz-se. É preciso escoar a água toda do grão de bico, mas isso pode resultar numa coisa muito seca. Há uma ciência, não é só misturar. A sabedoria, a mão do cozinheiro é que conta.”

Isso também vale para a poesia? “Não sei, acho que sim. Para mim, a poesia é uma espontaneidade muito bem estudada. Para se ser espontâneo é preciso um bocado de treino.”

E volta-se aos gregos, ao que falta ler. A Odisseia e a Ilíada no original, por exemplo. “Nunca li o Kalevala [poema épico finlandês]. Não li o Gilgamesh! É o primeiro poema! Gostava de ler essas coisas. Há outro livro de que gosto muito e leio aos pedaços, O Homem sem Qualidades, do Musil. Mas penso sempre que posso não ter tempo. Passei a pensar nisso, desde que recentemente passei por uma experiência de quase morte. Sempre que penso em começar um projecto, tenho medo de não ter tempo.”

in: Jornal "PUBLICO"

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Luanda_a cidade serpente



REPORTAGEM

"Luanda: para lá do fim onde tudo começa

Rui Ramos

3 de Agosto, 2019

Luanda não tem princípio nem fim. Sou do tempo da fronteira do asfalto que marcava a exclusão, do tempo das separações “raciais”, do tempo da prisão indígena no Zé Pirão, do tempo das rusgas do Poeira, do tempo do ataque do 4 de Fevereiro, do 15 de Março e da repressão sangrenta que se seguiu. Sou do tempo do 25 de Abril, dos massacres perpetrados pelos colonos mais reaccionários contra a população negra, sou do tempo da guerra de Luanda que marcou todo o ano de 1975.Fotografia: DR



Mas também sou do tempo presente de Luanda e em nenhum outro local do mundo me sinto tão bem. Luanda é o íman que atrai tudo e todos, apaixonada e indiferente, sedutora, sensual, louca.
Luanda não tem princípio nem fim, como o mundo. Antigamente, acabava na Circunvalação, que ninguém hoje sabe o que é, depois chamaram-lhe “retunda” e hoje é um viaduto que liga a Boavista-Sambizanga aos bairros a Norte, Comarca e por aí fora, passando pelo bairro da Sonangol, Uíge, Sucanor, Vidrul...
Não conheço todos os becos, só alguns, porque ninguém conhece Luanda; Luanda é uma cobra que se move sempre, não tem forma e ninguém a controla senão os habitantes dos “guetos”.
Por todo o lado a população é muito jovem e as famílias muito extensas. As mulheres têm o papel social mais relevante, parideiras, não abandonam nunca os filhos, se bem que os desmamem precocemente, por questões culturais e por necessidade de trabalhar. Mas a mulher, apesar do seu papel social, é dominada pelo homem, apoiada pela própria família dela, que toma quase sempre a defesa masculina.
Luanda tem muitas almas, mistura de todas as gentes de toda a Angola e de um pouco de África. Tem a sua própria maneira de viver, autónoma, independente do poder do Estado, o habitante de Luanda não gosta de ouvir falar de “Estado”, tem alergia ao poder, porque o poder é do soba ou do soma, o irmão mais velho da mãe, e mais nada. Por todo o lado, começando já perto de Caxito e vindo para Cacuaco, Vidrul, Cerâmica, Ngoma, Sonangol, Belo Monte, Boa Esperança, Kalwenda, Catanas, Paraíso, Kikolo, Kwanzas, Boavista, Sambizanga, Rangel, Marçal, a infindáveis Viana, os Zangos intermináveis e enigmáticos, Luanda Sul, Cassenda II, Calemba, Samba, Bairro Azul, Rocha Pinto, Vila Flor, Morro Bento, Benfica, Palanca, Chicala I, Chicala II, Grafanil, Katinton, Congolenses, Dangereux, Catambor, Shabá, Prenda, Morro dos Veados e ainda há mais para lá… a paisagem é a mesma, parecem fotocópias desbotadas espalhando-se com a brisa morna, húmida e salgada da Ilha, hoje completamente descaracterizada.

Amontoados desde 1974

Toda a gente começou a amontoar-se a partir de 1974, quando a população do interior fugiu de Luanda via estação do Bungo em intermináveis filas e começou a aparecer uma outra população, estranha, com novos hábitos, que ocupou Luanda, os “regressados” do Zaíre, que iniciaram as vendas no chão dos passeios.
Nessa altura, o Kikolo ainda era uma zona verde, o Paraíso de Luanda, ainda recordo a linda e frondosa floresta do Kikolo, com rabos de junco e ratos de palmeira, que a tropa portuguesa destruiu para impedir a penetração de “terroristas”.
Foram sobretudo as guerras, as cruéis e sanguinárias guerras puseram tudo de pernas para o ar, nos anos 1980, as populações fugiam em massa do Planalto Central e vinham para os armazéns abandonados do Porto de Luanda, depois acomodaram-se no Kikolo.
Do Norte vinham populações inteiras fixar-se na Sucanor (Sucata do Norte) e no bairro Uíge. Sem controlo. Sem qualquer plano urbanístico. Sem saneamento básico. De repente, de quinhentos mil, a grande metrópole passou para cinco milhões de pessoas amontoadas, dez milhões… um imenso contentor incontrolável.
Os velhos extinguiram-se, não existem mais. Em seu lugar, milhões de jovens levantam-se da terra vermelha, movendo-se como areia solta. Jovens com mães e jovens órfãos de pais falecidos ou vivos. Seres sem amor, sem um vislumbre de luz, correm para a cidade de asfalto para comerem a fome, que não se adia. A grande “cidade” é na verdade um extenso e esconso “musseque”, em todos os quintais há casebres e todos pagam renda, em todos os espaços as zungueiras guardam as suas mercadorias e pagam pela ocupação. Nas ruas dos ricos, milhares de rapazes controlam os espaços públicos, de rosto imóvel, subtraindo água de furos cirurgicamente feitos na rede da Epal.
Não há piedade nem solidariedade ou amor, há laços de necessidade porque a vida é muito dura, aqui tudo se paga, tudo tem um preço, nada se oferece. As crianças desmamadas entram no mundo adulto do funje de bombó ou de milho com folhas e muito sal e gatinham sozinhas, desde cedo muito sozinhas, na mente as primeiras palavras da mãe, “vou te batê”, homens e mulheres em miniatura fazem-se a si próprios não esperando ajuda de ninguém.
Os pais das crianças, dizem as mães, “viajaram”, isto é, fugiram, não educam nem cuidam dos filhos, é geral. Os homens são predadores sexuais, não dão prazer às mulheres, fecundam-nas, apenas, e as mulheres, sem medida de comparação, aceitam essa situação humilhante e degradante de submissão total.
Ir à escola é a maior ambição da criança de Luanda. Os pais vieram das províncias, fugidos da fome e da miséria, e querem, em especial as mães, dar uma vida melhor aos filhos. Mas em quase todos os bairros de Luanda escasseiam as escolas públicas. Há colégios privados e escolas comparticipadas às quais se devem pagar propinas e no dia 11 de cada mês os professores “xotam” os miúdos que não pagam.
Os becos, por todo o lado, os becos ladeados de casebres feitos de qualquer coisa, de tudo, panos, chapas, cartão, blocos, por todo o lado pedras a amparar os telhados de chapa, aqui vive gente, escondida, imóvel, espreitando o mundo. Nos becos não se circula de noite, os pobres assaltam os pobres, ninguém confia na Polícia. Quando um parente é preso, a família “cai” na esquadra indagando o preço da soltura e, em desespero, pede, pede, pede e quantas vezes consegue libertar um familiar assassino ou ladrão que volta ao bairro para continuar os seus ilícitos.

Nos bairros, tudo desarrumado

No “Quarenta” há lavras, a compra de terrenos é um problema, há sempre burladores por todo o lado que convencem os inocentes de que tudo está legal, mentem, a mentira em Luanda é uma escola e uma necessidade vital.
Nos “bairros”, a que ninguém chama “distrito urbano”, não há árvores, não há produção agrícola, não há indústria, tirando oficinas de reparação de tudo, oficinas de mobílias, até de robustos cadeirões.
Para lá de Cacuaco, na mais antiga Luanda, até para lá do Morro dos Veados, as casas não têm número de Polícia, apenas número da água e da luz, o controlo pertence a quem cobra facturas e não a quem deve garantir a segurança.
No Paraíso, penso que é lá, a ponte inacabada “Kavukila” está ali, feita e sem uso, porque não tem acessos, e ao lado crianças quase nuas e descalças brincam na lixeira, os pais inexistem.
Por todo o lado as crianças brincam com brinquedos de esgoto, de restos, com cães vadios cheios de pulgas e carraças que lhes mordem, meninos arranhando a coceira da pele seca do corpo com feridas, meninas com furúnculos por má nutrição. Já grávidas à saída dos dez. Neste universo que vou descobrindo, nenhum político se atreveu sequer a entrar muito menos a contactar, é outro povo, ali não se quer estar, suja, e os comités do partido estão tristes, só se reconhecem pela bandeira e pelas cores e em muitos lados as pessoas dizem-me tio não se vê presença de políticos, não vêm sujar seus sapatos nem respirar esta poeira, não lhes conhecemos. Os administradores raramente saem dos seus gabinetes climatizados. Os outros, as oposições, tem quem me diga, “estão aí escondidos, a gente fica só a ver no nosso silêncio”.

Festas, porque tristezas não pagam kilapis

Mas como tristezas não pagam kilapis, o povo gosta de festas, o povo não poupa valores, hoje é sempre hoje, o amanhã é só avante! Então, esta cultura única recomenda que óbito seja sete dias com cerveja sempre a deslizar, vêm pessoas dos quilómetros, dos municípios, render homenagem ao falecido que nunca viram, muitos faltam aos empregos e justificam, os chefes compreendem, também estão nos óbitos. Tem de se conseguir dinheiro para o funeral, para o caixão, pede-se aqui e ali e ali, o morto não pode ficar desembrulhado.
As festas de apresentação do namorado à família da menina estão presentes por todo o lado, com tios vindos dos municípios e toda a vizinhança, pretexto para o consumo de largas dezenas de grades de cerveja. Mas não se fica por aí, filha é capital de investimento, se começa a namorar o rapaz tem de cumprir os “deveres”, Pedido, é imperativo, pode chegar a um milhão, o “noivo” se desfaz em pedidos de valores a tios e mais tios, a família da donzela escolhe as marcas da cerveja, vinho e até exige bombons. Em Luanda, os pobres e os ricos estão sempre a festejar algo. Mas os pobres abusam, pois não vivem à custa do OGE. Os casamentos são sempre dois dias, aluga-se salão para continuação e é pretexto para mais uma ostentação do que não se tem.
As famílias estão sempre reunidas, com cerveja, pinchos e “conchas” de frango, para falarem da gravidez das sobrinhas, da violência doméstica e quase sempre o homem sai por cima e a menina é “posta na ordem” pela própria família que, se a “vendeu”, lhe exige submissão ao malandro.
Neste emaranhado de vidas vindas de todo o lado, a dieta-base é a fome. Ninguém come, se pergunto aqui e ali o que comeram, respondem-me “chá” e algumas vezes “arroz branco com mais nada”. Fubas de bombó ou de milho parecem ser cada vez mais estranhas a este povo que se despersonalizou também na gastronomia e já nem sabe a diferença entre lambula e paieta.

Comércio

O comércio é o Deus dos guetos, está por todo o lado, quem manda são os estrangeiros eritreus, oeste-africanos, donos dos armazéns por grosso, vimo-los no Rocha Pinto, Morro Bento, Dangereux, Benfica, Congolenses, vendem de tudo, tudo importado, Angola não produz nada, até leite “Bom Dia” já se importa, ninguém sabe de onde vem e a nossa galinha rija também é importada congelada.
À roda dos armazéns dezenas de milhares de rapazes imóveis oferecem o seu serviço. Vieram de Benguela, do Huambo, daqui e dali, muito jovens, sozinhos mas vivendo em grupo e dormindo em capoeiras, inteligentíssimos, se perdendo para a vida, carregam sacos, carregam tudo, menos os livros que deviam.
O miúdo Paizinho nos olha, vistas turvas, sem além, vindo de Benguela, sozinho na selva de poeira, como rato roendo o futuro. Muitos milhares de outros abundam, de rosto imóvel, indormidos, nas vias principais, por entre os carros, tentando vender qualquer coisa importada que adquiriram nos armazéns.
Lá longe estão as centralidades e os condomínios fechados, ficção mental, alucinação, grito que ficou por gritar; uma Angola proibida, onde outras alucinações acontecem, uma mentira para a qual o povo só olha.

Como um avultado de mortos-vivos

Não há produção, como se reproduz a vida económica? Com comércio de importação, de “frescos” congelados, de sacos de fuba importada, de bebidas importadas, de bolachas importadas de Portugal, de peças de carro importadas, importar é a palavra de ordem em Luanda.
Onde mora esta gente? Ninguém sabe, é segredo. Mas levaram-me a ver o interior desses “palácios do povo”. Os meus olhos choraram. Como é possível? Muitas galinhas vivem melhor. Tudo desarrumado e amontoado, como as vidas, colchões no chão, chapas, cartões, panos, isto não é habitação, isto é desumanidade, raparigas lindas, lindas, bem compostas, bem alisadas, vivem em compartimentos exíguos sem janelas, sem chão de cimento, com mãe, irmãos, primos, tios, tias. Num metro quadrado cabem 20 vidas, como se chegou a isto?
Em Cacuaco, vimos, a prostituição começa muito cedo, há zonas de influência, as mais novas ficam no Banco X, as mais adultas no Banco Y, à espera, vendendo-se por escassas centenas de kwanzas, que podem ser pagos no dia seguinte, porque não há empregos, não há caminhos nem rumos e a moral se desequilibrou, as raparigas aceitam tudo, dançar nuas em festas, "passa a patrulha", por copos de cerveja, cada vez mais jovens abraçando a vida do inaceitável, a depressão escondida e inexplicável instala-se... os suicídios...
Energia? O negócio dos generais, dizem-me, das Falas e das Faplas, têm o negócio dos petês com a Ende, nem sabem me explicar, eles é que fornecem a luz, rende milhões sem factura, dez mil em cada casebre, chega às 18h a luz murcha, fica metade, quando fica.
A água é outro grande negócio dos guetos e dos becos. Não há água. As mulheres acarretam na cabeça pesadas banheiras, sortudas porque o chafariz ainda deita e não estão a cobrar, ou compra-se água de qualidade duvidosa aos kaleluias, cem cada bidão e ainda se agradece o incómodo.
Para entrar nos bairros ou vamos de carro voando nos buracos, na lama e nos esgotos a céu aberto, ou vamos de moto-táxi, em alguns casos de candongueiro, mas os hiaces muitas vezes não aceitam entrar nos bairros, ficam-se pelas estradas. As viaturas não são eternas e as peças são muito caras. Não há transportes públicos dignos desse nome nos bairros de Luanda, o povo é como um amontoado de vivos-mortos, arrastando-se em todas as direcções, como respondendo a chamamentos, mas não, apenas tenta tratar da vida e conseguir valores para comer arroz, apanhar um "táxi", pagar a propina nos colégios ou nas faculdades ou o soro aplicado no centro de saúde para tratar a malária."

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

RTAngola_ 'rir da miséria'

Na televisão pública angolana foi emitido o concurso 'quem quer ser milionário'.

De algumas edições fizeram, no YouTube, um condensado com vários concorrentes, que por lá passaram.

O que para muitos parecia ser uma paródia, chacota ou motivo de riso, tornou-se para mim um momento triste e deprimente.

Naqueles olhos havia a inocente transparência, na angústia de quem enfrenta perguntas - para outros, simples - totalmente desconhecidas.

Exemplos: instrumento de cordas - (violino) "; crawl - (estilo de natação);
ou, morcego - (mamífero).

As respostas foram erradas como seria de esperar.
As pessoas não tiveram oportunidade de saber o que é um concerto musical, praticarem desporto ou saber da vida e a sua evolução.

Errado é a televisão pública importar e difundir formatos inadequados à cultura dum povo. Não apostarem seriamente em programas didácticos. 

E se Angola é rica em tradições...

Pôr de parte este tipo de concursos de pastel, que nada acrescentam e não passam dum novo-riquismo sujeitos ao ridículo, é o primeiro passo para contribuir para uma melhor educação e cultura. 

Nesse sentido, um verdadeiro serviço público deve relevar os valores seculares dos vários povos que compõem a nação e não o espectáculo redutor, que só serve para gáuleo duma minoria dita de élite.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Cristina Branco _álbum Idealist & Meu amor Meu amor(Meu limão de amargura) & Porque Me Olhas Assim






letra


Meu amor meu amor
meu corpo em movimento
minha voz à procura
do seu próprio lamento.

Meu limão de amargura meu punhal a escrever
nós parámos o tempo não sabemos morrer
e nascemos nascemos
do nosso entristecer.

Meu amor meu amor
meu nó e sofrimento
minha mó de ternura
minha nau de tormento

este mar não tem cura este céu não tem ar
nós parámos o vento não sabemos nadar
e morremos morremos
devagar devagar.

Ary dos Santos



eduardo martinsHá 6 anos

"Ela é perfeita. Voz, afinação, além de possuir uma pronúncia e dicção ímpares, melhores ainda que Ana Moura. Se Deus descobre, vai levá-la para cantar no céu. Chega a nos deixar embriagados. Demais, demais!"





letra

Diz-me agora o teu nome
Se já te dissemos que sim 
Pelo olhar que demora 
Porque me olhas assim 
Porque me rondas assim 
Toda a luz da avenida 
Se desdobra em paixão 
Magias de druída 
P'lo teu toque de mão 
Soam ventos amenos 
P'los mares morenos 
Do meu coração

Espelhando as vitrinas 
Da cidade sem fim 
Tu surgiste divina 
Porque me abeiras assim 
Porque me tocas assim 
E trocámos pendentes 
Velhas palavras tontas 
Com sotaques diferentes 
Nossa prosa está pronta 
Dobrando esquinas e gretas 
P'lo caminho das letras 
Que tudo o resto não conta 

E lá fomos audazes 
Por passeios tardios 
Vadiando o asfalto 
Cruzando outras pontes 
De mares que são rios 
E num bar fora de horas 
Se eu chorar perdoa 
Ó meu bem é que eu canto 
Por dentro sonhando 
Que estou em Lisboa 

Diz-me tu então que sou teu 
Que tu és tudo p'ra mim 
Que me pões no apogeu 
Porque me abraças assim 
Porque me beijas assim 
Por esta noite adiante 
Se tu me pedes enfim 
Num céu de anúncios brilhantes 
Vamos casar em Berlim 
À luz vã dos faróis 
São de seda os lençóis 
Porque me amas assim... 

Por que Me Olhas Assim?

- Fausto Bordalo Dias -

E, para finalizar, um concerto memorável, em Macau, acompanhada por Mário Laginha:



The Script Road 2016 - CRISTINA BRANCO full concert Macau Cultural Center - March 12th One of the most acclaimed voices in Portugal, Cristina Branco (March 12, Macau Cultural Centre) belongs to a generation of musicians that in the mid-1990s have found in fado their own way of expressing themselves (thereby contributing to an astonishing reinvigoration of the traditional song form of Portugal). Like them, Cristina has begun to define her own journey, in which respect for tradition walks hand in hand with a desire for innovation. For the singer, words have always been deserving of careful attention. Therefore, Cristina Branco is a singer of poets, amongst them the greatest in Portugal (Camões, Pessoa, David Mourão-Ferreira, José Afonso …) and abroad (Paul Éluard, Léo Ferré, Alfonsina Storni, Slauerhoff).

sábado, 7 de dezembro de 2019

Eduardo Viveiros de Castro_antropólogo_entrevista


AQUI: O Brasil visto de dentro.

"[...]Escolhido pelos leitores aliados da Agência Pública, parceiro do EL PAÍS, como entrevistado do mês, Viveiros de Castro recebeu na semana passada nossos repórteres para uma conversa de mais de duas horas, em seu apartamento, no Rio de Janeiro. A sua primeira entrevista após a eleição de Jair Bolsonaro havia sido aceita com uma dose de contragosto. “Não tenho visões especialmente inéditas e profundas sobre tudo o que está acontecendo. Estou apenas perplexo, como todo mundo”, disse, ao descrever o cenário atual como “um momento em que a palavra perdeu o fôlego, inclusive o valor. A gente não consegue mais distinguir a verdade da mentira”. Para ele, a verdade se tornou inacreditável.[...]"

José Sá Fernandes,_Entrevista




Esta e’ uma interessante entrevista que traça o carácter dum homem e as suas circunstâncias.
O que mais me impressionou nela foi, além da sua integridade moral, a abnegada entrega ‘as suas convicções, defendidas na prática pelo bem comum.
Bem gostaria de AQUI  saber a sua opinião quanto ao projectado aeroporto do Montijo. Um verdadeiro atentado ao equilíbrio do ambiente. Mas não tenho duvidas que será convictamente contra.
Traça os apertos de mão, dos políticos e tecnocratas, que são honrados e os que o não são.
Poderá ser o genuíno sucessor do arq.to Gonçalo Ribeiro Telles, o homem que mais defendeu o Ambiente. A obra que já tem, apesar das rasteiras sofridas, coloca-o nesse patamar. Como poucos. - lmc


“Tenho tido vários apetites para meter ações populares”



"[...]A poluição em Vila Velha de Ródão! Apetecia-me pôr uma ação popular para acabar com aquela porcaria, para se falar do resto do rio. Mas o que posso fazer como vereador? Mostrar agora tudo o que de bom há, e por isso vamos falar muito do Tejo: a nascente, as lezírias… Acredito, se calhar ingenuamente, que se mostrar o bom, é mais fácil não acontecer o mau. Tenho tentado fazer isto na vida, mas também tenho defeitos. E se agora estivesse como advogado gostava de meter uma ação contra o Bolsonaro. É um crime o que está a acontecer na Amazónia.[...]






Foto: Luís Barra
Em 2020, Lisboa será Capital Verde Europeia, uma importante conquista para a cidade e o reconhecimento da evolução feita na área do ambiente, na última década. Trabalho que tem a assinatura de José Sá Fernandes, o advogado irrequieto e polémico que tantas obras embargou pelo País e que, há 12 anos, é vereador do Ambiente da Câmara Municipal de Lisboa. As lutas, paixões, desilusões e conquistas do homem que nunca deixou de ser um ativista

Contei oito cigarros, mas podem ter sido mais os fumados durante as mais de duas horas de conversa, na esplanada do quiosque da Praça do Município, em frente à Câmara Municipal de Lisboa. Daqui até 1 de janeiro, José Sá Fernandes estará a queimar os últimos cartuchos em matéria de vício: prometeu que se Lisboa ganhasse o importante prémio da Capital Verde Europeia deixaria de fumar. Para surpresa e gáudio geral, Lisboa arrebatou mesmo o galardão, e para um homem de fé, as promessas são mesmo para cumprir. Tal como, garante, os acordos estabelecidos e os apertos de mão dados. O anúncio, nesta sexta-feira (29), da programação da Capital Europeia Verde que meterá todo o País a discutir o ambiente deu o mote para uma entrevista, em que passámos em revista os últimos 12 anos de José Sá Fernandes como vereador deste pelouro. Uma missão que sente praticamente cumprida.

Como um menino da Avenida de Roma se transformou num homem defensor do ambiente?

Bom, eu era um menino da Avenida de Roma, mas rebelde! [Risos.] Formei-me em Direito e, quando acabei o curso, estive 10 meses em Macau. Foi o meu primeiro choque com a realidade. Pensava: “Há aqui qualquer coisa que vai correr mal.” Quando voltei, estava já a exercer advocacia, interessei-me muito por Lisboa. Passava a vida a dar grandes voltas pela cidade e vi muitas coisas degradadas ou abandonadas, como o Convento da Graça, as arcadas do Terreiro do Paço, que eram armazéns. Senti que não queria a minha cidade assim e comecei a estudar o tema do património cultural e do ambiente. Tinha saído a Lei de Ação Popular, que permitia que qualquer pessoa pudesse intervir em defesa de interesses difusos, e achei que era um bom mecanismo para fazer qualquer coisa. Nesse âmbito, conheci o Gonçalo Ribeiro Telles [arquiteto paisagista e ecologista].

De que falavam?

Reuníamo-nos, para discutir a cidade de Lisboa, de uma maneira quase secreta, no Estrela da Sé que tem uns gabinetes. Dava um ar…

… de uma certa conspiração antissistema.

Sim! O Gonçalo é um mestre extraordinário… Nós, durante muitos anos, almoçávamos sempre de 15 em 15 dias – só nos últimos dois anos em que ele já não está em forma é que deixámos de o fazer.

Não tinha uma ligação à terra?

A minha primeira mulher tinha uma quinta em Tondela, e eu comecei a tratar dela porque o meu sogro tinha morrido. Ao mesmo tempo, o meu irmão estava a investir numa propriedade de família em Trás-os–Montes e a minha irmã numa do marido em Meda. Começámos os três ao mesmo tempo a ter uma ligação forte à terra; discutíamos o azeite, as vindimas, as batatas, as couves. Eu sempre fui muito curioso em relação às árvores, à botânica – não como o Bagão Félix, de quem eu gosto imenso e que é mesmo um “barra” naquilo, mas gostava muito de aprender.

E o irmão rebelde, o mais novo, era também o mais criativo, como dizem os estudos?

Na altura, era eu claramente o que tinha mais piada! Agora não sei. [Risos.] Mas eu estava sempre a inventar coisas. Cheguei a candidatar-me com duas ideias de negócio, mas deram-me logo “sopa”. Andava sempre a correr o País. Acho que sou de trato fácil, o que ajuda muito a falar e a conhecer pessoas e a dar-me bem com elas. Acho que quando me conhecem gostam de mim, mas também sei que há quem me odeie – normalmente, essas pessoas não me conhecem.

Criar empatia e construir pontes é essencial para se fazer trabalho?

Sim. E tenho sempre algumas máximas que me acompanham. Sou o mais novo de três juristas, cresci com um grande sentido de justiça. E uma pessoa para fazer justiça não pode olhar apenas para uma das partes, tem sempre de olhar para os dois lados de um problema. E no ambiente isso é essencial: não podemos ser completamente contra uma coisa; temos de perceber o que está em causa, e é preciso discernir e ter equilíbrio. Depois comecei a perceber o que resulta e o que não resulta: basta ver uma floresta bem cuidada e outra mal cuidada, uma paisagem protegida e outra destruída com um mastodonte, uma cidade que perde a sua silhueta… comecei a estudar. Às tantas disse: sou advogado, ninguém anda a trabalhar nisto, vou dedicar–me ao tema. Mas se há um interesse difuso, então não devo levar dinheiro. Passei a abrir o meu escritório às sextas-feiras, dia em que recebia pessoas, vindas de norte a sul do País, para tratar de questões ambientais ou do património cultural, e passei a ajudá-las a meter as ações.
Foto: Luís Barra


Então como ganhava a vida se não cobrava dinheiro?


Ganhava à segunda, terça, quarta e quinta! O escritório era pequeno, e eu era um advogado generalista, fazia de tudo. Um dia por semana, dedicava-me a tratar do que gostava realmente. Fiz coisas de Ponte de Lima até ao Algarve. Depois, claro, começou a não chegar a sexta-feira… Percebeu-se que era possível fazer alguma coisa em defesa do património e do ambiente, porque antes havia a sensação de que era impossível, de que não se podia fazer nada contra um despacho da câmara ou uma deliberação. Comecei a ter os primeiros ganhos de causa, com reconhecimento. Sempre que passo numa zona de Ponte de Lima, onde iam fazer uma ponte em cima de uma ponte romana, fico todo contente. Outra grande vitória foi quando consegui parar a autoestrada, que chamavam “panorâmica”, em cima da arriba fóssil da Costa da Caparica – como é possível alguém pensar em construir ali uma coisa dessas!? Com o Terreiro do Paço, foi a mesma coisa. Achava escandaloso que o Estado estivesse a ocupar as arcadas com garagens e armazéns. E queriam construir ali um túnel que eu embarguei e que, antes da decisão do tribunal, inundou. Isso deu-me notoriedade.

Como preparava as ações?

Não era uma coisa “parece-me bem, parece-me mal”. Socorria-me sempre de técnicos bons, estudava a história dos sítios e dos solos. Esta frente ribeirinha, por exemplo, é só lodo, como todos sabemos. Até que há a ação mais mediática do Túnel do Marquês.

Quando hoje anda pelas ruas de Lisboa, como as pessoas interagem consigo? Ainda há muita gente zangada por causa do Túnel do Marquês?

Algumas sim. E há pessoas que tenho conhecido ao longo dos últimos 12 anos que me têm uma aversãozinha por causa do túnel. Depois eu explico e elas dizem: “Eh, pá, então se foi assim, está bem.”

E o que lhes explica?

É muito simples, porque é a verdade. Tinha tido a experiência do túnel do Terreiro do Paço. Quando começaram a anunciar o do Marquês, pedi para ver o processo. Não me deixaram consultá-lo, o que era estranho. Pus uma ação em tribunal para pedir a consulta, e foram obrigados a mostrar-mo. Levei um engenheiro e um arquiteto para verem o processo: constatámos que não havia projeto; havia uma espécie de estudo prévio com umas plantas e mais nada. Não havia projeto de execução: ia-se fazendo e logo se ia decidindo! Mas, mesmo no estudo prévio, o túnel esbarrava no metropolitano. Ponho a ação por causa disso e com o argumento jurídico de que havia uma norma na lei que dizia que era preciso haver estudos de impacto ambiental. No julgamento que durou pela noite adentro, que parecia uma cena do Orson Wells, estava um desses grandes escritórios de advogados com um batalhão de gente a defender a câmara e, do outro lado, estava eu. E quem foi a grande testemunha que eu tive? O construtor que confirmou que não existia projeto e que o túnel esbarrava no metro, mas que isso era uma coisa que eles iriam ver. Os três juízes estavam boquiabertos e não tinham outra hipótese senão parar a obra. Durante o momento em que ela esteve parada, foram estudando e resolvendo estas coisas: a inclinação, a ventilação, a iluminação, tudo o que devia ter sido feito anteriormente. Mas uma coisa eles nunca resolveram: o metro. O LNEC, entretanto, sai com um parecer a dizer que para o túnel passar por ali teria de se reforçar o metro todo e, por isso, é que o túnel é inaugurado até ao Marquês, mas aquela passagem a seguir dura mais um ano.

É uma história que ainda o persegue. Valeu a pena?

Persegue, sim, mas valeu a pena. Aquilo de facto perturbou a vida de muitas pessoas durante um ano; sei que parar uma obra chateia toda a gente. Entretanto, saiu uma sentença do Supremo Tribunal que não analisa os factos, apenas vê se é preciso um estudo de impacto ambiental ou não, porque esse era o argumento jurídico que eu utilizei. Como a lei era dúbia, mandou desembargar a obra. E meteram-se grandes cartazes na rua: este homem é responsável por ter parado isto. Este malandro! Foi uma propaganda como eu nunca vi contra uma pessoa sozinha.

E a obra custou mais 40 por cento.

Isso não é verdade. Há coisas que custaram mais, porque eles não tinham o estudo feito e tiveram de mudar muita coisa para reforçar os túneis do metro. Mas a campanha foi muito intensa e as pessoas interiorizaram esta informação falsa.

Acha que se fosse hoje, com os temas do ambiente na ordem do dia e com as redes sociais, o desfecho teria sido diferente em termos de imagem pública?

Perdi, sim. Mas não sei se teria sido diferente – as redes funcionam com radicalismos… Se calhar era a mesma coisa. E a vida também nos ensina que temos de sofrer com as consequências do que fazemos com consciência, mesmo que essas consequências sejam injustas. O Presidente da Câmara de Paredes de Coura, que é um homem incrível, que faz daquele território milagres, costuma dizer-me: “Ó Zé, a gente tem de ter toucinho.” No fundo, o que ele quer dizer é que temos de ter caráter. Eu acho que tenho toucinho.

E hoje fala com Santana Lopes?

Cumprimento-o. Só há duas pessoas com quem eu não falo.

Quem são?

Aquele homem que me tentou corromper e o advogado que o defendeu, porque disse coisas inacreditáveis [Domingos Névoa, da Bragaparques, e Artur Marques]. E há um juiz com quem eu não falo, que anda aí e que também já foi acusado de umas coisas…

Rui Rangel?

Não aperto a mão a essa gente. Não faço fretes para parecer bem.

Espantaram-no algumas críticas que recebeu na altura, quando denunciou a tentativa de corrupção, através do seu irmão Ricardo, para viabilizar o negócio do Parque Mayer?

Bom, aquilo foi claríssimo, ficou provado em tribunal. O homem foi condenado e só não foi preso porque o crime prescreveu.

O seu irmão gravou tudo, foi um episódio de filme.

Sim, demos a cara por aquilo. Além disso, este é um País onde há complacência para com a corrupção, mas o meu irmão fez um trabalho extraordinário de firmeza e de caráter – ficou bem claro o quão podre isto andava.

Quando metia as ações populares, assinava sempre como “um homem de Lisboa”. Ainda é isso que o move hoje na política?

Sim, completamente. Eu não queria entrar na política; tinha uma ação cívica completamente descomprometida. Mas, nessa altura, Lisboa tinha vários projetos terríveis: construções no Vale da Montanha, no Casal Ventoso, em linhas de água… E havia caminhos extraordinários onde se devia investir, porque valorizariam a cidade, e onde nada era feito. Estava tudo num estado caótico e com problemas financeiros graves. E o Gonçalo, que já estava a desligar-se do Partido Monárquico, disse-me: “Ó Zé, tem de meter-se nisto. Temos de fazer aqui um movimento.” Eu disse que nem pensar, que não tínhamos estrutura, nada. Mas é nessa altura, em 2005, que me aparecem o Francisco Louçã, o Luís Fazenda e o Miguel Portas, no meu gabinete, a dizerem que gostavam muito que eu fosse candidato, uma coisa independente.

Qual foi a sua reação inicial?

Fiquei um bocado pasmo, porque não tinha nenhuma ligação ao Bloco de Esquerda (BE). Disse que ia pensar e, logo nesse dia, fui falar com o Gonçalo, ao Restaurante Paris. Telefonei para o meu irmão e para o António Barreto, falei com os três. “Tem de ir. Isto está o caos e é preciso meter o pé dentro da câmara”, disse-me logo o Gonçalo. “Mas, de certeza? Isto é pelo BE”, contrapunha eu. “Isso não interessa nada. O que interessa é lá entrar e termos o nosso programa”, dizia-me o Gonçalo. O meu irmão também me deu força, disse-me que eu devia deixar de ser Dom Quixote a lutar contra moinhos de vento e ir tentar mudar as coisas por dentro. O António Barreto, a mesma coisa, avisando-me: “Cuidado Zé, porque vai ficar com a cruz de o identificarem com o BE pelo menos durante 10 anos.” Fizemos um acordo escrito com o BE e lá fui. Nessa altura, já tinha posto a ação do Túnel do Marquês, mas não era ainda conhecida a decisão.

Como foram os primeiros anos?

Quando cheguei à câmara comecei a ver os processos
e a descobrir uma série de coisas inacreditáveis. O executivo não aguentou dois anos e houve eleições intercalares. A nossa associação, Lisboa é Muita Gente, foi com o BE. Mas disse sempre que, se houvesse hipótese de fazermos um acordo com o PS, o devíamos fazer. Eu sou eleito outra vez e liga-me António Costa.

Que já nessa altura mostrou ser um negociador hábil.

Sim. Fomos todos – eu, o tipo do BE, o António Costa, o Manuel Salgado e o Marcos Perestrelo – tentar um entendimento escrito: reunimos em casa do meu irmão e chegámos a um acordo, que foi sempre o mesmo e que assentava na estrutura ecológica da cidade: o que se pode e o que não se pode fazer, e como se liga a cidade toda em verde. A base era esta, e depois acrescentaram–se as questões da água, da energia, etc.

Ou seja, o plano que tem vindo a executar já estava delineado nessa altura?

Sim, com evoluções, mas a base era essa. Trago-lhe aqui os acordos assinados naquela época e pode meter um certo em tudo: está tudo feito! É muito gratificante. Quem me dera que o Gonçalo pudesse ir passear comigo agora e ver esta coisa… Mas isto fica e é um legado também dele.

Como foi a sua relação com o Bloco de Esquerda?

A pessoa vai aprendendo e apercebendo-se de como a política é traiçoeira. Percebeu-se logo que o BE não queria que se assinasse o acordo com o PS. É curioso… Antes disso, tinha apertado a mão, várias vezes, a Maria José Nogueira Pinto, do CDS, e a Rúben de Carvalho, do PCP, porque havia coisas que saltavam tanto à vista que concordávamos todos. E com eles bastou apertarmos a mão.

Infelizmente, já nenhum dos dois está cá.

Sim, eram duas figuras a quem apertávamos a mão e que cumpriam, porque era um caminho que tinha de se cortar. Eu avisava, ligava ao Carmona Rodrigues e dizia: “Olha que isso é um erro crasso.” Podem dizer de mim o que quiserem, mas não podem acusar-me de falta de transparência nem de deslealdade.
Como aconteceu a rutura com o Bloco de Esquerda?

Vou contar, porque acho que é muito sintomático da política e de como se fazem as traições e se inventam argumentos. Todas as semanas, reuníamos quatro pessoas do BE e quatro da minha confiança, que não estavam ligadas ao partido, para discutir como se aprovavam as propostas que iam à reunião de câmara. E pensou-se em entregar a medalha de mérito a Durão Barroso que, entretanto, tinha sido nomeado comissário europeu. Nesse encontro semanal, os representantes do BE disseram “sim, senhor, que nunca se pode estar contra uma medalha”. E eu apontei “votar a favor”.

Muito estranho, conhecendo o Bloco de Esquerda…

Pois! Quando cheguei à reunião de câmara, estava a achar aquilo suspeito e decidi não votar. Era uma reunião sem público, e eu saí da sala. Não votei…

Teve faro político?

Foi puro instinto. Mas ninguém sabia que eu não tinha votado! Quando chego lá a cima, já estava em todos os emails da concelhia: “Como é possível o nosso vereador ter votado a favor do Durão Barroso?”

Isso é uma bela história.

Isto é uma vergonha! Reuni a minha associação e disse-lhes: “Estes tipos querem fazer-me a folha.” Mas combinámos que resistiria, apesar da canalhice, e que nos iríamos preparar para a próxima. Fizemos um acordo, assinado por António Costa, e se ele não falhar no acordo, seguimos com o que era preciso fazer. Claro que o BE queria era acabar com o acordo e desfez aquilo.

Porquê, consegue agora perceber à distância?

Era uma questão nacional: o facto de eles estarem aliados ao PS em Lisboa trazia-lhes problemas e dava argumentos aos adversários na guerrinha com o PCP. Mas não se deve fazer isto a ninguém. Preparar armadilhas para não cumprir um acordo. Foi uma grande lição: percebi que há pessoas que apertam a mão sem querer e que há pessoas que apertam a mão com convicção.

Já António Costa é um homem conciliador mas de palavra?

O aperto de mão de António Costa é um bom aperto de mão: ele cumpriu com tudo o que tinha combinado comigo e com a minha associação. E é um homem muito sensível. Tenho reparado numa campanha que há agora para se passar a ideia de que ele não tem coração, e isso é mentira.

Vamos falar da Lisboa Capital Verde Europeia. Como se lembraram de concorrer a estes prémios, se nenhuma cidade do Sul da Europa alguma vez os tinha ganho?

Começámos a perceber que este trabalho feito era uma coisa única: unir o verde na cidade gastando pouco dinheiro. Conseguimos levar gente para os jardins: a ideia dos quiosques, que é minha, tinha como objetivo levar as pessoas para os jardins e fazer com que a cidade fosse apropriada pelas pessoas. Além disso, fizemos redução do consumo da água, utilização de energias renováveis com os painéis fotovoltaicos, introduzimos as bicicletas, tínhamos coisas para mostrar. Candidatámo-nos uma vez em 2015 e perdemos para Oslo, na final. Mas aprendemos como fazer. Apresentámos uma candidatura baseada na evolução, que foi enorme, e foi assim que ganhámos.

Quais foram os argumentos que mais pesaram?

A estrutura ecológica foi essencial: sendo uma cidade pequena e consolidada, para o ano conseguimos fazer mais 350 hectares novos face ao que existia há 12 anos. Isto impressiona e tem consequências noutras coisas: mais área verde, mais árvores, melhor combate às ondas de calor, mais zonas silenciosas, menos zonas poluídas, mais zonas de infiltração, melhor captura de águas. E temos mais áreas verdes e gastamos muito menos água do que gastávamos há 10 anos. E, um ponto fundamental, temos mais coesão social, porque a cidade está ligada, e os parques e jardins são zonas de toda a gente: não há sítio com mais liberdade.

Onde estava quando soube que ganhámos o prémio? E a quem ligou logo: ao seu mestre Gonçalo?

Eu estava lá! Infelizmente, o Gonçalo já não estava bem, mas teria ficado muito feliz por saber desta conquista da cidade para a qual dei um contributo de que me orgulho. Do que acordei detalhadamente em 2013, para o ano está tudo feito, à exceção de uma coisa ou outra de pormenor. E isso enche-me de orgulho, claro.

Como é a sua relação com Manuel Salgado, vereador do Urbanismo?

Eu e o Manuel Salgado tínhamos e temos muitas divergências na maneira de olhar para a cidade. Mas aí está a habilidade de António Costa. O que ele fazia? Ia passear connosco pela cidade, à meia-noite, à uma da manhã, durante horas. Íamos andando e vendo as coisas, e ele dizia: “Ó Manel, ele é capaz de ter razão nisto! Ó Zé, não sejas assim, olha que aqui isto fica bem!” Ele tem jeito para isto, não há dúvida alguma. E a aprovação do Plano Diretor Municipal foi essencial para abrir caminho para tudo o que foi feito depois. No meu pelouro ou não, há coisas visíveis e que ficaram feitas ou que ficam para o ano: Cais do Sodré, Campo das Cebolas, Praça de Espanha e ligação ao Corredor de Monsanto, Praça Humberto Delgado com a de Sete Rios; para o ano conseguimos ir de Belém até à Ameixoeira sempre em verde.

E há um número impressionante: 76% da população vive a 300 metros de uma zona verde.

Penso que até já estamos mais à frente. Tenho mais dois orgulhos: as bicicletas na cidade e os mercados renovados, onde tive sorte de ter bons parceiros: o da Ribeira e o de Campo de Ourique.

Mas as trotinetes estacionadas por todo o lado não perturbam a paisagem?

A mim não me perturbam nada. Acho que este boom foi uma coisa inesperada; agora só temos de arrumá-las. Se me perguntar se tudo correu bem… Nestes 12 anos, claro que nem tudo correu bem. Há coisas com que eu não concordo, evidentemente. Mas nestes apertos de mão que se dão – e eu dei dois a António Costa e outro a Medina –, há uma lealdade que se deve ter.

O que não correu bem?

Não posso dizer. Para o ano vou falar muito mais do que falei até agora, porque até aqui tive de manter alguma reserva, naturalmente. Vou dar-lhe um exemplo.

O projeto para o Rato?

Sou contra e votei contra! O edifício da Almirante Reis, sou contra. Há casos que eu não calo, e há outros que condescendo com contrapartidas. Condescendi por exemplo na Matinha, acho que a edificação aprovada é excessiva mas já vinha de antes. Então temos de ter um grande jardim na frente ribeirinha que está quase pronto e é espetacular.

No que diverge mais com Manuel Salgado?

É neste tipo de coisas. Eu acho que há sítios onde não se pode construir e ele tenta sempre arranjar um argumento de que é possível, porque depois não sei quê…

E ele tem consciência ambiental?

É muito melhor vereador do que os outros que estiveram cá. Estive em reuniões com vereadores, não vou dizer quem, que nem sabiam olhar para uma planta! O Manuel Salgado, como arquiteto, trouxe essa mais-valia para a câmara, além de outra: um belíssimo conhecimento da cidade e dos processos. Mas não é um ambientalista. Acho que podíamos ter feito muito mais construção sustentável do que a realizada até agora, mas ainda estamos a tempo de fazer isso. Acredito que a lealdade é importante e, apesar das divergências que são públicas e afirmadas mutuamente, acho que a última discussão sobre Manuel Salgado ser presidente da Sociedade de Reabilitação Urbana não faz sentido nenhum: é uma questão de coerência política, ele já era e continua a ser, deixa só de ser vereador da cidade.

Não devíamos ter feito mais para a evitar a gentrificação? Para que serve uma cidade cheia de espaços verdes se não tem habitantes lisboetas a viver no centro da cidade?

Lisboa está com mais habitantes do que quando eu cheguei. Mas a questão da habitação é um problema gravíssimo que tem de ser atacado e já o devia ter sido há mais tempo. Sempre defendi a renda condicionada e a renda acessível, isso está também nos nossos acordos. Percebia-se que depois da crise vinha aí um boom, e demorámos tempo a reagir. O plano que a câmara tem em mãos é bom, mas vai demorar uns anos. Precisamos de dez mil casas…

O que tem previsto de programação a partir de janeiro para marcar a Lisboa Capital Verde Europeia?

A programação vai assentar em cinco pilares. O primeiro é a informação: dizer às pessoas como estamos numa série de parâmetros essenciais – água, ruído, zonas verdes, poluição do ar – e ensinar-lhes como podem poupar água, energia, etc. Espero poder ter a maior coleção de livros de botânica alguma vez feita por portugueses. Vamos ter grandes exposições, algumas imersivas, em Lisboa sobre vários temas: reservas e parques naturais de todo o País, no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, mas também sobre água, no Pavilhão do Conhecimento, jardins históricos, energia, oceanos, resíduos… E envolvemos todas as instituições nisto: Oceanário, CCB, Gulbenkian, Culturgest. O segundo é a participação: das empresas, escolas e universidades. Vamos lançar uma série de concursos para envolver as pessoas. Por isso, aumentámos o orçamento participativo de 2,5 milhões para 5 milhões de euros. O terceiro e o quarto eixos são a valorização e o debate: vamos mostrar as coisas boas feitas em todo o País, em várias áreas, através de dezenas de conferências e conversas. A gestão das mais-valias é um bom debate para o Interior: mostrar as histórias boas que temos e como podemos fazer ainda melhor. E depois, para terminar, o compromisso: vamos assumir metas para 2030, para a câmara, para as empresas e para as pessoas.

Quando foi anunciado o prémio fez uma promessa. Pode contar?

Entrei na catedral da cidade e prometi que, se ganhasse, ia deixar de fumar a partir de dia 1 de janeiro.

É um homem de fé?

Sou, tenho essa coisa. Sou católico e, normalmente, não gosto de prometer nada, mas aquela saiu-me e agora é cumprir. Aqui na câmara ninguém acredita, todos se metem comigo. Mas eu sei o que prometi. É só no início do ano, quando começar a Capital Verde. [Risos.] Já viu o que eu fumo?

Vão apanhá-lo de mau humor, está visto!

Não, sou muito bem-disposto. Posso mesmo dizer que sou a pessoa mais bem-disposta do executivo da câmara – eles vão ficar furiosos, mas não faz mal. [Risos.]

E depois de Lisboa Verde? Está disponível para continuar na câmara nas próximas autárquicas ou quer fazer outras coisas?

Acho que depois de a estrutura ecológica estar feita, de o processo de água reciclada estar a andar, para o ano vamos ter a primeira central fotovoltaica para abastecer autocarros elétricos, terei a sensação de missão cumprida, mas também tenho uma grande necessidade de intervenção. Acho que os rios portugueses são lindos e há muito a fazer. A começar pelo Tejo.

E não gostava de fazer a mesma coisa numa outra grande câmara, como, por exemplo, no Porto?

Não, o meu pai era do Porto e eu tenho família lá, mas sou um homem de Lisboa e só consigo mesmo ser autarca aqui. Nem me vejo com cargos governativos. Sou uma pessoa de ação, e formar uma equipa para tratar de uma coisa ou outra entusiasma-me. Para já, quero que o ano corra bem e que haja uma discussão séria sobre o ambiente. Há muita desinformação, muito radicalismo, muito pouco equilíbrio na análise das questões.

E Fernando Medina seria um bom substituto para Mário Centeno, como recentemente se falou?

Acho que foi alguém que inventou isso, nunca falei sobre esse assunto com o Medina. Creio que o Centeno tem características que o Medina não tem. Mas um presidente de câmara tem um cargo muito exigente e uma agenda infernal, maior do que um ministro. É chamado para tudo.

Alguma vez se imaginaria presidente de câmara?

Nem pensar! O presidente da Câmara Municipal de Lisboa, no estado em que está a política, tem de estar ligado a um partido grande. E eu não me vejo num partido grande: essas coisas internas dos partidos, eu não saberia geri-las. Não percebo como dentro dos próprios partidos dizem tão mal uns dos outros. Em todos eles tenho assistido a ódios e a deslealdades. Não saberia fazer isso, não sei lidar com as tricas e os grupinhos. Para mim, são todos do mesmo partido e todos têm de trabalhar para o bem comum, mas nem sempre é assim. Também sei de irmãos que se odeiam, e eu e os meus irmãos damo-nos muito bem, não concebo outra forma.

Estes anos na política não domesticaram o homem da luta? Via-se a meter mais ações populares?

Ao longo destes 12 anos, tive muita vontade de meter uma ação popular sobre isto ou sobre aquilo! Mas não podia. O Tejo é um rio fantástico, cheio de sítios lindos, e qual é a única coisa que se ouve na última década acerca do rio?

A poluição?

A poluição em Vila Velha de Ródão! Apetecia-me pôr uma ação popular para acabar com aquela porcaria, para se falar do resto do rio. Mas o que posso fazer como vereador? Mostrar agora tudo o que de bom há, e por isso vamos falar muito do Tejo: a nascente, as lezírias… Acredito, se calhar ingenuamente, que se mostrar o bom, é mais fácil não acontecer o mau. Tenho tentado fazer isto na vida, mas também tenho defeitos. E se agora estivesse como advogado gostava de meter uma ação contra o Bolsonaro. É um crime o que está a acontecer na Amazónia.

Um ecocídio.

Sim, exatamente. Tenho tido vários “apetites” para meter ações populares. E há coisas que não me saem da cabeça. Como acabámos com as linhas do Tua, por exemplo, é uma delas. Um crime!

Ainda sente essa inquietude de fazer coisas?

Completamente. Houve muita coisa que se conseguiu fazer, outras nem por isso. Mas até posso dizer que houve uma ou outra que se passou aqui na Câmara Municipal de Lisboa que eu gostava de ter posto uma ação popular, mas não posso!

E não pode dizer que coisas foram essas?

Pois não… [Risos.]

Então, e os defeitos?

Sou muito ansioso. Muito. Estou a aprender a domar a minha ansiedade, mas é muito difícil…

As suas caminhadas na Natureza não o ajudam? Vai a Fátima a pé muitas vezes.

Sim, quase todos os anos. Andar a pé na Natureza faz muito bem. Sempre andei muito. Gosto de desfrutar das paisagens, tentar identificar as flores, perceber porque aquela rocha é assim… Andar a pé em peregrinação é diferente, há um foco no destino, e não penso em mais nada: há um vazio do pensamento durante quatro a cinco dias.

Que balanço faz destes últimos 12 anos?

Aconteceu muita coisa, é uma vida. Tive dois grandes amigos que morreram; a um já plantei uma árvore que visito sempre, a outro ainda não plantei, mas vou plantar. A minha filha cresceu imenso, tive duas netas… Casei-me, ganhei dois enteados que adoro. E cruzei-me com pessoas que foram muito importantes neste percurso: Pedro Bidarra, que inventou o slogan “O Zé Faz Falta”, Duarte Cordeiro – senti muito quando ele saiu do executivo camarário para ir para o Governo –, Ângelo Mesquita, um dos funcionários mais antigos da CML e que me acompanha desde a primeira hora nesta aventura, Susana Carvalho, que desenhou esta campanha para a Capital Verde por amor à causa ecológica… E ainda tenho amigos no BE: tinham, é um facto, aquele culto da tolerância com o outro que é extraordinário.

Como ficou a sua relação com Francisco Louçã? Também se cumprimentam?

Cumprimentamo-nos. E um dia destes convidei-o para plantar uma árvore: apesar de tudo, fez parte deste percurso. Gostava muito de ter todos os partidos a plantar árvores em Lisboa."
in: Revista "Visao"