domingo, 5 de abril de 2020

Fernando Pessoa_A última paixão







A última paixão de Fernando Pessoa não foi Ofélia, foi uma inglesa loira

No último ano de vida, Fernando Pessoa escreveu uma série de poemas sobre uma mulher misteriosa que lhe roubou o coração. O mais recente número da "Pessoa Plural" desvendou finalmente o mistério.


Fernando Pessoa conheceu Ofélia Queiroz em janeiro de 1920, numa das casas comerciais onde costumava colaborar. Tinha 32 anos, ela apenas 19. A primeira carta que lhe escreveu, datada de 1 de março desse ano, foi a primeira de muitas que testemunham o “namoro simples, até certo ponto igual ao de toda gente”, que durou até finais de 1920. Publicadas pela primeira vez em 1978 num só volume, as cartas surpreenderam “sobretudo ao revelar um Fernando Pessoa apaixonado como um adolescente”, como escreveu António Quadros. Eram de tal forma “ridículas” — como todas as cartas de amor têm de ser —, que levaram Carlos Queiroz, sobrinho de Ofélia que privou com Pessoa, a questionar: “Como teria sido possível ao mais poeta dos homens e ao mais intelectual dos poetas portugueses (e, aqui, a palavra ‘portugueses’ tem uma importância muito especial) libertar a tal ponto o coração de literatura?!”.
O fim daquela que é conhecida como a primeira fase do namoro entre Pessoa e Ofélia deu-se em novembro de 1920, sobretudo pela repugnância que o poeta sentia em integrar-se na família da namorada. Como ela própria contou mais tarde, durante os sete ou oito meses que durou o namoro, Fernando Pessoa nunca foi a sua casa. De acordo com José Gil, o namoro entre Pessoa e Ofélia revelou a incapacidade ou impossibilidade de o poeta “‘amar Ofélia à maneira de Ofélia’, de aceitar a máscara correspondente a um homem ‘comum, casado e tributável’”. “A aceitação desta máscara teria obrigado Pessoa – na opinião de Eduardo Lourenço – a matar ‘o monstro sublime da nossa imaginação que nós chamamos Literatura’”, escreveram os pessoanos Jerónimo Pizarro, Patricio Ferrari e Antonio Cardiello, no quarto número da Pessoa Plural.
Nove anos depois, em princípios de setembro de 1929, o namoro recomeçou, depois de Carlos Queiroz ter levado para casa um retrato de Pessoa a beber um copo no Abel Pereira da Fonseca. Ofélia achou-lhe graça e, passados uns tempos, Pessoa enviou-lhe uma cópia autografada com a frase que depois se tornou famosa: “Fernando Pessoa em flagrante ‘delitro’”. Esta segunda fase durou cerca de quatro meses — as cartas cessaram a 11 de janeiro de 1930. Terminava assim a história de amor entre Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz que, por se desconhecerem outras aventuras amorosas, costuma ser apontada como a única na vida do poeta. De tal forma que, em 1978, David Mourão-Ferreira, um dos responsáveis pela primeira edição das cartas de amor do poeta, afirmou categoricamente que não se conhecia nem era provável que tivesse existido qualquer outro “episódio sentimental” na vida de Pessoa. Mas será que foi mesmo assim?

 Fernando Pessoa em "flagrante 'delitro'" no Abel Pereira da Fonseca. Foi esta fotografia que desencadeou a segunda fase do namoro com Ofélia Queiroz (Wikimedia Commons)

Fernando Pessoa sempre foi conhecido como um homem reservado. Apesar da dimensão da sua obra, conhece-se melhor a sua literatura do que a sua vida. E isso sempre deu aso a especulações (algumas delas infundadas). Exemplo disso é um grupo de poemas que se refere a uma mulher “loura” e “casada”, o que levou a que alguns estudiosos tentassem descobrir a identidade desta mulher que Pessoa terá amado. Um dos primeiros terá sido o poeta e ensaísta espanhol Ángel Crespo, cujas pesquisas acabaram por não dar em nada. Um dos rumores lançados pelo espanhol, o de que Pessoa se teria apaixonado por Fernanda de Castro, mulher de António Ferro, até foi desmentido pela própria. Nas suas memórias, a poetisa considerou-o “absurdo” e descreveu o poeta como “calado, ensimesmado, de uma timidez que chegava a incomodar-nos”. Mas, de acordo com Manuela Nogueira, sobrinha de Fernando Pessoa, o tio sempre sentiu “grande admiração” por Fernanda de Castro.
A pesquisa, iniciada por Crespo, foi depois continuada por José Blanco, que ponderou a hipótese de a mulher misteriosa se tratar da mulher do advogado José de Andrade Neves, filho do primo e médico de Pessoa, Jaime de Andrade Neves. Quando Titita — como era conhecida entre os amigos — se casou com José, Fernando Pessoa não compareceu à cerimónia e enviou apenas um cartão. “Ciúmes talvez”, especulou Blanco que, durante as suas investigações, descobriu que, quando os dois foram apresentados, Pessoa disse a Titita que era “o bêbedo da família”. Apesar da estranha apresentação, os dois acabaram próximos. De tal forma que, quando a mulher do primo ficava doente, Fernando Pessoa ficava sentado à sua cabeceira, lendo-lhe livros. Segundo conta José Paulo Cavalcanti na sua biografia do autor da Mensagem, José Blanco conheceu Titita quando esta já tinha os cabelos brancos e perguntou-lhe se, quando era jovem, era loira. “Não. Os cabelos de Titita, como também os da sogra Georgina Cardoso, eram escuros”, escreveu o advogado brasileiro, lamentando-se que agora, também ele, anda à procura da “loura” por quem Fernando Pessoa se apaixonou.
Loiras à parte, a verdade é que a escrita de poemas de amor se intensificou no final da vida de Fernando Pessoa. Em 1935, ano da sua morte, o poeta produziu um número invulgar de versos apaixonados, o que faz levantar a hipótese de que, quando morreu, Pessoa estava apaixonado. Mas quem seria o alvo desta paixão tardia? José Barreto, historiador que se tem interessado sobretudo pelo pensamento filosófico e político de Pessoa, descobriu, por mero acaso, cartas inéditas que parecem ajudar a desvendar o mistério. O resultado da sua pesquisa, “A última paixão de Fernando Pessoa”, foi publicado no último número da Pessoa Plural – A Journal of Fernando Pessoa Studies, uma revista online de Estudos Pessoanos co-editada pela Universidad de los Andes, pela Warwick University e pela Brown University, onde existe um importante núcleo de Estudos Portugueses. Apesar deste último número ser dedicado à Coleção Fernando Távora, uma das mais importantes sobre o modernismo português, e incluir vários manuscritos inéditos — nomeadamente de poesia e correspondência de Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Raul Leal, Alfredo Guisado e José Régio, entre outros —, o contributo de José Barreto é um dos mais surpreendentes. É que, afinal, o último grande amor de Fernando Pessoa não foi Ofélia. Foi uma inglesa de cabelo “alourado” chamada Margaret.

A última paixão de Fernando Pessoa

No livro Fernando Pessoa, uma quase autobiografia, José Paulo Cavalcanti relatou que um dos sobrinhos de Fernando Pessoa lhe contou que o tio teria tido uma “relação misteriosa” com uma inglesa chamada Madge. “Ao que consta, teria havido uma certa simpatia recíproca”, admitiu João Maria Nogueira ao biógrafo brasileiro. “Mulher muito inteligente, consta que durante a última Guerra Mundial trabalhava na descodificação de mensagens cifradas dos alemães. Era muito culta mas tinha um ‘feitio’ algo complicado. Talvez por isso tivesse interessado ao meu tio Fernando.”
Não foi a primeira vez que o nome de Margaret Anderson — conhecida apenas por Madge entre os familiares e amigos mais próximos — veio à baila. Antes da publicação da biografia de Cavalcanti, em 2002, Manuela Nogueira já se tinha referido “vagamente a Madge” nas Cartas de amor de Ofélia a Fernando Pessoa, “identificando-a como ‘a inglesa’ de quem Ofélia falava numa das suas cartas para Pessoa”, refere José Barreto neste número da Pessoa Plural. Na altura, a hipótese não passava disso mesmo — de uma hipótese —, dada a falta de provas mais concretas. Além do mais, o sobrinho de Pessoa tinha garantido a Cavalcanti que a inglesa tinha “o cabelo castanho alourado”, não se podendo tratar, por isso, da “loura” de que Pessoa falava nos seus poemas. Só recentemente é que foi possível unir as pontas soltas e ligar definitivamente Madge a Fernando Pessoa. Tudo graças à descoberta de dois rascunhos de cartas, ainda na posse da família do poeta, e de uma terceira missiva guardada na Biblioteca Nacional de Portugal (BNP), em Lisboa.
“A rapariga inglesa, tão loura, tão jovem, tão boa
Que queria casar comigo…
Que pena eu não ter casado com ela…
Teria sido feliz
Mas como é que eu sei se teria sido feliz?
Como é que eu sei qualquer coisa a respeito do que teria sido Do que teria sido, que é o que nunca foi?”
— Excerto de um poema datado de junho de 1930, atribuído a Álvaro de Campos
Curiosamente, a descoberta não coube a nenhum especialista em literatura, mas a um historiador. “Não sou um homem das literaturas nem nada disso”, admitiu José Barreto em conversa com o Observador. Mas quis o destino que fosse o investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, especialista em história social e política portuguesa do século XX, a encontrar “umas cartas inéditas” que desvendaram um dos muitos mistérios que pairam em torno de Fernando Pessoa e a fazer uma “pequena digressão” pela vida amorosa do poeta, dando continuidade ao trabalho iniciado por Ángel Crespo e José Blanco, muitos anos antes.
Ángel Crespo foi um escritor, poeta e ensaísta espanhol “que se dedicou muito a Fernando Pessoa”. No final dos anos 80, publicou a biografia A Vida Plural de Fernando Pessoa, a primeira sobre o poeta escrita fora de Portugal. Foi mais ou menos nessa altura que “formulou uma hipótese que até então nenhum português tinha formulado, a partir dos poemas dos últimos anos de vida, sobretudo de 1935 — que Fernando Pessoa, sobre o qual já se dizia que a vida amorosa se reduzia a uma única história, a história de Ofélia Queiroz, morreu apaixonado”, explicou o o investigador, autor de Fernando Pessoa —Associações Secretas e Outros Escritos. Só que, apesar das inúmeras tentativas, Crespo não conseguiu identificar “o alvo da paixão”. “Depois dele, seguiram-se mais uns tantos, nomeadamente José Blanco, que nunca chegaram a resultado nenhum. Nunca conseguiram dados plausíveis sobre quem seria essa mulher casada, essa mulher loira.”
Mas José Barreto teve mais sorte. “Com base nestas três cartas inéditas que encontrei — uma encontra-se no espólio de Fernando Pessoa na Biblioteca Nacional e as outras duas no espólio que está na posse da família —, formulo uma hipótese de identificação.” Segundo Barreto, essa “mulher inglesa” seria nada mais nada menos do que a irmã de uma das cunhadas de Pessoa, Eileen Anderson, casada com o irmão mais novo do poeta, João Maria Nogueira Rosa, um bancário que vivia em Londres. Entre 1929 — quando já estava em vias de se divorciar do marido inglês — e meados de 1935, Madge fez “um número indeterminado” de viagens a Portugal. “Não consegui apurar se ela só veio duas vezes a Portugal ou se, entre essas duas datas, veio mais vezes”, admitiu o investigador. “Parece que sim, pelo que o sobrinho e sobrinha de Pessoa, ainda vivos, deram a entender, mas não encontrei provas. Baseei-me apenas em provas documentais. Não pretendi dar asas à imaginação. A minha investigação foi feita com base na correspondência e não me interessa mais do que isso.” O que é certo é que, algures nesse período, os dois começaram uma troca de correspondência que durou até à morte de Pessoa, no final de novembro de 1935. Pelo meio, o poeta escreveu dezenas de poemas de amor.
"Ángel Crespo formulou uma hipótese que até então nenhum português tinha formulado — que Fernando Pessoa, sobre o qual já se dizia que a vida amorosa se reduzia a uma única história, a história de Ofélia Queiroz, morreu apaixonado."
José Barreto

Mas quem era esta Madge Anderson?
Margaret Mary Moncrieff Anderson nasceu a 7 de setembro de 1904, em Cathcart, nos subúrbios de Glasgow, no seio de uma família irlando-escocesa “com plaid” e “muito conservadora”, de acordo com Isabel Murteira França, sobrinha-neta de Fernando Pessoa e sua biógrafa, que José Barreto cita no seu artigo. A sua irmã, Eileen, era três anos mais velha. Depois de completar uma licenciatura geral de três anos na University of St. Andrews, na Escócia, começou a trabalhar no Foreign Office, em Londres, tendo sido nomeada junior assistant desse mesmo ministério apenas três anos depois, em 1929. Aos 35 anos, depois de um casamento falhado com um jovem inglês, casou-se novamente com Frederick William Winterbotham, responsável por chefiar a Air Section do Secret Intelligent Service (SIS), de 1929 a 1945.
Foi mais ou menos nessa mesma altura que, segundo conseguiu apurar José Barreto, foi admitida em Bletchley Park (também conhecido como Station X), nos arredores de Londres, onde funcionou, durante a Segunda Guerra Mundial a Cypher School, onde eram decifrados os complexos códigos alemães. Meses depois, foi transferida para a sede do SIS, em Londres. Isto significa que o boato que circulava na família era mesmo verdade — Madge trabalhou mesmo na descodificação de mensagens alemãs durante a guerra. Depois do final do conflito, continuou vinculada ao Foreign Office. O seu casamento, contudo, terminou em 1946 e não existem indícios de que tenha tido filhos. Morreu a 3 de julho de 1988, aos 83 anos. “Ou seja, semanas depois do centenário do nascimento de Fernando Pessoa”, frisou José Barreto.
O historiador acredita que a troca de correspondência com Fernando Pessoa começou no verão de 1935, depois de o poeta ter recebido um “enigmático postal ilustrado inglês” assinado por Madge. Ou melhor, “aparentemente” assinado por Madge. É que, apesar de o nome da inglesa aparecer no final da mensagem, escrita em inglês, a caligrafia não corresponde à sua. O postal sem data, nome ou endereço do destinatário, “foi aparentemente enviado de Inglaterra dentro de um envelope e o destinatário terá sido, muito provavelmente, Pessoa, uma vez que se encontra no seu espólio. A caligrafia poderá eventualmente ser de Eileen”, avançou o historiador. Depois disso, sabe-se que foram trocadas, pelo menos, duas cartas “em cada sentido”.

“Muito obrigado pela tua carta simpaticamente agressiva do dia… — não, não é de dia nenhum, pois veio femininamente não datada”, escreveu Fernando Pessoa, em inglês, num rascunho datado de 9 de outubro. Esta é a última carta que se conhece enviada pelo poeta a Madge Anderson (Coleção Particular de Manuela Nogueira)
A primeira carta que se conhece (o seu rascunho encontra-se com a família do poeta) foi enviada por Pessoa, no verão ou princípio do outubro de 1935. Nessa missiva, o autor da Mensagem pede desculpa a Madge pelo seu “desaparecimento” durante a sua estadia em Lisboa, em abril ou maio, justificando-se com uma crise depressiva. “Esta minha carta será simplesmente um pedido de desculpas. Chegaste aqui quando eu estava a afundar-me e por cá ficaste até eu me ter afundado”, escreveu Fernando Pessoa. “Desde então, já voltei à superfície, mas teria dificuldade em dizer que superfície se trata. Lamento muito tudo o que se passou, isto é, a minha descortesia em ter desaparecido, mas não perdeste nada com o meu desaparecimento, que foi a melhor ação que alguns resquícios de decência poderiam ditar a um homem praticamente perdido para tudo isso.”
Não se sabe qual foi a resposta de Madge a esta carta. “Sabemos, porém, que ela realmente respondeu com uma ‘carta simpaticamente agressiva’, como Pessoa lhe chama em nova missiva sua, datada de 9 de outubro de 1935”, escreveu José Barreto. Esta mensagem — também ela um rascunho em posse da família — é a última que se conhece escrita pelo poeta à sua paixão inglesa. Até à publicação do artigo de Barreto, esta ainda não tinha sido identificada como sendo para Madge Anderson porque não inclui nenhuma referência ao destinatário.

Primeira página da carta enviada por Madge Anderson a Fernando Pessoa, datada de 14 de novembro de 1935. Pessoa só a terá recebido alguns dias antes da sua morte, a 30 de novembro (Biblioteca Nacional de Portugal, Espólio 3)
Madge demorou várias semanas a responder a Pessoa. A sua resposta, datada de 14 de novembro, encontra-se no espólio pessoano da BNP e já era conhecida de alguns investigadores. Contudo, nunca tinha sido publicada, talvez por “ser muito difícil de ler”. “Escapou aos chamados salteadores da arca perdida”, brincou José Barreto. Nessa carta, a última que Madge escreveu a Fernando Pessoa, a inglesa diz que “adoraria estar novamente de partida em visita” a todos em Portugal. “Escreve-me outro pequeno poema em breve e ensina-me a levantar o ânimo, tal como eu tentei fazer contigo!”, disse, referindo-se ao poema “D.T.”, que Pessoa anexou à sua última carta. Mas isso nunca viria a acontecer. Fernando Pessoa morreu poucas semanas depois, no Hospital de S. Luís dos Franceses, em Lisboa. José Barreto não encontrou indícios de que, depois disso, Madge Anderson tenha voltado a Portugal, como tanto ansiava.
“Não, nada é certo.
O teu amor poderia
Tornar-se melhor do que eu
Posso ser ou tentar.
Mas nunca poderemos saber —
Querida, eu não posso saber
Se o açúcar do teu coração
Não se tornaria rebuçado…
Deixo, pois, o coração doer
E bebo aguardente.”
— Excerto do poema “D.T.” (abreviatura de Delirium Tremens), traduzido por José Barreto, com colaboração de Ricardo Vasconcelos
Se as cartas não forem suficientes para convencer os mais céticos, ainda existem os poemas de amor, alguns deles reunidos por José Barreto em “A Última Paixão de Fernando Pessoa”. “Uma coisa que eu digo neste artigo é que Fernando Pessoa era uma pessoa extremamente reservada”, afirmou o historiador ao Observador. “Conhecia muita gente, mas amigos íntimos tinha muito poucos. Portanto, a vida privada era uma coisa sagrada para ele. Ninguém sabia onde morava, etc. Preservava muito a sua intimidade e a sua vida pessoal. É preciso notar que 90% da poesia que ele escrevia era para a arca, não era para publicar. Nessa poesia, ele abre-se mais em relação à sua vida afetiva”, como fez em “D.T.”, um poema “alcoólico ou pós-alcoólico” que descreve “sucintamente a encruzilhada psicológica do autor, posto perante a escolha entre o alcoolismo e o amor, optando afinal pelo brandy, embora saiba que lhe matará a alma”. Contudo, é sempre preciso ter “um cuidado extremo” porque Pessoa tinha jeito para disfarçar. “Introduz dados que, de certo modo, fantasiam um pouco. Esconde aqui, esconde acolá. Nunca é completamente claro e aberto e há que ter isso em conta”, disse José Barreto, salientando, porém, que “são tantas as provas na poesia que escreveu em português, inglês e até em francês nesse ano” que é difícil ignorar.
“De facto, a hipótese do Ángel Crespo era muito sólida”, admitiu. “Parti desse princípio. Em 1978, quando foi editado pela primeira vez o conjunto de cartas de amor de Fernando Pessoa a Ofélia, David Mourão-Ferreira disse no prefácio que, tanto quanto se sabia, era o único episódio sentimental da vida de Pessoa e que era improvável que houvesse outra história. Nunca acreditei nisso. De facto, a poesia de amor não é muito abundante, mas há muita coisa que não encaixa na história da Ofélia.” Mas, ainda assim, a interpretação de Barreto não deixa de ser apenas uma sugestão e o investigador faz questão de deixar isso bem claro: “Não posso provar [que Pessoa estava realmente apaixonado por Madge], nem provavelmente alguém poderá. É uma hipótese que tem base, que tem fundamento e que é preciso considerar”.
“Quando foi editado o conjunto de cartas de amor de Fernando Pessoa a Ofélia, David Mourão-Ferreira disse que, tanto quanto se sabia, era o único episódio sentimental da vida de Pessoa e que era improvável que houvesse outra história. Nunca acreditei nisso.”
José Barreto

José Barreto acredita que ”a investigação ainda não está completa” e que ainda é possível acrescentar novos pormenores à história. “Ainda está em curso, digamos assim”, afirmou. Madge “foi uma mulher que, aparentemente, não deixou descendência e, portanto, deve ter guardado as cartas de Fernando Pessoa” que não chegaram até nós e que Barreto acredita que ainda podem vir a aparecer, permitindo saber um pouco mais sobre a relação, algo misteriosa, da inglesa com o poeta português. “Também não consegui uma fotografia de Madge Anderson e com certeza que haverá. Se ela não teve filhos, poderá ter tido sobrinhos e é natural que existam fotografias na posse de alguém.” Por essa razão, o investigador pretende, num futuro próximo, publicar o artigo em Inglaterra, o que pode permitir a recolha de mais informações. A tradução já está a ser finalizada. Só resta encontrar um sítio para o publicar.

O último poema de Fernando Pessoa?

Poderá ter sido com Madge em mente que Fernando Pessoa escreveu, a 22 de novembro de 1935, o poema “The happy sun is shinning” (em português “O sol feliz brilha”). O texto em inglês não é inédito — foi publicado pela primeira vez por Ángel Crespo, em 1989, e depois incluído na edição de poesia inglesa editada pela Assírio & Alvim em 2000 (com organização de Luísa Freire) e na edição de 2016, da mesma editora, organizada por Richard Zenith. Mas sempre com erros ou omissões, que José Barreto corrigiu para este número da Pessoa Plural. Os versos, como explicou o investigador, são dirigidos “a uma amada ausente ‘faraway’, por quem o coração do poeta anseia”. “Reforça o tom realístico desse poema a circunstância de se somar a outros, de temas afins, quiçá de ‘sinceridade’ variável, escritos no mesmo ano”, escreveu o historiador no artigo “A última paixão de Fernando Pessoa”.
A escrita de “The happy sun is shinning” coincide com a chegada à caixa de correio de Pessoa da última carta de Madge, datada de 14 de novembro, dia das eleições parlamentares em Inglaterra, às quais a inglesa se refere na missiva. Partindo do princípio que Madge enviou a carta no dia em que a escreveu, esta terá chegado a Portugal a 20 ou 21 de novembro, supõe o investigador. Fernando Pessoa foi internado a 26 desse mês, no Hospital de S. Luís dos Franceses, tendo morrido poucos dias depois, a 30 de novembro de 1935. Ao Observador, José Barreto explicou que “Pessoa datava [sempre] os poemas”. “Ele escreveu dezenas de milhares de poemas e 99% estão datados. Muitas vezes não datava os outros textos, em prosa, mas a poesia datava sempre. Este está datado de 22 de novembro, uma semana antes de morrer, e não há nenhum poema que se conheça — a obra poética foi toda estudada — com uma data a seguir.” Isto significa que “The happy sun is shinning” é, “muito possivelmente, o último poema que Pessoa escreveu em qualquer língua”. Não há nenhum no seu espólio com uma data posterior.
“O sol feliz brilha
Os campos estão verdes e alegres
Mas o meu pobre coração anseia
Por algo que está longe.
Anseia só por ti,
Anseia pelo teu beijo
Não importa se és fiel
A isto.
O que importa és só tu.”
— Excerto de “The happy sun is shinning”. A tradução do inglês,”tanto quanto possível literal”, é de José Barreto, com colaboração de Ricardo Vasconcelos
Mas o que impressiona em “The happy sun is shinning” é o tom apaixonado com que Pessoa fala da mulher amada, a única coisa que “importa”. “É claramente um poema apaixonado”, salientou José Barreto. “Como eu digo no artigo, estes não são sentimentos que se fantasiem, que se inventem.” Além do mais, é “raríssimo” encontrar versos deste tipo “na obra de um poeta como Pessoa”. “A poesia amorosa, na primeira pessoa, não é vulgar, mas é ainda mais raro um poema em que tão claramente manifesta a sua paixão. Foi isto que levou o Ángel Crespo a dizer que era evidente que Fernando Pessoa estava apaixonado.” Porque, apesar de Pessoa ser geralmente descrito como um poeta racional, não quer dizer que não fosse capaz de se apaixonar perdidamente por alguém.
De acordo com José Barreto, existem passagens nos fragmentos dos diários que Pessoa escreveu por volta dos 20 anos que falam de questões amorosas e do “conflito entre o amor e a obra”, que sempre o preocupou e que acabou por ditar o final do relacionamento com Ofélia Queiroz: “O meu destino pertence a outra Lei, de cuja existência a Ofelinha nem sabe, e está subordinado cada vez mais à obediência a Mestres que não permitem nem perdoam. Não é necessário que compreenda isto. Basta que me conserve com carinho na sua lembrança, como eu, inalteravelmente, a conservarei na minha”, escreveu o poeta a jovem, a 29 de novembro de 1920, quando terminou a primeira fase do namoro. “Ele achava, desde muito jovem, que tinha uma missão como escritor que era relevante”, disse José Barreto. “Tinha uma grande opinião de si próprio e achava que a vida rotineira, igual à dos outros, seria destrutiva para a sua missão, para a sua obra poética. Escreveu sobre esse conflito, o que já é indicativo de que não era um homem desprovido de sentimentos e incapaz de se apaixonar.”
É que apesar de o autor de Mensagem ter “fama de fingidor”, não quer dizer que fosse exatamente assim. “Adolfo Casais Monteiro chamou-lhe o ‘insincero verídico’, que é uma coisa um bocado contraditória”, afirmou o historiador. “Ele alertou que se deve ter muito cuidado quando se interpreta a poesia a partir da vida de Fernando Pessoa ou ao contrário. Mas a poesia não está desligada da vida. Nunca está. E mais: todos os poetas se apaixonam e escrevem poemas amorosos. Pessoa não foi exceção.”
“A poesia não está desligada da vida. Nunca está. E mais: todos os poetas se apaixonam e escrevem poemas amorosos. Pessoa não foi exceção.”
José Barreto

Apesar de “The happy sun is shinning” ter sido o último poema escrito por Pessoa, não é, contudo, o último escrito atribuído ao poeta. Como se sabe — a história é famosa –, antes de morrer, Fernando Pessoa terá escrito num papel as palavras “I know not what tomorrow will bring”. A última frase dita foi, porém, outra. Como relatou João Gaspar Simões na sua biografia do poeta: “Agonizava, e no meio da sua agonia, repuxando a dobra do lençol, teve, de súbito, uma pausa de estranha inquietação. Abriu os olhos, olhou em roda, e vendo que não via, serenamente, como quem não esquece que os míopes, para ver, precisam de óculos, pediu que lhe dessem as suas lentes: ‘Dá-me os óculos’, murmurou, semicerrando os olhos enevoados. Foram estas as suas últimas palavras”.

Um pessoano “absoluto” e “apaixonado”

“A Última Paixão de Fernando Pessoa” é apenas um dos muitos artigos que enchem o número 12 da Pessoa Plural, dedicado à Coleção Fernando Távora. Apesar de ter ficado conhecido sobretudo pelo trabalho de arquiteto, Fernando Távora foi um colecionador ávido, cuja extensa coleção, repleta de preciosidades do modernismo português, já permitiu desenvolver algumas novas leituras, divulgadas nesta edição da revista de Estudos Pessoanos. Nascido a 25 de agosto de 1923, no Porto, “o seu período de formação foi intenso e doloroso”, escreveu o filho, José Bernardo Távora, para a Plural. “As descobertas de Le Corbusier, Picasso e Fernando Pessoa marcaram o seu destino, a sua vida. As leituras, a escrita, as reflexões, as viagens, as coleções, a História ganham durante este período da sua vida uma maior solidez.” Interesses que o acompanharam ao longo da vida, a par do desenho.
Começou a colecionar nos anos 40 — “tudo, tudo aquilo que os outros ainda não colecionavam” —, quando os modernistas ainda eram uma coisa de nicho. Apesar da revista Presença, fundada em 1927 por João Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca, ter continuado, depois da morte de Fernando Pessoa, a “disseminar um pouco” a sua imagem, levando a “uma certa consagração no meio literário”, a verdade é que Pessoa e os outros modernistas eram lidos e apreciados num meio “relativamente restrito”. “Ainda havia muita gente que continuava a escrever de costas voltadas para Pessoa, mas havia a nata de intelectuais dessa época — dos anos 40, 50 — que o conhecia, o procurava e o lia”, explicou ao Observador Ricardo Vasconcelos, que colaborou neste número especial da Plural como editor convidado e também como autor. Apesar disso, foi nesta altura que Fernando Távora começou a aprender sobre Fernando Pessoa, o que mostra a perspicácia e sensibilidade do colecionador.
“Vê-se que havia uma sensibilidade estética muito forte”, comentou Ricardo Vasconcelos, que se tem dedicado ao estudo da obra de Mário de Sá-Carneiro. “Havia um apelo às questões estéticas, por ter sido o arquiteto que foi, mas era evidentemente um grande leitor. Não procurava apenas os materiais de alguém que era famoso — começou a pegar num autor que apenas escritores conheciam e a sentir-se fascinado por ele quando era ainda muito jovem.” No texto que escreveu para a Plural, o filho, também arquiteto, conta que o pai “lia muito, à noite, todas as noites”, enquanto ia tirando pequenas notas que hoje podem ser encontradas um pouco por todo o espólio. “Em todos os livros e objetos.” Estas anotações incluem “várias informações — do que é que se trata, onde comprou os materiais, a quem comprou, se há alguma característica específica, se se trata de um achado”. “E depois ainda fazia muitas vezes referência a artigos ou livros que podiam ajudar a compreender aqueles textos”, explicou Vasconcelos. “Quem entrar [na coleção] com um conhecimento mínimo dos Estudos Pessoanos ou Sa-Carneirianos e quiser saber mais, ele deixou uma espécie de introdução teórica aos manuscritos”, afirmou o editor convidado da Pessoa Plural, um dos primeiros a consultar o espólio, que se encontra no Porto. “O rigor das notas é interessantíssimo.”
“Havia um apelo às questões estéticas, por ter sido o arquiteto que foi, mas era evidentemente um grande leitor. Não procurava apenas os materiais de alguém que era famoso.”
Ricardo Vasconcelos

Fernando Távora nunca foi egoísta. Apesar de as suas notas nunca terem saído da sua casa, muitos dos objetos que colecionou saíram. Ao longo de décadas — e principalmente durante o boom dos Estudos Pessoanos, no final dos anos 70, inícios dos anos 80 —, Távora “apoiou a divulgação de documentos na sua posse, quer em edições organizadas por diferentes pesquisadores, incluindo inéditos ou documentos raros, quer mesmo em eventos públicoscomo a exposição associada ao Primeiro Congresso Internacional de Estudos Pessoanos, organizado no Porto em 1978”, escreveu Ricardo Vasconcelos na nota introdutória do número 12 da Plural. Esta mostra foi, aliás, montada pelo próprio arquiteto, com a colaboração do Centro de Estudos Pessoanos, que também ficava na Invicta. “Era um pessoano absoluto, apaixonado e incrivelmente informado”, comentou Vasconcelos, em conversa com o Observador.
Távora morreu em setembro de 2005, aos 82 anos. Colecionou compulsivamente até ao final da vida, não só documentos ligados ao modernismo português, mas muitas outras coisas. Em entrevista à RTP, em 2001, disse que “viver é uma coisa que não tem preço”. “Vou deixar uma coisa espantosa, vou deixar isto tudo aqui… Tudo isto que vê aqui… Estas árvores, estas pinturas, estas amizades, o pedreiro, o carpinteiro, sei lá! O que eu deixo de gente, de relações, de amizades, de quadros de textos, de, de, de… Da obra que eu fiz.” Essa obra que, passadas quase duas décadas, permitiu abrir uma nova porta para o modernismo português. Foi por essa razão que os editores da Pessoa Plural lhe quiseram prestar homenagem. A maioria dos artigos do novo número da revista publicada pela Brown University, Warwick University e Universidad de los Andes têm como base manuscritos encontrados na coleção do arquiteto portuense. Esta Pessoa Plural tem mais de 740 páginas, mas os responsáveis garantem que ficou muito material para analisar.
“Em termos de manuscritos, são mesmo milhares”, revelou Ricardo Vasconcelos. “Digitalizamos, pelo menos, cerca de mil páginas manuscritas e há muito mais que ficou por digitalizar. Talvez umas duas, três mil páginas, com o Raul Leal a assumir uma dimensão muito grande.” Mas há outros autores — Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Luís de Montalvor, Alfredo Guisado, José Régio, entre outros. Há manuscritos de poesia, correspondência, muitas novidades e alguns textos já conhecidos dos investigadores. Outra coisa que “é interessante notar é que Fernando Távora foi reunindo o que o tempo foi dispersando”, afirmou Ricardo Vasconcelos. Existem documentos de determinados autores, como é o caso de Sá-Carneiro, cujo paradeiro era desconhecido, mas que Távora reuniu na sua coleção. Exemplo disso é a correspondência do autor de Dispersão com o avô, que chegou às mãos do arquiteto em dois períodos diferentes. “Fernando Távora acabou por fazer um serviço comunitário”, afirmou o investigador.

O número de outono da Pessoa Plural, publicada semestralmente pela Brown University, já está disponível para consulta. É dedicado à Coleção Fernando Távora e teve Ricardo Vasconcelos como guest editor (editor convidado)
Mas foi sobretudo a “dimensão e qualidade da coleção” que impressionaram Ricardo Vasconcelos quando a visitou pela primeira vez, quando estava a preparar a edição crítica da poesia de Sá-Carneiro, editada pela Tinta-da-China em abril deste ano. “É riquíssima, muito centrada em Pessoa e Sá-Carneiro, mas também com grande relevo para o estudo de Raul Leal. Fernando Távora adquiriu o espólio de Leal, que é uma espécie de nova arca — mas não no estilo de Pessoa — com manuscritos maioritariamente originais e alguns deles inéditos. Há cópias de correspondência, rascunhos que Leal foi guardando e há coisas que são novas”, disse o investigador, professor na San Diego State University. Materiais que, até então, eram desconhecidos. “O espólio do Raul Leal andou perdido durante 40, 50 anos”, referiu ao Observador Jerónimo Pizarro, um dos editores e fundadores da Pessoa Plural, que garante que este número da revista “podia ter sido apenas sobre Raul Leal”. Apesar de não o ser, há uma boa parte que é dedicada ao autor de Sodoma Divinizada.

A importância de ser Leal

Raul Leal foi um escritor português que ficou sobretudo conhecido pela participação no número dois do Orpheu — com uma “novela vertígica” chamada Atelier —, e por ser o autor do ensaio polémico Sodoma Divinisada, sobre António Botto, que foi publicado em 1924 pela editora Olisipo de Pessoa. “Neste ano em que se celebrou o centenário da Portugal Futurista, fizeram-se vários colóquios, no Rio de Janeiro, em Pádua e em Lisboa. Leal acaba sempre por ser posto de lado porque foi mais um autor de polémica devido aos seus ensaios filosóficos, extravagância de comportamento e de discurso também”, afirmou Ricardo Vasconcelos. Personagem controversa, a vida de Raul Leal (com um enredo digno de um filme) acabou por absorver toda a sua obra — em grande parte desconhecida — e o seu papel na introdução do Futurismo em Portugal desvalorizado.
Leal caiu no “esquecimento” e, por essa razão, existe a “necessidade de se revisitar a sua obra e pensamento”. “Acho que tem ideias muito interessantes e que são ilustrativas de um certo período da nossa história literária”, frisou o investigador. E foi exatamente isso que a Pessoa Plural tentou fazer — este número, inclui três artigos dedicados a Leal. O primeiro, “um texto muito bom do Enrico Martines”, analisa a troca de correspondência entre José Régio e Raul Leal sobre a publicação de textos deste na revista Presença. “José Régio batalhou mesmo com os outros membros da Presença para que publicassem o mais possível de Raul Leal”, da mesma maneira que Pessoa, anos antes, o tentou defender publicamente, publicando, inclusivamente, o texto de Sodoma Divinizada, explicou Vasconcelos. E isso fica claro nas cartas que trocaram, nas quais Régio diz que “se a revista tivesse qualquer espécie de prurido moral, então não tinha interesse”. “Fiquei fascinado com a coragem dele, de querer publicar o que lhe apetecesse”, salientou ainda o editor convidado da Pessoa Plural. Um outro texto, assinado por António Almeida, aborda a escrita de Raul Leal sobre as as artes plásticas. O terceiro artigo é da autoria do próprio Ricardo Vasconcelos, que examinou um rascunho de uma carta escrita para Fernando Pessoa depois da morte de Mário de Sá-Carneiro, a 26 de abril de 1916. Esta nunca tinha sido publicada.
Raul Leal “tinha trocado correspondência com Sá-Carneiro, que dizia que ele era doido, que era o mais Orpheu de todos, na pior maneira”. Numa carta enviada a Fernando Pessoa, a 5 de novembro de 1915, o autor de Dispersão escreveu que, apesar de Leal ter algum mérito, era “muita pena que o rapazinho” fosse “um pouco Orfeu de mais” (com um só “f”). “Como se Orpheu significasse só loucura”, explicou Vasconcelos. Curiosamente, Sá-Carneiro era sempre, juntamente com Pessoa, “o primeiro a querer a comoção pública, o choque”. Apesar de ter começado por encarar Leal como um maluquinho, Mário de Sá-Carneiro acabou por “valorizar o pensamento” do filósofo, e os dois “acabaram por se corresponder um pouco”. “Ficou fascinado com o que ele lhe dizia”, chegando mesmo ao ponto de remeter algumas das suas cartas para Pessoa, para que este as lesse.

 Mário de Sá-Carneiro morreu a 26 de abril de 1916, em Paris. Os manuscritos que deixou no interior do quarto de hotel onde vivia permanecem desaparecidos

Quando Sá-Carneiro se suicidou em Paris, foi Fernando Pessoa que informou Raul Leal da sua morte. “Ficou muito chocado. Ele próprio pensou em suicidar-se numa altura de grande miséria em Espanha”, contou Ricardo Vasconcelos. E reagiu de forma estranha — ao saber da notícia, decidiu “fazer uma interpretação filosófica do suicídio”, que depois terá enviado a Pessoa. Nesta teorização, Raul Leal defende que o artista, ao pôr termo à própria vida, “está a fazer uma espécie de autossacrifício, apontando uma direção nova para os que o seguirão”. “A teorização de Leal procura abarcar a sua própria espiritualidade, uma projeção astral das suas emoções, que ecoa a então recém apresentada teoria da relatividade, e a crença no valor redentor da obra artística”, escreveu Vasconcelos em “Foi como se fôsse eu o Suicidádo”. “O mais marcante é o esforço filosófico que ele faz para tentar compreender tudo e a forma como distorce a linguagem de uma maneira ‘vertígica’”, disse o investigador em conversa com o Observador.
Esta “interpretação filosófica” foi exposta numa carta dirigida a Fernando Pessoa, hoje na Coleção Fernando Távora. A missiva foi redigida quando Leal estava em Espanha, para onde foi obrigado a fugir depois da publicação de O Bando Sinistro, um manifesto político-literário sobre a revolução que depôs o regime ditatorial de Pimenta de Castro, a 14 de maio de 1915, que é analisado por António Almeida neste número da Pessoa Plural. A missiva está datada de 7 de maio de 1916 e foi escrita, à mão, em papel timbrado do “elegante” Café Lion d’Or, um importante centro de tertúlias da capital espanhola. Apesar de se tratar, aparentemente, de um rascunho, “não se pode descartar por completo a hipótese de que se trate de uma carta efetivamente enviada a Pessoa e a que Fernando Távora possa ter tido acesso”, escreveu Ricardo Vasconcelos. Contudo, o investigador acredita que existem “razões para crer que se trata de um rascunho de uma carta, cuja versão passada a limpo possa ter sido enviada ou não”.
Além deste texto sobre Raul Leal, Ricardo Vasconcelos escreveu outros dois artigos para este número da Pessoa Plural, também relacionados com Mário de Sá-Carneiro. “Porque é que não escreve Cartas?” revela correspondência inédita entre o poeta e o seu avô paterno, José Paulino de Sá Carneiro, e “Uma Carta Inédita de Fernando Pessoa”, também relacionado com a morte de Sá-Carneiro, fala sobre a segunda carta de Pessoa ao gerente do Grand Hôtel de Nice, onde Sá-Carneiro cometeu suicídio. Até agora, só se conhecia a primeira carta escrita e enviada por Pessoa ao gerente do Nice, a 26 de setembro de 1918, mais de dois anos depois da morte de Sá-Carneiro. Existe uma cópia desse documento na Coleção Fernando Távora, juntamente com uma anotação que explica que o original “pertence ao espólio de F[ernando] Pessoa e foi cedido para figurar na Exposição Biblio-Iconográfica realizada quando do I Congresso Internacional de Estudos Pessoanos”.
“No horizonte solene,
No lívido horizonte
Já estremece um vago horror do dia
Do dia que vai ser aquela infrene
Tortura de agonia
A perturbar o mar, e vale e monte
Toda a paisagem angustiada e fria
Sente que lhe perpassa
Pela verde da carcaça
Uma luz irreal e de profecia.”
–Excerto do poema “No Horizonte Solemne”
É também ao espólio do arquiteto que pertence esta segunda missiva — anunciada na primeira, publicada Em Ouro e Alma: Correspondência com Fernando Pessoa, volume organizado por Ricardo Vasconcelos e Jerónimo Pizarro —, que deveria funcionar como “credencial” para que Carlos Ferreira, amigo de Sá-Carneiro em Paris, pudesse levantar os manuscritos que se encontravam no hotel. Juntamente com esta carta, encontra-se uma declaração em nome do avô de Sá-Carneiro, José Paulino de Sá Carneiro, aparentemente preparada por Pessoa, que reiterava as informações fornecidas pelo autor da Mensagem ao gerente do hotel parisiense. Apesar de não adiantar muito mais relativamente aos papéis de Sá-Carneiro, que permanecem desaparecidos, o documento releva outros pormenores sobre os esforços levados a cabo por Pessoa e outros amigos do poeta para reaver os seus bens. “É mais um elemento do puzzle”, frisou Vasconcelos.
O número 12 da Pessoa Plural, onde são apresentados pela primeira vez vários documentos, inclui ainda, entre outros, dois artigos da autoria de Carlos Pittella — uma revisitação do testemunho de Augustine Ormond, que conheceu Fernando Pessoa quando este ainda vivia na África do Sul, e uma análise dos fragmentos do poema “Juliano Apóstata”, de Pessoa —, e uma discussão sobre a importância da caricatura no período modernista, partindo da representação de Pessoa por António Teixeira Cabral, da autoria de Nataliya Hovorkova. Patrícia Silva, cujo texto encerra a secção da revista dedicada aos artigos, falou da estratégia editorial de Orpheu e do contributo de Alfredo Guisado — poeta lisboeta que participou com uma série de treze sonetos no primeiro número da revista — para a divulgação do projeto literário, apresentando poemas do escritor. Jerónimo Pizarro analisou vários documentos de Fernando Pessoa na Coleção Fernando Távora e apresentou um poema inédito, “No Horizonte Solemne”. A fechar a publicação estão três recensões, uma delas sobre o Arquivo Digital Colaborativo do Livro do Desassossego, apresentado oficialmente na semana passada.

Começar onde a Persona acabou

Pessoa Plural nasceu a 13 de junho de 2012, data de nascimento do poeta que lhe dá nome, com o objetivo de servir de “veículo para a divulgação de materiais inéditos recolhidos da vasta coleção de documentos do espólio” de Fernando Pessoa, “assim como a correção e revisão de outros já publicados”. Editada em conjunto pelos departamentos de Estudos Portugueses e Brasileiros da Brown University, de Estudos Literários Comparativos da Warwick University e de Humanidades e Literatura da Universidad de los Andes — a que pertencem os professores e investigadores Onésimo Almeida, Paulo de Medeiros e Jerónimo Pizarro, respetivamente, responsáveis pela sua edição — é essencialmente uma revista académica internacional dedicada a Pessoa e aos outros que, juntamente com ele, fizeram o modernismo português. Ao contrário de outras publicações, que a antecederam, a Pessoa Plural é exclusivamente online (até agora, foi apenas publicado um número em papel). Não que a edição impressa de edições críticas tenha perdido o interesse, mas porque a publicação digital traz outras vantagens.
“A publicação tradicional, impressa, de edições críticas dos textos de Pessoa e de estudos críticos sobre eles mantém-se absolutamente necessária. No entanto, a publicação electrónica da revista trará vantagens definitivas também”, explicaram os editores numa nota de apresentação no primeiro número da Pessoa Plural. “Possibilitará acesso fácil a novos materiais e estudos a investigadores internacionais, que os podem ler ou descarregar a partir das suas instituições; permitirá a publicação mais rápida de textos e materiais, sem os limites físicos de tamanho, qualidade gráfica e custo normalmente associados com volumes impressos; e permitirá ainda um grau maior de cruzamentos interdisciplinares, uma vez que se espera que tanto os leitores como os colaboradores possam ser estimulados pelas divergentes opções metodológicas e teóricas.”
Curiosamente, a Pessoa Plural não nasceu em Portugal, mas na Holanda. Ou pelo menos a ideia dela. Há cinco anos, Jerónimo Pizarro deslocou-se até à Utrecht University — cujo Departamento de Estudos Portugueses era então dirigido pelo português Paulo de Medeiros —, na Holanda, para apresentar uma comunicação sobre Fernando Pessoa. Ao almoço, os dois investigadores discutiram o que é que podia ser feito para divulgar a obra de Pessoa. “Falámos sobre o que é que poderíamos fazer, o que é que seria bom”, contou ao Observador Paulo de Medeiros, atualmente professor na University of Warwick, em Inglaterra. “A ideia surgiu desse almoço.”

Até à publicação do artigo de Ricardo Vasconcelos neste número da Pessoa Plural, só se conhecia a primeira carta de Fernando Pessoa ao gerente do Grand Hôtel de Nice, em Paris. Esta faz parte do espólio do poeta da Biblioteca Nacional (Biblioteca Nacional de Portugal, Espólio 3)
A Paulo de Medeiros e Jerónimo Pizarro veio depois juntar-se Onésimo Almeida, professor da Brown University, em Providence, e um dos responsáveis pela criação, nos anos 70, do Centro de Estudos Portugueses e Brasileiros daquela universidade. Além de ter sido o primeiro do género nos Estados Unidos da América, o núcleo de estudos portugueses da Brown permanece, ainda hoje, o mais importante da América do Norte, desenvolvendo um importante trabalho de divulgação da língua portuguesa. Para Medeiros, a colaboração de Onésimo Almeida — que entrou para o grupo mais ou menos na altura em que o investigador e professor saiu de Utrecht para Warwick, depois de o Departamento de Estudos Portugueses da universidade holandesa ter fechado — veio garantir que “a revista saísse e que saísse com o apoio da Brown e do Onésimo”, que foi responsável por encontrar as melhores pessoas para tratar de certos aspetos mais técnicos.
A revista, que já esteve sediada em Utrecht, é agora de Warwick, Bogotá e Providence, uma realidade que acaba por espelhar o “desejo de ultrapassar os limites de abordagens estreitas à obra de Pessoa”, como escreveram os três editores no primeiro número da revista. Foi também por isso que se chamou à publicação Pessoa Plural porque, tal como os investigadores, editores e diferentes abordagens que a compõem, Fernando Pessoa também foi sempre múltiplo. “São as três universidades dos três editores. É uma espécie de triangulação anglo-americana-colombiana”, frisou por sua vez Jerónimo Pizarro, que Paulo de Medeiros considera ser o grande “motor” da Plural. “Procuro que [a revista] fique nos Estados Unidos da América porque as bibliotecas norte-americanas fazem coisas extraordinárias e há um centro digital dentro da biblioteca da Brown, o que torna tudo muito mais fácil.”

Na segunda carta escrita ao gerente do Nice, Fernando Pessoa refere que Carlos Ferreira é capaz de dar “todas as informações necessárias e quaisquer garantias escritas” para que os manuscritos “do falecido Sr. Mario de Sá Carneiro” lhe sejam entregues (Coleção Fernando Távora)
Jerónimo Pizarro considera que tudo aconteceu “numa altura” em que os investigadores sentiam “muito a necessidade de ter uma revista pessoana, não só sobre Pessoa, mas sobre a geração de Pessoa, dos modernistas todos, mas focada em Pessoa e em tudo o que ele pudesse abranger”. Desde que a Persona, publicada pelo Centro de Estudos Pessoanos, no Porto, foi extinta, que não existe uma revista académica focada em Fernando Pessoa e no modernismo português. De 1977 — o ano de nascimento de Pizarro — a 1985 — ano em que assinalou os 50 anos da morte de Pessoa — foram publicadas “quase 900 páginas” e a Persona tornou-se “na grande referência em termos de uma revista académica para os Estudos Pessoanos”. “Quando era aluno, costumava trabalhar muito com a Persona”, confessou o investigador colombiano. “E a Persona teve estes números todos”, disse Jerónimo Pizarro, enquanto mostrava, uma a uma, os 11 volumes (um deles duplos) da revista.
Persona “durou muito tempo”, considerou Pizarro. “Nem sempre conseguiu ser semestral, mas deixou quase 900 páginas com leituras de Fernando Pessoa, deu a conhecer documentos, comentários sobre o Livro de Desassossego, as cartas de amor, traduções e novidades. Lembro-me muito bem disso tudo”, afirmou, acrescentando que “algumas coisas da Coleção Fernando Távora tinham sido referidas e tinham aparecido na Persona”. “Arnaldo Saraiva fez algumas coisas a partir da coleção. Ele tinha uma relação muito próxima com o arquiteto Fernando Távora.” Ao ponto de levar documentos do seu espólio e deixar pequenas notas a avisar “levei isto, deixei isto”, que os investigadores encontraram no meio dos manuscritos.
Nesse aspeto, Jerónimo Pizarro sente que a Pessoa Plural está, de certo modo, a dar continuidade ao “trabalho histórico muito importante da Persona” e até ao “relacionamento” que a revista pessoana “tinha com a Coleção Fernando Távora”, a que a Pessoa Plural presta tributo neste último número. “A minha memória da Persona não é apenas da revista, é de três ou quatro artigos que marcaram a minha leitura de Fernando Pessoa. A minha esperança com a Pessoa Plural é a mesma — que alguns artigos fiquem na memória de alguns leitores.”
Apesar de ser uma revista académica, tal como era a Persona, a Pessoa Plural não é apenas dirigida a investigadores. Essa é, aliás, a ambição dos editores — que a revista chegue a todos os interessados em Fernando Pessoa e no modernismo português, em todas as partes do mundo. Nesse sentido, “é fundamental que a revista seja em open access”. “Qualquer pessoa pode lê-la. Não é preciso assinaturas, não é preciso pagar nada”, frisou Paulo de Medeiros. Todos os investigadores — editores incluídos — trabalham sem receber “qualquer remuneração seja do que for”. Tudo acontece por amor à causa e por solidariedade para com o projeto. “Como dizia o Pessoa, ‘tudo vale a pena se a alma não é pequena’.”
“A minha memória da Persona não é apenas da revista, é de três ou quatro artigos que marcaram a minha leitura de Pessoa. A minha esperança com a Pessoa Plural é a mesma — que alguns artigos fiquem na memória de alguns leitores.”
Jerónimo Pizarro

O que Jerónimo Pizarro nunca pensou foi que a revista, que começou por ter menos de 500 páginas, acabasse por ter quase mil, tornando-se num “monstro de muitas cabeças”. “É uma coisa que está a crescer de uma forma difícil de acompanhar e que está a dar imenso trabalho. Andamos a trabalhar com muitas imagens, a rever muitos textos, a trocar muitos emails, e queria simplificar isso”, admitiu o editor, acrescentando que não sabe se, no futuro, “dará para manter este ritmo”. “Temos mantido um ritmo exagerado de mil páginas porque ainda há muitíssimo material para dar a conhecer e, na revista, sempre quisemos ter uma parte de artigos mais teóricos, críticos e interpretativos, e uma segunda parte para documentos. E sempre quisemos ter imagens. Existe esta sensação de que há tanta, tanta coisa que os números, que foram pensados para ter 200 páginas, cresceram espontaneamente ao ponto de terem mais de 700.” O que acontece até com ele.
Para este número, Pizarro contribuiu com um artigo chamado “Poemas e documentos inéditos: o lote 31 e a Coleção Fernando Távora”, sobre alguns dos manuscritos pessoanos que fazem parte do espólio do engenheiro portuense. O texto — que inicialmente não era para ser da autoria de Jerónimo, que acabou por escrevê-lo a pedido do editor convidado, Ricardo Vasconcelos — era para ter entre 20 a 30 páginas, mas acabou por ter quase 130 porque o investigador “continuava e continuava a escrever”. Mas, por enquanto, os editores da Plural não estão a colocar limites aos outros ou a eles próprios. Jerónimo Pizarro pode continuar a escrever até se cansar.
E o que é que reserva o futuro à Pessoa Plural?
Para Paulo de Medeiros, a grande dificuldade de manter qualquer revista passa por perceber “se tem fogo” para continuar mas, felizmente, a Pessoa Plural tem “conseguido manter” isso. “Tem crescido bastante em tamanho e também em qualidade. Além disso, tem conseguido manter a regularidade, que penso ser essencial para uma revista periódica e científica. Se não for regular, rapidamente vai abaixo”, afirmou o professor universitário. “Modéstia à parte — porque o trabalho duro é o que é feito pelo Jerónimo —, penso que, dentro do campo dos Estudos Pessoanos, não há nenhuma revista que se lhe equipare.” Essa é uma das razões pelas quais não está preocupado com o futuro da Pessoa Plural e também porque “há toda uma geração nova de pessoas que está a trabalhar muito bem, como o Ricardo [Vasconcelos], o Carlos [Pittella ]”. “Penso que o futuro da revista irá ficar assegurado por essas pessoas mais novas.”
Em 2018, Jerónimo Pizarro gostava de separar os números especiais dos números regulares. “Temos tido muita coisa híbrida, entre temática e números com contributos avulsos que chegam simplesmente por submissão.” Por essa razão, o pessoano gostava de separar as coisas e ter “números com o que é submetido e números que são pensados desde o início”. O próximo número da Pessoa Plural está agendado para junho — altura em que se celebram os 130 anos do nascimento de Fernando Pessoa — e o segundo deverá sair em dezembro. “O que gostaria era de, em junho, termos um número normal e, já no final do ano, termos novamente um editor convidado e um número temático.” Além disso, a revista irá continuar “com um grande compromisso com a Coleção Fernando Távora”, o que significa que se voltará a falar do arquiteto. Em 2018, também deverá voltar a revisitar a Coleção Hubert Jennings, que tem ainda muito material que vale a pena dar a conhecer, e brincar com a questão da numerologia e astrologia em Fernando Pessoa, aproveitando para isso o aniversário do nascimento do escritor.
“Modéstia à parte — porque o trabalho duro é o que é feito pelo Jerónimo [Pizarro] —, penso que, dentro do campo dos Estudos Pessoanos, não há nenhuma revista que se lhe equipare.”
Paulo de Medeiros

Já Carlos Pittela espera que a revista continue a trabalhar com arquivos, como o de Fernando Távora ou o de Hubert Jennings. O brasileiro — que começou por estudar jornalismo mas que se apaixonou definitivamente por literatura quando estudou em Coimbra — começou a colaborar regularmente com a Pessoa Plural a partir do número oito, publicado no outono de 2015, onde participou como editor convidado. “Até ao número sete, a Pessoa Plural não teve editores convidados. Os editores eram sempre o Jerónimo, o Paulo e o Onésimo”, explicou. “A ideia sempre foi a da revista ser internacional — foi feita de propósito para estar fora de Portugal, para a internacionalizar, apesar da maior parte dos contributos sempre terem sido de portugueses. Mas, a partir do número oito, foi tudo bastante orgânico. Foi quando foi descoberto o espólio do Jennings” que, nesse ano, foi doado à Brown pela família do investigador, um dos primeiros a interessar-se pela obra inglesa de Pessoa. Nesse sentido, o número oito e 12 têm muito em comum — tratam de “duas coleções particulares, dois espólios pessoanos, que foram encontrados” e que, apesar de terem “muita coisa diferente entre si”, permitem realizar novas abordagens à obra de Pessoa.
“O que eu acho interessante é que a Plural está a tornar-se cada vez mais numa publicação de literatura comparada que usa Pessoa como centro. Está a tornar-se cada vez mais plural de diferentes formas — por estimular a colaboração entre as pessoas (por vezes aparecem dois autores), por ter editores convidados… É plural nesse sentido — entende Fernando Pessoa como um ponto de encontro de diferentes pessoas.” Em 2018, Pittela espera também ver a revista a crescer de “outras formas”. “[Espero] que envolva mais vozes que aparecem menos. Os Estudos Portugueses são muito dominados por homens e eu e o Jerónimo queremos menos disso. Queremos universidades da América Latina, da Ásia, vozes de mulheres, embora este número não seja muito representativo disso, por outras razões. Isso não é um problema da Pessoa Plural, mas dos Estudos Portugueses no geral.”

 A revista chama-se "Pessoa Plural" porque, tal como os investigadores, editores e diferentes abordagens que a compõem, Fernando Pessoa também foi sempre múltiplo (Wikimedia Commons)

E depois há a parte técnica, que tem sido da responsabilidade de Carlos Pittella. É ele que tem supervisionado a passagem da revista para o Brown Digital Repository, da universidade de Providence, uma mudança vai permitir associar Digital Object Identifiers (DOIs), isto é, bilhetes de identidade para objetos digitais, aos artigos da Pessoa Plural. Além de dar visibilidade e facilitar a publicação da própria revista (antes de estar integrada no Brown Digital Repository, eram precisas cerca de 40 horas para colocar a Pessoa Plural online, um processo que agora demora apenas um dia), esta passagem vai permitir tornar as coisas muito mais interativas. “O repositório da Brown permite fazer coisas que nunca pensámos. Podemos usar som, transcrições digitais, publicar filmes. Pode tornar-se de facto numa revista multimédia, e gostava de brincar muito com isso”, admitiu o investigador, dando como exemplo o que foi feito no Arquivo Digital do Livro do Desassosego, uma plataforma interativa que permite comparar diferentes edições da obra de Bernardo Soares e criar edições digitais. “Queria aproveitar o ano que vem e fazer uma coisa muito diferente”, acrescentou Pittella. “Vou sempre querer que a Plural seja mais plural.” E mais multimédia, claro.
Todos os números revista Pessoa Plural, incluindo o número 12, podem ser lidos aqui

quarta-feira, 1 de abril de 2020

flavio cristovam_ andra tutto bene



Flávio Cristovám é natural da Ilha Terceira, nos Açores e compôs uma música em inglês com o título em italiano para enviar "um grito de esperança para o mundo".
Publicado hoje em: https://www.facebook.com/cristovammusic/videos/2370568009901732/

"Nestes tempos estranhos, em que todos nos encontramos um pouco assombrados pela ansiedade, procuramos dentro de nós a melhor forma de a combater. Escrevi e gravei esta canção no meu pequeno estúdio como a minha forma de o fazer", escreve na sua página de Facebook Flávio Cristovám, como mote para a canção.

E despede-se da seguinte forma: "Separados lutamos, juntos resistimos. Um abraço a todos".

Covid_19 em Portugal_ Entrevista de Jorge Buescu



Jorge Buescu: "Os médicos vão ser submergidos por esta onda gigante que vem aí"



AQUI:

▲Jorge Buescu acha que estamos apenas ainda a ver a ponta do iceberg


Portugal vai viver uma situação semelhante à de Espanha e Itália, é a convicção de Jorge Buescu. Ao Observador, o físico e matemático explica como faz as contas e reafirma a importância dos testes.
O físico e matemático Jorge Buescu continua muito preocupado com a pandemia de Covid-19 em Portugal. Defende mais testes, mais medidas restritivas e mais controlo da população para evitar os cenários mais pessimistas, que ele próprio divulgou. Em entrevista à Rádio Observador, o investigador avisa que o país deverá viver um cenário semelhante ao de Espanha e de Itália: “Os médicos vão ser submergidos por esta onda gigante que vem aí”, diz. E lamenta que os laboratórios das universidades não estejam a contribuir para o esforço de “guerra” em que todos mergulhámos. Ainda assim, admite que Portugal poderá estar a dar passos concretos para diminuir o impacto do vírus.
Pode ouvir a entrevista, conduzida por João Paulo Sacadura, na íntegra aqui.
Diz que temos entre 57 e 121 mil infetados na população devido a falta de testes. Criou uma calculadora de bolso, que também mede este nível da pandemia, porque em sua opinião, há muitos contaminados que não estão testados, é isso?Sim, isso é uma inevitabilidade por causa das caraterísticas da doença. Só numa fase inicial e com muitos testes é que conseguiríamos ir atrás das pessoas todas. Esta doença tem uma coisa insidiosa: contagia silenciosamente. As pessoas podem andar assintomáticas, podem não saber sequer que têm a doença e estarem a contagiar. São os que eu chamo de “os invisíveis”. E depois, é muito contagiosa e rápida a propagar-se. Isto do ponto de vista da dinâmica da doença – estes modelos são estudados com equações diferenciais, dinâmica, matemática. Ora isto é perigosíssimo, porque significa que temos uma quantidade enorme de infetados que podem contagiar sem saber e que andam por aí. E por outro lado, o contágio é extremamente rápido. A conjugação das duas coisas é completamente letal e torna esta doença extraordinariamente traiçoeira. Se testamos apenas as pessoas que vão ter ao hospital porque já se estão a sentir mal é como se estivéssemos a ver a ponta do iceberg. Toda a parte grande está submersa. Os 6.400 casos que sabemos hoje que temos correspondem a uma ponta do iceberg, mas existe todo o resto e é exatamente isso que é preciso estimar.
Se testamos apenas as pessoas que vão ter ao hospital porque já se estão a sentir mal é como se estivéssemos a ver a ponta do iceberg. Toda a parte grande está submersa. Os 6.400 casos que sabemos hoje que temos correspondem a uma ponta do iceberg.
A solução seria, como diz o presidente da OMS, testar, testar, testar?Nesta fase, será difícil. Não se podem fazer testes às cegas, tem de ser com muito critério. A OMS recomenda, por exemplo, que um critério que se deve seguir é: assim que se deteta um infetado, vai-se localizar e testar todas as pessoas com quem ele esteve em contacto nas últimas 48 horas. Porquê? Se ele está infetado, nas últimas 48 horas andou a propagar a doença. Os sul-coreanos fizeram isso extraordinariamente. Foi o único país que conseguiu dominar uma fase avançada da epidemia só com testes. Num regime absolutamente férreo, mas conseguiram fazer isso. Foi extraordinário.
Eles também seguiram pessoas. A partir de aplicações conseguem saber onde estiveste nas últimas 48 horas. Isso põe alguns problemas de privacidade, mas numa altura como esta impõe-se?Numa altura como esta, acho que o Estado de Emergência é Estado de Emergência. Na verdade, estamos em estado de guerra. Estamos permanentemente como se fosse Londres em 1940, como se fosse o Blitz. Não estamos debaixo do metro, porque não precisamos, mas estamos em casa e estamos a ser bombardeados permanentemente. Estamos em estado de guerra e é preciso assumir isso.
Há 15 dias escreveu um artigo para o Observador em que dizia que a epidemiologia estuda a forma de propagação de doenças e, portanto, é uma questão de números. Constatava que a China, por exemplo na região de Wuhan, tem uma população muito jovem (60% da população está abaixo dos 39 anos) e na Europa é o contrário. Daí a fatalidade ser maior na Europa?Sim, muito mais envelhecida e, em particular, a Itália, que é o país mais envelhecido da Europa. Supondo que o bicho é exatamente o mesmo e que se comporta da mesma maneira que em Wuhan, coisa que não é segura (aparentemente já terá sofrido várias mutações), a palha europeia está muito mais seca para este incêndio, pega muito melhor. Infelizmente, é o que estamos a ver em Itália e Espanha.
Também fazia umas contas sobre os dias em relação à Itália, afirmava que Espanha estava com sete ou oito dias de atraso, a Alemanha e a França com oito ou nove dias e Portugal com duas semanas. Neste momento qual é a estimativa? Vamos passar por uma coisa tão grave assim?Receio que sim. Desde a altura em que disse isso, já passaram mais de oito ou nove dias, de facto, o que vimos foi que Espanha entrou na fase de Itália, que é basicamente o sistema de saúde a entrar em colapso. No fundo, serem engolidos pelo tsunami, é o que está a acontecer em Espanha. A partir do momento em que todas as camas, cuidados intensivos e ventiladores estão ocupados, uma pessoa a mais que chegue a precisar de cuidados intensivos não pode ser atendida e morre.
Isto põe muitos problemas éticos?Sim. Os médicos vão ter muitos problemas, em particular os éticos, mas isso vai ser apenas uma parte. Eles vão ser submergidos por esta onda gigante que vem aí.
Os médicos vão ter muitos problemas, em particular os éticos, mas isso vai ser apenas uma parte. Eles vão ser submergidos por esta onda gigante que vem aí.
Merkel diz que a Covid-19 vai afetar 70% dos alemães. As suas estimativas para Portugal são idênticas?Ela foi muito honesta. Aquilo que ela disse, que é rigorosamente o resultado dos nossos modelos matemáticos, das nossas contas, foi que se não se conseguisse travar a propagação, que iria contagiar 70% da população. É exatamente isso que os nossos modelos matemáticos dão. As curvas convergem em picos de 70%. Em Portugal, seriam sete milhões de infetados. O nosso pico seria com seis/sete milhões de infetados.
Pior do que a gripe espanhola.Claro. Agora, o objetivo de tudo o que estamos a fazer, de todas as medidas – por um lado de contenção e distanciamento social e, por outro, de testes que se querem massivos e que nós ainda não conseguimos implementar –, é baixar essa curva dos sete milhões, o que se chama de “achatar”, e empurrá-la para mais longe. Portanto, mais para longe no tempo e mais para baixo na intensidade, é esse o objetivo destas medidas e é o que se está a tentar fazer.

“Com esta quarentena à portuguesa, em português suave, corremos um risco muito grande”

Também fez uma referência a dizer que os casos que chegam, por exemplo, aos hospitais são apenas 20% e é por isso que este número real andará na casa dos 40 mil. É o que ainda prevê neste momento?Não, é mais, sem dúvida. As contas não são assim tão simples. Não é fazer uma regra de 3 simples, é um pouco mais complicado. Eu faço estas contas através de um modelo que foi desenvolvido pela universidade de Sevilha, por um matemático espanhol com quem estou em contacto direto diário. O António Duran desenvolveu este modelo matemático que exige que olhemos para os óbitos hoje, andemos para trás 15 dias e vejamos qual é a percentagem deles entre os infetados e depois andamos então 15 dias para a frente. É um processo um pouco complicado, mas é o mais fiável até agora. E utilizando esse processo, adapto-o a Portugal, porque os números e a própria demografia são diferentes. E a demografia tem importância aqui. Foi assim que cheguei à tal parte submersa do iceberg – 57 mil a 128 mil infetados. Neste momento, teremos um mínimo de 57 mil, isto é o número otimista, e um máximo de 128 mil. 128 mil é a perspetiva mais pessimista, é que aquilo que andámos a fazer durante o estado de emergência não serviu para nada. Os 57 mil é dizer que as medidas que tomámos estão a funcionar perfeitamente e, neste momento, temos “só” 57 mil.



PETER FOLEY/EPA
Tem sido feito o suficiente ou é preciso agravá-las já nesta quarta-feira?A minha opinião é que as medidas são demasiado brandas. Se houve coisa que tenhamos aprendido com a experiência dos outros parceiros foi que para os que andaram com medidas gradualistas as coisas fugiram completamente ao controlo. Com esta quarentena à portuguesa, em português suave, nós corremos um risco muito grande. Ontem estive a ler um artigo de Sydney, e os australianos estão preocupadíssimos, porque isto está a chegar lá agora. E uma conclusão que me impressionou imenso, uma coisa que eu tinha estimado nas costas de um envelope e eles ali fizeram mesmo cálculos, foi que a eficácia das medidas não é proporcional à intensidade das medidas. Isto é, se tivermos distanciamento social razoável, se as pessoas respeitarem 70% ou menos, aquilo tem um efeito quase nulo. Não é proporcional, 70% ou nada é quase a mesma coisa. Depois, de repente, dá um salto grande e quando o distanciamento social é acima de 80%, já tem um efeito enorme. Nós não sabemos neste momento se as nossas medidas foram o suficiente para estar acima ou abaixo dos 80%. E eu aqui, com toda a franqueza, gostaria de errar para o lado da prudência e gostaria de ter medidas bastante mais restritivas.
Se tivermos distanciamento social razoável, se as pessoas respeitarem 70% ou menos, aquilo tem um efeito quase nulo. Não é proporcional, 70% ou nada é quase a mesma coisa. Depois, de repente, dá um salto grande e quando o distanciamento social é acima de 80%, já tem um efeito enorme



No sábado publicou um texto chamado ‘Corações ao Alto’, depois de uma conversa com o ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor, que lhe deu alguma esperança, porque ele envolveu ativamente a comunidade científica e tecnológica portuguesa (podem ser as nossas armas secretas para esta guerra), como por exemplo, os testes do Instituto de Medicina Molecular, que começaram já a ser aplicados, certo?A maior arma secreta foi esta, foi uma coisa extraordinária. A Maria Manuel Mota, que é uma especialista desta área e está ligada à malária, quando lhe disseram que iria haver este problema de não termos testes para administrar às pessoas ela e outras pessoas noutras instituições começaram a pensar em alternativas que pudessem funcionar com aquilo que existe em Portugal.
Uma das coisas que se tinha ouvido falar era que a cloroquina, por exemplo, poderia ser um bom remédio contra esta vírus. Portanto, se calhar ela estava na área certa.Ela estava na área certa. Sem dúvida que ela estava no sítio certo e no momento certo e é uma pessoa com uma capacidade extraordinária. É diretora do Instituto de Medicina Molecular, que tem 600 pessoas que fazem investigação de ponta a nível mundial. Basicamente, reconverteram as coisas que estavam a fazer para, em meia dúzia de dias, arranjarem uma alternativa aos testes comerciais. Está ser primeiro certificada e a seguir validada. Certificada significa que não faz mal e validada significa que faz exatamente aquilo que deve fazer.
Imediatamente este mecanismo foi agilizado pela ministra, Ana Mendes Godinho para, por exemplo, a Cruz Vermelha o aplicar aos lares, uma situação muito crítica e urgente.Absolutamente. Todos os dias vemos notícias arrepiantes causadas pelo racionamento de testes que estivemos a fazer até hoje, sobretudo nos lares de idosos. O que vemos é que este vírus é particularmente agressivo para esta faixa etária. Quanto mais avança a idade, mais agressivo. Isto é o dado experimental. Há muito poucos mortos nas outras camadas, estão concentrados nos 40 anos para cima.

“Mobilizando toda a sociedade civil conseguimos de certeza dar uma resposta muito mais eficaz”

Falou da reconversão e há outras boas notícias nesta área. Por exemplo, devido à falta de zaragatoas, a Iberomoldes, da Marinha Grande reconverteu a linha de montagem e poderá dispor de 40 mil.Exatamente. Faltavam zaragatoas. Às tantas tínhamos os reagentes, mas falava a coisa mais básica, as zaragatoas. Esse é um excelente exemplo. Nós estamos numa guerra e temos de mobilizar a nossa economia para estado de guerra. As fábricas têm de produzir zaragatoas, produzem zaragatoas. As fábricas de têxteis têm de produzir fatos isolantes para os médicos. Tem de ser tudo assim. Temos de reconverter as nossas unidades produtivas e a nossa inteligência, ciência e tecnologia. Às vezes, as pessoas não têm essa noção, mas é muito forte a nossa ciência e tecnologia.
Tal como falou, a CITEVE, por exemplo, passou a fabricar equipamentos de proteção individual. Esta reconversão já se tinha verificado, por exemplo, na China (fábricas de automóveis que passaram a fazer álcool e gel). Isso é uma coisa que se impõe e ajuda a economia a não fechar?Para mim, o caso mais impressionante é que em Portugal nunca tínhamos produzido ventiladores médicos. Um centro de investigação de Engenharia Aeronáutica em Matosinhos (CEIIA), que emprega uma centena de Engenheiros Aeroespaciais, reconverteu-se para conceber e reproduzir ventiladores. Portanto, daqui a menos de um mês são capazes de entregar uma centena, depois 400. Eles reconverteram toda a sua atividade para fazer isso.
Há até vários vídeos de pessoas que em casa fabricaram peças para ventiladores com recurso a impressão 3D, por exemplo.Pois, não sei se é assim tão simples. A tecnologia parece-me bastante mais complicada e não sei se é uma coisa que se possa fabricar artesanalmente, duvido um bocado, mas, aí, confesso a minha total ignorância. Mas, por exemplo, o Departamento de Engenharia Mecânica do Técnico produziu ontem, com impressoras 3D, algumas centenas de óculos, viseiras e máscaras para os médicos.
A nossa tradição nas biociências está mais ligada à imunologia e não tanto à virologia. Mas todos estes institutos estão a reorientar, neste momento, a investigação com efeitos imediatos. Neste momento, tudo concentrado nessa comunidade científica de topo para combater esta guerra. Isto tem sido muito importante e um sinal de esperança?Sim. Nós temos recursos cá dentro que têm de ser mobilizados, quer a nível da investigação, de reorientarmos aquilo que de bom temos em termos de ciência e tecnologia, quer em termos de mobilização da sociedade. Por exemplo, no CEIIA aquilo que está a acontecer é que são precisos materiais para se construírem os ventiladores. Esses materiais chegam ao centro através da rede logística da Sonae. Portanto, temos aqui uma quantidade de coisas a funcionar bem e em conjunto. Mobilizando toda a sociedade civil conseguimos de certeza dar uma resposta muito mais eficaz do que se ficarmos só à espera que aquilo que existe seja administrado.
Outro exemplo é este da Biosurfit, uma empresa portuguesa de biotecnologia na Azambuja, que esteve a criar este processo de triagem smart, que também já está a ser implementado.Está. Estive ontem uma hora a falar com o CEO da Smart e eles fazem coisas fantásticas, e têm mais ideias e mais projetos que se podem implementar muito rapidamente. Essa triagem permite muito rapidamente detetar qual é o estádio de avanço da infeção. E, de acordo com esse estádio, fazer a triagem para sítios diferentes, onde vão ter respostas proporcionalmente diferentes, o que é muito bom. É um avanço muito grande.

“Portugal pode estar a verificar uma descida gradual de expoente”

“Rapidamente” é uma palavra-chave neste momento que vivemos?Sim, absolutamente.
Urge fazer coisas rápido devido a este crescimento que continua exponencial ou vê a curva a achatar um pouco?Isso é uma boa questão. Continua exponencial, estamos nessa fase, mas curiosamente o expoente está a… Nós não sabemos exatamente como é que o “bicho”, sabendo que é um vírus, reage. Estamos todos um bocado a tatear e a tentar perceber o que é que acontece, mas aparentemente podemos, em Portugal, estar a verificar uma descida gradual do expoente. Duas coisas podem acontecer: ou essa descida tem a ver com termos feito menos testes e, portanto, detetado menos casos e aparentemente estamos a ver menos doentes.



STEPHEN BRASHEAR/EPA



Se estão a faltar testes, dá um resultado falso.Isso aconteceu de certeza na semana passada e não há dúvida. O que estamos a ver nos últimos dois ou três dias é um efeito que já não é explicável dessa maneira e que pode ter outras explicações.
Mas é um efeito de abrandamento?Sim. Tem a ver com o crescimento exponencial, mas um efeito de abrandamento. Mas atenção, e queria deixar uma nota de precaução: não devemos dar demasiado valor. As contas que toda a gente faz são: pegar no número de infetados hoje, dividir pelo de infetados de ontem e fazer a percentagem. Mas essa conta não é assim. Isto é o que se chama o sinal e o ruído. O sinal é o número de infetados e o ruído são os fatores que podem influenciar. O número final que vemos ali não tem nada a ver com a doença. Por exemplo, um hospital que não teve tempo de transmitir os números todos até à meia noite, isto passa para o dia seguinte. Não podemos ficar demasiado contentes pelos números de hoje serem bons nem amanhã, se eles forem piores, ou entrarmos em desespero.
Estamos entrar num problema de falta de comunicação?Não. Existe apenas um problema de comunicação em tempo real, que também se compreende. Peço às pessoas para fecharem os olhos e imaginarem a situação: o médico está com o fato isolante, com a viseira, etc., e tem 10 casos para lançar na plataforma informática até à meia noite. Ele tem, em primeiro lugar, de tratar dos doentes. Se lançar os casos à 1h da manhã, paciência. Ele tem de tratar das pessoas e não dos papéis. A dificuldade pode muitas vezes ser uma coisa destas.
Nas primeiras contas dizia-se que o pico seria a 14 de abril, agora já será mais para maio…Pelos nossos cálculos e parâmetros, nunca poderia ser antes de maio. Se fosse a 14 de abril era terrível. Era com 90% de infetados, um horror.
Esse equipamento existe em laboratórios universitários, na Faculdade de Farmácia, na Faculdade de Medicina, no Técnico, que estariam neste momento em condições de ajudar no processo analítico e não estão. Acho que é aí que as coisas falham



Pode ser mais tarde, mas com menos casos. É isso?Exatamente, é a questão de achatar a curva. Quando mais para a frente e para baixo a conseguirmos empurrar melhor.
O ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino superior transmitiu-lhe alguma queixa? O que é que ele acha que é mais urgente neste momento?Ele, uma pessoa que respeito muito, tem estado a envolver a comunidade científica de imensas maneiras diferentes. E diria que neste momento, e isso é uma queixa não do ministro, mas da própria comunidade científica, acha que pode fazer muito mais. Neste momento, os laboratórios onde se faz a análise do teste são laboratórios sofisticados. Não é simplesmente juntar umas pinguinhas de um reagente. É um processo complicado e exige maquinaria própria. No entanto, esse equipamento existe em laboratórios universitários, na Faculdade de Farmácia, na Faculdade de Medicina, no Técnico, que estariam neste momento em condições de ajudar no processo analítico e não estão. Acho que é aí que as coisas falham. Não sei exatamente porquê, mas isso não está a acontecer e é uma pena, porque são recursos que a nossa sociedade civil tem e que podiam estar ao dispor de todos.

terça-feira, 31 de março de 2020

Joshua Cohen_Diário


Com os nova-iorquinos fechados em casa, as ruas da cidade estão desertas
ANADOLU AGENCY VIA GETTY IMAGES

Caos em Nova Iorque. Não há super-heróis que salvem Gotham desta vez

Da janela do seu apartamento em Nova Iorque, o escritor norte-americano Joshua Cohen observa uma cidade mergulhada no caos e na incerteza. Resta um apelo: se querem ser produtivos, têm de usar calças.
No momento em que escrevo, 8.141 pessoas já morreram de Covid-19, e milhares (espero que apenas milhares) vão continuar a morrer ao longo do próximo ano, antes de uma vacina ser desenvolvida e disponibilizada em larga escala. Estou sentado em casa, aqui na cidade de Nova Iorque, e vejo os números subir, em algo que se aproxima de “tempo real”, ou tão “real” quanto pode ser o tempo nestes dias: 8.142… 8.143… 8.144… Penso que é isso que é suposto eu fazer, sentar-me em casa e ver os números. Quero dizer, ninguém me ordenou que o fizesse; ninguém me deu, ou a ninguém, quaisquer instruções formais; os governos da cidade e do estado limitaram-se a fechar os bares e os restaurantes, os museus e as galerias e as salas de concerto e os teatros, etc., e esperaram que isso fosse suficiente para me manter, a mim e aos meus oito milhões de vizinhos, fora das ruas. É-nos agora dito que está iminente uma quarentena… vai começar na segunda-feira ou na terça-feira ou na quarta-feira, definitivamente na quarta-feira ao meio-dia, definitivamente na quarta-feira às cinco da tarde… é-nos dito que o Exército está a caminho para impor a quarentena, e/ou para desinfetar as zonas infetadas, e/ou para construir espaços para testes e hospitais de campanha, e/ou para entregar os nossos produtos orgânicos porta-a-porta, como os estafetas da Amazon e da Whole Foods, só que as bicicletas deles são tanques… Que mais? O metro e os autocarros nunca vão parar, porque os trabalhadores dos hospitais os usam… a utilização do metro e dos autocarros vai ser restringida aos trabalhadores dos hospitais… a utilização do metro e dos autocarros vai ser restringida aos pacientes que precisem de ir a uma zona de testes e/ou a um hospital, e quem sabe o que é que os trabalhadores dos hospitais vão fazer? Talvez passem simplesmente a viver nos hospitais, como os doentes em que inevitavelmente se vão transformar?
Caso o parágrafo anterior não tenha sido suficientemente claro, deixem-me tentar de novo: não tem havido clareza em nada disto. Ninguém em Nova Iorque sabe quem ouvir; só sabemos quem não ouvir: Trump. Mas ainda não estamos totalmente seguros de que não ouvir Trump também signifique que não devíamos estar a ouvir os seus adjuntos, dos quais sobre os dois mais proeminentes por estes dias nas notícias ninguém tinha ouvido falar até há uma semana: o oleoso advogado Alex Azar, que aparentemente é o nosso Secretário da Saúde e dos Serviços Humanos, um antigo executivo e lobista da indústria farmacêutica; e o nosso Cirurgião-Geral [n.d.t.: cargo equivalente ao diretor-geral da Saúde], o vice-almirante Jerome Adams, aparentemente um antigo comissário da Saúde do estado do Indiana quando o Vice-Presidente Pence era o governador do Indiana, e um homem que aparece como um personal trainer barato num navio de cruzeiro a afundar-se. Os dois membros do elenco deste reality-show da vida real de que eu mais gosto são o Dr. Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas, que parece e soa como o Don DeLillo (“O pior cenário é ou não fazermos nada ou as nossas ações de mitigação e contenção não serem bem sucedidas.”), e o Dr. Robert Redfield, diretor do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças, que surge como honesto por causa da barba ao estilo Abe Lincoln. Estas são as pessoas que me falam a partir dos meus ecrãs, e eu dou o meu melhor para não responder. Vivo sozinho e não tenho animais de estimação — nem mesmo um morcego, nem mesmo um pangolim —, por isso estas pessoas são a minha única companhia.
 Alex Azar, Robert Redfield, Jerome Adams e Mike Pence têm sido presença assídua nas conferências de imprensa sobre a pandemia ao lado de Donald Trump
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Mas esqueçam a CNN — ou a CNN.com. Pensem nos vossos filmes, programas de TV ou o que quer que seja dos streamings favoritos que se passam em Nova Iorque — habitualmente são filmados em Toronto ou num estúdio em Hollywood, mas não interessa: pensem nos vossos favoritos. Agora pensem no quão separados eles são, quão paralelos e sem nunca se intersectarem: ninguém em Seinfield alguma vez sabe o que é que se está a passar em Friends; ninguém de um filme de Spike Lee alguma vez vagueou até à obra de (posso sequer mencioná-lo?) Woody Allen. Cada representação de Nova Iorque no ecrã é a sua própria e independente Nova Iorque e essa é atualmente a situação “no terreno”, com os governos federal, estatal e da cidade. Cada um está a fazer o seu próprio show nova-iorquino, sem comunicação, e o público já desistiu, para ser substituído por uma faixa de risos gravados que é, sobretudo, uma pieira.
Penso que a única Nova Iorque onde as personagens interagem é a Nova Iorque dos franchises promocionais cruzados de super-heróis, a cidade em perigo a clamar pelos seus X-Men, a fazer sinais de luz ao seu Batman. Mas não há nenhum esquadrão de mutantes patriotas de capa que salvem Gotham desta vez. O melhor que podemos fazer é encolher-nos num canto, com o nosso pijama do Batman enquanto racionamos o nosso papel higiénico do Batman e nos lembramos de que muito provavelmente uma experiência interespécies, ou um acidente interespécies, que nos meteu nesta confusão. Já tivemos a nossa quota de morcegos por agora.
"Não há nenhum esquadrão de mutantes patriotas de capa que salvem Gotham desta vez. O melhor que podemos fazer é encolher-nos num canto, com o nosso pijama do Batman enquanto racionamos o nosso papel higiénico do Batman"
Sem super-heróis confiáveis, sem políticos confiáveis, tudo o que nos resta é a ironia. Com isto quero dizer que, antes desta pandemia, a política americana estava atolada num conflito geracional, millennials vs. boomers, e agora parece que a mudança que não pôde ser mandatada pelos votos vai ser mandatada pela natureza. As vítimas desta pandemia parecem incluir-se, genericamente, em dois grupos: os doentes imunocomprometidos e os idosos. Os jovens — dos quais os mais saudáveis vão sair de tudo isto maioritariamente incólumes — vão chorar os primeiros, mas só vão fingir que choram os segundos. Não pretendo ser insensível: apenas franco. Os jovens americanos que não têm um emprego estável nem seguro de saúde têm todas as razões económicas mais intransigentes para não ficar em casa; têm todos os incentivos para sair e passar a infeção aos pais; afinal, os pais deles destruíram-lhes o planeta e roubaram-lhes o futuro. O facto de escolherem não exigir esta vingança é um sinal ou de cobardice ou de amor. Entretanto, com os negócios fechados, a ninharia que faziam com os trabalhos de freelancer evaporou-se; com os mercados afundados, as heranças — se é que esperavam alguma — foram reduzidas. E, quando as universidades cancelaram as aulas e os despejaram, deixaram a cidade e foram para casa — para a casa dos pais —, mas só depois de se assegurarem de que não tinham sintomas. Na minha opinião, se não iam para infetar as famílias, deviam ter ficado. Deviam ter-se barricado nos dormitórios e protestado. Pensava que era isso que os estudantes habitualmente faziam, mas talvez os millennials não o saibam — talvez nunca tenham chegado a esse capítulo no livro de história… perdão, no e-book de história.
Colocar as escolas online, a par do teletrabalho, tornou todo o nosso contacto virtual, e já é um lugar-comum pensarmos que, mesmo quando for seguro regressar à sala de aulas ou ao escritório, serão menos os que vão regressar do que os que abandonaram, e que mais e mais da nossa vida vai ser vivido remotamente, com câmara e microfone, mas sem calças.
Aqui fica um conselho de um escritor, que já estava sentado em casa muito antes de esta pandemia começar: se querem ser produtivos, têm de usar calças.
 Uma imagem rara: a Times Square tem estado praticamente vazia nos últimos dias
ANADOLU AGENCY VIA GETTY IMAGES
E mais algumas dicas de um escritor, sobre linguagem: desde o início desta pandemia, a nomenclatura tem sido contraproducente; a retórica lembrou-me da crise do VIH/sida, com as suas dicotomias alarmistas. Quem é positivo? Quem é negativo? Fizeste o teste? Usaste proteção? Esta escolha de palavras é desonesta e perigosa. O Covid-19 é um coronavírus, não um vírus do sangue, que é muito mais difícil de apanhar, e muito mais difícil de tratar, do que qualquer coisa respiratória. Não apanhamos Covid-19 por fazermos sexo sem proteção ou por partilharmos agulhas, mas por tocarmos em maçanetas de portas e por nos tossirem e espirrarem em cima. É por isso que quase todos nós o temos ou vamos ter em algum momento, algo que seríamos capazes de confirmar se tivéssemos testes suficientes, se os testes fossem uniformes e não tivessem um limite mínimo para dar positivo. Nos primeiros dias do surto no mundo anglófono, parecia que só os famosos é que apanhavam o vírus, mas veio a perceber-se, como a lógica já sugeria, que só os famosos é que estavam a ser testados: Tom Hanks, Rita Wilson, Idris Elba, a NBA. A dada altura, vamos ter a confirmação de que a relação entre número de famosos infetados e o número de não-famosos infetados reflete a proporção de famosos e não-famosos na população, embora nessa altura eu não esteja certo de que sejamos capazes de distinguir quem é famoso e quem não é famoso, porque um ano ou mais de comunicação exclusiva pela internet vai apagar essas fronteiras já ténues… e, depois, algum escritor, em pânico e solitário numa cave, vai tentar fazer a trivial e óbvia comparação entre a internet e uma pandemia, ambas impossíveis de serem contidas por fronteiras. A não ser, obviamente, na China.
Joshua Cohen (1980) é um escritor e crítico literário norte-americano, autor de livros como “Witz”, “Book of Numbers” e “Attention”. Trabalhou com Edward Snowden na escrita da autobiografia “Permanent Record”. Vive em Nova Iorque.
Este artigo faz parte da coleção “Janelas para o Mundo”, organizada pelo jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung. Vários escritores e filósofos de todo o mundo escrevem sobre o que veem das suas janelas durante o período de isolamento motivado pela pandemia da Covid-19. Como sinal de proximidade cultural em tempos de distância política e social, artigos desta coleção são publicados também noutros jornais internacionais, como o Corriere della Sera (Itália), o Politiken (Dinamarca), o Observador (Portugal) e o Die Presse (Áustria).

Carlos Fiolhais_Entrevista



AQUI:

"Só há três competidores no planeta: o homem, os vírus e as bactérias"

[...] "Como somos parte da natureza e a evolução nos trouxe até aqui apesar de todos os ataques de vírus e de bactérias - a humanidade está aqui e mais forte do que nunca -..."[...]


Comentário destacado:

"José Nogueira
E o Homem perderá sempre. As bactérias e os vírus dominaram a vida na Terra durante 3 mil milhões de anos. E quando todas a outras formas de vida desparecerem, lá ficarão as bactérias e os vírus até ao fim. Daqui a outros mil milhões, calcula-se. Ou seja, as bactérias e os vírus foram criadas à imagem e semelhança de deus. Não o Homem."

quarta-feira, 18 de março de 2020

Carta ao Presidente_Para Memo'ria Futura









......

Subitamente, a esperança chega de Itália

Senhor Presidente da República, senhor Primeiro-Ministro, senhores deputados da República, ouçam-nos: amanhã será o dia mais importante das vossas vidas. Fechem o País amanhã. Em Itália funcionou.













Números do dia 16/3 em Portugal, divulgados a 17/3: 448 infectados, a meio do intervalo que estimei. Números muito tristes mas que são a realidade inescapável que teremos de enfrentar nas próximas duas semanas, com dezenas de milhares de infectados. O tempo da negação já lá vai.
No entanto, eis que hoje mesmo surge um raio de luz por entre esta escuridão que nos oprime. Uma luz ainda por confirmar, mas uma luz de esperança. E de orientação. Que surge em Portugal na hora H, no dia D.

Mas primeiro uma explicação.
A evolução da fase europeia desta epidemia está na sua fase exponencial. Como expliquei com detalhe no meu artigo do Observador, isto significa que a curva epidemiológica, que cresce inicialmente muito depressa –exponencialmente – passa por um ponto em que começa a abrandar o seu crescimento. Esse ponto, conhecido por ponto de inflexão, é decisivo: é ele que nos permite vislumbrar o pico do surto – ainda ao longe, mas já na linha do horizonte. A curva deixa então de ser uma exponencial para ser uma sigmóide, uma curva em S.

É um facto clássico em epidemiologia (vem nos livros de texto, geralmente no primeiro capítulo) que uma doença com imunidade zero e propagação for suficientemente rápida se propaga, se não for travada, até ao ponto de se constituir a imunidade de grupo (herd immunity). No caso deste coronavírus, os parâmetros de propagação, inseridos nos modelos matemáticos que regem a propagação, dão como resultado que o pico desta curva corresponde a 60%-70% da população. É por isso que Angela Merkel e Boris Johnson referem o número de 70% de infectados: corresponde ao pior cenário desta epidemia, o caso em que as medidas tomadas não conseguem travar o avanço do vírus.


Por isso é tão importante detectar o ponto de inflexão na curva das infecções: ele assinala a entrada na fase logística da dinâmica, em que a curva é sigmóide, e portanto que as medidas tomadas estão a ter efeito. Foi o que aconteceu na China ou na Coreia do Sul, únicos países que conseguiram controlar a epidemia em fase avançada: pode determinar-se o respectivo ponto de inflexão com uma precisão de 2 a 3 dias analisando os dados numéricos da epidemia.

O problema, como explico no artigo do Observador, é que até 16 de Março, em qualquer dos países europeus analisados, ponto de inflexão nem vê-lo. E na sua ausência temos de assumir que as medidas adoptadas não estão a ser eficazes. E portanto que a epidemia ficaria descontrolada, só parando nos 60-70%, como Merkel e Johnson afirmaram. No caso português, significaria um pico em fins de Abril-inícios de Maio, como afirmou a DGS, com 6 a 7 de milhões de infectados.


Agora os motivos de esperança.

Itália é, como tenho referido, o tubo de ensaio da Europa. Para sua desgraça, é o país europeu onde a epidemia está mais avançada; consequentemente, a sua evolução mostra aos outros países o que podem esperar. Itália está na trincheira da frente da frente da Europa nesta impiedosa guerra contra um inimigo invisível.

Os números de Itália de ontem, 16 de Março, revelam algo que pode assinalar a aproximação de um ponto de inflexão. O número de novos casos diminuiu, o que é incompatível com a evolução exponencial e pode sinalizar a inflexão tão desejada. Uma andorinha não faz a Primavera: um dia de diminuição, só por si, não tem significado. Isto já aconteceu recentemente, para nosso desespero, a 8 de Março e a 13 de Março, sendo contrariados no dia seguinte por um crescimento esmagador.


No entanto, há motivos para crer que à terceira é de vez. Os números de hoje, 17 de Março, confirmam essencialmente a estacionaridade do surgimento de novos casos. É a primeira vez desde início do surto na Europa que se registam 2 dias consecutivos (ou 3, se incluirmos o dia 15, em que o factor de crescimento foi de 1,02) de quase estacionaridade do factor de crescimento. O que pode sinalizar o fim da fase exponencial em Itália.


Gráfico com os dados das novas infeções em Itália desde 3 de março

Mais importante do que tudo é ter em consideração que Itália impôs o lockdown total do país a 9 de Março. Esta medida foi aquela que permitiu à China, que a aplicou muito precocemente, contê-lo em Wuhan; os dados disponíveis mostram que os efeitos da medida se tornaram visíveis com um atraso de 12 dias em relação à sua implementação.


Vem a propósito referir que foi hoje publicado no Observador um artigo do Pedro Pita Barros, “Porque não acredito na “curva exponencial”” que no subtítulo “contesta as projecções de Jorge Buescu”. Na verdade, este artigo não contradiz uma palavra do que afirmo. São feitos cálculos baseados sobre os dados da China, identificando-se um ponto de inflexão por volta do dia 16 do surto mas omitindo que o lockdown tinha sido imposto no dia 6). A inflexão verificada na China e o subsequente controlo da epidemia foram consequência directa do lockdown, facto que não é referido pelo autor e pode induzir em grave erro o leitor desprevenido.

Voltando ao caso de Itália, que no dia 17 perfaz 8 dias de lockdown, é bem possível, eu diria mesmo provável, que estejamos já a ver os primeiros sinais do efeito deste na contenção da doença. É ainda um sinal precoce, que tem de ser confirmado nos próximos dias – mas é o primeiro sinal objectivo de esperança no meio do tsunami e do desespero colectivo que nas últimas semanas tem assolado a Europa.

Só com os dados dos próximos dois dias poderemos ter absoluta certeza; mas a situação actual é inédita na fase europeia do surto e, a confirmar-se, trata-se de um verdadeiro breakthrough. Será o correspondente, na I Guerra Mundial, a conseguir furar a trincheira do inimigo. Significará que a estratégia de lockdown funciona na Europa, com um atraso até mais pequeno do que Wuhan (8-10 dias para 10-12 dias). Se isto assim for, temos todos de estar muito gratos a esta Itália verdadeiramente mártir, que no mesmo dia que nos dá esta extraordinária notícia regista 345 mortes, e que com o seu holocausto permitiu identificar a arma que nos fará ganhar esta guerra.


Esperam-nos ainda semanas muito difíceis, de grandes sacrifícios, com os serviços de saúde inundados de doentes, muitos deles em estado crítico. Exigirá um esforço heróico dos médicos, enfermeiros e profissionais de saúde. Todos temos de ficar em casa e reduzir os contactos a zero. Exigirá mobilização de meios numa escala nunca vista depois do 25 de Abril. Não haja ilusões: o pior está para vir. Mas finalmente sabemos o que fazer. O lockdown funciona!

Senhor Presidente da República, senhor Primeiro-Ministro, senhores deputados da República, ouçam-nos: amanhã será o dia mais importante das vossas vidas. Não tomar a decisão que se impõe significará condenar centenas ou milhares de portugueses. Todos estamos suspensos da vossa decisão. Todos esperamos que estejam à altura das vossas responsabilidades. Façam a única coisa que os portugueses vos pedem.

Fechem o País amanhã.

in: jornal "Observador"