terça-feira, 23 de abril de 2019

Ricardo Ribeiro

1.- Eu sei que sou demais
2.- No Teu Poema



letra 1.-Eu sei que sou demais

Eu sei que sou demais na tua
Vida
Eu sei que nem me vês tão
Apagada
Apenas uma sombra indefinida
O resto duma voz triste
Condenada
Eu sei que sou demais na tua
Vida
De tudo quanto fui, não sou
Mais nada

Ai quem me dera prender o
Teu futuro
E uni-lo ao meu, assim de tal
Maneira
Como a era verde se prende
Ao velho muro
E ali fica pela vida inteira

Eu sei que sou demais no teu
Caminho
Eu sei que nada tens para me
Dar
E sei que nesta luta estou
Vencida
Por outro amor que tens no
Meu lugar
Mas sei amor, que eu na
Minha vida
Ninguém, jamais ninguém
Pode apagar

.....
letra 2.- No teu poema

Existe um verso em branco e sem medida

Um corpo que respira, um céu aberto

Janela debruçada para a vida


No teu poema existe a dor calada lá no fundo

O passo da coragem em casa escura

E, aberta, uma varanda para o mundo.


Existe a noite

O riso e a voz refeita à luz do dia

A festa da Senhora da Agonia

E o cansaço

Do corpo que adormece em cama fria.


Existe um rio

A sina de quem nasce fraco ou forte

O risco, a raiva e a luta de quem cai

Ou que resiste

Que vence ou adormece antes da morte.


No teu poema

Existe o grito e o eco da metralha

A dor que sei de cor mas não recito

E os sonos inquietos de quem falha.


No teu poema

Existe um canto, chão alentejano

A rua e o pregão de uma varina

E um barco assoprado a todo o pano


Existe um rio

O canto em vozes juntas, vozes certas

Canção de uma só letra

E um só destino a embarcar

No cais da nova nau das descobertas


Existe um rio

A sina de quem nasce fraco ou forte

O risco, a raiva e a luta de quem cai

Ou que resiste

Que vence ou adormece antes da morte.

No teu poema

Existe a esperança acesa atrás do muro

Existe tudo o mais que ainda escapa

E um verso em branco à espera de futuro.

..................


Entrevista  in: jornal "Observador"






Ricardo Ribeiro. “Devo tudo à música e ao 
fado: o carro, a casa alugada, a comida que 
ponho na boca e a vida” /premium

21 Abril 2019411










Aos 37 anos, Ricardo Ribeiro lança um disco de voz, piano, percussão e pouca guitarra. Em entrevista conta histórias de vida, lembra a família, os "mestres", reconhece erros e agradece o que tem.
Sentado na esplanada de um café e restaurante lisboeta, na tarde da última quarta-feira, 17 de março, Ricardo Ribeiro demorou algum tempo a concentrar-se para uma entrevista com o Observador. Pediu logo gentilmente desculpa por isso, disse que estava com dificuldades em não pensar em como chegaria a casa, o que se explica rapidamente: vive em Cascais, tinha pouco gasóleo no carro e não sabia se conseguiria abastecer, devido a uma greve que só terminou na manhã seguinte. “E em casa tenho o meu cão… mas bom, isto compõe-se, vamos a isto”, logo acrescentou.
Compôs-se, claro: com um novo álbum pronto a ser editado — intitulado Respeitosa Mente, chegará às lojas e plataformas digitais de streaming na próxima sexta-feira, 26 de abril –, o cantor e fadista acedeu a uma conversa longa sobre um novo disco que “não é de fados”. Se não é de fados,é de quê, poderá o leitor perguntar-se? É de poesias (de António Ramos Rosa, Giacomo Leopardi, Miguel Martins e de Tiago Torres da Silva, entre outros) que Ricardo Ribeiro canta por cima de “música nova” que compôs e gravou com o percussionista Jarrod Cagwin e com o pianista e poeta João Paulo Esteves da Silva, cuja influência no disco é clara: é o autor dos poemas de três das 12 canções e de oito das 12 melodias, além de tocar piano com a elegância que lhe é habitual.
A conversa com o Observador, porém, não se circunscreveu apenas a este novo álbum, a esta “aventura” a três onde ao canto de Ricardo Ribeiro (em certos momentos afadistado, claro, porque “não posso dizer que não sou filho do fado, é o meu pai e a minha mãe e não deixará de ser”), que neste disco também toca guitarra e baixo no disco, alia-se o piano e as percussões do baterista norte-americano há muitos anos residente na Europa, que integra a banda de Rabih Abou-Khalil.

É assim a capa do novo álbum de Ricardo Ribeiro
O disco, sexto álbum de estúdio de Ricardo Ribeiro, foi um ponto de partida para a entrevista. É um belo ponto de partida, como se percebe pelo pathos solene da segunda faixa “Envoi”, pelas notas de piano logo no início do tema seguinte “Atraso”, pelos versos de Ary dos Santos cantados com brilhantismo por Ricardo Ribeiro na canção que estará mais próxima de soar a um fado, “Canto Franciscano”, pelo swing de “Vou Fumar um Cigarro” e seus memoráveis versos (“Vou fumar um cigarro a outra vida / a um país distante que é lá fora / vou à varanda ver-me de fugida / correr pelo passado que demora”) e pela “Deserta Liberdade” ansiada por António Ramos Rosa, que Ricardo Ribeiro e os seus dois parceiros transformaram em canção que lhe faz jus.
Durante 55 minutos de entrevista, porém, Ricardo Ribeiro falou de outras coisas que não este novo capítulo de uma carreira que começou cedo para quem tem 37 anos (editou o primeiro álbum em 1998 ). Falou do fado em que tem “história” e que é musicalmente o seu pai e a sua mãe, mas também de música — às duas coisas deve “tudo”, do “carro, casa alugada e comida que ponho na boca” até não ser “um indivíduo tão escuro e mais débil ainda”. Lembrou ainda dores passadas e como lhes deu a volta, falou do amor da sua mãe pelo seu pai, de leituras e de discos, recordou o momento em que com 25 anos descobriu que só tinha um rim e a perda de mais de 50 quilos que o transformou fisicamente. Respondeu, durante quase uma hora, como costuma fazer, com muitas citações e uma eloquência de pendor filosófico. No final, avisou e garantiu: “Se não levar a minha vida como falo, não valho nada. Não apregoo uma coisa e faço outra”.

“Não canto fados com um pianista, este não é um disco de fado”

Esta entrevista esteve para acontecer um dia antes, mas teve um percalço. Quer contá-lo?
Foi o gasóleo. Houve uma greve, que é bem legítima, mas fiquei sem gasóleo. E ainda estou sem gasóleo. Tive que adiar — peço as mais sinceras desculpas — porque ontem se saísse de Lisboa uma hora depois daquela a que saí não conseguia chegar a casa, porque vivo em Cascais. Com o trânsito para-arranca seria impossível. Hoje vim a 80 km/h para ver se conseguia chegar a tempo. Consegui chegar aqui, estacionei o carro e vamos lá ver se isto se compõe e se consigo pôr gasóleo hoje.
A primeira referência que vi a este disco surgiu numa entrevista que deu no verão passado, quando foi atuar a Évora. Na altura, disse que ia fazer “um disco fora dos fados, uma coisa um bocado louca, com o João Paulo Esteves da Silva”. Quando é que teve a ideia de fazer esta “coisa um bocado louca”?[Risos] Conhecia o João Paulo, já o seguia há uns anos como músico e como poeta. Quando o conheci pessoalmente e quando colaborou comigo no Hoje É Assim, Amanhã Não Sei [disco anterior de Ricardo Ribeiro, de 2016] — em que tocou em três temas e compôs dois –, sentimos uma necessidade e uma vontade de trabalhar juntos numa coisa que fosse mesmo nossa, com repertório maioritariamente original. Este disco tem duas cantigas [“Canto Franciscano” e “As Mondadeiras”] que não são originais, tudo o resto é música nova.
Resolvemos começar a trabalhar. Resolvi começar a mandar-lhe poesia, ele resolveu começar a enviar-me canções — com poemas dele ou não — e assim foi acontecendo. É “uma coisa um bocado louca” porque este disco vive de duas histórias que funcionam em paralelo: uma é baseada no que é vivido, no que é profundamente real, a outra na imaginação. Há poemas que têm a ver com histórias imaginadas por mim e outros que têm a ver com o mundo real, com aquilo que vivo na realidade ou pelo menos com aquilo que me dói [sorri].

Da esquerda para a direita: Jarrod Cagwin (percussionista), Ricardo Ribeiro (cantor e guitarrista) e João Paulo Esteves da Silva (pianista), o trio que gravou este álbum (@ Pedro Soares)
A minha dúvida era se este disco tinha começado de uma vontade de fazer algo com o João Paulo Esteves da Silva ou se o Ricardo já tinha ideias de sons e música e o foi chamar para ajudar a gravá-los.A vontade começou por ser trabalhar com o João. Há músicos com quem isto me acontece, uma coisa telepática, não sei explicar o que é — e também não quero explicação. Gosto muito de matemática e há um matemático que costumo frisar muito, que é o Henri Poincaré. Ele diz: o acaso nada mais é do que a medida da nossa ignorância. Os três músicos com quem senti essa coisa telepática foram o Rabih Abou-Khali, o Pedro Jóia e o João Paulo Esteves da Silva. Há qualquer coisa que nos une que não sei explicar o que é, mas também não quero uma explicação, quero viver. Com outros aconteceu-me algo parecido, mas não da mesma forma.
É curioso que nos últimos anos cantores ligados ao fado têm-se aliado muito a pianistas. Tivemos há uns anos o  Carlos do Carmo com o Bernardo Sassetti, por exemplo, mas mais recentemente o João Paulo Esteves da Silva tocou no último disco da Carminho, a Cristina Branco canta com o Luís Figueiredo (com quem a Gisela João já deu concertos), o Camané tem neste momento um duo com o Mário Laginha e o Pedro Moutinho gravou recentemente um disco produzido pelo Filipe Raposo. O que é que esta tendência revela?Não sei explicar isso muito bem… Há uma coisa que é de salientar: eu não canto fados com um pianista, a música que canto é nova. Neste disco tenho apenas a base de um fado. Como às vezes sou um bocadinho provocador e costumo dizer que o fado não faz o fadista mas o fadista pode fazer o fado — ou não –, quero ver quem é que se atreve a dizer que esse tema é fado ou não é fado. Calo-me, não minto mas omito, para ver até que ponto as pessoas chegam. Gosto deste desafio. Agora, o que faço com o João Paulo é uma coisa nova e única, canto músicas originais, não há fados aqui. Há uma base de um fado — e agora quero ver quem vai dizer se aquilo é novo fado, se é fado ou se não é fado. É isso que quero que me expliquem.
O que é que as pessoas poderão não imaginar que gosta de ouvir, fora do fado?Prokofiev, por exemplo. Alim Qasimov. Música da Mauritânia. Brahms, Schubert, Schuman. Música da Mongólia. Tenho um gosto musical muito estranho, sou muito louco [risos].
"Fado? Tenho 37 anos, mas tenho história nesta cantiga. Comecei muito pequeno e lidei com pessoas muito antigas. Não me é permitido cantar determinadas coisas e fazer certas coisas dentro da tradição fadista. Tenho necessidade de dizer que este não é um disco de fados porque não me é permitido dizê-lo, porque não o é efetivamente."
Tem tido muito cuidado em sublinhar que este não é um disco de fado, é um disco de canções. É curioso fazê-lo numa altura em que tudo parece poder ser fado, em que se questionam os limites do fado. É revelador de um respeito pelo código e pela história do fado?Espero que não se tome o que vou dizer como uma arrogância. Tenho 37 anos, mas tenho uma coisa que por um lado é um problema e por outro é uma bênção: tenho história nesta cantiga. Comecei muito pequeno e lidei com pessoas muito antigas, não velhas, que me incutiram determinados valores. O mundo precisa de valores, não dos meus mas de valores de justiça, fraternidade, bondade e fundamental respeito por aquilo que são as tradições. É evidente que uma revolução hoje pode ser uma tradição amanhã mas há coisas que não mudam. O meu modo de te tratar como meu semelhante também não muda: a minha obrigação no mundo é tratar-te bem. Da mesma forma, tenho de tratar bem aquilo que os antigos nos deixaram, porque é de todos.
Não me é permitido cantar determinadas coisas e fazer certas coisas dentro da tradição fadista. Não tomem isto como uma arrogância. Também não se trata de ter a cabeça fechada, se me conhecerem e forem investigar o que faço poderão ver que não tenho mente fechada ou espírito fechado. Apenas tenho uma história e conheço as bases, aquilo que a tradição me quer dizer. A palavra tradição vem do termo latino traditio e significa: aquele que transporta algo para dar aos outros. Ao transportar algo para dar aos outros, tenho de cuidar muito bem daquilo que trago e entregá-lo muito bem. Isto não quer dizer que não existam aventuras porque nenhuma expressão [artística] ficou fechada. É importante fazer-se coisas novas e desafiar-se determinados pontos da tradição que achamos que são limites, mas pessoalmente desafio-os de uma outra maneira — só o tempo irá mostrá-lo. Não é arrogância, é uma constatação: faço isso de uma outra forma dentro da própria tradição, vou colocando pequenas coisas da minha personalidade artística que só com o tempo as pessoas irão perceber. Parece igual [ao tradicional] mas não é.
Neste disco o que acontece não é apenas isso, certo?Tenho necessidade de dizer que este não é um disco de fados porque não me é permitido dizê-lo, porque não o é efetivamente. Desde logo não canto quadras, quintilhas, sextilhas, alexandrinos ou decassílabos. Não canto métricas dos fados e não canto melodias que sejam identificadas como sendo de fados, que tenham essa linguagem. Um indivíduo que vem do Alentejo tem o seu sotaque — e muito bem, assim seja para sempre. Existem formas de linguajar e o fado tem a sua própria linguagem, é uma expressão idiomática do povo português. Salvaguardo sempre esta questão porque o disco não é de fado.
"As pessoas confundem talento com jeito, não pode ser -- como também não se pode confundir valor com gosto ou estética com ética. Consegue-se perceber que uma pessoa tem talento quando se acredita nela, quando não se entende nada e não se sabe porque é que se acredita. Isto é o talento. O jeito é quando tentas começar a entender."
Já tinha dito bem antes de fazer este disco: “Não posso fazer qualquer coisa porque me dá na gana, porque sou muito talentosinho ou muito giro” — e chamar-lhe fado, acrescento eu.É. Voilá. As pessoas confundem talento com jeito, não pode ser — como também não se pode confundir valor com gosto ou estética com ética. São campos muito distintos. Hoje em dia confundimos tudo, talvez tentemos confundir a nosso belo prazer porque nos serve. É preciso não confundir as coisas porque qualquer ser humano nasce com jeito para alguma coisa. O talento é outra coisa, é alguém que nasce e tu sentes. Por isso, um artista não precisa de ser entendido, precisa de ser acreditado. É preciso acreditar nele. Nem sempre é preciso perceber, é preciso acreditar.
Mais do que perceber ou acreditar no que a pessoa canta, é preciso então acreditar nela quando o faz, é isso?É certo! Consegue-se perceber que uma pessoa tem talento quando se acredita nela, quando não se entende nada e não se sabe porque é que se acredita. Isto é o talento. O jeito é quando tentas começar a entender.
[“Depois de Ti”, o primeiro single revelado do novo álbum de Ricardo Ribeiro:]

Já lhe passou pela cabeça o que pensará deste disco quem dizia que o Ricardo Ribeiro era um “purista” do fado?Meu querido amigo, eu “gasto muito pouco aos 100”. Resolvi esses meus problemas. Não estou preocupado com o que as pessoas possam pensar, o importante para mim é a obra. É evidente que faço a música para os outros e para fazer bem aos outros, não faço uma coisa egocêntrica, para mim. É evidente que a viagem [musical] é minha, o que sinto é meu, mas faço-o para os outros. Porém, o ser humano é contraditório e deixei de me preocupar com muita coisa. Se alguém vai gostar ou não isso é problema seu, não é meu. Fiz com todo o amor, se a pessoa não entendeu aquele amor e não acreditou naquilo não posso fazer nada. Continuarei a cantar e não tenho de justificar nada, o importante para mim é o meu caminho, é a arte que me acontece, a música que me acontece, a poesia que me acontece, a necessidade furtiva dentro de mim para o belo, para o que me faz bem e para o que sei que vai fazer bem aos outros.
"É evidente que sou cheio de contradições, mas vivo para amanhã ser melhor. O que se diz preocupa-me só um pouco, já não tem relevância, poderei ficar triste mas o que importa é a obra. Quando fiz uma pequena apresentação deste álbum, escrevi uma frase que diz: o entretenimento é para esquecer a vida, a arte é para lembrar a vida. Eu não quero esquecer a vida, quero sempre lembrar a vida."
Se posso ficar triste? Claro, se pessoas de quem goste e que considero disserem uma coisa… mas sei que essas pessoas terão o bom senso de perceber que não estou a cantar fados. Pessoalmente posso gostar ou não gostar das coisas, não devo é confundir o valor com o gosto. Esta conversa pode parecer presunçosa, dar a ideia que “este gajo está muito cheio dele”, mas não: estou cheio é daquilo que sou movido no mundo, que é a arte e o bem. É evidente que sou cheio de contradições e cheio de porras más, mas vivo para amanhã ser melhor, vivemos para evoluir a consciência. Às vezes também penso mal, sou ser humano, sou passível de erro. A consciência dá-se por contrastes, se todo o mundo fosse azul ninguém sabia o que era o azul, não havia um contraste. O que se diz preocupa-me só um pouco, já não tem relevância, poderei ficar triste mas o que importa é a obra. Quando fiz uma pequena apresentação deste álbum, escrevi uma frase que diz: o entretenimento é para esquecer a vida, a arte é para lembrar a vida. Eu não quero esquecer a vida, quero sempre lembrar a vida.
Agora uma pequena provocação cordial…… Faça favor.
Quando canta não deixa inteiramente de ser fadista, pois não? Estou a pensar na forma como canta o “Canto Franciscano”, como canta aquele “há quem lhe chame saudade” do segundo tema do disco, como canta a “Deserta Liberdade”.Pois muito bem, está à vontade para me provocar porque não me levo demasiado a sério. Gosto quando as pessoas me dizem:  é muito aciganado, muito árabe, isto ou aquilo. Fico contente porque isso também sou eu, não é uma coisa que sinta como depreciativa. Na verdade não é bem aciganado, é mais árabe, mas não interessa nada, não me levo demasiado a sério.
Agora, uma pessoa pode ficar sem pai, o seu pai pode morrer, mas ter-se-á sempre um pai, não? O pai pode ser um grande assassino, será sempre pai. A mãe a mesma coisa. A mesma coisa acontece no fado, é igual: não posso dizer que não sou filho do fado, o fado é o meu pai e a minha mãe e não deixará de ser.

Ricardo Ribeiro. 37 anos, foi pastor, trabalhou nas obras, cantou em casas de fados e lançou o primeiro disco há 21 anos (@ Adriano Fagundes)
Achei curiosa a presença neste disco de um poema do Pedro Homem de Melo, que também estudou o folclore e a tradição portuguesa e que teve textos cantados pela Amália Rodrigues, por exemplo. Teve-os desde logo naquele que é, corrija-me se estiver enganado, o seu disco preferido da Amália.Sim, o Cantigas de Uma Língua Antiga [de 1977].
O que é que o fascina mais nesse disco?A maneira como a Amália canta, o acompanhamento, a poesia e as composições.
Consegue escolher três ou quatro discos de fado ou de outro género musical que o arrebatem, que tenha no seu altar de preferências?Sim. Da Amália é o Cantigas de Uma Língua Antiga. Há um outro disco de uma cantora de que gosto muito que se chama Mayte Martin, o disco chama-se Tempo Rubato. Também o disco Yara, do Rabih Abou Khalil, entre outros.
Canta também neste disco textos do António Ramos Rosa, do Giacomo Leopardi…Gosto muito do Ramos Rosa, leio-o muito. Quanto a Leopardi, domino o italiano, é uma língua de que gosto muito. Uma das primeiras viagens que fiz a Itália aconteceu quando tinha 20 anos e fui a Recanati, onde está a casa-museu de Leopardi. Comecei a interessar-me e tenho muita coisa dele, é fascinante.

“Se não levar a minha vida como falo não valho nada”

A leitura é algo de que é muito aficionado. Ela enquadra-se naquilo de que já falou no passado, o que chama de “desejo de profundidade”? E o que é isso exatamente?É não ver as coisas como elas se aparentam, mas ver através delas. A profundidade encontra-se através das coisas e não nas coisas em si.
O que é que tem lido recentemente que mais gostou?Li agora uma poetisa fantástica, Maria Amélia Neto. É fantástica. Por causa dela escrevi dois poemas, tenho um pseudónimo que nem interessa dizer. Ela era de 1960, morreu muito cedo, a poesia é fantástica. Estou também a ler agora “As Páginas Esquecidas” do Agostinho da Silva, o livro que saiu há pouco tempo. Gosto muito do professor Agostinho da Silva, mas tenho lido maioritariamente muita poesia e muita filosofia. Há pouco tempo andei a ler um livro de um filósofo indiano de que gosto muito, Sri Ram, que se chama “Em Busca da Sabedoria”.
Também tem uma história curiosa com um “Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa”, pelo qual pagou, salvo erro, 500 euros.Sim, sim [sorriso]. Paguei 500 euros em versão digitalizada, mais uns quantos trocos. Disse há pouco que gasto pouco aos 100 mas de vez em quando faço assim umas loucuras. Gosto muito da etimologia, aprendi com o Platão, seduziu-me para ver através das palavras. Às vezes utilizamos palavras… Este título com o Respeitosa Mente, sabe de onde vem a palavra respeito? Vem de uma palavra latina que é respicere, que verdadeiramente significa “o que sabe ver”. Ter respeito pelo outro é saber vê-lo.
"A minha tia lia-me e dava-me coisas para ler, mas foi no colégio [interno e diocesano] que comecei a ganhar mais o bichinho da leitura. Tenho fases em que não leio nada, quase só oiço música, depois tenho outras fases em que só leio, passo o tempo na casa de fados lendo, naqueles intervalos [de canto] estou só lendo, lendo, lendo."
Tem gosto pela leitura desde criança ou isso surgiu mais tarde, já no colégio diocesano [interno] em que estudou?Apareceu cedo porque a minha tia lia-me e dava-me coisas para ler, mas foi no colégio que comecei a ganhar mais o bichinho da leitura. É estranho porque tenho fases em que não leio nada, quase só oiço música, depois tenho outras fases em que só leio, passo o tempo na casa de fados lendo, naqueles intervalos [de canto] estou só lendo, lendo, lendo. Agora li dois livros pequeninos, quase cadernos, do Manuel de Freitas e da Maria Amélia Neto — e desde aí estou sem ler. Tenho fases, leio quatro ou cinco livros de uma assentada, depois repito alguns, leio certos livros duas ou três vezes, como o “Riso de Deus” do António Alçada Baptista, que é um livro de que gosto muito.
O ano passado deu uma entrevista muito emotiva no programa “Alta Definição”, que marcou muitos espetadores. Falar de todos aqueles assuntos [a relação inicialmente complicada com os pais, uma tentativa de suicídio em criança, um período turbulento que viveu entre 2012 e 2014/2015] serviu de terapia?Não… foi uma exposição — já sabia que seria assim — do que sou verdadeiramente, daquilo que tenho vivido e daquilo que tenho aprendido. Terapia não porque essa parte resolvo-a sozinho [sorri], faço-a no meu sofá, no meu “cantinho das punições” — como lhe chamo — resolvo isso tudo,  penso e vejo as coisas. O Daniel é um indivíduo muito interessante pela maneira como olha, o olhar dele emana alguma coisa.
Posso estar aqui a dizer coisas muito bonitas, frases que crio ou que cito, mas se não levar a minha vida como falo não valho nada. Tudo aquilo que está nessa entrevista é o que vivo e faço, não apregoo uma coisa e faço outra. Gostava que as pessoas entendessem que o que lá disse não é só dito, é dito e é feito.

Ricardo Ribeiro pela lente do fotógrafo Adriano Fagundes
Falava há pouco de como está cheio de contradições. Nessa entrevista falava de coisas más que vai tentando matar todos os dias…Às vezes não as conseguimos matar mas vamos tentando. Tentar às vezes pode ser só um tipo chegar a casa e dizer: “fui arrogante, não tive calma ali, epá mas para quê? Isto é tão relativo, dura tão pouco tempo, as pessoas têm falhas, não condenes logo”. Ainda ontem tive uma má atitude, uma má resposta, é natural — o importante é um tipo perceber e dizer: não, acalma-te, respira, as pessoas têm falhas.
Esta história do gasóleo, por exemplo: ontem [quarta-feira] roguei pragas aos senhores e depois lá disse “que estúpido, mas porquê se eles estão a reivindicar qualquer coisa das suas vidas?” Não paramos para pensar que aqueles indivíduos passam a vida metida dentro de um camião, não têm vida, chegam a casa e mal veem os filhos e a mulher. Tudo bem, aquilo prejudicou-me mas aquelas pessoas se calhar andam há mais tempo prejudicadas. Na altura vocifrei por estupidez, depois parei em mim.
Ainda na entrevista ao “Alta Definição” falou de um período recente mais duro [entre 2012 e 2014 a 2015, andava “completamente doido”, revelou]. Que coisas concretas — sejam conversas, pensamentos, pessoas — o levaram a dar a volta?Amigos, livros… grandes amigos fundamentalmente. A filosofia e a poesia também, mas sobretudo as pessoas que me acompanharam, as conversas, o nunca me terem deixado cair. Nisso tive uma grande sorte, não vou frisar aqui os nomes das pessoas mas tive uma grande sorte, tive grandes amigos que me ajudaram muito, falaram comigo e fizeram-me ver as coisas. Isso a par dos filósofos que ia lendo e com quem ia aprendendo e pondo [ensinamentos em prática]. Tanta coisa na vida requer um esforço e é preciso também um esforço para contrariarmos a nossa mente, para contrariarmos a procrastinação, porque a nossa mente é um círculo. Se calhar é um grande disparate o que vou dizer, uma grande estupidez, mas às vezes penso: se a Terra é redonda, se o sol se me aparenta redondo, se a Terra anda em círculo de si própria em torno do sol, será que a minha mente também não é assim? Então digo: tenho de parar, contrariar as coisas.
Comecei a contrariar a tristeza e fundamentalmente a vitimização. Deixei de me vitimizar e deixei de culpar os outros, acabei com isso, culpar o fulano, o sincrano, a beltrana. Acabou-se. E acabou-se a história de ser bom e os outros serem maus. Não sou vítima de coisa nenhuma, tenho os mesmos direitos e os mesmos deveres de qualquer ser humano — e se as coisas me acontecem de mal é porque têm de acontecer assim, é porque preciso de aprender alguma coisa. É evidente que custa, claro que custa, na altura reagimos mal às coisas, mas a partir do momento em que se vai tomando consciência deixamos de reagir tão mal. Não sou vítima de nada, vamos embora para a frente com a vida.
"Já tomei tantas opções erradas que às vezes até me esqueço das boas. Já tomei algumas boas. Uma delas foi este disco, outra foi a de parar de culpar os outros e de me vitimizar. Também acho que foi boa a opção de aceitar os outros e de me aceitar a mim , com as minhas próprias falências, com as minhas sombras - para que as possa conhecer e dominar em vez de serem elas a dominar-me."
De entre as opções que tomou entre as hipóteses que a vida lhe foi apresentando, de qual se orgulha mais?Não tenho grande aptidão para o orgulho nesse campo, tenho-o mas não nesse campo. Já tomei tantas opções erradas que às vezes até me esqueço das boas. Já tomei algumas boas. Uma delas foi este disco, outra foi a de parar de culpar os outros e de me vitimizar. Também acho que foi boa a opção de aceitar os outros e de me aceitar a mim também, com as minhas próprias falências, com as minhas sombras — para que as possa conhecer e dominar em vez de serem elas a dominar-me. É muito difícil, tenho 37 anos, há tanta m**** que faço… desculpe a linguagem.

Perder 52 quilos, “a fazer jejuns às vezes de 17 horas…”

O Fernando Maurício…… Master!
O seu grande mestre. Dizia-lhe: “Tens de ser melhor do que tu mesmo, o teu pai não tem uma mercearia nem nasceste com três nomes”. É mais ou menos consensual que se está mais perto de êxitos profissionais quando se tem oportunidades desde cedo e quando se cresce num meio privilegiado. No fado e na música também funciona assim?Essa frase é um bocadinho rude da parte dele, tanto o é que me foi dita a mim quase estritamente na intimidade, estávamos só os dois. É um bocadinho rude porque ninguém tem culpa de ter nascido num meio privilegiado — e se nasceu, ainda bem. Se nascemos naquele meio é porque tínhamos de nascer lá. Se alguém nasce com pai rico, que culpa tem disso? É evidente que isso faz parte da humanidade, infelizmente e ainda. Um dia deixará de acontecer, X ou Y deixará de ser escolhido porque é filho de alguém ou porque tem dinheiro. Claro que não pode ser assim, não deve ser assim, mas a pessoa não tem culpa de ter nascido num meio privilegiado.
A frase começa com “Sê melhor do que tu mesmo”, portanto ele também quer dizer: esquece o julgamento, esquece os outros — tenham ou não tenham tudo isso — e sê melhor, cumpre-te como és ou como queres vir a ser, tenta-te cumprir e puxa do futuro para ti.

Enquanto fazia este Respeitosa Mente, passou-lhe pela cabeça o que ele poderia pensar do disco?Sim, sim. Já pensei no que ele pensaria, no Rodrigo, em tantas pessoas. O meu mestre ia gostar.
Da ousadia?Sim. Ia-me dizer: sim senhor, o disco não é de fados, cantas umas canções, está tudo certo.
E quantas vezes é que já se perguntou como é que só aos 25 anos descobriu que só tinha um rim?[Sorriso largo] Não faço a mínima ideia. Aconteceu ter uma dor horrível.
"Poderia vitimizar-me: só tenho um rim, coitadinho de mim, já viram se isto pára? Podia viver preocupado, 'tenho uma filha com 14 anos , também tenho bronquite crónica, alergias'... ó f***-**, não! Quero é trabalhar, viver, não quero estar a pensar que não posso comer tomate que tem oxalato."
Na Alemanha, não foi?Sim, uma dor horrível que não desejo a ninguém, uma coisa assustadora. A dor era de uma pedra que tinha num rim, depois disso é que fui fazer exames, fui ver e descobri que só tinha um. É perfeitamente normal, um urologista já me disse que às vezes acontece uma pessoa nascer só com um rim. Ele é enorme, faz o trabalho de dois e funciona lindamente. Está tudo certo. Lá está, poderia vitimizar-me: só tenho um rim, coitadinho de mim, já viram se isto pára? Podia viver preocupado, “tenho uma filha com 14 anos , também tenho bronquite crónica, alergias”… ó f***-**, não! Quero é trabalhar, viver, não quero estar a pensar que não posso comer tomate que tem oxalato. Não exagero mas está tudo bem.
Não o tem impedido de fazer nada?Nada! Nem perder 52 quilos, homem! A fazer jejuns às vezes de 17 horas…

Não se tornou ainda assim daquelas pessoas que tentam evangelizar obsessivamente todos os dias o máximo de pessoas que conseguem para a comida saudável, ou tornou?Não, não. Lá voltamos nós: não vou interferir com a vida do outro. Digo às pessoas: ó homem, você é feliz assim? Ouça, viva! A longo prazo isso não lhe vai trazer coisa boa, mas é só isso. A primeira coisa que faço é perguntar a alguém: você vive bem, tem algum problema de saúde? Isto vai trazer-lhe problemas, mas um gordo se está bem [de saúde] não tem de mudar só porque no mundo há magros. Isto é como o conceito do raio da beleza dos homens e das mulheres, um gajo só é bonito se tem músculos e o corpo definido, se usa a barba assim ou assado, se tem a carinha não sei quê e não tem uma borbulha?
Tudo isto é estúpido, é a história da profundidade, as pessoas só veem pela rama. É evidente que é mais agradável ter a beleza ao nosso lado de acordo com o nosso padrão, porque o meu padrão de beleza para uma mulher é muito diferente do padrão de beleza feminina de um chinês. Portanto, o que é a beleza num ser humano? É relativa. Se alguém me diz que precisa mesmo de emagrecer, ok, digo-lhe “faça isto ou aquilo na alimentação e vá para desportos de combate ou para um desporto que obrigue a gastar muito energia”. Acabou aí, não me imponho nada . António Alçada Batista tem uma frase fantástica no “Riso de Deus” que diz o seguinte: “Poder é a capacidade que os homens têm para criar a outros um destino. Essa é a essência da sua perversão”. Eu não tenho de criar destinos, é evidente que posso alertar e dizer à pessoa que algo não é bom mas não posso interferir, a pessoa tem que avaliar por ela.


O concerto em que “do primeiro ao último fado só estava a pedir aos santinhos todos que chegasse ao fim”

Tem uma filha, Carolina, que já toca e canta.Sim. E bem!
De que tipo de música é que ela gosta?Evito um bocadinho isso porque não lhe quero alimentar a vaidade, ainda é muito frágil, tem 14 anos. A diferença entre a vaidade e o orgulho é uma linha muito ténue, ainda mais nessas idades. Tento proteger um bocadinho, falamos um bocadinho disso até porque sou uma referência para ela, mas com cuidado. Ela gosta muito da música que se ouve, da música pop, mas quando ouve peças clássicas de piano adora. Estuda [música] também, há peças da música árabe de que gosta, outras não tanto quando são assim mais complicadotas, com muitos quartos de tom. Ela já tem algumas noções de afinação e tive de lhe explicar: não filha, não é desafinação, é um quarto de tom, aqui só usamos tom e meio tom e no mundo árabe ainda há um quarto e oitava [de tom], etc etc. Exemplifico-lhe com voz e guitarra e ela vai percebendo.
Há sempre a possibilidade de ela vir a ter uma carreira musical. Para alguns jovens, isso é um sonho, parece uma vida de luxo só com vantagens. Mas o que é que é preciso sacrificar? No seu caso, por exemplo, o que teve de sacrificar?Há muitos prós, mas também há contras… em relação à minha filha, a ausência é um contra. As outras desvantagens são algumas mágoas que vão ficando, é importante limpar mas elas não deixam de fazer a sua mossa. Às vezes não se tem vida, apetecia estar aqui ou ali e não é possível por isto ou por aquilo, porque tem de se tocar e cantar.
"Muitas vezes não me apetece falar com ninguém, não me apetece estar com ninguém e tenho de estar, tenho de falar, tenho de abraçar. Tenho que dar quando muitas vezes não tenho para mim. Oxalá as pessoas não me considerem mal por dizer isto. Também sou um ser humano - com a mesma carne, os mesmos ossos, as mesmas fragilidades, as mesmas carências."
Espero que as pessoas não fiquem tristes com o que vou dizer, acontece-lhes a elas também, não me podem julgar por isso: muitas vezes não me apetece falar com ninguém, não me apetece estar com ninguém e tenho de estar, tenho de falar, tenho de abraçar. Tenho que dar quando muitas vezes não tenho para mim. Esse é um dos principais contras. Oxalá as pessoas não me considerem mal por isto, se forem analisar as suas vidas também sentem exatamente o mesmo que sinto, também sou um ser humano — com a mesma carne, os mesmos ossos, as mesmas fragilidades, as mesmas carências. Muitas vezes sabe Deus… não tenho nada para dar, mas tenho de estar e sorrir. Às vezes custa, mas faz parte.
[Chega à mesa Jarrod Cagwin, percussionista do trio que gravou este novo álbum de Ricardo Ribeiro]
Já disse: “Muitas vezes pagava para não cantar”. E ainda: “Muitas dias acontece, estamos vazios, não temos nada para passar. Tenho de o fazer porque é a minha vida, o meu dever, mas não compro mentiras porque também não vendo a minha”. Desses dias em que pagava para não cantar mas teve de o fazer, qual foi o concerto mais difícil de levar até ao fim?Não vou dizer o sítio  porque fica mal, não seria correto da minha parte, mas houve um concerto no norte de Portugal em que não tinha nada dentro de mim. Tinha tido uns problemas pessoais, umas confusões e — chamem-lhe destino, universo, céu, o que se quiser — o concerto era num palco enorme mas tinha 20 pessoas à minha frente. Já estava sem nada para dar e aquilo parecia um concerto rock and roll, gigante, com tudo, mas para 20 pessoas, com toda a gente espalhada por bancadas lá mesmo ao fundo. Esse dia foi tão frustrante… não foi pelas pessoas, as que estavam à frente foram muito entusiásticas, mas não tinha nada, estava tão vazio. Do primeiro ao último fado só estava a pedir aos santinhos todos que chegasse ao fim.
"Devo à música tudo, especialmente ao fado, mais ao fado do que à música. Devo tudo: a vida que tenho, o carro que tenho, a casa alugada que tenho, a comida que ponho na boca. E a vida, devo a vida. Sem música, não sei... era um indivíduo tão escuro, tão débil - mais débil ainda."

“Devo tudo à música e ao fado: o carro, a casa alugada, a comida que ponho na boca. E a vida”

O que é que a música representa hoje para si? O que já lhe deu e o que já lhe tirou?Representa tudo. A música deu-me tudo e dá-me tudo. Devo à música tudo, especialmente ao fado, mais ao fado do que à música. Devo tudo: a vida que tenho, o carro que tenho, a casa alugada que tenho, a comida que ponho na boca, tudo. E a vida, devo a vida. Sem música, não sei… era um indivíduo tão escuro, tão débil — mais débil ainda.
Fala-se muito na internacionalização da música portuguesa e também do fado. Tem dado muitos concertos fora de portas: só no último ano cantou no México, Finlândia, Espanha, na Konzerthaus em Viena, França, Marrocos, Estádos Unidos, Irão. Destas experiências todas fora de Portugal, qual foi a mais surpreendente?O Irão. Foi maravilhoso, estava à espera de encontrar coisas estranhas e não encontrei, vi um país normal. Claro, vi aquilo que me foi dado a ver, que tive oportunidade de ver. E vi músicos do Afeganistão que me deixaram fascinado, foi uma viagem um tanto ou quanto interessante [sorri], foi marcante. O açafrão que trouxe, as misturas que trouxe, os frutos secos, foi fantástico, maravilhoso.
Na área do fado tem-se multiplicado um fenómeno curioso: festivais de fado por todo o mundo. Há um festival de fado em Marrocos, Madrid, Nova Iorque. Como é que isto aconteceu?Não sei, seria preciso perguntar à organização — que é portuguesa. Não quero ser mau e como não quero ser mau… não sei se é uma internacionalização do fado, do filho do fado, não sei. Sei que vou lá fora e só canto fados — quando canto fados, canto fados, tirando uma canção ou outra que possa pôr no meio, uma balada ou outra. É bom e é maravilhoso ver os artistas portugueses terem sucesso lá fora? É! O caso da Ana Moura, da Carminho, da Mariza, do Camané, do António Zambujo… todas essas pessoas terem tanto sucesso lá fora é fantástico, é ótimo. A Mariza ainda agora teve uma digressão imensa nos Estados Unidos da América, a Cristina Branco… não sei o que é mas sei que é bonito e é bom. Agora o que leva [a acontecer] isso é outra coisa, não me cabe a mim estar a analisar isso, já me deixei disso. Por isso é que dizia que fiz essa provocação, dizer que este disco não tem fados para ver até que ponto alguém diz que isto é um fado. Ai é um fado? Então porquê? Explique-me.
Este tema acaba com um tema instrumental muito curioso, bastante interessante.Teve paciência para o ouvir?! [sorri]
Tive, claro. Dedica-o à sua mãe, Fernanda, “Naná”. Porquê?A minha mãe teve uma fase mais difícil, não queria entrar em detalhes. Tinha dedicado um tema à minha filha anteriormente e era importante dedicar um tema à minha mãe.
"A minha mãe ainda hoje diz que o único homem que amou na vida foi o meu pai. Já o homem está morto há sete anos, ela já não estava com ele há 20 anos e continua a dizer: o único homem que amei na vida foi ele. É uma coisa que me arrepia. É preciso ser-se uma grande pessoa para amar alguém durante a vida inteira."
Já disse que ela tem uma voz “linda, uma coisa que vem da terra, um canto arrepiante, que parece que vem das entranhas”. Quando estão juntos, cantam?Às vezes. É raro, mas de vez em quando ela canta, se lhe pedir muito ou se puxar por ela. Mas desde a morte do meu pai [menos], apesar de já não estarem juntos há 20 anos aquilo afetou-a muito. Acho isto uma coisa tão bonita: a minha mãe ainda hoje diz que o único homem que amou na vida foi o meu pai. Se tivesse uma mulher… Claro que isto é uma coisa muito egocêntrica, mas é de uma beleza enorme ouvir alguém dizer isto. Já o homem está morto há sete anos, ela já não estava com ele há 20 anos e continua a dizer: o único homem que amei na vida foi ele. Ela amou verdadeiramente. Aquilo nunca morreu, apesar do meu pai… [faz uma pausa]. Eu fico tocado, é uma coisa que me arrepia, às vezes diz-me isto: o único homem que amei mesmo foi o teu pai.
Todos temos relações. Também já amei, pronto, depois vem a outra pessoa e já não tenho… E aqui, como é possível? É preciso ser-se uma grande pessoa para amar alguém durante a vida inteira. Não faz jus ao poema da Florbela Espanca que diz “e quem disser que se pode amar alguém durante a vida inteira é porque mente”. A minha mãe não, continua a dizer exatamente isso, é uma coisa que me faz confusão — já teve outros companheiros, tudo bem, mas continua a dizer aquilo.
Depois do lançamento do disco, depois das primeiras apresentações ao vivo na Casa da Música, no Porto (24 de maio) e Centro Cultural de Belém, em Lisboa (1 de junho), vêm mais concertos?Assim o espero, a não ser que seja banido. Não estou a planear já mais coisas mas espero que os senhores promotores em Portugal oiçam, pelo menos, e se interessem. É só isso que quero. O quer vier eu recebo, aceito e agradeço.
Vai tocar guitarra e baixo nesses dois concertos já anunciados..Sim! Já estou nervoso porque não sou guitarrista. É um suplício tocar, gravei porque eles me disseram: grava, tu és capaz. O Jarrod dizia-me: “You can do it, man, you can do it!”. Ahhhh…. mas ao vivo? Tremo, as mãos suam, vamos lá ver.

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Notre-Dame, como nasceu



Com a devida vénia transcreve-se um texto brilhante sobre Notre-Dame, o trabalho e a construção.:

quinta-feira, 18 de abril de 2019
Pedro Tadeu - Ai "Notre Dame"!... o trabalho está a matar-nos?





17.4.19

«Ao longo de mais de um século um grande estaleiro juntou, seis vezes por semana, uma média diária de 300 homens. Alguns começaram, ainda crianças, a trabalhar ali. Muitos deles também morreram naquele local, sem conhecerem mais nada deste mundo.

Eles eram artífices especializados num ofício, ensinado em segredo por um mestre. Eles foram exclusivos toda a vida, dedicada, apenas, a um monumento ao segredo da conceção divina do filho de Deus.




Lentamente, penosamente, ergueram pedra a pedra, fundiram ferro a ferro, juntaram tábua a tábua, chumbaram vidro a vidro, "toc toc!", "tac tac!", "tic tic!" e construíram, penosamente, sabiamente, à mão, com ferramentas de artesão, os gigantescos corpos principais da Catedral de Notre Dame de Paris.

Há 850 anos trabalhava-se enquanto houvesse luz, do nascer ao pôr-do-sol. Tal como a catequese cristã afirma ter sido um direito do Criador do mundo, os criadores da Catedral de Notre Dame descansaram aos domingos. E, ao longo de cada ano, aproveitaram uma quarentena de feriados para honrar santos, reverenciar Jesus ou Maria e armazenar no coração algum descanso retemperador.

Durante um dia de trabalho cada homem tinha direito a parar uma hora para almoçar e, a meio da tarde, a outros 15 minutos para beber... de preferência vinho, a bebida da falsa força.

O pagamento do salário, para quem tinha direito a ele, era diário e ninguém concebia remunerações por feriados, folgas ou férias.

A vida de um construtor de Notre Dame, no século XII ou no século XIII, era, para qualquer um de nós, cidadãos ocidentais deste mundo do século XXI, insuportável.

Mas ser trabalhador na construção de Notre Dame nos séculos XII ou XIII era, simultaneamente, uma das melhores vidas possíveis dos homens que Deus teve a graça de não fazer nascer como filhos das classes superiores da sociedade feudal e cristã.

Foram milhares os trabalhadores que ergueram a Catedral de Notre Dame de Paris. Um incêndio, talvez atiçado por um fósforo, um cigarro, uma faísca, algo milésimo, mínimo, minúsculo, arriscou esta segunda-feira destruir uma enorme obra da Humanidade.



A vitória dos bombeiros que salvaram a estrutura principal de Notre Dame salvou a memória de um enorme sacrifício de vidas, que a ignorância sobre o real número de mortos sucumbidos às falhas da construção ou a ausência de contagem de almas condenadas a uma existência confinada à pequena Île de la Cité, nos anos de 1163 a 1267, escamoteia da maior parte dos livros de História.

Todos os grandes edifícios construídos pela Humanidade, das pirâmides do Antigo Egipto aos arranha-céus de Nova Iorque, do Mosteiro dos Jerónimos ao Convento de Mafra, resultaram da imposição do sacrifício, da dedicação da vida, da inaceitável morte, do glorioso compromisso de milhões e milhões de trabalhadores.

Sempre que uma grande obra da humanidade desaparece, não morre apenas a memória da arte ou da engenharia que a germinaram. Sempre que uma grande obra da humanidade desaparece, falece também a memória do trabalho e desvanece um registo das etapas de progresso social que nos trouxeram até aqui.

E o que é o trabalho, hoje, aqui? É o trabalho com direitos, com horários, com pausas, com folgas, com salários, com férias pagas? Ou é um tempo em que as coisas parecem andar séculos para trás, até à época do trabalho quase escravo que ergueu Notre Dame?

Que tempo é este, que leva os jornais do século XXI a alertar: "O trabalho está a matar pessoas e ninguém se importa"?»

Gravura - Uma ilustração da Catedral de Notre Dame, no século XIX - litogravura de Nicolas Chapuy
Cartoon - "Sadness", por Antonio Rodriguez

https://entreasbrumasdamemoria.blogspot.com/2019/04/ai-notre-dame-o-trabalho-esta-matar-nos.html?spref=fb

sexta-feira, 12 de abril de 2019

ameaças nos tempos modernos



"No espaço de um ciclo eleitoral, governos autoritários, elites endinheiradas e hackers descobriram como jogar com as eleições, manipular processos democráticos e transformar redes sociais em campos de batalha. Prepare-se para um novo tipo de democracia. Enquanto as nossas vidas migram online, tornam-nos cada vez mais vulneráveis a plataformas digitais cujo objectivo é vender a nossa atenção ao comprador com a proposta mais alta. As nossas leis não cobrem o que se está a passar e os políticos não o percebem. Mas se não mudarmos o sistema agora, podemos não ter outra oportunidade."

by: Martin Moore, "Democracy Hacked" - extrai'do do "Expresso Curto"

quarta-feira, 10 de abril de 2019

Iannis Ritsos_HELENIDADE


HELENIDADE

I


Estas árvores não se acomodam senão ao céu,
estas pedras não se acomodam sob os passos estrangeiros,
estes rostos não se acomodam senão ao sol,
estes corações não se acomodam mais do que à justiça.


Esta paisagem é dura como o silêncio,
aperta no seu peito as suas pedras ardentes,
aperta à luz os seus órfãos olivais e vinhedos,
aperta as mandíbulas. Não há água. Apenas luz.
O caminho perde-se na luz, e a sombra da parede é de ferro,
petrificam-se as árvores, os rios e as vozes entre a cal do sol.
A raiz tropeça no mármore. Juncos pulverulentos.
A mula e a rocha. Ofegam. Não há água.
Todos têm sede. Há anos. Todos mastigam um bocado de céu
acima da sua amargura.
Os seus olhos estão vermelhos pela insónia.
Uma profunda fenda encravada entre as suas sobrancelhas
como um cipreste entre dois montes no ocaso.


A sua mão está presa ao fuzil,
o fuzil é a continuação da sua mão.
A sua mão é a continuação da sua alma –
têm nos lábios a ira
e têm a mágoa profunda – fundo nos seus olhos
como uma estrela numa cova de sal.
Quando apertam a mão, o sol vai seguro pelo mundo;
quando sorriem, uma jovem andorinha escapa das suas
barbas selvagens;
quando dormem, doze estrelas caem pelos seus bolsos vazios;
quando se matam, a vida atira encosta acima bandeiras e tambores.
Tantos anos de fome, de sede, todos se matam acossados pela terra
e o mar,
o mormaço comeu as suas terras e a água salobre regou as suas casas
o vento derrubou as suas portas e as escassas plantas da praça,
pelos buracos do seu abrigo entra e sai a morte
a sua língua é áspera como a pinha do cipreste,
morreram os seus cães envoltos nas suas sombras,
a chuva chocalha nos seus ossos.


Acima dos cumes fumegam petrificados o estrume a noite
vigiando o arquipélago enfurecido onde se afundou
o mastro quebrado da lua.


Acabou-se o pão, acabaram-se as balas,
carregam agora os seus canhões apenas com o seu coração.
Tantos anos acossados por terra e por mar
todos têm fome, todos se matam e nenhum morreu –
nos cumes brilham os seus olhos.


Uma grande bandeira, uma grande fogueira toda vermelha
E a cada aurora milhares de pombas saem das suas mãos
Em direcção às quatro portas do horizonte.




II
Cada anoitecer com o chamuscado tomilho junto
ao seio da pedra,
é uma gota de água que desde o passado escava o silêncio
até à medula,
é um sino pendurado no velho carvalho que apregoa os anos.


Dormitam as chispas na cinza do deserto
e os telhados meditam no velo dourado sobre o lábio superior
do mês da colheita
– velo amarelo como o grão de milho defumado pela pena do ocaso.


A virgem dorme sobre os mirtos com a sua saia larga
manchada pelas uvas.
No caminho chora uma criança e responde-lhe do campo
uma ovelha que perdeu os seus filhos.
Sombra na fonte. Gelado o barril.
A filha do ferreiro com os pés molhados.
Sobre a mesa o pão e a azeitona,
entre a parra o candil do luzeiro da tarde,
ali em cima, dando voltas no seu espeto, derrama perfume
a galáxia de gordura chamuscada, alho e pimenta.


Ah! Que marco miliar de estrela fará todavia falta
para que bordem as agulhas de pinheiro sobre a parede
tisnada do verão «e isto ocorrerá».


Quanto tem que verter ainda a mãe o seu coração
sobre os sete valentes moços mortos
até que encontre a luz o seu caminho na encosta da alma!


Este osso que sai da terra
está a medir com abraços a força, e as cordas do
alaúde
e o alaúde desde o entardecer junto com o violino
até à madrugada
cantam de pena em pena nos rosmaninhos e nos pinheiros
e tilintam as sogas nos barcos como cordas
e o marinheiro bebe amargo mar pelo copo de Ulisses.


Ah! Quem fechará então esta entrada e que espada
cortará o ânimo
e que chave te cerrará o coração que com as suas duas
folhas abertas de par em par
olha para os pomares de Deus aspergidos de estrelas?


Grande momento como as tardes de sábado
de maio na taberna marítima,
grande noite como bandeja na parede do funileiro,
grande canção como o pão na ceia do pescador de esponjas.
E vê como empreende o caminho pelas pedras
a lua cretense
grap – grap com vinte filas de tachas nos grossos sapatos,
e vê aqueles que sobem e descem as escadarias de Anapli
enchendo o seu cachimbo de folhas de obscuridade cortadas
toscamente
os seus bigodes de tomilho de Rumelia, orvalhado de estrelas
e os seus dentes raiz de pinheiro do penedo do Egeu e de sal.
Entraram no ferro e no fogo, falaram com as pedras
convidaram a morte a beber aguardente no crânio do seu avô,
sobre as próprias Eras encontraram-se com Digenis e puseram-se
a jantar
partindo a meio a mágoa, tal como partiam sobre o joelho
o seu pão de cevada.


Vem, Senhora, com as pestanas salgadas, com a mão
branca enegrecida
da preocupação com o pobre e os longos anos –
o amor espera-te entre os matagais,
a gaivota no seu ninho sustem o teu negro ícone
e o amargo ouriço do mar beija a unha do teu pé.
Dentro da vulva negra do vinhedo muito vermelho
coze o mosto,
coze o rododendro na mata incendiada,
dentro da terra a raiz do morto pede água
para fazer brotar um abeto
e a mãe debaixo das suas rugas agarra fortemente
a faca.
Vem, Senhora, que estás a incubar os ovos
de ouro do trovão –
em que dia azul tirarás o véu e tomarás
de novo as armas,
atingir-te-á forte o granizo de maio,
e explodirá como granada o sol sobre o teu avental
de sarja,
e repartirás sol grão a grão aos teus doze órfãos,
e brilhará em volta o pântano como brilha o fio
da espada e a neve de abril
e sairá da areia o caranguejo para apanhar sol
e cruzar as suas pinças.




III


Neste lugar o céu não priva nem um instante o óleo
do nosso olho
neste lugar o sol leva a metade da carga
da pedra que levamos sobre os nossos ombros
partem-se as telhas sem queixa sob o joelho
do meio-dia
os homens vão à frente das suas sombras como
os delfins diante dos barcos de Skiatos
logo a sua sombra se converte em águia que tinge
as suas asas de ocaso.
E mais tarde pousa nas suas cabeças e pensa nas estrelas
enquanto eles se estendem no descampado com a uva passa.


Neste lugar cada porta tem gravado um nome
de uns três mil e outros tantos anos
cada pedra tem pintada um santo com olhos
ferozes e cabelos de corda
cada homem tem gravada na sua mão
de ponta a ponta uma sereia vermelha
cada rapariga tem um punhado de luz salgada sob a saia
e as crianças têm cinco e seis cruzinhas de amargura
nos seus corações
como as pegadas das gaivotas sobre a areia
à tarde.
Não é preciso recordar. Sabemo-lo.
Todos os caminhos conduzem às Altas Palestras.
O ar é forte lá em cima.


Quando se desfia o mural minoico solitário do ocaso
e se apaga o incêndio no palheiro da praia
as avós sobem até aqui pelos degraus talhados na rocha,
sentam-se na Grande Pedra fiando o mar com os olhos,
sentam-se e contam as estrelas como se
contassem as facas, os garfos
e as colheres de prata herdadas dos seus antepassados
e mais tarde regressam para dar de comer aos netos
a pólvora de Mesologui.


Sim, é verdade, Elcomeno tem duas mãos tristes
entre o seu laço
mas a sua sobrancelha movimenta-se como a pedra que tenta
soltar-se sobre o seu amargo olho.
Da profundida sobe esta onda que não sabe de rogos
do alto roda o vento com resina como veia
e seiva como pulmão.


Ai! Soprará uma vez para arrastar as laranjas da recordação.
Ai! Soprará duas vezes para que saiam chispas
da pedra de ferro como detonador.
Ai! Soprará três vezes e enlouquecerá os bosques
de abetos de Liakoura.
Dará um murro para fazer saltar pelo ar a tirania
e retirará a argola da ursa nocturna e começará
uma dança «tsámica» no meio do recinto,
e a lua a tocar pandeireta que se encham
as varandas insulares
de crianças acordadas antes do tempo e de mães
de Souli.


Um mensageiro chega de Megali Langadia cada manhã
o seu rosto brilha a suar ao sol
sob o seu braço segura fortemente a helenidade
tal como um operário carrega o sobrolho dentro da igreja.
Chegou o momento, diz. Deveis estar preparados.
Cada momento é o nosso momento.




IV
Foram em frente pela madrugada com o desprezo
do homem que tem fome,
dentro dos seus olhos imóveis caiu uma estrela,
levavam às costas o ferido Verão.
Por aqui passou um exército com bandeiras sobre a pele
com a obstinação presa entre os dentes como
uma pera silvestre
com a areia da lua dentro das suas botas
e com o pó de carvão da noite colado dentro
dos seus narizes e das suas orelhas.
De árvore em árvore, de pedra em pedra atravessaram o mundo,
com espinhos por almofada atravessaram o sonho.
Traziam a vida nas suas mãos secas como um rio.


A cada passo ganhavam uma braçada de céu – para o oferecer.
Nos cumes ficavam petrificados como árvores chamuscadas.
E quando dançavam na praça,
dentro das casas tremiam os tectos e telintavam os frascos
nas prateleiras.


Ah! Que canção é está que estremeceu os picos dos montes –
nos seus joelhos estendiam as roupinhas da lua e jantavam,
e quebravam o ai entre as duas folhas do coração
como se esborrachassem uma pulga entre duas grossas unhas.
Quem te trará agora o pão quente pela noite para alimentar
os sonhos?
Quem ficará à sombra da oliveira a acompanhar a cigarra
para que não se cale a cigarra,
agora que a cal do meio-dia está a iluminar a parede
em volta do horizonte
apagando os seus sombrios nomes grandes?
Esta terra que exalava aroma pela madrugada
a terra que era deles e nossa – sangue deles –
como cheirava a terra –
e agora de que modo fecharam a sua porta os nossos
vinhedos
como se debilitou a luz sobre os telhados e das árvores
quem diria que se encontram metade debaixo
da terra
e outra metade dentro das cadeias?


Com tantas folhas o sol faz-te sinais, dá-te os bons-dias
Com tantos galhardetes brilhando ao céu
e estes nos cárceres e aqueles sob a terra.


Cala-te, não tardarão, de súbito soarão os sinos.
Esta terra é sua e nossa.
Sob a terra, entre as suas mãos cruzadas
prendem a corda do sino – esperam o momento,
não dormem,
esperam tocar a ressurreição. Esta terra
é deles e nossa –ninguém no-la pode tirar.


V
Sentaram-se sob as oliveiras após o meio-dia
a peneirar a luz cinzenta com os grossos dedos
retirando as cartucheiras e calculando quanto esforço
pode caber no caminho da noite
quanta amargura no caule da malva silvestre,
quanto ânimo nos olhos do menino descalço que segurava
a bandeira.


Ficou a destempo a última andorinha no campo,
equilibrava-se no ar como um negro cinturão na manga
do Outono.
Nada restou. Apenas fumegavam as casas incendiadas.
Os demais deixaram-nos há tempo sob as pedras
com a sua camisa rota e o seu juramento escrito
sobre a porta derrubada.
Ninguém chorou. Não havia tempo. Só o silêncio
crescia muito.
E a luz no pântano estava organizada como a casa
da morte.
Que será deles quando chegar a chuva dentro da terra
com as folhas apodrecidas do carvalho
que será deles quando o sol ficar seco sobre a manta
das nuvens como percevejos no leito camponês
quando estiver na chaminé do anoitecer embalsamada
a cegonha da neve?
Deitam sal ao fogo as velhas mães, deitam terra
nos seus cabelos
arrancam os seus vinhedos em Monemvasía não seja que
adoce a boca do inimigo a vulva negra da uva,
puseram num saco os ossos dos seus antepassados
juntamente com as colheres, os garfos e facas
e deambulam fora dos muros da sua terra a buscar
lugar para deitar raízes na noite.


Ser-nos-á difícil agora encontrar um idioma mais próximo
do convite, menos forte, menos pétreo –
As mãos que ficaram nas terras ou sobre a montanha
ou debaixo do mar, não esquecem –
ser-nos-á difícil esquecer as suas mãos
será difícil para as mãos que criaram calos por causa
do gatilho do fuzil fazer perguntas a uma margarida
dizer obrigado sobre o seu joelho, sobre o livro
ou dentro do mosto do céu estrelado.
Precisar-se-á de tempo. E temos que falar. Até que encontrem
O seu pão e a sua justiça.

Dois remos cravados na areia na madrugada
com a tempestade. Onde está a barca?
Um arado cravado na terra, e o vento a soprar. Onde está
o agricultor?
Cinza o olival, o vinhedo e a casa.
Noite cosida com cordel com as suas estrelas
dentro de uma peúga.
Louro e orégão seco no armário embutido
no muro. Não os tocou o fogo.
A onda esfumada no fogão – cozendo apenas a água
dentro da casa fechada. Não lhes deu
tempo de comer.
Na queimada folha da porta as veias do bosque –
o sangue corre dentro das veias.
Eis aqui o conhecido passo. Quem é?
Conhecido passo com as tachas encosta acima.
O arrastar da raiz dentro da pedra. Alguém
vem.
A senha, a contra-senha. Irmão. Bom-dia.
Encontrará, pois, a luz das suas árvores, encontrará
também um dia a árvore o seu fruto.
O cantil do morto tem ainda água e luz.
Boa tarde, meu irmão. Sabe-lo. Boas tardes.
Na sua barraca vende bichos e sedalinas o velho ocaso.
Ninguém compra, partiram para cima.
É difícil que voltem.
Difícil também que digam os seus valores.


Na era onde jantaram uma noite os moços
valentes
restam os caroços de azeitona e o sangue seco da lua
e o decassílabo das suas armas.
No dia seguinte os pardais as migas do seu pão,
As crianças fizeram brinquedos com os fósforos
com que acenderam os seus cigarros e com os espinhos
das estrelas.
E da pedra onde se sentaram sob as oliveiras após
o meio-dia em frente ao mar
amanhã far-se-á cal no forno.
E passado amanhã branquearemos as nossas casas
e o escabelo de Haghia Sotira
e no dia seguinte plantaremos a semente alí
onde dormiram
e de um grão de romã brotará o primeiro
sorriso da criança
no seio do dia ensolarado.
E depois sentar-nos-emos na pedra para ler
todo o seu coração
como se lêssemos pela primeira vez a história do mundo.




VI


Assim com o sol sobre o peito perante o mar
encalhando a ladeira do dia.
Calcula-se em dobro e em triplo a reclusão
e o martírio da sede
calcula-se desde o princípio a velha ferida
e o coração torra lentamente no calor
como as telhas de Vatica diante das portas.
À distância as suas mãos assemelham-se cada vez
mais à terra
à distância os seus olhos parecem-se mais com o céu.
Acabou o azeite na almotolia. Alguns passos
pararam ao fundo. E o rato morreu.
Esgotou-se o ânimo da mãe junto com a barra
de barro e da charca.
Desoladas as gengivas do deserto pela pólvora.


Aonde azeite agora para o candil de Santa Bárbara
aonde hortelã para incensar o ícone da tarde
aonde um pedaço de pão para passar a noite – mendiga
a tocar o canto de estrelas com a lira.
No castelo do alto da ilha movimentaram-se as figueiras
e os asfódelos.
A terra cavada pelos canhões e as tumbas.
O edifício do município derrubado remendado
pelo céu. Não há já lugar
para mais mortos. Não tem lugar a tristeza
para ficar a entrançar os seus cabelos.
Casas queimadas que olham com olhos vazios
o mar petrificado
e as balas cravadas nos muros
como punhais nas costas do Santo que ataram ao cipreste.


Todos os dias os mortos apanham sol de boca para cima.
E só ao anoitecer os soldados se arrastam com a beata
entre as pedras enegrecidas
procurando respirar o ar fora da morte
procurando os sapatos da lua mastigando um pedaço
de meia sola
golpeiam com o punho a rocha não vá que a gota
de água corra
mas do outro lado o muro está oco
e voltam a ouvir o golpe com as mesmas estrofes
que a bomba produz ao cair no mar
e ouvem uma vez mais o queixume dos feridos
diante da entrada.
Para onde atirar? O teu irmão chama-te.
Em volta a noite erigida de sombras de barcos
estrangeiros.
Fechando os caminhos pelas paredes.
Só para cima há ainda caminho.
E eles maldizem os barcos e apertam as mandíbulas
Para escutar a sua dor que não endureceu.
Nas ameias os capitães mortos permanecem de pé
no castelo.
Sob a sua roupa a carne apodrece. Eh, irmão! Não
te cansaste?
Floresceu a bala dentro do seu coração,
Cinco abrolhos brotaram nas axilas da árida rocha,
de fôlego em fôlego o perfume conta o conto –
não te recordas?
dentada a dentada a ferida conta-te a vida,
a camomila que cresce na sujidade da unha do dedo
grande do teu pé
conta-te a beleza do mundo.


Agarras a mão. É tua. Empapada pelo salitre.
Teu o mar. Como se arrancasse um cabelo
da cabeça do silêncio
goteja amargo o leite da figueira. Estejas onde
estejas o céu observa-te.
Junta nos seus dedos a estrela da tarde a tua alma
como um cigarro
para que a fumes deitado com a boca para cima
molhando a tua mão esquerda no rio de estrelas
a destra agarrada ao teu fuzil-noiva
para te lembrares que o céu nunca te esqueceu
enquanto vais retirando do bolso interior a sua velha
carta
e vais desfraldando com os dedos a lua
lerás valor e glória.
Então subirás ao alto cume da tua ilha
e usando como munição uma estrela dispararás
para o ar
por cima de muros e de mastros
por cima das montanhas que se inclinam como soldados
feridos
assim simplesmente e só para gritar aos espectros
que se escondem na manta da sombra –
disparas certeiro ao seio do céu para encontrar
a pegada azul
como se encontrasses sobre a camisa o mamilo
que amanhã dará de mamar ao teu filho
como se encontrasses após anos o botão
da entrada da casa dos teus pais.




VII


A casa, a rua, a figueira, as cascas do sol
no pátio, as galinhas debicando-as.
Conhecemo-los, e conhecem-nos. Aqui em baixo
entre as silvas
deixou a serpente abandonada a sua camisa amarela.
Aqui em baixo está a cabana da formiga e a torre
da esfinge com as inumeráveis ameias,
sobre a mesma oliveira a concha da cigarra
do ano passado e a voz da cigarra deste ano,
os juncos e a tua sombra que te segue como um cão
muito aflito e silencioso,
cão fiel – a todos os meios-dias senta-se ao lado
do teu sonho da terra farejando as adelfas,
à noite enrola-se sobre os teus pés a olhar as estrelas.
É um silêncio de peras que crescem nas pernas
do Verão
um sonho de água que observa as raízes da alfarrobeira
a Primavera tem três órfãos adormecidos no seu regaço
uma águia meio morta nos seus olhos
seca a ermida de Haghi-Ynni tou Nistefti
como excremento branco do gorrião numa larga
folha de amoreira emurchecida pelo calor.
Este pastor envolto na sua peliça
tem em cada pêlo do seu corpo um rio seco
tem um bosque de carvalhos em cada buraco da sua flauta
o seu cajado tem os mesmos nós que o remo
que tocou pela primeira vez o azul do Helesponto.
Não é preciso que recordes. A veia do carvalho
tem o teu sangue. E o asfódelo da ilha e a alcaparra.
O silencioso poço eleva depois do meio-dia
uma voz redonda de negro cristal e de vento branco
redonda com as velhas vasilhas – a mesma voz ancestral.
A cada noite a lua dá a volta aos mortos
procura as suas caras com dedos gelados o seu filho
pelo forma do queixo e das sobrancelhas de pedra,
procura nos seus bolsos. Encontra sempre alguma coisa.
Alguma coisa encontramos.
Uma chave, uma carta, um relógio parado nas sete.
Damos corda
de novo ao relógio. Andam as horas.
Quando amanha se desfizerem as suas roupas e fiquem
nus entre os seus botões militares,
como ficam os pedaços do céu entre as estrelas do Verão,
então poderemos encontrar o seu nome e gritar:
Eu amo.
Então. Mas estas coisas são muito longínquas.
Estão como que muito próximas, como quando tomas
na obscuridade uma mão e dizes boa tarde
com a amarga boa intenção da pessoa que faltou
muito tempo fora da sua casa e volta à casa paterna,
e nem os seus o conhecem, porque conheceu a morte
e conheceu a vida antes da vida e por cima da morte
e as conhece. Não se zanga. Amanhã, diz. E está
seguro
de que o caminho mais distante é o mais próximo
do coração de Deus.
E no momento em que a lua lhe beija o pescoço
com alguma tristeza,sacudindo a cinza do seu cigarro da grades
da varanda, pode chorar com firmeza,
pode chorar pela firmeza das árvores e das estrelas
e dos seus irmãos.

Iannis Ritsos
Atenas, 1945-1947

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Iannis Ritsos nasceu na Grécia a 1 de Maio de 1909. Aderiu ao Partido Comunista Grego, em 1931. Publicou Tractor, em 1934, inspirado no futurismo de Maiakovski. Devido às suas ideias políticas, algumas das suas obras foram queimadas em público. Foi internado em vários campos de reabilitação. No entanto, a sua produção poética é imparável, com dezenas de títulos. Em 1956, é-lhe atribuído o prémio nacional de poesia pelo livro Sonata ao Luar. Conjuntamente com Giorgios Seferis e Odysseus Elytis, é considerado um dos mais importantes poetas gregos do século XX. Faleceu a 11 de Novembro de 1990.


terça-feira, 9 de abril de 2019

Márcia_do que eu sou capaz


do album "Vai e Vem"_ "do que eu sou capaz" Video: Produção - Márcia Realização, edição e pós produção - Filipe C. Monteiro Música: Márcia - Voz, Coros Dadi Carvalho - Baixo, Sintetizador Rui Freire - Bateria Manuel Dordio - Guitarra Eléctrica Filipe C Monteiro - Baixo, Guitarra Acústica, Guitarra Eléctrica Kid Gomez - Hammond, Beats Produzido por Kid Gomez, Márcia e Filipe C. Monteiro Música e letra de Márcia Gravado e misturado por Nelson Carvalho Masterizado por Andy Vandette MANAGEMENT: pedro.trigueiro@arruada.com BOOKING: ines.lopes@arruada.com www.arruada.com

::Letra:: Eu sei que um dia tudo muda Sei do que o tempo é capaz Onde vês sol haverá chuva onde avançar a febre, haverá cura Onde há guerra haverá paz. E quem quiser que se iluda mas o que foi não volta atrás Quem dera ter a fé criança espreguiçar o sono e a arrogância que o viver da vida traz Nem o brilho, nem a sombra Não se agarra quase nada. Que haja sempre o dom de Ser no que nos faz Que eu sei bem daquilo que sou capaz. Eu sei que um dia tudo muda tudo é o tempo que faz Do que era eu sobrou o Ser e o que eu julgava meu deixei de ter; O que pesou deixei pra trás.

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letra:

Quando o dia entardeceu E o teu corpo tocou Num recanto do meu Uma dança acordou E o sol apareceu De gigante ficou Num instante apagou O sereno do céu E a calma a aguardar lugar em mim O desejo a contar segundo o fim. Foi num ar que te deu E o teu canto mudou E o teu corpo no meu Uma trança arrancou E o sangue arrefeceu E o meu pé aterrou Minha voz sussurrou O meu sonho morreu Dá-me o mar, o meu rio, minha calçada. Dá-me o quarto vazio da minha casa Vou deixar-te no fio da tua fala. Sobre a pele que há em mim Tu não sabes nada. Quando o amor se acabou E o meu corpo esqueceu O caminho onde andou Nos recantos do teu E o luar se apagou E a noite emudeceu O frio fundo do céu Foi descendo e ficou. Mas a mágoa não mora mais em mim Já passou, desgastei Para lá do fim É preciso partir É o preço do amor Para voltar a viver Já nem sinto o sabor A suor e pavor Do teu colo a ferver Do teu sangue de flor Já não quero saber. Dá-me o mar, o meu rio, a minha estrada. O meu barco vazio na madrugada Vou deixar-te no frio da tua fala. Na vertigem da voz Quando enfim se cala.

lawrence-ferlinghetti-poemas-escolhidos




Café Notre Dame

Uma espécie de trauma sexual
prende um casal abismado
Ele está segurando as duas mãos dela
nas suas
Ela está beijando as mãos dele
Estão olhando-se
nos olhos
de muito perto
Ela tem um casaco de peles
feito duma centena de coelhos correndo
Ele
tem um casaco clássico sombrio
e calças cinza-de-pardo
Agora estão a examinar as palmas
das mãos um do outro
como se fossem mapas de Paris
ou do mundo
como se estivessem à procura do Metrô
que os levasse juntos
através dos caminhos subterrâneos
através das «estações do desejo»
até ao terminal do amor
até às portas da cidade-luz
É um caso sem saída
e estão perdidos
nas linhas cruzadas
das suas palmas enlaçadas
suas linhas de cabeça e linhas de coração
suas linhas de sorte e linhas de vida
ilegíveis e misturadas
no mons veneris
da sua paixão
In “A boca da verdade”, Antologia Portuguesa
Trad. André e Isabelle Lima
1986

...............

Lawrence Ferlinghetti, nasceu na cidade de Yonkers, Nova York, em 1919. Foi o precursor dos poetas beats americanos e os seus poemas receberam influência de expoentes da poesia contemporânea do século XX, como e.e. cummings, T.S. Eliot, Ezra Pound e, principalmente, William Carlos Williams.

Ferlinghetti utilizou, na sua construção poética, elementos banais do quotidiano, como telefones, assentos de privada, lâminas de barbear e pontas de cigarro, construindo uma visão das ruas, a realidade entrelaçada a uma idéia surrealista no improviso andarilho, elemento tipicamente underground dos poetas dessa geração.

Resumo biográfico extraído do site da Editora L&PM

domingo, 7 de abril de 2019

Max Ehrmann_“Desiderata”


[O poema “Desiderata” foi escrito em 1927 pelo poeta e filósofo americano Max Ehrmann (1872-1945)]

DESIDERATA


Siga tranquilamente entre a pressa e a inquietude, lembrando-se que há sempre paz no silêncio.
Tanto quanto possível, sem se humilhar, mantenha boas relações com todas as pessoas.
Fale a sua verdade mansa e claramente e ouça a dos outros, mesmo a dos insensatos e ignorantes, pois eles também têm sua própria história.
Evite as pessoas escandalosas e agressivas. Elas afligem o nosso espírito.
Se você se comparar com os outros, tornar-se-á presunçoso e magoado, pois haverá sempre alguém superior e alguém inferior a você.
Você é filho do Universo, irmão das estrelas e árvores. Você merece estar aqui, e mesmo sem você perceber, a Terra e o Universo vão cumprir o seu destino.
Desfrute das suas realizações, bem como dos seus planos. Mantenha-se interessado em sua carreira, ainda que humilde, pois ela é um ganho real na fortuna cambiante do tempo.
Tenha cautela nos negócios, pois o mundo está cheio de astúcias, mas não se torne um cético porque a virtude sempre existirá. Muita gente luta por altos ideais e em toda a parte a vida está cheia de heroísmo.
Seja você mesmo, principalmente. Não simule afeição. Não seja descrente do amor, porque mesmo diante de tanta aridez e tanto desencanto ele é tão perene quanto a selva.
Aceite com carinho o conselho dos mais velhos e seja compreensivo com os arroubos inovadores da juventude.
Alimente a força do espírito que o protegerá no infortúnio inesperado, mas não se desespere com perigos imaginários. Muitos temores nascem do cansaço e da solidão, e a despeito de uma disciplina rigorosa. Seja gentil para consigo mesmo.
Portanto, esteja em paz com Deus como quer que você o conceba e quaisquer que sejam seus trabalhos e as aspirações. Na fatigante confusão da vida, mantenha-se em paz com sua própria alma, apesar de todas as falsidades, fadigas e desencantos. O mundo ainda é bonito.
Seja prudente e faça tudo para ser feliz!

***

DESIDERATA
Go placidly amid the noise and haste,
and remember what peace there may be in silence.
As far as possible without surrender
be on good terms with all persons.
Speak your truth quietly and clearly;
and listen to others,
even the dull and the ignorant;
they too have their story.
Avoid loud and aggressive persons,
they are vexations to the spirit.
If you compare yourself with others,
you may become vain and bitter;
for always there will be greater and lesser persons than yourself.
Enjoy your achievements as well as your plans.
Keep interested in your own career, however humble;
it is a real possession in the changing fortunes of time.
Exercise caution in your business affairs;
for the world is full of trickery.
But let this not blind you to what virtue there is;
many persons strive for high ideals;
and everywhere life is full of heroism.
Be yourself.
Especially, do not feign affection.
Neither be cynical about love;
for in the face of all aridity and disenchantment
it is as perennial as the grass.
Take kindly the counsel of the years,
gracefully surrendering the things of youth.
Nurture strength of spirit to shield you in sudden misfortune.
But do not distress yourself with dark imaginings.
Many fears are born of fatigue and loneliness.
Beyond a wholesome discipline,
be gentle with yourself.
You are a child of the universe,
no less than the trees and the stars;
you have a right to be here.
And whether or not it is clear to you,
no doubt the universe is unfolding as it should.
Therefore be at peace with God,
whatever you conceive Him to be,
and whatever your labors and aspirations,
in the noisy confusion of life keep peace with your soul.
With all its sham, drudgery, and broken dreams,
it is still a beautiful world.
Be cheerful.
Strive to be happy.
– Max Ehrmann, em “Desiderata: um caminho para a vida”. [tradução Iva Sofia Gonçalves Lima]. Edições de Bolso. Rio de Janeiro: Editora Sextante, 2006. (Max Ehrmann, Desiderata, Copyright 1952).