quarta-feira, 19 de abril de 2017

Gisela João_Nua


Entrevista:

"Gisela João: “A cantar é quando as pessoas me conhecem tal como sou”


  •    
    Aos oito anos já sabia cozinhar uma feijoada e um cozido, e foi enquanto lavava a loiça que ouviu ecoar na rádio a voz de Amália Rodrigues a cantar “Que Deus me Perdoe”. Nos versos «se a minha alma fechada/ se pudesse mostrar/ e o que eu sofro calada/ se pudesse contar/ toda a gente veria/ quanto sou desgraçada/ quanto finjo alegria/ quanto choro a cantar...» Gisela João encontrou-se a si, a criança que queria brincar, mas que ao invés tinha de tomar conta dos seis irmãos mais novos e da casa.
    Uma cassete de Amália passou então a ser a sua grande companheira e os poucos momentos livres eram passados no quarto, a cantar, num mundo só da jovem de Barcelos e que só ultrapassou as quatro paredes do quarto para participar numa espécie de Mini-Chuva de Estrelas de Barcelos, onde Gisela se apresentou de caracóis, lábios pintados de vermelho e sapatos roubados à avó. Não ganhou e os miúdos da sua idade gozaram-na: cantava música de velhos.
    Na adolescência o fado começou a disputar atenção com a música eletrónica e, na aparelhagem, a voz de Amália foi substituída pelas batidas de DJs como Plastikman, Jeff Mills e Laurent Garnier. «Comecei a ter vergonha de cantar e reneguei o fado». Foi a inauguração da Adega Lusitana, uma casa de fados na sua Barcelos, que a fez regressar ao género. Ali cantou durante dois anos, altura em que se mudou para o Porto para estudar Design de Moda. Um encontro com o também fadista Hélder Moutinho acaba por trazê-la até Lisboa e ao Sr. Vinho, casa de fados de Maria da Fé.
    Todas as noites chorava, em casa, sozinha, longe dos seus. Encontrou sempre refúgio e determinação no fado. «Um cavalo bravo», descreve-a Hélder Moutinho. Já o realizador de cinema João Botelho garante que Gisela é a única mulher que conhece que «quando tira os sapatos fica mais alta».
    O primeiro trabalho, Gisela João, chegou em 2013 e em apenas duas semanas alcançou o primeiro lugar no Top de Vendas Nacional, tendo valido à fadista o Prémio Revelação Amália. Obsessiva, chama aos álbuns os seus filhos, mas a gravidez do seu mais novo, Nua, lançado em novembro de 2016, ultrapassou, em muito, os nove meses. Muitas noites sem dormir até encontrar o que queria dizer, mas sobretudo a libertar-se das expectativas alheias que lhe toldavam o raciocínio. Foi sozinha com os seus botões que descobriu que já tinha há muito a resposta para as suas dúvidas: ela própria. Nua.
    Passaram quatro anos desde a primeira vez que nos sentámos à conversa, à data na discoteca Lux, onde Gisela João dá liberdade ao corpo e onde deu também o seu primeiro grande concerto a solo. Ficou, nessa altura, a promessa de uma tarde a trocar receitas de bolos e pontos de bordado. Essa tarde acabou por nunca acontecer e o reencontro deu-se, não à beira do forno, mas nos bastidores do Coliseu de Lisboa, onde Gisela João, 33 anos, subirá pela segunda vez ao palco a 31 de março, no Porto, e a 7 de abril, em Lisboa. Tal como é. 

    Inicialmente esta entrevista esteve agendada para um outro dia, no qual entrevistei a bailarina e coreógrafa Anne Teresa de Keersmaeker, que já dançou ao som de um fado seu e de quem é amiga.
    A sério? Ela é uma grande inspiração para mim.
    E é apenas um dos grandes nomes que foram marcando o seu percurso desde muito cedo, e que incluem o fadista Helder Moutinho, o realizador de cinema João Botelho, o empresário Manuel Reis, o músico Nicolas Jaar e, mais recentemente, o fundador do Teatro Praga, André E. Teodósio.
    A maior parte são pessoas que fui conhecendo sem sequer saber quem eram, o que faziam ou que importância tinham. Gosto disto. Acredito que as pessoas valem por si e não por aquilo que fazem. Gosto de não ter essa interferência. E estas pessoas foram aparecendo na minha vida e foram-me acrescentando coisas. E não diretamente por me dizerem para fazer assim ou assado, mas pelo simples facto de poder conhecê-las e à sua essência e assim inspirar-me pelo percurso delas, pela forma como trabalham e como veem as coisas. E fazer isto sem perguntar nada, apenas observando e aprendendo. Gosto de criar relações com as pessoas e tenho aprendido sempre muito com aqueles que se cruzam comigo.
    Uma das conversas que mais regularmente se ouvia em relação a si, quando começou o seu percurso, era como podia estar rodeada por tantos profissionais de renome, que de alguma forma a apadrinharam, quando a maior parte das pessoas ainda nem sabia quem era?
    E continuam a não saber!
    Acha?
    Tenho a certeza. Nós estamos num meio, em Lisboa, onde tudo acontece. Vou beber um copo e encontro outro músico ou um jornalista... Mas isto é um circuito fechado que não representa nem em 10% daquilo que se passa no resto do país. Lembro-me que, quando vim de Barcelos para Lisboa, encontrei aqui coisas que já eram bastantes conhecidas mas que em Barcelos ninguém tinha sequer ouvido falar. Senti isto com muitas bandas. Uma das minha âncoras quando vou para palco é ter a consciência de que haverá, pelo menos, uma pessoa na plateia que nunca me ouviu e não me conhece. E é para essa pessoa que estou a cantar e que quero agarrar e quebrar.
    Não apenas por uma questão de visual, mas sobretudo pela postura e pela forma como interage com o público, deverá ser relativamente fácil para si contrariar posturas mais sisudas.
    Tento fazê-lo. Até porque - e sei que não parece nada, bem pelo contrário, mas sou mesmo muito tímida - quando sinto que as pessoas não estão tão recetivas e estão muito sérias, acabo por ficar com muitas vergonha e sentir-me a recolher. Começo a sentir uma enorme vergonha por estar em palco. Às vezes acontece-me mesmo estar em palco e pensar «o que é que eu estou aqui a fazer? Não quero estar aqui, sinto-me humilhada». Sou muito consciente - já me disseram que tem a ver com o facto de ser Escorpião -, e autocrítica. Para mim, trabalhar com música é a coisa mais séria de todas. E em palco estou exposta, é para mim que as pessoas todas estão a olhar.
    Se transpuser esse pensamento para a escala dos Coliseus…
    A escala dos Coliseus deixa-me mesmo muito nervosa. Tenho andado muito nervosa, nem consigo dormir. Saber que as pessoas, no meio desta crise toda, gastam dinheiro para comprar um bilhete para um concerto meu, dão-se a esse trabalho, faz com que sinta uma grande responsabilidade. Penso que tenho de chegar ali e dar o meu melhor para aquelas pessoas regressarem a casa bem dispostas e a sentirem que o mundo é delas.
    Regressando ao início da conversa. O que sente que a aproximou das pessoas de quem já falámos?
    Eu era uma miúda e não me aproximei de nenhuma dessas pessoas com qualquer intenção. E imagino que isso tenha influenciado. Por exemplo, hoje em dia, que já tenho dois discos e há mais gente que me conhece e me aborda na rua, passei a ter alguma dificuldade em confiar nas pessoas. Fico a pensar se estão a ser verdadeiros comigo ou a acharem que as posso fazer chegar a algum lado. Posto isto, acho que é legítimo que qualquer uma das pessoas que conheci possa sentir isto. Já aprendi que estamos constantemente a vermo-nos ao espelho e se ficamos desiludidos, muitas vezes, é porque pensámos no que faríamos sem olharmos para o outro. Adoro que me tratem de igual para igual e acho que essas pessoas sentiram isso da minha parte. Sou uma comunicadora, levo logo as pessoas para minha casa, mas às vezes sinto que posso estar a dar de mais. Antes não pensava nisto. Mas hoje em dia, como estou sempre a dizer às minhas amigas, gostava de ser mais reservada. De resto, continuo e quero continuar o que sempre fui. Se for preciso ir cozinhar ou tomar conta de crianças, vou.
    Regressar regularmente a Barcelos ajuda-a a manter os pés no chão?
    Ajuda muito! É muito fácil uma pessoa iludir-se. E se eu não me iludi mais foi por causa da família que tenho. Saio de Lisboa, deste mundo que temos aqui, vou a Barcelos e falo com os meus irmãos e com os meus pais, e vejo o que é a vida de quem não vive aqui neste mundinho de Lisboa. Isso faz-me ter sempre os pés assentes na terra. Isto é muito efémero. Vamos ver um concerto e ficamos excitados com as luzes, o som, aquilo tudo. E vamos para casa felizes. Mas agora imaginem: se sou eu que estou em palco todas as palmas são para mim, as pessoas querem tirar fotos comigo, o foco sou eu, e isso vicia. Só que, quando vou para casa, estou sozinha. Às vezes é uma solidão assustadora, enorme. Por isso adoro que venha uma amiga dormir a minha casa. Isto tudo sempre me impediu de me iludir. Às vezes a minha melhor amiga até me diz que gostava que eu usufruísse mais das coisas boas que me acontecem. Ela diz isto porque me vê em tanto sofrimento, porque estou sempre a correr a dizer que tenho de trabalhar e corresponder aquilo que esperam de mim.
     E as pessoas pensam que é só chegar ali e cantar.
    Pois. Acham que é uma sorte andar sempre a viajar. Lá vai ela para o aeroporto, dizem. Para mim isto é mesmo muito sério, dou tudo o que tenho - mas só pode ser assim. Não sei ser de outra forma. Gostava, mas não sei. Sou uma control freak, mas até sei de onde isso vem. Por exemplo, ainda agora estive em Nova Iorque para um concerto...
    A propósito do qual saiu uma crítica muito positiva no “New York Times”.
    Pois foi, car*! Sou de Barcelos e saí no “New York Times”! (risos) E, pelo que me disseram, o jornalista em questão raramente elogia.
    Mas disse que era uma control freak e que sabia de onde isso vinha.
    Sim. Como desde muito miúda tomei conta dos meus irmãos e tinha de ser responsável por todos, acho que a ideia de ter de saber sempre tudo ficou muito vincado na minha personalidade. Ando na estrada com os músicos e não descanso se eles não tiverem tudo aquilo de que precisam. Isto vem da infância.
    Ainda há pouco deixou escapar esta ideia, mas a questão da expectativa foi muito dura para si?
    Foi.
    De alguma forma, a Gisela João já era antes de ser.
    A dada altura, eu própria estava a criar expectativas sobre mim, que é a pior coisa que pode acontecer. É muito fácil perder o norte daquilo de que realmente gostamos. Quando saiu o primeiro disco as pessoas disseram maravilhas e depois criaram expectativas enormes. De tal forma que, quando foi para gravar o segundo disco, só ouvia dizer que tinha de ser ainda melhor. Isso criou-me uma ansiedade tão grande que só chorava. Bloqueei.
    Como ultrapassou esse bloqueio?
    Um dia estava em casa e lembro-me de me questionar se era isto que queria, este sofrimento, e não era. E disse a mim própria: «Gisela, o que é que fizeste no primeiro álbum?» E a resposta era simples: cantar músicas de que gostava e que me faziam sentir alguma coisa. Então era esse que tinha de ser o meu foco no segundo disco. Gosto muito de ditados, e acredito muito neles, porque acho que não vieram nem de bêbados nem de drogados, mas antes refletem conhecimento e vida. Nesta altura pensei muitas vezes num ditado em especifico quando estava a preparar-me para gravar o segundo disco: quem dá o que tem a mais não é obrigado. Acredito que as pessoas que dizem que gostam do meu trabalho, se sentirem que o que canto vem do coração, vão gostar também. De resto, no percurso de qualquer artista, há coisas de que gostamos mais e outras de que gostamos menos. Não é tudo perfeitinho, porque a própria vida não é perfeita. Por exemplo, não quero a minha voz tratada para ficar limpinha nas gravações.
     Para chegar a essa conclusão foi necessária uma travessia no deserto?
    Nem tanto. Sou muito medricas mas ao mesmo tempo ponho sempre a cabeça no cepo. E quando estou confortável e sei que fiz aquilo em que acredito... Atenção, não tenho sangue de barata e claro que me custa se oiço uma crítica mais violenta.
    Foi tudo isto que ditou que passassem três anos até que lançasse um novo álbum?
    O primeiro disco saiu em julho de 2013 e durante esse ano e o seguinte foi uma avalanche de trabalho. Não conseguia parar para trabalhar no disco seguinte. Não queria fazer só por fazer e decidimos ir fazendo, aos pouquinhos. Depois de tanto tempo a trabalhar, quando senti que finalmente estava pronto quis que saísse logo pois as pessoas não podiam esperar mais. Acabou por sair no dia da morte do Leonard Cohen portanto deixou de ser o dia em que saiu o meu segundo disco e passou a ser o dia em que o Cohen morreu. Mesmo assim tenho um público que é quase como se fosse minha família.
    Aliás, basta espreitar as suas redes sociais para ter essa noção.
    É verdade. [e saca do telemóvel para mostrar uma troca de mensagens entre fãs, que teve lugar no seu mural de Facebook, a propósito de uma fotografia com um gato. Logo depois conta a história de uma fã que atribui à música de Gisela João a ajuda para sair de uma depressão] Não tenho cem ou duzentos mil fãs, mas ainda no outro dia uma amiga fez um estudo e concluiu que o meu público é poderosíssimo, interage muito comigo e defende-me de unhas e dentes. São fãs verdadeiros.
    Daí o seu nome no Facebook ser “Gisela João a berdadeira”, numa clara homenagem ao norte do país.
    Isso! (risos) Adoro lidar com as pessoas. Por exemplo, no outro dia recebi uma carta de um senhor a agradecer-me porque tinha posto a mãe, de oitenta e tal anos, a cantarolar o dia todo. Se pudesse, se fosse rica, oferecia os bilhetes dos concertos e os CDs a toda a gente.
    O título do seu segundo álbum, Nua, já estava decidido desde o início?
    Sim! Depois de ter aquela conversa comigo própria. Não podia ser outra vez Gisela João e esta é outra forma de dizer que sou eu que estou ali. E estou ali nua e transparente. Quando canto é isto que sou, transparente. A cantar é quando as pessoas me conhecem tal como sou.
    E sente que, às vezes, as pessoas não acreditam que seja realmente assim, acham que é uma personagem?
    Sinto isso muitas vezes. Sobretudo quando saiu o meu primeiro disco. Era porque mostrava as pernas para parecer uma boazona, quando na verdade é só porque sou muito baixinha e não posso usar coisas compridas. Ou que usava sapatilhas em palco só para chocar. Ouvi essas coisas todas. Mas não são as sapatilhas que cantam, meus amigos, sou eu. Se uso sapatilhas é para ter mais conforto. Hoje em dia, nas redes sociais, toda a gente opina. Ouvi dizerem que a forma como eu falava era estudada. Não é. Mas também é para o lado que durmo melhor. No final, vou sempre bater na mesma tecla e acho que o vou fazer para o resto da vida: acredito piamente que, quando fazemos as coisas de coração, confortáveis e confiantes, as coisas funcionam e, no fim do dia, deitamos a cabeça na almofada descansados. Isso é muito importante. Se o meu discurso fosse pensado, se as sapatilhas e as pernas fossem para vender mais, aí sim, iria sofrer muito mais com essas críticas, porque me iriam tocar na ferida.
     O que mais confusão fez a muita gente terá sido o facto de a Gisela ter uma abordagem bastante tradicional ao fado, ter uma voz mais associada às vozes tradicionais do fado, mas o resto não bater certo com isto.
    Muita gente me dizia: «Tu não cantas fado tradicional, pois não?». Fico furiosa com isso. Mas deito-me todos os dias e pouso a cabeça na almofada muito tranquila comigo própria. Tenho um percurso de que gosto e do qual me orgulho. Experimento e hei de experimentar muita coisa, mas tenho de saber que isso vem com um preço a pagar. Ainda assim acho que nunca vou ser mainstream, pelo menos não com aquilo que faço. Se calhar posso ser noutras abordagens. Mas assim, com aquilo que faço, acho que não. Detesto rótulos, sinto que não me encaixo em nenhum e detesto que me tentem encaixar. Mas as pessoas não vão para o trabalho a ouvir o meu álbum. Preferem coisas mais gaiteiras.
    Curiosamente, a sua avó sempre lhe disse que não valia a pena desejar ser uma velha gaiteira porque gaiteira já o era agora.
    (risos) Mas vou ser uma velha gaiteira! Custa-me muito ver aquelas pessoas que estão sempre a olhar para os outros com um ar de snobeira, quando na verdade é inveja, porque elas querem ter a mesma liberdade daqueles que olham com um ar snob. Como aquelas pessoas que não dançam ou não riem por medo de parecerem maluquinhos. Ou gaiteiros. Essa castração é muito má. Até para os que estão à volta. Está alguém a dançar, feliz, consciente que paga as suas contas, e essas pessoas acabam por conseguir fazer o outro sentir-se mal só porque é livre. Sinto isto muitas vezes. Olham para mim como uma maluquinha, que fala muito e ri muito. «Olha as figuras a que ela se presta», dizem-me. E eu digo sempre: «Das coisas que têm de perceber sobre mim é que dificilmente conhecerão pessoa mais livre do que eu». Não há nada que tenha mais valor que a liberdade, que a nossa individualidade.
    Essa liberdade, no seu caso, revela-se muitas vezes na pista do Lux, onde, como apaixonada por música eletrónica, gosta de dançar pela noite fora e onde deu o seu primeiro concerto a solo. Decidir dar o primeiro concerto na maior e mais importante discoteca do país teve também a ver com esse desejo de liberdade?
    Não quero saber o que pensam, pelo menos não neste sentido. Curiosamente, hoje em dia, vejo pessoas que olhavam para mim de soslaio e que entretanto deram o braço a torcer e me vão ver a esses lugares menos óbvios. Para mim, o Lux fazia todo o sentido, porque é outro lado de mim. Desde miúda que estava na noite com amigos de Barcelos, onde houve uma discoteca chamada Vaticano, e muitos dos DJs que lá iam também passavam pelo Indústria, no Porto, e pelo Lux, em Lisboa. E lembro-me de brincar que um dia ainda ia cantar no Lux. Quando surgiu a oportunidade, como podia dizer que não? Esta sou eu, é a minha postura na vida. E não sei ser de outra forma.  "
    in" jornal "Sol"

      domingo, 26 de março de 2017

      AC_Saudade

      Saudade


      Havia um monte. E uma árvore. E uma fonte. Vindo de longe, movido a saudade, ouvia-se um lamento. Que fazer? Pegou nas lembranças, envolveu-as num ramo de flores e foi, de coração apressado, ao encontro dela..

      AC.
      in: http://ac-wwwinterioridade.blogspot.pt/2017/03/saudade.html?m=1

      sexta-feira, 17 de março de 2017

      Sónia M _ (dois poemas)



      foto net



      ....

      de ti queria as coisas que não tenho
      o que me falta e não consigo
      o que não posso
      ou ao que não me chega a coragem

      queria o segredo dos que dormem
      numa paz inexistente 

      queria o sonho
      dos que ousam acordados

      pintar numa hora que seja
      um minuto de sonho
      que vingue ou que valha

      queria o sonho
      de ti queria um sonho!

      ou ao menos

      antes que durma vazia

      cansada de tantas realidades 


      que me dissesses ao ouvido 
      bem baixinho 

      a que cheira um sonho 

      ou a que sabe...

      Sónia M

      ..........

      Não esqueças, meu anjo...

      não esqueças
      meu anjo
      não esqueças
      guarda bem o que te digo

      de tudo o que vês
      te tornas parte
      só de ti depende a parte que sejas

      se não poderes ser cura
      sê o alívio
      de algum pássaro ferido
      que encontres

      sei que este lugar dói 
      de tão oco
      ruas inteiras cheias de pouco
      olhos vazios que brilham por nada

      mas não desesperes
      meu anjo
      não desesperes

      constrói uma jangada de gestos
      e atravessa com ela todos os mares

      as fadas
      {quase extintas}
      vivem entre os teus dedos
      e as tuas mãos
      ainda pequenas
      guardam toda a magia do peito

      e se ainda assim
      um dia
      tudo parecer feio e pesado

      não esqueças
      meu anjo
      não esqueças

      voltarás a encontrar a grandeza do mundo
      seguindo o barulho de fundo
      {quase inaudível}
      das coisas miúdas.

      Sónia M

      Aos meus filhos

      In: http://soniagmicaelo.blogspot.pt/

      terça-feira, 14 de março de 2017

      Judith Teixeira_ A Minha Amante

      Judith Teixeira

      A Minha Amante

      Dizem que eu tenho amores contigo!
      Deixa-os dizer!…
      Eles sabem lá o que há de sublime
      Nos meus sonhos de prazer…
      De madrugada, logo ao despertar,
      Há quem me tenha ouvido gritar
      Pelo teu nome…

      Dizem - e eu não protesto -
      Que seja qual for
      o meu aspecto
      tu estás
      na minha fisionomia
      e no meu gesto!

      Dizem que eu me embriago toda em cores
      Para te esquecer…
      E que de noite pelos corredores
      Quando vou passando para te ir buscar,
      Levo risos de louca, no olhar!

      Não entendem dos meus amores contigo -
      Não entendem deste luar de beijos…
      - Há quem lhe chame a tara perversa,
      Dum ser destrambelhado e sensual!
      Chamam-te o génio do mal -
      O meu castigo…
      E eu em sombras alheio-me dispersa…

      E ninguém sabe que é de ti que eu vivo…
      Que és tu que doiras ainda,
      O meu castelo em ruína…
      Que fazes da hora má, a hora linda
      Dos meus sonhos voluptuosos -
      Não faltes aos meus apelos dolorosos
      - Adormenta esta dor que me domina!

      Judith Teixeira
      ...............

      biografia


      "Judith Teixeira nasceu em Viseu em 1880. Começou a escrever na adolescência "versos ingénuos, que guardava", (segundo palavras suas) e apareceu no "Jornal da Tarde" com composições em prosa que assinava com pseudónimo. Do seu nome verdadeiro, só haveria notícia em 1922, quando escreveu a maior parte dos poemas que haveriam de ser incluídos nos seu livros "Decadência" e "Castelo de Sombras", publicando também poemas na revista "Contemporânea". O livro "Decadência" saiu em Fevereiro de 1923. Em Março do mesmo ano, o Governo Civil de Lisboa apreendeu este livro de Judith, assim como as "Canções" de António Botto e "Sodoma Divinizada" de Raúl Leal, depois da polémica instalada após a publicação destes livros, apelidados de "imorais", que levaram uns quantos estudantes católicos sedentos de mão pesada, a queixar se contra a "literatura dissolvente" que "corroía a moral e os costumes". Os livros foram queimados e Judith apelidada de "desavergonhada". Fernando Pessoa tomou posição em defesa dos amigos Botto e Leal. De Judith, não mais se falou na altura. Em Junho do mesmo ano, Judith publicou "Castelo de Sombras", constituído por 24 poemas datados de sexta feira de paixão de 1921 a Abril de 1923. E em Dezembro do mesmo ano, resolveu editar novamente "Decadência". Durante o ano de 1925, Judith escreveu a maior parte dos poemas que iria publicar no livro "Nua", em 1926. Entretanto, editou e dirigiu a revista "Europa". O livro "Nua" foi anunciado pelo poema "A cor dos sons", publicado na revista "Contemporânea", n.º11. Em Junho, já com o livro à venda, sairia no jornal "Revolução Nacional", (jornal de propaganda da ditadura onde se insultavam os directores de quase todos os outros jornais), um texto onde era referido o livro "Nua" de Judith, como "uma das vergonhas sexuais e literárias" e apelidados os seus poemas de "versalhadas ignóbeis". Marcelo Caetano escreveria ainda, no jornal "Ordem Nova" (de que era fundador e redactor), que tinham aparecido nas livrarias uns livros obscenos, apelidando Judith de desavergonhada, e onde se vangloriava pela cremação dos livros dela, de Leal e de Botto, a que chamava de “papelada imunda, que empestava a cidade”. Judith Teixeira, depois de enxovalhada publicamente, ridicularizada, apelidada de lésbica e caricaturada em revistas, defendeu se e contra atacou na conferência "De Mim", cujo texto se apressou a editar. Sete meses depois, publicou "Satânia", enfrentando tudo e todos. Depois desta data, Judith assinou raras colaborações. Em 1928 publicou o "Poemeto das Sombras" na revista "Terras de Portugal" e depois disto, não se ouviria dela nem mais uma palavra. Pois depois de totalmente esmagada pela moral vigente, viu se em 1927 sentenciada de "morte artística" pela mão de José Régio, que diria: "Todos os livros de Judith Teixeira não valem uma canção escolhida de António Botto". Depois disto, sabe se que terá saído do país e que se terá calado para sempre uma voz tão incisivamente dedicada à agitação. Judith morreu em 1959. Quinze anos mais tarde, em 1977, António Manuel Couto Viana ressuscitava o nome de Judith Teixeira ao dedicar lhe uma memória no volume "Coração Arquivista" onde se interrogava porque teriam sido as poesias de Judith votadas ao silêncio e à ignorância das mesmas. Judith Teixeira é ainda hoje praticamente desconhecida e continua a não estar representada em qualquer antologia. Fala se ainda hoje da polémica da "literatura de sodoma" de Botto, Leal e Pessoa, e omite se aquela que viu igualmente um livro seu em labareda e que foi a mais perseguida e enxovalhada dos poetas modernistas. Uma excepção para a Editora "&etc", que, em 1996 resolveu editar os poemas de Judith Teixeira, (com pesquisa, organização e bibliografia elaborada por Maria Jorge e Luís Manuel Gaspar), com o objectivo de reparar a injustiça de tal silêncio a que esta poetisa vanguardista dos anos 20 foi votada todos estes anos."

      in:http://www.truca.pt/

      quarta-feira, 8 de março de 2017

      ruy belo_morte ao meio-dia


      Ruy Belo (1933-1978)
      "Morte ao meio-dia" in «Boca Bilingue» (1966).

      Dito por Mário Viegas in «Humores», Disco 2, lado A (1980). Mário Viegas recita aqui a versão definitiva do poema, publicada no Vol. I da «Obra Poética de Ruy Belo» (1972), onde foi interpolada a estrofe iniciada por "O português paga calado cada prestação".

      Música: Max Richter, "What had they done?" in «Waltz with Bashir. OST» (2008).


      (o poema:)

      No meu país não acontece nada
      à terra vai-se pela estrada em frente
      Novembro é quanta cor o céu consente
      às casas com que o frio abre a praça

      Dezembro vibra vidros brande as folhas
      a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal
      que o mais zeloso varredor municipal
      Mas que fazer de toda esta cor azul

      Que cobre os campos neste meu país do sul?
      A gente é previdente tem saúde e assistência cala-se mais nada
      A boca é pra comer e pra trazer fechada
      o único caminho é direito ao sol

      No meu país não acontece nada
      o corpo curva ao peso de uma alma que não sente
      Todos temos janela para o mar voltada
      o fisco vela e a palavra era para toda a gente

      E juntam-se na casa portuguesa
      a saudade e o transístor sob o céu azul
      A indústria prospera e fazem-se ao abrigo
      da velha lei mental pastilhas de mentol

      O português paga calado cada prestação
      Para banhos de sol nem casa se precisa
      E cai-nos sobre os ombros quer a arma quer a sisa
      e o colégio do ódio é a patriótica organização

      Morre-se a ocidente como o sol à tarde
      Cai a sirene sob o sol a pino
      Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde
      Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?

      Há neste mundo seres para quem
      a vida não contém contentamento
      E a nação faz um apelo à mãe,
      atenta a gravidade do momento

      O meu país é o que o mar não quer
      é o pescador cuspido à praia à luz
      pois a areia cresceu e a gente em vão requer
      curvada o que de fronte erguida já lhe pertencia

      A minha terra é uma grande estrada
      que põe a pedra entre o homem e a mulher
      O homem vende a vida e verga sob a enxada
      O meu país é o que o mar não quer.

      Vol. I da «Obra Poética de Ruy Belo» (1972),

      nuno júdice_um rosto


      Um Rosto

      Apenas
      uma coisa inteiramente transparente:
      o céu, e por baixo dele a linha obscura do 
      nos teus olhos, que pude ver ainda
      através de pálpebras semicerradas, pestanas húmidas
      da geada matinal, uma névoa de palavras murmuradas
      num silêncio de hesitações. Há quanto tempo,
      tudo isto? Abro o armário onde o tempo antigo
      se enche de bolor e fungos; limpo os papéis,
      cartas que talvez nunca tenha lido até ao fim, foto-
      grafias cuja cor desaparece, substituindo os corpos
      por manchas vagas como aparições; e sinto, eu
      próprio, que uma parte da minha vida se apaga
      com esses restos.

      Nuno Júdice



      sexta-feira, 3 de março de 2017

      Regina Figueiredo_Canto de Guerra

      sexta-feira, 3 de março de 2017




      Batalha de Navas de Tolosa

      Canto de guerra

      Possante, valente e audaz
      seguro nas mãos a espada
      do infeliz destino
      perfeito hino 
      de devoção ao meu povo

                Quem sou, quem sou?
                Sou Rei!

      Inunda-me a raiva do fogo
      e a ambição fustigada
      invade-me as veias da discórdia
      sob o sangue da vitória
      seguro a espada

                Quem sou, quem sou?
                Sou Rei!

      Indiferente é o meu salmo
      só os mouros importam
      se cabeças rolam pelo chão
      na peleja não há opção:
      ou se mata ou morre!

                Quem sou, quem sou?
                Sou Rei!

      Ajoelham-se os que salvo
      Gemem os outros de dor
      Califás Almançor
      Eis o vosso senhor
      Mais fraco que um objeto.

                Quem sou, quem sou?
                Sou Rei!

      Na mão da espada
      o punho dormente
      esconde o terrível segredo:
      súbdito do medo
      rasgo o nome para o degredo.

                Quem sou, quem sou?
                Ninguém!

      terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

      Suzete Brainer_ conto/poesia


      A Menina de Cabelos de Sol...
























      Depois de saboroso lanche feito com seus doces caseiros e o bolo da vovó, sentávamos, na cadeira grande de balanço, eu com 7 anos, no seu colo, à hora das histórias inventadas por ela, como música na construção do meu imaginário e na marcação do som, a cadeira de balanço no ritmo da minha curiosidade infantil acelerada ...






      “Era uma vez uma menina dos cabelos de sol, loiros e longos até a cintura. Morava no mundo do Sol, tudo lá era dourado e brilhante... Não existiam brigas, todo mundo falava pelo pensamento e no pensamento, as palavras são mansas, moram bem perto do coração. A menina e sua família viviam felizes e lá todas as famílias eram felizes. Todas as casas tinham jardins de rosas de todas as cores e perfumes. Não tinha noite, pois o Sol é que regia sempre; uma vez a um ano tinha uma Lua cheia que ficava por 7 dias e ela e o Sol ficavam juntos, como uma dança. Alguns momentos ficavam noite com clarão da Lua e outros dia com o Sol regendo. Um dia o Sol brigou com a Lua cheia e todos foram atingidos por essa briga. Ninguém mais entendia o outro. As famílias começaram a brigar todos os dias. Quem foi mais atingida foram as rosas e todas morreram: algumas queimaram, outras murcharam e se despetalaram... A menina, que era muito amiga das rosas, ficou muito triste e nunca tinha conhecido a tristeza. Os seus olhos ficaram sem brilho, a sua voz sem o canto e não queria mais dançar. Enquanto todos brigavam, ela, a única que ficava calada e triste num canto do jardim sem rosas... “






      Eu queria saber o que aconteceu com a menina e a minha avó me fazia esperar para outra tarde de sessão de histórias inventadas e contadas por ela. Eu aguardava esta tarde com os meus olhos brilhando de curiosidade, imaginava que o tempo era muito chato e não gostava de histórias, pois demorava tanto para chegar o dia... Ficava perguntando as horas para minha mãe e ela, intrigada, me dizia: "que tanto eu queria saber das horas?...”






      Quando cheguei à casa da minha avó, de imediato fui para cadeira de balaço, argumentando que precisava saber da menina dos cabelos de sol e o lanche ficaria para depois da história contada... Ela riu, dizendo que eu tinha fome de história imaginada!...






      “A menina dos cabelos de sol estava muito fraquinha, não queria mais abrir os olhos para o mundo desmantelado daquele... Nem a mãe dela notava que a tristeza nela, estava sugando a sua luz-vida, todos continuavam na animação para as brigas de dia e de noite, de noite e de e dia... Foi quando o Sol resolveu se separar de vez da Lua cheia e, assim: os dias ficaram com o Sol e as noites com a Lua, mas a Lua muito contrariada com a decisão do Sol, resolveu se expressar por períodos, os seus sentires femininos na oscilação das vibrações. Ela passou a influenciar as marés e o mundo do Sol nunca mais ficou o mesmo. Todos se acostumaram com o mundo do Sol desfeito, mas ela não. Um dia bem cedinho, antes de o Sol nascer, ela fugiu para dentro dele e hoje aqueles raios do Sol, fininhos, são os cabelos dela!...”






      Enquanto comia o meu lanche, não parava de pensar na menina e






      perguntei a minha avó:


      - A menina ficou alegre lá. Naquele lugar a tristeza nunca mais vai entrar nela, né isso, minha avó?


      - Ela pode ser maior que a tristeza! (minha bonequinha...)


      -A senhora devia contar essa história para Mainha e meu Pai pararem de brigar. Os adultos brigam muito! Nós, crianças, quando brigamos, fazemos as pazes logo...


      -É, minha querida, as crianças sabem brincar com a vida!...


      -Vou brincar com as minhas bonecas e todas irão morar no mundo do Sol, quando não foi desfeito...


      -Vó, quando tiver bem chato lá em casa, eu voo até o Sol e fico com os meus cabelos junto com os cabelos da menina!...


      - Sim. A menina era parecida com você!...


      - Você sabe como voar?


      - Sei, Vó. É fechando os olhos e imaginando!...


      - Isso, minha bonequinha!...






      Suzete Brainer


      (Direitos autorais registrados)





      domingo, 26 de fevereiro de 2017

      KarlaSuaréz_entrevista



      #entrevista #KarlaSuaréz

      LIVROS»CORRENTES D'ESCRITAS
      CORRENTES D'ESCRITAS

      Karla Suárez: “Estávamos em permanente estado de guerra”
      25/2/2017, 15:09

      Em "Um lugar chamado Angola" Karla Suárez traz para a literatura as consequências que a participação de Cuba na Guerra Civil de Angola teve na sociedade cubana. "O comunismo é como uma religião", diz.

      Fidel Casto "vai ficar sempre com um dos grandes políticos do século XX"., diz Karla Suárez. Já Trump pode pôr em risco a aproximação com os EUA.


      Sara Otto Coelho

      ANGOLACORRENTES D'ESCRITASCUBAENTREVISTAGUERRA FRIAÁFRICAMUNDOLIVROSLITERATURACULTURAAMÉRICAOBSERVADORHISTÓRIA
      11 mil quilómetros e um oceano separam Cuba de Angola. O país latino-americano nunca declarou guerra à ex-colónia portuguesa. E, no entanto, na década de 1980, mais de dois mil cubanos morreram a combater em território angolano. O pai da escritora Karla Suárez esteve lá, assim como muitos outros pais, tios, filhos e irmãos de mulheres cubanas. “Nessa altura, a guerra fazia parte do dia-a-dia. Era normal perguntar pelo pai de alguém e ouvir como resposta ‘está em Angola'”, recorda, em entrevista ao Observador.

      Recordar foi algo que Karla Suárez fez muito no seu novo livro, Um lugar chamado Angola. A história começa com Ernesto, que aos 12 anos recebe a notícia de que o pai morreu na guerra. Já adulto, e obcecado com a história do seu país, em particular com a presença militar de Cuba em África, decide viajar para Luanda para esclarecer todas as dúvidas que ainda lhe restam. No entanto, ao tentar reconstruir a morte do pai, percebe que nem tudo se passou tal como ele imaginara.

      Um lugar chamado Angola narra o impacto que a participação de Cuba nesse conflito — que mais não foi do que o último tabuleiro de xadrez da Guerra Fria com peças americanas, russas, chinesas e muitas outras — teve nos cubanos nascidos sob o signo da Revolução. As descrições da infância e da vivência de Ernesto são tão fiéis à realidade porque Karla Suárez está, na verdade, a partilhar com o leitor como foi crescer sob o regime de Fidel, em permanente ameaça de invasão, obrigada a fazer o serviço militar e a saudar a bandeira, o comunismo e Che Guevara a cada manhã na escola. Naquela altura, muitas crianças tinham o nome do guerrilheiro. É o caso do protagonista da história.

      Quando a escritora cubana começou a escrever romances, no final dos anos 1990, queria contar ao mundo sobre a Cuba onde nasceu e cresceu. O primeiro livro, Os Rostos do Silêncio, é mais focado na família. A Viajante, a seguir, aborda o tema da emigração. Havana, Ano Zero concentra nas suas quase 300 páginas os difíceis anos 1990, período de declínio económico, apagões de eletricidade e todas as carências que aparecem quando o dinheiro falta. Por fim, Angola.

      “Agora que já reconstrui o meu país, não sei o que se segue”, diz no final da entrevista que deu ao Observador no festival Correntes d’Escritas, na Póvoa de Varzim. Di-lo a rir-se, e não com um ar preocupado. O sorriso e a joie de vivre parecem ser características indissociáveis da mulher que nasceu em Havana, em 1969. Além disso, não há razão para alarme: não pensa voltar a escrever sobre Cuba tão cedo, mas isso não significa que já não esteja a criar outras histórias. Está.

      Karla Suárez deixou Cuba em 1998. Viveu em Roma, depois Paris e, desde 2010, vive em Lisboa, com o marido. “Quando cheguei pela primeira vez à cidade, alguma coisa me fez lembrar Havana. O ritmo, o número de habitantes, não sei.” Queria aprender português e já o fala quase na perfeição.


      “Um lugar chamado Angola” foi editado pela Porto Editora em janeiro. Tem 232 páginas e custa 16,60€.

      Ernesto, o personagem que criou para o romance, nasceu no mesmo ano que a Karla, 1969. E, a certa altura, também se muda para Lisboa. Quanto há de si neste protagonista?
      Tudo o que descrevo sobre a vida em Havana é autobiográfico. A forma como vivemos a guerra, a forma como eu e Ernesto crescemos, é igual. Fizemos as mesmas coisas, acenávamos as bandeirinhas na rua quando Fidel recebia algum presidente, andámos no mesmo liceu e na mesma universidade — ele é engenheiro civil, eu fiz engenharia eletrónica. Há muita coisa em comum, exceto a vida pessoal familiar e tudo o que aconteceu ao pai dele.

      O seu pai também foi chamado a combater em Angola?
      Sim, ele esteve lá dois anos, mais como assessor militar e não propriamente na frente de batalha, e voltou. Eu estava no liceu quando ele partiu. Nessa altura, a guerra fazia parte do dia-a-dia. Era normal perguntar pelo pai de alguém e ouvir como resposta “está em Angola”. Foram 300 mil cubanos, entre militares, reservistas e civis.

      Fez o serviço militar?
      Claro, tive preparação militar, com espingarda, kalashnikov, tudo. Quanto tínhamos 17 anos éramos chamados a fazer o serviço: três anos se fosse feito em Cuba, ou dois anos se fosse em Angola. Um dos meus amigos escolheu ir para Angola, para acabar mais rápido, mas quando chegou lá… Ali era a sério, era a guerra! Há uma coisa que me impressionou e que está no romance. O Ernesto está a falar com um amigo, Baby Ranger, a contar como fez a sua preparação militar na universidade. E esse amigo conta como foi a sua preparação antes de ir para Angola. E era a mesma. Só que depois disso, o Ernesto voltou para a universidade e o outro foi para a guerra. Pensas: será que com aquela preparação que recebi podia ir combater?

      Chama aos combates em Angola a última grande guerra da Guerra Fria.
      Sim. Participaram ali todas as potências: Estados Unidos, União Soviética, China, África do Sul, França, quase todos tinham lá um pé ou com a UNITA, ou com o MPLA, FNLA… Todos tinham interesses diferentes, sendo que, às vezes, faziam guerra entre eles. Há um personagem no romance que descreve esta guerra como um jogo de xadrez. Acho que o fim começou a chegar quando saíram os cubanos. Assinámos o acordo de paz em 1988 e a retirada terminou em 1991. Precisamente o ano em que terminou a Guerra Fria.

      Em Portugal fala-se muito sobre a Guerra Colonial, mas muito pouco sobre a presença de todas essas nações na Guerra Civil Angolana. Notou isso? E em Cuba, essas memórias ainda estão muito presentes?
      Em Cuba, toda a gente que tenha mais de 30 anos sabe. Mas recentemente falei com jovens de 20 anos e eles só sabiam que os cubanos tinham estado num conflito, mas pouco mais. Temos canções que ajudam a recordar o tema. No início do romance está a letra de uma canção de Frank Delgado: “Angola era, para mim, só um nome estranho na geografia dos meus primeiros anos.” Há uma cena na história em que eles estão num concerto e ele canta esta canção, que é lindíssima. O cantor tem 50 anos, estamos a falar de uma coisa recente, mas que mesmo assim começa a ser esquecida.


      Esta proximidade à guerra em Angola esteve sempre presente na sua vida. Porque decidiu pegar no tema agora? Morar em Portugal influenciou de alguma forma?
      Com o meu primeiro romance, de 2002, que em Portugal se chama Os Rostos do Silêncio, há um personagem que vai a Angola. Era, de facto, uma coisa que já estava presente. Sempre me interessou, até porque eu não percebia muito sobre o tema. É uma guerra muito, muito complicada, eu costumava dizer que quanto mais lia e me informava, menos entendia. Há muitas vozes e pontos de vista. Então eu queria perceber, porque quando o meu pai foi para Angola eu era muito jovem e o que lia no jornal era quem era o inimigo e contra quem temos de estar, pouco mais. Era uma curiosidade pessoal. A presença dos cubanos em África, começando na Argélia e passando pelo Congo com Che Guevara, é um tema importante na história recente de Cuba. Já se escreveram contos e romances que falam de algumas experiências, mas eu queria fazer algo mais extenso, mais abrangente.

      Depois da guerra cada país tem as suas feridas e Portugal também tinha de as sarar. Foi um trauma para os portugueses toda a questão da guerra e dos retornados. Seguramente ninguém tinha vontade de continuar a acompanhar a situação. Mas já falei com muitos portugueses que conheceram cubanos, que depois da Revolução continuaram a trabalhar em Angola. Para mim foi interessantíssimo estar aqui a escrever este romance porque estava sempre a encontrar pessoas relacionadas com o tema. Eu apanhava um táxi e o taxista dizia-me: “Eu estive lá!” Havia sempre uma história. Eu andava sempre com bloco e uma caneta a escrever as histórias. Com toda a informação que recolhi dava para escrever 10 romances! [risos]. Mas não vou escrever mais.

      Tem uma frase no livro que me chamou a atenção: “[Renata], talvez por ser peruana, sempre teve dificuldade em perceber que, no meu país, jantamos, almoçamos e tomamos o pequeno-almoço com a História, que a História se enfiou nas nossas camas, nas famílias, nas brincadeiras infantis, que se nos colou à pele.”
      Agora talvez não seja tanto mas, quando eu cresci, a política e a ideologia estavam sempre presentes. Tudo era política, tudo, tudo. Quando íamos para a escola, a primeira coisa que tínhamos de dizer, em frente à bandeira, era “Pioneros por el comunismo, seremos como el Che“. Mesmo se algo não era dito diretamente, a ideologia estava em todas as formas do discurso. “Temos de fazer isto porque existe a ameaça dos Estados Unidos.” Estávamos em permanente estado de guerra, sem guerra. Sempre preparados para defender o país. Tínhamos os domingos da defesa, na universidade tínhamos aulas de defesa, era normal. Para quem não cresceu assim, pode ser difícil perceber algumas obsessões com a História. Não é obsessão, é educação. O comunismo é como uma religião.


      “Quando íamos para a escola, a primeira coisa que tínhamos de dizer, em frente à bandeira, era ‘Pioneros por el comunismo, seremos como el Che'”. © Porto Editora

      Isso fez dos cubanos um povo mais letrado politicamente? Mais interessado?
      Não sei até que ponto é mais politicamente educado.O excesso também acaba por fartar as pessoas. A certa altura, há pessoas que dizem: “Basta. Eu já não quero saber de mais nada.” Aconteceu muito na minha geração, nos anos 1990, quando tínhamos 20 anos. Isso também se notou na literatura. Como a minha geração estava mais afastada da política, queria falar de outras coisas. Também nos anos 1990 tivemos uma grande crise económica, então, na hora de escrever, as pessoas queriam abrir a janela e voar.

      Foi por causa da crise económica que deixou Cuba em 1998?
      Eu nunca tive problemas em Cuba, é preciso dizê-lo. Mas era um país que não tinha muito futuro. Eu tinha 28 anos, o país cada vez me dava menos possibilidades… E mesmo quando era mais nova e o país estava bem, eu sempre quis viver em países diferentes.

      Pensa em voltar definitivamente?
      Agora não. Não sei amanhã, mas agora não.

      O futuro do país ainda está muito indefinido.
      Sim, é um país que ainda se está a formar. O país onde eu cresci já não existe. No fim do romance, o Ernesto fala um pouco do país de agora, porque a família continua a morar lá. É um país que eu às vezes não reconheço. Muita gente da minha geração, grandes amigos, também se foram embora, não estão lá. Eu encontro-os no Facebook [risos]. Gosto da minha vida aqui em Lisboa.

      Houve muitas mudanças com a ascensão de Raul Castro ao poder.
      Não grandessíssimas mudanças, mas importantes, sim. Ele fez coisas que parecem simples, mas que são grandes avanços. Os cubanos não podiam ter telemóveis, não podiam comprar nem vender casas nem carros. Coisas que aqui são normais, mas que para nós constituem grandes mudanças. Isso mudou a vida de muita gente, para melhor. Agora é possível fazer mais negócios privados.

      Outra mudança muito importante foi na política de emigração. Há quatro anos, os cubanos tinham de pedir permissão ao Governo para sair do país, nem que fosse para ir de férias. Depois ainda era preciso pedir o visto para entrar noutro país, como é normal, mas a permissão de saída era um problema porque demorava muito. Um profissional tinha de pedir permissão ao chefe, o chefe tinha de pedir permissão ao chefe dele, era uma coisa… Facilmente se passavam quatro meses até se conseguir a permissão. Também era preciso pagar e não era pouco. Com isto, muitas pessoas passaram a viajar e outras começaram a voltar, porque ficam mais livres para saírem quando quiserem.


      Como é que sentiu a morte de Fidel Castro?
      Era algo que esperava, mais dia menos dia. Não fiquei nem feliz, nem triste. Morreu. Ele vai ficar sempre com um dos grandes políticos do século XX, mas, pessoalmente, não tive um sentimento especial. Foi como se tivesse acabado o mundo da minha infância, porque eu cresci sempre com Fidel. Quando eu nasci ele estava no poder, eu cresci e ele sempre esteve lá, tínhamos a sensação de que ele nunca iria morrer. Em Cuba dizem-me que houve muita gente em silêncio, num luto prolongado. Ele era querido por muita gente, mas também houve quem tivesse ficado contente. Foi uma pessoa que criava sempre grandes ódios e grandes paixões.

      Obama fez um trabalho de aproximação entre os Estados Unidos e Cuba. Agora com Trump, pode haver um retrocesso?
      Antes de ser eleito ele já disse que ia voltar atrás em algumas coisas. Ainda não o fez, mas vamos ver… É um homem muito perigoso. O romance acaba precisamente com o retomar das relações entre Cuba e os Estados Unidos. Para mim foi um momento fantástico, eu fiquei muito surpreendida, acho que ninguém esperava! Ver Obama visitar Cuba foi um avanço enorme. Finalmente, porque é uma situação absurda. Vamos ver agora o que fará Trump."
      in: "observador"


      

      sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

      Vasco de Lima Couto_Retrato


      Fui só eu que estraguei as alvoradas
      - presas suaves nos plúmbeos céus!,
      e dei água aos ribeiros da minha alma
      e fiz preces de amor e sangue, a Deus...

      Fui só eu que, sabendo da tormenta
      que o vento da nortada me dizia,
      puz meus lábios no sonho incompleto
      e rasguei o meu corpo na poesia.

      Vieram dar-me abraços e contentes
      viram que me afundava sem remédio
      - nem um grito subia do horizonte
      há mil anos deitado sobre o tédio!

      Quando chamaram por mim do imenso rio
      que a noite veste para se entreter
      vi que os barcos andavam cheios de almas
      buscando sonhos para não sofrer.

      Cantavam doidas como a dor e a morte
      parando, a espaços, para ver montanhas
      e eram luzes mordidas pelas sombras,
      corajosas, infelizes - mas tamanhas!

      Eu fugi de as ouvir (que ardentes vozes...)
      de navegar nas mesmas ansiedades
      e fui sozinho semear as luas
      e a natureza inculta das idades.

      Parti, negando à vida o seu direito,
      recalcando os meus sonhos e os meus medos...

      sei agora que matei o meu destino
      e quebrei o futuro nos meus dedos.

      Vasco de Lima Couto,
      in: "Os Olhos e o Silêncio" - 1952


      quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

      Jorge de Sena


      Nem sei porque ainda falo em Deus.
      Se de mim me afasto e obedeço ao mundo
      – traz ele consigo um sonho para levedar
      na perspicácia absorta de um farol de angústia –
      e não concedo esperança ao que anda em mim
      podendo ser volúpia da memória livre;
      se Deus partiu para o limite da vida
      quando olhámos ambos a realidade das coisas;
      se não existe uma barca onde o rumo se invente,
      embora as pontes sejam dessas barcas;
      se onde estiver um homem não estará outro homem.
      Não sei, de facto, porque falo de Deus.

      Jorge de Sena


      Jorge de Sena nasceu em Lisboa, a 2 de novembro de 1919, e faleceu em Santa Barbara, na Califórnia, a 4 de junho de 1978



      segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

      Graça Pires_Inês, o meu nome


      13.2.17


      Inês, o meu nome

      CNB

      Para sempre o teu olhar interdito. O teu rosto sombrio.
      O teu corpo clandestino de mim. Para sempre.
      Com que sopro, diz, incendiaste, em meus cabelos,
      a luz, tão frágil, do primeiro orvalho da manhã?
      Que contenda feriu a clareira de teus braços
      onde morri quantas vezes eu pude renascer?
      Como silenciar o prazer se ajustaste nele
      a prematura paixão de tuas mãos?
      Talvez este alvoroço de passos em dança,
      em grito, em desespero nos mostre
      como errámos todos os voos que rasgaram
      o excessivo azul das noites mais perfeitas.
      Pelas fendas da morte te escuto agora.
      Procuro, no intenso fulgor de teus olhos,
      a nitidez da água, antecipando as lágrimas
      e só encontro a sede de bicho selvagem que te suplicia.
      É de rosas, eu sei, o aroma que acoitas no meu nome.

      Graça Pires
      In: A CNB e os Poetas, 2016, p. 7
      Poema feito em out. 2015 depois de ter assistido ao bailado Pedro e Inês, coreografado por Olga Roriz, a convite da direcção da CNB, através de João Costa.   

      terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

      herberto helder / lugar lugares

      lugar lugares

      Era uma vez um pequeno inferno e um pequeno paraíso, e as pessoas andavam de um lado para outro, e encontravam-nos, a eles, ao inferno a ao paraíso, e tomavam-nos como seus, e eles eram seus de verdade. As pessoas eram pequenas, mas faziam muito ruído. E diziam: é o meu inferno, é o meu paraíso. E não devemos malquerer às mitologias assim, porque são das pessoas, e neste assunto de pessoas, amá-las é que é bom. E então a gente ama as mitologias delas. À parte isso o lugar era execrável. As pessoas chiavam como ratos, e pegavam nas coisas e largavam-nas, e pegavam umas nas outras e largavam-se. Diziam: boa tarde, boa noite. E agarravam-se, e iam para a cama umas com as outras, e acordavam. Às vezes acordavam no meio da noite e agarravam-se freneticamente. Tenho medo - diziam. E depois amavam-se depressa, e lavavam-se, e diziam: boa noite, boa noite. Isto era uma parte da vida delas, e era uma das regiões (comovedoras) da sua humanidade, e o que é humano é terrível e possui uma espécie de palpitante e ambígua beleza. E então a gente ama isto, porque a gente é humana, e amar é bom, e compreender, claro, etc. E no tal lugar, de manhã, as pessoas acordavam. Bom dia, bom dia. E desatavam a correr. É o meu inferno, o meu paraíso, vai ser bom, vai ser horrível, está a crescer, faz-se homem. E a gente então comove-se, e apoia, e ama. Está mais gordo, mais magro. E o lugar começa a ser cada vez mais um lugar, com as casas de várias cores, as árvores, e as leis, e a política. Porque é preciso mudar o inferno, cheira mal, cortaram a água, as pessoas ganham pouco – e  que fizeram da dignidade humana? As reivindicações são legítimas. Não queremos este inferno. Dêem-nos um pequeno paraíso humano. Bom dia, como está? Mal, obrigado. Pois eu ontem estive a falar com ela, e ela disse: sou uma mulher honesta. E eu então fui para o emprego e trabalhei, e agora tenho algum dinheiro, e vou alugar uma casa decente, e nosso filho há-de ser alguém na vida. E então a gente ama, porque isto é a verdadeira vida, palpita bestialmente ali, isto é que é a realidade, e todos juntos, e abaixo a exploração do homem pelo homem. E era intolerável. Ouvimos dizer que numa delas, o pequeno inferno começou a aumentar por dentro, e ela pôs-se silenciosa e passava os dias a olhar para as flores, até que elas secavam, e ficava somente a jarra com os caules secos e água podre. Mas o silêncio tornava-se tão impenetrável que os gritos dos outros, e a solícita ternura, e a piedade em pânico – batiam ali e resvalavam. E então a beleza florescia naquele rosto, uma beleza fria e quieta, e o rosto tinha uma luz especial que vinha de dentro como a luz do deserto, e aquilo não era humano - diziam as pessoas. Temos medo - pensavam. E o ruído delas caminhava para trás, e as casas amorteciam-se ao pé dos jardins, mas é preciso continuar a viver. E havia o progresso. Eu tenho aqui, meus senhores, uma revolução. Desejam examinar? Por este lado, se fazem favor. Aí à direita. Muito bem. Não é uma boa revolução? Bem, compreende... claro, é uma belíssima revolução. E é barata? Uma revolução barata?! Não, senhores, esta é uma verdadeira revolução. Algumas vidas, alguns sacrifícios, alguns anos, algumas. É um bocado cara. Mas de boa qualidade, isso. E o rosto que se perdera, que possivelmente caíra do corpo e rolara debaixo das mesas, o rosto? Lembras-te? Como foi que ficou assim? Não sei: tinha uma luz. Sim, lembro-me: parecia uma flor que apodrecesse friamente. Era terrível. Boa noite. E ela trazia um vestido de seda branca, e nesse dia fazia dezoito anos, e estava queimada pelo sol, e era do signo da balança, e tomou os comprimidos todos, e acabou-se. Não compreendo. E julgas tu que eu compreendo? Quem pode compreender? Ela era a própria força, aquela irradiante virtude da alegria, aquele fulgor radical..., compreendes? Sim, sim. Tinha um vestido de seda, e era nova, e então acabou-se. Para diante, para diante. Não se deve parar. Enforquem-nos, a esses malditos banqueiros. Este vai ter trinta e cinco andares, será o mais alto da cidade. Por pouco tempo, julgo eu. Como? Sim, vão construir um com trinta e seis, ali à frente. Remodelemos o ensino. Cantemos aquela canção que fala da flor da tília. Bebamos um pouco. E outro, o que viu Deus quando ia para o emprego?! Isto, imagine, às 8 h. e 45 m. de uma tranquila manhã de Março. Uma partida de Deus? Boa piada. Não amará Deus essas maliciosas surpresas? Um pequeno Deus folgazão?! Ele ficou doido. Começou a gritar e a fugir. Que Deus vinha atrás dele. E depois? Bem, lá construíram o prédio com trinta e seis andares, e o outro ficou em segundo lugar. Isto é o trabalho do homem: pedra sobre pedra. É belo. Vamos amar isto? Vamos, é humano, é do homem. E então as crianças cresceram todas e andavam de um lado para o outro, e iam fazendo pela vida – como elas próprias diziam. E então as condições sociais? Sim, melhoraram bastante. Mas uma delas começou a beber,  e depois a coração estoirou, e ficou apenas para os outros uma memória incómoda. Parece que sim, que tinha demasiada imaginação, e levaram-na ao médico, e ele disse: aguente-se, e ela não se aguentou. Era uma criança. Não, não, nessa altura já tinha crescido, bebia pelo menos um litro de brandy por dia. Nada mau, para uma antiga criança. A verdade é que era uma criança, e não se aguentou quando o médico disse: aguente-se. E as ruas são tão tristes. Precisam de mais luz. Mas nesta, por exemplo, já puseram mais luz, e mesmo assim é triste. É até mais tristes que as outras. Estou tão triste. Vamos para férias, para o pequeno paraíso. Contaram-me que ele tinha uma alegria tão grande que não podia aguentar um copo na mão: quebrava-o com a força dos dedos, com a grande força da sua alegria. Era uma criatura excepcional. Depois foi-se embora, e até já desconfiavam dele, e embarcou, e talvez não houvesse lugar na terra para ele. E onde está? Mas era uma alegria bárbara, uma vocação terrível. Partiu. E agora chove, e vamos para casa, e tomamos chá, e comemos aqueles bolos de que tu gostas tanto. E depois? Ele era belo e tremendo, com aquela sua alegria, e não tinha medo, e só a vibração interior da sua alegria fazia com que os copos se quebrassem entre os dedos. Foi-se embora.


      herberto helder
      os passos em volta
      assírio & alvim
      1980



      Ruy Duarte de Carvalho_Chagas de salitre

      Chagas de salitre

      Olha-me este país a esboroar-se
      em chagas de salitre
      e os muros, negros, dos fortes
      roídos pelo vegetar
      da urina e do suor
      da carne virgem mandada
      cavar glórias e grandeza
      do outro lado do mar.
      Olha-me a história de um país perdido:
      marés vazantes de gente amordaçada,
      a ingénua tolerância aproveitada
      em carne. Pergunta ao mar,
      que é manso e afaga ainda
      a mesma velha costa erosionada.
      Olha-me as brutas construções quadradas:
      embarcadouros, depósitos de gente.
      Olha-me os rios renovados de cadáveres,
      os rios turvos do espesso deslizar
      dos braços e das mães do meu país.
      Olha-me as igrejas restauradas
      sobre ruínas de propalada fé:
      paredes brancas de um urgente brio
      escondendo ferros de educar gentio.
      Olha-me a noite herdada, nestes olhos
      de um povo condenado a amassar-te o pão.
      Olha-me amor, atenta podes ver
      uma história de pedra a construir-se
      sobre uma história morta a esboroar-se
      em chagas de salitre. 

      Ruy Duarte de Carvalho, 
      em "A decisão da idade". 
      Luanda: União dos Escritores Angolanos, 1976.



      segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

      Sebastião da Gama_Madrigal

      Madrigal

      A minha história é simples.
      A tua, meu Amor,
      é bem mais simples ainda:
      "Era uma vez uma flor.
      Nasceu à beira de um Poeta..."

      Vês como é simples e linda?
      (O resto conto depois;
      mas tão a sós, tão de manso
      que só escutemos os dois).





      domingo, 5 de fevereiro de 2017

      Maria do Rosário Pedreira

      Dorme, meu amor, que o mundo já viu morrer mais este dia e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos.
      Fecha os olhos agora e sossega — o pior já passou há muito tempo; e o vento amaciou; e a minha mão desvia os passos do medo. Dorme, meu amor — a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste e pode levantar-se como um pássaro assim que adormeceres. Mas nada temas: as suas asas de sombra não hão-de derrubar-me — eu já morri muitas vezes e é ainda da vida que tenho mais medo. Fecha os olhos agora e sossega — a porta está trancada; e os fantasmas
      da casa que o jardim devorou andam perdidos nas brumas que lancei ao caminho. Por isso, dorme, meu amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão, já olhei a morte debruçada nos espelhos e estou aqui, de guarda aos pesadelos — a noite é um poema que conheço de cor e vou cantar-to até adormeceres.

      Maria do Rosário Pedreira