quinta-feira, 5 de junho de 2014




Anúncio

Trago os olhos naufragados
em poentes cor de sangue...

Trago os braços embrulhados
numa palma bela e dura
e nos lábios a secura
dos anseios retalhados...

Enrolada nos quadris
cobras mansas que não mordem
tecem serenos abraços...

E nas mãos, presas com fitas
azagaias de brinquedo
vão-se fazendo em pedaços...

Só nos olhos naufragados
estes poentes de sangue...

Só na carne rija e quente,
este desejo de vida!...
Donde venho, ninguém sabe
e nem eu sei...

Para onde vou
diz a lei
tatuada no meu corpo...

E quando os pés abram sendas
e os braços se risquem cruzes,
quando nos olhos parados
que trazem naufragados
se entornarem novas luzes...

Ah! 
Quem souber,
há-de ver
que eu trago a lei
no meu corpo...


Alda Lara (poetisa angolana)









Prelúdio



Pela estrada desce a noite…                                                  
Mãe-Negra, desce com ela...                                                                      


Nem buganvílias vermelhas,
nem vestidinhos de folhos,
nem brincadeiras de guisos,
nas suas mãos apertadas.                              



Só duas lágrimas grossas,
em duas faces cansadas.


Mãe-Negra tem voz de vento,
voz de silêncio batendo
nas folhas do cajueiro...


Tem voz de noite, descendo,
de mansinho, pela estrada...


Que é feito desses meninos
que gostava de embalar?...


Que é feito desses meninos
que ela ajudou a criar?...


Quem ouve agora as histórias
que costumava contar?...


Mãe-Negra não sabe nada...


Mas ai de quem sabe tudo,
como eu sei tudo
Mãe-Negra!...


Os teus meninos cresceram,
e esqueceram as histórias
que costumavas contar...


Muitos partiram p'ra longe,
quem sabe se hão-de voltar!...


Só tu ficaste esperando,
mãos cruzadas no regaço,
bem quieta bem calada.


É a tua a voz deste vento,
desta saudade descendo,
de mansinho pela estrada…

Sem comentários:

Enviar um comentário