*= Planeta Orbital =* Música & Palavras

...ora juntas, ora separadas.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Rui Knopfli_"naturalidade"


NATURALIDADE 

Europeu, me dizem.
Eivam-me de literatura e doutrina
européias
e europeu me chamam.
Não sei se o que escrevo tem raiz de algum
pensamento europeu.
E provável... Não. E certo,
mas africano sou.
Pulsa-me o coração ao ritmo dolente
desta luz e deste quebranto.
Trago no sangue uma amplidão
de coordenadas geográficas e mar Indico.
Rosas não me dizem nada,
caso-me mais à agrura das micaias
e ao silêncio longo e roxo das tardes
com gritos de aves estranhas.
Chamais-me europeu? Pronto, calo-me.
Mas dentro de mim há savanas de aridez
e planuras sem fim
com longos rios langues e sinuosos,
uma fita de fumo vertical,
um negro e uma viola estalando.


Velho Colono

Sentado no banco cinzento
entre as alamedas sombreadas do parque.
Ali sentado só, àquela hora da tardinha,
ele e o tempo. O passado certamente,
que o futuro causa arrepios de inquietação.
Pois se tem o ar de ser já tão curto,
o futuro. Sós, ele e o passado,
os dois ali sentados no banco de cimento.
Há pássaros chilreando no arvoredo,
certamente. E, nas sombras mais densas
e frescas, namorados que se beijam
e se acariciam febrilmente. E crianças
rolando na relva e rindo tontamente.
Em redor há todo o mundo e a vida.
Ali está ele, ele e o passado,
sentados os dois no banco de frio cimento.
Ele a sombra e a névoa do olhar.
Ele, a bronquite e o latejar cansado
das artérias. Em volta os beijos húmidos,
as frescas gargalhadas, tintas de Outono
próximo na folhagem e o tempo.
O tempo que cada qual, a seu modo,
vai aproveitando.
 
..... 
"Rui Knopfli. Há uma cadeira vazia à mesa do poeta
DIOGO VAZ PINTO28/07/2017 13:53

  
Duas décadas depois do desaparecimento de Knopfli, uma pequenísima editora de Coimbra traz de volta do exílio e da morte um poeta desta língua que Moçambique não quis e Portugal não soube merecer



Habitante das escassas memórias ou testemunhos daqueles que com ele conviveram, do retrato tremido que nos chega de Rui Knopfli percebe-se essa “figura prematuramente frágil”, onde a ira se apaziguou  pelo desgaste. É difícil dizer exactamente onde, mas o mesmo banco de pedra que um dia ergueu nos versos, ainda lá está, sujeito à vaga inclinação das lembranças. E nele o poeta, “pendurado num eterno cigarro”, fazendo do castigo um gosto, ainda que lhe pese a própria voz. E se o acento lírico não cedeu  à ferrugem, em consequência da sua “linguagem castigada com desvelo de amante”, transparece dolorosamente “uma mágoa de naufrágios, e derrotas cruéis, que impõem o exílio do espaço habitado e bem amado”.

Nascido em plena savana de Moçambique, Rui Knopfli viveu a oclusão do período colonial, e acabaria “colhido na engrenagem da contradição histórica”, mesmo se assumiu desde sempre uma postura muito crítica face aos desmandos da administração colonial. Nada disso impediu que viesse a sentir-se escorraçado do seu país – já em 1959, o seu primeiro livro, “O País dos Outros”, recortava esse sentimento –, em 1975: “Quando a FRELIMO tomou conta do poder, o inimigo era o português, estou convencido disso. Claro que havia um certo racismo, aliás compreensível mas, mesmo aí, os brancos eram identificados com os portugueses”, disse o poeta numa entrevista à revista “Ler”, um ano antes de morrer.

Knopfli perfila-se assim na galeria dos poetas que nenhum território sente a obrigação ou o orgulho de reivindicar. Mas essa é uma desafeição sentida de parte a parte, uma vez que ele próprio nunca sentiu grandemente o apelo de uma pátria. “Eu nunca reivindiquei a nacionalidade moçambicana, só reivindiquei um facto, que ainda hoje reivindico, de ser africano”, registou num testemunho no volume “Vozes Moçambicanas”, organizado por Patrick Chabal (Vega, 1994). De resto, e em linha com o que Pessoa viera afirmar, num dos seus versos também foi avisando: “pátria é só a língua em que me digo”.

Este poeta cuja apresentação a Portugal só veio tardiamente – sendo que, depois da independência das colónias, culturalmente o país não soube evitar uns amuos de dondoca ofendida, rejeitando até o que ainda era seu, ou lhe dizia respeito –, teve de admirar-se muito, em 1982, quando a Imprensa Nacional-Casa da Moeda (INCM) recolheu a sua obra em “Memória Consentida”. Este foi um dos mais primorosos volumes de poesia portuguesa da segunda metade do século XX, e o poeta veria distinguido com o prémio de Poesia Pen Clube, “O Corpo de Atenas”, em 1984. Antes, portanto, de esta instituição ser tomada por uma pandilha que não faz outra coisa senão utilizá-la para insinuar-se lá fora, indo os próprios em viagem a tudo o que é festival para fazer o país representado pelos seus versinhos, que nem para lixo dos que cá dentro vão dando continuidade ao diálogo milenário desta língua.

Além do eco que sempre recobra forças nesta obra, tão prenhe das vozes que, solitária e arrastadamente se respondem entre épocas e neste balanço do fulgor à ruína, enquanto perseguem o alvo em movimento que as “coloca no trilho seguro e exigente da autodescoberta”, Knopfli ganhou com aquela edição um estudo que, sendo breve, é um dos grandes actos de justiça feito por um poeta tão desirmanado na experiência e cultura de uma época, na difusa rede da sensibilidade e consciência que uma língua tece.

Luís de Sousa Rebelo, ensaísta que dirigiu uma cátedra no King’s College – tendo ali trabalhado ao longo de quase quatro décadas, antes de vir morrer, em 2010, a este cemitério de elefantes em que Lisboa se tornou, pela ignorância em relação às figuras que podiam ter coroado uma elite por haver –, assina um prefácio que só precisa de ser lido para deixar-nos absolutamente convencidos da tão peculiar grandeza de Knopfli: “O seu lirismo antilírico, a sua ironia comovida, o seu sarcasmo – bem menos iconoclasta do que, à primeira vista, poderá parecer – aparentam-no, umas vezes, com João Cabral de Melo Neto ou Carlos Drummond de Andrade. Outras vezes, no apuro torturado da forma, Knopfli lembra essoutro maneirista, Gerard Manley Hopkins (1844-1889), o que o não faz menos poeta do seu tempo do que este o foi do dele, e é e continuará ainda a ser do nosso. A poesia de Rui Knopfli é uma poesia dramática, de alusão maliciosa e de ritmos subtis, sinuosa e sedutora na sondagem dos fundões da psique, e deve ser lida sem prevenções de leituras anteriores (...)”.

Agora, 35 anos após aquela edição, coube a uma editora de Coimbra – um desses tão discretos como decentes projectos que, fora de Lisboa, têm sido o sal da terra depois dos consórcios editoriais terem varrido a autonomia e diversidadas espécies no campo das letras – fazer-nos recordar Rui Knopfli, trazê-lo de volta e ao seu ofício de mil cerimónias com a linguagem e nenhumas com a vida: “eu trabalho, dura e dificilmente,/ a madeira rija dos meus versos,/ sílaba a sílaba, palavra a palavra”.

Do lado esquerdo, a editora de Maria Sousa e Nuno Abrantes, publicou já uma série de originais de poetas portugueses, e, ao mesmo tempo, levaa a língua muito além do bilhar grande, com traduções de autores de outras línguas – Pablo García Casado, Hal Sirowitz, Jesús Jiménez Domínguez entre outros – que, sem dificuldades, chegam à nossa e envergonham as associações de bairro e os clubes recreativos em que se divide hoje o mapa da nossa poesia, mostrando-lhes que para “melhores do mundo” ainda lhes falta terem mundo. Ainda assim, tem sido votada ao geral desinteresse (no que também nos penitenciamos) e ao silêncio a que se condena tudo o que se faz do outro lado da cerca, numa estratégia que, ao invés de procurar alargar a caderneta cultural e incitar as trocas, se vale do sufoco para fazer passar por ícones aqueles cromos mais repetidos. A este respeito, será curioso comparar as atenções que serão dadas a uma antologia de Knopfli que, logo depois desta, começou a ser elaborada para sair na colecção de poesia dirigida por Pedro Mexia para a Tinta-da-China.

“Uso Particular” é uma selecção pessoal dos editores da do lado esquerdo que, feita a partir da edição da INCM, e que, sem se ater muito a critérios de representatividade, é extensa o bastante para nos dar uma visão da globalidade da obra poética de Knopfli. A pecha da edição é o seu lado material, o objecto. Os livros desta editora denunciam excessivamente a sua modesta condição, e é a própria imagem da capa – uma fotografia de João Francisco Vilhena que, reproduzida em melhores condições, revela uma poderosíssima carga evocativa, mostrando “as mãos aracnídeas” do poeta segurando um caderno manuscrito – que vê esbaterem-se excelentes intenções. A fazer as vezes de prefácio, o depoimento de António Cabrita não chega de apresentação para quem não conheça já Knopfli, mas dá um lamiré que cumpre a função, se a ideia era somente lançar umas coordenadas e abrir o apetite.

Quanto ao resto, e superando os aspectos gráficos, a selecção revela uma pontaria danada, dá a sensação de que não lhe escapou nenhum dos poemas que figurariam na nossa lista, fazendo um rapto feroz de uma obra que, já de si, soube esperar e esperar pelos versos, e, por isso, não fez lixo. (“Como fazer versos?/ Sentar/ numa cadeira à secretária,/ papel à frente, caneta em punho./ Esperar. Esperar em vão. Esperar./ Esperar mais ainda. Esperar sempre./ Se é fumador, fumar então/ antes, depois ou no decurso./ Se não, continuar a esperar./ Se ao fim de um certo tempo/ o dito tempo exceder o tempo/ que se achou ser justo esperar,/ desistir.”) 

“Poeta êxul em terras africanas, onde bebe os ares da cultura europeia e sonha esse Norte longínquo, enquanto escreve uma poesia sem os exotismos gratos ao gosto do leitor metropolitano, ele começa um novo exílio no dia em que vagueia pelas ruas das grandes cidades cosmopolitas, ao ar frio desse abril em que se ‘engendram flores’”, refere Sousa Rebelo no prefácio de “Memória Consentida”. Esta poesia, que se demarcou dos “discursos poéticos vigentes na língua portuguesa”, não estava por outro lado alheada dos sinais de fumo que eram trocados, não entre grupos e grandes movimentações, mas entre os que desenham as fugas ao pelotão, e encontrou, assim, na tradição anglo-americana e, particularmente, na poesia e nos ensaios de T.S.Eliot, um correlegionário tão mais instigante quanto radical face aos entusiasmos que Lisboa, então, ainda ia decalcando de Paris. Note-se que, se pôde falar-se de um certo ânimo cosmopolita gozado em Lourenço Marques, isto deveu-se à proximidade das colónias anglófonas, e em especial da África do Sul.

Hoje, é natural que Rui Knopfli surja como um poeta tão original no quadro da poesia portuguesa, pelo modo como a sua poesia não ficou à espera que certas noções que capturaram e deram caminho à sua intuição se tornassem assunto nos cafés onde a tristeza provinciana portuguesa ia pôr-se em dia. Se a “vaga e subliminal resistência” à sua obra nunca foi inteiramente vencida, pode ser este um momento propício, não só pela dispersão de influências que têm alargado o horizonte dos novos poetas portugueses (que como se sabe estão em maior número entre os leitores de poesia), como pelo afrouxamento da guarda pretoriana que, até há uns anos, dominava a crítica. Esta, além de recomendar a dieta literária, obrigava os poetas que quisessem o nome no jornal a formar na linha, batendo a continência, ou beijando a mão, o pé, quando não outras coisas. Ninguém fala disso, mas muitos ouviram as histórias de um distinguido crítico e professor universitário que, aqui há não muitos anos, não poucas vezes prometia fazer deste ou daquele efebo o Rimbaud da sua geração se... pois. 

Na sua “subjectividade lúcida e autovigiada”, Knopfli não foi só um poeta desinteressado das questiúnculas que fazem a intriga nas pequenas messes da literatice. Os que com ele conviveram recordam que aparecia sempre com um livro novo, algum autor recém-descoberto, era também um magnífico fotógrafo, um apaixonado do jazz, e o seu empolgamento era infeccioso, de tal modo que Eugénio Lisboa, o seu grande cúmplice na dinamização da cultura de Lourenço Marques, reconhece o quanto ele e outros lhe ficaram a dever essa e outras iniciações.

No capítulo das lembranças, onde hoje podemos recolher as impressões necessárias para pôr a carne sobre os ossos que os versos nos dão, vale a pena abrir aqui espaço ao retrato que Eugénio Lisboa deixa de Knopfli no terceiro volume das suas Memórias, “Act Est Fabula” (Opera Omnia, 2013), referentes ao período entre 1955 e 1976. “Foi nessa altura que afinei contactos com os amigos do ‘Kremlin’ (‘Café Nicola’). Um deles, foi o Rui Knopfli, que aparecia com ar de pássaro predador, boné nada proletário e palavra afiada e maldosa. Adorava dizer coisas que ofendiam a ortodoxia do ‘Kremlin’, mas tudo lhe era perdoado. Gostava de praticar um humor ultrajante, com uma espécie de grosseria de grand seigneur. Se alguém elogiava muito as qualidades de carácter e de trabalho de um bomzo qualquer, o Knopfli interrompia, brutal: ‘Toma pouco banho!’ Se alguém embasbacava, liricamente, para os filmes de Chaplin, o Knopfli cortava, rente: ‘Prefiro, de longe, o Bucha e Estica.’ Adorava ferroar os neo-realistas, sobretudo em dias de missa de esquerda bem pensante. O cúmulo do gozo era, para si, destoar.”

Vale a pena, ainda, citar mais uma passagem, em que um desses episódios servem de testemunho simples e onde o fantasma mostra a raça que o faz perambular distintamente daqueles que se esbatem no fundo das memórias que se compõem sem esforço: “Para os esquerdistas burros, e bem-intencionados, o Knopfli afectava uma indomável intolerância. Um dia, estávamos sentados no Nicola, em conversa desataviada, aparece, pesadote e opaco, o notário Camilo Sequeira. Era um oposicionista inofensivo, e quase inocente, e um implacável purista da língua. Chato como a potassa. O Knopfli não tinha paciência. Quando o Camilo fez menção de se sentar, junto a nós, o Rui avisou: ‘Ó Camilo, se V. se senta, vou-me eu embora...’ O Camilo sorriu, com ternura: ‘Este Rui é um brincalhão...’ Sentou-se e o Knopfli levantou-se, de rompante, e, muito sério: ‘Eu avisei. Adeus, meus senhores!’ E largou a grande velocidade, desaparecendo porta fora.”

Também na sua poesia Sousa Rebelo sinaliza “uma estratégia da desfiguração do discurso instituído”, e é fácil dar com o homem nas coisas que diz de si, nos lugares a que ainda regressa, onde ainda encontra os outros e convive com a mesma impaciência, um desejo de que a vida furasse o tédio, mesmo com o risco de cair tantas vezes do lado da amargura, da fatal tristeza que, mesmo se não tem razão, aparece como esses “restos de inverno mordendo o ar primaveril”. 

Eis um “Fim de tarde no cáfe: Na tarde cor de azebre/ falávamos de coisas amargas./ Ali, na mesa triste do café/ com moscas adejando/ sobre restos de açúcar/ e um copo de água/ morna de esquecida,/ falávamos da amargura das coisas,/ entre rostos graníticos e enxovalhados,/ entre estranhos e estranhos/ de estranhos e com os que,/ nada tendo de estranhos,/ cuidam de cuidar/ o que se passa entre estranhos./ Na tarde comprida e silenciosa/ tecíamos gestos inúteis/ e palavras entre dentes,/ mergulhados na paisagem geométrica/ do café. Do café tão cheio de gente/ e fumo e moscas e caras tristes/ e afinal tão profundamente,/ tão desesperadamente     vazio.”

Esta é uma poesia que não tem da vida uma grande opinião, o que lhe dá para servir a angústia na pele de poderosos exercícios de sarcasmo, aliviado pela ironia. Knopfli, como recordou o diplomata Francisco Seixas da Costa, que com ele se cruzou, em 1990, quando o poeta cumpria os anos do exílio “eternizado em posto em Londres”, recorda um tipo que, aos 58 anos, estava no fio: “Vergado e cansado, pendurado num eterno cigarro, tinha o mais caótico gabinete de que tenho memória. Homem de vícios que o foram debilitando, mantinha uma ironia cáustica e, sendo de trato fácil, era de condução diária difícil, pelos corredores da rotina diplomática a que nunca se acomodara verdadeiramente.”

De resto, essa fraca opinião que a vida lhe merecia já antes levara o poeta a declarar que padecia de uma certa “Mania do Suicídio: Às vezes tenho desejos/ de me aproximar serenamente/ da linha dos eléctricos/ e me estender sobre o asfalto/ com a garganta pousada no carril polido./ Estamos cansados/ e inquietam-nos trinta e um/problemas desencontrados./ Não tenho coragem de pedir emprestados/ os duzentos escudos/ e suportar o peso de todas as outras cangas./ Também não quero morrer/ definitivamente./ Só queria estar morto até que isto tudo/ passasse./ Morrer periodicamente./ Acabarei por pedir os duzentos escudos/ e suportar todas as cangas./ De resto, na minha terra/ não há eléctricos.”

“Uso Particular” é uma excelente senha para que nos tentemos sentar àquela mesa, incorrendo no risco de o poeta se levantar e desaparecer ou, inversamente, de ficar ali, e se dar a entender. E é aqui que a poesia de Knopfli tem algo mais para nos oferecer do que as energias do sublime a lançar os dardos, a tentar prender alguma borboleta a qualquer que seja o alvo. Há uma respiração que consome o ar inteiro, um não ter lugar nenhum onde ir, nenhuma outra pá para escavar uma saída do exausto quotidiano senão o convívio. Essas palavras trocadas sobre uma mesa, e que têm uma experiência e um peso, o de um poeta que disse que todos os seus poemas eram, afinal, poemas de amor. As suas palavras não são ditas por acaso, existem dentro de um pacto e, como notou Sousa Rebelo, “dessa cinza diluída, vão emergir com geométrica nitidez os traços de um rosto, de uma mão ou de um ombro”. E mais à frente, sublinha como estes poemas se organizam “numa recuperação de cariz alquímico, que restitui o gesto ao acto, o movimento à forma e o amor à vida”."
in: jornal i
Publicada por LuísM Castanheira à(s) 15:42 3 comentários:
Enviar a mensagem por emailDê a sua opinião!Partilhar no XPartilhar no FacebookPartilhar no Pinterest

domingo, 23 de julho de 2017

A Voz da Dor





"O silêncio do fogo na voz da dor...

Carta de uma mãe que perdeu o filho em Pedrógão Grande.
23 de Julho de 2017, 7:25
Partilhar notícia
  • Partilhar no Facebook
  • Partilhar no Twitter
  • Partilhar no WhatsApp

Daniel Rocha
Foto
DANIEL ROCHA











Estamos tão cansados, mas não podemos estar. Os mortos não se calam e não nos deixam cansar. Gritam por Justiça! Exigem Mudança!
A Associação das Vítimas do Incêndio de Pedrógão Grande, o grande, brutal e devastador incêndio que lavrou do dia 17 a 24 de Junho de 2017, nos concelhos de Pedrógão Grande, Figueiró dos Vinhos e Castanheira de Pêra, é um movimento cívico que partiu dos familiares e amigos das vítimas mortais desta tragédia. Uma associação cujo mote é apurar responsabilidades e ajudar a construir um futuro em que tal tragédia e crueldade não volte a acontecer!
Esta é a descrição do que pretendemos ser, com a ajuda de todos e a lembrança de todos aqueles que partiram. Porque hoje somos uma comunidade traumatizada. Uma comunidade sujeita a uma tal brutalidade que não se nos apaga da memória... O cheiro a terra ardida é algo que nos envolve, que nos macilenta e que se entranhou em cada um de nós.
A perda de dezenas de vidas e de forma tão trágica que roça a loucura deixou uma sociedade e todo o seu contexto à volta num luto imposto. A vida acabou ali, naquela estrada para muitas pessoas. Inocentes. E acabou também parte de uma vida para os que ficaram. Os que ficámos, ficámos mais pobres, mais sós, apenas com o alento das memórias, mas com a revolta de toda esta situação. São filhos sem pais. São pais sem filhos... são casas sem gente, é gente sem gente, não é natural!
Olho à volta e as pessoas não se riem, choram sozinhas, acanhadas, não se olham nos olhos, com vergonha pela sua impotência, com medo; o cenário é deprimente e não nos ajuda a superar com dignidade a tragédia. O Inverno não tarda e com ele as ruas despidas de vida. Despidas de ainda mais vida.
Há rancor, ressentimento com o território e com as entidades públicas. O Estado falhou. A Nação não existiu.
Mas não falhou apenas nesta tragédia. O Estado vem falhando ao longo de décadas. O Estado padece de uma cegueira crónica, está enfermo de um tal sentimento de negação de si próprio. Nega o seu estado de país rural, um país orgulhosamente rural e por isso mesmo rico.
Enquanto Estado é um conceito frio, masculinizado, distante, de um ente que impõe tributos e leis aos seus súbditos, um amontoado de entidades supostamente hierarquizadas, com dirigentes supostamente competentes, e que supostamente deveriam cumprir e fazer cumprir um conjunto de leis e regras que se vão aprovando (ou não!) conforme as vontades políticas da estação. Assim se vai governando Portugal. Sem pactos de regime e visão a longo prazo. Vão-se puxando o tapete uns aos outros, não se apercebendo que, por fim, só restam cacos, dor e tristeza para governar.
Nação, por sua vez, é um conceito acolhedor, integrador, feminino, belo, quase maternal, que agrega o seu Povo e o seu Território. É o que dá sentido à reunião das pessoas num determinado território a que chamamos “a nossa terrinha”, “o nosso cantinho a beira-mar plantado”, a proa desta “jangada de pedra”. Portugal.
O Estado falhou nesta tragédia levando consigo o sentimento de pertença de Nação que tínhamos. O Estado não protegeu a sua Nação. Não assegurou o seu Território e com ele o seu Povo...
Fomos vítimas desta ausência insuportável de Estado. Ontem e hoje. Mas não amanhã. Porque já chega de incêndios que ceifam vidas. Incêndios como os de 2003, 2005 e Junho de 2017, e que contabilizam, até a data, 100 vítimas mortais em solo português, não podem voltar a acontecer. É hora de todos dizermos “Basta!”. Este Estado que não quer ver secou uma parte importante da sua Nação, aquela que moveu este país por séculos, o Interior.
A primeira muralha e frente de defesa do País no passado contra as invasões estrangeiras, o celeiro do País em tempo de vacas magras, o emissor de soldados nas guerras ultramarinas, o mercado de mão-de-obra barata em tempos de construção europeia... Quando o Interior e os seus recursos já não eram precisos, substituídos pela oferta de bens e serviços mais baratos, o Povo e o Território do Interior foram abandonados À sua sorte. Emigrem! E assim o fizeram, abandonados à sua sorte.
Não houve solidariedade em tempos de vacas gordas, não houve estratégia para o Território quando os dinheiros dos Fundos Estruturais Europeus chegavam a rodos. Foram anos de esquecimento, de esvaziamento progressivo e consistente das instituições regionais e locais, depois seguiram-se as empresas e, por fim, as pessoas. Sobreviver é preciso.
Foram sucessivas décadas de descaso com o Interior, de negligência com o Território, com a Floresta e a Agricultura. Tendo como consequência a emigração das pessoas em idade ativa, restando uma população envelhecida e empobrecida a exigir cuidados redobrados do pouco Estado que restou e que nos foi esventrado e sobretudo das autarquias locais e misericórdias.
Parecia propositado... o Interior tornou-se terra de ninguém, envergonhado de o ser, abandonado e, assim, por fim, vergado.
Deveríamos dar graças por nos termos tornado a maior região eucaliptizada da Europa... Fomos “agraciados” pela falta de oportunidade! O Território estava a saldos e ninguém quis saber.
O Interior tornou-se um canteiro de ervas daninhas, sem jardineiros — as suas gentes. Um barril de pólvora em que se soma a indústria do fogo institucionalizada e um qualquer ano eleitoral. Os ingredientes ideais para a tempestade perfeita.
A tragédia de 17 a 24 de junho de 2017 estava mais que anunciada. Foi apenas uma questão de tempo... e o tempo não pára! E com ele foram muitas vidas abreviadas. Cedo demais... Cedo demais!
Por ti, meu filho...
Nádia Piazza, mãe de uma criança de cinco anos que morreu a 17 de Junho de 2017 em Pedrógão Grande"

Publicada por LuísM Castanheira à(s) 13:57 1 comentário:
Enviar a mensagem por emailDê a sua opinião!Partilhar no XPartilhar no FacebookPartilhar no Pinterest

quinta-feira, 22 de junho de 2017

crónica_dos olhos que o Fogo viram...


"
Não disse à minha mãe que estou sempre quase a chorar

Quando domingo de manhã muito cedo vim do Porto para Pedrógão Grande, não avisei a minha mãe, nem o meu pai, não lhes disse que vim a voar. Fiquei, claro, com remorsos, mas só ontem lhe liguei, a meio da manhã, assim que acordei. Quando ela atendeu, e atendeu logo, quase sem deixar tocar, em vez de me chamar como me chama sempre, num querido diminutivo, ela só disse, e imediatamente, numa voz que vi logo que já lhe vinha a fugir, "ó meu filho, ó...", e eu engasguei--me logo, não consegui dizer nada, estava despregado a chorar. Mas chorei como se me mordesse, chorei para dentro, sem a deixar ver, esganado, até ouvi os meus dentes apertados a ranger.

Mas ela já sabia, conhece-me há 48 anos, sabia que eu tinha que vir, e já me tinha lido, a mim e à Helena, os nossos textos vinham ontem no JN a abrir - "sim, mãe, ela está bem, mãe, não, mãe, ela não veio, ela está aí, está tudo bem, mãe, a sério, a sério que está tudo bem, mãe, então".

Mas ela sabe: aqui não há nada que esteja bem, aqui passou o tornado do diabo, uns viram um tornado, outros viram um tufão, há até quem fale, são os antigos, na mão vermelha do diabo, uma mão direita e desnatural que chegou, apontou e depois ceifou, aleatória, descomunal.

Nunca ando sozinho, mãe, não te preocupes, disse eu ao telefone, ando com o Rui, é o Rui Oliveira, ele faz as fotos, tu já as viste, mãe, o nome dele aparece pequenino (mas as fotos dele são grandes, não são?), ele é do Porto, ele orienta-se tão bem (eu não, tu sabes, tenho outras coisas mas não tenho orientação), ele leva-nos sempre aonde precisamos de chegar, ele conduz bem, com ele estou seguro, mãe, sim, tomamos conta um do outro, tem que ser assim.

Mas estão cá mais colegas, mãe, ontem chegou a Sara e a Filomena e o Carlos e o Artur, e já cá estiveram a Joana, a Carla, a Carla é tão boa, mãe, que jornalista, e ainda o André, eles se calhar ainda vão voltar, tem que ser, ainda há aqui tanto que fazer, talvez quarta ou então quinta, devo voltar na quinta, não sei ainda, ninguém sabe lá no jornal, tu sabes que temos que estar aqui.

O telefonema foi curtinho, isso é anormal, muitas vezes falamos meias horas, é sempre à noite, quando eu chego tarde para jantar, quando chego cedo ela espanta--se, mas ontem não, não conseguia, não lhe disse mais nada, não lhe disse, claro que não, que ando aqui sempre quase a chorar, mas não é por mim, mãe, eu estou bem, é por eles, mãe, ninguém merece morrer assim, mãe, tantas pessoas que morreram a arder."

José Miguel Gaspar
20 Junho 2017 às 13:39
in: Jornal de Notícias
Publicada por LuísM Castanheira à(s) 17:31 1 comentário:
Enviar a mensagem por emailDê a sua opinião!Partilhar no XPartilhar no FacebookPartilhar no Pinterest

terça-feira, 13 de junho de 2017

homenagem_rui pato/adriano correia de oliveira


em sete anos
sete discos
e 41 temas
Rui Pato 
acompanhou
à viola
Adriano Correia de Oliveira.

oiça os EP,s e LP,s

Publicada por LuísM Castanheira à(s) 21:04 1 comentário:
Enviar a mensagem por emailDê a sua opinião!Partilhar no XPartilhar no FacebookPartilhar no Pinterest
Etiquetas: Música

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Armando Silva Carvalho

Armando Silva Carvalho (1938-2017). O homem que sabia a mar

O poeta Armando Silva Carvalho morreu ontem aos 79 anos. É lembrado neste testemunho pelo amigo de longa data, José Manuel de Vasconcelos, conhecedor profunda da sua obra marcada por uma rejeição constante do supérfluo, das modas e bordados poéticos.
  
  •  
    Falar do Armando Silva Carvalho é inevitavelmente recordar grande parte da minha própria vida nestes últimos trinta e cinco anos, da qual ele, de maneiras várias, esteve sempre próximo. Lembrá-lo neste dia da sua morte física é convocar interiormente alguns amigos mais chegados, situações diversas, viagens, livros, escritores, e sempre esse imenso mar de Peniche, de um esplendor inquieto como ele próprio, que era a sua principal paisagem física e mental, junto do qual tantas vezes demos os nossos passeios e desenrolámos conversas nunca terminadas sobre as malformações do reino lusitano, a exiguidade de algumas das suas personagens e os travos agridoces da criação literária.
    e desenrolámos conversas nunca terminadas sobre as malformações do reino lusitano, a exiguidade de algumas das suas personagens e os travos agridoces da criação literária.
    Tal como Cesário Verde, uma das suas primeiras referências, andou durante muito tempo a medir as distâncias poéticas entre a cidade e o campo, quando trocou a sua região natal e o aperto de uma infância e adolescência mal suportadas, pela capital, sombria e, à sua maneira, também provinciana, na qual estudou direito, bastante a contragosto, fez jornalismo e trabalhou em publicidade como forma de ganha-pão.
    Olho Marinho, a aldeia onde nasceu,  em 1938, tem um nome curioso se pensarmos que a sua poesia é um permanente exercício do olhar, do olhar crítico, de ironia amarga, ressentida, por vezes provocatória, e que, por outro lado, o mar está presente desde cedo no que escreveu (poesia e prosa) e foi à sombra dele que viveu os seus últimos anos, virando costas às burguesices lisboetas, que cada vez mais deplorava, e regressando aos seus cenários de origem, apenas lamentando a distância a que deixou alguns amigos que muito estimava.
    No mar via sobretudo a vastidão e a força incontida, algo que se identificava com a própria “vulcanologia” poética, lamentando certa escrita enxugada de alguns confrades, alimento comum de um povo que “não soube ler na sua própria língua”. O sentimento ressentido ou o ressentimento sentido deste poeta que se qualificou sempre de acidental é uma tonalidade afectiva que acompanha toda a sua obra, sempre firmemente refractária a enxúndias poéticas e à goma elástica de certos versos que por vezes nos assolam. O mar de que falava adquiriu com o tempo uma dimensão metafísica, mesmo religiosa, sugerindo o poderoso ilimitado que nos transcende. A poesia de Armando Silva Carvalho foi sempre uma rejeição do supérfluo, das modas e bordados poéticos com seus rendilhados enfunados e pletóricos. Já em jovem escrevia: “Deitado no meu corpo/disfarço o mais que posso/o artifício que encanta”, dando-nos um vislumbre da importância que as coisas em geral têm na nossa vida, particularmente a coisa-corpo que nos arrasta pelo mundo, mesmo o mais espiritual, gerando por vezes “funestas alquimias” que nos são decisivas.
    Nesse tempo de florescência incontida, cultivava já a magreza das palavras, à sombra em parte da poesia 61 e dos poetas seus amigos que as exercitavam na corda bamba da expressão essencial, e sobretudo de João Cabral de Melo Neto, outra grande referência, poeta da secura e da dureza. Mais tarde, os seus versos ganharam amplitude horizontal, tornaram-se mais extensos, encheram-se de gritos surdos, alguns com a densidade das preces. Nos poemas escritos nos últimos anos da sua vida, quase confundia o mar da poesia, com a sombra do outro mar, o que lhe enegrecia os dias e o deixava face ao inelutável “peso das fronteiras”, sugestivo título de um dos seus primeiros livros.
    Se é verdade que ao longo de uma obra extensa como a sua, podemos encontrar momentos de diferenciação, de alguma clivagem, em livros como “Alexandre Bissexto” e, sobretudo, em “Canis Dei”, acentuando preocupações que, à falta de melhor, podemos classificar como espirituais, a poesia de Armando Silva Carvalho manteve sempre o registo da distanciação eloquente, traduzida por uma acidez enegrecida e densa, por vezes violenta, que frequentemente se transforma em auto-ironia, sem qualquer comiseração.
    Os seus últimos poemas falam sobretudo da consciência dorida da inevitabilidade do envelhecimento: “A verdade é só uma, o que foste ontem/já não te conhece (…) A idade abafou todo o prodígio,/ palmo a palmo, vou medindo o esplendor em dissolução. Palavra por palavra”. Há também aqui algo de premonitório, como se alguns poemas deste livro fossem o primeiro encontro com um tempo final que já começava a ser nítido, espécie de compte rendu antecipado do que sabia inevitavelmente viria a acontecer.
    A velhice e a decadência física que geralmente a acompanha não tem sido tema de eleição da poesia portuguesa, apesar de algumas obras fundamentais que dele tratam, como “Limite de Idade” de Vitorino Nemésio e “Terceira Idade” de Mário Dionísio. “A Sombra do Mar”, seu último livro publicado, é um notável exercício do direito de cada um contemplar o seu próprio fim. O seu tom não é desvalorizador, como no poeta açoreano, jocoso e auto-irónico, nem tem a ponderação discursiva do autor de “Solicitações e Emboscadas”. Aqui o sentimento é o de uma angústia de idades sobrepostas, de aceitação estóica, de uma corajosa mas lamentativa confrontação, sabendo-se que a sombra vai progredir sempre do mesmo modo, tal como o rugido permanente e inevitável do mar que se contempla em recolhimento, com essa espécie de ataraxia que o olhar provoca em resultado do sentimento de identificação.
    O mar deste último livro, que cintila nos textos as suas diversas acepções e que é sempre metáfora do que é essencial para o homem (o amor, a morte, o tempo, o júbilo, o sonho, Deus), é também o mar concreto de uma longa vivência nas suas margens. O poeta do mar de Peniche escrevia muitas vezes os seus poemas junto às escarpas, dentro do seu carro, não já o nervoso e impulsivo “amante japonês” de outros tempos, mas o abrigo mais caseiro de um tempo contemplativo e de grandes (e pequenos) balanços, já longe, felizmente, desse outro mar que foi horizonte da fortaleza, paisagem de cativeiro árduo e persistente, que lemos em “Os Ovos de Oiro”, “onde os peixes de atiram/ contra os barcos/ e as grutas dos rochedos/ nada acoitam.”
    Sempre o mar, de forma mais intensa e directa ou apenas discretamente, assombrou o imaginário de Armando Silva Carvalho. A sua voz persistiu, fez-se ouvir, clamando das profundezas, a invadir um quotidiano discreto, de hábitos trémulos, fragilizados por uma aprendizagem do nada ou do muito pouco, próximo da secura monástica. Os últimos tempos foram de solidão negociada com a morte, ouvia dela a voz monocórdica, por vezes exaltada, mas sempre intempestiva, como a dos loucos. 
    in: jornal 'SOL', 2.jun.2017


    Publicada por LuísM Castanheira à(s) 19:29 2 comentários:
    Enviar a mensagem por emailDê a sua opinião!Partilhar no XPartilhar no FacebookPartilhar no Pinterest

    domingo, 21 de maio de 2017

    BB_crónica


    Armando Baptista-Bastos
    Nascimento 27 de fevereiro de 1933
    Lisboa, Portugal
    Morte 9 de maio de 2017 (84 anos)
    Lisboa, Portugal

    BAPTISTA-BASTOS

    "Dizer de mim
    A minha vida não serve de exemplo para ninguém, a não ser para mim próprio.

    Por Baptista-Bastos|00:30

    Um homem é o que para os outros foi ou é, e, também, aquilo que o não deixaram ser. A minha vida permitiu-me acumular experiências, e tive a sorte de trabalhar, em dois diários, com grandes, extraordinários, profissionais. Os jornais, esses, acabaram e de forma triste e desamparada. Aos jornalistas, a esses, recordo-os sempre com estima e afeição. Sou um produto deles, e eles sempre olharam por mim com o cuidado suscitado pela amizade. Não exagero: o pulsar do meu coração não falha, quando leio ou assisto, pelas televisões, nos jornais, a reportagens que marcam o sobressalto daquilo que sinto. Esses sentimentos prolongo-os até hoje, numa memória constante que, amiúde, se confunde com o meu próprio destino.

    Às vezes, apetece-me dizer estas coisas. Inspirações momentâneas, surgidas do que observo ou leio. Mas também desejo encorajar todos aqueles que, nos jornais ou nas televisões, têm sentido a frustração dos dias, a estranha paragem do tempo, a dor secreta da velhice. Nunca me queixei, nunca levei para casa a dor profunda e secreta do que me faziam. Fui fazendo. Algumas vezes disfarçando, nas frases, o sofrimento que ocultava com um riso só feliz na aparência. Tenho andado a remoer e a mastigar, com o esquecimento forçado e o sorriso aberto, as dores com as quais fui envelhecendo.

    Tenho a cabeça e os sentimentos que nela se ocultam, sem se apagar, numerosos factos e histórias, afinal comuns a quem fez da vida um caudal de palavras e de frases. O culpado sou só eu. Mas só escrevo aquelas que não podem magoar ninguém. Sei que se chama a isto ter carácter. Salvei- -me do recurso à canalhice, e tudo concorria para que assim não fosse. A minha vida não serve de exemplo para ninguém, a não ser para mim próprio, e só a escrevo em minúsculos episódios, como este, agora, e devo-o não só a mim, mas, sobretudo, àqueles que de mim gostam. Até já."

    in: jornal "Correio da Manhã",
    8.fev.2017
    Publicada por LuísM Castanheira à(s) 18:58 1 comentário:
    Enviar a mensagem por emailDê a sua opinião!Partilhar no XPartilhar no FacebookPartilhar no Pinterest

    sábado, 6 de maio de 2017

    Carminho - Uma vida noutra vida - Live in Rudolstadt (12/15


    Um show instrumental - cordas e voz - de 
    deixar músicos alemães surpreendidos.





    Guitarrada by Luis Guerreiro (Valsa Chilena live from London

    Publicada por LuísM Castanheira à(s) 15:33 1 comentário:
    Enviar a mensagem por emailDê a sua opinião!Partilhar no XPartilhar no FacebookPartilhar no Pinterest
    Etiquetas: Música

    quinta-feira, 4 de maio de 2017

    Salvador Sobral - Amar Pelos Dois (Spain Calling International) Eurovision 2017"


    Nova Versão

    - " primeiro estranha-se, depois entranha-se" - Fernando Pessoa


     




    Salvador Sobral - Amar Pelos Dois (Duet by Glen Keane)

    Letra
    Se um dia alguém perguntar por mim
    Diz que vivi para te amar
    Antes de ti, só existi
    Cansado e sem nada para dar
    Meu bem, ouve as minhas preces
    Peço que regresses, que me voltes a querer
    Eu sei que não se ama sozinho
    Talvez devagarinho possas voltar a aprender
    Meu bem, ouve as minhas preces
    Peço que regresses, que me voltes a querer
    Eu sei que não se ama sozinho
    Talvez devagarinho possas voltar a aprender
    Se o teu coração não quiser ceder
    Não sentir paixão, não quiser sofrer
    Sem fazer planos do que virá depois
    O meu coração pode amar pelos dois.
    ...........


    Opinião

    Com esta versão tenho de me render à qualidade do poema e, em especial, da interpretação.
    Um grande cantor que faz da voz o que quer.
    É de um entrega fabulosa e espero que seja esta a versão a apresentar na Ukrania, que cante como aqui, e com um pianista bom.
    E...que ganhe, porra!


    Actualização: 9.mai.2017

    (e... já estamos na Final, entre 17 em inglês e esta única em português).

    LuísM
    .............,...........

    Actualização: 11.mai.2017


    Público

    MIGUEL ESTEVES CARDOSO
    CRÓNICA
    O Salvador Sobral


    7 de Março de 2017, 7:27

    Não é de agora a alegria que tenho de ouvir a música de Salvador Sobral. Mas chegou a altura de partilhar esse prazer e esperar que ele atinja o público internacional que merece.


    A voz dele é límpida e aérea. Tem uma musicalidade irrequieta que se atreve a cantar por cima do canto. Canta como se toda a música dependesse dele. Cada canção é um tudo ou nada.

    Convalescente e sem auscultadores depois de ter ganho o Festival da Canção comAmar pelos dois, uma canção bonita e subtil de Luísa Sobral (de quem é irmão), Salvador Sobral recusou-se a jogar pelo seguro e arriscou tudo mais uma vez, entregando a voz ao momento e ao público. O resultado, cantado com a irmã, sem artifícios ou automatismos, foi comovente de tão bem conseguido.

    Os grandes intérpretes conseguem partilhar as emoções e, quando não as sentem, inventam-nas de maneira convincente. É ao partilhá-las através da empatia fascinada do público que começam deveras a senti-las e a torná-las cada vez mais íntimas.


    Salvador Sobral é esse artista desde que o ouvi cantar pela primeira vez. Fez-me logo lembrar, pela sensibilidade e pela abertura musical, o jovem Frank Sinatra quando tinha a mesma idade.

    Não é preciso acesso às gravações: basta vê-lo no YouTube em qualquer fase da carreira dele. Acompanhamo-la a apanhar as músicas e a torná-las dele e de quem as ouve. É maravilhoso ver como ele se surpreende com o próprio talento, deixando--se enlevar e levando-nos com ele.

    Viva Salvador Sobral! Que nunca mais pare quieto.

    in: jornal 'Publico"
    ...........

    Actualização: 13.mai.2017

    E pronto... GANHARMOS!!!
    e ganhou a música.
    LuísM




    Publicada por LuísM Castanheira à(s) 19:53 1 comentário:
    Enviar a mensagem por emailDê a sua opinião!Partilhar no XPartilhar no FacebookPartilhar no Pinterest
    Etiquetas: Música

    terça-feira, 25 de abril de 2017

    guerra colonial_crónica


    Crónica hoje publicada no semanário "Expresso", sobre os treze anos da guerra colonial, em três frentes e que,
    em traços de dor, nos trás os rostos sofridos de mães que perderam os seus filhos.
    Neste dia, que perfaz quarenta e três anos, após o golpe militar/revolução de abril/74, em Portugal, a memória
    é um direito.


    "Mãe, a guerra

    Abril de 1974 pôs fim a uma guerra colonial devastadora da juventude portuguesa e geradora de oceanos de dor em milhares de mães destroçadas pela morte dos filhos

    Valdemar Cruz
    VALDEMAR CRUZ
    Texto
    Lucília Monteiro
    LUCÍLIA MONTEIRO
    Fotos
    Viram-nos partir. Por entre as lágrimas roubadas a um coração despedaçado, cravaram na memória o último sorrido brotado no último instante do último adeus. E eles foram. Olhavam o longe e procuravam sentir o bafo daqueles filhos paridos com dor, com amor, com a esperança de os verem serem homens, pais capazes de lhes darem os netos ansiados.
    Viram-nos partir. Por entre a desolação do tempo consumido nas sombras de dias intermináveis, esperavam notícias. Às vezes apenas uma ou duas frases. “Mãe, está tudo bem.” “Mãe, hoje vou sair para uma missão.” E, afinal, nada estava bem. E, afinal, uma bomba, uma mina perdida, uma bala desgarrada cobravam-lhes o mundo. Cobravam-lhes a vida.
    Longe, as mães, esperavam. Às vezes chegavam cartas. Muitas não sabiam lê-las. Esperavam pela noite. Aguardavam a chegada de uma vizinha, de um outro filho. Só então, naquele matraquear de palavras construídas a partir da escrita vinda de um além indefinido, percebiam a dimensão da tragédia.
    LUCILIA MONTEIRO
    Viram-nos partir. Nunca os viram regressar. Nunca a dor as abandonou. Nunca aqueles corações voltaram a experimentar a paz. Nunca aqueles rostos reconstruíram a memória dos dias felizes. Nunca aquelas lágrimas deixaram de lhes escorrer pelo rosto como punhais afiados. A dor é uma peçonha agarrada ao corpo. E o corpo chora. E o corpo daquelas mulheres vagueia no presente como um fantasma ancorado na memória de um passado cruel.
    São mães cujos filhos morreram em África, numa guerra colonial prolongada para lá de toda a racionalidade. Tudo começou a ganhar uma outra dimensão quando no dia 4 de fevereiro de 1961 o MPLA - Movimento Popular de Libertação de Angola desencadeia um ataque à cadeia de Luanda. Morrem sete polícias e tudo muda. No dia 15 de março do mesmo ano, um outro passo é dado pela UPA - União das Populações de Angola. A norte, numa área que abrangia os distritos do Zaire, Uíje e Quanza-Norte, acontece um ataque tribal e daí nasce um massacre de populações brancas e trabalhadores negros originários de outras regiões.
    Foram treze anos de guerra, sistematicamente condenada pela ONU e distribuída por três frentes: Angola, Guiné (a partir de 1963) e Moçambique (a partir de 1964). O 25 de Abril de 1974 coloca um ponto final no sofrimento de uma juventude portuguesa cujo futuro aparecia sempre condicionado pelo terror da partida para África. Alguns não compareciam às inspeções, outros desertavam. Muitos deles por rejeitarem a participação num conflito que condenavam. Do qual discordavam, numa altura em que praticamente toda a Europa colonial já se desfizera dos seus impérios. A maioria, porém, integrava os contingentes gerais.
    LUCILIA MONTEIRO
    Partiam. Não sabiam se regressavam. Milhares morreram na vastidão de África. Muitos outros milhares ficaram feridos. Alguns com mazelas físicas ou psicológicas para o resto da vida. Deles se fala com frequência. E na valorização desse sofrimento é demasiadas vezes esquecido um outro sofrimento. O das mães que choram em silêncio.
    Fomos procurá-las. Encontrámos mulheres como Delta Monteiro, 90 anos, de Valpaços. De três filhos, só o mais velho foi para a guerra. Morreu no dia 25 de maio de 1973. Faltavam-lhe apenas dois meses para receber a guia de marcha e regressar ao convívio com aquela mãe que sempre viveu no campo, a vender batatas e hortaliças.
    “Quando soube que o Carlos tinha de ir para a guerra, foi como uma facada que me deram”, diz Delta. Não sabe explicar, mas um pressentimento fê-la saber que nunca mais aquele filho regressaria com vida. A memória daquela mãe destroçada ainda hoje se fixa “naqueles olhos tão lindos, castanhos, brilhantes e grandes”. Nunca mais teve direito a sentir a força daqueles braços que lhe rodeavam o corpo e a apertavam com força mas também com doçura.
    Todos as semanas, Carlos enviava um aerograma à mãe. O último foi expedido no exato dia em que morreu. Dizia apenas: “Vou ser rápido. Está a chegar a avioneta e eu não quero deixar a mãe sem notícias”. Aquela mãe jamais teria querido saber aquela notícia.
    Delta Moreira, 90 anos
    Delta Moreira, 90 anos
    LUCILIA MONTEIRO
    O general Spínola, ou alguém por ele, dirigiu uma carta a Delta Moreira. Para lhe dizer que o filho era um herói e morrera pela pátria. A carta funcionou como salvo conduto para o segundo filho não ir para a guerra. Mas aquela mãe não queria uma carta do general Spínola. Não queria um herói. Só queria ter em casa o José Carlos.
    Tal como Helena Cardoso, 94 anos, que foi padeira em Rio Tinto, Gondomar. Sabia de um saber nunca ensinado que “a guerra era a morte”. Mãe de cinco filhos, sentiu-se como que esventrada ao ver o mais velho, José Moreira Regadas, partir para Angola. Esperava notícias, mas as notícias não chegavam. O primeiro aerograma demorou uma eternidade até aterrar em Rio Tinto. Helena chorava. Chorava muito por nada saber de José. Até que um dia lhe chega uma carta. Dizem-lhe que José fora ferido e iria regressar. O José que regressou não era o mesmo José que partira. Atingido por uma mina, perdera toda a autonomia. Não se mexia. “Tempos difíceis, pesados como chumbo”, recorda Helena.
    Cada história é um novo poço de tristeza. Às vezes são lutos eternos, os vividos por mães como Rosa Jado, 99 anos. Falar do filho Domingos é, ainda hoje, uma impossibilidade. Domingos foi mobilizado para Angola. Regressou em muito mau estado. Acabou por morrer. Rosa começa por aceitar conversar. Só que, para Rosa, a dor é tamanha: verbaliza a palavra “Angola” e nada mais a retira do pranto em que esmorece. Não há mais nenhuma palavra. Porque nenhuma palavra consegue descrever o sofrimento destas mulheres.
    Virgínia Vitorino, 94 anos
    Virgínia Vitorino, 94 anos
    LUCILIA MONTEIRO
    Entre 1961 e 1974, a ditadura portuguesa fez sangrar o país em três frentes de combate colonial. Segundo números oficiais, quando se chega a 1974, ano em que foram mobilizados 150 mil efetivos militares para o esforço de guerra em África, entre 7% a 10% da população portuguesa, e mais de 90% da juventude masculina, tinha sido de alguma forma envolvida na guerra.
    Em 13 anos morreram mais de 8 mil soldados e ficaram feridos ou incapacitados mais de 100 mil portugueses. Os danos psicológicos são difíceis de contabilizar, mas alguns especialistas da área da psiquiatria apontam para mais de 140 mil portugueses psicologicamente afetados pela guerra.
    Dados do Estado-Maior General das Forças Armadas (EMGFA) permitem concluir que morreram 8.831 militares portugueses, dos quais 4.027 em combate. A maioria das mortes ocorreu em Angola (3 455). Seguem-se Moçambique (3 136) e a Guiné (2 240).
    Aqueles números, ao referirem apenas os militares mortos, estão longe de traduzir a realidade, uma vez que não incluem as vítimas mortais de civis brancos e negros, tanto entre os guerrilheiros dos movimentos de libertação como entre a população civil.
    LUCILIA MONTEIRO
    Estima-se que mais de mil civis portugueses terão sido mortos, mais de metade deles nos massacres perpetrados pela UPA. Do lado dos africanos, as estimativas mais conservadoras apontam para um mínimo de cem mil mortos.
    Milhares de mães devastadas. Delta Moreira teve direito a uma pensão pela morte de José Carlos. Morreu pela pátria, disseram-lhe. Delta nunca quis o dinheiro da pátria. Há uma continuada indignação quando diz “aquele dinheiro parece que me sangra nas mãos”.
    Milhares e milhares de mães a chorarem. Milhares e milhares de mães a ouvirem o eco das palavras imaginadas a martelarem-lhes a cabeça. A tortura da frase nunca ouvida, mas interiorizada: “Mãe, a guerra...”."

    in: jornal "Expresso"

    Publicada por LuísM Castanheira à(s) 17:20 2 comentários:
    Enviar a mensagem por emailDê a sua opinião!Partilhar no XPartilhar no FacebookPartilhar no Pinterest
    Mensagens mais recentes Mensagens antigas Página inicial
    Subscrever: Comentários (Atom)

    Nota


    Novo Acordo Ortográfico...

    Novo Acordo Ortográfico...
    ... - NÃO, Obrigado !

    Translate

    Separadores

    • Ambiente (1)
    • Biografias (7)
    • Ciência (2)
    • Contos (6)
    • Crónicas (13)
    • Cultura (10)
    • de Blogs (2)
    • dos jornais (19)
    • Entrevistas (18)
    • Humor (1)
    • Música (295)
    • O nosso MUNDO (5)
    • Poesia (111)
    • Prosa (1)
    • Vídeos (11)

    Arquivo

    • ▼  2025 (2)
      • ▼  junho (2)
        • Talvez o último poema
        • Israel/Irão _ Opinião
    • ►  2022 (9)
      • ►  outubro (2)
      • ►  setembro (2)
      • ►  agosto (2)
      • ►  março (1)
      • ►  janeiro (2)
    • ►  2021 (16)
      • ►  novembro (3)
      • ►  outubro (2)
      • ►  agosto (1)
      • ►  julho (1)
      • ►  maio (3)
      • ►  abril (1)
      • ►  março (1)
      • ►  fevereiro (2)
      • ►  janeiro (2)
    • ►  2020 (43)
      • ►  dezembro (2)
      • ►  novembro (4)
      • ►  outubro (5)
      • ►  setembro (1)
      • ►  agosto (3)
      • ►  julho (3)
      • ►  junho (4)
      • ►  maio (3)
      • ►  abril (11)
      • ►  março (3)
      • ►  fevereiro (1)
      • ►  janeiro (3)
    • ►  2019 (86)
      • ►  dezembro (3)
      • ►  novembro (8)
      • ►  outubro (12)
      • ►  setembro (3)
      • ►  agosto (3)
      • ►  julho (10)
      • ►  junho (6)
      • ►  maio (12)
      • ►  abril (9)
      • ►  março (7)
      • ►  fevereiro (8)
      • ►  janeiro (5)
    • ►  2018 (56)
      • ►  dezembro (2)
      • ►  novembro (7)
      • ►  outubro (20)
      • ►  setembro (7)
      • ►  agosto (4)
      • ►  julho (2)
      • ►  junho (3)
      • ►  maio (2)
      • ►  março (3)
      • ►  fevereiro (4)
      • ►  janeiro (2)
    • ►  2017 (68)
      • ►  dezembro (8)
      • ►  novembro (4)
      • ►  outubro (4)
      • ►  setembro (3)
      • ►  agosto (2)
      • ►  julho (2)
      • ►  junho (3)
      • ►  maio (3)
      • ►  abril (3)
      • ►  março (6)
      • ►  fevereiro (17)
      • ►  janeiro (13)
    • ►  2016 (50)
      • ►  dezembro (4)
      • ►  novembro (12)
      • ►  outubro (3)
      • ►  setembro (5)
      • ►  agosto (4)
      • ►  junho (6)
      • ►  maio (2)
      • ►  abril (2)
      • ►  março (3)
      • ►  fevereiro (7)
      • ►  janeiro (2)
    • ►  2015 (55)
      • ►  dezembro (4)
      • ►  novembro (3)
      • ►  outubro (5)
      • ►  setembro (8)
      • ►  agosto (6)
      • ►  julho (1)
      • ►  junho (3)
      • ►  maio (3)
      • ►  abril (7)
      • ►  março (5)
      • ►  fevereiro (1)
      • ►  janeiro (9)
    • ►  2014 (192)
      • ►  dezembro (11)
      • ►  novembro (82)
      • ►  outubro (55)
      • ►  setembro (12)
      • ►  agosto (3)
      • ►  julho (15)
      • ►  junho (14)

    Top +

    • Contos
    • Crónicas
    • Música
    • Poesia
    • Vídeos
    Tema Simples. Com tecnologia do Blogger.