sábado, 3 de janeiro de 2015

Mãe, os Meninos Andam Distraídos _Maria do Rosário Pedreira


Mãe, os Meninos Andam Distraídos

Mãe, os meninos andam distraídos junto
ao rio e tu não queres saber de os perder.
Sentaste-te a pensar nesse homem que
apareceu e a desfolhar os malmequeres
da tua bata nova — e não viste que te
largaram a mão nem para onde fugiram
com a pressa do vento. Mãe, os meninos

saíram da tua beira para a beira do rio
e tu não queres saber de os chamar. Eles
estendem agora os braços pequeninos
para o sol que brilha sobre as águas
como um punhado de moedas que nunca

hão-de ter — mas tu hoje só conheces
um nome nos teus lábios e nem sequer te
lembras que esse nome não é o que puseste
a nenhum deles. Mãe, os meninos

são tão pequenos e já vão tão longe que
a luz pode cegá-los para sempre. Andam
perdidos no rio há tanto tempo que será
tarde de mais quando gritarem por ti —
porque a ideia do amor é hoje muito maior
do que a voz deles. Mãe, se tu quiseres, eu

posso tomar conta dos meninos, sento-me
com eles na margem a desenhar o sol e
havemos de fazer horas para o teu sonho:
depois de tanta dor e tanto luto, eu não
vou deixar que percas os teus meninos
nem pedir-te que sejas viúva para sempre.


Maria do Rosário Pedreira, in 'Antologia Poética'

Vieste como um Barco Carregado de Vento _ Maria do Rosário Pedreira


Vieste como um Barco Carregado de Vento
Vieste como um barco carregado de vento, abrindo
feridas de espuma pelas ondas. Chegaste tão depressa
que nem pude aguardar-te ou prevenir-me; e só ficaste
o tempo de iludires a arquitectura fria do estaleiro

onde hoje me sentei a perguntar como foi que partiste,
se partiste,
que dentro de mim se acanham as certezas e
tu vais sempre ardendo, embora como um lume
de cera, lento e brando, que já não derrama calor.

Tenho os olhos azuis de tanto os ter lançado ao mar
o dia inteiro, como os pescadores fazem com as redes;
e não existe no mundo cegueira pior do que a minha:
o fio do horizonte começou ainda agora a oscilar,
exausto de me ver entre as mulheres que se passeiam
no cais como se transportassem no corpo o vaivém
dos barcos. Dizem-me os seus passos

que vale a pena esperar, porque as ondas acabam
sempre por quebrar-se junto das margens. Mas eu sei
que o meu mar está cercado de litorais, que é tarde
para quase tudo. Por isso, vou para casa

e aguardo os sonhos, pontuais como a noite.


Maria do Rosário Pedreira, in 'O Canto do Vento nos Ciprestes'


sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Rui Veloso - Concerto Acustico

Rui Veloso . Luísa Sobral . Doismileoito . Boss AC . MTV Linked - natal





Presépio De Lata
Rui Veloso


Três estrelas de alumínio
A luzir num céu de querosene
Um bêbedo julgando-se césar
Faz um discurso solene

Sombras chinesas nas ruas
Esmeram-se aranhas nas teias
Impacientam-se gazuas
Corre o cavalo nas veias

Há uma luz branca na barraca
Lá dentro uma sagrada família
À porta um velho pneu com terra
Onde cresce uma buganvília

É o presépio de lata
Jingle bells, jingle bells,

Oiçam um choro de criança
Será branca negra ou mulata
Toquem as trompas da esperança
E assentem bem qual a data

A lua leva a boa nova
Aos arrabaldes mais distantes
Avisa os pastores sem tecto
Tristes reis magos errantes
E vem um sol de chapa fina
Subindo a anunciar o dia
Dois anjinhos de cartolina
Vão cantando aleluia

É o presépio de lata
Jingle bells, jingle bells,

Nasceu enfim o menino
Foi posto aqui à falsa fé
A mãe deixou-o sozinho
E o pai não se sabe quem é

É o presépio de lata
Jingle bells, jingle bells


Composição: Carlos Tê / Rui Veloso

Ana Moura e Camané | Sociedade Portuguesa de Autores | Prémio Autores 2011




ANA MOURA E CAMANÉ

Porque te vestes de preto
Que dor é que te habitua
Quando dobras o gaveto
Ao cimo da minha rua

Que sina escondes no peito
Guardada num xaile antigo
Se é o fado que eu suspeito
Guarda-me a sina contigo

Eu nunca vesti de luto
Este vestido é o fruto
Do que a vida me tem dado
Deu-me o negro do queixume
A escuridão do ciúme
E eu pago com a luz do fado

Até a vida sombria
Deve ter uma estrela guia
Olho o céu e não a vejo
Mas as vidas são vielas
E ao descermos por elas
Vamos sempre dar ao Tejo

Não tenhas dó de nós, não vale a pena
Nenhum se vai esquecer, não tenhas medo
A lágrima perdida é tão pequena
Ao pé do que lembramos em segredo

Não quero, já te disse que não quero
Voltar àquele tempo que foi nosso
Às vezes minto quando sou sincero
É quando quero aquilo que não posso

Foste sincero
Quando te ouvi
Que não podias
Ainda te espero
Porque senti
Que me mentias

Quem nos ditou
Quem nos destina
O fim da estrada
Foi deus que errou
A nossa sina
Foi mal traçada

Disseste adeus
E bateste a porta devagar
Para ninguém notar
Que a vida nos traía
Disseste adeus
Ainda vi que tu sorriste
Vi no teu sorriso triste
Meu amor, até um dia

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Mario Goncalves_ A FÚRIA



Literatura  -  13:40
                                                       A FÚRIA


Começou lentamente!
Evoluiu de um diálogo completamente banal.
 Alimentou-se de sarcasmo, ateou-se com acusações e ressentimentos.
Subitamente, a tua fúria abateu-se sobre mim.
 Qual dique que cede, submergindo-me, arrastando-me.
Tento resistir, retribuir.
Avisto o Rubicão!
A rutura inevitável. O ponto em que o que é dito não tem retração possível.
O espaço que nos rodeia é opressivo, o ar pesado.
Recuo!
Começo a dirigir-me para a saída.
Os teus punhos cerrados atingem-me no peito.
A tua cabeça inclina-se com violência, uma madeixa do teu cabelo; Branca como a neve; roça pela minha a face.
 Nesse preciso momento recordo o nosso primeiro beijo; qual “Déjà-vu” invertido:
 Os teus punhos empurram-me frouxamente o tronco, a tua cabeça inclina-se numa fuga sem energia aos meus lábios.
E a mesma madeixa! Só que negra; a roçar-me a face, a encher-me de desejo.
Olho para ti. És bela.
A minha perceção muda. A tua fúria revela-se medo. A violência, insegurança.
Um carinho imenso por ti enche-me o peito.
 Estou na tua mente, no teu coração.
Abraço-te!
 Resistes!
Encosto a minha cara a tua.
Murmuro que te amo ao ouvido. Que sempre amei, mesmo quando pensei que não.
Que não concebo uma vida sem ti a meu lado.
Gradualmente o teu corpo perde a rigidez.
A tua face ainda resiste.
Beijo-te a orelha.
Miras-me de lado, já sem fúria nem odio.
Sorris!
Olhas-me nos olhos.
Beijo-te novamente.
Vejo-me refletido no teu olhar.
Pouso os meus lábios nos teus, que se abrem para mim.
O espaço rasga-se.
O ar entra as golfadas, puro.
O meu coração é novamente jovem, a minha paixão sábia.
 E tu meu amor, a justificação da minha existência!





LuísM Castanheira
14:49
 
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Há um provérbio chinês que diz: "A flecha atirada, não regressa". É como as palavras, em fúria atiradas. Mas o Amor, esse Amor, enraizado, tem a carapaça  resistente a momentos como este. O sentimento do que somos
fica patente ao outro e, embora as palavras magoem, elas ficarão esquecidas, perdidas, nunca atingindo o alvo.
Belo, este momento de Amor. +Mario Goncalves . Se me permite, vou guardar em texto no m/blog.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

António Jacinto_Vadiagem


Amílcar Cabral_Regresso

REGRESSO

Mamãe Velha, venha ouvir comigo
o bater da chuva lá no seu portão
É um bater amigo
que vibra dentro do meu coração.

A chuva amiga, Mamãe Velha, a chuva,
que há tanto tempo não batia assim...
Ouvi dizer que a Cidade-Velha,
- a ilha toda -
Em poucos dias já virou jardim...

Dizem que o campo se cobriu de verde,
da cor mais bela, porque é a cor da esp'rança.
Que a terra, agora, é mesmo Cabo Verde.
- É a tempestade que virou bonança...

Venha comigo, Mamãe Velha, venha,
Recobre a força e chegue-se ao portão.
A chuva amiga já falou mantenha
E bate dentro do meu coração!


(Amílcar Cabral)_GUINÉ-BISSAU


quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Jorge Fernando - Desespero (com Virgul e Dino d´Santiago)




letra


Desespero... o mar turva-se aos meus olhos
Porque o céu amua com a terra e entristece
Desespero... roça a minha fantasia
A língua da serpente e o meu céu não amanhece

Rasga a seda do meu sonho
Toma-me em teus braços nos instantes do delírio
Rasga o ventre do teu dono
Com a sinfonia nos compassos do martírio

Salva-me...
Amor salva-me
Estrela sensual que o meu céu seduz
Amor salva-me...
Vem e salva-me
Olhar tropical que ao meu olhar dá luz

Desespero... mordo a minha consciência
Em três Avé Marias onde salvo a existência
Desespero... estendo a minha cobardia
Nos lençóis de linho onde existe a tua ausência

Sopra o vento
E o pensamento teima em persegui-lo num perfeito desatino
Rola o tempo
E o coração aceita as leis da vida, indiferente ao seu destino

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Naquela mesa




 
letra

Naquela mesa ele sentava sempre
E me dizia sempre o que é viver melhor
Naquela mesa ele contava histórias
Que hoje na memória eu guardo e sei de cor
Naquela mesa ele juntava gente
E contava contente o que fez de manhã
E nos seus olhos era tanto brilho
Que mais que seu filho
Eu fiquei seu fã

Eu não sabia que doía tanto
Uma mesa num canto, uma casa e um jardim
Se eu soubesse o quanto dói a vida
Essa dor tão doída não doía assim
Agora resta uma mesa na sala
E hoje ninguém mais fala do seu bandolim
Naquela mesa tá faltando ele
E a saudade dele tá doendo em mim
Naquela mesa tá faltando ele
E a saudade dele tá doendo em mim

Eu não sabia que doía tanto
Uma mesa num canto, uma casa e um jardim
foto luís castanheira
Se eu soubesse o quanto dói a vida
Essa dor tão doída não doía assim
Agora resta uma mesa na sala
E hoje ninguém mais fala do seu bandolim
Naquela mesa tá faltando ele
E a saudade dele tá doendo em mim                                          
Naquela mesa tá faltando ele
E a saudade dele tá doendo em mim

Naquela mesa tá faltando ele
E a saudade dele tá doendo em mim
Naquela mesa tá faltando ele
E a saudade dele tá doendo em mim.

Música:Sérgio Bittencourt


À beira do Tejo
um café e um desejo:
não demores!
Límpida suavidade
É a espera de verdade.
(por ti, Sofia)



Alberto Caeiro [Fernando Pessoa], dito por Pedro Lamares


Se eu pudesse trincar a terra toda 
E sentir-lhe um paladar, 
Seria mais feliz um momento ... 
Mas eu nem sempre quero ser feliz. 
É preciso ser de vez em quando infeliz 
Para se poder ser natural... 
Nem tudo é dias de sol, 
E a chuva, quando falta muito, pede-se. 
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade 
Naturalmente, como quem não estranha 
Que haja montanhas e planícies 
E que haja rochedos e erva ... 
O que é preciso é ser-se natural e calmo 
Na felicidade ou na infelicidade, 
Sentir como quem olha, 
Pensar como quem anda, 
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre, 
E que o poente é belo e é bela a noite que fica... 
Assim é e assim seja ...

Alberto Caeiro [Fernando Pessoa], dito por Pedro Lamares

Há 79 anos morre um dos poetas maiores da língua portuguesa Fernando Pessoa!)

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

maria do rosário pedreira _ guarda tu agora


 guarda tu agora


Guarda tu agora o que eu, subitamente, perdi
talvez para sempre - a casa e o cheiro dos livros,
a suave respiração do tempo, palavras, a verdade,
camas desfeitas algures pela manhã,
o abrigo de um corpo agitado no seu sono. Guarda-o


serenamente e sem pressa, como eu nunca soube.
E protege-o de todos os invernos - dos caminhos
de lama e das vozes mais frias. Afaga-lhe
as feridas devagar, com as mãos e os lábios,
para que jamais sangrem. E ouve, de noite,
a sua respiração cálida e ofegante
no compasso dos sonhos, que é onde se esconde
os mais escondidos medos e anseios.


Não deixes nunca que se ouça sozinho no que diz
antes de adormecer. E depois aguarda que,
na escuridão do quarto, seja ele a abraçar-te,
ainda que não te tenha revelado uma só vez que o queria.


Acorda mais cedo e demora-te a olhá-lo à luz azul
que os dias trazem à casa quando são tranquilos.
E nada lhe peças de manhã - as manhãs pertencem-lhe;
deixa-o a regar os vasos na varanda e sai,
atravessa a rua enquanto ainda houver sol. E assim
haverá sempre sol e para sempre o terás,
como para sempre o terei perdido eu, subitamente,
por assim não ter feito.


maria do rosário pedreira
a casa e o cheiro os livros
gótica
2002

ADRIANO CORREIA DE OLIVEIRA - CANTAR DE EMIGRAÇÃO



Letra:

Este parte, aquele parte 
e todos, todos se vão 
Galiza ficas sem homens 
que possam cortar teu pão 

Tens em troca 
órfãos e órfãs 
tens campos de solidão 
tens mães que não têm filhos 
filhos que não têm pai 

Coração 
que tens e sofre 
longas ausências mortais 
viúvas de vivos mortos 
que ninguém consolará

Adriano Correia de Oliveira - Canção com Lágrimas





Eu canto para ti um mês de giestas
Um mês de morte e crescimento ó meu amigo
Como um cristal partindo-se plangente
No fundo da memória perturbada

Eu canto para ti um mês onde começa a mágoa
E um coração poisado sobre a tua ausência
Eu canto um mês com lágrimas e sol o grave mês
Em que os mortos amados batem à porta do poema

Porque tu me disseste quem em dera em Lisboa
Quem me dera me Maio depois morreste
Com Lisboa tão longe ó meu irmão tão breve
Que nunca mais acenderás no meu o teu cigarro

Eu canto para ti Lisboa à tua espera
Teu nome escrito com ternura sobre as águas
E o teu retrato em cada rua onde não passas
Trazendo no sorriso a flor do mês de Maio

Porque tu me disseste quem em dera em Maio
Porque te vi morrer eu canto para ti
Lisboa e o sol Lisboa com lágrimas
Lisboa a tua espera ó meu irmão tão breve
Eu canto para ti Lisboa à tua espera...