quarta-feira, 1 de abril de 2020

Covid_19 em Portugal_ Entrevista de Jorge Buescu



Jorge Buescu: "Os médicos vão ser submergidos por esta onda gigante que vem aí"



AQUI:

▲Jorge Buescu acha que estamos apenas ainda a ver a ponta do iceberg


Portugal vai viver uma situação semelhante à de Espanha e Itália, é a convicção de Jorge Buescu. Ao Observador, o físico e matemático explica como faz as contas e reafirma a importância dos testes.
O físico e matemático Jorge Buescu continua muito preocupado com a pandemia de Covid-19 em Portugal. Defende mais testes, mais medidas restritivas e mais controlo da população para evitar os cenários mais pessimistas, que ele próprio divulgou. Em entrevista à Rádio Observador, o investigador avisa que o país deverá viver um cenário semelhante ao de Espanha e de Itália: “Os médicos vão ser submergidos por esta onda gigante que vem aí”, diz. E lamenta que os laboratórios das universidades não estejam a contribuir para o esforço de “guerra” em que todos mergulhámos. Ainda assim, admite que Portugal poderá estar a dar passos concretos para diminuir o impacto do vírus.
Pode ouvir a entrevista, conduzida por João Paulo Sacadura, na íntegra aqui.
Diz que temos entre 57 e 121 mil infetados na população devido a falta de testes. Criou uma calculadora de bolso, que também mede este nível da pandemia, porque em sua opinião, há muitos contaminados que não estão testados, é isso?Sim, isso é uma inevitabilidade por causa das caraterísticas da doença. Só numa fase inicial e com muitos testes é que conseguiríamos ir atrás das pessoas todas. Esta doença tem uma coisa insidiosa: contagia silenciosamente. As pessoas podem andar assintomáticas, podem não saber sequer que têm a doença e estarem a contagiar. São os que eu chamo de “os invisíveis”. E depois, é muito contagiosa e rápida a propagar-se. Isto do ponto de vista da dinâmica da doença – estes modelos são estudados com equações diferenciais, dinâmica, matemática. Ora isto é perigosíssimo, porque significa que temos uma quantidade enorme de infetados que podem contagiar sem saber e que andam por aí. E por outro lado, o contágio é extremamente rápido. A conjugação das duas coisas é completamente letal e torna esta doença extraordinariamente traiçoeira. Se testamos apenas as pessoas que vão ter ao hospital porque já se estão a sentir mal é como se estivéssemos a ver a ponta do iceberg. Toda a parte grande está submersa. Os 6.400 casos que sabemos hoje que temos correspondem a uma ponta do iceberg, mas existe todo o resto e é exatamente isso que é preciso estimar.
Se testamos apenas as pessoas que vão ter ao hospital porque já se estão a sentir mal é como se estivéssemos a ver a ponta do iceberg. Toda a parte grande está submersa. Os 6.400 casos que sabemos hoje que temos correspondem a uma ponta do iceberg.
A solução seria, como diz o presidente da OMS, testar, testar, testar?Nesta fase, será difícil. Não se podem fazer testes às cegas, tem de ser com muito critério. A OMS recomenda, por exemplo, que um critério que se deve seguir é: assim que se deteta um infetado, vai-se localizar e testar todas as pessoas com quem ele esteve em contacto nas últimas 48 horas. Porquê? Se ele está infetado, nas últimas 48 horas andou a propagar a doença. Os sul-coreanos fizeram isso extraordinariamente. Foi o único país que conseguiu dominar uma fase avançada da epidemia só com testes. Num regime absolutamente férreo, mas conseguiram fazer isso. Foi extraordinário.
Eles também seguiram pessoas. A partir de aplicações conseguem saber onde estiveste nas últimas 48 horas. Isso põe alguns problemas de privacidade, mas numa altura como esta impõe-se?Numa altura como esta, acho que o Estado de Emergência é Estado de Emergência. Na verdade, estamos em estado de guerra. Estamos permanentemente como se fosse Londres em 1940, como se fosse o Blitz. Não estamos debaixo do metro, porque não precisamos, mas estamos em casa e estamos a ser bombardeados permanentemente. Estamos em estado de guerra e é preciso assumir isso.
Há 15 dias escreveu um artigo para o Observador em que dizia que a epidemiologia estuda a forma de propagação de doenças e, portanto, é uma questão de números. Constatava que a China, por exemplo na região de Wuhan, tem uma população muito jovem (60% da população está abaixo dos 39 anos) e na Europa é o contrário. Daí a fatalidade ser maior na Europa?Sim, muito mais envelhecida e, em particular, a Itália, que é o país mais envelhecido da Europa. Supondo que o bicho é exatamente o mesmo e que se comporta da mesma maneira que em Wuhan, coisa que não é segura (aparentemente já terá sofrido várias mutações), a palha europeia está muito mais seca para este incêndio, pega muito melhor. Infelizmente, é o que estamos a ver em Itália e Espanha.
Também fazia umas contas sobre os dias em relação à Itália, afirmava que Espanha estava com sete ou oito dias de atraso, a Alemanha e a França com oito ou nove dias e Portugal com duas semanas. Neste momento qual é a estimativa? Vamos passar por uma coisa tão grave assim?Receio que sim. Desde a altura em que disse isso, já passaram mais de oito ou nove dias, de facto, o que vimos foi que Espanha entrou na fase de Itália, que é basicamente o sistema de saúde a entrar em colapso. No fundo, serem engolidos pelo tsunami, é o que está a acontecer em Espanha. A partir do momento em que todas as camas, cuidados intensivos e ventiladores estão ocupados, uma pessoa a mais que chegue a precisar de cuidados intensivos não pode ser atendida e morre.
Isto põe muitos problemas éticos?Sim. Os médicos vão ter muitos problemas, em particular os éticos, mas isso vai ser apenas uma parte. Eles vão ser submergidos por esta onda gigante que vem aí.
Os médicos vão ter muitos problemas, em particular os éticos, mas isso vai ser apenas uma parte. Eles vão ser submergidos por esta onda gigante que vem aí.
Merkel diz que a Covid-19 vai afetar 70% dos alemães. As suas estimativas para Portugal são idênticas?Ela foi muito honesta. Aquilo que ela disse, que é rigorosamente o resultado dos nossos modelos matemáticos, das nossas contas, foi que se não se conseguisse travar a propagação, que iria contagiar 70% da população. É exatamente isso que os nossos modelos matemáticos dão. As curvas convergem em picos de 70%. Em Portugal, seriam sete milhões de infetados. O nosso pico seria com seis/sete milhões de infetados.
Pior do que a gripe espanhola.Claro. Agora, o objetivo de tudo o que estamos a fazer, de todas as medidas – por um lado de contenção e distanciamento social e, por outro, de testes que se querem massivos e que nós ainda não conseguimos implementar –, é baixar essa curva dos sete milhões, o que se chama de “achatar”, e empurrá-la para mais longe. Portanto, mais para longe no tempo e mais para baixo na intensidade, é esse o objetivo destas medidas e é o que se está a tentar fazer.

“Com esta quarentena à portuguesa, em português suave, corremos um risco muito grande”

Também fez uma referência a dizer que os casos que chegam, por exemplo, aos hospitais são apenas 20% e é por isso que este número real andará na casa dos 40 mil. É o que ainda prevê neste momento?Não, é mais, sem dúvida. As contas não são assim tão simples. Não é fazer uma regra de 3 simples, é um pouco mais complicado. Eu faço estas contas através de um modelo que foi desenvolvido pela universidade de Sevilha, por um matemático espanhol com quem estou em contacto direto diário. O António Duran desenvolveu este modelo matemático que exige que olhemos para os óbitos hoje, andemos para trás 15 dias e vejamos qual é a percentagem deles entre os infetados e depois andamos então 15 dias para a frente. É um processo um pouco complicado, mas é o mais fiável até agora. E utilizando esse processo, adapto-o a Portugal, porque os números e a própria demografia são diferentes. E a demografia tem importância aqui. Foi assim que cheguei à tal parte submersa do iceberg – 57 mil a 128 mil infetados. Neste momento, teremos um mínimo de 57 mil, isto é o número otimista, e um máximo de 128 mil. 128 mil é a perspetiva mais pessimista, é que aquilo que andámos a fazer durante o estado de emergência não serviu para nada. Os 57 mil é dizer que as medidas que tomámos estão a funcionar perfeitamente e, neste momento, temos “só” 57 mil.



PETER FOLEY/EPA
Tem sido feito o suficiente ou é preciso agravá-las já nesta quarta-feira?A minha opinião é que as medidas são demasiado brandas. Se houve coisa que tenhamos aprendido com a experiência dos outros parceiros foi que para os que andaram com medidas gradualistas as coisas fugiram completamente ao controlo. Com esta quarentena à portuguesa, em português suave, nós corremos um risco muito grande. Ontem estive a ler um artigo de Sydney, e os australianos estão preocupadíssimos, porque isto está a chegar lá agora. E uma conclusão que me impressionou imenso, uma coisa que eu tinha estimado nas costas de um envelope e eles ali fizeram mesmo cálculos, foi que a eficácia das medidas não é proporcional à intensidade das medidas. Isto é, se tivermos distanciamento social razoável, se as pessoas respeitarem 70% ou menos, aquilo tem um efeito quase nulo. Não é proporcional, 70% ou nada é quase a mesma coisa. Depois, de repente, dá um salto grande e quando o distanciamento social é acima de 80%, já tem um efeito enorme. Nós não sabemos neste momento se as nossas medidas foram o suficiente para estar acima ou abaixo dos 80%. E eu aqui, com toda a franqueza, gostaria de errar para o lado da prudência e gostaria de ter medidas bastante mais restritivas.
Se tivermos distanciamento social razoável, se as pessoas respeitarem 70% ou menos, aquilo tem um efeito quase nulo. Não é proporcional, 70% ou nada é quase a mesma coisa. Depois, de repente, dá um salto grande e quando o distanciamento social é acima de 80%, já tem um efeito enorme



No sábado publicou um texto chamado ‘Corações ao Alto’, depois de uma conversa com o ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor, que lhe deu alguma esperança, porque ele envolveu ativamente a comunidade científica e tecnológica portuguesa (podem ser as nossas armas secretas para esta guerra), como por exemplo, os testes do Instituto de Medicina Molecular, que começaram já a ser aplicados, certo?A maior arma secreta foi esta, foi uma coisa extraordinária. A Maria Manuel Mota, que é uma especialista desta área e está ligada à malária, quando lhe disseram que iria haver este problema de não termos testes para administrar às pessoas ela e outras pessoas noutras instituições começaram a pensar em alternativas que pudessem funcionar com aquilo que existe em Portugal.
Uma das coisas que se tinha ouvido falar era que a cloroquina, por exemplo, poderia ser um bom remédio contra esta vírus. Portanto, se calhar ela estava na área certa.Ela estava na área certa. Sem dúvida que ela estava no sítio certo e no momento certo e é uma pessoa com uma capacidade extraordinária. É diretora do Instituto de Medicina Molecular, que tem 600 pessoas que fazem investigação de ponta a nível mundial. Basicamente, reconverteram as coisas que estavam a fazer para, em meia dúzia de dias, arranjarem uma alternativa aos testes comerciais. Está ser primeiro certificada e a seguir validada. Certificada significa que não faz mal e validada significa que faz exatamente aquilo que deve fazer.
Imediatamente este mecanismo foi agilizado pela ministra, Ana Mendes Godinho para, por exemplo, a Cruz Vermelha o aplicar aos lares, uma situação muito crítica e urgente.Absolutamente. Todos os dias vemos notícias arrepiantes causadas pelo racionamento de testes que estivemos a fazer até hoje, sobretudo nos lares de idosos. O que vemos é que este vírus é particularmente agressivo para esta faixa etária. Quanto mais avança a idade, mais agressivo. Isto é o dado experimental. Há muito poucos mortos nas outras camadas, estão concentrados nos 40 anos para cima.

“Mobilizando toda a sociedade civil conseguimos de certeza dar uma resposta muito mais eficaz”

Falou da reconversão e há outras boas notícias nesta área. Por exemplo, devido à falta de zaragatoas, a Iberomoldes, da Marinha Grande reconverteu a linha de montagem e poderá dispor de 40 mil.Exatamente. Faltavam zaragatoas. Às tantas tínhamos os reagentes, mas falava a coisa mais básica, as zaragatoas. Esse é um excelente exemplo. Nós estamos numa guerra e temos de mobilizar a nossa economia para estado de guerra. As fábricas têm de produzir zaragatoas, produzem zaragatoas. As fábricas de têxteis têm de produzir fatos isolantes para os médicos. Tem de ser tudo assim. Temos de reconverter as nossas unidades produtivas e a nossa inteligência, ciência e tecnologia. Às vezes, as pessoas não têm essa noção, mas é muito forte a nossa ciência e tecnologia.
Tal como falou, a CITEVE, por exemplo, passou a fabricar equipamentos de proteção individual. Esta reconversão já se tinha verificado, por exemplo, na China (fábricas de automóveis que passaram a fazer álcool e gel). Isso é uma coisa que se impõe e ajuda a economia a não fechar?Para mim, o caso mais impressionante é que em Portugal nunca tínhamos produzido ventiladores médicos. Um centro de investigação de Engenharia Aeronáutica em Matosinhos (CEIIA), que emprega uma centena de Engenheiros Aeroespaciais, reconverteu-se para conceber e reproduzir ventiladores. Portanto, daqui a menos de um mês são capazes de entregar uma centena, depois 400. Eles reconverteram toda a sua atividade para fazer isso.
Há até vários vídeos de pessoas que em casa fabricaram peças para ventiladores com recurso a impressão 3D, por exemplo.Pois, não sei se é assim tão simples. A tecnologia parece-me bastante mais complicada e não sei se é uma coisa que se possa fabricar artesanalmente, duvido um bocado, mas, aí, confesso a minha total ignorância. Mas, por exemplo, o Departamento de Engenharia Mecânica do Técnico produziu ontem, com impressoras 3D, algumas centenas de óculos, viseiras e máscaras para os médicos.
A nossa tradição nas biociências está mais ligada à imunologia e não tanto à virologia. Mas todos estes institutos estão a reorientar, neste momento, a investigação com efeitos imediatos. Neste momento, tudo concentrado nessa comunidade científica de topo para combater esta guerra. Isto tem sido muito importante e um sinal de esperança?Sim. Nós temos recursos cá dentro que têm de ser mobilizados, quer a nível da investigação, de reorientarmos aquilo que de bom temos em termos de ciência e tecnologia, quer em termos de mobilização da sociedade. Por exemplo, no CEIIA aquilo que está a acontecer é que são precisos materiais para se construírem os ventiladores. Esses materiais chegam ao centro através da rede logística da Sonae. Portanto, temos aqui uma quantidade de coisas a funcionar bem e em conjunto. Mobilizando toda a sociedade civil conseguimos de certeza dar uma resposta muito mais eficaz do que se ficarmos só à espera que aquilo que existe seja administrado.
Outro exemplo é este da Biosurfit, uma empresa portuguesa de biotecnologia na Azambuja, que esteve a criar este processo de triagem smart, que também já está a ser implementado.Está. Estive ontem uma hora a falar com o CEO da Smart e eles fazem coisas fantásticas, e têm mais ideias e mais projetos que se podem implementar muito rapidamente. Essa triagem permite muito rapidamente detetar qual é o estádio de avanço da infeção. E, de acordo com esse estádio, fazer a triagem para sítios diferentes, onde vão ter respostas proporcionalmente diferentes, o que é muito bom. É um avanço muito grande.

“Portugal pode estar a verificar uma descida gradual de expoente”

“Rapidamente” é uma palavra-chave neste momento que vivemos?Sim, absolutamente.
Urge fazer coisas rápido devido a este crescimento que continua exponencial ou vê a curva a achatar um pouco?Isso é uma boa questão. Continua exponencial, estamos nessa fase, mas curiosamente o expoente está a… Nós não sabemos exatamente como é que o “bicho”, sabendo que é um vírus, reage. Estamos todos um bocado a tatear e a tentar perceber o que é que acontece, mas aparentemente podemos, em Portugal, estar a verificar uma descida gradual do expoente. Duas coisas podem acontecer: ou essa descida tem a ver com termos feito menos testes e, portanto, detetado menos casos e aparentemente estamos a ver menos doentes.



STEPHEN BRASHEAR/EPA



Se estão a faltar testes, dá um resultado falso.Isso aconteceu de certeza na semana passada e não há dúvida. O que estamos a ver nos últimos dois ou três dias é um efeito que já não é explicável dessa maneira e que pode ter outras explicações.
Mas é um efeito de abrandamento?Sim. Tem a ver com o crescimento exponencial, mas um efeito de abrandamento. Mas atenção, e queria deixar uma nota de precaução: não devemos dar demasiado valor. As contas que toda a gente faz são: pegar no número de infetados hoje, dividir pelo de infetados de ontem e fazer a percentagem. Mas essa conta não é assim. Isto é o que se chama o sinal e o ruído. O sinal é o número de infetados e o ruído são os fatores que podem influenciar. O número final que vemos ali não tem nada a ver com a doença. Por exemplo, um hospital que não teve tempo de transmitir os números todos até à meia noite, isto passa para o dia seguinte. Não podemos ficar demasiado contentes pelos números de hoje serem bons nem amanhã, se eles forem piores, ou entrarmos em desespero.
Estamos entrar num problema de falta de comunicação?Não. Existe apenas um problema de comunicação em tempo real, que também se compreende. Peço às pessoas para fecharem os olhos e imaginarem a situação: o médico está com o fato isolante, com a viseira, etc., e tem 10 casos para lançar na plataforma informática até à meia noite. Ele tem, em primeiro lugar, de tratar dos doentes. Se lançar os casos à 1h da manhã, paciência. Ele tem de tratar das pessoas e não dos papéis. A dificuldade pode muitas vezes ser uma coisa destas.
Nas primeiras contas dizia-se que o pico seria a 14 de abril, agora já será mais para maio…Pelos nossos cálculos e parâmetros, nunca poderia ser antes de maio. Se fosse a 14 de abril era terrível. Era com 90% de infetados, um horror.
Esse equipamento existe em laboratórios universitários, na Faculdade de Farmácia, na Faculdade de Medicina, no Técnico, que estariam neste momento em condições de ajudar no processo analítico e não estão. Acho que é aí que as coisas falham



Pode ser mais tarde, mas com menos casos. É isso?Exatamente, é a questão de achatar a curva. Quando mais para a frente e para baixo a conseguirmos empurrar melhor.
O ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino superior transmitiu-lhe alguma queixa? O que é que ele acha que é mais urgente neste momento?Ele, uma pessoa que respeito muito, tem estado a envolver a comunidade científica de imensas maneiras diferentes. E diria que neste momento, e isso é uma queixa não do ministro, mas da própria comunidade científica, acha que pode fazer muito mais. Neste momento, os laboratórios onde se faz a análise do teste são laboratórios sofisticados. Não é simplesmente juntar umas pinguinhas de um reagente. É um processo complicado e exige maquinaria própria. No entanto, esse equipamento existe em laboratórios universitários, na Faculdade de Farmácia, na Faculdade de Medicina, no Técnico, que estariam neste momento em condições de ajudar no processo analítico e não estão. Acho que é aí que as coisas falham. Não sei exatamente porquê, mas isso não está a acontecer e é uma pena, porque são recursos que a nossa sociedade civil tem e que podiam estar ao dispor de todos.

terça-feira, 31 de março de 2020

Joshua Cohen_Diário


Com os nova-iorquinos fechados em casa, as ruas da cidade estão desertas
ANADOLU AGENCY VIA GETTY IMAGES

Caos em Nova Iorque. Não há super-heróis que salvem Gotham desta vez

Da janela do seu apartamento em Nova Iorque, o escritor norte-americano Joshua Cohen observa uma cidade mergulhada no caos e na incerteza. Resta um apelo: se querem ser produtivos, têm de usar calças.
No momento em que escrevo, 8.141 pessoas já morreram de Covid-19, e milhares (espero que apenas milhares) vão continuar a morrer ao longo do próximo ano, antes de uma vacina ser desenvolvida e disponibilizada em larga escala. Estou sentado em casa, aqui na cidade de Nova Iorque, e vejo os números subir, em algo que se aproxima de “tempo real”, ou tão “real” quanto pode ser o tempo nestes dias: 8.142… 8.143… 8.144… Penso que é isso que é suposto eu fazer, sentar-me em casa e ver os números. Quero dizer, ninguém me ordenou que o fizesse; ninguém me deu, ou a ninguém, quaisquer instruções formais; os governos da cidade e do estado limitaram-se a fechar os bares e os restaurantes, os museus e as galerias e as salas de concerto e os teatros, etc., e esperaram que isso fosse suficiente para me manter, a mim e aos meus oito milhões de vizinhos, fora das ruas. É-nos agora dito que está iminente uma quarentena… vai começar na segunda-feira ou na terça-feira ou na quarta-feira, definitivamente na quarta-feira ao meio-dia, definitivamente na quarta-feira às cinco da tarde… é-nos dito que o Exército está a caminho para impor a quarentena, e/ou para desinfetar as zonas infetadas, e/ou para construir espaços para testes e hospitais de campanha, e/ou para entregar os nossos produtos orgânicos porta-a-porta, como os estafetas da Amazon e da Whole Foods, só que as bicicletas deles são tanques… Que mais? O metro e os autocarros nunca vão parar, porque os trabalhadores dos hospitais os usam… a utilização do metro e dos autocarros vai ser restringida aos trabalhadores dos hospitais… a utilização do metro e dos autocarros vai ser restringida aos pacientes que precisem de ir a uma zona de testes e/ou a um hospital, e quem sabe o que é que os trabalhadores dos hospitais vão fazer? Talvez passem simplesmente a viver nos hospitais, como os doentes em que inevitavelmente se vão transformar?
Caso o parágrafo anterior não tenha sido suficientemente claro, deixem-me tentar de novo: não tem havido clareza em nada disto. Ninguém em Nova Iorque sabe quem ouvir; só sabemos quem não ouvir: Trump. Mas ainda não estamos totalmente seguros de que não ouvir Trump também signifique que não devíamos estar a ouvir os seus adjuntos, dos quais sobre os dois mais proeminentes por estes dias nas notícias ninguém tinha ouvido falar até há uma semana: o oleoso advogado Alex Azar, que aparentemente é o nosso Secretário da Saúde e dos Serviços Humanos, um antigo executivo e lobista da indústria farmacêutica; e o nosso Cirurgião-Geral [n.d.t.: cargo equivalente ao diretor-geral da Saúde], o vice-almirante Jerome Adams, aparentemente um antigo comissário da Saúde do estado do Indiana quando o Vice-Presidente Pence era o governador do Indiana, e um homem que aparece como um personal trainer barato num navio de cruzeiro a afundar-se. Os dois membros do elenco deste reality-show da vida real de que eu mais gosto são o Dr. Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas, que parece e soa como o Don DeLillo (“O pior cenário é ou não fazermos nada ou as nossas ações de mitigação e contenção não serem bem sucedidas.”), e o Dr. Robert Redfield, diretor do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças, que surge como honesto por causa da barba ao estilo Abe Lincoln. Estas são as pessoas que me falam a partir dos meus ecrãs, e eu dou o meu melhor para não responder. Vivo sozinho e não tenho animais de estimação — nem mesmo um morcego, nem mesmo um pangolim —, por isso estas pessoas são a minha única companhia.
 Alex Azar, Robert Redfield, Jerome Adams e Mike Pence têm sido presença assídua nas conferências de imprensa sobre a pandemia ao lado de Donald Trump
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Mas esqueçam a CNN — ou a CNN.com. Pensem nos vossos filmes, programas de TV ou o que quer que seja dos streamings favoritos que se passam em Nova Iorque — habitualmente são filmados em Toronto ou num estúdio em Hollywood, mas não interessa: pensem nos vossos favoritos. Agora pensem no quão separados eles são, quão paralelos e sem nunca se intersectarem: ninguém em Seinfield alguma vez sabe o que é que se está a passar em Friends; ninguém de um filme de Spike Lee alguma vez vagueou até à obra de (posso sequer mencioná-lo?) Woody Allen. Cada representação de Nova Iorque no ecrã é a sua própria e independente Nova Iorque e essa é atualmente a situação “no terreno”, com os governos federal, estatal e da cidade. Cada um está a fazer o seu próprio show nova-iorquino, sem comunicação, e o público já desistiu, para ser substituído por uma faixa de risos gravados que é, sobretudo, uma pieira.
Penso que a única Nova Iorque onde as personagens interagem é a Nova Iorque dos franchises promocionais cruzados de super-heróis, a cidade em perigo a clamar pelos seus X-Men, a fazer sinais de luz ao seu Batman. Mas não há nenhum esquadrão de mutantes patriotas de capa que salvem Gotham desta vez. O melhor que podemos fazer é encolher-nos num canto, com o nosso pijama do Batman enquanto racionamos o nosso papel higiénico do Batman e nos lembramos de que muito provavelmente uma experiência interespécies, ou um acidente interespécies, que nos meteu nesta confusão. Já tivemos a nossa quota de morcegos por agora.
"Não há nenhum esquadrão de mutantes patriotas de capa que salvem Gotham desta vez. O melhor que podemos fazer é encolher-nos num canto, com o nosso pijama do Batman enquanto racionamos o nosso papel higiénico do Batman"
Sem super-heróis confiáveis, sem políticos confiáveis, tudo o que nos resta é a ironia. Com isto quero dizer que, antes desta pandemia, a política americana estava atolada num conflito geracional, millennials vs. boomers, e agora parece que a mudança que não pôde ser mandatada pelos votos vai ser mandatada pela natureza. As vítimas desta pandemia parecem incluir-se, genericamente, em dois grupos: os doentes imunocomprometidos e os idosos. Os jovens — dos quais os mais saudáveis vão sair de tudo isto maioritariamente incólumes — vão chorar os primeiros, mas só vão fingir que choram os segundos. Não pretendo ser insensível: apenas franco. Os jovens americanos que não têm um emprego estável nem seguro de saúde têm todas as razões económicas mais intransigentes para não ficar em casa; têm todos os incentivos para sair e passar a infeção aos pais; afinal, os pais deles destruíram-lhes o planeta e roubaram-lhes o futuro. O facto de escolherem não exigir esta vingança é um sinal ou de cobardice ou de amor. Entretanto, com os negócios fechados, a ninharia que faziam com os trabalhos de freelancer evaporou-se; com os mercados afundados, as heranças — se é que esperavam alguma — foram reduzidas. E, quando as universidades cancelaram as aulas e os despejaram, deixaram a cidade e foram para casa — para a casa dos pais —, mas só depois de se assegurarem de que não tinham sintomas. Na minha opinião, se não iam para infetar as famílias, deviam ter ficado. Deviam ter-se barricado nos dormitórios e protestado. Pensava que era isso que os estudantes habitualmente faziam, mas talvez os millennials não o saibam — talvez nunca tenham chegado a esse capítulo no livro de história… perdão, no e-book de história.
Colocar as escolas online, a par do teletrabalho, tornou todo o nosso contacto virtual, e já é um lugar-comum pensarmos que, mesmo quando for seguro regressar à sala de aulas ou ao escritório, serão menos os que vão regressar do que os que abandonaram, e que mais e mais da nossa vida vai ser vivido remotamente, com câmara e microfone, mas sem calças.
Aqui fica um conselho de um escritor, que já estava sentado em casa muito antes de esta pandemia começar: se querem ser produtivos, têm de usar calças.
 Uma imagem rara: a Times Square tem estado praticamente vazia nos últimos dias
ANADOLU AGENCY VIA GETTY IMAGES
E mais algumas dicas de um escritor, sobre linguagem: desde o início desta pandemia, a nomenclatura tem sido contraproducente; a retórica lembrou-me da crise do VIH/sida, com as suas dicotomias alarmistas. Quem é positivo? Quem é negativo? Fizeste o teste? Usaste proteção? Esta escolha de palavras é desonesta e perigosa. O Covid-19 é um coronavírus, não um vírus do sangue, que é muito mais difícil de apanhar, e muito mais difícil de tratar, do que qualquer coisa respiratória. Não apanhamos Covid-19 por fazermos sexo sem proteção ou por partilharmos agulhas, mas por tocarmos em maçanetas de portas e por nos tossirem e espirrarem em cima. É por isso que quase todos nós o temos ou vamos ter em algum momento, algo que seríamos capazes de confirmar se tivéssemos testes suficientes, se os testes fossem uniformes e não tivessem um limite mínimo para dar positivo. Nos primeiros dias do surto no mundo anglófono, parecia que só os famosos é que apanhavam o vírus, mas veio a perceber-se, como a lógica já sugeria, que só os famosos é que estavam a ser testados: Tom Hanks, Rita Wilson, Idris Elba, a NBA. A dada altura, vamos ter a confirmação de que a relação entre número de famosos infetados e o número de não-famosos infetados reflete a proporção de famosos e não-famosos na população, embora nessa altura eu não esteja certo de que sejamos capazes de distinguir quem é famoso e quem não é famoso, porque um ano ou mais de comunicação exclusiva pela internet vai apagar essas fronteiras já ténues… e, depois, algum escritor, em pânico e solitário numa cave, vai tentar fazer a trivial e óbvia comparação entre a internet e uma pandemia, ambas impossíveis de serem contidas por fronteiras. A não ser, obviamente, na China.
Joshua Cohen (1980) é um escritor e crítico literário norte-americano, autor de livros como “Witz”, “Book of Numbers” e “Attention”. Trabalhou com Edward Snowden na escrita da autobiografia “Permanent Record”. Vive em Nova Iorque.
Este artigo faz parte da coleção “Janelas para o Mundo”, organizada pelo jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung. Vários escritores e filósofos de todo o mundo escrevem sobre o que veem das suas janelas durante o período de isolamento motivado pela pandemia da Covid-19. Como sinal de proximidade cultural em tempos de distância política e social, artigos desta coleção são publicados também noutros jornais internacionais, como o Corriere della Sera (Itália), o Politiken (Dinamarca), o Observador (Portugal) e o Die Presse (Áustria).

Carlos Fiolhais_Entrevista



AQUI:

"Só há três competidores no planeta: o homem, os vírus e as bactérias"

[...] "Como somos parte da natureza e a evolução nos trouxe até aqui apesar de todos os ataques de vírus e de bactérias - a humanidade está aqui e mais forte do que nunca -..."[...]


Comentário destacado:

"José Nogueira
E o Homem perderá sempre. As bactérias e os vírus dominaram a vida na Terra durante 3 mil milhões de anos. E quando todas a outras formas de vida desparecerem, lá ficarão as bactérias e os vírus até ao fim. Daqui a outros mil milhões, calcula-se. Ou seja, as bactérias e os vírus foram criadas à imagem e semelhança de deus. Não o Homem."

quarta-feira, 18 de março de 2020

Carta ao Presidente_Para Memo'ria Futura









......

Subitamente, a esperança chega de Itália

Senhor Presidente da República, senhor Primeiro-Ministro, senhores deputados da República, ouçam-nos: amanhã será o dia mais importante das vossas vidas. Fechem o País amanhã. Em Itália funcionou.













Números do dia 16/3 em Portugal, divulgados a 17/3: 448 infectados, a meio do intervalo que estimei. Números muito tristes mas que são a realidade inescapável que teremos de enfrentar nas próximas duas semanas, com dezenas de milhares de infectados. O tempo da negação já lá vai.
No entanto, eis que hoje mesmo surge um raio de luz por entre esta escuridão que nos oprime. Uma luz ainda por confirmar, mas uma luz de esperança. E de orientação. Que surge em Portugal na hora H, no dia D.

Mas primeiro uma explicação.
A evolução da fase europeia desta epidemia está na sua fase exponencial. Como expliquei com detalhe no meu artigo do Observador, isto significa que a curva epidemiológica, que cresce inicialmente muito depressa –exponencialmente – passa por um ponto em que começa a abrandar o seu crescimento. Esse ponto, conhecido por ponto de inflexão, é decisivo: é ele que nos permite vislumbrar o pico do surto – ainda ao longe, mas já na linha do horizonte. A curva deixa então de ser uma exponencial para ser uma sigmóide, uma curva em S.

É um facto clássico em epidemiologia (vem nos livros de texto, geralmente no primeiro capítulo) que uma doença com imunidade zero e propagação for suficientemente rápida se propaga, se não for travada, até ao ponto de se constituir a imunidade de grupo (herd immunity). No caso deste coronavírus, os parâmetros de propagação, inseridos nos modelos matemáticos que regem a propagação, dão como resultado que o pico desta curva corresponde a 60%-70% da população. É por isso que Angela Merkel e Boris Johnson referem o número de 70% de infectados: corresponde ao pior cenário desta epidemia, o caso em que as medidas tomadas não conseguem travar o avanço do vírus.


Por isso é tão importante detectar o ponto de inflexão na curva das infecções: ele assinala a entrada na fase logística da dinâmica, em que a curva é sigmóide, e portanto que as medidas tomadas estão a ter efeito. Foi o que aconteceu na China ou na Coreia do Sul, únicos países que conseguiram controlar a epidemia em fase avançada: pode determinar-se o respectivo ponto de inflexão com uma precisão de 2 a 3 dias analisando os dados numéricos da epidemia.

O problema, como explico no artigo do Observador, é que até 16 de Março, em qualquer dos países europeus analisados, ponto de inflexão nem vê-lo. E na sua ausência temos de assumir que as medidas adoptadas não estão a ser eficazes. E portanto que a epidemia ficaria descontrolada, só parando nos 60-70%, como Merkel e Johnson afirmaram. No caso português, significaria um pico em fins de Abril-inícios de Maio, como afirmou a DGS, com 6 a 7 de milhões de infectados.


Agora os motivos de esperança.

Itália é, como tenho referido, o tubo de ensaio da Europa. Para sua desgraça, é o país europeu onde a epidemia está mais avançada; consequentemente, a sua evolução mostra aos outros países o que podem esperar. Itália está na trincheira da frente da frente da Europa nesta impiedosa guerra contra um inimigo invisível.

Os números de Itália de ontem, 16 de Março, revelam algo que pode assinalar a aproximação de um ponto de inflexão. O número de novos casos diminuiu, o que é incompatível com a evolução exponencial e pode sinalizar a inflexão tão desejada. Uma andorinha não faz a Primavera: um dia de diminuição, só por si, não tem significado. Isto já aconteceu recentemente, para nosso desespero, a 8 de Março e a 13 de Março, sendo contrariados no dia seguinte por um crescimento esmagador.


No entanto, há motivos para crer que à terceira é de vez. Os números de hoje, 17 de Março, confirmam essencialmente a estacionaridade do surgimento de novos casos. É a primeira vez desde início do surto na Europa que se registam 2 dias consecutivos (ou 3, se incluirmos o dia 15, em que o factor de crescimento foi de 1,02) de quase estacionaridade do factor de crescimento. O que pode sinalizar o fim da fase exponencial em Itália.


Gráfico com os dados das novas infeções em Itália desde 3 de março

Mais importante do que tudo é ter em consideração que Itália impôs o lockdown total do país a 9 de Março. Esta medida foi aquela que permitiu à China, que a aplicou muito precocemente, contê-lo em Wuhan; os dados disponíveis mostram que os efeitos da medida se tornaram visíveis com um atraso de 12 dias em relação à sua implementação.


Vem a propósito referir que foi hoje publicado no Observador um artigo do Pedro Pita Barros, “Porque não acredito na “curva exponencial”” que no subtítulo “contesta as projecções de Jorge Buescu”. Na verdade, este artigo não contradiz uma palavra do que afirmo. São feitos cálculos baseados sobre os dados da China, identificando-se um ponto de inflexão por volta do dia 16 do surto mas omitindo que o lockdown tinha sido imposto no dia 6). A inflexão verificada na China e o subsequente controlo da epidemia foram consequência directa do lockdown, facto que não é referido pelo autor e pode induzir em grave erro o leitor desprevenido.

Voltando ao caso de Itália, que no dia 17 perfaz 8 dias de lockdown, é bem possível, eu diria mesmo provável, que estejamos já a ver os primeiros sinais do efeito deste na contenção da doença. É ainda um sinal precoce, que tem de ser confirmado nos próximos dias – mas é o primeiro sinal objectivo de esperança no meio do tsunami e do desespero colectivo que nas últimas semanas tem assolado a Europa.

Só com os dados dos próximos dois dias poderemos ter absoluta certeza; mas a situação actual é inédita na fase europeia do surto e, a confirmar-se, trata-se de um verdadeiro breakthrough. Será o correspondente, na I Guerra Mundial, a conseguir furar a trincheira do inimigo. Significará que a estratégia de lockdown funciona na Europa, com um atraso até mais pequeno do que Wuhan (8-10 dias para 10-12 dias). Se isto assim for, temos todos de estar muito gratos a esta Itália verdadeiramente mártir, que no mesmo dia que nos dá esta extraordinária notícia regista 345 mortes, e que com o seu holocausto permitiu identificar a arma que nos fará ganhar esta guerra.


Esperam-nos ainda semanas muito difíceis, de grandes sacrifícios, com os serviços de saúde inundados de doentes, muitos deles em estado crítico. Exigirá um esforço heróico dos médicos, enfermeiros e profissionais de saúde. Todos temos de ficar em casa e reduzir os contactos a zero. Exigirá mobilização de meios numa escala nunca vista depois do 25 de Abril. Não haja ilusões: o pior está para vir. Mas finalmente sabemos o que fazer. O lockdown funciona!

Senhor Presidente da República, senhor Primeiro-Ministro, senhores deputados da República, ouçam-nos: amanhã será o dia mais importante das vossas vidas. Não tomar a decisão que se impõe significará condenar centenas ou milhares de portugueses. Todos estamos suspensos da vossa decisão. Todos esperamos que estejam à altura das vossas responsabilidades. Façam a única coisa que os portugueses vos pedem.

Fechem o País amanhã.

in: jornal "Observador"

sábado, 8 de fevereiro de 2020

Ricardo Domeneck



[SOBRE O TEXTO] 
Este é um poema inédito, ainda
sem previsão de publicação em livro.

Pintura - Patrícia Brandstter

No começo era como uma areia
movediça. Um angu de caroço.
Pouco a pouco se engrossou
o caldo de enxofre nesse inferno.
Dia a dia cresciam os bolores
nos pães amassados pelo demo,
mas críamos ser nossas flores.
Ali vivíamos. “É a nossa terra,
nossa vida”. Semelhava um poço
de onde, ao menos, um sustento
colheríamos pra nosso proveito,
o nosso fim de anciãos bobos.
Cantava-se um samba glorioso.
Marchava-se de verde e amarelo
num dia esquecido de setembro.
Vinham as marés cheias de dejeto
e a cada janeiro, a cada agosto,
depositavam em nossas covas
a sua argamassa. Os seus tijolos
coziam-se aos poucos no calor
brando de nossa grã-paciência.
Hoje cá estamos, com o cimento
que nos abotoa até o pescoço.
Olhamos a paisagem lacrimosos.
Que belo país! À linha dos olhos
enxergamos já os sinais de fogo
e além dele um colosso deserto.
Ah! nosso colosso, nosso colosso.

Ricardo Domeneck é poeta; seus livros mais recentes são ‘Odes a Maximin’ (2018) e ‘Doze Cartas’ (2019), ambos pela Garupa Edições

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Manuel Resende _ 1948-2020

Com a manhã chuvosa veio a notícia:
Ontem morreu o Poeta.
Abro a janela, fumo um cigarro e fico a pensar
que “ A poesia e’ muito rara para ser desperdiçada em porcarias”
Quase nada dele sabia. 
Hoje, o tempo alinhou-se com a vida. 
a poesia é também esta água do céu caída em gotas a escrever poemas de
nostálgica sinfonia. 
Descanse em Paz, Manuel Resende. - lm





MANUEL RESENDE

A poesia é muito rara para ser desperdiçada com porcarias

Uma vida poética em 250 páginas. Poesia Reunida, de Manuel Resende, é um livro raro de um poeta raro. Insubmisso, desalinhado, descomprometido – excepto com o mundo.
 

“Ósenhora... não estamos aqui a perder tempo?”, com o sotaque do Porto bem vincado, já com a conversa a meio. Manuel Resende fazia uma pausa ao falar da sua poesia. “A minha poesia é uma colagem. Tem as mais diversas influências. Desde o Sófocles ao Rui Veloso e ao Sérgio Godinho; tem os Beatles, André Gide, Breton, Cesariny, Jorge de Sena... As coisas mais díspares. E as formas poéticas são as mais desencontradas e aparentemente desconexas. Eu atiro aquilo para lá e de vez em quando começa a sair um soneto, compreende?” Segundo o poeta, esta é a génese dos seus poemas. Cabem todos em pouco mais de 250 páginas, volume que acaba de sair numa edição da Cotovia com o título Poesia Reunida. Nele são visíveis as influências. Aquelas já referidas, e outras: Fernando Pessoa, Alexandre O’Neill, Rimbaud, Kaváfis, Aquilino Ribeiro, Manuel António Pina, Ruy Belo, Homero, Frei Bartolomeu de Las Casas, Walt Whitman, Adília Lopes. E ainda os dadaístas, os futuristas, os surrealistas, os concretistas. Tudo contido no total da obra poética de alguém que muito sumariamente se resume assim na sua relação com a poesia: “Começou muito cedo, mas não me entreguei completamente...” Porquê? “As condições do fabrico da poesia são muito más.”


Se há razão para Manuel Resende ter publicado tão pouco numa vida que acaba de fazer 70 anos, talvez seja esse descomprometimento com que encarou a sua poesia e a percepção, com o exemplo de António Maria Lisboa, da precariedade não apenas da produção como do lugar da poesia no mundo. Ele explicará mais adiante. Por agora fica essa dupla precariedade como justificação para terem sido apenas três livros numa vida, publicados entre 1983 e 2004: Natureza Morta com Desodorizante (1983), Em Qualquer Lugar (1988) e O Mundo Clamoroso, ainda (2004) a que se juntam agora alguns inéditos e dispersos.


Está sentado à mesa onde todos os dias lê e escreve. Uma superfície quadrada em que fica de costas para uma janela. À esquerda tem uma porta pela qual vai vigiando o cão a brincar no jardim. Não há sinal da sua poesia. Apenas um computador portátil aberto e um dicionário de grego sobre uma pilha de papéis à luz da tarde chuvosa que entra, filtrada. Quase em frente há o mar, mas não se vê dali. Separa-os a estrada e uma fila de casas. Manuel Resende cruza as mãos e, em silêncio, olha de frente com a timidez sem disfarce de quem não está habituado à atenção fixada em si. O seu nome costuma estar nos bastidores enquanto tradutor de poetas como Konstantinos Kaváfis, Odysséas Elytis, Kiki Dimoulá, escritores como Bertolt Brecht ou Franz Kafka. E é naturalmente pelos outros que começa a falar de si. “Aprendi grego a traduzir o Kaváfis”, afirma. E nem sequer era uma paixão. “Tenho respeito por ele, mas não é dos meus poetas preferidos. A tradução de poesia é diferente da do romance. A gente lê um poema e em cinco minutos está lido e aquilo fica ali e dá mais jeito para aprender a língua. Além do original, tinha a tradução do Jorge de Sena e outras e sabia aquilo. Fui percebendo a língua.” Foi em 1985, mais poetas gregos se seguiram. Mas, por essa altura, já publicara o seu primeiro livro. “Por mim, não tinha publicado. O Vasco Graça Moura, que estava na Imprensa Nacional [Casa da Moeda], queria fazer uma colecção de poesia e o Manuel António Pina sugeriu o meu nome.”
Se há razão para Manuel Resende ter publicado tão pouco numa vida de 70 anos — três livros, entre 1983 e 2004 — talvez seja o descomprometimento com que encarou a sua poesia e a percepção da precariedade do lugar da poesia no mundo.


Eram amigos. “Conhecemo-nos, porque eu ia muito ao Piolho [um café no Porto] e o Pina também. Nunca falávamos da nossa poesia, nem ele da dele, nem eu da minha. Havia muito em comum. Éramos de uma esquerda nova que não tinha nada que ver com o PC. Ele andava com as mais variadas pessoas, muitos católicos progressistas, e eu fui conhecendo muita gente. Gostava muito de falar com ele, aliás toda a gente gostava muito de falar com o Pina. Ele era um grande conversador e ficámos muito amigos. Foi ele quem me revelou os poetas americanos, da Beat Generation, por exemplo, ou Carl Sandburg. O [T. S.] Eliot, o Ezra Pound... Ele papava isso tudo, e isso distinguia-o porque naquela altura a cultura era a francesa. Era uma lufada de ar fresco. Imagine aqueles tipos da Beat Generation... diziam poemas para audiências, como na Grécia!”

Os dois tinham ainda em comum o mesmo nome, eram ambos Manuel António. Em Poesia Reunida, há um poema que Resende diz ter “roubado” à física moderna e, precisamente, a M. A. Pina. Chama-se Deve estar a brincar, senhor Feynman: “Onde estão as partículas elementares / Quando a gente não está a olhar? / A questão é de se pôr, só que elas estão, / Ou qualquer coisa, não sei o quê, em qualquer lugar.” Faz parte de Em Qualquer Lugar, o livro de 1998. Mas Pina não foi o único, esse roubo, esse contágio, melhor dizendo, é feito de uma enorme pluralidade que teve em Resende um filtro capaz de resultar numa marca singular. “Eu não tenho um estilo, ou o meu estilo é aceitar tudo”, refere, incluindo o que lhe veio da tradução. “Sim, isso tem que ver também com a tradução, porque acho que uma das coisas que me caracterizam é a aceitação das mais diversas correntes. Embora tenha uma filiação surrealista, não tenho uma filiação antagónica a ninguém. Aceito mais ou menos tudo. E, portanto, a tradução é uma das vertentes da minha experiência poética. É deixar falar em mim as outras vozes. Essencialmente foi isso que fiz na minha vida.”
Compromisso com o mundo


A poesia de Manuel Resende é comprometida com o mundo; mais do que isso, com a história do mundo, sublinha Osvaldo M. Silvestre no posfácio a esta Poesia Reunida. “Se algo define a poesia de Manuel Resende, é a forma como não evita as solicitações da História, que tende, aliás, a grafar com maiúscula, num gesto que se foi tornando raro no panorama da poesia portuguesa recente.” Confrontado com a afirmação, Manuel Resende encolhe os ombros. “Que acha?” E depois afirma: “Eu também escrevo sobre o quotidiano, mas nunca é um quantificado trivial e fútil. É sempre a pensar nas coisas, perdoe a presunção, nas coisas mais essenciais da vida.”

FotoDANIEL ROCHA
Há momentos mágicos em que o que está dentro de nós e o que está fora de nós se une; é o ‘acaso objectivo’, e esses momentos são preciosos na existência. Há pessoas que chamam a isto Deus. É lá com elas, respeito.

E que coisas são essas? Há nova pausa, breve. “A poesia é muita rara para ser desperdiçada com porcarias. Essas coisas são o amor, a liberdade...” Se houvesse um cigarro, como houve durante os muitos anos em que fumou, este seria o momento de uma baforada, e só depois continuaria. “É isso. E falo muito do tempo, porque o tempo é a natureza de que somos feitos. O ser humano é um animal muito delicado e frágil. Tem de aprender tudo, excepto mamar e fazer xixi e outras coisas que tais. Tem de ser ensinado, precisa de uma família, precisa de tempo, precisa de um lastro histórico. Senão, não existiríamos, nunca seríamos o que somos.”

É o momento para recuar bastante no tempo e tentar entender a ligação de Manuel Resende à poesia. Começou em casa. “O meu pai andava sempre a recitar poemas e eu li Fernando Pessoa muito novo, não tinha idade para aquilo, mas ia escrevendo umas coisas.” Começou a aperceber-se das vanguardas poéticas, e, entre futuristas, clubistas e expressionistas, escolheu a radicalização e reviu-se nos dadaístas. “O dadaísmo é uma reacção contra as condições de cultura e de literatura da sociedade. Uma reacção de rejeição de uma sociedade que, com tão elevada cultura, faz a II Guerra Mundial! Essa relação conflituosa com o mundo tal como ele é esteve sempre comigo.”

Por outro lado, a consciência das condições da morte de António Maria Lisboa, em 1953, aos 25 anos, vítima de tuberculose, sublinhou a ideia de precariedade que sempre associou à poesia. Lisboa fora um dos mais brilhantes poetas da sua geração, um abjeccionista, insubmisso face a tudo o que eram regras criativas e avesso à pretensão de transformar o surrealismo numa escola. “Morreu em pleno voo”, refere Manuel Resende, que, como o pai, se inscreveu num curso de Engenharia, enquanto fazia traduções. O primeiro trabalho pago foi um ensaio sobre a Comuna de Paris da autoria de Jacques Rougerie. Gostava de traduzir, mas o dinheiro era incerto e, quando abriu um concurso para jornalistas no Jornal de Notícias, concorreu e reencontrou o amigo Pina e ficou durante seis anos ligado à Economia. Mas foi o gosto pelas línguas, e em particular pelo grego moderno, que o levou a Bruxelas e a aceitar o trabalho de tradutor na então CEE, ainda Portugal não era membro. Conta esse percurso e refere Alexandre O’Neill. Um e outro com questões diferentes com Portugal. Para Resende Portugal são as pessoas. Viver em Bruxelas deu-lhe essa consciência. Para O’Neill era outra coisa. Há um poema em que brinca com uma das expressões mais conhecidas do autor de Uma Coisa em Forma de Assim, e noutro escreve: “Os teus versos perseguem-me pelos corredores, agarram-se-me à depressão ou à suspeita alegria para-fora, como uma caspa / inconveniente, mas sempre fiel amiga.” O poema chama-se Alexandre, o Grande, e Alexandre, o Grande, não é outro senão O’Neill.

Tudo se cola ao que escreve, parece querer dizer com as histórias que conta com a ajuda de uma oralidade que também está na poesia. Tudo se cola, parece também soar quando se lê o que escreveu nesse e noutros poemas, como em Voltar para casa. “Mas porque tem a pessoa de voltar para casa / E seguir o rasto das árvores no chão, / Pelo caminho conhecido, com o coração mirrado nas mãos / E as mão nos bolsos como um apontamento antigo? / Não haverá outra história para viver, um jornal para cada um, / E súbdita a esperança a queimar os lábios, a palpitar na boca, / Pronta a saltar e a arder todo o corpo? / Mas porque tem a pessoa de voltar para casa, / Cabisbaixa?”

Há, pois, uma coisa com O’Neill. Confirma: “Tenho um verso também que tem uma coisa do O’Neill, mas não foi de propósito. Lembrei-me, é uma questão que tenho comigo.” Sorri. “A dele era com Portugal”, volta a sorrir. Já a questão de Resende parece ser com o mundo. “Nós somos fruto da História”, a tal do h grande. “Somos um resumo do que se passou; o eu é uma luta constante para sobressair do magma. Faz-se contra o outro, mas com os outros.” É a individualidade no meio da História da civilização, a que se constrói no quotidiano. “Estou sempre a pensar nisso”, salienta. Quando escreve sobre amor e guerra, sobre lugares massacrados e a relação com o que chama “a ralidade”.

FotoDANIEL ROCHA
Comecei por lhe dizer que a minha reacção é um bocado uma reacção contra o mundo, mas compreendendo que somos um produto do mundo. Mas sinto-me fora do mundo.

Escreve-a assim: “S’a ralidade não me chatiar, / Não vou eu chatiar a ralidade. / Porém, essa megera sem idade / não tem tempo e fronteiras, não tem lar.”

O que é ralidade? Resposta simples, coerente com o que sempre escreveu e sempre disse. “Comecei por lhe dizer que a minha reacção é uma reacção contra o mundo, mas compreendendo que somos um produto do mundo. Mas sinto-me fora do mundo.” É apenas um dos paradoxos. “Todos somos um poço de contradições. A realidade que conhecemos é rala e reles. As pessoas que não têm dinheiro para acabar o mês, os soldados na guerra... Parecendo que não, é um dado quotidiano. Há uma música de fundo, mas é uma música de guerra, de conquista, de luta pelos recursos do planeta. É essa a nossa ralidade. É nessa realidade que a gente vive e contra a qual temos de afirmar o nosso eu; temos de reagir. Isto é profundamente político. Mas ninguém conseguiria dirigir as massas com um discurso como o meu.” Ri, uma gargalhada rouca, arrastada, com vontade. Porque não?, indaga-se. “Porque é um discurso que parece um bocado disparatado; é um discurso que quer levar à interrogação. Sou de extrema-esquerda, sempre fui, e acho que vou morrer assim. Um dos poemas do livro é uma reflexão sobre Rosa Luxemburgo, que dizia que cada morto é irredimível, e a gente não pode deixar de pensar nisso. Não me quero pôr acima dos outros, como grande defensor da moral, porque, se estivesse numa situação extrema, não sei qual seria a minha reacção, assim como não sei qual seria a reacção de todos os justiceiros. Mas a minha concepção é a de uma pessoa que sabe que vive no mundo, que não está acima do mundo. É uma tragédia, a tragédia em que vivemos sempre.”

Na poesia de Manuel Resende há a tragédia pessoal e a de quem esteve em Sarajevo, Auschwitz, num gueto de Varsóvia ou em Dubrovnik. Valem todas as existências que contam essa relação com o real, que fazem a História, que levam a pensar como será ser o Outro no contexto mais doméstico ou colectivo. Ser o soldado, a mulher, a vítima, o excluído. Por isso há tantas vozes na sua poesia, personagens com uma tremenda profundidade psicológica e filosófica. Algumas têm nomes, por vezes reconhecidos, mas a maioria são anónimas. “Às vezes falo como se fosse uma mulher. O Kaváfis tem isso, tem muitas vozes lá dentro. Mas muitas vezes tento pôr a voz feminina. Há uma coisa curiosa, à sombra do feminismo apareceu o movimento de libertação dos costumes sexuais e isso trouxe tanta coisa na minha geração.” O pensamento parece ir para longe e regressa logo depois. “Quero pôr em questão ideias feitas. Tentar entrar na pele do diferente para tentar chegar a uma unidade. É assim no amor, no sexo. Essa é a grande força do amor, a aspiração a uma ideia completa de vida. Ser uno com o outro.” A pele sensual que pode, mais uma vez, encerrar a tragédia. “Os seios dos poemas também são os seios que podem ter cancro e só a mulher vive isso, esse medo.” Quer tentar chegar perto desse sentimento. Por isso tanto ficciona como deixa entrar pessoas reais. “A maior parte das pessoas que estão nos meus poemas existe. Fantasio um bocado, depois elas entram. Digo-lhes: ‘Entra aí, rapaz, entra, rapariga.’

E depois há também outras personagens que são mais do que isso. Ou outra coisa, uma “coisa esquisita”, uma paródia ao Pessoa. “Eu estava a engendrar uma maneira de publicar poemas sem ser em meu nome e então inventei um.” Chamou-lhe Mika Ahtisaari. É finlandês, nascido em Tempere em 1960. São-lhe atribuídos os poemas finais deste Poesia Reunida. Ele terá vindo para Portugal no final da adolescência e é apresentado como “esquivo em contactos mundanos”, alguém que “tratava da sua horta biológica”, aspectos comuns a Resende, também ele fora da rede de contactos literários, de uma independência pouco comum nas letras, irónico como ele. “Pediu a M.R. que lhe arredondasse o português perro dos poemas que ia produzindo e, no final, teve esta frase: ‘São teus.’” Eis aqui os temas de Mika Ahtisaari por Manuel Resende. “Como uma cereja e, / Comendo a cereja, o meu corpo / Pede as cerejas todas do mundo, / Mas não posso comer as cerejas todas do mundo, / Pois faltam-me as cerejas que comeram / Sócrates, Hipasos de Metaponto / E os velhos camponeses da Gália, / Ou até os escravos de Roma. / Assim, como uma cereja / e deixo o gosto de a comer / Ficar em mim pelo gosto / De todas as cerejas que possa haver. / Uma cereja como todas as cerejas, / uma cereja por todas as cerejas.”

O heterónimo finlandês

Vê esta sua fase, a última publicada, como um regresso a Aberto Caeiro, que, no seu caso, é finlandês. Mas também como um modo de fugir. A quê? “Todos os meus livros acabam com uma despedida, um adeus até mais ver; praticamente todos dizem que não escrevo mais. Estava a fazer uma reflexão profunda sobre tudo isto, sobre a linguagem, sobre a filosofia, comecei a estudar os pré-socráticos e outras coisas engraçadas como a matemática babilónica... e o Mika Ahtisaari apareceu como uma maneira de escapar pela lateral e começar a escrever outro tipo de poesia, menos palavrosa.” Ainda não sabe bem o que é, nem se haverá mais. Sabe apenas que ao fazer um poema está “a afirmar uma aspiração que às vezes não é humana por excelência e a dizer: ‘Tomem lá disto e não me chateiem, eu não vos faço mal nenhum, não me aborreçam agora.’” “É uma afirmação de vida essencial para mim. É um acto de resistência contra toda a iniquidade que existe e não sei se é entendido como isso.” É um acto de resistência? “Para mim é um acto de resistência, sim.”

Contra a tal precariedade, ou apesar da tal precariedade de que falava no início da conversa. “A poesia não é uma coisa garantida. Não sei se vai morrer ou não, mas não há nada que a favoreça neste momento. Mas vale a pena lutar por isso.” Nem que não escreva nem mais um poema, porque depois deste livro não voltou a escrever poesia. “Tenho o projecto de traduzir o Heráclito e está a dar-me água pela barba. Está praticamente traduzido, o problema é a introdução. Tenho medo. Quando o Heráclito fala do logos, para mim é logos, é linguagem apenas.” Uma leitura recente consubstanciou essa sua convicção. Foi sobre o papiro mais antigo escrito na Grécia que apareceu recentemente. “Os papiros gregos desapareceram todos, porque, ao contrário do Egipto, a Grécia tem Inverno e chuva e aquilo estraga-se. Esse papiro, que é de 400 anos antes de Cristo, é curioso. Anda a ser estudado e tem uma coisa engraçada, uma citação do Heráclito que não aparecia nos Fragmentos [sobre a Natureza]. Tem uma linguagem que não se pode dizer que seja do Heráclito, mas os temas são semelhantes. Como dizer que a linguagem é comum, mas o vulgo, as pessoas, os muitos, não a percebe — ou seja, são poucos os que sabem a verdade. E há outra coisa: a crítica à linguagem. Ele põe as coisas assim: agora o Zeus comeu o pénis do Cronos?! Não pode ser, isso é simbólico, tem de se perceber que isso é simbólico. Zeus assenhorou-se do poder, porque o phalos é o poder, portanto assenhorou-se do poder divino do Cronos. Temos de compreender o que a linguagem quer dizer e não o que está lá escrito... Está a ver, é isto que me anda a ocupar.”

São interrogações como esta que também leva para a sua poesia. Ela não está a salvo de nada. Percorrer as páginas do volume que agora permite estar diante de toda a obra de Resende é perceber essa capacidade de englobar uma visão do mundo que não exclui — nem temas, nem formas, nem ritmos. “Experimentei vários ritmos num soneto, porque com a mesma métrica pode-se fazer ritmos muito diferentes.” E cita exemplos, lê alto a partir do ecrã do computador. Há muito tempo que não escreve à mão e nem a ler poesia se refugia no papel. E, na sua voz, ouvimos o erudito, o calão, o sarcasmo e a ironia, a voz da rua e a do filósofo. Parece haver cantigas pelo meio. “A ironia é para manter uma certa distância em relação à minha pessoa, à poesia, deixar-me contaminar. Estou sempre de pé atrás.” Há outra gargalhada, e para explicar o riso convoca à conversa um cantor francês, George Brassens. “Ele era um sujeito com uma cultura de língua muito profunda, capaz de misturar linguagem clássica, da Idade Média com a linguagem do dia-a-dia. É uma coisa saborosa, porque há indivíduos que fazem isso e parecem novos-ricos. Nele era autêntico. E contribui para dar sentido. Acho que — gaba-te, cesta — também consigo. E é então que regressa a Aquilino e a outra paródia que faz ao que também chama “mestre”. “Ele faz parte da minha poesia. Sabe qual é o poema?” Abre na página 41, pede que leia, alto, um poema a que deu o título Libertino Belisário em seu Jardim... e segue cada palavra em mais um texto onde se nota outra proximidade: a da paisagem. “Quando vivia em Santarém, gostava de muito de dar uma volta de carro pelo campo. Via o vale ao fundo, os prados, os campos... Olhava para tantas horas, tanto trabalho ali ao longo de décadas, séculos. Porque a paisagem não foi posta por Deus ali; o que vemos é a natureza humana, a natureza trabalhada pelo homem. É como se o tempo estivesse cristalizado em espaço.”

FotoDANIEL ROCHA

E, acrescente-se, como se cada um dos seus poemas fosse uma montagem de toda a multiplicidade de elementos até ela ganhar o sentido, transmitir a ideia. Como num filme. “É mesmo, vejo o poema quase como a montagem de um filme. Primeiro andamos às voltas e depois é preciso juntar aquilo tudo. Ou como fazer um bolo — é preciso seguir uma certa receita para a massa ficar leve.” Cozinha? “Cozinho sim, e estava agora a lembrar-me que tenho de arranjar uma solução para os falafel. Comecei a fazer há pouco tempo, porque como cada vez menos carne. Há um problema — se a massa tiver um bocadinho de água, quando se deita na frigideira, desfaz-se. É preciso escoar a água toda do grão de bico, mas isso pode resultar numa coisa muito seca. Há uma ciência, não é só misturar. A sabedoria, a mão do cozinheiro é que conta.”

Isso também vale para a poesia? “Não sei, acho que sim. Para mim, a poesia é uma espontaneidade muito bem estudada. Para se ser espontâneo é preciso um bocado de treino.”

E volta-se aos gregos, ao que falta ler. A Odisseia e a Ilíada no original, por exemplo. “Nunca li o Kalevala [poema épico finlandês]. Não li o Gilgamesh! É o primeiro poema! Gostava de ler essas coisas. Há outro livro de que gosto muito e leio aos pedaços, O Homem sem Qualidades, do Musil. Mas penso sempre que posso não ter tempo. Passei a pensar nisso, desde que recentemente passei por uma experiência de quase morte. Sempre que penso em começar um projecto, tenho medo de não ter tempo.”

in: Jornal "PUBLICO"