sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Ailton Krenak_entrevista



“Somos índios, resistimos há 500 anos. 

Fico preocupado é se os brancos vão 

resistir”


Há 30 anos, em plena Assembleia Constituinte, pintou o rosto de negro, declarou guerra aos políticos brasileiros e venceu. Ailton Krenak tem agora 65 anos, já viu muito e o que não viu, recorda-se, numa memória que lhe foi legada pelos antepassados. Líder indígena, assume-se e ao seu povo como sobreviventes de um genocídio. Mas teme pelo futuro dos brancos, aqueles que nunca aprenderam a pisar com leveza a “Mãe Terra” e que por isso poderão acabar “enterrados no próprio vómito”




Quando uma criança krenak nasce, não vai para a creche, fica com a mãe, as avós e as tias. Partilham um quotidiano e um modo de estar na vida. As crianças indígenas não são educadas, mas orientadas. Não aprendem a ser vencedores, porque, para uns vencerem, outros têm de perder. Aprendem a partilhar o lugar onde vivem e o que têm para comer. Têm o exemplo de uma vida onde o indivíduo conta menos do que o coletivo. Este é o mistério indígena, um legado que passa de geração para geração. Ailton carrega no apelido a pertença à sua gente, o povo krenak. E a sua memória mais antiga é muito simples: “Eu não sei viver sozinho.”
Esteve esta semana em Portugal para participar no Fórum Internacional de Festivais de Cinema de Ambiente, em Seia, onde realizadores de mais de 30 países estiveram reunidos e demonstraram preocupação com o rumo político do Brasil e as consequências das eleições presidenciais na preservação da floresta amazónica. Antes de regressar a casa, Ailton Krenak conversou com o Expresso.
Que povo é o seu?
Krenak.
O que quer dizer?
Numa das línguas nativas do Brasil que restaram, kren quer dizer cabeça, e nak é terra. Logo, nós somos a cabeça da terra. Escutando os velhos e perguntando sobre a nossa história, entendi que somos uma das últimas famílias de um povo que, quando D. João VI chegou ao Brasil, habitava uma região conhecida como a Floresta do Rio Doce. Os viajantes se referem a ela como uma floresta tão impressionante como a Mata Atlântica ou a Floresta Amazónica. Era uma muralha natural no caminho do ouro e dos diamantes que vinham do interior. Mas a Coroa precisava de dinheiro e os colonos não eram bobos e pressionaram D. João VI para que libertasse a entrada na floresta. Os nossos antepassados, chamados botocudos, resistiram bravamente a essa investida e a nossa aldeia foi o último lugar a ser colonizado, já tardiamente, por volta de 1910. Nessa altura ainda havia caçadores e recoletores andando nessa floresta. Para acabar com os botocudos, primeiro esses colonos que estavam expandindo as fronteiras internas do Brasil tiveram de devastar a floresta. Vejo um paralelo muito grande, passados quase 200 anos, com o que os brasileiros estão a fazer [agora], determinados a devastar a última grande floresta da bacia amazónica.

SEGREGADOS “NUM CAMPINHO DE CONCENTRAÇÃO”

A conversa começa assim e segue por muitos percursos, sempre sob a sombra das árvores, no meio da cidade. Rapidamente nos deparamos com as eleições presidenciais no Brasil e com a possibilidade de Jair Bolsonaro ser o escolhido pela maioria da população. O candidato já afirmou que “não vai ter nem um centímetro demarcado para reserva indígena”.
Preocupado, mas sereno, Ailton responde: “Em outras épocas, o meu povo já experimentou diferentes tipos de violência. Os botocudos foram aniquilados durante o século XIX e chegaram ao século XX quase extintos, ao ponto de sermos a única família. Os krenak têm memória da guerra descrita numa carta assinada por D. João VI, que se chamava mesmo 'guerra de extermínio à nação dos botocudos do Vale do Rio Doce'. Uma declaração de guerra contra o nosso povo.”
Uma guerra que não se pode resumir ao número de mortos. “A população de indígenas daquela região no final do século XIX era estimada em cinco mil pessoas. Só chegaram 140 indivíduos ao século XX. Era como se caísse uma bomba na Europa e ficassem umas cem mil pessoas para contar a história. Fomos vítimas de um genocídio e não há contabilidade possível. Os krenak voltaram a reunir 120 famílias. Se considerarmos cinco pessoas por família, somos pouco mais de 500. Vivemos dentro de uma pequena reserva, segregados pelo governo brasileiro, num campinho de concentração que o Estado fez para os krenak sobreviverem. Durante o período da ditadura, se constituiu num campo de reeducação, que na verdade era um centro de tortura. Já passamos por tanta ofensa que mais essa agora não nos vai deixar fora do sério. Fico preocupado é se os brancos vão resistir. Nós estamos resistindo há 500 anos.”

DECLARAÇÃO DE GUERRA

Há 30 anos, perante a Assembleia Constituinte que redigiu a lei fundamental da então recém recuperada democracia brasileira, Ailton Krenak pintou o rosto de negro e declarou guerra aos congressistas. Lutava pelos direitos do povo indígena - e venceu. Mas diz que o tempo não se repete e que hoje não voltaria a tomar a mesma atitude. “Na década de oitenta abrimos trilhas para as novas gerações buscarem o reconhecimento dos direitos das populações originárias, os indígenas, e para conscientizar a população da importância de continuarmos tendo rios, montanhas, paisagens, florestas como recursos capazes de se refazerem ao longo do tempo e como uma riqueza a ser partilhada pelas gerações futuras. É um tipo de entendimento da terra como a nossa casa comum, mas o que tem prevalecido é a ideia de que diferentes lugares do planeta podem oferecer posicionamentos estratégicos para algumas potências ou ser simplesmente fonte de suprimento daquilo que estas potências querem controlar. E pequenas nações como o Brasil e a maior parte dos países da América Latina, ex-colónias, não tiveram sequer o tempo necessário para consolidar um pensamento acerca de si mesmos. Não tenho nenhuma ilusão acerca do futuro destas pequenas nações: ou vamos experimentar grandes transformações globais na relação entre os povos ou estas pequenas nações vão ser cada vez mais territórios de disputa e enclaves das potências que têm força para decidir o jogo, que não precisa nem de ser na ONU, é decidido no mercado.”
Nações pequenas? O Brasil? “O Brasil é pequeno no sonho. Sonha pequeno. Um território que não esboça uma visão soberana pode ser grande geograficamente mas vai continuar sendo pequeno na sua expressão no mundo. A Amazónia é a maior floresta tropical do planeta que ainda tem condição de ser reguladora do clima e o Brasil quer derrubar a Amazónia. Por que eu vou achar o Brasil grande? O Brasil é menor do que a Amazónia. Eu queria que ele fosse maior.”
E como aquele país se limitou desta forma? Para Ailton, “a colonização que a Europa fez do resto do mundo desde os séculos XV e XVI imprimiu uma maneira de dominação que é como um vírus, é capaz de se auto-reproduzir, inclusive nas colónias”. E “se o Brasil foi inseminado com esta ideologia colonialista, ele vai ser capaz de reproduzir isso infinitamente, enquanto não quebrar esse ciclo colonial. O projeto político de criar uma nação chamada Brasil é tão pequeno que chega a ser menor do que a Amazónia.”

PISAR COM LEVEZA


Ailton Krenak não se esquece de um texto de 1865, atribuído a um chefe indígena da América do Norte quando abordado por um representante do governo de Washington, avisando que queriam comprar as terras dos índios. Não se esquece também de que a resposta do chefe Seatle foi de que os índios não podiam vender a terra porque a terra é maior do que os índios, é a mãe deles. “Disse aos brancos que, se algum dia eles herdassem aquela terra, que a pisassem suavemente, porque se não aprenderem a respeitar, vão acumular detritos sobre detritos até que vão acordar enterrados no próprio vómito.” Reconhece aquele texto como o primeiro manifesto ambiental do século XX, “uma ideia partilhada pelos povos que vivem nas ilhas do Pacífico, nos Andes, nas montanhas dos Himalaias, porque estes povos originários têm isso no coração, antes de ter na cabeça”. Para completar: “Talvez o que as nossas crianças aprendem desde cedo é a pôr o coração no ritmo da terra.”

Como um círculo, a conversa volta ao início, à génese: à memória e à sua partilha. Das muitas formas de as novas gerações terem acesso ao passado. Homem de longos silêncios, Ailton Krenak emudece por alguns momentos, quando questionado sobre como o legado de um povo é transmitido às gerações seguintes. “Quem dera que eu pudesse responder a uma pergunta dessas. Ao longo da minha vida inteira vou experimentar [as formas] como transmitimos aos nossos filhos e filhas os valores que nos distinguem de uma sociedade predatória, individualista e que incentiva desde cedo as crianças para a competição, a dominarem-se uns aos outros”. Para concluir com outro questionamento, ainda mais denso do que a primeiro: “Parece que o mandamento principal dessa civilização é 'dominai-vos uns aos outros', contrariando aquele outro que seria 'amai-vos uns aos outros'. Estamos nesta dualidade e podemos escolher qual o mandamento mais interessante para ensinarmos aos nossos filhos.” E Ailton despede-se de nós e do Sol, que também começa a partir. “Te mum tepó itxá, kren nabã tepó erehé”*
* “Oh Sol, você já tá indo? Eu abaixo a minha cabeça para você.”
in: jornal "Expresso"

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

André Gil Mata_Cinema





"“Estamos sempre à procura de coisas que nos distraiam para não pensarmos em nós próprios”






O medo e o frio entranham-se e andam de mãos dadas. Entre janeiro e fevereiro de 2017, o realizador André Gil Mata enfrentou as baixas temperaturas do inverno na Bósnia para filmar a absoluta solidão de um homem no meio da guerra. Numa obra lenta e contemplativa, somos levados por paisagens nevadas que nos dizem que as noites não são apenas perigosas - são muito tristes. Há um velho que carrega às costas a memória e a loucura de todas as guerras enquanto guarda o terror nos olhos da criança que já foi. Apesar de tudo, continua a caminhar, continua a sua missão

No filme “A árvore” temos dois tempos. O tempo de uma criança, na Segunda Guerra Mundial, e o tempo de um velho, na guerra da Bósnia nos anos 90. No tempo desta rodagem, em 2017, a guerra ainda é palpável em Sarajevo?
Foi uma das coisas que mais me marcou. Tanto quando cheguei à cidade, como quando saí. Quando cheguei, teve um impacto que passa muito pela arquitetura e pelos edifícios, que ainda hoje têm os buracos das balas e dos projéteis. Vês edifícios completamente destruídos e isso tem um impacto muito grande. Cheguei num inverno que depois foi muito longo. Nevou até maio e esses meses para mim foram marcantes. Estava a chegar a uma cidade onde nunca tinha estado e sabia que tinha de lá passar os próximos três anos. Senti algum medo e alguma ansiedade, e o facto de o inverno ser assim tão rigoroso faz com que às 18h já não vejas pessoas na rua. Como sou noctívago, acabei por caminhar muito a essa hora e foi estranho ter a sensação de estar numa cidade que parecia não ter ninguém, quase como uma cidade fantasma. Cheia de neve e sem ninguém a não ser os cães. Lá há cães, não é como cá [Portugal] que são retirados da rua.
Sempre quis ter um cão no filme?
O cão não apareceu imediatamente na minha cabeça, mas a determinada altura tornou-se um elemento importante e o velho não seria o mesmo personagem sem o cão. Aquele velho teria de ter uma relação de sentimento por alguém e, como vivia isolado, essa relação teria de ser com um animal. Antes tinha muito medo de não conseguir filmar a Arna [nome da cadela], mas não foi difícil. Nós rodámos praticamente durante a noite e sempre que ela entrava os donos estavam presentes. E tínhamos uma regra: só o Petar, ator principal, é que falava com ela, para não dispersar a atenção.
Esta é a sua segunda longa-metragem em Sarajevo. Não é difícil fazer cinema numa língua que não se domina? 
A dificuldade prende-se mais com conhecer ou sentir os espaços, as pessoas. Não é tanto uma barreira linguística, mas sim uma barreira de afeto. Quando cheguei a Sarajevo pareceu-me quase impossível filmar. Depois, à medida que o tempo foi passando, essas barreiras foram desaparecendo. O facto de não saber a língua deu-me de certa forma uma liberdade maior, porque tive de delegar isso em alguém, um assistente que soubesse a língua e estivesse atento. Por um lado, deu-me uma liberdade muito maior para estar atento a outras coisas. Se fosse em português, com diálogos, estaria muito preso a essa questão. Acho que até me ajudou a dar liberdade e a confiar nos atores, confiar neles sem estar a impor-lhes a minha forma de como as coisas devem ser ditas. Já tinha sentido essa liberdade no ‘Como me apaixonei por Eva Ras’ [o primeiro filme que André Gil Mata realizou em Sarajevo] e voltei a sentir isso agora.
Os primeiros filmes do André são sobre geografias íntimas, que conhece bem. Podemos dizer que Sarajevo se tornou um desses territórios? 
Sim, Sarajevo tornou-se uma geografia íntima. Foi a única forma de conseguir viver lá aquele tempo [André Gil Mata passou três anos em Sarajevo a fazer doutoramento em cinema]. Mas sim, o ‘Como me apaixonei por Eva Ras’ é filmado num lugar que se tornou íntimo para mim, com uma pessoa que se tornou das mais íntimas na minha vida lá.


FOTO SANJA VRZIC

Este filme só podia ter sido rodado naquele local? 
Podia ter sido rodado noutro lado qualquer, mas para mim chegou um momento em que só fazia sentido ser rodado lá, porque eu não conseguia imaginar transportá-lo para outro lugar. Se calhar por essa razão de afetividade. Se fosse transportado para outro lugar, deixaria de ser aquele filme e passaria a ser outro.
Como encontrou aqueles atores?
O mais velho é pai de uma amiga minha. Não é ator. Em jovem foi realizador, depois isolou-se e neste momento é pescador na costa da Croácia. Pesca para ele e para os vizinhos. O miúdo é filho de amigos de amigos. Quando o filme terminou, disse-me que nunca mais faria cinema na vida, mas em Berlim, na estreia do filme, voltei a encontrá-lo e aí já estava com mais vontade de voltar [risos].
Durante o filme, o espectador apercebe-se da guerra apenas pelo som dos tiros e das bombas. Foi sempre essa a intenção ou chegou a pensar mostrar a guerra?
Na minha cabeça foi sempre assim. Acho que a questão maior é que a imagem - não só daquela guerra mas de todas as guerras - está muito banalizada. Hoje, se ligarmos o telejornal vemos imagens de guerra e o filme que eu tinha na cabeça não era um filme sobre uma guerra específica, mas mais a questão de como é que a personagem lida com uma guerra numa idade em que já passou por outra guerra e, se calhar, já nem acredita na espécie humana. De certa forma, o velho tem de levar com aquilo e aturar essa loucura da sociedade. E eu sempre tive a certeza que as únicas figuras que apareceriam seriam a mãe, ele criança, ele mais velho e o cão. Acho que assim conseguimos falar sobre esse estado, sobre essa loucura que é a guerra, sem dispersar.
E o espectador acompanha o personagem em silêncio durante grande parte do filme...
Sim, este é um filme sobre alguém que está só no meio da guerra. Se estás a tentar filmar essa solidão, é impossível que a pessoa esteja a falar, a não ser que esteja a falar com ela própria, mas isso nunca me passou pela cabeça.



Apesar dessa solidão, o velho recolhe vários garrafões porta a porta e depois segue em direção a uma fonte. Há aqui uma ideia de serviço à comunidade e de contacto com o outro, não há?
Sim. O que mais me marcou nos amigos que fiz em Saravejo, amigos que passaram pelo cerco da cidade ou que passaram pela guerra noutras cidades da Bósnia, é que as pessoas voltaram de repente a ter esse sentimento, ou essa necessidade, e precisavam umas das outras. De certa forma, durante a guerra, os vizinhos voltam a juntar-se. O que eu sinto é que nós já não conhecemos os nossos vizinhos nem falamos com eles. Chegamos a casa ao fim do dia e não temos qualquer relação com o espaço em que vivemos. Mas nos períodos críticos, as pessoas têm de se juntar para sobreviver. A minha ideia, se calhar um pouco ingénua, porque não vivi a guerra, é que eu posso fazer uma tarefa, tu outra e um vizinho outra. O sentido de comunidade para mim seria esse…. A tarefa daquele velho é ir buscar água e os vizinhos certamente teriam outras. Além disso, é difícil viveres em Sarajevo e as pessoas não te falarem sobre a guerra. Muitos dos amigos que fiz disseram-me que tinha sido o período mais feliz da vida deles. É estranho ouvir isso, mas chega uma altura em que começas a entender. A nível artístico nunca houve uma pulsão artística tão grande.
Tinha que ver com a intensidade com que viviam?
Sim, porque depois parece que nada interessa mais. Tudo deixa de fazer sentido, imagino eu, porque vives um período com uma intensidade tão grande que depois nada se equipara. A seguir, as pessoas são incapazes de produzir a esse nível. E certamente essa intensidade cria momentos que as pessoas nunca mais esquecem.



Há vários planos-sequência no filme. Qual era a intenção?
Tem que ver com a liberdade para te relacionares com o personagem. Na vida precisas de tempo para criar laços de afeto com alguém e no cinema o que podes trabalhar é essa questão de dilatar ou comprimir o tempo. As coisas têm de ser dilatadas - no sentido de fazeres demorar a ação mais tempo do que o tempo que ela realmente leva - para o espectador sentir uma relação mais profunda com o personagem.
Existe também um momento de sonho/pesadelo e aí reconhecemos uma veia tarkovskiana. 
Para mim, esse momento tinha de existir por ser um momento de transição: deixas de acompanhar o velho e passas a acompanhá-lo em criança. E o único lugar onde tens efetivamente dois tempos é através da memória ou do sonho. Para mim, aquele plano é quase uma reminiscência bela para o velho, que se lembra de si próprio em criança a andar de trenó perto da mãe e, simultaneamente, um pesadelo da criança por se lembrar da mãe que ele procura.
O filme é uma jornada de resistência e de resiliência. O espectador acompanha, no silêncio da sala de cinema, os personagens na sua solidão absoluta até chegarmos ao momento de encontro e de diálogo. Aí ouvimos: “resiste”, aconteça o que acontecer resiste, e sobrevive. Hoje ir ao cinema é também um pouco isso, não é? Uma escolha que se faz, sem telemóveis, sem conversas, um encontro absolutamente a sós com um filme? 
É sempre difícil para um realizador pensar no que nos leva a fazer as coisas. Mas há coisas em que acredito e que se calhar se refletem nos meus filmes. Uma dessas coisas surgiu na minha adolescência, pois tive a possibilidade de ir regularmente a um cineclube em Santa Maria da Feira. E esse era um momento em que sentia que me encontrava de certa forma comigo mesmo, no cinema. Quando digo encontrar é poder estar num sítio com pessoas à volta, mas com uma espécie de regras de jogo - sentar, não falar com a pessoa que está ao lado durante aquele tempo - e que te obriga a estar contigo mesmo. Acho que antes tínhamos isso através das religiões, no nosso caso íamos à missa e não podíamos falar. Estávamos só a ouvir e de certa forma o exercício era o de refletir sobre aquilo. De outra forma, mas na mesma linha, o cinema pode dar-te isso, mas sem impor nada. Confrontas-te contigo sem haver uma imposição do outro lado. E eu acredito mesmo nessa possibilidade de o cinema ser alguma coisa em que tu podes pensar nos erros todos que tens feito na tua vida - até porque se calhar estás a ver em espelho os erros de personagens que estão na tela e que te fazem pensar nas coisas. E se calhar é por isso que tens as salas de cinema vazias. Hoje ninguém quer ser, ou tem muito medo de ser, confrontado consigo mesmo. Estamos sempre à procura de coisas que nos distraiam para não pensarmos em nós próprios.
“A Árvore” (104min) está em exibição até 10 de outubro nos cinemas da Trindade (Porto), Nos Alma Shopping (Coimbra) e Ideal (Lisboa)."

in: jornal "Expresso"

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

"Novo" Aeroporto...(?)



"Opinião



MARCO CAPITÃO FERREIRA
O Montijo é uma má solução: vamos a ela?


03.10.2018 às 8h20


Portela mais o que quer que fosse – Montijo, Alverca, Sintra, até havia quem alvitrasse Beja – nunca seria uma solução boa para o problema, em tempos objeto de acesa discussão, hoje largamente pacífico, de que Lisboa não tem, hoje, um aeroporto capaz de dar resposta às necessidade do país e da região.

Em abril do ano passado, escrevi por aqui que o Montijo é uma má solução.

É uma má solução ambiental. É uma má solução aeronáutica. É uma má solução para a mobilidade da Grande Lisboa porque vai pôr milhares de carros e autocarros nas estradas e em eixos sobrecarregados, cria novas zonas de ruído em meio urbano, e, aposto já aqui, é uma solução que não dura nem 20 anos.

É curto para um “novo” aeroporto. Como já aqui escrevi, “é certo que o país anda a discutir o assunto Aeroporto de Lisboa há décadas. Mas também é verdade que a solução Montijo nunca teve este protagonismo. Estudámos a Ota, Rio Frio, Alcochete. Estudámos tudo menos o que vamos fazer? Isso não tem ponta por onde se lhe pegue.” Seguiu-se o apelo, talvez um nadinha otimista: “Podemos, seguramente, esperar mais uns meses e fazer as coisas bem feitas.”.

Os meses vieram. O resto não. A Vinci, dona da ANA e acionista com 37,3% da Lusoponte (mas já sabemos que sobre isso a nossa imprensa não fala), vai ficar com mais um aeroporto por meros mil milhões, e ganha mais uns muitos milhões ano em portagens ali ao lado. Deve dar para pagar três vezes ou quatro as obras. O costume, portanto. Má solução? Para os franceses não. A discussão pública, aberta, franca, ou o que por ela passou já lá vai e ficamos na mesma. Montijo, pois claro.

Vamos fingir que o Montijo não é, atualmente, a mais importante base da Força Aérea na zona de Lisboa, e o coração da componente aérea do nosso sistema de busca e salvamento? Vamos fingir que não vemos que com duas pistas, só uma das quais interessa para o que pretendem militares e civis, a corda vai partir para o lado dos mais fracos? Aparentemente, vamos.

Antes uma má decisão que nenhuma, dizem-me. Uso a Portela 20 ou 30 vezes por ano. Não preciso que me expliquem. Eu sei, e sinto nos meus ossos doridos de estar sentado no chão do terminal, que alguma coisa temos de fazer. Só não me convencem que seja preciso ir para o Montijo e, ainda por cima, dar o Montijo à ANA/Vinci até 2062 em troca de um investimento de mil milhões de euros.

Eu sei que o anterior Governo lhe entregou 10 aeroportos do país por três mil milhões mas, quer dizer, até por isso: não chega já? Não há um nadinha de vergonha? Não há. Conhecemos demasiado bem esta história: é por causa dela, e de tantas outras iguais que, dizem-nos, não se pode aumentar pensões. Ou baixar o IVA da eletricidade. Ou outra coisa qualquer que não fosse dar mais aos que já tanto têm. Não se pode? Mas isto, isto é perfeitamente natural. Meus caros amigos, vão gozar com outro. Aquele abraço."


in:jornal "Expresso"

Zeca Pagodinho: "O Samba"_ MTV2003_Acústico





"Zeca Pagodinho: "O Samba é que é a verdadeira música do Brasil"


Verdadeira lenda da música brasileira, o cantor Zeca Pagodinho está de regresso a Portugal para dois concertos muito especiais, para comemorar com os fãs nacionais os 35 anos de carreira. O primeiro é já hoje à note, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, seguindo-se, no dia 10, o Coliseu do Porto



Zeca Pagodinho

© DR
Miguel Judas03 Outubro 2018

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Coliseu de Lisboa
Coliseu do Porto


Foi, em tempos, classificado como "uma das poucas unanimidades nacionais" no Brasil, onde poucos reconhecerão à primeira o nome de Jessé Gomes da Silva Filho. Pelo contrário, se numa qualquer rua do Rio de Janeiro, São Paulo ou São Salvador, for mencionado o epíteto Zeca Pagodinho o mais certo é a o rosto do transeunte iluminar-se num largo sorriso, possivelmente seguido pelo trautear de um dos seus muitos clássicos, acompanhado, até, de uns improvisados passos de samba. Afinal, são já 35 anos de carreira, alicerçados em mãos de duas dezenas de discos, ao longo dos quais, de uns e de outros, tornou a música mais popular do Brasil num verdadeiro fenómeno pop, na aceção mais transversal e abrangente deste anglicismo. Foi, por exemplo, o primeiro artista da área do samba a gravar um espetáculo acústico para a MTV Brasil, em 2003, quando em apenas músicos e bandas da área do pop-rock o faziam. Pelo caminho, vendeu mais de 12 milhões de cópias e conquistou 4 Grammys latinos, sempre, claro está, na categoria de Melhor Álbum de Samba e Pagode.

"Não vejo as coisas assim, só faço a minha arte e tenho tido a sorte de as pessoas gostarem dela. De bebés a velhos, todos cantam das minhas canções e isso é um privilégio para qualquer artista. Devo isso ao samba. Tem o bossanova e o MPB, mas samba é samba, é a verdadeira música do Brasil", refere Zeca Pagodinho ao DN, dias antes de regressar a Portugal para dos espetáculos muitos especiais, que vão servir para celebrar com os fãs deste lado do Atlântico os tais 35 anos de carreira. "É isso mesmo, vão ser 35 anos de canções numa única noite. Um apanhado desde o início até hoje", explica o cantor, nascido há 59 anos no bairro carioca de Irajá, não conseguindo evitar um sincero desabafo: "Pôxa, já passaram mesmo 35 anos".

Um dos maiores desafios para este espetáculo foi precisamente o de selecionar os temas. "Não foi fácil, porque tive de resumir mais de 500 canções a apenas 15. Para festejar isso como devia teria de ser um dia inteiro de show", diz com humor. Do alinhamento farão com toda a certeza clássicos como Jura e Judia de mim, imortalizados nas novelas da Globo, mas também Coração em desalinho, Brincadeira tem hora, Casal sem vergonha, Deixa a vida me levar, o mais recente êxito Ser humano e, claro, o hino Deixa a vida me levar, o tema escolhido por Scolari para festejar o pentacampeonato do mundo, em 2002, ou mais recentemente pelo ex-presidente Lula da Silva, para as cerimónias fúnebres da mulher, Letícia.

Pelo meio haverá também tempo para homenagear mestres como Cartola, Elton Medeiros ou Ivone Lara e Délcio Carvalho, os autores do icónico Sonho Meu, que Zeca Pagodinho convidou um dia Maria Bethania para cantar com ele, dando assim início a uma amizade entretanto transposta também para o palco, com uma digressão conjunta que tem sido um verdadeiro sucesso no Brasil. "Está a ser muito legal essa amizade com a Maria Bethania. Gostaria muito de apresentar esse show também cá, mas isso é com vocês, porque eu gosto sempre muito de voltar a Portugal, é realmente um sítio onde me sinto em casa", confessa o cantor, cujos bisavós, "de pai e de mãe", são portugueses. "já não vou há algum tempo ao Porto e vai ser bom regressar lá agora, mas Lisboa é a minha casa em Portugal", assume. Em especial o restaurante Pinóquio, mesmo ao pé do Coliseu, onde um dia entrou por acaso, para beber uma cerveja. "O António, o Barbosa e o Jorge são hoje a minha família portuguesa. Se não estiverem a trabalhar, espero que consigam ir ao concerto".



Zeca Pagodinho

Coliseu dos Recreios, Lisboa. 3 de Outubro, quarta-feira, 21h. €30 a €50

Coliseu do Porto. 10 de outubro, quarta-feira, 22h. €20 a €60"

in: jornal "DN"

Elias diá Kimuezo_ 84 anos do Rei


AQUI: escrever e' triste.. "ps – Maravilha de guitarras com nostalgia de musseque, teclado Yamaha a rasgar, percussão e sopros. Ah, e o resplandecente ombro nu da cantora do trio de vozes."

.....

" Ressurreição":