Leia ou releia a entrevista a Gabriel Magalhães, professor universitário, especialista em língua e cultura espanhola, escritor e cronista do diário catalão La Vanguardia
Poucos portugueses conhecem Espanha como Gabriel Magalhães. E não é apenas por ser professor de língua e cultura espanhola na Universidade da Beira Interior. Nascido em Angola há 52 anos, passou boa parte da sua vida no País Basco, na Galiza e na Extremadura, tendo-se doutorado e dado aulas em Salamanca – para só depois se fixar na Covilhã. Lê e escreve com desenvoltura nos principais idiomas da Península Ibérica e é autor de dez livros que vão do ensaio à ficção. Desde 2009 que assina uma crónica regular no diário catalão La Vanguardia.
É verdade que se considera um “cristão católico”, “de esquerda” e um “agente duplo peninsular”, como já assumiu em entrevistas a jornais espanhóis? O que é ser tudo isto em simultâneo?
Tenho a sorte de ter um pai vertiginoso, que me ofereceu, em criança, uma biografia que passou por dois países: Portugal e Espanha. E não se foi mais longe porque havia o saudável travão da minha mãe. De resto, as malhas que o império tece fizeram-me nascer em Angola, onde estive apenas uns meses. Acho perigoso que um português seja só português de Portugal: corremos o risco, se tal acontecer, de ficar com uma biografia mesquinha, agachada. Um português a sério, creio, vai tomando o tamanho do mundo, ou pelo menos de uma parte do mundo. Sinto-me bem no meu país, na Península Ibérica e na Europa. Foi este o mapa que consegui construir, com a minha esposa e a minha filha. Quanto ao meu cristianismo católico, para mim ele significa uma aventura espiritual que dá uma particular energia a valores como a liberdade, o amor solidário, o interesse pela cultura, o desejo de paz, a valorização da mulher. Passei pela esquerda, é verdade, mas hoje em dia já não acredito nessa geometria, nem na da direita: gosto da política que usa o compasso do consenso e da seriedade, da transparência e da boa vontade.
Não defende o projeto de unificação política entre Portugal e Espanha por entender que o iberismo se trata de um conceito anacrónico, equivalente ao abraço de dois pugilistas exaustos. Em contrapartida, é um apologista da peninsularidade. Pode explicar melhor em que consiste esta última?
Trata-se de amar o outro ibérico. De desfrutar da riqueza cultural da nossa Península e ilhas adjacentes. Na Idade Média, havia um rei de Castela e Leão, Afonso X, que escreveu os seus poemas no português daquela altura, que era o galego-português. Camões redigiu poemas em castelhano e Torrente Ballester, um conhecido escritor espanhol, disse-me uma vez que, para ele, o autor de Os Lusíadas tinha criado os mais belos sonetos da língua de Cervantes. No fundo, a Península Ibérica pode ser uma festa para todos nós, um roteiro de felicidades, sem que isso implique um projeto político concreto. E tudo isto pode estragar-se quando deslizamos para esse neoimperialismo que, de uma forma latente, por vezes é o iberismo.
Há pouco mais de um ano, quando lançou o livro Los españoles (não editado em Portugal), mostrou-se particularmente otimista quanto à capacidade de convivência dos espanhóis, apesar das tensões permanentes. A atual crise por causa da Catalunha fê-lo mudar de opinião?
Escrevi esse livro para propor esse otimismo. Para o incentivar. Para tentar que a Espanha não regressasse aos seus demónios. Há alguns anos que se via esta tempestade a formar- -se no horizonte. Aquilo que está a acontecer nestas últimas semanas é muito grave. Do lado “espanholista”, cada vez têm mais força os radicais. E o mesmo se tem passado do lado “catalanista”. Procedendo assim, corremos o risco de despertar os dinossáurios mais horríveis do parque jurássico da cultura espanhola. Trata-se de um desacerto, cometido por ambos os lados do conflito.
Na sua última crónica para o La Vanguardia, publicada antes do referendo de 1 de outubro, refere a incapacidade de diálogo entre Madrid e Barcelona. Estamos perante um problema tribal entre “espanholismo autoritário, disfarçado de constitucionalismo” e “catalanismo obsessivo e hipnótico”?
Há um certo lado negro da globalização que precisa de deitar abaixo tudo o que se lhe opõe. Começou por eliminar a União Soviética, que caiu como um castelo de cartas mal jogadas, e agora atira- -se à Europa. Com os seus direitos sociais, a sua intensa liberdade, a sua cultura, ela é um “mau exemplo”, digamos assim. E estes tribalismos, sejam eles britânicos, “catalanistas”, “espanholistas”, funcionam como cargas explosivas que vão deitando o edifício europeu por terra. Não acontece só em Espanha. Está a dar-se em várias zonas do continente.
A crise económica e a austeridade, a par da corrupção, podem ter contribuído para o atual estado de coisas?
Sim, sem dúvida.
Já escreveu que, em Espanha, “as revoluções perdem-se quase sempre nos seus próprios labirintos”. Isso significa que a causa independentista catalã está condenada a fracassar, a exemplo do que sucedeu em 1934?
Neste momento, a causa independentista catalã é um movimento de massas, com perto de 2 milhões de pessoas num censo de 5 milhões e meio de eleitores. Não é a maioria, mas estamos perante muita gente e muito ativa. De resto, particularmente bem organizada, como é apanágio da Catalunya. Trata- -se, pois, de uma revolta que quer ser uma revolução, funcionando com base na força de um grupo social que tenta impor-se e arrastar os restantes. Não é possível saber o que vai acontecer: qual o resultado deste desafio. Contudo, não deixa de ser arrepiante verificar que, na Europa do século XXI, criada para o diálogo, a negociação e a concórdia, ainda se joga ao póquer com o destino dos povos. E esta crítica tanto vale para o lado “catalanista” como para o “espanholista”: há muitos anos que ambos os lados se deveriam ter sentado à mesa, com boa fé, para resolver este problema.
Estarão os espanhóis ainda a pagar o preço de uma guerra civil mal enterrada e uma transição democrática mal gerida e pouco transparente?
É verdade, em boa parte, aquilo que diz embora as palavras que usa na sua pergunta sejam demasiado duras e até injustas. A Constituição de 1978 tem mérito: foi aquilo que era possível fazer naquela altura. Foi votada em referendo nacional. Trata-se, sem dúvida nenhuma, de uma carta magna democrática. Mas devia ter sido atualizada: passaram quase quarenta anos e só se fizeram duas reformas, uma delas para alterar apenas duas palavras. Sabe quantas revisões sofreu a Constituição portuguesa, sendo nós um país sem diversidades nacionais internas? Sete. Sete contra duas. O contraste entre estes simples números mostra o erro político estrutural que foi cometido no país vizinho: o “espanholismo” encastelou-se num texto constitucional que lhe dá certas vantagens, não tendo tido a generosidade de o atualizar, apesar de todas as transformações que a vida e as culturas dos espanhóis foram sofrendo.
Tem amigos dos dois lados da barricada. Consegue manter a equidistância face a esta crise? Já admitiu que, por conviver com a cultura catalã, também se sente humilhado e incompreendido. A violência policial de 1 de outubro despertou em si algum sentimento soberanista?
Não é uma questão de equidistância estratégica. Trata-se de manter uma cultura do diálogo em todas as direções: de falar com todos, quando já ninguém quer falar com ninguém. Quanto às humilhações que refere, aquilo que sempre me doeu muito foi a falta de reconhecimento da cultura e da grandeza da Catalunya por parte de um setor da sociedade espanhola, que menospreza essa parte do seu próprio país. Acho isso tristíssimo, injusto, mesquinho. De resto, é algo que tem alimentado o independentismo. Quanto às cargas policiais, elas sinalizam o ponto a que se chegou, a gravidade deste momento, os monstros da história que estão a acordar de novo. Na Europa do século XXI, não é assim que os problemas se resolvem: aquilo é inaceitável como caminho para o futuro.
O conceito de “Espanha plurinacional” reentrou no debate público espanhol mas tudo indica que vários dirigentes políticos se recusam a admitir que o país é constituído por diferentes nações. Será que o futuro e a paz passam por outros protagonistas e novas elites que reconheçam as diferentes identidades e as “várias formas de se ser espanhol”, para usar novamente uma expressão sua?
Noto, em primeiro lugar, que essa ideia já está apontada na Constituição 1978, que, no seu artigo 2, fala de “nacionalidades”: não foi é desenvolvida. Sim, esse é o futuro: seguir esse caminho. Mas isso, esse horizonte, exigiria uma mudança completa de atitude por parte dos dirigentes. A Espanha é um belo projeto, uma peça de teatro maravilhosa, mas que não tem, neste momento, atores que estejam à altura de a representar.
Em 2014, escreveu Como sobreviver a Portugal? (Editorial Planeta). Admite publicar uma obra intitulada Como sobreviver a Espanha?
O livro Los españoles já era isso. Não tinha esse título, mas o sentido daquelas páginas já passava por aí: como construir um país que não seja uma nação oscilando, pendularmente, entre a sua alegria e a sua tragédia.
Ainda acredita que o nosso País é menos igualitário que Espanha? O rendimento médio de quem vive em Madrid ou em Barcelona é praticamente o dobro de qualquer habitante da Andaluzia e da Extremadura...
Quando falei em Espanha como país igualitário, referia-me à tendência para a proximidade, a convivência, mesmo para uma intimidade que um português pode sentir como excessiva e que é típica do espanhol. Por outro lado, a desigualdade em Portugal não deve ser medida apenas entre um habitante de Beja ou de Freixo de Espada à Cinta e alguém que mora no Porto ou em Lisboa embora o interior seja efetivamente desfavorecido. Essa desigualdade deve calibrar-se, também, entre aquele que fica num beco sem saída tão escuro que se vê obrigado a partir – e aquele que pode permanecer no rame-rame da pátria. Essa pátria marcada pela austera, apagada e vil tristeza de que falava Camões, mas que, no fundo, representa uma vidinha cómoda. Portugal não é um país para todos os portugueses. Pode chocar dizer isto, mas muitos dos que partiram percebem perfeitamente aquilo que estou a dizer. Nós também temos os nossos infernos. Essa é a desigualdade maior e crónica do nosso país.
“Ao lermos Camões, percebemos que Portugal é uma fantasia. Ao lermos Cervantes, percebemos que Espanha é a realidade”. Assume a autoria desta frase?
Se procurarmos a Ilha dos Amores camoniana nos mapas da Google, não a vamos encontrar. Se quisermos dar com o assento de batismo do Álvaro de Campos, também não teremos muita sorte. Portugal baseia-se muito neste encadeamento de fantasias, que depois acontecem também em coisas mais quotidianas: os azulejos, por exemplo, disfarçam as paredes. Os nomes das coisas suavizam em parte essas mesmas coisas, dando- -lhes um halo mágico. Pelo contrário, em Espanha, Cervantes, através do Quixote, propôs àquela gente que, sem desvalorizar a grandeza da fantasia, olhassem para o lado concreto do mundo. Para o lado objetivo da realidade. Talvez a minha frase seja demasiado radical, mas creio que continua a ter um fundo de verdade."
O nacionalismo espanhol é muitas vezes ignorado, como se não existisse. O processo catalão tornou-o mais visível. Histórias de uma batalha pela hegemonia disfarçada de normalidade, no fim de semana que os espanholistas pretendem tomar as ruas de Barcelona
Já foi ameaçado várias vezes de morte, a última no dia em que falou com o Sol. Jordi Borrás é um fotógrafo e ilustrador catalão, neto de um artilheiro que combateu pela República, que se exilou em França e foi guerrilheiro antifranquista. Tem um livro admirável sobre o espanholismo na Catalunha, PLVS Vultra – Una crònica gràfica de l’espanyolism a Catalunya.
Este domingo os unionistas defensores da unidade de Espanha vão sair à rua para tentar contrariar o tsunami independentista que tomou as praças e terras da Catalunha. Nas ruas vão estar partidos parlamentares como Ciudadanos e PP, mas também uma série de grupos e agrupamentos políticos de extrema-direita como Vox, Alternativa Para a Catalunha, Movimento Social Republicano e muitos grupos neonazis. São, aliás, os mais extremistas destes que têm feito, quase sozinhos, a defesa de Espanha una e indivisível nas ruas da Catalunha. Em 3 de outubro, dia de greve geral, quando mais de 800 000 catalães gritavam «as ruas serão sempre nossas», 500 neonazis contra-atacavam à porta de um quartel da Guarda Civil.
Mariano Rajoy, Filipe VI e o líder dos Ciudadanos falam de uma maioria silenciosa de catalães que quer ser espanhola para sempre, mas que está fechada em casa. Nem as sondagens, nem as votações dão essa certeza: há 26,4% de pessoas que votaram nos partidos assumidamente espanholistas – PP e Ciudadanos –, nas eleições catalãs de 2015; contra 48% de partidos independentistas, como a coligação Junts per el Si e a CUP. No meio ficaram os 9% do ramo catalão do Podemos e os 12,72% dos federalistas do Partido Socialista da Catalunha.
O livro de Jordi Borrás pretende mostrar por imagens e por textos quem são os 20% que as sondagens dizem que se opõem a um referendo e como este conflito entre o nacionalismo espanholista e os catalães tem raízes não só no sangue como até nas pedras.
Quando passamos pela cidade velha, Jordi fala de uma zona onde, depois dos Borbouns terem invadido Barcelona, obrigaram os seus habitantes a destruir as suas casas pedra à pedra, «para mostrar quem mandava». O livro não é sobre o passado, mas sobre o presente que se joga neste momento nas ruas, mas mostra que em muitos aspetos da sociedade e história catalãs essa guerra continua presente: quando a língua catalã esteve proibida, quando exibir a seynera, a bandeira catalã, era crime. E até nas pequenas grandes coisas, como quando o Futebol Club de Barcelona foi fundado em 1899, seguiu-se rapidamente como resposta a Sociedade Española de Futebol, em 1900, que oito anos depois passou a Clube Desportivo Español, ao qual o rei Afonso XII concede o qualificativo de «Real». No prólogo deste livro, Matthew Tree escreve o seu testemunho: Em 1978, três anos depois da morte de Franco, passou seis meses num país que até há pouco tempo não sabia que existia, a aprender uma língua que até então pensava que era uma espécie de dialeto. Catalunha não tinha recuperado governo próprio e a Guarda Civil comportava-se como se a sociedade catalã fosse toda um ninho de traidores. «Era uma época em que, num bar, um homem disparou contra um televisor, porque pela primeira vez em 39 anos, se podia escutar um político a falar catalão». As ruas estavam ainda ocupadas pelo medo. Os filhos dos homens mais ricos e poderosos do antigo regime circulavam armados nos seus carros e com brilhantina no cabelo, fazendo ondear dos carros as bandeiras espanholas. Na praça central de Vic encontrava-se a sede da fascista Fuerza Nueva, onde estava pendurada uma gigantesca bandeira espanhola. Como por milagre a extrema-direita desapareceu por baixo das pedrinhas da calçada. Segundo Borrás, não foi assim. «Vou dar um dado para que se perceba o que aconteceu com a extrema-direita, um dado de um estudo do Centro de Investigações Sociológicas de 2011, isto é um estudo de um organismo do Estado. Mais de 80% das pessoas que se considera de extrema-direita votou no Partido Popular em 2011. Fizeram o chamado voto útil. O que nem sequer é de admirar muito, sabendo que o PP descende da Aliança Popular, que reunia na sua direção sete ministros do ditador Franco», conta.
Em Portugal, sublinha o fotógrafo, «depois da revolução alguém passou por um tribunal, aqui nunca ninguém foi incomodado com isso». Aliás, recentemente, o juiz Baltazar Garzón quando tentou investigar os crimes do franquismo foi corrido da Audiência Nacional. Mas isso não quer dizer que as coisas não tenham mudado nessa galáxia política. «Até meados de 80, a extrema-direita era muito passadista olhava só para o passado e Franco e não tinha conseguido renovar-se para a nova situação. A Aliança Popular foi muito hábil, com Fraga, conseguiu converter-se no voto útil desse setor. Quem não o aceitou organizou-se numa miríade de organizações, dividiram-se mais do que os trotskistas». Muita extrema-direita «usou a democracia para continuar os seus negócios. Pensam o mesmo, mas atuam útil», garante Jordi Borrás. Várias vezes há tentativas de autonomizar esse setor, que não se reconhece no PP, a última tentativa foi VOX, que teve quase 250 mil votos nas europeias e teve a uma unha negra de entrar em Estrasburgo. Não é fascista, mas plasma da Frente Nacional. «Outro partido a nível catalão que aparece com este propósito é Plataforma para a Catalunha, que é um tentativa de conseguir votos para do catalanismo, mas sendo espanholista. Chega a eleger 60 eleitos locais em 2011, com um discurso islamofóbico». Mas com a crise económica e a erupção do Podemos, por um lado, e Ciudadanos, que nascem na Catalunha, por outro, fazem-na esvaziar. «Aliás na Catalunha, os Ciudadanos surgem como um partido monotemático, ponta de lança do anticatalanismo e pela unidade de Espanha, que atrai, dada a sua novidade, o voto espanholista de direita de esquerda».
São esses setores todos que vão estar na rua no domingo, quando se multiplicam no resto de Espanha manifestações nacionalistas em reação ao processo da Catalunha. «Estes setores só têm uma coisa a uni-los que é a unidade de Espanha». Até agora, não conseguiram opor-se nas ruas aos independentistas, se a campanha da Assembleia Nacional Catalã (ANC) já levou para as ruas mais de dois milhões de pessoas em 2012, a maior marcha espanholista, no dia de Espanha, em 12 de outubro de 2010, eles não ultrapassaram mais de 30 mil pessoas. Barulhentos de mais para serem silenciosos, e poucos para serem uma maioria. Vamos ver quantos irão à manifestação da Sociedad Civil Catalana (SCC), uma espécie de némesis unionista e espanholista da Assembleia Nacional Catalã.
in: jornal "Sol"
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Se na Catalunha dá para o torto, abre-se uma Caixa de Pandora que pode levar décadas a fechar, com danos consideráveis.
Vamos começar pelo princípio: a questão da autodeterminação dos povos. Sem espinhas, é um conceito teórico muitíssimo louvável. Todas as pessoas deveriam ter o direito a escolher a que nação pertencem, mais ainda quando se distinguem dos demais por razões de língua, características culturais e ainda somam a isso a possibilidade da viabilização económico-política de um estado independente. Nós, povos ex-colonialistas, impregnados das culpas dos nossos antepassados, tendemos logo a ser a favor da rebeldia, seja ela justificada ou não.
Mas há também o outro lado da história: no seu mais recente livro Michael Walzer usa exemplos do passado recente (a Índia, a Argélia e Israel – independentemente do mérito da causa de cada um, que é evidentemente diferente do de hoje) para demonstrar que os “movimentos de libertação” não são expressão da vontade popular generalizada, que está mais preocupada com a sua vidinha, mas de uma elite separatista, que constrói uma nova narrativa e tudo faz para convencer as populações de que as suas intenções e a forma como vêm a história corresponde a uma verdade que o poder instituído anda empenhado em esconder.
Na prática, os caminhos rumo à independência são sinuosos e armadilhados. Joga-se numa arena perigosa em que vale quase tudo pela causa da independência. Aproveitam-se oportunidades, espera-se por momentos da fraqueza do adversário. É um jogo sujo, regra geral, de parte a parte. Gera violência. Em casos mais extremos gera guerra civil. Em casos ainda mais extremos gera limpeza étnica. A nível regional gera instabilidade. Em muitos casos tem efeito de contágio, estremecendo outros separatismos mais ou menos adormecidos. Claro, pensamos todos, que nada disso vai acontecer na Catalunha. Afinal, estamos no século XXI, estamos na Europa. Mas deixem-me lembrar-vos duas coisas: não só os dois lados da barricada, leia-se Barcelona e Madrid, têm chegado a extremos que nunca pensámos possíveis, como os últimos anos têm demonstrado que nacionalismos, quer emotivos, quer ideológicos, quer mais centristas, quer mais extremados, não são uma relíquia do século XIX. Estão bem e recomendam-se. Assim, a história não se repete, mas rima. Os nacionalismos regressam, mas agora num contexto muito diferente do passado. E nós, na Europa, estamos mal preparados para ele.
Como é que se chegou aqui? O separatismo catalão tem uma longa linhagem. O dia nacional da região, o 11 de setembro, remete para acontecimentos de 1714, quando Barcelona perdeu a sua autonomia para Espanha, na guerra da sucessão. No século XX, os costumes e a língua foram espezinhados pela sangrenta Guerra Civil e pela especial aspereza com que Franco tentou dissolver a cultura catalã. A memória coletiva destes eventos passou de geração em geração, como reclamam os testemunhos vindos de Barcelona e publicados em vários jornais internacionais desde domingo passado. Sentimento parcialmente aplacado, ironicamente, pela Constituição de 1978, que consagrou autonomias regionais no contexto da “indissociável unidade da nação espanhola”. Mas, ainda que a Catalunha tenha aceite o texto fundador da democracia, a relação com Madrid caracterizou-se por uma certa ambiguidade. A Generalitat sempre procurou avançar rumo a uma maior autonomia e Madrid sempre tentou reter os seus poderes. Mas o governo regional foi presidido por moderados. Primeiro por uma coligação das direitas, CiU (1978-2003) e depois pelo seu equivalente na esquerda, uma coligação liderada pelo PSC, uma espécie de PSOE da Catalunha (2002-2010). Os separatistas duros passaram a estar nas margens, nomeadamente na tradição republicana do ERC, que tentou um golpe independentista pouco antes da guerra civil, e na tradição das diversas fações anarcossindicalistas.
Mas como se sabe, as ideias minoritárias adormecem, mas não morrem. E o separatismo catalão acabou por acordar com a ajuda de três elementos: (1) a crise económica de 2008, que criou um sentimento de injustiça entre a população a ver os lucros de Barcelona (cerca de 20 por cento do PIB) a serem redistribuídos pelas províncias mais pobres; (2) o processo judicial movido pelo Partido Papular de Mariano Rajoy, de 2006 a 2010, que resultou na retirada pelo Tribunal Constitucional à Catalunha do estatuto de “nação” (ambíguo) aprovado em referendo regional legal. O TC alegou razões de inconstitucionalidade e o PP questões de equilíbrio entre unitaristas e regionalistas; e (3) a mudança política na composição do governo regional, que passou a ser constituído pela coligação minoritária “Juntos pelo Sim” (à independência) que mistura, desde 2015, o CDC de Carles Puigdemont, um partido de direita liberal que se tornou independentista em resultado das políticas centrais – apesar de algumas dissidências; a ERC o partido republicano independentista dos anos 1930; e a CUP um movimento de esquerda separatista composto por pequenas correntes tendencialmente radicais. Juntos têm a maioria absoluta na Generalitat, ainda que a única ideia comum seja a independência do território autónomo.
Esta mudança passou despercebida (quem é que segue a política interna da Catalunha?) mas é em muito semelhante ao crescimento dos diversos populismos na Europa (velhos nacionalismos, novos tempos). Só que este tem uma característica diferente dos outros. O separatismo nacionalista é sempre um assunto sensível, emotivo e mobilizador de paixões. O que, regra geral, é um cocktail Molotov em política.
Os acontecimentos que se têm vindo a desenrolar desde domingo são o culminar de todas estas tendências: uma memória coletiva dolorosa, trazida à superfície por acontecimentos recentes, guiada por uma coligação que chegou ao parlamento regional pelo voto de protesto às políticas de Madrid conjugada com uma gestão mais que danosa do dossier catalão por parte do governo central (incluindo da Coroa). Barcelona aproveitou a fraqueza do chefe de Governo, Mariano Rajoy, que precisou de duas eleições gerais e quase um ano para formar um governo minoritário, e montou-lhe uma armadinha.
É neste contexto que se anunciou o referendo. Madrid tinha a lei do seu lado. Proibiu a sua realização em sede de justiça, por razões de inconstitucionalidade, mas a Generalitat foi mais arguta: desobedeceu, e arrastou para essa desobediência mais de dois milhões de cidadãos. Nada na consulta pública foi legal: caixas de plástico a fazer de urnas, locais de voto aleatórios, cadernos eleitorais cibernéticos, de cariz, no mínimo, duvidoso, uma afluência às urnas de apenas 44 por cento dos eleitores inscritos, e a forte suspeita de que quem se absteve, fê-lo por desejar a Espanha unida, tal como está. Parece-me que estes argumentos teriam sido suficientes para que Rajoy, apoiado pelo Filipe VI, declarasse a ilegalidade e ilegitimidade dos acontecimentos de 1 de outubro e seguisse em frente. Como aliás já aconteceu no passado.
Mas Madrid perdeu a cabeça, e quando se perde a cabeça, já se sabe, perde-se a razão. Enviou 12.000 guardas civis que investiram contra a população. Nesta guerra de contrainformação sabemos que houve excessos da polícia nacional contra a população, choro de mossos d’esquadra e, ao que consta, quase 900 feridos (dos quais não sabemos a gravidade). O que fica do dia 1 de outubro é a imagem do povo catalão a suportar estoicamente a intervenção policial em nome da independência. As câmaras de televisão de todo o mundo captaram imagens suficientes de violência desproporcional para deixar a imagem internacional de Madrid pelas ruas da amargura e para revoltar milhares de catalães que até aí estavam longe de querer separar-se da Espanha. Rajoy, diz-se, “é o maior fazedor de independentistas”. E é. Fez mais pela independência da Catalunha em 24 horas do que todos os separatistas juntos. Em democracia, quando se tem a lei do nosso lado e pelo menos parte da legitimidade, o uso da força contra a população (que possivelmente acredita verdadeiramente na bondade da ideia da separação) tem duas consequências: perde-se a razão imposta pela moralidade do estado de direito e perde-se o apoio da população visada. Os independentistas ganharam uma dupla batalha: abriram uma brecha em Espanha (e na Europa) muito difícil de fechar e ganharam o apoio da uma parte importante da “opinião pública internacional”. Se o conceito popularizado por Jürgen Habermas a propósito da guerra do Iraque não quer dizer nada muito concreto, o efeito prático é bem conhecido.
E agora? Há três cenários possíveis. Uma crescente tensão entre as partes com um desfecho que é difícil de prever. Em política há poucas coisas tão perigosas como o nacionalismo separatista pelas razões descritas acima, mas que nunca é demais lembrar: violência interna, instabilidade regional, efeito dominó. E a Europa está cheia de separatistas que podem ver no braço de ferro catalão uma inspiração para avançar com as suas próprias causas.
O segundo cenário é os dois lados da contenda espanhola ultrapassarem os últimos dias e se sentem a negociar. As probabilidades de diálogo no curto prazo são escassas. Mas nunca, pela gravidade da situação, podem ser postas de lado. A bem da Catalunha, da Espanha e da Europa.
O que nos leva ao terceiro cenário, o de um árbitro externo. As crises sucessivas da União quase nos fazem esquecer qual foi o objetivo principal da sua criação, mesmo quando era só para o carvão e o aço: a de evitar que a guerra voltasse ao continente. E por mais deméritos que a UE possa ter (depende do ponto de vista de cada um), este objetivo tem sido comprido, salvo nos Balcãs, que eram Europa, mas não União Europeia. Eu diria que chegámos a um momento crítico em que Bruxelas volta a ter uma missão pacificadora. Assobiar para o lado e dizer que é um assunto interno espanhol é um tipo de comportamento que foi experimentado vezes que cheguem para se saber que não resulta. Esperemos, pois, que a União encontre forma de mediar o conflito, não pela sua internacionalização (não é a fazer o jogo da Catalunha que se chega lá) mas porque a paz no continente tem de ser um dos principais valores comuns aos estados-membros. Porque se na Catalunha dá para o torto, abre-se uma Caixa de Pandora que pode levar décadas a fechar, e com possíveis danos consideráveis."
in: jornal "Observador"
Catalunha é um problema nosso", diz Alegre02 DE OUTUBRO DE 2017 14:4João Pedro HenriquesHistórico do PS afirma-se ao DN "indignado com a repressão" levada a cabo pelas autoridades espanholas sobre o referendo independentista catalão."Não pode haver dois pesos e duas medidas. Não podemos criticar a Polónia, a Hungria e a Turquia e assobiar para o lado e dizer que o problema da Catalunha é um problema interno de Espanha."Em declarações ao DN, Manuel Alegre afirmou que a forma como as autoridades de Madrid reprimiram na Catalunha fazem com que "a partir deste momento" a questão catalã seja "um problema da democracia e da liberdade". E mais: é "um problema da Europa e um problema nosso".Afirmando que "pessoalmente" é "solidário" - como afirma que Mário Soares o seria - "com o ato da Catalunha de dispor do seu próprio futuro" por "meios democráticos e pacíficos", Manuel Alegre admite, porém ter "dúvidas" sobre "os métodos utilizados pelos dirigentes catalães".Só que - acrescentou - "isso não invalida o direito de o povo se pronunciar". E não lhe "anula" a sua "repugnância com os métodos utilizados pelo poder central de Espanha". Houve "repressão" e isso é "impróprio de um país democrático e europeu".
in: jornal "DN"
"O dia em que Espanha perdeu a Catalunha
Puigdemont abre a porta à declaração unilateral de independência já nos próximos dias. “Votámos, votámos”, é o grito mais ouvido agora entre os catalães. “Independência, independência”, repetem. Rajoy não está a ouvir.
Marta Torrecilla fazia parte de uma mesa de voto na escola Pau Claris, de Barcelona. Há um vídeo onde se vê a ser arrastada pelo chão e depois por umas escadas, às mãos de membros da Polícia Nacional. “Só estava a tentar defender as pessoas mais velhas”, explicou depois, ouvida por diferentes jornais e rádios. “Viste os vídeos da violência? Eu já não consigo ver mais. No fim, entraram em poucas escolas, mas onde foram portaram-se como bárbaros.” Albert acordou domingo já muito nervoso, mal dormiu na verdade. “Fui eu que trouxe as urnas”, conta, sentado na sala de aulas que foi assembleia de volta e quando a contagem está mesmo a terminar na escola Joan Miró, no bairro residencial de Eixample.“Dei voltas e voltas antes de entrar. Tinha as urnas em casa, mas só quiseram entregá-las de véspera. Nem imaginas os nervos com que andada. Nem nos deixavam levar os telemóveis para as reuniões”, descreve. Albert aguentou até aqui mas não pode mais. Baixa a cabeça e começa a chorar, é o momento de descompressão que adiou até poder.“Rajoy faz o que quer”Albert recompõe-se mas não consegue esquecer as imagens de catalães espancados nem as palavras do primeiro-ministro. “Se fosse outro, isto mudaria tudo. É o Rajoy, ele faz o que quer, não ouve ninguém.”Horas antes, outro catalão que votou numa assembleia ali ao lado, no Liceu Ernest Lluch (o socialista catalão assassinado pela ETA em 2000), olhava incrédulo para o ecrã do seu telemóvel, vídeo após vídeo, imagens de outras escolas, algumas tão perto, e um cenário assustadoramente diferente. “Já viste isto?”, pergunta Carles, sentado num café. “Depois disto, como é que esperam que continuemos no país desta polícia, no país que dá estas ordens?”.Carles tem outras dúvidas. Por exemplo: “Eles não diziam que isto não valia nada, que era uma brincadeira sem valor? Então, para quê tudo isso?”, pergunta. Depois de uns momentos em silêncio, parece ter chegado a algum tipo de conclusão. “Assim, foram eles que tornaram o nosso referendo importante, não é?”Um país “livre”Haverá certamente muitos catalães que não esperam continuar em Espanha, e é para o presidente da Generalitat que olham agora. “Ganhámos o direito a ter um Estado independente que se vai constituir em forma de república”, disse Carles Puigdemont, já a noite ia longa, numa intervenção transmitida pela televisão catalã e recebida na Praça da Catalunha aos gritos de “Independência, independência”.“Tudo aconteceu de acordo com a Lei do Referendo e terá consequências”, garante o líder catalão, falando da lei aprovada pelo parlamento autonómico, suspensa pelo Tribunal Constitucional e considerada ilegal por Madrid. “Os catalães ganharam o direito a serem respeitados na Europa”, afirmou, antes de descrever Espanha como “este Estado que se comporta de forma autoritária”.Rajoy falou em reunir com os partidos com representação no Congresso a partir de segunda-feira. Puigdemont em cumprir com o que foi aprovado pela maioria independentista no parlamento autonómico. “Temos direito a decidir o nosso futuro. Temos direito a viver em liberdade e em paz”, disse. Esse novo país, descreve, será “livre, digno e democrático”.Greve geralAs milhares de pessoas que se juntaram na praça mais central de Barcelona para seguirem a noite gostaram do que ouviram. Logo depois da intervenção de Puigdemont cantou-se o hino catalão, Els Segadors. Depois, houve mais gritos de “Independência” seguidos da palavra de ordem que se ouve pela cidade desde as 20h: “Votámos, votámos”.Antes do líder catalão falar já membros de alguns dos partidos que integram a coligação que o apoia, Juntos pelo Sim, tinham defendido uma greve geral a partir de dia 3, como já tinham antecipado algumas centrais sindicais antes do referendo. O mesmo fez a CUP (Candidatura de Unidade Popular), o partido à esquerda da coligação cujos votos são essenciais para assegurar a maioria que sustenta a actual Generalitat. “As ruas serão sempre nossas”, é outras das frases que mais se diz por Barcelona.Da parte das formações que Rajoy voltou a insistir ter a seu lado, o Cidadãos (partido que nasceu na Catalunha para combater o independentismo) e o PSOE, ouviu-se o apoio do primeiro e as críticas do segundo. O líder socialista, Pedro Sánchez, condenou as cargas policiais e a repressão e pediu a Rajoy que inicie uma negociação com o governo catalão. Pablo Iglesias, do Podemos, defendeu aquilo que se esperava, a realização de um referendo negociado e vinculativo.Os catalães chegaram a este dia com uma certeza: acontecesse o que acontecesse, este não seria mais um 9-N, como ficou conhecida a consulta de 2014. Agora, muitos não querem ouvir falar de negociações nem muito menos de outra ida às urnas. Em Madrid não se ouviu ainda, mas o que agora se grita em Barcelona é mesmo “Votámos, votámos".
"O que fazer quando se ama loucamente? A resposta da fadista Aldina Duarte é simples e apenas uma: viver. O novo álbum, que nasceu de um luto difícil, sai no próximo dia 13 de outubro.
Pedro Esteves 27.setembro.2017
27 Setembro 2017
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O desafio começou com uma letra de Manel Cruz (esse mesmo, o homem dos Ornatos Violeta, dos Pluto, de Foge Foge bandido e do que mais houver) oferecida à fadista Aldina Duarte, escrito para ela e apresentado no tom da cantora. Só faltava acrescentar-lhe a voz. Um convite destes seria para aceitar à primeira, mas a vida não é assim tão simples.
Aldina estava no escuro, a viver o luto da paixão, “que é o pior luto porque ainda não há nada, sobretudo nada de mau, ainda está tudo por acontecer e não acontece”. Mas o fado escrito por Manel Cruz acabou por ser a primeira pedra de Quando Se Ama Loucamente, o novo disco de Aldina Duarte, que estará à venda no dia 13 de outubro. A artista descreve-o como uma “autoficção”, o retrato direto de um momento difícil.
Cruzamento de várias artes, Quando Se Ama Loucamentetransformou-se num tributo a Maria Gabriela Llansol, a escritora que foi capaz, como poucos, de escrever “o invisível”, as pequenas/grandes coisas que mais ninguém vê mas que todos sentimos, de uma maneira ou de outra, e que fazem de nós gente.
Encontrámos Aldina Duarte durante as gravações de um mini documentário sobre o novo disco, no reservatório da Mãe d’Água das Amoreiras, em Lisboa. Foi nos túneis e nas galerias (secas) do Aqueduto que foram filmadas as canções, ilustradas no disco pelas fotografias de Isabel Pinto, que colocam a fadista no elemento com que mais se identifica: a água.
A conversa seguiu-se ali ao lado, no jardim, onde nos contou a história destes novos fados, as influências, dúvidas e hesitações. Ora entre risos e exclamações, ora com a voz e o olhar embargados, Aldina Duarte em entrevista ao Observador.
A capa do novo “Quando se ama loucamente”
Que vídeo foi este que esteve a gravar?
Foi um especial de 20 minutos, um especial que fazemos em cada disco, que consiste em seis temas. Um é o videoclipe propriamente dito mas na realidade estamos a fazer seis videoclipes. Uma espécie de minidoc. A RTP 2 e a SIC têm um espaço para estes especiais. Tendo em conta as características do meu trabalho não há muito espaço para ir falar à televisão.
Porquê?O ambiente televisivo para cantar o meu repertório é bizarro, não dá, não me consigo concentrar. Como é que vou cantar estes poemas? Não é a minha praia, não é bom para o programa nem é bom para mim. Se a televisão tivesse formatos que permitissem estarmos a li a ter uma boa conversa e depois passassem o vídeo, não me incomodava. Canto em direto porque cantar em playback dá-me vontade de rir. Parece que estou a brincar.
Quem é que participa neste especial?Entro eu, o Pedro Gonçalves dos Dead Combo, que é o meu produtor musical e o Manel Cruz, que fez um tema a pensar em mim e que um dia me fez pensar “porque não agarrar neste tema e fazer uma autoficção?”.
"Lido muito mal com o vazio, nunca aprendi, até hoje. É pior que a tristeza, que a melancolia, que a raiva. Não sei o que fazer no vazio, tenho terror."
Aldina Duarte
E como é que surgiu esse encontro?Conheci o Manel Cruz pessoalmente quando os Ornatos Violeta fizeram o último concerto no Coliseu. E temos um grande amigo comum que sabia da minha admiração por ele e que fez questão que nos conhecêssemos. Sempre fui fã dele e ele disse-me que era meu fã. Achei que ele estava a ser simpático porque nunca acho que esta malta de fora dos fados conheça fado. Se calhar é um erro meu, um preconceito. Já tinha cometido esse erro com o Pedro Gonçalves, que afinal ia aos meus concertos todos. Disse ao Manel “um dia ainda vamos fazer qualquer coisa juntos”, meio a brincar, “mas primeiro tens de conhecer o que eu faço”. “Mas eu conheço”, disse ele. Isto até há dois anos.
O que aconteceu há dois anos?Recebi um email que dizia “fiz a pensar em ti”, uma canção feita no meu tom, com o Manel a cantar o tema “Quando Se Ama Loucamente”, só com um tecladozinho. “Se achares que não tem nada a ver diz-me porque eu queria muito compor para ti”. Afinal era tudo verdade. É preciso ter uma sensibilidade artística e criativa que me comoveu. Mas eu não estava numa de fazer discos, estava num luto de uma paixão, que é o pior luto porque ainda não há nada, sobretudo nada de mau, ainda está tudo por acontecer e não acontece. E então desliguei. Agradeci e disse-lhe que não sabia o que ia fazer.
E o que fez com o tema?Mandei-o para o Pedro Gonçalves. Ele disse que era espantoso, disse “vamos fazer um disco composto por mim e pelo Manel, todo escrito por ti”. Disse-lhe que não tinha capacidade. Aquilo germinou. Ao mesmo tempo fiz o primeiro capítulo de um livro para crianças. Foi meio terapêutico, porque a música é o meu trabalho. Não sou escritora mas tenho jeito. E funcionava como uma espécie de ginástica. E as minhas letras estão cheias de um subtexto emocional que toca a toda a gente. Estou sempre a apaixonar-me, e não falo de pessoas. Os amigos, os livros, os fados, os gatos, a vista que já vi da janela vezes incontáveis… a música é diferente.
Porque a música também implica esforço.Porque me dá um prazer tão grande e absorve-me tanto que, em vez de me fazer bem, faz-me mal. Das duas uma, ou me anestesia ou então a intensidade do trabalho anula a vida, e quando volto para ela tenho tendência a entrar em negação. E eu lido muito mal com o vazio, nunca aprendi, até hoje. É pior que a tristeza, que a melancolia, que a raiva. Não sei o que fazer no vazio, tenho terror.
Mas isso complica a vida de quem é músico.Pode complicar sim, porque muitas vezes obriga a abrir mais a ferida, mas não para a tratar. É para escarafunchar. E eu andava à procura do que me pudesse afastar desse vazio. E quando dei por mim, ainda a “sangrar”, achei que já não estava no ponto de não saber o que fazer e precisava de sair a ganhar. E fiquei com a parte boa da história, com plena consciência da tragédia, que foi o final da relação. E virei-me para o trabalho. Canto com o que sou mas não sou de me cantar a mim. Desta vez juntei as duas coisas e quando dei por mim achei que estava a cantar algo que era de nós todos.
É por isso que se trata de uma autoficção?É. É uma história concreta, sei com quem estou a falar, sei de quem estou a falar, do quê, mas a lógica, a cronologia e os cenários dos factos construí tudo a partir da obra da Maria Gabriela Llansol.
Porquê?Em primeiro porque os livros dela fazem parte desta história verídica. Há um fado que eu canto que começa com a frase “quem me vê é que me tem” e a seguir eu digo “diz-me o livro que me deste”. Foi rigorosamente assim. É uma escritora extraordinária que criou um mundo que não é só dela mas que é singular e quando entramos nele achamos que é nosso. E tenho uma história à volta dela que, do ponto de vista artístico, me encanta sobremaneira. Pensar que uma escritora pouco conhecida tem uma obra viva e que o seu espólio está a ser tratado por gente como o João Barrento ou a Hélia Correia. E foram grandes amigos dela. Juntaram as coisas mais bonitas: a amizade com o trabalho.
E é daquelas escritoras que são mesmo uma companhia, é um amparo, está ali tudo o que precisamos, quase como se fosse uma pessoa, às vezes até é melhor, porque choramos mais à vontade, porque nos rimos mais à vontade. Ela tem esse espaço de liberdade total. E isso é fascinante. E eu vivi uma boa parte do meu luto nos livros dela. Porque a vida não permite que as pessoas se acompanhem em lutos.
"Canto com o que sou mas não sou de me cantar a mim. Desta vez juntei as duas coisas e quando dei por mim achei que estava a cantar algo que era de nós todos."
Aldina Duarte
E este disco pode cumprir para alguém a função que esses livros desempenharam?É uma grande pretensão da minha parte mas gostava. Se alguma utilidade este disco poderá ter é só essa. Já me aconteceu receber emails extraordinários que contam histórias absolutamente respeitáveis do ponto de vista do sofrimento humano que custa a crer que, pelo facto de terem entrado em contacto com o meu trabalho, descubram um bocado este efeito que a Maria Gabriela Llansol teve em mim. Ou como o Jacques Brel também já teve. Porque eu sou um bocado solitária, é a minha natureza. Sou um bocado como os gatos, gosto de lamber as minhas feridas. Porque é preciso sofrer, quem não sofre não está vivo. E não aprende. Até que se ultrapassa e saio de mim, há um momento em que acontece.
E quando é que isso aconteceu?
Com toda a questão dos refugiados, tocou-me muito. Essa fuga, a correr risco de morte, trouxe-me de volta uma pulsão para viver. Relativizei, claro, sem apagar o meu sofrimento porque é o meu e é verdadeiro. Mas relativizei. E foi aí que voltei ao trabalho e que aconteceram coisas…
…inesperadas.
De repente aparece-me o Rogério Ferreira, com quem trabalho há muito no Senhor Vinho, juntamente com o Paulo Parreira. O Rogério disse-me que tinha um tema do pai, queria que eu ouvisse. É o “Refúgio”. Ou seja, no meio de tudo isto, em pleno século XXI, eu crio de raiz um fado tradicional com letra minha. Ficou Fado Ferreira, com uma música com 40 anos. Porque a música… o bom fadista é aquele que absorve quem houve na emoção da história e da palavra e que deixa que a melodia se transforme apenas no chão que te está a levar.
"Não se vive com medo de sofrer. Quem tem medo de sofrer não está vivo, inteiramente."
Aldina Duarte
Uma das primeiras descrições deste disco apresentava-o como um trabalho que cruza várias artes. Como assim?
De repente faço uma autoficção a partir da obra da Maria Gabriela Llansol. O Pedro Gonçalves diz-me que vamos gravar de uma forma que nunca tínhamos seguido, preparando os temas com o tempo que fosse preciso e depois gravar tudo aos takes mas tudo junto. Ou seja, quando alguém se enganava voltávamos todos atrás.
E qual foi o resultado?
Gravámos o disco em duas ou três tardes. Há um ano que rodávamos os temas, nos ensaios de som dos concertos, em ensaios em minha casa, no Senhor Vinho, todos os dias. Depois, as letras eram minhas, fiz as letras numa semana, todas. Mas acho que ando a escrever estas letras há 23 anos. No fundo é a primeira vez que me atrevo a escrever sobre uma coisa muito minha, muito íntima, sobre mim. Nasce depois de ter feito oficinas de escrita de letras para fados, porque sei bem a técnica mas nunca lhe dei muita importância. Quando foi o momento de fazer, foi tudo de uma vez.
Mas há também uma parte estética.Há, surgiu com o Pedro Cabrita Reis, que eu prezo imenso, um grande amigo e um homem brilhante. E é vidrado no meu trabalho. Fui à procura de melodias tradicionais que não tivessem sido gravadas nas últimas décadas. Arranjei seis melodias fortes e comecei a escrever para elas. Quando tinha sete letras pedi ao Pedro para ele me ouvir enquanto lhe cantarolava as letras. Ele comentou e sugeriu algumas alterações, com a linguagem visual que ele tem. Melhorei as letras todas e mostrei-lhe só o resultado final.
Mas isso evoluiu para algo mais.
Sim, quando ele disse que queria desenhar para o meu disco. Tenho muito pudor em pedir coisas aos meus amigos mas às vezes isso funciona ao contrário. Durante anos não aceitei coisas valiosíssimas porque vinham de amigos. Ainda hoje isso me faz confusão. Enfim. Eu digo ao Pedro que o CD é um suporte pequeno, tendo em conta as obras monumentais que ele faz. Mas o Pedro às tantas diz que vamos fazer um livro.
Que livro é esse?
Para frases da Maria Gabriela Llansol eu fiz uma letra. A Isabel Pinto fez uma fotografia para cada letra e o Pedro desenhou uma ilustração para o texto da Hélia Correia que faz parte do disco. A fechar o disco, o João Barrento escolheu um texto da Llansol, de acordo com as letras, para ler e fechar o disco. O livro, que vai surgir só no ano que vem, inclui tudo isto, como se todos fizessem a sua própria autoficção. E o disco apresenta já tudo isto.
Há outro elemento fundamental neste disco e que é visível logo na capa: a água. Que importância tem a água no meio de tudo isto, da paixão, dos livros, do fado?
Quando era pequena tinha uma infelicidade enorme por não saber nadar. Ainda por cima passei a infância em Sintra, Penedo, Almoçageme, Praia da Adraga, Praia das Maçãs, as minhas férias eram sempre aí porque a família da minha mãe é toda de Colares. Lembro-me de estar sempre a mergulhar, queria estar sempre dentro de água, não sabia nadar mas queria estar sempre a mergulhar. E aprendi a nadar entre crianças, já adulta. A água para mim está associada a alívio, entro na água e tenho sempre um vislumbre do que é estar bem. Como se me acrescentasse alguma coisa que me está em falta. Ir ao Guincho no Inverno. A água e o ar. E é isso que sou a cantar."
in: jornal "Observador"
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Aldina Duarte: "O meu fado tornou-se a testemunha daquilo que sou"
Mariana Pereira
ISABEL PINTO
Quando se Ama Loucamente, que será editado na próxima sexta-feira, é um disco de quem celebra a vida depois de cumprir o luto de um amor que acabou como "uma morte acidental". E de quem foi salva por uma comunidade de estranhos
"Sabe lá a gente o que anda para cá enterrado no mais fundo de nós. Vamos morrer sem saber, e se calhar não é preciso, mas às vezes há sofrimentos de tal maneira profundos... por qualquer razão a vida exige que a gente vá lá. Às vezes a única maneira de voltar à superfície é submergindo." Aldina Duarte fala num banco do jardim da sua vida, em Lisboa. Aponta para a árvore debaixo da qual escreveu, "de jorro, numa semana", as letras que canta no seu novo álbum. Quando se Ama Loucamente será lançado na próxima sexta-feira às 18.30 na FNAC do Chiado, com a fadista a cantá-lo. "É aquela ali, que dá flor no outono. É a única que eu conheço assim." Coincidência ou não, também Aldina só deu flor no outono: viveu meia vida até chegar ao fado.
Este é o disco em que a fadista canta o luto de um amor que acabou como "uma morte acidental", de súbito, durante a paixão. Um acontecimento colossal na sua vida. "Já sou isto. Eu canto um fado ou outro que associo a sentimentos, a pessoas, a momentos da minha vida: aqui não. Isto é um testemunho. O meu fado tornou-se a testemunha daquilo que eu sou, mesmo que mais ninguém entenda. Quem me vir nestes fados que eu canto, está a ver-me: estou a ser vista como eu sou. Mas também não me vou dar para além disso."
E se a vemos assim, ao seu sexto álbum, é porque muito confluiu para que Quando se Ama Loucamente nascesse. A leitura recolhida dos livros de Maria Gabriela Llansol em que Aldina cumpriu silenciosamente o seu luto, e de onde sairiam depois as letras que escreveu; a canção que Manel Cruz, dos extintos Ornatos Violeta, lhe enviou - Quando se Ama Loucamente -, escrita e composta para ela, quando ainda não lhe passava pela cabeça fazer um disco; ou, além de tudo o que não se enumera, o facto de ter visto na televisão refugiados a desembarcar na Europa. "Essa foi a primeira vez que reparei que não estava o dia inteiro a associar tudo àquele fim. Fiquei com uma gratidão tão grande à vida. Senti que afinal aquela dor era de um coração que está tão vivo ou mais do que era, mais inteiro ainda. O meu maior medo na vida é que algum dia me acontecesse alguma coisa tão grave, ou tão maior que eu, que me fechasse o coração, que eu não conseguisse voltar a sentir, por causa do terror de determinada dor. Tenho medo de ter medo de sentir. É isto."
Todas as letras são dela, à exceção da canção de Manel Cruz, e de Beijo Enganador, de Maria do Rosário Pedreira, nome já comum na sua obra. Outro que agora se repete é o de Pedro Gonçalves, dos Dead Combo, que tal como aconteceu no último disco, Romance(s), assina a produção musical. E ainda Paulo Parreira na guitarra portuguesa, e Rogério Ferreira na viola.
"Queria que a história tivesse aquela subtileza que a Llansol tem: parece que dá a ver claramente o que é invisível, parece que consegue dizer o que é indizível. É disso que se trata. Foram dores que eu não quis dizer a ninguém. Eu sou mesmo um animal nisso, não deixo ninguém perceber a minha fraqueza." Não se pense, todavia, que este testemunho é uma espécie de livre-trânsito para a vida privada da fadista que detesta estar no centro de tudo. "A minha privacidade continua intacta e continuará. No dia em que perdermos a noção do espaço privado e público, provavelmente ficaremos uns insensíveis de merda. Desculpe a expressão, não me ocorre outra coisa. Detesto esse aspeto da realidade que estamos a viver hoje. Esta exposição do que é privado, sem freio. É um tiro no pé, uma coisa suicida."
Uma "tábua de salvação"
"Eles não fazem ideia", diz, com um sorriso, Aldina. Falávamos da Comunidade Fado para Todos, que desde janeiro do ano passado se reúne no Museu do Fado para discutir, ouvir (e às vezes cantar) o fado, sob a batuta de Aldina. Um grupo tão heterogéneo que nele cabem uma dona de casa, uma psicóloga, ou um informático bancário. Ela agradece-lhes "pela inteligência coletiva e pela nobreza de espírito" no booklet que acompanha o álbum. "A comunidade foi terapêutica. Acho que foi a minha tábua de salvação", admite. A comunidade foi um projeto de Aldina ainda pensado ao lado do seu então companheiro, e que começaria depois "em plena dor". Ninguém entre os que se contam na comunidade adivinharia. "Obrigava-me a olhar para os outros, a sair de mim, em nome daquilo que eu mais amo. Estava a falar de fado, de poesia, com pessoas que não me conheciam de lado nenhum, nem eu a elas." Agora já não é assim, claro.
No 50.º aniversário da fadista, curiosamente na semana em que gravou o disco, eles ofereceram-lhe aquilo a que Aldina chama "a prenda mais bonita da minha vida". Um livro com poemas escolhidos para ela, e depoimentos escritos por eles acerca de Aldina e da comunidade, que gravaram também em vídeo. "E ainda fizeram uma letra dedicada a mim, e gravaram-na a cantar, pessoas que nem cantam. É uma coisa comovente..." Quando, há cerca de uma semana, Aldina deu um concerto no largo do Teatro São Carlos, lá estavam eles na plateia, aqui e ali, espalhados, discretos, entre admiradores anónimos, pessoas que passavam, ou Camané e Maria da Fé, duas figuras centrais na vida e no fado de Aldina, que lhes agradeceu logo no começo do concerto.
Outro elemento que garantiu a constância da vida no seu quotidiano, apesar do luto que Aldina vivia, foram as noites no Sr. Vinho, a casa de fados de Maria da Fé, onde canta desde 1997. "Fiz uma coisa que nunca tinha feito", começa a contar enquanto conversávamos ainda acerca do concerto. "Vim de cantar no São Carlos para 2500 pessoas, um momento extraordinário da minha vida e que nunca mais vou esquecer, e de repente fui a correr para o Sr. Vinho. Estavam ainda sete pessoas e pedi à Maria da Fé se podia cantar. Ela nem queria acreditar. 'O que é que estás a fazer?' Cantei três fados de que gosto muito. Senti-me tão bem. Cheguei a casa. Fiz as melhores férias da minha vida, mas cheguei a casa. Visitei o sítio mais lindo do mundo, mas cheguei a casa. Parece que é ali que tudo se cumpre. Disso é que eu nunca me vou esquecer."
Sobre a paixão: "Está tudo doido?"
Resistem na distância as histórias mais belas / Ninguém há de apagar um amor que foi feliz, canta a fadista em No Amor do Teu Nome. Como quem vê a vida de novo reerguida, e a si mesma levantada depois de algo que não pediu mas aconteceu (Que há quem escolha a sua sorte / E quem não possa escolher, escreveu Maria do Rosário Pedreira em Beijo Enganador), Aldina Duarte diz ver agora "como é que as coisas, ao longo deste luto, foram ganhando cores tão diferentes; e é lindíssimo ver a mesma coisa a transformar-se." De repente, e pelas mãos do tempo, o que era "horroroso, afinal era um cisne."
A fadista para por momentos e depois recomeça: "Eu sempre gostei dos contos de fadas, mas antes do Walt Disney a branquear. São histórias de amor fantásticas e extraordinárias que mexem com as convenções todas. São sempre muito corajosas, embora acabem em tragédia. Mas qualquer fim é trágico quando o que se quer é viver, não é?"
Oiça-se o disco e perceber-se-á que o luto que Aldina canta nunca diz que não valeu a pena. Pelo contrário, ao arrepio de uma letargia que tantas vezes acompanha o luto, todo ele é vida, uma celebração da paixão. "Acho que vale a pena arriscar qualquer forma do amor que seja. A paixão é uma delas, e muito válida. Não é maluqueira, como se está a fazer querer. Está tudo doido? Só podem estar doidos. Porque é que de repente fica exclusivamente associada a delírio, ao que é doentio? A paixão é o começo das coisas mais sérias da vida na maior parte das vezes, e dos grandes acontecimentos da História da humanidade. Portanto, quis fazer-lhe um elogio."
Outra coisa que Quando se Ama Loucamente nos dá é um outro tempo, fora das horas, quase no avesso da vida. Aí onde a fada Aldiana canta : Quem sabe se qualquer dia / Noutra vida por magia / Eu te encontro inda menino. "Esse é o território da fé e da esperança", explica. E o lugar das fadas. "Eu tenho tanto de cristã como de pagã. Um dia falei com o Padre Tolentino Mendonça e disse: 'Eu misturo os anjos com as fadas.' Ele respondeu: 'Em cada cristão há um pagão.'"
A história de amor de onde partiria o álbum Quando se Ama Loucamente começou com a oferta de um livro de Maria Gabriela Llansol de ele para ela. E no fim de tudo, conta: "Ela foi mesmo o meu grande abrigo, das minhas dores, de tudo o que eu não dizia." No final do disco, ouve-se a voz de João Barrento, do espaço Llansol, a ler uma passagem da escritora que morreu em Sintra, onde Aldina passava os três meses de férias de verão e onde um dia, diz, "gostava de morrer calmamente, e feliz". Ri-se outra vez. Como quando canta, nela o trágico e o seu contrário justificam a existência um do outro num instante.
ISABEL PINTO
Por sugestão de Pedro Gonçalves, todo o disco foi gravado num só take: "O mais parecido possível com uma casa de fados." Entretanto, virá uma caixinha de música com uma fada e a melodia que se ouve em Conto de Fadas, que abre o disco. Pedro Cabrita Reis pintou uma aguarela que aparece no disco, Hélia Correia escreveu um texto, Isabel Pinto fotografou Aldina na água, elemento a que esta recorre quando precisa de voltar à vida.
A fadista diz que quando canta costuma dirigir-se a alguém. Agora não. "Estes fados eu não canto para ninguém. Canto-os, não me preocupo com mais nada." No final do disco, vemo-la a rir. É Aldina que se levanta de novo."
Nasceu há cem anos Violeta Parra, a mulher que traduziu em música a alma do Chile e que continua “cada vez” mais atual. Assim o afirmam a filha e a neta, Isabel e Tita Parra, também elas cantautoras e que vão dar um concerto a Lisboa. Ambas falaram ao Expresso
A guitarra foi o primeiro e único instrumento de Violeta Parra, ensinado pela mãe
FOTO D.R.
Nasceu no campo chileno, filha de Clarisa e Nicanor, camponesa e professor de música, pais de outros quatro filhos. Todos, sem exceção, seguiram o rumo da música, mas foi Violeta, Violeta Parra, a que mais se destacou. E ela não se limitou a cantar: passou anos a investigar e gravar a música tradicional do seu país de um modo como ninguém antes o tinha feito, desenterrando uma herança até então desconhecida.
Hoje, as suas canções são indissociáveis desse Chile interior, dessas notas que sempre estiveram lá, à espera de que alguém as recolhesse. Há cem anos que viu o mundo pela primeira vez e há 50 que morreu tragicamente, cometendo suicídio. Justamente um ano depois de escrever a sua canção mais conhecida, o hino “Gracias a la vida”.
in: jornal "Expresso"
(Integral em http://expresso.sapo.pt/cultura/2017-09-12-Ela-despediu-se-agradecendo-a-vida)