terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Ruy Duarte de Carvalho_Chagas de salitre

Chagas de salitre

Olha-me este país a esboroar-se
em chagas de salitre
e os muros, negros, dos fortes
roídos pelo vegetar
da urina e do suor
da carne virgem mandada
cavar glórias e grandeza
do outro lado do mar.
Olha-me a história de um país perdido:
marés vazantes de gente amordaçada,
a ingénua tolerância aproveitada
em carne. Pergunta ao mar,
que é manso e afaga ainda
a mesma velha costa erosionada.
Olha-me as brutas construções quadradas:
embarcadouros, depósitos de gente.
Olha-me os rios renovados de cadáveres,
os rios turvos do espesso deslizar
dos braços e das mães do meu país.
Olha-me as igrejas restauradas
sobre ruínas de propalada fé:
paredes brancas de um urgente brio
escondendo ferros de educar gentio.
Olha-me a noite herdada, nestes olhos
de um povo condenado a amassar-te o pão.
Olha-me amor, atenta podes ver
uma história de pedra a construir-se
sobre uma história morta a esboroar-se
em chagas de salitre. 

Ruy Duarte de Carvalho, 
em "A decisão da idade". 
Luanda: União dos Escritores Angolanos, 1976.



segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Sebastião da Gama_Madrigal

Madrigal

A minha história é simples.
A tua, meu Amor,
é bem mais simples ainda:
"Era uma vez uma flor.
Nasceu à beira de um Poeta..."

Vês como é simples e linda?
(O resto conto depois;
mas tão a sós, tão de manso
que só escutemos os dois).





domingo, 5 de fevereiro de 2017

Maria do Rosário Pedreira

Dorme, meu amor, que o mundo já viu morrer mais este dia e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos.
Fecha os olhos agora e sossega — o pior já passou há muito tempo; e o vento amaciou; e a minha mão desvia os passos do medo. Dorme, meu amor — a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste e pode levantar-se como um pássaro assim que adormeceres. Mas nada temas: as suas asas de sombra não hão-de derrubar-me — eu já morri muitas vezes e é ainda da vida que tenho mais medo. Fecha os olhos agora e sossega — a porta está trancada; e os fantasmas
da casa que o jardim devorou andam perdidos nas brumas que lancei ao caminho. Por isso, dorme, meu amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão, já olhei a morte debruçada nos espelhos e estou aqui, de guarda aos pesadelos — a noite é um poema que conheço de cor e vou cantar-to até adormeceres.

Maria do Rosário Pedreira

sábado, 4 de fevereiro de 2017

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Portugal Second – 5 Para a Meia-Noite - RTP




 


Manuel Alegre_O QUE SEI DE POESIA


Não sei falar de literatura. Não sei falar de poesia. Sobretudo não sei se a poesia tem alguma coisa a ver com a literatura. Talvez esteja antes ou depois da literatura. Sei que a poesia não se explica, a poesia implica, como costuma dizer a minha amiga Sophia de Mello Breyner. Sei que a energia, como diz o meu amigo Herberto Hélder, é a essência do mundo e que “os rit­mos em que se exprime constituem a forma do mundo". Sei, como o poeta russo Mandelstam, que "escrever é um acontecimento cósmico". E que cada palavra é um pedaço de universo. Ou como dizia Klebnikov: "Na natureza da palavra viva, esconde-se a matéria luminosa do universo." Talvez tudo isto seja a poesia. Ou talvez ela não seja mais do que o primeiro verso, aquele que nos é dado, como sempre dizia Miguel Torga, porque os outros têm de ser conquistados. Talvez tudo esteja nesse primeiro verso, que é o instante da revelação e da relação mágica com o mundo através da palavra poética. Talvez o poeta, afinal, não seja muito diferente daquele sujeito que vemos nas tribos primitivas, de plumas na cabeça, repetindo palavras mágicas enquanto dança e pula ao ritmo de um tambor. O poeta é esse feiticeiro. Dança com palavras ao som de um ritmo que só ele entende. Ou é talvez o adivinho.

Como já não pode ler nas vísceras das vítimas, procura decifrar os sinais dos tempos através de múltiplos sentidos ou dos semi-sentidos da palavra. De qualquer modo, como nas sociedades primitivas, que tinham uma concepção mágica do mundo, o poeta de hoje é como esse xamã antigo que, através da repetição rítmica de palavras e imagens, convoca as forças benfazejas ou tenta exorcizar as forcas maléficas.

A poesia é, assim, antes de tudo, uma forma de medição. Um presságio do sul, como diz o meu amigo José Manuel Mendes. Uma encantada, encantatória e desesperada tentativa de captar a essência do mundo e de, através da palavra, "mudar a vida", como queria Rimbaud. Uma forma de alquimia. Que procura o impossível. Ou seja: o verso que não há.

A poesia é também a língua. E para mim a língua começa em Camões, que tinha uma flauta mágica.

A música secreta da língua. A arte e o ofício da língua e da linguagem.. Nem foi por acaso que Dante chamou a Arnaut Daniel "il migiior fabbro". O poeta, dizia Cioran, "é aquele que leva a sério a linguagem". E o que é levar a sério a linguagem? Eu creio que é estar atento aos sinais. Os sinais mágicos da palavra. Os sinais da essência do mundo que por vezes se revelam na palavra poética. Ou talvez o duende e aquela ferida de que falava Lorca. Porque o poeta traz em si uma ferida e o duende por vezes ouve "sonidos negros". É então que a poesia acontece.

Isto é o que sei de poesia. Talvez seja muito pouco. Mas não sei se é possível saber mais.


Manuel Alegre, in “Obra Poética”,
a págs 903/904 (2000)


ana cristina c_marfim

A moça desceu os degraus com o robe monografado no peito: L. M. sobre o coração.
Vamos iniciar outra Correspondência, ela
propôs. 
- Você já amou alguém verdadeiramente?
- Os limites do romance realista; 
- Os caminhos do conhecer;
- A imitação da rosa;
- As aparências desenganam!
- Estou desenganada!

- "Não reconheço você, que é tão quieta, nessa história". 
- "Liga amanhã outra vez sem falta". 
- "Não posso interromper o trabalho agora". 
- "Gente falando por todos os lados". 

Palavra que não mexe mais no
barril de pólvora plantado sobre a torre de marfim.

ana cristina cesar, ana c.



raul_brandão / últimos conselhos de uma mãe a seu filho


«Filho, fui eu que te criei. Sustentei-te de restos, de pobreza, de humildade. Só pensei em ti: tu tens, portanto, obrigação de ouvir os últimos conselhos que te dou. Olha que és o meu filho, o filho que criei de dia, de noite, de fome, de obediência e de sonho amargo. Criei-te para que pudesses um dia pertencer às classes elevadas. Por isso sofri, para isso sonhei, para isso desapareço, agora que cumpri o meu destino.

Filho: mente. Às pessoas ricas é preciso mentir sempre e dizer sempre que sim. Deve-se-lhes consideração, deve-se-lhes obediência. Nunca te ligues com os pobres. Para pobres bastamos nós. A pobreza pega-se, não há nada no mundo pior que a pobreza. Tem cuidado com a língua. Pela boca morre o peixe. Nunca digas o que sentes: o que a gente sente é sempre uma inconveniência. Há pessoas que dizem: - Eu gosto que me contradigam. - Foge delas como o Diabo da cruz. O que toda a gente quer é que os outros sejam da sua opinião. Só os ricos têm direito de contradizer os pobres. Um pobre não deve ter opinião. Guarda as conveniências, acima de tudo guarda as conveniências.

O mundo antigo tinha muito de bom; sabendo-se ser agradável arranjava-se lá um cantinho. A morte é indispensável para as pessoas herdarem, e para nos dias de luto se desanojarem os ricos. Foge do pecado. Sê religioso e temente a Deus. Nunca digas mal de ninguém. E habitua-te filho, habitua-te que é o grande segredo da vida. Habitua-te a cumprir os teus deveres para com a sociedade. O dever acima de tudo, o dever de te subordinares para que te não queiram mal. Não te esqueças também dos pequenos deveres de cortesia. Não te esqueças de que no dia 21 de Julho faz anos o teu padrinho, nem de deixares cartões de visita às pessoas respeitáveis. Há as que fingem que não reparam nessas coisas. São as piores, são as que reparam mais. Respeita. Respeita a lei, os superiores, a Igreja, os ricos. Num caso grave da tua vida chega-te ao pé do conselheiro Pimenta e diz-lhe com humildade: - Eu sou filho da Restituta que era prima de V. Ex.ª - E mais nada. Não sejas causa de desordem nem de escândalo. Fala baixinho, e mente, filho, mentir não custa nada. Nunca digas a verdade porque pode vir a saber-se. Deus nos livre da verdade. Mente para seres agradável aos outros e a ti mesmo. E, sobretudo, repito-te, diz sempre que sim. Não custa nada dizer que sim, dizer a tudo que sim, dizer sempre que sim.

Tua mãe,

Restituta da Piedade Sardinha »


raul brandão
húmus
frenesi
2000


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

António Lobo Antunes - Bolero do coronel sensível que fez amor em Monsanto


António Lobo Antunes -
Bolero do coronel sensível
que fez amor em Monsanto
Pintura: Madame Bell, de Picasso

Eu que me comovo
Por tudo e por nada
Deixei-te parada
Na berma da estrada
Usei o teu corpo
Paguei o teu preço
Esqueci o teu nome
Limpei-me com o lenço
Olhei-te a cintura
De pé no alcatrão
Levantei-te as saias
Deitei-te no banco
Num bosque de faias
De mala na mão
Nem sequer falaste
Nem sequer beijaste
Nem sequer gemeste,
Mordeste, abraçaste
Quinhentos escudos
Foi o que disseste
Tinhas quinze anos
Dezasseis, dezassete
Cheiravas a mato
À sopa dos pobres
A infância sem quarto
A suor, a chiclete
Saíste do carro
Alisando a blusa
Espiei da janela
Rosto de aguarela
Coxa em semifusa
Soltei o travão
Voltei para casa
De chaves na mão
Sobrancelha em asa
Disse: fiz serão
Ao filho e à mulher
Repeti a fruta
Acabei a ceia
Larguei o talher
Estendi-me na cama
De ouvido à escuta
E perna cruzada
Que de olhos em chama
Só tinha na ideia
Teu corpo parado
Na berma da estrada
Eu que me comovo
Por tudo e por nada

António Lobo Antunes (Escritor e Poeta português, 1942- )

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Pedro Moutinho - EPK "O FADO EM NÓS


Ricardo Ribeiro - Fadinho Alentejano

Letra:

Linda cara que tu tens já sei
Quando chegas noite fora
À espera à porta de casa
Está o teu pai que te adora
Lindos olhos tem o mocho... piu
Quando a noite vem chegando
Para deixar passar a noite
P’ra deixar passar a noite
Uma moda eu vou cantando
Muda a água às azeitonas
Rega bem os teus tomates
Tem lá cuidado com a horta
O cravo já está no vaso
Sim senhora, por acaso
Abalaste p’ra Lisboa pois
Deixaste-me ao pé da porta
Tu seguiste o teu caminho
Tu seguiste o teu caminho
A minha alma ficou torta
Quando cheguei ao Barreiro já fui
Lisboa estava fechada
Voltei p’ra casa a cantar
Voltei p’ra casa a cantar
Uma vida abençoada.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Tiago Bettencourt - Se Me Deixasses Ser



Letra:

Se me deixasses ser O sítio onde podes voltar Depois do dia entardecer Quando a noite te agarrar Corpo forte de ficar Casa de permanecer Casa para regressar Se me deixasses ser Seja onde for Se o filme fosse meu Em luta contra o mal Tudo o que te faz doer Morria no final Quando o escuro não passar E te cega como uma prisão Vou-te resgatar Lavar o coração Se me deixasses ser Se fosse eu a mandar Fazia-te ver Frente ao precipício Juntos pela mão Se hoje queres saltar Eu quero ser razão Se hoje queres saltar Eu quero ser razão Se me fizesses crer O sítio onde posso voltar Para um dia entardecer Quando a noite descansar Na casa de permanecer A pedra que fazemos chão Para me rever Lavar o coração Se me fizesses crer Se fosse eu a mandar Fazia-te ver Frente ao precipício Juntos pela mão Se hoje queres saltar Eu quero ser razão Se hoje queres saltar Eu quero ser razão Se hoje queres saltar Eu quero ser razão Se hoje queres saltar Eu quero ser razão.

sábado, 21 de janeiro de 2017

Eugénio de Andrade_ Ao Miguel


AO MIGUEL, NO SEU 4º ANIVERSÁRIO
Eugênio de Andrade

Vais crescendo, meu filho, com a difícil
luz do mundo. Não foi um paraíso,
que não é medida humana, o que para ti
sonhei. Só quis que a terra fosse limpa,
nela pudesses respirar desperto
e aprender que todo homem, todo,
tem direito a sê-lo inteiramente
até ao fim. Terra de sol maduro,
redonda terra de cavalos e maçãs,
terra generosa, agora atormentada
no próprio coração; terra onde teu pai
e tua mãe amaram para que fosses
o pulsar da vida, tornada inferno
vivo onde nos vão encurralando
o medo, a ambição, a estupidez,
se não for demência apenas a razão;
terra inocente, terra atraiçoada,
em que nem sequer é já possível
pousar num rio os olhos de alegria,
e partilhar o pão, ou a palavra;
terra onde o ódio a tanta e tão vil
besta fardada é tudo o que nos resta;
abutres e chacais que do saber fizeram
comércio tão contrário à natureza
que só crimes e crimes e crimes pariam.
Que faremos nós, filho, para que a vida
seja mais que a cegueira e cobardia?

Carlos Drummond de Andrade_José

by net




JOSÉ 

E agora, José? 
A festa acabou, 
a luz apagou, 
o povo sumiu, 
a noite esfriou, 
e agora, José? 
e agora, você? 
você que é sem nome, 
que zomba dos outros, 
você que faz versos, 
que ama, protesta? 
e agora, José?

Está sem mulher, 
está sem discurso, 
está sem carinho, 
já não pode beber, 
já não pode fumar, 
cuspir já não pode, 
a noite esfriou, 
o dia não veio, 
o bonde não veio, 
o riso não veio 
não veio a utopia 
e tudo acabou 
e tudo fugiu 
e tudo mofou, 
e agora, José?

E agora, José? 
Sua doce palavra, 
seu instante de febre, 
sua gula e jejum, 
sua biblioteca, 
sua lavra de ouro, 
seu terno de vidro, 
sua incoerência, 
seu ódio - e agora?

Com a chave na mão 
quer abrir a porta, 
não existe porta; 
quer morrer no mar, 
mas o mar secou; 
quer ir para Minas, 
Minas não há mais. 
José, e agora?

Se você gritasse, 
se você gemesse, 
se você tocasse 
a valsa vienense, 
se você dormisse, 
se você cansasse, 
se você morresse... 
Mas você não morre, 
você é duro, José!

Sozinho no escuro 
qual bicho-do-mato, 
sem teogonia, 
sem parede nua 
para se encostar, 
sem cavalo preto 
que fuja a galope, 
você marcha, José! 
José, para onde? 


...//...

Gustavo Dourado

E agora, Maria?
Acabou a festa,
A bolsa caiu,
Apagaram-se as luzes...
Esquentou a Poesia...
Depois esfriou
O povo sofreu
De bolso vazio...
E agora, Maria?
Onde anda você?

És inominável?
Musa que zomba,
Que vê a novela,
Que dança e samba...
Que des.faz o ver.só,
Protesta, declama
Ama e reclama...
Clama por amor...
Você onde anda?
Maria, e agora?

Está sem carro
Perdeu o concurso
Não veio o consórcio
O sócio sumiu,
O táxi atrasou
Perdeu o juízo
Dói o dente siso
E tudo parou...
Já não pode andar
Não há mais sorriso,
O bicho pegou...
Nada aconteceu
A vida passou,
O tempo correu,
O sonho desveio
Virou pesadelo...
E agora?
Quer parar de fumar,
Sorver a cerveja,
Água de beber
Ver a natureza...
Quer sobreviver
Ao caos e a dor... 
Veio a tempestade,
E tudo morreu 
E tudo acabou...
E agora, Maria?
Maria, e agora?
A palavra indócil,
Desejo febril,
O eco do fuzil,
A bala perdida,
O jogo de azar,
O azar no jogo,
O cheque sem fundo,
O jugo, o logro,
O juro, o lucro
O desfalque no erário
O lote invadido,
O empréstimo bancário,
O imposto de renda,
A contravenção,
O vil peculato,
A corrupção,
Seqüestro - relâmpago
O medo, o pavor...
O descontentamento,
A desilusão 
A promessa vã 
E agora, Maria...?
O cartão de(s)crédito,
Nota promissória, 
Medida provisória, 
O livro de ouro,
O bingo, a sorte...
A morte do amor...
E agora, Maria?
A fome que assola
Criança sem escola, 
O homem sem-terra,
Sem-teto, na esmola...
E agora?
Juro sobre juro,
Ágio, extorsão, 
Água poluída,
A conta vencida...
O computadoido,
Internet, ilusão... 

Seu sonho - e agora?
Virou devaneio
O mar que não veio 
E agora, Maria?
Quer abrir a porta,
Não há chave, 
A chave sumiu...
Quer ir par a Marte?
Só há deusa morte... 
Quer rever o mar,
O mar soçobrou...
Maria, e agora?

Pare...Pense...
Reflita - Dance,
Grite, gema,
Durma, Sonhe,
Acorda Maria...
Resista....
Você não desiste...
Maria, você é forte... 
E agora, Maria?

Num canto do muro,
Sozinha, no escuro,
Sem cosmogonia...
Feito bicho-grilo,
Fugindo a galope...
És bicho - do - mato,
Na grande cidade,
Na alma , a saudade...
Para onde ir?
Maria , e agora?
E agora , Maria ?
O que queres de mim?

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Carminho - "Carminho canta Tom Jobim" (Making Of) & Albano Martins_Uma Cidade_poema


Albano Martins
Uma Cidade

Uma cidade pode ser 
apenas um rio, uma torre, uma rua 
com varandas de sal e gerânios 
de espuma. Pode 
ser um cacho 
de uvas numa garrafa, uma bandeira 
azul e branca, um cavalo 
de crinas de algodão, esporas 
de água e flancos 
de granito. 
                      Uma cidade 
pode ser o nome 
dum país, dum cais, um porto, um barco 
de andorinhas e gaivotas 
ancoradas 
na areia. E pode 
ser 
um arco-íris à janela, um manjerico 
de sol, um beijo 
de magnólias 
ao crepúsculo, um balão 
aceso 

numa noite 
de junho. 

Uma cidade pode ser 
um coração, 
um punho. 

Albano Martins, in "Castália e Outros Poemas" 


quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Davide Mestre_ dois poemas

Sinal de Seda

Dois negros
timores
secretos
rubis

teus olhos
pedem
ao Ganges
por ti

O tigre
contempla
no lago
de prata

o sinal
de seda
em que

sorris.

Davide Mestre (1948-1997)

O Sol nasce a oriente

(de um quadro de Malangatana)

Povo, de ti canto o movimento
teu nome, canção feita de fronteiras
lua nova, javite ou lança
tua hora, quissange em trança

Do longo longe do tempo
arde minha flecha, meu lamento
minha bandeira de outro vento
aurora urdida nos lábios de Zumbi
De ti guardo o gesto
as conversas leves das árvores
a fala sabia das aves
o dialeto novo do silêncio
e as pedras, as palavras do medo
os olhos falantes da mata
quando a onça posta a sua arte
nos fita, guardada em sua mágoa.
De ti amo a denuncia felina
das tuas mãos quebradas ao presente
a dança prometida do sol
nascer um dia a Oriente.

in No reino de Caliban II,
antologia panorâmica de poesia africana de expressão portuguesa.

Davide Mestre

Davide Mestre_(1948-1997)


Biografia de Davide Mestre

Luís Filipe Guimarães da Mota Veiga conhecido por Davide Mestre Nasceu em Loures, Portugal em 1948 e foi para Angola com apenas oito meses de idade.
Trabalhou como jornalista e crítico literário em variados jornais e revistas de Angola, de Portugal e de outros países, coordenou diversas páginas literárias.
Em 1971 fundou e dirigiu o grupo «Poesias – Hoje», foi director do «Jornal de Angola». era membro da Associação Internacional de Críticos Literários e da União dos Escritores de Angola.
Em 1997 Davide Mestre faleceu em Almada, Portugal vítima de um acidente vascular cerebral com apenas 49 anos.
A sua obra está traduzida em várias línguas.
Obra poética:
Kir-Nan, 1967, Luanda, edição do autor.
Crónica do Gheto, 1973, Lobito, Cadernos Capricórnio;
Dizer País, 1975, Nova Lisboa, Publicações Luanda;
Do Canto à Idade, 1977, Coimbra, Centelha;
Nas Barbas do bando, 1985, Lisboa, Ulmeiro;
O Relógio de Cafucolo, 1987, Luanda, União dos Escritores Angolanos;
Obra Cega, 1991, Luanda, edição do autor
Subscrito a Giz - 60 Poemas Escolhidos, 1996, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda

in: http://www.lusofoniapoetica.com/


terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Pedro Jóia_Verdes Anos_Sueste















biografia:

“Nasceu em 1970. Iniciou, aos sete anos, estudos de Guitarra Clássica na Academia dos Amadores de Música, com o Professor Paulo Valente Pereira.

No ano de 1985 transferiu-se para o Conservatório Nacional, onde estudou com o Professor Manuel Morais e concluiu o curso de Guitarra Clássica em 1990.

A partir de 1986 iniciou-se no estudo de Guitarra Flamenga, primeiro como autodidacta e depois através de cursos e de “masterclasses” em Espanha (Jerez de la Frontera e Cordoba) com os guitarristas Paco Peña e Manolo Sanlúcar. A relação de aluno com o segundo manteve-se até 1998.

GUADIANO (1996) e SUESTE (1999) foram os discos que colocaram o guitarrista e compositor Pedro Jóia no panorama da música feita em Portugal. Embora no início com uma forte influência e gosto pela guitarra flamenca, as suas origens portuguesas acabaram por falar mais alto. Assim, VARIAÇÕES SOBRE PAREDES (2001) marcou uma outra fase na sua carreira, homenageando um dos grandes mestres da Guitarra de Coimbra.

Depois de JACARANDÁ (2003), disco onde reuniu uma série de músicos brasileiros, como Elba Ramalho, Simone, Zeca Baleiro, Zélia Duncan, entre outros, viaja para o Brasil, onde colabora intensamente com Ney Matogrosso, entre 2003 e 2006.

Regressa a Portugal em 2007 para gravar o seu quinto disco, À ESPERA DE ARMANDINHO, uma interpretação de transcrições para guitarra clássica de obras originalmente compostas para guitarra portuguesa por Armandinho, outro dos seus mais importantes instrumentistas, neste caso da Guitarra de Lisboa.

O actual espectáculo “Mourarias”, em duo com o percussionista Vicky, pretende reunir temas da sua autoria, numa reflexão sobre as suas origens como músico e compositor, referenciados nos seus dois primeiros discos, GUADIANO e SUESTE, e agora também sobre os dois mais importantes compositores e instrumentistas das guitarras de Coimbra e de Lisboa.”

Biografia gentilmente cedida por: HM Música

Última actualização: Setembro de 2008

In: Museu do Fado

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Roberto Carlos _ Só Você Não Sabe



letra:

O meu sofrimento não tem fim
Só você não vê que eu vivo assim
Não se importa com meu sentimento
Minha tristeza, o meu lamento
Mesmo que eu não fale do que sinto
Todo mundo sabe
Só você não sabe, só você não sabe

Tenho andado triste (mas você não sabe)
Tenho andado só (só que você não sabe)
E chorado tanto (mas você não sabe)
Vivo pelos cantos (mas você não sabe)
Ai! Amor, tanta falta você me faz
Que no peito não cabe 
(Mas você não sabe)
Só você não sabe

Os amigos dizem que eu mudei
Me perguntam onde é que eu deixei
Meu sorriso e toda alegria 
Que eu tive um dia, que eu tive um dia
Mas essa saudade em minha vida
Os amigos sabem 
(Todo mundo sabe)
Só você não sabe

Ando abandonado (mas você não sabe)
Sofrendo calado (mas você não sabe)
Vivo desse jeito (mas você não sabe)
Sem dormir direito (só você não sabe)
Ai! Amor, é demais tanta solidão
O meu peito é que sabe
(Todo mundo sabe)
Só você não sabe

Quando chego em casa (só você não sabe)
Fico só no quarto (mas você não sabe)
Falo com as paredes (e você não sabe)
E com seu retrato (mas você não sabe)
Ai! Amor, desse jeito eu não sou feliz
'Tô sofrendo tanto
(Mas você não sabe)
Só você não sabe

Uma coisa é certa (e você bem sabe)
Mesmo não dizendo (mas eu sei que sabe)
Que eu te amo tanto (sei que você sabe)
Sei que sabe quanto (e finge que não sabe)
Vem amor, sempre existe uma solução
Eu 'tô te esperando
(Todo mundo sabe)
Só você não sabe

Vem amor, sempre existe uma solução
Eu 'tô te esperando
(Todo mundo sabe)
Só você não sabe

Vou sair dizendo (que você não sabe)
Que a felicidade (que você não sabe)
Vive bem mais perto (do que você sabe)
Sou o homem certo (e você bem sabe)
Ai! Amor, seu lugar no meu coração
'Tá desocupado
(Todo mundo sabe)
Só você não sabe

Ai! Amor, seu lugar no meu coração
'Tá desocupado
(Todo mundo sabe)
Só você não sabe.