sexta-feira, 27 de novembro de 2015

MÁRCIA - A INSATISFAÇÃO (vídeo oficial)



1º single do novo disco Quarto Crescente (Junho 2015)


A Insatisfação


Escrita fina
quando corre ensina
não dura um deserto que atravesse
Pode ir sendo
que demore um tempo
mais tarde ou mais cedo
lá me acerto

Na lembrança
o meu céu de criança
a quem nunca se entrega um tom cinzento
por momentos
vem num pensamento
e uma nuvem chove cá por dentro

Quase nada
(experimento o céu de negro que há de norte a sul
nunca me conforma
(prometo-me a mim mesma mais de céu azul)
a insatisfação
(temo que haja pouco pra me contentar)
nunca me abandona
(mas nada me impede de tentar)

Porque tento
andar atrás no tempo
e entender a chuva que acontece?
Como por magia
há sempre um novo dia
e outra Lua Nova que anoitece
Se a madrugada traz uma canção
pouco importa que me insista hoje em "dia não"
tomei o meu fastidio pra me atormentar
pedras no meu trilho são pra me assentar

Quase nada
(experimento o céu de negro que há de norte a sul
nunca me conforma
(prometo-me a mim mesma mais de céu azul)
a insatisfação
(temo que haja pouco pra me contentar)
nunca me abandona
(mas nada me impede de tentar)

Mesmo transformando em nosso o que era meu
se és a sorte do caminho que a vida escolheu
Canta que me afina, faz-nos avançar
premeia-me o destino por te ver dançar

Quando acordar do sono que eu escolhi
quero ter no meu cantinho sempre mais de ti
cada rosa, cada espinho que tanto cresceu
mesmo quando venham pra nublar-me o céu.


Quase nada
(experimento o céu de negro que há de norte a sul
nunca me conforma
(prometo-me a mim mesma mais de céu azul)
a insatisfação
(temo que haja pouco pra me contentar)
nunca me abandona
(mas nada me impede de tentar)



MÚSICA E LETRA - Márcia
Márcia - Voz, coros
Zé Kiko Moreira – Bateria
Dadi – Baixo, teclados e guitarra eléctrica
Filipe C. Monteiro – guitarra acústica e eléctrica.
Manuel Dordio – guitarra eléctrica
Márcia, Filipe C. Monteiro, Zé Pedro Leitão - palmas



ARGUMENTO E REALIZAÇÃO - Filipe Cunha Monteiro
PRODUÇÃO - Filipe Cunha Monteiro, António Marinho (Warner Music Portugal)
DIRECÇÃO DE FOTOGRAFIA - Ricardo Magalhães
CAMERAS - Ricardo Magalhães, Filipe Cunha Monteiro
MAKE UP - Sónia Pessoa, Márcia
EDIÇÃO E PÓS PRODUÇÃO - Filipe Cunha Monteiro

AGRADECIMENTOS:

SIC
Rodrigo Guedes de Carvalho
RTP
Eyeworks
Nuno Markl
Samuel Úria
Deolinda
Vasco Palmeirim
Augusta Babo
Joana Faria, Sérgio Pires e Maria Faria
Filipe Rebelo

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

vasco de lima couto_retrato



RETRATO

Fui só eu que estraguei as alvoradas
- presas suaves nos plúmbeos céus!,
e dei água aos ribeiros da minha alma
e fiz preces de amor e sangue, a Deus...

Fui só eu que, sabendo da tormenta
que o vento da nortada me dizia,
puz meus lábios no sonho incompleto
e rasguei o meu corpo na poesia.

Vieram dar-me abraços e contentes
viram que me afundava sem remédio
- nem um grito subia do horizonte
há mil anos deitado sobre o tédio!

Quando chamaram por mim do imenso rio
que a noite veste para se entreter
vi que os barcos andavam cheios de almas
buscando sonhos para não sofrer.

Cantavam doidas como a dor e a morte
parando, a espaços, para ver montanhas
e eram luzes mordidas pelas sombras,
corajosas, infelizes - mas tamanhas!

Eu fugi de as ouvir (que ardentes vozes...)
de navegar nas mesmas ansiedades
e fui sozinho semear as luas
e a natureza inculta das idades.

Parti, negando à vida o seu direito,
recalcando os meus sonhos e os meus medos...

sei agora que matei o meu destino
e quebrei o futuro nos meus dedos.

Vasco de Lima Couto,
in: "Os Olhos e o Silêncio" - 1952

sábado, 31 de outubro de 2015

José Afonso - Baladas e Canções LP_1964



  • Canção Longe

  • Os Bravos

  • Balada Aleixo

  • Balada do Outono

  • Trovas Antigas

  • Na Fonte Está Lianor

  • Minha Mãe

  • Altos Castelos

  • O Pastor de Bensafrim

  • Canto da Primavera

  • Elegia

  • Ronda dos Paisanos






  • quarta-feira, 7 de outubro de 2015

    Mariza - Paixão





    Primeiro vídeo do novo álbum, "Mundo", com edição a 9 de Outubro.
    --
    First video of the new recordo, "Mundo", to be released on October 9.

    Música/Music - Jorge Fernando
    Produtora/Producer - Garage Films
    Realizador/Director - Ernesto Bacalhau

    Carlos de Oliveira_Descrição da guerra em Guernica


    Descrição da guerra em Guernica

       
    I

    Entra pela janela
    o anjo camponês;
    com a terceira luz na mão;
    minucioso, habituado
    aos interiores de cereal,
    aos utensílios
    que dormem na fuligem;
    os seus olhos rurais
    não compreendem bem os símbolos
    desta colheita: hélices,
    motores furiosos;
    e estende mais o braço; planta
    no ar, como uma árvore,
    a chama do candeeiro.


    II

    As outras duas luzes
    são lisas, ofuscantes;
    lembram a cal, o zinco branco
    nas pedreiras;
    ou nos umbrais
    de cantaria aparelhada; bruscamente;
    a arder; há o mesmo
    branco na lâmpada do tecto;
    o mesmo zinco
    nas máquinas que voam
    fabricando o incêndio; e assim,
    por toda parte,
    a mesma cal mecânica
    vibra os seus cutelos.


    III

    Ao alto; à esquerda;
    onde aparece
    a linha da garganta,
    a curva distendida como
    o gráfico dum grito;
    o som é impossível; impede-o pelo menos
    o animal fumegante;
    com o peso das patas, com os longos
    músculos negros; sem esquecer
    o sal silencioso
    no outro coração:
    por cima dele; inútil; a mão desta
    mulher de joelhos
    entre as pernas do touro.


    IV

    Em baixo, contra o chão
    de tijolo queimado,
    os fragmentos duma estátua;
    ou o construtor da casa
    já sem fio de prumo,
    barro, sestas pobres? quem
    tentou salvar o dia,
    o seu resíduo
    de gente e poucos bens? opor
    à química da guerra,
    aos reagentes dissolvendo
    a construção, as traves,
    este gládio,
    esta palavra arcaica?


    V

    Mesa, madeira posta
    próximo dos homens: pelo corte
    da plaina,
    a lixa ríspida,
    a cera sobre o betume, os nós;
    e dedos tacteando
    as últimas rugosidades;
    morosamente; com o amor
    do carpinteiro ao objecto
    que nasceu
    para viver na casa;
    no sítio destinado há muito;
    como se fosse, quase,
    uma criança da família.


    VI

    O pássaro; a sua anatomia
    rápida; forma cheia de pressa,
    que se condensa
    apenas o bastante
    para ser visível no céu,
    sem o ferir;
    modelo doutros voos: nuvens;
    e vento leve, folhas;
    agora, atônito, abra as asas
    no deserto da mesa;
    tenta gritar às falsas aves
    que a morte é diferente:
    cruzar o céu com a suavidade
    dum rumor e sumir-se.


    VII

    Cavalo; reprodutor
    de luz nos prados; quando
    respira, os brônquios;
    dois frêmitos de soro; exalam
    essa névoa
    que o primeiro sol transforma
    numa crina trémula
    sobre pastos e éguas; mas aqui
    marcou-o o ferro
    dos lavradores que o anjo ignora;
    e endureceu-o de tal modo
    que se entrega;
    como as bestas bíblicas;
    ao tétano, ao furor.


    VIII

    Outra mulher: o susto
    a entrar no pesadelo;
    oprime-a o ar; e cada passo
    é apenas peso: seios
    donde os mamilos pendem,
    gotas duras
    de leite e medo; quase pedras;
    memória tropeçando
    em árvores, parentes,
    num descampado vagaroso;
    e amor também:
    espécie de peso que produz
    por dentro da mulher
    os mesmos passos densos.


    IX

    Casas desidratadas
    no alto forno; e olhando-as,
    momentos antes de ruírem,
    o anjo desolado
    pensa: entre detritos
    sem nenhum cerne ou água,
    como anunciar
    outra vez o milagre das salas;
    dos quartos; crescendo cisco
    a cisco, filho a filho?
    as máquinas estranhas,
    os motores com sede, nem sequer
    beberam o espírito das minhas casas;
    evaporaram-no apenas.


    X

    O incêndio desce;
    do canto superior direito;
    sobre os sótãos,
    os degraus das escadas
    a oscilar;
    hélices, vibrações, percutem os alicerces;
    e o fogo, veloz agora, fende-os, desmorona
    toda a arquitectura;
    as paredes áridas desabam
    mas o seu desenho
    sobrevive no ar; sustém-no
    a terceira mulher; a última; com os braços
    erguidos; com o suor da estrela
    tatuada na testa.



    Carlos de Oliveira

     
     


    Carlos de Oliveira_Nas colinas de António Machado




    Nas colinas de António Machado




    I

    Na crista das colinas
    sem neve, a pedra; o seu esmeril;
    aguça mais a luz:
    como dormir
    com estas flechas
    brancas na memória?
    flechas de catedrais;
    como esquecer
    este rumor de vidro e algodão
    no céu? poema escrito
    entre uma aresta e um gume,
    entra nas veias, fere:
    agulha de morfina fria;
    como arde este cristal?


    II

    Fogo, fulgor
    das veias fatigadas
    subindo à pedra; à luz;
    à neve
    por cair;
    estrutura imóvel refractando
    que chama interior?
    petrificando que mineral humano
    apenas esboçado?
    nenhuma eternidade
    se concebe melhor;
    nenhuma estrela;
    nenhum fulgor perseverante
    como o deste cristal.


    III

    As nuvens descem;
    ou o paradouro sobe da colina, da prata;
    colina plateada; ou voga
    no ar o tuinal
    ainda turvo; ou a pré-atmosfera
    do sono se anuncia
    no halo inquieto
    onde a neve começa
    a ganhar peso
    pouco a pouco; ou piso-a já
    fechando os olhos: ou o seu filtro
    me purifica; ou nada disto: o feltro
    da insónia apenas; a polir
    por dentro este cristal.


    IV

    Move-se a esfera,
    quase imperceptível; pedra aérea:
    colinas ascendendo
    em torno de mim,
    eixo do mundo; mais veloz,
    a rotação arrasta as lâminas da luz,
    tritura-as, espalha-as
    como chuva
    num esplendor de fósforo; afinal,
    a neve é isto: pedra
    em flocos; o seu brilho de mica;
    o seu regresso à terra; quando
    o movimento cessa e coalha
    o som deste cristal.


    V

    Nenhum revérbero
    agora; superfície,
    serenidade; mas
    na coroa circular, melhor, no horizonte
    de rocha, pulsa ainda
    um fogo fátuo:
    xisto, sílica, trazidos
    de minas profundíssimas; e nele
    a cinza à espera
    do vento árido, sem pólen,
    que fende o céu
    esterilmente: cálice vazio;
    ou cheio de silêncio; mas
    cálice, cristal.


    Carlos de Oliveira

    sexta-feira, 2 de outubro de 2015

    The Best of the Doors Full Album



    00:00 - Riders On The Storm 07:15 - Light My Fire 14:21 - Love Me Two Times 17:37 - Roadhouse Blues (Live) 22:11 - Strange Days 25:19 - Break On Through 27:47 - Five To One 32:14 - Moonlight Drive 35:16 - Alabama Song 38:36 - Love Her Madly 41:55 - People Are Strange 44:06 - Touch Me 47:19 - Back Door Man 50:53 - The Unknown Soldier 54:16 - L.A. Woman 1:02:07 - Hello, I Love You 1:04:23 - The End

    segunda-feira, 28 de setembro de 2015

    DEAD COMBO "Povo Que Cais Descalço"





    "Um país abandonado, deixado à mercê de um destino que não se vislumbra no horizonte. Um povo descalço, que cai a cada passo que dá, empurrado por uma gigantesca mão feita de aço. Paisagens inóspitas arrancadas, à força, do coração de que é feito esta gente. Um coração que bate, forte, indestrutível. O povo que cai, mas que se ergue sempre após cada queda e continua a caminhar. O povo que é o país, o povo que somos nós. Todos." Dead Combo

    Realizado por / Directed by:
    Daniel Costa Neves

    Produzido por / Produced by:
    Daniel Costa Neves / Dead Combo / Paulo Pato

    Agradecimentos / Thanks to:
    Ainhoa Vidal, Hélder Nelson, José André e Carlos Almeida (Irmã Lúcia SFX), Julia Doesch, Kilito, Lydie Bárbara & João Figueiras (Blackmaria Produções), Mário Melo Costa, Pedro Diniz Reis, Pelouro da Cultura da C.M. Braga, Polícia Municipal de Braga e Theatro Circo de Braga.

    2014 © Daniel Costa Neves / Dead Combo

    www.deadcombo.net
    www.danielcostaneves.com

    sexta-feira, 18 de setembro de 2015

    Ruy Belo :: Morte ao meio-dia / Dito por Mário Viegas






    Ruy Belo (1933-1978)
    "Morte ao meio-dia" in «Boca Bilingue» (1966).

    Dito por Mário Viegas in «Humores», Disco 2, lado A (1980). Mário Viegas recita aqui a versão definitiva do poema, publicada no Vol. I da «Obra Poética de Ruy Belo» (1972), onde foi interpolada a estrofe iniciada por "O português paga calado cada prestação".

    Música: Max Richter, "What had they done?" in «Waltz with Bashir. OST» (2008).

    Em diversas línguas europeias a palavra "meio-dia" permite também designar o Sul geográfico. Tal foi o ponto de partida deste vídeo.

    A frase de abertura é retirada de «A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer», da autoria do escritor sueco Stig Dagerman (1923-1954). Eis a frase no seu contexto: "E enquanto me for possível empurrar as palavras contra a força do mundo, esse poder será tremendo, pois quem constrói prisões expressa-se sempre pior do que quem se bate pela liberdade" (p. 23 da edição portuguesa de 1989).

    O graffiti final é uma variação da frase do poeta austríaco Erich Fried (1921-1988), refugiado em Inglaterra após a anexação do seu país pelos nazis: "Aquele que deseja que o mundo permaneça tal como está, não quer de facto que ele permaneça". Na versão original não figura o enfático "at all" do graffiti: "Wer will, daß die Welt so bleibt, wie sie ist, der will nicht, dass sie bleibt."


    POEMA:

    No meu país não acontece nada
    à terra vai-se pela estrada em frente
    Novembro é quanta cor o céu consente
    às casas com que o frio abre a praça

    Dezembro vibra vidros brande as folhas
    a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal
    que o mais zeloso varredor municipal
    Mas que fazer de toda esta cor azul

    Que cobre os campos neste meu país do sul?
    A gente é previdente tem saúde e assistência cala-se mais nada
    A boca é pra comer e pra trazer fechada
    o único caminho é direito ao sol

    No meu país não acontece nada
    o corpo curva ao peso de uma alma que não sente
    Todos temos janela para o mar voltada
    o fisco vela e a palavra era para toda a gente

    E juntam-se na casa portuguesa
    a saudade e o transístor sob o céu azul
    A indústria prospera e fazem-se ao abrigo
    da velha lei mental pastilhas de mentol

    O português paga calado cada prestação
    Para banhos de sol nem casa se precisa
    E cai-nos sobre os ombros quer a arma quer a sisa
    e o colégio do ódio é a patriótica organização

    Morre-se a ocidente como o sol à tarde
    Cai a sirene sob o sol a pino
    Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde
    Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?

    Há neste mundo seres para quem
    a vida não contém contentamento
    E a nação faz um apelo à mãe,
    atenta a gravidade do momento

    O meu país é o que o mar não quer
    é o pescador cuspido à praia à luz
    pois a areia cresceu e a gente em vão requer
    curvada o que de fronte erguida já lhe pertencia

    A minha terra é uma grande estrada
    que põe a pedra entre o homem e a mulher
    O homem vende a vida e verga sob a enxada
    O meu país é o que o mar não quer


    sexta-feira, 11 de setembro de 2015

    Marco Rodrigues_Fados do Fado_Noite




    Noite


     letra de Vasco de Lima Couto e música de Max


    Sou da noite um filho noite
    Trago rugas nos meus dedos
    De contarem os segredos
    Nas altas fontes do amor

    E canto porque é preciso
    Raiar a dor que me impele
    E gravar na minha pele
    As fontes da minha dor

    Noite companheira dos meus gritos
    Rio de sonhos aflitos
    Das aves que abandonei
    Noite céu dos meus casos perdidos
    Vêm de longe os sentidos
    Nas canções que eu entreguei

    Oh minha mãe de arvoredos
    Que penteias a saudade
    Com que vi a humanidade
    A minha voz soluçar

    Dei-te um corpo de segredos
    Onde risquei minha mágoa
    E onde bebi essa água
    Que se prendia no ar

    Noite companheira dos meus gritos
    Rio de sonhos aflitos
    Das aves que abandonei
    Noite céu dos meus casos perdidos
    Vêm de longe os sentidos
    Nas canções que eu entreguei


    domingo, 6 de setembro de 2015

    Lara Fabian - je suis malade





    Com um final estrondoso...(sem microfone)!!!


    juan manuel serrat - puebo blanco





    Colgado de un barranco
    duerme mi pueblo blanco
    bajo un cielo que, a fuerza
    de no ver nunca el mar,
    se olvidó de llorar.

    Por sus callejas de polvo y piedra
    por no pasar, ni pasó la guerra.
    Sólo el olvido...
    camina lento bordeando la cañada
    donde no crece una flor
    ni trashuma un pastor.

    El sacristán ha visto
    hacerse viejo al cura.
    El cura ha visto al cabo
    y el cabo al sacristán.
    Y mi pueblo después
    vio morir a los tres...

    Y me pregunto por qué nacerá gente
    si nacer o morir es indiferente.

    De la siega a la siembra
    se vive en la taberna.
    Las comadres murmuran
    su historia en el umbral
    de sus casas de cal.

    Y las muchachas hacen bolillos
    buscando, ocultas tras los visillos,
    a ese hombre joven
    que, noche a noche, forjaron en su mente.
    Fuerte pa' ser su señor.
    Tierno para el amor...

    Ellas sueñan con él,
    y él con irse muy lejos
    de su pueblo. Y los viejos
    sueñan morirse en paz,
    y morir por morir,
    quieren morirse al sol.

    La boca abierta al calor, como lagartos.
    Medio ocultos tras un sombrero de esparto.

    Escapad gente tierna,
    que esta tierra está enferma,
    y no esperes mañana
    lo que no te dio ayer,
    que no hay nada que hacer.

    Toma tu mula, tu hembra y tu arreo.
    Sigue el camino del pueblo hebreo
    y busca otra luna.
    Tal vez mañana sonría la fortuna.
    Y si te toca llorar
    es mejor frente al mar.

    Si yo pudiera unirme
    a un vuelo de palomas,
    y atravesando lomas
    dejar mi pueblo atrás,
    juro por lo que fui
    que me iría de aquí...

    Pero los muertos están en cautiverio
    y no nos dejan salir del cementerio

    PATXI ANDION Me esta doliendo una pena





    Me esta doliendo una pena
    Y no la puedo parar
    y se revuelve en silencio
    tumba abierta en soledad
    y quiero hacerla cometa
    para poderla volar ...


    Me esta ganando esta pena
    y no la quiero ceder
    y busca por ser palabra
    y es por hacerse entender
    en brazos de mi guitarra
    y la tengo que esconder ...


    Y en mi guitarra quisiera
    dejar la pena llorar
    hacerla surco en el tiempo
    hacerla tiempo en el mar
    hacer con la mar un viento
    que se la pueda llevar


    Me esta doliendo una pena
    acunada en el portal
    de este vacio sonoro
    que no sabe adonde va
    de este vacio que lloro
    por quererlo remediar ...


    Y en mi guitarra quisiera
    Dejar la pena llorar
    romper la monotonia
    de este pueblo en carnaval
    de este pueblo que me duele
    cada dia mas y mas
    Y que es una imensa pena
    y me tengo que callar..

    Me esta doliendo una pena

    Y me tengo que callar...


    terça-feira, 1 de setembro de 2015

    Ana Maria

    ( poema declamado e gravado por um familiar, já falecido, que viveu longos anos no Brasil.
      não tenho a certeza se a autoria será dele. )
     



    Vestida de rosas brancas
    de mil silêncios feitas
    assim jaz Ana Maria
    que inda à pouco sorria
    e agora não sorri mais.

    Está mais pobre o seu bairro
    e a sua rua ainda mais
    só por que Ana Maria
    que inda à pouco sorria
    agora não sorri mais.

    Há certo véu de tristeza
    turvando o olhar dos pais
    tudo por que Ana Maria
    que inda à pouco sorria
    agora não sorri mais.

    As lindas danças de roda
    perderam uma graça a mais
    e isto por que Ana Maria
    que inda à pouco dançava
    agora não dança mais.

    Parece que está dormindo
    ouve-se por entre ais
    dormir, pode dormir
    mas sorrir como sorria
    a linda Ana Maria
    não sorrirá nunca mais.

    Perdida canção alada
    espalhada pelos céus
    lindos versos de esperança
    que a morte já não ouviu
    e nos versos da canção
    havia certa ironia
    eis o que dizia a canção:
    - por quem sonha Ana Maria?


    quarta-feira, 26 de agosto de 2015

    Rodrigo Costa Félix - Amigo Aprendiz




    POEMA  AMIGO APRENDIZ de Fernando Pessoa.



    Quero ser o teu amigo.
    Nem demais e nem de menos.
    Nem tão longe e nem tão perto.
    Na medida mais precisa que eu puder.
    Mas amar-te sem medida e ficar na tua vida,
    Da maneira mais discreta que eu souber.
    Sem tirar-te a liberdade, sem jamais te sufocar.
    Sem forçar tua vontade.
    Sem falar, quando for hora de calar.
    E sem calar, quando for hora de falar.
    Nem ausente, nem presente por demais.
    Simplesmente, calmamente, ser-te paz.
    É bonito ser amigo, mas confesso: é tão difícil aprender!
    E por isso eu te suplico paciência.
    Vou encher este teu rosto de lembranças,
    Dá-me tempo de acertar nossas distâncias



    se o mar te falasse...



    Se o mar te falasse..

    Como se o mar talvez te daqui levasse...
    levasse o corpo ou até te encharcasse...
    a alma num imenso oceano de água fria
    Oceano de dor que até aqui te trazia
    Fustigado pelos ventos, em areias adormecidas
    Enterraste as mãos num pedido escondido
    E afogaste teus olhos nas águas macias
    Numa mesma praia, sem corpo vestido!
    Vestes apenas tu...
    Com esse fato negro escuro de cegueira
    Num corpo sem forma trespassado pela claridade
    Quase abandonado pela alma, já sem piedade!,
    Definas como a erosão de uma rocha costeira
    Ninguém quer reparar quando a desgraça magoa
    Ninguém parece sequer saber que ali um homem sofre só
    Talvez nem num único pensamento te soubesses pessoa
    Ou que há sempre quem "reze" por nós!
    Nada nem ninguém saberá o que ate aqui te traz
    Ou o que trazes em ti que te roubou toda a paz
    Mas cada Ser tem por direito uma nova porta, merecida!
    Desejo que a tenhas atravessado com vida!

    in: -* Jardim de palavras *- 27 de agosto de 2014



    Jacques Brel - La chanson des vieux amants







    a mais doce, a mais terna, a mais bela canção de amor.

    Cette chanson est un compte-rendu mélancolique tenu par un amant et adressé à celle qui partagea sa vie durant deux décennies.
    Le texte est guidé par les souvenirs et étoffes de sentiments que le chanteur a su conserver de cette histoire.


    La Chanson des vieux amants Lyrics Jacques Brel



    [Couplet 1]
    Bien sûr, nous eûmes des orages
    Vingt ans d'amour, c'est l'amour fol
    Mille fois tu pris ton bagage
    Mille fois je pris mon envol

    Et chaque meuble se souvient
    Dans cette chambre sans berceau

    Des éclats des vieilles tempêtes
    Plus rien ne ressemblait à rien
    Tu avais perdu le goût de l'eau
    Et moi celui de la conquête


    [Refrain]
    Mais mon amour
    Mon doux, mon tendre, mon merveilleux amour
    De l'aube claire jusqu'à la fin du jour
    Je t'aime encore, tu sais, je t'aime

    [Couplet 2]
    Moi, je sais tous tes sortilèges
    Tu sais tous mes envoûtements
    Tu m'as gardé de piège en piège
    Je t'ai perdue de temps en temps

    Bien sûr tu pris quelques amants
    Il fallait bien passer le temps
    Il faut bien que le corps exulte

    Mais finalement, finalement
    Il nous fallut bien du talent
    Pour être vieux sans être adultes


    [Refrain]

    [Couplet 3]
    Et plus le temps nous fait cortège
    Et plus le temps nous fait tourment

    Mais n'est-ce pas le pire piège
    Que vivre en paix pour des amants
    Bien sûr tu pleures un peu moins tôt
    Je me déchire un peu plus tard
    Nous protégeons moins nos mystères
    On laisse moins faire le hasard
    On se méfie du fil de l'eau
    Mais c'est toujours la tendre guerre

    [Refrain]







    domingo, 23 de agosto de 2015

    Caminho da manhã


    Vais pela estrada que é de terra amarela e quase sem nenhuma sombra. As cigarras cantarão o silêncio de bronze. À tua direita irá primeiro um muro caiado que desenha a curva da estrada. Depois encontrarás as figueiras transparentes e enroladas; mas os seus ramos não dão nenhuma sombra. E assim irás sempre em frente com a pesada mão do Sol pousada nos teus ombros, mas conduzida por uma luz levíssima e fresca. Até chegares às muralhas antigas da cidade que estão em ruínas. Passa debaixo da porta e vai pelas pequenas ruas estreitas, direitas e brancas, até encontrares em frente do mar uma grande praça quadrada e clara que tem no centro uma estátua. Segue entre as casas e o mar até ao mercado que fica depois de uma alta parede amarela. Aí deves parar e olhar um instante para o largo pois ali o visível se vê até ao fim. E olha bem o branco, o puro branco, o branco da cal onde a luz cai a direito. Também ali entre a cidade e a água não encontrarás nenhuma sombra; abriga-te por isso no sopro corrido e fresco do mar. Entra no mercado e vira à tua direita e ao terceiro homem que encontrares em frente da terceira banca de pedra compra peixes. Os peixes são azuis e brilhantes e escuros com malhas pretas. E o homem há-de pedir-te que vejas como as suas guelras são encarnadas e que vejas bem como o seu azul é profundo e como eles cheiram realmente, realmente a mar. Depois verás peixes pretos e vermelhos e cor-de-rosa e cor de prata. E verás os polvos cor de pedra e as conchas, os búzios e as espadas do mar. E a luz se tornará líquida e o próprio ar salgado e um caranguejo irá correndo sobre uma mesa de pedra. À tua direita então verás uma escada: sobe depressa mas sem tocar no velho cego que desce devagar. E ao cimo da escada está uma mulher de meia idade com rugas finas e leves na cara. E tem ao pescoço uma medalha de ouro com o retrato do filho que morreu. Pede-lhe que te dê um ramo de louro, um ramo de orégãos, um ramo de salsa e um ramo de hortelã. Mais adiante compra figos pretos: mas os figos não são pretos: mas azuis e dentro são cor-de-rosa e de todos eles corre uma lágrima de mel. Depois vai de vendedor em vendedor e enche os teus cestos de frutos, hortaliças, ervas, orvalhos e limões. Depois desce a escada, sai do mercado e caminha para o centro da cidade. Agora aí verás que ao longo das paredes nasceu uma serpente de sombra azul, estreita e comprida. Caminha rente às casas. Num dos teus ombros pousará a mão da sombra, no outro a mão do Sol. Caminha até encontrares uma igreja alta e quadrada.

    Lá dentro ficarás ajoelhada na penumbra olhando o branco das paredes e o brilho azul dos azulejos. Aí escutarás o silêncio. Aí se levantará como um canto o teu amor pelas coisas visíveis que é a tua oração em frente do grande Deus invisível.

    Sophia de Mello Breyner, Livro Sexto, 1962