terça-feira, 14 de abril de 2026

Carta Aberta_

 

ilustração © Catarina Soares Barbosa
Abusos. Ilustração © Catarina Soares Barbosa



"mais além fica o deserto
meu bem 

em frente ao olhar que terei."

lmc

DAQUI:


Testemunho

O silêncio foi parte da violência. E continua a doer quando volta a ser exigido – Uma carta aberta aos bispos e a toda a Igreja Católica

 | 08/04/2026
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“Puseram um preço à minha dor, mas vem com cláusulas de silêncio. Só posso ter alguma “reparação” se abdicar da minha voz. Como se, depois de tudo o que me foi feito, ainda me coubesse aceitar calada o que me impõem. Proíbem-me de voltar a falar, de contestar, de procurar justiça por outras vias.”

Escrevo-vos, escrevo-te com a alma cansada e o coração em carne viva.

Escrevo como vítima. Escrevo como católica. Escrevo como alguém que ficou quando tantas outras partes de mim queriam fugir, que permaneceu quando teria sido mais fácil partir, alguém que continuou a rezar quando já mal tinha forças para acreditar, alguém que tentou não deixar a ferida transformar-se em afastamento total. Mas há dores que não desaparecem. Há feridas que apenas aprendem a viver em silêncio até ao dia em que alguma coisa as volta a abrir. E foi isso que aconteceu outra vez.

Dói-me profundamente o que está a ser feito às vítimas de abusos sexuais na Igreja Católica, pois há algo de profundamente cruel nisto tudo. Falemos por exemplo do modo como as entrevistas para as compensações foram conduzidas. Foi algo de humilhante sermos obrigadas a ir sozinhas, sem qualquer suporte emocional, como se reviver a própria história não exigisse amparo. Não podíamos levar nada connosco, por medo de que a entrevista fosse gravada; e, no entanto, aquilo que estava ali a ser revisto era a nossa vida inteira, desde o dia em que nascemos – não era a vida de mais ninguém.

Depois, não nos dão acesso ao relatório que escreveram sobre nós, com base nessas entrevistas. Como se nos pedissem para acreditar em algo que não podemos ver, nem confirmar, nem contestar. Como se a verdade sobre a minha vida pudesse ser escrita sem me pertencer. E o que isso provoca é uma dor muito funda, porque a sensação de desamparo volta inteira: sujeitei-me a perguntas íntimas, a comentários desagradáveis – inclusive sobre a minha vida sexual, imagine-se – e, no fim, ainda me é negado o direito mais básico de saber com exatidão o que foi escrito sobre mim?

 A nossa dor é tratada como um problema a enquadrar, um valor a definir, um processo a encerrar. Como se o que nos aconteceu pudesse ser dobrado até caber numa folha de papel. Como se a violência que nos atravessou pudesse ser devolvida em números. Como se a ferida tivesse um preço e não uma história, um corpo, uma memória, uma alma.

Dói-me a descoberta desta decisão dos nossos bispos em cortar, aparentemente, para menos de metade a compensação apresentada pela Comissão de Fixação de Compensações e isso toca-nos na parte mais vulnerável da alma: a sensação de que a nossa dor continua a ser pequena demais aos olhos de quem devia ter aprendido a olhar com mais verdade. Como é possível falar de reparação e, ao mesmo tempo, cortar, limitar, reduzir? Como é possível pedir às vítimas que aceitem o mínimo quando o que foi destruído nelas foi tudo menos mínimo?

Não consigo ler certas decisões sem sentir que a minha dor é observada de longe, pesada por mãos que nunca a carregaram, reduzida por decisões que não passam pelo lugar mais fundo do que vivi. E o pior não é apenas o que se decide. É a sensação de que, mais uma vez, nos pedem que aceitemos. Que compreendamos. Que não compliquemos. Que não exijamos demasiado. Que sejamos pacientes com o que já demorou demasiado a ser feito. Que aceitemos documentos, regras, termos, números, como se isso fosse suficiente para tocar a profundidade da violência que sofremos. Mas não é. Nunca será.

Rute Agulhas, José Ornelas, Manuel Barbosa e Célia Cabecinhas em congresso sobre abusos na Igreja organizado pelo Grupo Vita em Fátima, nov 2025. Foto Agência ECCLESIAMC

Rute Agulhas, José Ornelas, Manuel Barbosa e Célia Cabecinhas (da direita para a esquerda) em congresso sobre abusos na Igreja organizado pelo Grupo Vita em Fátima, novembro de 2025. Foto © Agência ECCLESIA/MC

Digam-me como confiar em bispos que falam de segurança, prevenção e proteção, se depois um deles impõe curtas penas a um agressor e este nem isso cumpre – e o bispo não as faz cumprir? Como pode apresentar-se a Igreja como um espaço seguro quando, diante de factos concretos, falha precisamente naquilo que promete garantir? Para uma vítima, isso é devastador: não é apenas a sensação de que as palavras não bastam, é a certeza dolorosa de que a proteção proclamada é, frequentemente, apenas aparência.

Essa desconfiança torna-se ainda mais profunda quando também o próprio processo de denúncia nos entrega à sorte do senso de humanidade de cada comissão de proteção de menores da Igreja: há lugares onde somos acolhidas com escuta, e há lugares onde encontramos frieza; há comissões onde a dor encontra abrigo, e outras onde volta a bater contra a parede da indiferença. Como se até a forma de receber o sofrimento fosse uma lotaria.

Depois, há ainda a ferida de saber que, no fim, cada bispo ou superior de congregação pode escolher entre a compensação sugerida pela Comissão de Fixação de Compensações ou a que levou o corte decidido pela Conferência Episcopal. Como se até a reparação pudesse variar conforme a mão que decide, conforme a diocese, conforme a congregação, conforme a sensibilidade – ou a falta dela – de quem tem a palavra final. E isso deixa-nos com uma pergunta amarga: se a dor é a mesma, como pode o valor da reparação depender da escolha de quem recebe o caso? Atrevo-me a dizer que esta aleatoriedade é anticristã!

E há ainda o termo que me pedem para assinar. Um termo que me obriga a aceitar as condições deles para poder receber a compensação. Puseram um preço à minha dor, mas vem com cláusulas de silêncio. Só posso ter alguma “reparação” se abdicar da minha voz. Como se, depois de tudo o que me foi feito, ainda me coubesse aceitar calada o que me impõem. Proíbem-me de voltar a falar, de contestar, de procurar justiça por outras vias. Como se a minha dor pudesse ser encerrada num papel. Como se a minha história deixasse de me pertencer no instante em que aceito aquilo que me oferecem. Como se o silêncio fosse parte da reparação. Não é. O silêncio foi parte da violência. E continua a doer quando volta a ser exigido.

Há palavras de Jesus que ecoam em mim neste momento: “Ai de vós, doutores da Lei e fariseus hipócritas, porque sois semelhantes a sepulcros caiados: formosos por fora, mas, por dentro cheios de ossos de mortos e de toda a espécie de imundície! Assim também vós: por fora pareceis justos aos olhos dos outros, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e de iniquidade.” (Mateus 23,27-28). Quando Ele chama aos fariseus “sepulcros caiados”, fala de uma aparência que engana, de uma beleza exterior que esconde vazio e podridão por dentro. E eu não consigo deixar de sentir essa passagem como um espelho doloroso quando vejo gestos que parecem corretos, mas que não tocam o essencial. Há decisões que se vestem de prudência e de legalidade, mas que deixam a alma das vítimas abandonada. Há gestos que querem parecer justos, mas não o são verdadeiramente. E isso destrói mais do que se imagina.

“Sermão da Montanha” – Kalroly Ferenczy, representação de uma cena pastoral, 1896. Galeria Nacional de Budapeste.

Sermão da Montanha, de Kalroly Ferenczy, representação de uma cena pastoral, 1896. Galeria Nacional de Budapeste.

Também me lembro de Jesus, durante o Sermão da Montanha, dizer: “Se alguém te obrigar a acompanhá-lo durante uma milha, caminha com ele duas.” (Mateus 5,41). E essa palavra, que sempre me pareceu tão exigente, dói-me ainda mais agora. Porque fala de ir além do mínimo, além do suficiente, além do que apenas cumpre. Fala de um amor que não se limita ao necessário, mas que se entrega de forma inteira. E era isso que eu esperava da Igreja: não o estritamente permitido, não o que fecha processos, não o que evita problemas – mas o que verdadeiramente acompanha no processo de cura. O que verdadeiramente reconhece. O que verdadeiramente repara.

Em vez disso, encontro frieza. Encontro distância. Encontro uma forma de lidar com a nossa dor que me faz sentir que continuo a ser tratada como um problema a resolver e não como uma pessoa a proteger. E isso magoa-me quase tanto quanto a ferida original.

Eu continuo na Igreja. Admito-o em voz alta, MAS continuar aqui não significa paz. Significa resiliência. Significa fé ferida. Significa amar aquilo que também me magoou. Significa permanecer mesmo quando o coração quer fugir. Significa continuar a acreditar em Cristo, apesar de tudo o que fizeram em Seu nome. Mas não confundamos permanência com resignação. Eu não me resigno. Eu sofro. Eu observo. Eu sinto. E eu vejo.

Sinto-me profundamente desiludida – como vítima e como católica praticante. Desiludida não é sequer palavra bastante para o que me habita. Há revolta, há tristeza, há cansaço, há uma espécie de luto por aquilo que pensei que a Igreja pudesse ser para mim e que tantas vezes não foi e não é. E mesmo assim, continuo a desejar verdade. Continuo a desejar justiça. Continuo a desejar que um dia a Igreja seja capaz de olhar para as vítimas sem medo, sem cálculo, sem conveniência.

Não quero compaixão de fachada. Não quero discursos bonitos. Não quero reparações que pareçam generosas mas que, no fundo, se fiquem pelo mínimo. Quero verdade inteira. Quero responsabilidade real. Quero que a nossa dor seja levada a sério sem reservas, sem silêncio imposto, sem encerramentos apressados.

Porque o que nos estão a fazer dói. Dói no corpo, na memória, na fé e na confiança. E há dores que não passam apenas porque alguém decidiu que já era tempo de seguir em frente. Não se segue em frente sobre uma ferida que ainda está aberta. Não se chama paz ao que ainda não foi verdadeiramente reparado.

Escrevo-vos, escrevo-te, portanto, não para atacar, mas para dizer a verdade que tanta gente prefere não ouvir: nós, as vítimas, ainda estamos aqui. Feridas, sim. Cansadas, sim. Desiludidas, sim. Mas ainda aqui. E enquanto estivermos aqui, a nossa dor não pode ser tratada como ruído de fundo.

Miriam Fernandes é o pseudónimo de uma vítima de abuso numa das dioceses portuguesas.



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