sexta-feira, 28 de novembro de 2014

maria do rosário pedreira _ guarda tu agora


 guarda tu agora


Guarda tu agora o que eu, subitamente, perdi
talvez para sempre - a casa e o cheiro dos livros,
a suave respiração do tempo, palavras, a verdade,
camas desfeitas algures pela manhã,
o abrigo de um corpo agitado no seu sono. Guarda-o


serenamente e sem pressa, como eu nunca soube.
E protege-o de todos os invernos - dos caminhos
de lama e das vozes mais frias. Afaga-lhe
as feridas devagar, com as mãos e os lábios,
para que jamais sangrem. E ouve, de noite,
a sua respiração cálida e ofegante
no compasso dos sonhos, que é onde se esconde
os mais escondidos medos e anseios.


Não deixes nunca que se ouça sozinho no que diz
antes de adormecer. E depois aguarda que,
na escuridão do quarto, seja ele a abraçar-te,
ainda que não te tenha revelado uma só vez que o queria.


Acorda mais cedo e demora-te a olhá-lo à luz azul
que os dias trazem à casa quando são tranquilos.
E nada lhe peças de manhã - as manhãs pertencem-lhe;
deixa-o a regar os vasos na varanda e sai,
atravessa a rua enquanto ainda houver sol. E assim
haverá sempre sol e para sempre o terás,
como para sempre o terei perdido eu, subitamente,
por assim não ter feito.


maria do rosário pedreira
a casa e o cheiro os livros
gótica
2002

ADRIANO CORREIA DE OLIVEIRA - CANTAR DE EMIGRAÇÃO



Letra:

Este parte, aquele parte 
e todos, todos se vão 
Galiza ficas sem homens 
que possam cortar teu pão 

Tens em troca 
órfãos e órfãs 
tens campos de solidão 
tens mães que não têm filhos 
filhos que não têm pai 

Coração 
que tens e sofre 
longas ausências mortais 
viúvas de vivos mortos 
que ninguém consolará

Adriano Correia de Oliveira - Canção com Lágrimas





Eu canto para ti um mês de giestas
Um mês de morte e crescimento ó meu amigo
Como um cristal partindo-se plangente
No fundo da memória perturbada

Eu canto para ti um mês onde começa a mágoa
E um coração poisado sobre a tua ausência
Eu canto um mês com lágrimas e sol o grave mês
Em que os mortos amados batem à porta do poema

Porque tu me disseste quem em dera em Lisboa
Quem me dera me Maio depois morreste
Com Lisboa tão longe ó meu irmão tão breve
Que nunca mais acenderás no meu o teu cigarro

Eu canto para ti Lisboa à tua espera
Teu nome escrito com ternura sobre as águas
E o teu retrato em cada rua onde não passas
Trazendo no sorriso a flor do mês de Maio

Porque tu me disseste quem em dera em Maio
Porque te vi morrer eu canto para ti
Lisboa e o sol Lisboa com lágrimas
Lisboa a tua espera ó meu irmão tão breve
Eu canto para ti Lisboa à tua espera...

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Rokia Traore - Sabali



Rokia Traores song Sabali, 
along with a beautiful slideshow of africa and its people.

Ayub Ogada - Kothbiro







Kenyan singer-songwriter Ayub Ogada was a busker on the Northern Line when he came to Real World's attention in the late 80s. And this 1993 set - his only record for the label - proved that it was a meeting of minds, with his disarmingly simple arrangements, allowed to hang there unadorned, making a lasting 


Ayub Ogada - Kothbiro





Kenyan singer-songwriter Ayub Ogada was a busker on the Northern Line when he came to Real World's attention in the late 80s. And this 1993 set - his only record for the label - proved that it was a meeting of minds, with his disarmingly simple arrangements, allowed to hang there unadorned, making a lasting 

Acabe com as quedas para a desgraça - APSI







Publicado a 16/11/2014


“Acabe com as quedas para a desgraça” é uma campanha A.P.S.I. de sensibilização com o objetivo de alertar para o problema das quedas nas crianças. Estas quedas, especialmente graves quando ocorrem de alturas elevadas, nomeadamente de janelas e varandas sem proteção adequada, conduzem em muitos casos à morte.

A associação quer atingir públicos distintos: os encarregados de educação para que se informem sobre as medidas de segurança a tomar; os projetistas e construtores para que adotem as melhores práticas de projeto e construção; e o poder local e central, que deve garantir a criação de legislação e normas harmonizadas de construção.




As situações de risco e os conselhos de segurança, estão disponíveis em http://apsi.org.pt/




Conceito, Realização e Edição: Luís Mileu e Ricardo Henriques

Música: Menina Estás à Janela de Vitorino

Voz: Maria Ana Bobone

Produção áudio: Rodrigo Serrão I K Branca Music

Produção: APSI

Apoio: Fundação Calouste Gulbenkian

O emprego mais difícil do mundo - legendas em português





Vídeo exibido em homenagem ao Dia das Mães, 2014

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Manuel Freire - Pedra Filosofal






Pedra Filosofal


Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

António Gedeão

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Cante alentejano - Candidatura a Património Imaterial





Cante alentejano - Filme de candidatura à lista de património imaterial da humanidade UNESCO.

Canção de Lisboa ... Jorge Palma.



A cançao de Lisboa cantada por Jorge Palma e com fotos de Lisboa... 
Uma singela homenagem a Lisboa e a Jorge Palma

João Afonso e João Lucas ::: A presença das formigas (Um Redondo Vocábul...



João Afonso e João Lucas //
'A Presença das Formigas' // do álbum 
'Um Redondo Vocábulo' de 2009 //


Carminho - Chuva no Mar com Marisa Monte



Publicado a 11/11/2014
Retirado do álbum "Canto" (2014)
Música: Marisa Monte
Letra: Arnaldo Antunes

Rádio Comercial | Parabéns Carlos do Carmo

Publicado a 20/11/2014

No dia em que recebe o Grammy "Lifetime Achievement Award", Carlos do Carmo recebe a homenagem da Rádio Comercial 

Rádio Comercial | Making Of dos 'Parabéns a Carlos do Carmo'





A Rádio Comercial juntou 35 artistas para cantarem "Lisboa Menina e Moça”, como tributo ao Grammy "Lifetime Achievement Award" que Carlos do Carmo recebeu.

Aqui está o making of da música e vídeo.

sábado, 22 de novembro de 2014

Manoel de Barros_19/12/1916 - 13/11/2014

19/12/1916 - 13/11/2014


Manoel de Barros



Venho de um Cuiabá de garimpos e de ruelas entortadas.
Meu pai teve uma venda no Beco da Marinha, onde nasci.
Me criei no Pantanal de Corumbá entre bichos do chão, aves, pessoas humildes, árvores e rios.
Aprecio viver em lugares decadentes por gosto de estar entre pedras e lagartos.

Já publiquei 10 livros de poesia: ao publicá-los me sinto meio desonrado e fujo para o Pantanal onde sou abençoado a garças.
Me procurei a vida inteira e não me achei — pelo que fui salvo.
Não estou na sarjeta porque herdei uma fazenda de gado.
Os bois me recriam. Agora eu sou tão ocaso!
Estou na categoria de sofrer da moral porque só faço coisas inúteis.
No meu morrer tem uma dor de árvore.


- Manoel de Barros,
in: "Livro das Ignorãças"




sexta-feira, 21 de novembro de 2014

alexandre o'neill / amor

amor


O amor é o amor- e depois?
Vamos ficar os dois
a imaginar, a imaginar?...

O meu peito contra o teu peito,
cortando o mar, cortando o ar.
Num leito
há todo o espaço para amar!

Na nossa carne estamos
sem destino, sem medo, sem pudor,
e trocamos- e somos um? somos dois?
espírito e calor!

O amor é o amor e depois?!


 alexandre o'neill 

álvaro de campos / apontamento

 apontamento


A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.

Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.

Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?

Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.

Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.

Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-no especialmente, pois não sabem porque ficou ali.




álvaro de campos

Oscar Peterson & Count Basie - Jumpin' At The Wood