segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Jerusalém











Jerusalém: 3800 anos a criar sarilhos

09 Dezembro 20171.304
São séculos de tumultos: Jerusalém foi atacada 52 vezes, sitiada 23 e arrasada por diferentes exércitos. Eis a primeira parte da história de uma cidade que Trump reconheceu como capital de Israel.




[Donald Trump reconheceu esta semana Jerusalém como a capital de Israel. Seguiram-se confrontos, feridos e já quatro mortos contabilizados. Leia a primeira parte da história da cidade que está no centro do conflito.]

c. 2000 a.C.

Embora os primeiros vestígios arqueológicos de ocupação humana datem de c.4500-3500 a.C., a primeira menção a Jerusalém surge em textos egípcios de c. 2000. O nome da cidade é dado como “Rushalim”, um dos muitos que viria a receber ao longo do tempo nos documentos de diferentes povos – só nos textos sagrados judaicos a cidade é designada por 72 nomes diferentes. Se os nomes são legião, as interpretações etimológicas oferecidas para cada um deles por diferentes estudiosos são um turbilhão estonteante – as discussões etimológicas em torno do nome “Jerusalém” são tão ferozes, sectárias e inconclusivas como as disputas pela cidade propriamente dita.

c. 1850 a.C.

Seguindo as instruções de Deus, Abraão sobe a uma montanha na “terra de Moriah”, acompanhado pelo seu filho Isaac. Chegado ao cimo, amarra o rapaz, deita-o sobre uma pedra a fazer a vez de altar e prepara-se para o degolar. No último instante surge um anjo que detém a sua mão e lhe aponta um providencial carneiro preso num arbusto próximo como vítima alternativa. Jesus (o treinador de ludopédio, não o Filho de Deus), diria que Abraão “não levou o guião certo”, mas a emenda acabou por evitar o pior e a história – sinistra e reveladora de um conceito de deus sanguinário, prepotente e que preza a obediência cega acima de tudo – acabou por impor-se nas exegeses e no imaginário como um edificante teste à solidez da fé de Abraão.

“Sacrifício de Isaac”, por Michelangelo da Caravaggio, c. 1603
Muitos estudiosos da Bíblia identificam a montanha na “terra de Moriah” como o local onde mais tarde foi construído o Templo de Salomão, ou seja, o actual Monte do Templo, em Jerusalém. Nunca saberemos se Abraão e Isaac tiveram existência real e, tendo-a, se alguma vez se aproximaram de Jerusalém, mas é mau agouro que a primeira história que tem a cidade como palco seja a de um pai disposto a cortar a garganta ao filho sem hesitação só porque ouviu uma voz que lhe disse para o fazer.
[“Story of Isaac”, de Leonard Cohen, do álbum Songs from a room (1969), contém uma acusação que, desgraçadamente, é intemporal: “Vós que agora construis estes altares/ Para sacrificar estas crianças/ Não mais o deveis fazer/ Um ardil não é uma visão/ E vós nunca fostes tentados/ Por um demónio ou por um deus”]

c. 1550-1000 a.C.

Jerusalém fica sob domínio egípcio, mas este entra em declínio após a derrota infligida pelos “Povos do Mar” na batalha de Djahy (ou Canaã), em 1178 a.C. O domínio dos egípcios dá lugar ao dos jebusitas, até que em 1010 a.C. o rei David conquista a cidade e faz dela a capital do Reino Unido de Israel, constituído pelos reinos de Israel, a norte, com capital em Samaria, e Judá, a sul, com capital em Jerusalém.

“David triunfante”, por Matteo Rosselli, 1620

c. 962-700 a.C.

No mesmo local onde David terá erguido um altar, o rei Salomão inicia em 962 a.C. a construção do que ficará conhecido como o Primeiro Templo.

“Salomão consagra o templo”, por James Tissot (ou discípulo), c.1896-1902
Com a morte de Salomão, c.930 a.C., o reino cinde-se em dois e não tarda que o faraó Sheshonk I (Shishak na Bíblia) se aproveite desta fraqueza para saquear Jerusalém.
Por volta de 850 a.C. sucedem-se os saques por filisteus (o povo de onde derivará mais tarde o topónimo “Palestina”), árabes e etíopes. Mostrando que os judeus não precisam de lições de estrangeiros no que toca a pilhagens e massacres, Joás, rei de Israel, entra em conflito com Amassias, rei de Judá, derrota as tropas deste na batalha de Beth-shemesh, semeia a destruição em Jerusalém e apropria-se dos tesouros do Templo.
Os desentendimentos entre Judá e Israel prosseguem e levam Ahaz de Judá a solicitar a protecção de Tiglath Pileser III, o senhor do império Neo-Assírio (e com um nome que soa a banda de doom metal lituana ou marca de cerveja artesanal eslovaca). Os assírios começam por aceitar a vassalagem, mas não tardam a passar à conquista de boa parte do Médio Oriente, e Israel e Judá não escapam à sua ambição.

A expansão do Império Assírio entre 824 a.C. e a sua máxima extensão, em 671 a.C.

701 a.C.

O rei assírio Sennacherib sitia Jerusalém mas não a conquista. Existem, consoante a fonte seja hebraica ou assíria, explicações tão contraditórias para este desfecho que funcionam como uma advertência para que encaremos com a maior desconfiança os relatos que nos chegaram da Antiguidade – muitos “factos históricos” sobre os quais alguns povos baseiam hoje reivindicações e crenças não passam de fraudes descaradas, criadas para efeitos de propaganda.
Se dermos crédito à Bíblia, em 701 a.C. Deus enviou em socorro de Jerusalém um anjo que matou 185.000 soldados assírios; se dermos crédito aos anais de Sennacherib, este levantou o cerco depois de Ezequias, rei de Judá, encurralado na cidade “como um pássaro na gaiola”, ter pago um resgate de “30 talentos de ouro, 800 de prata e diversos tesouros”.
A verdade pode estar entre estes dois extremos: talvez o levantamento do cerco tenha resultado de Ezequias ter empreendido prudentes preparativos, assegurando a abastecimento de água à cidade através da escavação de um túnel de meio quilómetro e eliminando, à aproximação dos assírios, todas as fontes de água no exterior; ou, como acontecia frequentemente até há não muito tempo, o deflagrar de uma epidemia no acampamento sitiante pode ter forçado Sennacherib a regressar a casa.

A versão judaica dos eventos: “A derrota de Sennacherib”, por Peter Paul Rubens, c.1612-14: o pinto tomou a liberdade de substituir o anjo solitário por um Quarteto Fantástico

609 a.C.

Partem os assírios, regressam os egípcios. O faraó Necao II, que pretende fazer face aos babilónios, uma potência emergente no sempre agitado cenário geopolítico do Médio Oriente, solicita a Josias, rei de Judá, que deixe passar as suas tropas, mas Josias recusa e Necao II derrota-o na batalha de Meggido. Meggido justifica um aparte: é um povoado de modesta relevância, no vale de Jezreel, mas a topografia da região faz dele um ponto de passagem muito frequentado, de forma que várias batalhas foram aí travadas ao longo da história; a dar crédito ao Livro do Apocalipse, terá também aí lugar, no fim dos tempos, a batalha definitiva, entre Deus e os exércitos de pecadores comandados por Satanás, ou seja, o Armagedão – nome derivado de Har Meggido.
Em Jerusalém, os novos senhores egípcios removem Joacaz, filho do falecido Josias, e colocam no trono de Jerusalém o seu irmão Joaquim. Porém, quatro anos depois, Necao II é derrotado pelo rei babilónio Nabucodonosor II (Nebuchadnezzar) e Jerusalém transfere para este a sua vassalagem.

Morte de Josias em Meggido, por Francesco Conti (1681-1760)

586 a.C.

A submissão de Judá aos babilónios não dura muito tempo: o fracasso retumbante da tentativa de invasão do Egipto por Nabucodonosor II estimula alguns dos seus vassalos a rebelar-se – é o caso de Judá, cujo rei Joaquim cessa o pagamento do tributo. O profeta Jeremias, seu conselheiro, adverte-o de que não será uma boa ideia e reprova os desvios do rei às tradições judaicas e Joaquim riposta queimando em público os escritos do profeta. As advertências eram justificadas: em 598 a.C., Nabucodonosor sitia Jerusalém, Joaquim perece e a cidade cai em 597 a.C. Jeconias sucede a Joaquim, mas poucos meses depois Nabucodonosor substitui-o pelo tio, Zedequias. Em 589 a.C. este alia-se com os egípcios contra os babilónios e Nabucodonosor regressa em força. O cerco à cidade foi longo e impiedoso: há indícios arqueológicos de que a população passou a alimentar-se de ervas e o relato de Jeremias sugere mesmo que os sitiados se viram forçados a recorrer ao canibalismo.
[O segundo cerco babilónio a Jerusalém visto por Alessandro Scarlatti: na ária “Del mio cor più segreto”, da oratória Il Sedecia, re di Gerulasemme (1705), Ismaele, filho de Sedecia (Zedequias), antevê o futuro funesto que lhe está reservado. Interpretação do contratenor Philippe Jaroussky e Il Seminario Musicale, dirigido por Gérard Lesne (Virgin Classics/Warner)]

Em 586 a.C., após 30 meses de cerco, a cidade cai e Nabucodonosor, abespinhado pela sucessivas rebeliões dos judeus e pelo cerco prolongado, dá largas à sua cólera: faz degolar todos os filhos de Zedequias perante os olhos deste; é a última coisa que Zedequias vê, pois em seguida é cegado e levado cativo para Babilónia, onde perecerá. A maior parte da população de Jerusalém que sobreviveu ao cerco e aos massacres é também deportada para Babilónia – as estimativas variam entre 10.000 e 20.000 condenados ao exílio. A cidade é pilhada e o Templo de Salomão é arrasado.

Destruição de Jerusalém pelos babilónios, segundo Michel Wolgemut & Wilhelm Pleydenwurff, na Crónica de Nuremberga, 1493
A recordação do cativeiro na Babilónia está envolto em mágoa – “Junto aos rios da Babilónia estávamos sentados e chorando, lembrando-nos de Sião. Nos salgueiros das margens pendurámos as nossas harpas” – mas não teve apenas aspectos negativos, pois foi aí que o moderno alfabeto hebraico foi adoptado e vários textos sagrados hebraicos terão sido redigidos, denotando influências das religiões e mitologias dos povos da Babilónia e da Pérsia. Como escreve Simon Sebag Montefiore em Jerusalém: A biografia (Alêtheia) “foi aqui que a Bíblia começou a tomar forma”.

“Junto aos rios da Babilónia”, por Gebhard Fugel, c. 1920

539 a.C.

Mais uma reviravolta no instável tabuleiro geopolítico do Médio Oriente: o rei persa Ciro derrota o rei babilónio Nabonido. Ao contrário dos assírios e babilónios, que alicerçavam os seus impérios exclusivamente na opressão e no terror, Ciro oferece tolerância religiosa como contrapartida da aceitação do domínio político. Assim, liberta os judeus exilados em Babilónia e autoriza-os a regressar a Jerusalém e reconstruir o Templo e compromete-se a respeitar os seus direitos e leis. Não é de admirar que Ciro goze de excelente reputação entre os judeus, mas seria um erro clamoroso vê-lo como um monarca bondoso e tolerante: quando foi morto em 530 a.C., quando pretendia anexar ao seu império o território dos Massagetas (actual Cazaquistão), o líder massageta Tomiris cortou-lhe a cabeça e guardou-a num recipiente cheio de sangue, como se dissesse “aí tens com que saciar a tua sede pelos territórios dos outros povos”.
Nem todos os judeus exilados regressaram a Jerusalém: os que ficaram em Babilónia formaram uma comunidade tão sólida e influente que resistiu às constantes mudanças políticas e religiosas da região e que constituiu “até à invasão mongol, […] um centro de cultura e poder judaico quase tão importante como Jerusalém” (Montefiore).

Zorobabel mostra os planos do novo Templo a Ciro, por Jacob van Loo, c.1640-70

516 a.C.

Os que regressaram a Jerusalém fizeram-no em várias levas – uma delas foi liderada por Zorobabel, neto do último rei de Judá e nascido na Babilónia (é isso mesmo que o nome “Zorobabel” significa). É ele que, em 516 a.C., no reinado do imperador persa Dario I, empreende a construção do Segundo Templo – a sua consagração, no ano seguinte envolveu o sacrifício de 100 touros, 200 carneiros e 400 cordeiros, mas a imponência destas cerimónias não oculta a realidade: o novo templo era uma pálida amostra do anterior e Jerusalém continuava a ser uma cidade em ruínas e semi-despovoada.

Reconstrução hipotética do Segundo Templo erguido por Zorobabel
Quaisquer melhoras que possa ter registado são anuladas em 350 a.C., quando a cidade se rebela contra o domínio persa e Artaxerxes III a toma de assalto e incendeia e procede à deportação dos revoltosos, desta vez para as remotas estepes da Hircânia, junto ao Mar Cáspio.

332 a.C.

Um rapaz macedónio, com apenas 24 anos de idade mas ambição e determinação ilimitados, obtém, sem grande esforço, a rendição de Jerusalém. Alexandre III está empenhado em apoderar-se de todo o império de Dario III, o que inclui o Egipto – e é no caminho para o Egipto que entra em Jerusalém. Mas, tal como Ciro, pouco impõe aos judeus para lá do domínio político, e logo parte para Oriente, na peugada de Dario III e dos seus sonhos de glória.

“Alexandre o Grande no Templo de Jerusalém”, por Sebastiano Conca, c.1736

320 a.C.

Os sonhos de Alexandre são interrompidos pela morte, em 323 a.C., e as disputas que eclodem entre os seus lugares-tenentes pela partilha do seu vasto império convertem-se numa interminável fonte de conflitos, a que não escapa Jerusalém, que, à partida, ficaria, como toda a Síria, sob o governo de Laomedonte de Mitilene.
Outro dos “sucessores de Alexandre”, Ptolemeu I, cobiça a Síria para si: propõe-se comprá-la a Laomedonte, mas este recusa e Ptolemeu envia um exército, comandado por Nicanor. Em 320 a.C. este general conquista Jerusalém à má-fé: alega querer oferecer um sacrifício ao Deus dos judeus durante o Sabbath, mas assim que se vê dentro da cidade assume o seu controlo com rapidez e brutalidade. À pilhagem e às violações soma-se a deportação de judeus para Alexandria – o que, como no caso do exílio em Babilónia, também tem consequências positivas: a comunidade judaica de Alexandria converter-se-á num dos mais importantes centros de erudição judaica do Próximo Oriente.

Divisão inicial do império de Alexandre pelos seus generais

200 a.C.

Não dura muito tempo o domínio de Ptolemeu I: em 315 a.C. o seu rival Antíoco I Monophthalmus (em grego tudo soa mais nobre e venerável: em português é “Antíoco o Zarolho”), invade a Síria e força Ptolemeu a recuar. Durante mais de um século, Jerusalém vai ser sucessivamente conquistada e reconquistada pelas dinastia dos Ptolemeus e dos Antíocos, até que em 200 a.C., Antíoco III o Grande – à frente do que é agora conhecido como Império Selêucida (por ter sido fundado por Seleuco I Nicator, um dos “sucessores” de Alexandre) – escorraça os Ptolemeus para o Egipto e toma conta de Jerusalém. Antíoco III mostra-se magnânimo: “prometeu reparar o Templo e as muralhas e repovoar a cidade” (Montefiore) e autorizou que os judeus se regessem pelas suas leis – “nunca Jerusalém conheceu conquistador tão indulgente quanto este” (Montefiore).

Antíoco III o Grande

167 a.C.

O mesmo não pode dizer-se do seu filho Antíoco IV Epifânio, que sucede ao pai em 175 a.C. e aproveita querelas familiares entre o sumo-sacerdote Onias III e o seu irmão Jasão, para destituir o primeiro e elevar o segundo a sumo-sacerdote de Jerusalém (é substituído três anos depois por Menelau). O desígnio de Antíoco IV Epifânio é a anulação da identidade judaica: Jerusalém é convertida numa polis grega, com o nome de Antioquia-Hierosolyma; o Templo é ultrajado com carne de porco e reconsagrado a Zeus e na colina fronteira é construído um ginásio grego para os jovens se exercitarem nus; a posse da Tora é punida com a morte; as mães que circuncidam os filhos são atiradas das muralhas, juntamente com as crianças; quem observa o Sabbath é queimado vivo.
Quando, em 167 a.C., um alto funcionário selêucida ordena ao sacerdote Matatias que sejam feitos sacrifícios em honra dos deuses gregos, aquele não só se recusa a cumprir a ordem como mata um judeu helenizado que se ofereceu para o fazer, bem como o representante de Antíoco. É a centelha que desencadeia a Revolta dos Macabeus que, em 164 a.C. toma conta de Jerusalém, para a perder novamente para os selêucidas em 160 a.C., ano em que é morto Judas Macabeu e cessa a revolta.

“Matatias punindo a idolatria”, por Philippe De Louthebourg, 1815

63 a.C.

O império selêucida entra em declínio e começa a ver a primazia na região disputada pelos partos e pelos romanos, o que, aliado a guerras fratricidas entre príncipes selêucidas cria um vácuo de poder que permite a emergência de um reino judeu independente – é o início da dinastia dos Asmoneus, que, todavia, também é dilacerada por conflitos intestinos.
O poder romano vai estendendo-se ao Próximo Oriente: em 63 a.C. Pompeu cerca Jerusalém e é mais um dos conquistadores a usar a deslealdade de atacar durante o Sabbath. No massacre que se segue terão morrido 12.000 judeus, mas, ao menos, Pompeu abstém-se de saquear os tesouros do Templo.

Pompeu entra no Templo, por Jean Fouquet, c.1470-75
Em 40 a.C., Roma nomeia como rei dos judeus Herodes o Grande, que empreende importantes obras em Jerusalém e reconstrói o Templo, suplantando amplamente a modesta construção erigida por Zorobabel.

Jerusalém após a reconstrução promovida por Herodes, segundo James Tissot, c.1886-94

Reconstrução hipotética do Templo de Herodes, segundo maqueta de 1966

6 d.C.

Roma põe fim ao estatuto de estado-vassalo do reino asmoneu (embora continuem a existir reis asmoneus, com poderes limitados, até 92 d.C.) e converte a Judeia numa província, com capital administrativa na nova cidade de Cesareia Palestina (ou Cesareia Marítima) e não em Jerusalém, e colocada na dependência do governador da Síria. A reforma fiscal imposta por Públio Sulpício Quirino, o novo governador romano da Síria, gera revolta entre os judeus – é sufocada, mas dela nasce o movimento dos zelotas, grupo radical apostado em expulsar os romanos da Judeia.

Jesus expulsa os vendilhões do Templo, por Giovanni Paolo Panini, c.1750

c. 33 d.C.

No Domingo de Ramos, um pregador radical galileu – que alguns estudiosos associam hoje aos zelotas –, que em ocasião anterior já gerara um tumulto no Templo, entra em Jerusalém montado num burro e acompanhado por discípulos que o saúdam como “Messias” e “Rei de Israel”. Os sumos-sacerdotes vêem uma séria ameaça neste agitador que anuncia o apocalipse iminente e contesta a sua autoridade e as tradições religiosas judaicas, o que é tanto mais perigoso por ser Páscoa e, portanto, Jerusalém estar inundada de milhares de peregrinos judeus vindos de todo o Próximo Oriente. Após várias peripécias, conseguem que o governador romano da cidade, Pôncio Pilatos, o faça crucificar.

Entrada de Jesus em Jerusalém, por Anthony Van Dyck, 1617

c. 50 d.C.

Os discípulos do pregador crucificado reúnem-se em Jerusalém, a fim de decidir o que fazer com o legado espiritual do seu mestre. Neste concílio está também presente Paulo de Tarso, que, após uma experiência traumática, se consagrou de corpo e alma à divulgação de uma interpretação muito própria dos ensinamentos do pregador crucificado, o que o faz entrar em conflito com os discípulos directos, que têm uma visão mais ortodoxa.
É impossível aferir o que realmente se terá passado entre as duas “facções”, pois a única versão que sobreviveu sobre estes eventos foi a de Paulo – o quer dizer que nunca saberemos se o pregador crucificado se reconheceria nos ensinamentos difundidos por Paulo.

A conversão de S. Paulo na estrada de Damasco, por Michelangelo da Caravaggio, c.1600-01
O que é certo é que na altura Paulo está longe de reunir o consenso entre os judeus: c. 58 d.C., Paulo regressa a Jerusalém e vai ao Templo na companhia de Tiago o Justo, irmão de Jesus e primeiro bispo de Jerusalém, mas alguns judeus que não se identificam com as suas pregações reconhecem-no e atacam-no e apenas a intervenção dos soldados romanos o salva de ser linchado pela turba.
Poucos anos depois – c.62-66 d.C. – o sumo-sacerdote Anano, filho do Anás que tinha condenado Jesus à morte, manda prender Tiago o Justo e fá-lo condenar pelo Sinédrio: Tiago é atirado do alto do Templo, mas como a queda não o mata, passam a apedrejá-lo, até que um espírito mais expedito o despacha com um golpe de maço na cabeça.

66 d.C.

Em 66 d.C., em Cesareia, capital da Judeia, um grupo de gregos sacrifica um galo junto à entrada da sinagoga, um acto que, na óptica judaica, torna o edifício “impuro”. A provocação causa o efeito pretendido: a ira dos judeus.

Ruínas do teatro romano de Cesareia
Estes apelam para a intervenção romana, mas o procurador imperial para a Judeia, Géssio Floro, a quem os gregos subornam, recusa-se a intervir. Em represália, os sacerdotes judeus anunciam que deixarão de executar sacrifícios e orações em prol do imperador romano. Aos agravos de ordem religiosa somam-se agravos de ordem tributária, quando Floro invade o Templo e subtrai ao seu tesouro dinheiro que diz ser devido a Roma. Os judeus retaliam bombardeando Floro com moedas nas ruas de Jerusalém e Floro exige às autoridades judaicas que os responsáveis lhe sejam entregues. Perante a recusa, os soldados romanos prendem alguns líderes judeus: uns são açoitados e outros crucificados. Apesar da tentativa de intermediação pela parte de Berenice, irmã do rei Herodes Agripa, a escalada de violência prossegue: os judeus pegam em armas, chacinam a guarnição romana de Jerusalém e depois dedicam-se a limpar a Judeia de cidadãos romanos, judeus suspeitos de simpatizar com os romanos e símbolos da autoridade romana.
Tudo isto, é bom ter presente, começou com a morte de um galo.

70 d.C.

O imperador Nero encarrega Vespasiano de reprimir a revolta judaica, mas em 68 d.C. é o próprio Nero que se vê a braços com várias revoltas, e acaba por ter um fim patético (uma espécie de “suicídio assistido”, pois não teve coragem para o acto e alguém teve o fazer por ele). Vespasiano aspira à sucessão de Nero e dirige-se apressadamente para Roma, onde Vitélio tenta apoderar-se do trono, e deixa a cargo do seu filho Tito a conclusão da campanha da Judeia. Tito cerca Jerusalém durante sete meses e, apesar da ferocíssima resistência dos zelotas, acaba por triunfar. A cidade é incendiada, o Templo é arrasado, os tesouros do Templo são saqueados e os líderes judeus são presos e levados para Roma, onde figuram numa procissão triunfal que tem como corolário a sua execução.

“A destruição do Templo de Jerusalém”, por Francesco Hayez, 1867

132-136

Poderia pensar-se que esta punição brutal poria termo às insurreições judaicas, mas em 115-117 eclodem tumultos sangrentos, desta vez entre os judeus da diáspora, na Cirenaica e em Chipre. Em 130, o imperador Adriano visita Jerusalém, ou o que resta dela, e decide apagá-la da história: no seu lugar será erigida Élia Capitolina, cidade consagrada ao culto de Júpiter, inspirada nos planos de helenização de Antíoco IV Epifânio e onde não há lugar para o judaísmo: a circuncisão é proibida sob pena de morte.
Adriano tem reputação de homem sábio mas é óbvio que subestima os judeus: em 132 a Judeia volta a inflamar-se com a revolta de Simão bar Kokhba, aclamado como Messias. Simão assume o controlo de Jerusalém durante três anos mas as 12 legiões enviadas para o combater acabam por prevalecer: “foram muito poucos os que sobreviveram, 50 fortalezas e 985 aldeias foram queimadas, 585.000 mortos no campo de batalha”, não contando com os que morreram “de fome, de doenças e pelo fogo”, conta o historiador Dião Cássio. “Foram tantos os judeus reduzidos à escravatura, que valiam menos do que um cavalo no mercado de escravos de Hebron” (Montefiore).
Toda esta destruição não basta a Adriano: os judeus e os cristãos são expulsos de Élia Capitolina e proibidos de aproximar-se sequer da cidade, sob pena de serem executados. O Monte do Templo ganha um templo de Júpiter, o Calvário um templo de Vénus. A Judeia passa a chamar-se Palestina.

Ruínas de Masada, o último reduto da resistência judaica na Revolta de bar Kokhba

326

Em 324, Constantino, o primeiro imperador romano a converter-se à fé cristã, desembaraça-se do seu último rival e torna-se no senhor absoluto de Roma. Em 313, Constantino já promulgara o Édito de Milão, que permitia o culto do cristianismo, e em 325 convoca o Concílio de Niceia, que vai ter um papel padronizador no que era então uma fé com incontáveis variantes, ramificações e dissidências.
Constantino levanta as restrições à entrada de cristãos em Jerusalém, o que desencadeia um afluxo de emigração cristã para a cidade, muito reforçada pela visita da octogenária imperatriz viúva Helena, mãe de Constantino, que pode ser vista como pioneira do turismo religioso.
A visita de Helena a Jerusalém reverte o trabalho de supressão do passado empreendido por Adriano: o templo de Vénus no Calvário é demolido e, numa série de afortunadíssimas coincidências (se não as lermos como panfletos de propaganda cristã, confeccionados a posteriori), Helena “descobriu” uma infinidade de locais e relíquias sagradas: o túmulo de Jesus, o local exacto da crucificação, a própria cruz (mais as duas dos “ladrões”) e os respectivos pregos, a Santa Túnica. Num ápice, Jerusalém vê nascer a Basílica de Eleona, no Monte das Oliveiras (333), assinalando o local da Ascensão, e a Igreja do Santo Sepulcro (335). Entretanto, apesar da provecta idade, Helena faz questão de visitar todos os locais associados com a vida de Jesus – nos anos seguintes o roteiro irá atrair multidões de peregrinos e o turismo religioso de massas dará nova vida a Jerusalém à Palestina. O sector da hotelaria e restauração prospera, o comércio de relíquias fervilha.

“Achamento da Vera Cruz” pela imperatriz Helena, por Piero della Francesca, c.1452-66

361

Breve interlúdio: o imperador Juliano o Apóstata, que não professa a fé cristã, permite aos judeus o regresso a Jerusalém e a reconstrução do Templo.

614

Desde o início do século IV que o império sassânida, herdeiro do império parta, que por sua vez era herdeiro do império persa, se afirmara como uma das potências (“players”, como hoje sói dizer-se) do Médio Oriente. Cosroe I (Khosrau) que subiu ao trono em 531 obteve tais sucessos militares que em 532 o imperador bizantino Justiniano I se viu forçado a pagar-lhe uma fortuna pela “paz eterna”. A “eternidade” durou só até 540 e durante os anos seguintes bizantinos (o Império Romano do Oriente) e sassânidas digladiaram-se em guerras quase incessantes, com sucessivos avanços e recuos. Porém, a partir do início do século VII, com o sha Cosroe II, a maré está, genericamente, a favor dos sassânidas.

Batalha entre os bizantinos comandados pelo imperador Heráclio e os sassânidas comandados por Cosroe II, segundo Piero della Francesca, c.1452
Em 614, os sassânidas, sob o comando do general Shahrbaraz e aliados aos judeus (que se tinham revoltado contra o domínio bizantino), tomam Jerusalém. Incendeiam a Igreja do Santo Sepulcro, massacram a população cristã, prendem o patriarca cristão e apoderam-se das relíquias cristãs. Shahrbaraz nomeia Neemias, o líder dos insurrectos judeus, como governador da cidade e este empenha-se em construir um novo templo (o terceiro) e em vingar anos de repressão dos judeus às mãos dos cristãos. Dedica-se a esta última tarefa com tal zelo que os cristãos se revoltam e lincham numerosos judeus, Neemias incluído. Os judeus sobreviventes vão pedir ajuda a Shahrbaraz, que reconquista a cidade; porém, os sassânidas acabam por concluir que os cristãos são a força dominante em Jerusalém, pelo que lhes confiam o governo da cidade e expulsam os judeus.

637

Após séculos de atrito entre sassânidas e bizantinos, os dois impérios estão completamente extenuados e criou-se um vazio de poder, que irá ser aproveitado por um novo actor, que tinha até então estado relegado a um discretíssimo papel. A Blitzkrieg árabe alastrou pelo Médio Oriente e Norte de África com velocidade fulgurante, infligindo espectaculares derrotas aos desgastados exércitos sassânidas e bizantinos. Em 637, Jerusalém é tomada pelos árabes, comandados pelo califa Omar I o Grande, mas este garante liberdade de culto aos não-muçulmanos.
Para o Islão, Jerusalém não é apenas mais uma conquista – é a sua terceira cidade santa, após Meca e Medina, o que poderá parecer absurdo, uma vez que Maomé (c.570-632) nunca esteve na cidade nem sequer se aproximou da Palestina. Porém, em 620, Maomé teve uma visão em que terá feito uma viagem nocturna, montado num corcel alado, que o terá levado a um “santuário longínquo” e ao Céu e ao Inferno e em que terá encontrado Adão, Abraão, Moisés e Jesus. O Corão apresenta esta experiência – conhecida como Isra e Miraj – como uma visão e não explicita onde fica o “santuário longínquo”, mas surgiram – e prevaleceram – interpretações que proclamam que o Isra e Miraj terá sido uma experiência física e que o “santuário longínquo” era Jerusalém.

Mesquita de Al-Aqsa, em Jerusalém, erguida em 705: o Islão identifica-a com o “santuário longínquo” visitado por Maomé na sua viagem nocturna
A escolha de Jerusalém, situada 1200 Km a noroeste de Meca e Medina, parecerá descabida para quem veja o Islão como uma religião criada ex nihilo na Península Arábica, como pretendem as biografias do Profeta. Porém, os pontos de contacto do islamismo com o judaísmo e o cristianismo são tantos que “não será certamente absurdo perguntar como se explica que figurem no Corão tantas personagens bíblicas. Uma resposta possível é que Maomé tivesse absorvido influências judaicas e cristãs durante as viagens de negócios que fez à Síria; ou então que, a despeito do que nos dizem as fontes muçulmanas, houvesse em Meca colónias florescentes de judeus, de cristãos, ou de ambos”, argumenta Tom Holland em Sob o signo da espada.
Na verdade, dez anos antes da visão/viagem nocturna de 620, Maomé estipulara o Monte do Templo em Jerusalém como ponto de referência para onde os crentes deveriam orientar-se nas suas orações, instrução que foi corrigida em 624, passando Meca a ser a referência primordial.

661

Em 661, o Monte do Templo é o local escolhido pelos líderes islâmicos para um concílio destinado a decidir a nomeação de um sucessor para o quarto califa, Ali, genro do Profeta, assassinado nesse ano em Kufa. O eleito é Muawiyah ibn Abi Sufyan, que ficará para a história como Muawiyah I. Embora estabeleça a sua sede em Damasco, tudo faz para realçar o papel de Jerusalém e, em particular, do Monte do Templo, que designou como “terra da reunião e da ressurreição no Dia do Juízo”. “A zona que fica entre os dois muros desta mesquita é mais cara a Deus do que toda a terra”, declarou.

691

O califa Abd al-Malik conclui a construção da Cúpula da Rocha, no Monte do Templo, empresa que consumiu sete anos de rendimentos da província do Egipto. “A Rocha assinala o local onde ficava situado o Paraíso de Adão, o altar de Abraão, o sítio onde David e Salomão fizeram os planos para o Templo, por onde Maomé viria a passar na sua Viagem Nocturna” (Montefiore).

Cúpula da Rocha
Não é de estranhar que as disputas religiosas que persistem em torno de Jerusalém no século XXI: judaísmo, cristianismo e islamismo são três irmãos siameses que estão unidos por Jerusalém
[A segunda parte deste artigo é publicada este domingo]
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Jerusalém: das três religiões à terceira Intifada

10 Dezembro 2017161
Continuação da conturbada história de Jerusalém, dos primeiros anos da conquista islâmica até à surpreendente decisão de Donald Trump de reconhecer a cidade como capital de Israel.
Retomemos o fio da história onde o deixamos em Jerusalém: 3800 anos a criar sarilhos

705

Por volta de 690, o califa Abd al-Malik inicia a construção da Mesquita de Al-Aqsa, no Monte do Templo, projecto que é terminada pelo seu filho – e sucessor – Al-Walid em 705. A construção da mesquita – o terceiro lugar mais sagrado do Islão – veio reforçar o papel de Jerusalém como capital da dinastia Omíada e as tradições judaicas e cristãs da cidade foram “recicladas” e postas ao serviço da “narrativa” islâmica. Por exemplo, “uma pegada existente na Rocha, que no passado fora tida por uma pegada de Jesus, era agora uma marca de Maomé” (Montefiore), deixada quando da sua viagem nocturna.
O nó de Jerusalém ia tornando-se, de ano para ano, mais inextricável.
Mesquita de Al-Aqsa

750

Os anos continuados de domínio islâmico sobre Jerusalém não são sinónimo de paz: as disputas intestinas são tão frequentes, sangrentas e implacáveis como as que tinham dilacerado o império romano ou o império sassânida. Uma das mudanças de poder mais relevantes dá-se em 750, quando, após um século de domínio, chega ao fim o califado Omíada, dando lugar aos Abássidas.
O califa Harun al-Rashid, que representa o apogeu do califado Abássida, manterá relações cordiais e trocará presentes com o imperador Carlos Magno, pelo que não é de estranhar que as relações inter-religiosas em Jerusalém sejam invulgarmente amenas: “Carlos Magno pagou o imposto cobrado aos cristão da cidade […], em troca do qual Harun al-Rashid o autorizou a erigir um bairro cristão em torno do Santo Sepulcro, com um convento (com biblioteca e estalagem para peregrinos)” (Montefiore).
Harun al-Rashid recebe emissários de Carlos Magno, por Julius Köckert, 1864

878

Nova mudança de poder: em 868, Ahmed ibn Tulun, um escravo-soldado turco, foi nomeado governador do Egipto, mas, apercebendo-se do declínio do califado abássida, correu com o inspector de finanças do califa e assumiu na prática a governação autónoma da província – acabará por assumir formalmente a independência em 874. Em 878, ibn Tulun sente-se suficientemente forte para anexar a Síria – o que inclui Jerusalém.
A Mesquita de ibn Tulun, erguida em 879, é a mais antiga do Cairo a conservar o seu traçado original

935

Os abássidas reagem e fazem recuar os sucessores de ibn Tulun: Jerusalém é reconquistada em 904. O Egipto acaba por ir parar às mãos de Muhammad ibn Tughj, filho de outro general turco ao serviço dos árabes e a quem o califa, por falta de força para se impor, acaba por reconhecer como governador hereditário do Egipto e Síria.
O califado abássida continua em declínio e o vazio de poder é sinónimo de instabilidade política, que tem o efeito de acicatar a competição entre religiões em Jerusalém. Assim, contrariando as anteriores práticas de tolerância, em 935 “um anexo do Santo Sepulcro foi convertido à força em mesquita; três anos depois, os muçulmanos atacavam os cristãos durante a celebração do Domingo de Ramos, pilhando a igreja” (Montefiore). Ao mesmo tempo, abrem-se fracturas dentro das crenças religiosas: os judeus dividem-se em rabanitas e caraítas e entre elas insinua-se uma nova corrente, os khazars, nómadas das estepes da Ásia Central convertidos ao judaísmo.
E este número crescente de seitas disputa o mesmo exíguo espaço: Jerusalém.
O califado em 945: apesar da instabilidade política a extensão territorial está no auge

1009

Entretanto, o mundo islâmico também se divide, com os Fatímidas a disputar a primazia dos declinantes Abássidas. As batalhas e cercos sucedem-se e em 969 Jerusalém passa para a esfera de influência fatímida. Sob o reinado do califa fatímida al-Hakim, há uma mudança drástica em Jerusalém: desde a conquista pelo califa Omar, 350 anos antes, os cristãos tinham gozado de liberdade religiosa, mas em 1004 al-Hakim “começou a prender e a executar cristãos, encerrando as igrejas de Jerusalém e convertendo-as em mesquitas. Proibiu as celebrações da Páscoa e o consumo de vinho […] os judeus foram obrigados a optar pela conversão ou a emigração e as sinagogas do Egipto e de Jerusalém foram destruídas” (Montefiore). Em 1009 al-Hakim ordenou que a Igreja do Santo Sepulcro fosse demolida até não ficar pedra sobre pedra.

1054

Os califas seguintes reverteram parcialmente as políticas radicais de al-Hakim, mas entretanto, em 1054, reaviva-se entre os cristãos uma fractura antiga que opunha as igrejas de Roma e Constantinopla. O cisma tem por origem um debate sobre o tipo de pão apropriado à Eucaristia – levedado (favorecido no Oriente) ou não-levedado (preferido em Roma) – e os preceitos do jejum. Hoje o assunto não inflamaria paixões fora do universo dos blogs sobre nutrição e dietas, mas no mundo medieval levou a uma escalada de argumentos e à ruptura definitiva entre Roma e Constantinopla, com o papa Leão X e o patriarca Miguel I Cerulário a excomungarem-se mutuamente (as excomunhões só seriam anuladas em 1964 – em Jerusalém – o que revela mais sobre a natureza das duas igrejas do que mil discursos).
O papa Leão X e os cardeais Giulio de’ Medici e Luigi de’ Rossi (seus primos), por Rafael, c.1518
Um dos resultados do Grande Cisma foi o patriarca de Jerusalém juntar-se à Igreja Ortodoxa do Oriente, o que colocou uma pressão adicional sobre os católicos do Ocidente: os Lugares Santos, que atraíam cada vez mais peregrinos da Europa, estavam agora sob a dupla jurisdição de inimigos da sua fé: muçulmanos e cristãos ortodoxos.

1073

Para mais, os ataques a peregrinos estavam a crescer em frequência e ousadia: em 1065, a Grande Peregrinação Alemã à Terra Santa, congregando cerca de 7000-12.000 pessoas e liderada pelo arcebispo de Mainz e pelos bispos de Utrecht e de Bamberg, escapou com dificuldade a um ataque do emir de Tripoli, ao passar junto desta cidade, e acabou por ser vítima dos beduínos já perto de Jerusalém, e poderia ter sofrido mais baixas se o governador fatímida de Ramla não tivesse posto os atacantes em debandada.
Estes ataques reflectem a instabilidade crescente do mundo muçulmano, com o califado fatímida em desintegração e a emergência dos turcos seljúcidas (que tinham assimilado fortes influências persas). Em 1073, os seljúcidas, sob o comando do emir Atsiz bin Uvaq, conquistam Jerusalém, antes de se encaminharem para o Egipto.
Em 1177, as notícias da derrota de Atsiz no Egipto encorajam os habitantes de Jerusalém a revoltar-se, mas o emir regressa e a sua fúria abate-se sobre a cidade.
O Império Seljúcida na sua máxima extensão, em 1092

1095

Mas o Império Seljúcida teve um esplendor efémero: atinge o zénite com o sultão Malik I e cinde-se em reinos menores após a morte deste, em 1092: “o mundo islâmico estava fragmentado em pequenos baronatos governado por príncipes fracos e dominados por generais turcos – os emires – e regentes igualmente turcos – os atabegs” (Montefiore).
Em 1095, no concílio de Clermont, o papa Urbano II vê uma oportunidade nesta relativa fraqueza islâmica e apela a uma cruzada para libertar a Terra Santa. Tem início por toda a Europa um vasto movimento de recrutamento. Como exercício de aquecimento, no início do Verão de 1096 os cruzados massacram judeus na Renânia e na Boémia. Em Agosto de 1096, partem finalmente para a Terra Santa, onde obtêm sucessivas vitórias sobre as divididas hostes muçulmanas.
Concílio de Clermont, 1095

1099

A 7 de Junho de 1099 a I Cruzada está às portas de Jerusalém, que, no ano anterior mudara mais uma vez de mãos, nas intermináveis disputas entre facções muçulmanas. Após várias tentativas falhadas e uma procissão em torno das muralhas, a 8 de Julho (precedida por um jejum de três dias), o assalto final tem lugar a 13 de Julho. As defesas cedem e muitos civis buscam refúgio no Monte do Templo. Não lhes serve de nada, pois os cruzados estão possuídos pela sede de sangue e pela exaltação religiosa e massacram indistintamente muçulmanos e judeus (os cristãos ortodoxos escapam: tinham sido expulsos da cidade pelo governador fatímida antes da chegada dos cruzados).
Na mesquita de Al-Aqsa (o templo de Salomão, para os cruzados) patinhava-se em sangue e o cronista Foucher de Chartres relata que “nem um ficou vivo; nem as mulheres e as crianças foram poupadas”. “Viam-se por toda a parte fragmentos de corpos humanos, troncos sem cabeça, pernas e braços mutilados, dispersos por todas as direcções”.
[A I Cruzada em Jerusalém, na visão de Georg Friedrich Handel: ária “Sibillar gli angui d’Aletto”, da ópera Rinaldo (1711): a personagem (ficcional) Argante, rei de Jerusalém, exprime a sua angústia e receio perante a aproximação das hostes cristãs. Interpretação (excepcional) do barítono Gerald Finley e da Academy of Ancient Music, dirigida por Christopher Hogwood (L’Oiseu-Lyre/Decca)]

1192

As cruzadas sucedem-se e Jerusalém muda de mãos várias vezes e os edifícios do Monte do Templo vão sendo reconvertidos ao culto cristão ou islâmico consoante quem detém o poder na cidade. Pontualmente, há acordos de cavalheiros, como o da III Cruzada: Ricardo I Coração de Leão, embora tendo fracassado na tentativa de recuperar a cidade que Saladino reconquistara em 1187, consegue obter deste, pelo Tratado de Jaffa, em 1192, que os peregrinos cristãos europeus sejam autorizados a visitar os Lugares Santos de Jerusalém. O tratado é também, como escreve Montefiore, “o primeiro acordo de divisão da Palestina da história”.
Saladino, por Gustave Doré

1244

Em 1229, o imperador Frederico II – VI Cruzada – consegue recuperar a cidade sem derramamento de sangue, através de um tratado com al-Kamil, sultão do Egipto, debilitado por querelas familiares. O tratado prevê 10 anos de paz, dá garantias de preservação dos direitos e propriedades dos muçulmanos residentes, concede aos muçulmanos o direito de exercer o seu culto e entrega-lhes mesmo o controlo do Monte do Templo. Montefiore classifica “este tratado de soberania partilhada” como “o mais ousado acordo de paz da história de Jerusalém”.
Porém, em 1244, volta-se ao business as usual: As-Salih Ayyub, o sucessor de al-Kamil como governante do Egipto, tinha recrutado um exército de mercenários tártaros provenientes da Corásmia (Khwarazm) para o ajudar a pôr na ordem os familiares que lhe disputam o poder, mas as hostes tártaras, chefiadas por Barka Khan, saem do seu controlo e decidem tomar e saquear Jerusalém. Entram “de rompante no convento arménio, onde mataram todos os monges e freiras; destruíram igrejas e casas, pilharam e incendiaram o Santo Sepulcro”.

1272

Chegou assim ao fim o domínio cristão sobre Jerusalém. O massacre de 1244 ainda despertará na Europa o ímpeto para uma VII Cruzada, mas em 1250 esta é derrotada na batalha de Fariskur, no Egipto, e o rei Luís IX de França é feito prisioneiro.
Luís IX prisioneiro em Fariskur, por Gustave Doré
A VIII Cruzada (1270) acaba por ir parar não à Terra Santa mas a Tunes, na Tunísia (de qualquer modo, é um fiasco) e a IX (1271-72), chefiada pelo príncipe Eduardo, filho de Henrique III de Inglaterra, obtém algumas vitórias – tirando partido da instabilidade adicional causada pelos raids das hordas mongóis – mas acaba por retirar-se sem conseguir ganhos territoriais.
É o fim da sangrenta história das Cruzadas, embora a presença cristã na região só se extinga definitivamente com a queda de Acre, em 1291.
“O último cruzado”, por Karl Friedrich Lessing, 1835

Séculos XIV-XV

No seguimento da VII Cruzada, em 1250 os mamelucos tomam o poder no Egipto e Jerusalém ficará sob o controlo do sultanato mameluco até ao término deste, em 1517. Não quer dizer que a paz tenha reinado na cidade durante este período: os raids mongóis sobre a Palestina começam em 1260 e estendem-se até 1300, ano em que se apoderam temporariamente de Jerusalém; e há sempre a usual quota de revoltas, guerras intestinas entre mamelucos e pestilências.
O sultanato mameluco do Cairo vai deixando-se cair na corrupção e na negligência e o controlo da Jerusalém cristã é disputado por arménios e georgianos, que nutrem uma rivalidade exacerbada. “Os arménios, que procuravam expandir o seu bairro de forma agressiva […] conseguiram, por via de um suborno, arrancar o Calvário aos georgianos – que, em seguida, pagando um suborno mais elevado, o reconquistaram […] No decurso de 30 anos, o Calvário mudou cinco vezes de mãos” (Montefiore).

Séculos XVI-XVIII

Em 1517, após derrotar o derradeiro sultão mameluco, Al-Ashraf, na Batalha de Alepo, o sultão otomano Selim I visita Jerusalém e proclama-se califa do mundo islâmico.
Selim I
O domínio otomano não altera significativamente a “gestão partilhada” dos lugares santos de Jerusalém, aonde continua a afluir grande quantidade de peregrinos cristãos. A “partilha” não se faz sem atritos, mas seria de estranhar que não os houvesse quando, por exemplo, nas primeiras décadas do século XVI, a Igreja do Santo Sepulcro é gerida simultaneamente por oito denominações religiosas. Ainda assim, em 1555 é possível empreender o restauro do túmulo de Cristo na dita igreja, mediante autorização conjunta do papa Júlio III e do sultão Solimão o Magnífico e financiamento de Filipe II de Espanha, que, uma vez que entrou com o dinheiro, reclama para si o título de Rei de Jerusalém, um título que estava vago desde 1291, quando a queda de Acre pôs termo à presença cristã na Palestina.
Apesar de incongruente, o título foi sendo transmitido na monarquia espanhola, pelo que o seu detentor actual é Filipe VI. Todavia, o título de Rei de Jerusalém tem hoje, pelo menos mais seis pretendentes e sendo a questão da soberania sobre Jerusalém já suficientemente delicada quando só é disputada por israelitas e palestinos, o mundo pode agradecer a estes distintos cavalheiros por não mostrarem grande empenho em reclamar o seu legado.
Godefroy de Bouillon (1060-1100), primeiro Rei de Jerusalém (1099-1100), é o primeiro cavaleiro a contar da esquerda

1774

A guerra russo-turca de 1768-74 termina com a vitória russa, embora as outras potências europeias, desejosas de manter algum equilíbrio geopolítico, não permitam que Catarina a Grande obtenha tantos ganhos territoriais à custa do declinante Império Otomano quanto desejaria. Pelo Tratado de Küçük Kaynarca a Rússia devolve a Valáquia e a Moldávia aos otomanos, mas ganha o estatuto de protectora dos cristãos ortodoxos no Império Otomano (França tinha a seu cargo a protecção dos católicos) e o direito a edificar uma igreja ortodoxa em Constantinopla (que nunca chega a exercer).
A vitória de Catarina a Grande sobre os turcos, por Stefano Torelli, 1772

1846

No início do século XIX, os crentes ortodoxos russos tornam-se na maior fracção dos cerca de 20.000 peregrinos que Jerusalém recebe anualmente, o que é mais compreensível se se considerar que, após a queda Constantinopla em 1453, a Rússia passara a ver-se a si mesma como a Terceira Roma.
Pela mesma altura, começam a surgir as primeiras pretensões judaicas a reaver a sua terra: um dos primeiros a expressar o desejo de ver os judeus dispersos pela Europa reinstalarem-se na Palestina foi o rabino Juda Alkalai, por volta de 1840.
Ao mesmo tempo, as tensões pelo controlo dos lugares santos não se atenuam, como se comprova em 1846, quando as Páscoas católica e ortodoxa coincidem, excepcionalmente, no mesmo dia: 10 de Abril. O governador otomano de Jerusalém, prevendo sarilhos, instala-se com um destacamento de soldados na Igreja do Santo Sepulcro, mas não consegue evitar que os monges ortodoxos e católicos passem da contestação verbal ao direito dos outros para realizar as respectivas cerimónias, para o confronto físico, recorrendo primeiro ao que está a mão – crucifixos, candelabros, lamparinas – e depois a pistolas e facas que tinham ocultado na igreja, antevendo já este curso dos eventos. O tumulto salda-se em 40 mortos.
A Igreja do Santo Sepulcro

1850-67

Jerusalém não atrai só peregrinos, também ali afluem viajantes com motivações não religiosas. Entre eles está Gustave Flaubert que descreve a cidade como “um ossuário rodeado de muralhas, onde as velhas religiões apodrecem no solo” e atesta que a atmosfera na Igreja do Santo Sepulcro não melhorou desde o incidente de 1846: “os arménios amaldiçoam os gregos, que detestam os latinos, que execram os coptas” (Voyage en Orient).
Herman Melville, que passa por Jerusalém em 1856, também não fica particularmente bem impressionado com a Igreja do Santo Sepulcro: “uma pilha semi-arruinada de grutas bafientas que cheiravam a morte”.
Mark Twain visita a Terra Santa em 1867 e as impressões que deixou registadas em Innocents abroad não são lisonjeiras: “A famosa Jerusalém, o nome mais solene da história, transformou-se numa aldeia de pobres – triste, desoladora, sem vida”. Fica também impressionado com as reduzidas dimensões da cidade: “A Mesquita de Omar e o pátio em torno dela [a Esplanada das Mesquitas] ocupam um quarto da cidade”.
O Monte do Templo

1897

Em 1897, tem lugar em Basileia, na Suíça, o I Congresso Sionista Mundial, no qual é criada, por iniciativa de Theodor Herzl (1860-1904), o grande ideólogo e dinamizador do sionismo, a Organização Sionista Mundial, que se empenha em promover a emigração judaica para a Palestina. O Congresso discute a possibilidade de Jerusalém se tornar a capital de um eventual estado judaico na Palestina. Porém, o pensamento de Herzl sobre Jerusalém, que começara por vê-la como exclusivamente judaica, evolui e acaba por concluir: “Faremos de Jerusalém uma cidade extra-territorial, a fim de que ela seja de todos e não seja de ninguém, e que os seus lugares santos se tornem presença comum de todos os crentes”. Embora Herzl seja venerado como o Pai Fundador do Estado de Israel, a maioria dos governantes israelitas tem preferido ignorar esta visão conciliadora de Herzl.
Theodor Herzl, a bordo de um navio ao largo do porto de Jaffa, na Palestina, 1898

1901

Os otomanos impõem restrições à emigração e à aquisição de terrenos por judeus em Jerusalém.

1917

Desde 1914, que o Império Otomano luta ao lado da Alemanha e Austro-Hungria contra a França, Grã-Bretanha e Rússia. Os britânicos, através do audaz T.E. Lawrence, incitam os árabes à revolta contra quatro séculos de jugo otomano e prometem-lhes reinos no Iraque e na Síria como recompensa.
O que os árabes não sabem é que britânicos e franceses já repartiram o Próximo Oriente em zonas de influência, estabelecidas num mapa negociado em 1915-16 entre os diplomatas Mark Sykes e François Georges-Picot: parte da Palestina, a Jordânia e o Iraque para a Grã-Bretanha, a Síria, o Líbano e o sul da Turquia para a França, restando por determinar o destino de parte da Palestina.
O mapa original do acordo Sykes-Picot: A: zona de influência francesa, B: zona de influência britânica
Em Novembro de 1917, Lord Arthur Balfour, ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, envia uma carta a Lord Rothschild, líder da comunidade judaica britânica, uma carta em que declara que “o Governo de Sua Majestade encara favoravelmente o estabelecimento na Palestina de uma pátria judaica […], embora deixando claro que nada deve ser feito que prejudique os direitos cívicos e religiosos das comunidades não-judaicas existentes na Palestina”, o que é o equivalente a tentar a quadratura do círculo.
Retrato de Arthur Balfour por Lawrence Alma-Tadema (1836-1912)
Por trás da Declaração Balfour está o contexto da intensificação, na viragem dos séculos XIX-XX, das perseguições às comunidades judaicas na Rússia e na Europa Oriental, que faz a opinião pública ocidental encarar com simpatia a criação de uma pátria judaica. Mas há também motivações bem mais interesseiras e menos humanitárias: a Grã-Bretanha está desde 1914 em guerra com a Alemanha e esta tem praticamente o monopólio da produção de acetona, matéria indispensável ao fabrico de explosivos e projécteis de artilharia; acontece que Chaim Weizmann, judeu, bioquímico, cidadão britânico e líder sionista, descobriu um processo alternativo para produção industrial de acetona. O empenho de Weizmann no esforço de guerra britânico tem como contrapartida o apoio do Governo britânico à criação de uma pátria judaica na Palestina.
Independentemente das motivações dos vários actores, do que não há dúvida é que a conjugação das promessas feitas aos árabes pelos britânicos, o mapa Sikes-Picot e a Declaração Balfour é a receita perfeita para criar um problema que, um século depois, parece não ter solução à vista.
Entretanto, em Novembro-Dezembro de 1917, tem lugar a Batalha de Jerusalém: as tropas do Império Britânico derrotam as tropas otomanas e alemãs e a cidade rende-se a 30 de Dezembro.
Tentativa de rendição de Hussein Effendi al-Husseini, presidente da câmara de Jerusalém, e uma delegação formada por familiares seus, a dois sargentos britânicos, que a recusaram. Pouco antes Hussein tinha, também sem sucesso, tentado render-se a dois cozinheiros do exército britânico que andavam em busca de ovos. Só mais tarde Hussein lograria encontrar um oficial britânico que o conduziu, passo a passo, ao longo da hierarquia militar, até ao general John O’Shea, que finalmente aceitou a rendição

1919

Terminada a I Guerra Mundial, as potências vencedoras preparam-se para rearranjar o mapa mundi no rescaldo do desmembramento dos impérios alemão, austro-húngaro e otomano.
Proclamação de Woodrow Wilson, presidente norte-americano: “Todas as decisões territoriais resultantes desta guerra devem ser tomadas no interesse e para benefício das correspondentes populações”.
Diálogo entre Georges Clemenceau, primeiro-ministro francês, e David Lloyd George, primeiro-ministro britânico: GC: “Diga-me o que quer”, DLG: “Quero Mossul”, GC: “Está combinado. Mais alguma coisa?”, DLG: “Sim. Também quero Jerusalém”, GC: “Está combinado”.

1920

Jerusalém e a Palestina ficam sob administração britânica.
A 20 de Abril de 1920, a celebração em Jerusalém da festividade muçulmana de Nabi Musa dá para o torto. Apesar de terem passado séculos sob o jugo otomano e estarem agora sob mandato britânico, alguns árabes recordam-se subitamente de que a “A religião de Maomé foi fundada ao fio da espada!”. Não abundando as espadas, munem-se de paus e vão-se aos judeus.
Manifestação anti-sionista na Porta de Damasco, Jerusalém, Março de 1920

1921

Em Março, a Conferência do Cairo, convocada por Winston Churchill, recém-empossado no cargo de Secretário das Colónias, tenta sanar, na medida do possível, as contradições decorrentes da promessas feitas aos árabes, do acordo Sikes-Picot e da Declaração Balfour: a França fica com a Síria e o Líbano, a Grã-Bretanha com o mandato para instalar uma nação judaica na Palestina, Hussein bin Ali, o xerife de Meca, torna-se rei do Hejaz, Abdul Aziz bin Saud fica com boa parte da Península Arábica, Faisal com o Iraque (embora, na prática, sob controlo britânico) e Abdullah bin Husseini com a Transjordânia (rebaptizada como Jordânia em 1946). Não era o que os líderes árabes tinham ambicionado, mas ao menos tinham cada um o seu tronozito. Fica por resolver o problema dos árabes da Palestina – e continua, até hoje.
Abdullah I, rei da Jordânia, em frente à Igreja do Santo Sepulcro, em 1948

1924

A pátria judaica na Palestina demora a ganhar forma e os judeus impacientam-se. Em 1924, a Haganah, uma milícia sionista, assassina em Jerusalém o judeu holandês Jacob Israël de Haan, por este se opor ao sionismo e manter contactos com líderes árabes. É a primeira de muitas vítimas do terrorismo sionista.
Jacob Israël de Haan

1929

As quezílias entre judeus e muçulmanos envolvendo o acesso ao Muro das Lamentações de Jerusalém sobem de tom a 15 de Agosto de 1929, quando uma manifestação sionista vai, de forma provocatória, até ao Muro e entoa cânticos, protegida pela polícia britânica. Como resposta, a 16 uma multidão de muçulmanos sai da mesquita de Al-Aqsa e espanca os judeus que rezam junto ao Muro. A 17, um miúdo judeu que vai buscar uma bola que caiu no jardim de uma casa árabe é assassinado.
O Muro das Lamentações
A violência estra em espiral ascendente e os tumultos alastram a toda a Palestina. Balanço: 131 judeus mortos (maioritariamente por árabes) e 116 árabes mortos (maioritariamente pelas forças da ordem britânicas).
Famílias judias fogem da Cidade Velha durante os tumultos de 1929

1936

Em 1936 eclodem na Palestina revoltas árabes que durarão até 1939 e se saldam em 300 mortos judeus e 5.000 mortos árabes, mais 262 mortos entre as forças da ordem britânicas. São uma reacção ao crescente afluxo de emigrante judeus, ao papel preponderante que os judeus assumem na economia da região e ao favorecimento que, aos olhos dos árabes, as autoridades britânicas dispensam à causa judaica.
Tropas britânicas expulsam árabes revoltosos de Jerusalém, 1938

1939-45

As autoridades britânicas parecem estar tão preocupadas como os árabes com a emigração judaica e impõem um limite de 10.000 entradas/ano, que mantêm mesmo quando se torna evidente que a Alemanha nazi persegue activamente os judeus e mais nenhum país do mundo os quer.
Com o estalar da II Guerra Mundial, a organização sionista Irgun (uma ramificação radical da Haganah), que tinha vindo a promover acções terroristas contra os britânicos, dispõe-se a colaborar temporariamente com estes, face ao perigo maior do nazismo. Nem todos na Irgun estão de acordo com a trégua e em 1940 os extremistas juntam-se na organização paramilitar Lehi, também conhecida por Gang Stern, por ser liderado por Avraham Stern e por usar métodos próprios de gangs criminosos. A Lehi “até propôs colaborar com a Alemanha nazi e a Itália fascista contra os britânicos se as potências do Eixo concordassem em transferir todos os judeus dos seus territórios para a Palestina” (John Andrews, em Os grandes conflitos mundiais).
Entre os jovens fanáticos que desempenharam papéis de liderança nestas facções radicais convém reter os nomes de Menachem Begin (1913-1992), membro da Irgun e, bem mais tarde, primeiro-ministro de Israel e Prémio Nobel da Paz, e Yitzhak Shamir (1915-2012), membro da Lehi e que viria a suceder a Begin como primeiro-ministro.
Cartaz da Força de Polícia da Palestina oferece recompensas pela captura de três membros da Lehi: o do meio é Yitzhak Shamir. É um documento que ajuda a questionar o que separa um “terrorista” de um “combatente pela liberdade”
Com o final da II Guerra Mundial, o afluxo de judeus europeus para a Palestina intensifica-se – o Holocausto veio reforçar de forma pungente a necessidade de criar uma pátria judaica – e a população judaica da Palestina, que representava 11% do total em 1922, chega a 33% em 1945. Concomitantemente, intensifica-se a movimentação dos sionistas contra o mandato britânico.
Chegada de emigrantes judeus à Palestina, 1947

1948

As autoridades britânicas, tinham a custo, reprimido a agitação árabe nos anos 20 e 30 e crêem que também serão capazes de reprimir a agitação sionista que conhece um crescendo após o final da II Guerra Mundial. Enganam-se: a 22 de Julho de 1946, um atentado da organização Irgun contra o Hotel Rei David mata 91 pessoas, incluindo 28 funcionários britânicos.
Explosão de uma segunda bomba no Hotel Rei David, a 22 de Julho de 1946
Em 1947, perante a escalada dos conflitos com os sionistas, Clement Attlee, primeiro-ministro da Grã-Bretanha, renuncia ao mandato na Palestina e uma comissão especial das Nações Unidas propõe um plano para a divisão da Palestina em dois Estados, ficando Jerusalém sob administração internacional. David Ben-Gurion, líder da comunidade judaica da Palestina, aceita o plano, o Alto Comissariado Árabe rejeita-o e exige “uma Palestina unificada e independente”.
A 14 de Maio de 1948, Ben-Gurion proclama o Estado de Israel. O primeiro país a reconhecê-lo oficialmente é a URSS. Os países árabes vizinhos reagem invadindo o território do novo Estado. A Palestina fica a ferro e fogo, com milícias árabes e judaicas a lutar entre si, a massacrar civis e a eliminar diplomatas estrangeiros – um deles é o conde Folke Bernadotte, o mediador oficial das Nações Unidas, abatido a tiro em Jerusalém pela Lehi.
Porta de Sião, Cidade Velha de Jerusalém: judeus fogem do avanço das tropas jordanas, Maio de 1948
Ao fim de nove meses de conflito, Israel consegue repelir as forças árabes e conquista um território que, no total, é o dobro do que a ONU lhe atribuíra originalmente (mas a Cidade Velha de Jerusalém continua sob controlo da Jordânia, que faz questão de demolir o respectivo bairro judaico). 700.000 árabes fogem ou são expulsos de Israel, outros tantos judeus fogem ou são expulsos dos países árabes e instalam-se em Israel.
70 anos decorridos, os árabes palestinos (ou melhor, os seus descendentes) que procuraram refúgio no Egipto, Síria e Jordânia continuam a ter nestes países estatuto de refugiados e a ser tratados como cidadãos de segunda – é uma curiosa forma de os países árabes mostrarem apreço pela sua causa. Escreve Tim Marshall, em Prisioneiros da geografia (ver Prisioneiros da geografia: Quem dividiu o mundo e porquê?), que “se Israel desaparecesse e fosse substituído pela Palestina, era provável que [o Egipto, a Síria e a Jordânia] reivindicassem partes do território”.

1949

O governo israelita transfere a capital de Tel-Aviv para Jerusalém.

1967

Guerra dos Seis Dias: os vizinhos árabes preparam um ataque conjunto a Israel e Gamal Abdel Nasser, presidente egípcio, proclama que “o nosso objectivo fundamental será destruir Israel. Provavelmente não poderia ter dito estas coisas há cinco anos […]. Hoje digo-as porque estou confiante”.
Israel antecipa-se ao ataque, inflige uma pesada derrota à coligação árabe e conquista novos territórios – Jerusalém fica agora inteiramente sob controlo israelita. Em 1968 são expulsos 6000 árabes do antigo quarteirão judeu da cidade.
Para a história árabe, à “catástrofe” (nakba) de 1948, soma-se agora o “revés” (naksa) de 1967.
David Ben-Gurion junto ao Muro das Lamentações em Junho de 1967 (AFP/Getty Images)

1973

Guerra do Yom Kippur.

1987

Tem início a Primeira Intifada, levantamento palestino contra a ocupação israelita de Gaza e da Cisjordânia. Dura seis anos e causa a morte de 160 israelitas e 2162 palestinos.
Manifestantes palestinianos em 1988 (ESAIAS BAITEL/AFP/Getty Images)

2000

Em Julho de 2000, fracassam as conversações de Camp David, entre Ehud Barak, primeiro-ministro de Israel, Yasser Arafat, líder da Autoridade Nacional Palestiniana, e mediadas por Bill Clinton. Parte do problema está na impossibilidade de chegar a cordo sobre o estatuto de Jerusalém.
Ehud Barak, Bill Clinton e Yasser Arafat, em Camp David
A 28 de Setembro, Ariel Sharon, então líder da oposição israelita (chegará depois a primeiro-ministro), faz uma visita ao Monte do Templo, rodeado de apoiantes e grande aparato policial. Embora Sharon não chegue a entrar na mesquita de Al-Aqsa, a intenção é claramente provocatória e desencadeia a Segunda Intifada. Quando esta termina, cinco anos depois, causou 1000 mortos entre os israelitas e 5000 entre os palestinos.

2017

A 6 de Dezembro, o presidente Donald Trump assume um dos seus papéis favoritos – o de elefante em loja de porcelanas – e anuncia a transferência da embaixada americana de Tel-Aviv para Jerusalém e o reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel, estatuto que não é reconhecido pela comunidade internacional, uma vez que está dependente de uma solução que permita a coexistência dos estados de Israel e da Palestina (ver Jerusalém capital de Israel: O gesto de Trump é simbólico ou um barril de pólvora?).
A decisão emana de alguém que crê que 1) o mundo começou quando a 14 de Junho de 1946, alguém assestou uma palmada no seu traseiro, e 2) o mundo gira em torno do seu umbigo, pelo que ignora quase tudo o que aconteceu em Jerusalém nos últimos milénios e é incapaz de perceber as consequências da sua decisão. Se tivesse um módico de conhecimento de História, perceberia que a declaração encerra um potencial desestabilizador comparável ao da visita de Ariel Sharon ao Monte do Templo em 2000, que esteve na origem da Segunda Intifada.
Os eventos subsequentes eram fáceis de prever: no dia seguinte à declaração de Trump, o Hamas apelou a uma Terceira Intifada, que, entretanto, já ganhou ímpeto e começou a produzir o seu rol de vítimas.

in: jornal "Observador"

sábado, 2 de dezembro de 2017

Entrevista_Zé Pedro







*a partida*

barco que parte
na noite
só e o destino
por um rio sem foz
e tão pequenino

e dentro a alma
tão cheia
de vida e
corpo ausente

para outra margem...

LuísM
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Zé Pedro 1956-2017: “É um desperdício de vida uma pessoa achar que é um deus”




"CULTURA
Zé Pedro 1956-2017: “É um desperdício de vida uma pessoa achar que é um deus”


30.11.2017
Um dia perguntaram-lhe assim: “É considerado de forma quase unânime uma das pessoas mais amáveis da música em Portugal. Essa forma de estar é, também, gratidão pelo que foi recebendo?”. A resposta dele está parcialmente no título, parcialmente neste texto. E é uma explicação simples mas poderosa de um homem “educado nessa fórmula do dar e receber”. Zé Pedro, que o país amou ao vê-lo de guitarra erguida nos Xutos & Pontapés, morreu esta quinta-feira. No ano passado, a Blitz fez-lhe uma entrevista de vida - está aqui e é de leitura fundamental neste dia desolador"

in: jornal "Expresso"

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Zé Pedro (1956-2017): leia aqui a entrevista de vida

30.11.2017 às 17h00
Leia aqui a extensa entrevista que realizámos com Zé Pedro, em 2016, aquando dos 60 anos do músico (e, nos artigos relacionados, veja os vídeos da nossa conversa com o músico português). O guitarrista dos Xutos faleceu esta quinta-feira aos 61 anos




LIA PEREIRA
Jornalista




RUI MIGUEL ABREU
Jornalista




RITA CARMO
Fotojornalista



Homem do leme dos Xutos & Pontapés, uma das figuras mais carismáticas e queridas do rock nacional e dono de uma história de vida impressionante. José Pedro Reis, o guitarrista e o homem, recebeu LIA PEREIRA, RUI MIGUEL ABREU e RITA CARMO (fotos) para uma longa e profunda entrevista que vai da infância em Timor ao futuro que chegado aos 60 anos continua a encarar com todo o entusiasmo. Um brinde à vida!


Início de agosto em Lisboa. A cidade está quase deserta e Zé Pedro, a pouco mais de um mês de soprar 60 velas, abre-nos as portas do seu apartamento. As janelas estão abertas e, ao longo das três horas em que, com um rigor notável e a alegria habitual, recorda momentoschave da sua jornada, somos acompanhados por um coro de cigarras, sacudindo o calor nas árvores mais próximas. «Vamos lá a ver se me lembro da minha vida», brinca o fundador, guitarrista e «motivador» dos Xutos & Pontapés, segundos antes de carregarmos no botão de gravação. A viagem no tempo que se segue reflete não só o seu espírito destemido como a própria história do rock feito em Portugal nos últimos 40 anos. A 13 de setembro completa 60 anos, mas para o senhor comendador o futuro continua a ser hoje.


Passou parte da infância em Timor, acompanhando o seu pai, que era militar. Essa época marcou o seu gosto pelas viagens e pela aventura?


Marcou, claro. Nós somos sete irmãos no espaço de praticamente onze anos, e uma das minhas irmãs até ficou cá [em Portugal], porque ainda era muito bebé [quando partimos]. Arranquei para lá em 1960, com 4 anos, e voltei passados outros quatro. Acabei por me dedicar muito a explorar coisas. Ainda por cima só tinha irmãs o meu irmão já nasceu lá e eu não tinha muitos amigos, porque quem lá estava eram oficiais e tropas. O meu pai andava sempre de um lado para o outro, por isso viajávamos muito dentro da própria ilha. As minhas experiências passavam por andar atrás de bichos, a tentar encontrar cobras e lagartos, e por divertir-me na caserna com os magalas. Como era filho do senhor capitão, lá me tratavam bem. Mas foi muito produtivo: não só os quatro anos que passei lá, como a saída, a viagem de barco. Tenho ideia de, com sete anos de idade, ver pela primeira vez uma cidade, coisa que em Timor não havia. Díli era uma aldeiazeca quando o barco parou perto de Hong Kong, para mim foi uma descoberta brutal. Não só da cidade e dos prédios nunca mais me esqueço que foi, também, a primeira vez que vi luz [elétrica] na vida. Só tinha visto umas lamparinas... Agora aqueles anúncios da Kodak e da Fuji! Lembro-me de fazer uma direta no barco, que ficou ao largo, a bater com a cabeça na janela e tudo.


Os seus pais falavam-lhe de Portugal? Que consciência tinha do país, enquanto criança criada no estrangeiro? Deviam falar, porque tentavam sintonizar-nos para a ideia de termos cá uma irmã, para diminuir o choque quando voltássemos. Mas, no meio daquilo tudo, não tinha uma grande referência do que era o país. O meu pai, que andou pelas colónias todas, dizia que Timor era o seu sítio favorito, o mais pacífico - os próprios timorenses adoravam ser portugueses. Não estive num cenário de guerra nem tive qualquer preocupação, a não ser passar pelos quartéis e ver alguma movimentação. Quase de certeza que os meus pais tentavam mostrar-nos Portugal no mapa, mas entre os escorpiões e os lagartos e o fascínio pela selva... Havia os macacos, os periquitos que andavam lá por casa... Não tenho qualquer memória da importância de ter uma nação. Mais tarde acabei por ter, mas essa foi uma fase tranquila da minha existência.


Alguns anos mais tarde, foi ter com o seu pai a África, a bordo de um avião militar...

Isso foi bem mais tarde! Tenho impressão de que a viagem de Timor durou para aí um mês. Só saímos uma vez do barco, em Singapura. Andámos na cauda do tufão, com ondas enormes, também passámos pelo Canal do Suez. Chegar a Lisboa... não posso dizer que tenha sido um choque, mas ficámos a pensar: onde é que estamos, é aqui que vamos morar? Depois tínhamos a minha irmã [mais nova], que não conhecíamos e que morava com os meus avós, na Praça de Londres, que era um sítio chique da altura. Coitada da [miúda]: de repente, apanhou ali com quatro selvagens! «Estes são os teus irmãos», diziam-lhe. E nós: «'bora despenteá-la!». Depois fomos morar para os Olivais, um bairro que estava em construção e acabava por ficar «fora» da cidade. O meu prédio não era exclusivamente de oficiais, mas os outros eram. Claro que os oficiais davam-se com os oficiais, os sargentos davam-se com os sargentos e acabavam por formar-se umas ilhas dentro dos Olivais. Havia muitos filhos de oficiais, que depois iam para o Colégio Militar e para Odivelas, para onde foram as minhas irmãs. Como não entrei no Colégio Militar por falta de peso, acabava por passar lá a semana e arranjei dois ou três amigos do bairro. Quando já estávamos instalados nos Olivais, surge a comissão do meu pai na Guiné. Eu teria 11 ou 12 anos. Como estava em aulas, a viver na casa dos meus avós, a família foi primeiro e eu só passei lá as férias grandes: três meses em Bissau. Dado que o meu pai era militar, arranjou-me lugar num avião militar, mas era um avião de para-quedistas, então um gajo ia sentado de lado, com umas cadeiras no meio, cheias de soldados que iam para a Guiné...


Então ainda apanhou António de Spínola [na altura, governador-militar da Guiné Bissau]?

O meu pai era ajudante de campo do Spínola! Até foi condecorado por ele, recebeu uma medalha de muito mérito. Mas a viagem: cheguei ao aeroporto, o meu avô foi lá levar-me, e por sorte estava lá outro puto, o António Jorge, filho de um sargento. Ficámos nos banquinhos de lado, a olhar para aquilo tudo, e aparece o piloto ou o copiloto, que diz: os paraquedas estão aí debaixo, os barquinhos estão aqui, se acender a luz a vermelha metam os paraquedas, e se acender a luz verde vamos cair no mar, portanto não se esqueçam de levar o bote. Era um avião daqueles com duas hélices de cada lado. E nós «ai Jesus», sempre a ver onde estavam o bote e o paraquedas. Lá levantámos voo, passámos nas Canárias e fomos aterrar no Sal [Cabo Verde], onde chegámos ao final do dia e nos disseram: «agora o voo levanta às cinco da manhã». Os magalas desapareceram todos e ficámos os dois, cada um com a sua maleta, a olhar para o aeroporto e a pensar: «e agora?». Ficámos lá até que aparece alguém a dizer: «o aeroporto vai fechar, desandem daqui». Estivemos ali sentaditos nas escadas mas a certa altura começa a dar-nos a fome e tínhamos para aí 5 escudos os dois... Fomos andando pela estrada e, às tantas, estávamos rodeados de palhotas com um movimento enorme de soldados e nativas, uma grande confusão, e o pessoal a bater-nos na cabecita. Até que lá aparecem dois faróis e era uma patrulha portuguesa, a perguntar: «o que estão aqui a fazer?». Lá explicámos e eles levaram-nos para o quartel, para comer qualquer coisa. Na Ilha do Sal havia pouca água e os gajos aproveitaram que tinham ali dois putos, pumba, vinhaça! E um gajo de tão agradecido que estava... apanhei uma bezana!


Foi a primeira?

Não, já foi a segunda. A primeira tinha sido em puto, em Timor, a beber fins de copos. Depois lá descobriram que eu era filho de capitão e quiseram ir apresentar-me ao comandante. Fui com uma bezana, já nem me lembro de nada! Mas lá nos puseram a dormir e às cinco da manhã estávamos no aeroporto para apanhar o avião. Chegámos a Bissau e estivemos que tempos para aterrar, porque tinha explodido um avião do Biafra na pista, isto na altura da guerra da Nigéria com o Biafra [estado secessionista no sudeste da Nigéria, que entre 1966 e 1970 lutou pela independência]. Era só notas do Biafra a voar, ainda apanhei duas, quando saí do avião.


Na sua biografia, o seu pai é descrito como militar mas pouco autoritário em casa. Como lidou ele com as suas primeiras mostras de rebeldia?

A minha mãe é que tomava conta de nós. O meu pai era uma pessoa muito culta, cheia de histórias e livros, fascinado por ficção científica e pela coleção dos Argonautas. Também adorava xadrez e era um grande jogador de brídege. Para nós, miúdos, era uma presença fascinante pela maneira de contar histórias, por falar de História, sobre os guerreiros como o Aníbal, que era um grande estratega [do exército de Cartago, lutou contra os romanos]. E gostava muito de jazz; na vinda para cá, em Hong Kong, comprou uma aparelhagem Akai e muitas vezes chamava-me e perguntava-me: «onde está cada instrumento?». Foi assim que fui educado a ouvir música e a perceber como é que os instrumentos faziam a melodia entre eles e construíam uma peça musical. Esse foi um legado muito grande; apresentou-me aos blues, sobretudo a John Lee Hooker. Ouvia muitas árias de jazz e o primeiro concerto a que me levou foi o de Miles Davis, em Cascais. Foi um marco para mim. O meu pai não tinha muito esse estatuto de autoritário, de se impor. Claro que, quando era preciso, aparecia para dar os castigos necessários, que eu já na altura era muito mau aluno. Principalmente a partir da terceira ou quarta classe. Na primeira classe era o melhor da escola! Depois tive uma queda, bati com a cabeça e deve ter-me afetado aqui qualquer coisa. Comecei a ser um daqueles alunos que não ligavam nenhuma à escola. A minha mãe tinha uma faceta mais educativa, mais terra-a-terra; era uma figura presente na nossa educação.


A vida do rock acaba por ser uma reação à figura de um pai militar, à semelhança de músicos como Jim Morrison?

Pelo que é descrito nos livros, o pai do Jim Morrison era muito autoritário, em relação à mãe e aos filhos. Isso nunca aconteceu com o meu pai, que sempre foi super respeitador da minha mãe e dos filhos. Intervinha quando tinha de intervir e, no resto, era uma figura mais cultural do que militar. Não senti qualquer tipo de repressão. Quando se apercebeu do meu fascínio pela música, ajudou-me a decifrar algumas coisas, dentro dos seus conhecimentos; como estudou em Coimbra, tinha algumas noções de guitarra. Eu tinha uma guitarra lá em casa a que nunca liguei nenhuma, devo confessar ele ainda tentou ensinar-me as primeiras posições, mas era muito complicado. O Jim Morrison sofreu [com o autoritarismo do pai] e isso afetou aquilo em que ele se tornou, mas eu não tenho qualquer referência de rebeldia ou conflito de gerações. Aliás, o nosso crescimento foi pacífico. Quando foi o 25 de Abril é que descobrimos: «afinal havia aqui problemas graves!». E a partir daí comecei a interessar-me.



RITA CARMO

Na vossa casa não havia noção do que era a ditadura portuguesa, não se falava de Salazar?

Não, nunca se falou de regimes ou ditaduras, pelo menos da portuguesa. Para nós, o Américo Thomaz era a pessoa que aparecia na televisão a cortar fitas e nem o Salazar nem o Marcelo Caetano eram citados como um problema grave. Os militares não passavam coisas negativas para os filhos, pelo menos os que não sentiam repressão do regime.

No 1º de Maio de 1974 foi para a rua...

Foi uma loucura. Diz-se que esteve um milhão de pessoas na rua, e eu nunca tinha estado no meio das pessoas. Em 1974 teria 18 anos, mas eu conto sempre com um bocadinho de atraso, por causa dos quatro anos que estive em Timor, [era como se tivesse] 14 ou 15 anos. (risos) O sítios maiores em que tinha estado eram os festivais jazz de Cascais e umas idas esporádicas ao futebol; o meu pai era da Académica de Coimbra e tinha um amigo do Sporting que nos levava ao Estádio [José] de Alvalade quando a Académica jogava lá. Mas esse 1º de Maio foi uma coisa fabulosa, uma adrenalina, um ambiente de festa enorme não há descrição. Como já disse, eu nunca senti repressão até ao 25 de Abril, e quando chego ao 1º de Maio, para mim era uma festa geral. Adorei, foi incrível.

Nos primeiros anos dos Xutos, a sua mãe era uma grande apoiante da banda. Até chegava a maquilhar-vos, não era?

Antes do 25 de Abril, já estava muito interessado em música. A primeira banda a que liguei foi aos Creedence Clearwater Revival, com o álbum Cosmo's Factory, que adorei. É com eles que acabo por descobrir o rock. Na altura, comprávamos os discos pelas listas inglesas e quando eles chegavam fechávamo-nos na cave de um amigo que tinha uma super aparelhagem, com giradiscos e amplificadores, para ouvi-los em grupo. Eu comprava as revistas, a [francesa] Rock & Folk e a Pop, que era alemã, por causa dos posters, e lembro-me de ver uma foto do David Bowie, na fase do Ziggy Stardust. O gajo de minissaia e botas. Comecei a tentar imitar essas figuras, porque me fascinavam muito. Certa vez, passei um aniversário no Algarve vestido nesse imaginário, mas a minha mãe achou graça e deixou-me estar no meio dos outros miúdos, de botas altas e minissaiazita. (risos) Apoiou-me sempre muito nessa parte de artista rebelde que sentia que eu tinha. Quando vim do interrail, fascinado pelos punks, muitas vezes era ela que me pintava a cara de branco também tinha aparecido a Laranja Mecânica e havia esse fascínio. E tinha o alfinete na boca. Ela nunca se opôs e, quando os Xutos aparecem, chegou a ver um ou outro concerto, com tudo à pantufada. O meu pai é que dizia: «és músico, mas o que é que queres fazer na vida?». Ainda cheguei a escrever, porque tinha um tio que era diretor do Diário de Lisboa, então fazia umas crónicas para lá, sobre discos que saíam, ou um top de vendas «caseiro». Passava por cinco discotecas e perguntava: «o que é que se vendeu mais esta semana?» Uma vez até falei com o David Ferreira que, tal como o Francisco Vasconcelos, era empregado na loja da Valentim de Carvalho, e eles venderam-me o disco da Patti Smith [Horses]. Fui para casa ouvir e pensei: «é isto mesmo, grande cena!». De repente virei para punk, agarrei na guitarra e comecei a tocar.


UM HOMEM ENTRE MULHERES

Já falámos do rock, de álcool... e o sexo? Quando surge na sua vida?

Eu tive a sorte de crescer entre raparigas. Somos cinco raparigas e dois rapazes, ainda por cima tenho duas irmãs mais velhas, depois sou eu e duas mais novas. Estava habituadíssimo às conversas de raparigas. Elas andavam no colégio de Odivelas e ao fim de semana eu ia lá buscá-las; às festas de fim-de-semana vinham fornadas de raparigas. Mas só comecei a namorar tarde. Quando havia festas, até preferia estar a pôr música do que chamar esta ou aquela para dançar. Na altura, as festas de garagem eram duas horas de shake, para aquecer, e uma hora de slows. Era para dançar parado, com a mão atrás da rapariga e um cigarro na boca, decorando uma ou outra canção, normalmente o «Father and Son», do Cat Stevens, para lhe cantar ao ouvidinho e ela se encostar um pouco mais. Mas elas depois metiam os travões...

Lembra-se do seu primeiro beijo?

Foi numa dessas festas. Um beijo fugaz, atrapalhado! A minha primeira namorada, que não passou de uns apalpões e uns beijos, era colega das minhas irmãs em Odivelas, uma Ana Henriques. A minha primeira experiência sexual foi já com uns 18 anos. Aí podemos tirar na mesma os quatro anos de Timor. (risos) Chamava-se Lena e andava no [liceu] D. Dinis; a certa altura o namoro ficou mais sério e decidimos avançar... tanto eu como ela éramos virgens. Foi antes de eu ir para fora do inter-rail.



RITA CARMO

Quando vai de inter-rail, conhece um mundo novo, diferente do circuito fechado dos Olivais?

Com o 25 de Abril, as coisas rebentaram. A cidade ficou mais perto do que dantes. Eu ia frequentemente a manifestações; quando foi o assalto à Embaixada de Espanha [em setembro de 1975], também fui para lá, embora não partindo nada. Estava no movimento antirregime Franquista, que tinha morto os supostos terroristas por garrote. Vou de inter-rail em 1977 e é nesse período que começa a chegar mais informação a Portugal. Tínhamos acesso a mais discos, a mais revistas, já se discutia nas ruas e já nos interessávamos por outro tipo de atividades, nomeadamente políticas. Quando fui de inter-rail, só se podia levar 10 contos no bolso. A minha irmã, que é 11 meses mais velha que eu, tinha um namorado na Alemanha e pediume para ir com ela. A primeira paragem foi em Paris, onde comprei a Rock & Folk e vi que havia um festival punk em Mont de Marsan, perto da fronteira espanhola. Ficou-me aquilo na cabeça: «tenho de ir a este festival». Estavam lá as bandas punk todas, exceto os Pistols e os The Jam, que acabaram por desistir à última hora, porque ia lá tocar uma banda francesa, os Bijou, que eram uma cópia dos The Jam, e o Paul Weller decidiu que não tocaria num festival onde os outros estivessem. Mas lá fui para Hamburgo. O namorado da minha irmã era um professor alemão, que nos foi buscar à estação e disse: «estou ali numa reunião geral de professores, se não se importam ficam um bocadinho à espera». Então as duas primeiras horas em Hamburgo foram passadas num pavilhão, a ouvir discursos em alemão. E eu ávido de experiências! Depois fomos para a casa dele, que era na Floresta Negra, completamente isolada. E, para agravar tudo isto, [ele] era macrobiótico. Passei uma semana difícil. (risos)


Quando voltou ao inter-rail?

Fui deixar a minha irmã em Amesterdão e mal vi o namorado dela virar costas fui comer um cachorrão, cheio de mostarda, batata frita, tudo a que tinha direito até fiquei maldisposto! Fomos dormir a um sleep in, onde um gajo comprava haxe no bar. Eu vinha da Floresta Negra e do macrobiótico, apanhei uma overdose de haxe, via tudo a andar à volta! Mas lá vomitei e a coisa melhorou. Não tínhamos telemóveis, mas os meus amigos estavam a chegar e eu disse à minha irmã: «todos os dias, às sete da tarde, vens a este quiosque frente à estação que eu mando um deles para tomar conta de ti». Lá me meti no comboio para a fronteira espanhola. Quando chega o pessoal, mandei um para a Holanda tomar conta da minha irmã e ficámos três. Acabámos por ir ao festival, que virou o meu conceito musical. Eram dois dias de festival punk e um dia extra de Lou Reed, giríssimo. Não tinha dinheiro para tudo, mas lá consegui entrar à borla. Era uma praça de touros, numa aldeia pacata. Nós chegámos na quartafeira e o pessoal andava todo a fechar-se em casa, a meter trancas nas janelas. Na quinta começam a chegar as tribos e era alucinante, ficámos com a aldeia por nossa conta! Até tomávamos banho na fonte. Vi bandas fabulosas: os Police, num dos seus primeiros concertos, ainda com o guitarrista [Henry Padovani, antecessor de Andy Summers], mas os mais fascinantes para mim foram os Clash, que eram cabeças de cartaz. Estavam lá os Damned, também...


Tinha noção que a música estava, nessa altura, a mudar profundamente? Começou por ouvir Miles Davis... e agora o punk estava a rebentar.

Tive essa noção pelo seguinte: naquele grupo de amigos, ouvíamos muito Frank Zappa, era sagrado. Também os Genesis, depois de terem vindo cá, com The Lamb Lies Down on Broadway, até os próprios Yes, além do jazz rock do Miles Davis, que eu tinha visto e adorava. O Zappa e o Captain Beefheart tinham essa parte mais psicadélica que, quando apareceu, era novidade. No meio das encomendas que fazíamos, a certa altura mandei vir o primeiro disco dos Ramones, sem saber o que era. Só tinha lido uma noticiazita penso que na Rock & Folk, e quando fomos ouvir ficámos: «eh lá! Está aqui uma coisa completamente diferente!».


A grande mensagem do punk rock era: «tu também és capaz»?

Era a grande mensagem do punk rock, que influenciou não só a música como a arte em geral, porque a partir daí o slogan do it yourself espalhou-se. Eu vivi a época hippie à distância, mas sentia-me atraído. Li uns livros e vi o filme de Woodstock, completamente inspirador. Passava no cinema do bairro e cada vez que estava em exibição lá íamos nós; saíamos na parte da Joan Baez para ir fumar um cigarro lá fora. (risos) No punk rock, os Sex Pistols foram os cabeças de cartaz e os Clash eram a consciência, a cabeça, a palavra, [a ideia] de como o punk havia de ser uma intervenção social. A maneira como mudavam as formas musicais era importantíssima. Quando vêm pela primeira vez a Cascais [em 1981], as duas primeiras músicas foram «Spanish Bombs» e «London Calling», as que tínhamos mais no ouvido. Foi fascinante.



RITA CARMO

Esse tipo de bandas era o que norteava os primeiros tempos dos Xutos?

Nessa altura, havia um grupo que parava na cervejaria Munique, no Areeiro, com os gajos que eu considerava mais avançados. Estava lá o Pedro Ayres [Magalhães], que tinha os Faíscas, a nossa banda punk de eleição. Eu tornei-me muito amigo dele e um suposto manager da banda. (risos) Eles iam ensaiar para a minha garagem e havia uma cumplicidade muito grande de pessoal que quer é divertir-se. No meio dessas reuniões, a beber cervejas na Munique, todos tínhamos de ter uma banda, fictícia ou imaginária. O Pedro Ayres estava sempre a dizer: «tens de ter uma banda». Aliás, o anúncio de jornal de onde aparece o Kalú era para baterista dos Faíscas mas, quando o anúncio saiu, na Música & Som, o número de telefone era de minha casa e quando começaram a aparecer interessados já eles tinham feito as pazes com o baterista, que era o [Emanuel] Ramalho. As minhas irmãs é que atendiam o telefone e o Pedro disse-me: vai assentando os números que um dia hás-de precisar de um baterista! E, da lista de seis ou sete que ligaram, o Kalú foi o único que ligou duas vezes, e a segunda a chatear, naquela de «então nunca mais me deram resposta?». Quando eu e o ZéLeonel fomos à lista, tínhamos essa referência: «este gajo telefonou duas vezes, uma delas a mandar vir, portanto deve ser o mais interessado». Lá marcámos um encontro na [cervejaria] Trindade, e estou com ele este tempo todo de vida. (risos)


Quem eram os maiores «cromos» nessa altura? Entre 1978 e 1980?

O Paulo [Pedro] Gonçalves [dos Faíscas, mais tarde do Corpo Diplomático e dos Heróis do Mar]. O Paulo Borges, que foi vocalista dos Minas e Armadilhas e hoje, se não me engano, é o líder dos budistas em Portugal. Na altura da cervejaria, o Gimba tinha vindo da Venezuela e acaba por mandar um dos nomes de banda para cima da mesa: Beijinhos & Parabéns. Entre duas cervejas, virou para Chutos & Pontapés. Fiz meio ano de faculdade de jornalismo e comprava muitos dicionários de música, pelo que achava o X uma letra muito potente. Então troquei o «Ch» por «X». Não éramos todos punks: era eu, o Pedro Ayres, o Zé Leonel, e depois havia réstias de freaks...


Por falar em «réstias de freaks», tinham noção de que estavam a construir um Portugal novo?

Não, não havia essa noção político-social. Nós achávamo-nos. (risos) Pertencíamos a uma elite de iluminados, os gajos que liam, que ouviam, que transmitiam aquilo que acontecia lá fora, e estávamos aqui para fazer carreira. Nessas alturas adolescentes, não podemos ter essa noção que estamos a mudar alguma coisa. Tive amigos que me tentaram aliciar para pertencer a movimentos políticos, como a LCI (Liga Comunista Internacional), mas não tinha pachorra. No punk, ninguém pensava que estava a modificar as coisas, queríamos era vivê-las. Não tínhamos um projeto de construir um Portugal novo, aliás, eu vivi a festa do 25 de Abril até os Xutos começarem em 1979. (risos)


E qual foi a sensação de dar o primeiro concerto, nos Alunos de Apolo, com quatro canções em menos de dez minutos?

Os Faíscas acabavam nesse dia. Então o Pedro Ayres fazia questão que estivéssemos lá. Nós bebíamos absinto juntos e, certa vez, assinámos um contrato de fidelidade com sangue; picámo-nos com um alfinete e escrevemos, em mortalhas, que havíamos de nos proteger um ao outro e de construir isto e aquilo... Então ele insistiu: «tem de ser a tua banda». O Kalú tinha entrado para a tropa, já tinha surgido o Tim, tínhamos as coisas muito coladas a cuspo... Claro que na altura tomávamos [comprimidos] Fringanor, andávamos sempre a uma velocidade maluca. Lá fomos para o concerto, e eu disse: «eu dou as entradas e as saídas». Como o Chuck Berry: «eu entro e saio e vocês acompanham-me». Mas com os «fringanores» e a adrenalina de estar em palco, eu cortava as músicas a arrasar. «Bora, já chega!». Daí as quatro músicas em seis minutos. Entrámos e saímos, ninguém percebeu nada do que se tinha passado ali. Não tivemos assobiadelas, também não tivemos palmas, mas saímos dali a pensar que éramos a maior banda. «Isto vai estourar!». No dia seguinte, na rádio, disseram: «apareceu lá uma banda semi-punk, ninguém percebeu o que era», porque o Zé Leonel saltava para o meio do público, não se percebeu sequer o que cantou. Foi fabuloso. Um gajo sai lá de cima e pergunta-se: «o que é que aconteceu?». Tinha acontecido a nossa estreia.


Quão espinhoso foi o caminho que se seguiu?

Acabou por não ser muito trabalhoso, porque houve uma data de acontecimentos seguidos. O Tim, quando chega à sala de ensaios, vinha de Almada com os óculozitos, com um pulloverzinho aos losangos, e eu com um alfinete na boca, a pensar: que baixista é este? Mas como ele tinha conhecimentos musicais, coisa que eu não tinha...


Deram-lhe alguma instrução em termos de estilo?

Depois passou a usar uma t-shirt preta, que era a regra. Mas ainda chegou a haver uns concertos em que foi mais à betinho de Almada. Já na altura tinha um carisma muito engraçado. E como me afinou a guitarra, pensei: «este gajo se calhar vai lá». (risos)


Alguma vez temeu que a falta de conhecimentos musicais pudesse ser um obstáculo?

Não, porque o punk era isso mesmo, não tinha barreiras. No festival punk, metade dos que estavam ali não deviam saber tocar. Havia uma atitude e uma energia que tinha de se cultivar, e tinha de se fazer canções que fossem identificadas por nós. Tanto que, no princípio dos Xutos, as músicas eram todas minhas, com letras do Zé Leonel. Passados uns meses é que o Tim aparece com a primeira música. Nós tínhamos a noção que as coisas não paravam. Vivíamos muito o momento.


Nessa altura, já acreditava que ia fazer da música carreira. Mas não havia exemplos disso em Portugal...

Não pensava no futuro. Tinha aquele slogan: «o futuro é hoje». Isso ajudou-me a passar os primeiros tempos e a incutir nos outros um espírito de resistência. Lembro-me que, num dos primeiros concertos que tivemos, com os Minas & Armadilhas, no antigo casino da Praia de Santa Cruz, as bandas dormiam no palco. Tocávamos duas noites e nem saíamos dali. De manhã, eu e o Kalú estávamos a ressacar e eu digo-lhe: «nós vamos ser a melhor banda de Portugal. Ainda havemos de fazer a primeira parte dos Rolling Stones, vais ver. Escreve aquilo que te estou a dizer: vamos ser a banda número 1 em Portugal». E isto no segundo ou terceiro concerto que demos. Tinha essa convicção. E quando fizemos a primeira parte dos Rolling Stones, o Kalú lembrou-se: «disseste-me isto há anos!». O mesmo com as editoras: eu dizia «a gente nunca lhes leva material, há de chegar uma altura em que elas precisam de nós». E assim foi.


Foram construindo, também, um nome forte ao vivo. Em 1984, já arrastavam multidões para os vossos concertos...

As pessoas já se mexiam para nos ir ver. O Rock Rendez Vous também foi importantíssimo: enchíamos aquilo, até que [o burburinho] chegou aos ouvidos do Tó Zé Brito. Na altura, somos contratados juntamente com Mler Ife Dada, Afonsinhos do Condado e Radar Kadafi. Foi uma aposta do Tó Zé Brito: escolher quatro bandas, atribuir uma verba e ver quem é que saltava mais. Quem saltasse mais tinha direito a contrato.


AGORA OU NUNCA


Em 1986 assinam com a Polygram. Na altura, já tinha 30 anos. Sentiu que esta aposta tinha mesmo de resultar? Tivemos a noção que aquilo ia rebentar com o Circo de Feras. Não só através do Carlos Maria Trindade, que não tinha ouvido o material até ser chamado para produzir o disco, mas porque tínhamos muita música que funcionava muito bem ao vivo. Já esgotávamos salas... Isto é tudo feito no meio de muito álcool e muitas drogas. (risos) Vivíamos num limbo de rock stars, especialmente eu: a noite de Lisboa, entrar à borla nas discotecas, com a minha seita de amigos e namoradas...


Lembra-se daqueles marcos como a primeira casa ou o primeiro carro?

Só tirei a carta tarde, talvez aos 31. Da primeira vez que o meu avô me deu dinheiro para a carta, comprei uma guitarra. Depois comprei um carro em segunda mão, um Fiat que me custou uns 500 contos. Eu vivia naquela: «o dinheiro há de aparecer». E aparecia! Na fase de 1986/7 tocávamos bastante, e em 1987 rebentou. Lembro-me de haver meses de agosto em que dávamos 20 e tal concertos. Os outros tiveram de abandonar os seus empregos. O Tim tirou o curso, ainda fez o estágio de Agronomia, mas chegou uma altura em que começaram a aparecer muitos espetáculos e já tínhamos margem de manobra.


Foi nessas digressões que foram conhecendo o país?

Nós sempre tocámos, mesmo logo no princípio. Tivemos muitos contactos, porque as pessoas tinham curiosidade de conhecer um punk! (risos) Levávamos uns cinco ou dez contos por espetáculo. Lá íamos todos enfiados no carro do Kalú, com as tralhas atrás. Naquela altura, também havia bailes de finalistas e, muito anos antes do sucesso, éramos contratados para tocar neles, como «os excêntricos». Mas, no meio da nossa atitude e do aspeto punk rock, éramos tipos simpáticos. Eu apanhava grandes cardinas mas sempre tive bom beber. Fazíamos grandes amizades e saíamos quase em ombros. Com os Xutos, praticamente assistimos à construção das autoestradas do país. O Cavaco inaugurava dez quilómetros e lá íamos nós, depois ficávamos perdidos no meio do nada, que ele deixava autoestradas por acabar, e nós: «onde é que se apanha a Nacional 1 outra vez?».



RITA CARMO

Quando a banda passa a ser uma máquina, uma marca, de que forma é que os Xutos mudam?

Não mudámos muito. Acho que a banda evoluiu muito naturalmente, em tudo. Quando chegámos ao Circo de Feras, tínhamos a certeza de que ia resultar. Quando o «Contentores» começa a passar muito e passamos a ser reconhecidos, não nos afeta muito. Não foi inesperado. Queríamos era gravar o álbum a seguir. A editora dizia: «mas isto ainda tem muitos singles para tirar», e nós não queríamos lançá-los. No final de 1987, vamos à editora e dizemos: «a malta tem aqui um grande single de Natal para vocês». Não sei como é que os convencemos, mas deram-nos um fim-de-semana. E combinámos: «se resultar, dão-nos a entrada em estúdio logo em fevereiro do próximo ano». Chegámos a estúdio e não quisemos usar nenhuma música que estivesse preparada para o 88, então dissemos: só se for esta «Casinha». E foi assim que a «A [Minha] Casinha» foi gravada. Depois havia o instrumental, «A Minha Aventura Homossexual com o General Custer», do João Cabeleira, e o «Sou Bom», que tocávamos por desporto, e o single saiu assim. E, para a história, o que resulta disto? Que em 1987 gravámos o Circo de Feras, no final do ano a «Casinha», no início do ano seguinte o 88 e no final o álbum ao vivo. Em dois anos, quase que limpámos o material. É incrível como uma editora nos acompanha nesta loucura. O Circo de Feras quase chegou a platina. Faltavam uns 100 discos, e a editora veio perguntar-nos: podemos fazer aqui uma artimanha, que é tirar 100 discos do mercado. Entram no armazém e saem outra vez, e vocês são platina. Nós não deixámos, porque era uma falcatrua! (risos) Tínhamos essas noções heroicas de sermos honestos com o que fazíamos e vendíamos.


DAR (SEMPRE) MAIS


Na sua biografia, Marta Ferreira, vossa antiga manager, diz que o Zé Pedro era muito «casmurro» no que toca a obter mais equipamento e aparato de palco. É verdade?

É. Talvez por ler muitas biografias e ver como é que as bandas crescem, tinha essa noção de que, para chegarem a patamares elevados, os grupos têm de crescer todos os anos. As pessoas podem dizer que já nos viram no ano passado, mas tem de se incutir a ideia do «este ano ainda não vi». Felizmente sempre tivemos muitos fãs e, nessa altura, muitos faziam as férias atrás da nossa tournée; diziam que era a maneira de conhecerem Portugal. Tínhamos a obrigação de lhes dar um espetáculo cada vez melhor. E um espetáculo melhor incluía tocarmos melhor, com músicas melhores, alinhamentos bons, e tudo o que fosse possível de som e luzes. Não podes passar anos a dar a mesma coisa e a «enganar» as pessoas. Ainda hoje mudamos os alinhamentos, tentamos melhorar as luzes, arranjamos cenários melhores... Há pouco tempo estávamos em Cantanhede, a tentar perceber há quanto tempo é que tocámos todos os anos na Expofacic. Há pelo menos 15 ou 16 anos. E está sempre cheio. É porque a gente dá.


Quando se planeiam digressões, há que ter esses aspetos mais técnicos em conta...

E era a parte que me interessava! Muitas carreiras ficam embicadas porquê? Porque vão à MEO Arena e levam uma aparelhagenzinha... A primeira vez que fomos à MEO Arena levámos uma produção enorme! Não ganhámos nada - não perdemos, também - mas investimos tudo. E o conceito era: «temos de fazer uma coisa mesmo em grande, que isto vai vender espetáculos a seguir».


Passou alguns anos à frente do bar e sala de concertos Johnny Guitar. Tem saudades?

(risos) Muito sinceramente, tenho muito poucas saudades. Gosto de reviver os tempos, mas vivo bem o presente e apetece-me viver o futuro. Para mim, o passado acaba por ser [feito de] experiências que tive, na carreira dos Xutos: hoje temos isto, amanhã temos de ter mais. Enquanto eu viver desta maneira, os céus ajudam-me. O Johnny Guitar foi uma experiência caótica, mesmo. Foram oito anos de loucura. Levou-me a excessos mesmo muito grandes e não me metia noutra.


Por falar em excessos, nos anos 90 os Xutos levaram dois grandes rombos: o desfalque feito por um manager e os problemas do João Cabeleira.

A carreira de uma banda vê-se nesses tempos difíceis. Quando temos sucesso, aproveita-se. Nos tempos difíceis é que temos de cerrar fileiras e salvar o barco. O desfalque financeiro... estávamos em 1990 quando o detetámos. Fizemos uma auditoria às nossas contas e percebemos que nos teria roubado entre 15 mil e 20 mil contos, o que na altura era muito dinheiro. Mas não pudemos fazer nada: o fisco estava em cima de nós e tínhamos 6 mil contos por pagar, em impostos. Se fôssemos processar o manager, caía muito mais, e estávamos a zero. Tivemos de dar alguns concertos para acabar um contrato com a Sumol e pedimos um empréstimo ao banco para pagar ao fisco.


Nunca recuperaram o dinheiro que ele vos levou?

Não, era impossível. Mas todas as bandas grandes levam uma banhada a certa altura. Nós encarámos a coisa pensando: «somos uma banda grande, já levámos uma banhada!» (risos) Claro que desestabilizou as hostes e pôs em causa o funcionamento dos Xutos. Por sorte, apareceu-me o Johnny Guitar, ao qual o Kalú também se iria juntar, o Tim junta-se aos Resistência e os Xutos ficam em stand by. Seis meses ou um ano depois, há um telefonema do Kalú: «então, nunca mais se ensaia?». Certamente que todos pensámos que tinha acabado tínhamos feito o que tínhamos feito e já não era mau. Tínhamos acabado de fazer o Gritos Mudos, um disco muito mal aceite pelos críticos, apesar de ser ótimo. Antes disso, nós tocávamos tanto quase 100 espetáculos por ano que nem tínhamos tempo de ver as contas. Quando nos juntámos de novo e quisemos voltar para a estrada, já ninguém nos ligava nenhuma. (risos) Começámos a tocar outra vez para 50 ou 100 pessoas. Fomos recuperando a coisa calmamente. Quanto ao problema de saúde e de consumos o João teve um período bastante mau e a seguir tive eu. Aí, a banda une-se.


A força do coletivo foi importante na superação de problemas individuais?

Sim, claro. O dia mais difícil da banda foi o da morte da Marta [Ferreira, manager da banda e irmã de Kalú, falecida em 2007, quando a banda partia para um concerto no Canadá]. Foi um choque brutal: apareceu do nada, no aeroporto, com metade da banda já no avião, e ela morre na casa de banho. Aí sim, ficámos sem chão. Os outros momentos, de alguma maneira, são antecipados. Com as contas já percebíamos que alguma coisa estava mal; os consumos, tanto meus como do Cabeleira, foram evoluindo até chegarem ao ponto mais difícil. Mas uma coisa boa que ainda hoje os Xutos têm é que, quando há um problema com um, todos os músicos e toda a equipa fica muito solidária. Tal como os U2, uma banda que nunca teve escândalos públicos muito graças ao [manager] Paul McGuiness, a Marta tapava tudo. Pôs uma equipa a funcionar, um escritório a funcionar, porque depois da banhada formámo-nos como firma e ficámos com a contabilidade organizada, tanto que levámos com mais duas ou três auditorias e não descobriram nada. É aquela velha máxima: quando consegues superar uma dificuldade, tornas-te maior. E connosco isso sempre aconteceu.


Fez agora 15 anos que foi parar ao hospital, entre a vida e a morte. Costuma lembrarse da data?

Recordo pelo seguinte: foi dia 1 de agosto. (risos) [«1º de Agosto» é nome de canção e disco ao vivo dos Xutos]. Foi o dia em que parei tudo: os consumos de álcool, droga e tabaco. Tinha passado um ano terrível, de confusão de cabeça, de não ter saída. E muitas vezes pensava: «tenho de ter um fim, não vou aguentar muito mais». E foi o que aconteceu: uma hemorragia enorme. Cheguei ao hospital e quase que me deram como morto. Mas tive a certeza de que ia sobreviver. Até disse aos médicos: «isto já passou». Tanto aí como em 2009, quando chegou o transplante. Estava desesperado, já não aguentava mais. Já devia ter o fígado todo desfeito, tanto que quando o [cirurgião] Eduardo Barroso me tirou o fígado disse que nem para fazer um patêzinho aquilo servia! É o que digo à [minha mulher] Cristina [Avides Moreira], que tem sofrido muito com esta parte das doenças: quem está dentro tem uma consciência melhor da sua capacidade de sobrevivência. Fui para o hospital a 1 de agosto e tivemos de cancelar os concertos dos Xutos, mas eu só deixei cancelar os primeiros 15 e já fiz os outros 10! Eles hoje até me agradecem, porque tinha de evitar grandes viagens e alugámos um avião. (risos)



Zé Pedro com Jimmy Page, em 2015

É um sobrevivente?

Sou. Mas a cabeça também tem de ser alimentada, filtrando o que está à nossa volta. Hoje em dia, tenho a certeza de que o amor é a coisa mais importante da vida. Sem ele, não consegues gerir mais nada. Mesmo naquele pessoal mais focado no trabalho, os workaholics, talvez possamos considerar que há uma paixão pelo dinheiro... Mas, mesmo assim, o amor que se pode ter com um ser humano, não tenho dúvidas que é a força onde conseguimos ir buscar tudo. Sou 100 por cento crente que esse é o principal fator: uma pessoa estar emocionalmente bem alimentada. Tem a ver com o equilíbrio amoroso. Eu encontrei a Cristina bastante tarde na minha vida. Felizmente não tive outros casamentos antes, e assim posso dizer que é para a vida.


Além de músico, é um melómano. Como fez para nunca perder essa paixão?

A música dá-me tanta vida! É como o Keith Richards diz: «somos um elemento numa cadeia». Fazemos a nossa parte na transmissão, às vezes mais no topo, outras vezes mais abaixo. É uma forma de vida e de carregar energias: ter visto o Iggy Pop duas vezes este ano, falar com o Jimmy Page em Londres... Faz-nos voar e, por outro, ter os pés no chão. Uma pessoa achar que é um deus é um desperdício de vida. Em Portugal, as pessoas perguntam: «têm noção que são a maior banda?». Mas porquê? Eu faço uma coisa de que gosto, para que é que hei de ter a noção que sou um gajo espetacular? Não sou, tenho os meus defeitos e os meus erros como toda a gente. As minhas necessidades, os meus desejos, as minhas angústias. Claro que sou um privilegiado por, num país como Portugal, ter chegado onde cheguei, numa carreira musical. E luto para continuar mais além. Quero chegar aos 40 anos de carreira com os Xutos. (risos) Depois, logo pensamos nos 45.


É considerado de forma quase unânime uma das pessoas mais amáveis da música em Portugal. Essa forma de estar é, também, gratidão pelo que foi recebendo?

Sempre fui educado nessa fórmula do dar e receber. Em cima do palco, então, essa maneira de estar é crucial. Recebemos muita energia e, quando não conseguimos dar, eu e os meus colegas ficamos um bocado pírulas. Aí aparecem os egocêntricos do «grande artista», ficamos com acumulação de energia que as pessoas te dão. Tocar para muita gente tem essa parte: é uma força muito forte, e a maneira mais fácil, mais natural e mais saudável de lidar com isso é dar e retribuir essa energia. Isso aplica-se no dia-a-dia. Se uma pessoa recebe, e eu realmente recebo muito carinho, muita admiração, muita proteção e muita força, especialmente em momentos mais difíceis, essas coisas têm de ser retribuídas.


Muitas bandas planeiam e anunciam os seus últimos concertos ou digressões. Com os Xutos, isso nunca esteve em cima da mesa?

Não. Quando isso surge, o Tim enxota logo [a ideia]. «Nem pensar, quando tiver de ser, é. Ninguém dá por nada e acabou». E acho que é assim que as coisas têm de ser encaradas. Naquele período de impasse em 1990, se nos temos reunido para falar e disséssemos «vamos acabar com isto?», se calhar tinha acabado, sendo mais tarde retomado ou não. Como não houve essa reunião... O destino às vezes conduz-nos. E eu confio muito nessa parte.

Entrevista originalmente publicada na BLITZ nº 123, de setembro de 2016