quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Arundhati Roy_novo livro





“Na hora mágica, depois de o Sol se pôr mas quando a luz ainda não se foi, exércitos de grandes morcegos, chamadas raposas-voadoras, desengancham-se das figueiras-de-bengala no velho cemitério e pairam sobre a cidade como fumo. Quando os morcegos saem, os corvos voltam para casa. Nem todo o barulho da sua chegada preenche o silêncio deixado pelos pardais desaparecidos pelos velhos abutres-de-dorso-branco, guardiões dos mortos há mais de cem milhões de anos, que foram dizimados. Os abutres morreram envenenados por diclofenaco. O diclofenado, ou aspirina-das-vacas, dado ao gado como relaxante muscular, para aliviar a dor e aumentar a produção de leite, atua – atuava – como um gás neurotóxico nos abutres-de-dorso-branco. Cada vaca ou búfalo leiteiro quimicamente relaxado que morria transformava-se em isco envenenado para os abutres. Enquanto os bovinos se tornavam melhores máquinas de lacticínios, enquanto a cidade consumia mais gelados, nogados, bolachas de manteiga de amendoim e pepitas de chocolate, e bebia mais batidos de leite e manga, os pescoços dos abutres vergavam-se como se eles estivessem demasiado cansados e não conseguissem pura e simplesmente ficar acordados. Barbas prateadas de saliva pingavam-lhes dos bicos e, um a um, tombavam dos seus ramos, mortos. Poucas pessoas repararam na morte dos velhos pássaros amistosos. Havia tanto mais a que aspirar.”

É assim que começa o novo livro da escritora de origem indiana Arundhati Roy, “O Ministério da Felicidade Suprema”. E um livro que começa assim é não só escrito por uma fabulosa autora, como vai a caminho de lhe dar o segundo Booker Prize, depois do primeiro que arrecadou em 1997 com “O Deus das Pequenas Coisas”.


Entrevista

Expresso





Arundhati Roy: “As castas são o motor da Índia moderna”



FOTOGRAFIAS SARAH LEE / EYEVINE

O mundo não pode ficar fora da literatura. Nem a literatura funcionar segundo as regras do mundo. Assim pensa a escritora e ativista indiana que ganhou um Booker com o primeiro livro e, 20 anos depois, está na lista de candidatos com o segundo



Luciana Leiderfarb

em Londres
Há pessoas cuja simples presença enche uma sala inteira. É o que acontece com Arundhati Roy. Ninguém o diria: pequena, delicada, com uma voz suave que por vezes se perde entre o ruído dos carros lá fora, tudo nela quer passar despercebido, tudo nela clama por não interromper o fluxo das coisas. Mas ela dirá, e dirá à sua maneira. E então a voz baixa revelará aquela surda obstinação. E as frases irão sair como dardos, como balas, sempre mantendo o tom, o sorriso e a doçura. Depois percebemos, começa a fazer sentido. Esta é a mulher que, em 1997, venceu o Man Booker Prize com “O Deus das Pequenas Coisas”, hoje traduzido para mais de 40 línguas. Que, na altura, foi elevada a ícone nacional. Que em escassos meses se desgraçou justamente por falar, por fazer ouvir a sua voz. Que não se assustou. Forjou oito ensaios políticos, viajou pelo subcontinente, dedicou-se a pensar o seu país. O ativismo trouxe-lhe dissabores, admite, mas também um espaço “público e ouvido” onde planta pontos de vista discordantes, situação pouco comum na Índia para uma mulher. Duas décadas passadas, “O Ministério da Felicidade Suprema” (Ed. ASA), acabado de sair, voltou a colocá-la na lista de candidatos ao Booker, ao lado de Ali Smith e Paul Auster.
Porém, aos 56 anos, Arundhati Roy já não está no mesmo lugar. Nem podia. Aprendeu — ou encontrou a forma certa de o dizer — que a única felicidade possível é aquela que se constrói sobre a infelicidade. Sobre o imenso cemitério que habitamos. Na tarde londrina em que a encontrámos, pediu desculpas por ‘misturar’ o mundo com a literatura, por trazer à conversa o solo onde ambos, qual árvores, assentam, a atmosfera que respiram: a de uma Índia moderna ainda regida por um ancestral sistema de castas que o mundo não discute, não questiona. Agora, neste instante, há indianos da casta mais baixa — dalits — a serem espancados e queimados na rua, enquanto os intelectuais de castas superiores apregoam a igualdade. Agora, neste instante. Desconhecíamos que, mês e meio depois, um dalit seria eleito Presidente. O segundo intocável na história a chegar ao cargo, que pouca importância tem no país. E mal sabíamos também que a conversa preparava o terreno para o inimaginável. Que nessa noite de 3 de junho, em Londres, uma carrinha iria atropelar 50 pessoas, matando dez. “Qual é a quantidade de sangue aceitável em boa literatura?”, perguntava ela no livro. Como sempre, a resposta estava aí, na realidade, à mão de semear.
Embora tenha escrito oito ensaios, demorou duas décadas a regressar 
à ficção. Qual foi a primeira ideia 
para este romance?
Um romance nunca é sobre uma única ideia. É um universo que vai evoluindo. Nos últimos 20 anos tenho escrito textos de não ficção, mas ao mesmo tempo houve dentro de mim uma compreensão das coisas além do ensaio político. A compreensão do humor, da poesia, da ironia... Ao viajar pela floresta onde a guerrilha estava a acontecer, ou por diversas zonas de Caxemira, senti que nem tudo o que via era objeto de relatórios sobre direitos humanos — quantas pessoas foram mortas, quantas sobreviveram —, mas que a história ia mais fundo do que isso.
Quis capturar esse lado?
Sim. A dada altura tornou-se óbvio que havia um tipo de universo ficcional — que para mim é o verdadeiro universo — a ser recolhido e conservado.
Mas como começou? A primeira imagem do livro é um lugar: um cemitério.
Penso que o centro nevrálgico do livro é aquela calçada onde um bebé aparece, e onde há pessoas de diferentes lugares a exprimir os seus protestos. Isto é o que me lembro de escrever primeiro. E, de facto, eu estava lá, numa noite em que um bebé foi encontrado e ninguém sabia o que fazer. Este episódio tem uma base real.
Todo o romance tem um pé 
na realidade. Como é que 20 anos 
a escrever ensaios políticos contribuíram para o fazer?
Contribuíram imenso. Para mim, escrever um romance é como construir uma enorme cidade, e a cidade tem lá tudo, a política incluída. Porém, se os meus ensaios políticos são discussões, o romance não o pode ser. Tem é de ser alimentado por elas. “O Deus das Pequenas Coisas” é sobre um microcosmos, um espaço íntimo. E eu queria experimentar algo diferente. Em geral, os romances foram reduzidos pelo mercado a um tipo de produto virado para o entretenimento. Talvez por essa razão tantas pessoas sintam que a ficção é irrelevante. Ora, para mim não é possível não lidar com o que se passa no mundo, isso não pode ficar fora da literatura.
Há uns anos afirmou que a ficção é como dançar, enquanto o ensaio é como marchar. Onde se situa este livro?
As duas intenções estão lá. A questão é onde e em que momento aqueles que marcham começam a dançar.
Também disse que a ficção nasce 
da alegria. Foi esse o estado de alma que a guiou?
O que é alegria? O que é felicidade? Com certeza que não são o que apregoam os cartões de parabéns. Sempre que fazemos alguma coisa para a qual contribui honestamente todo o nosso eu, a nossa sabedoria, a nossa experiência, as nossas piadas — quando podemos dar-nos ao luxo de concentrar tudo isso num só lugar, isso para mim é alegria.
E o que se passou consigo em 20 anos? Quem era então e quem é agora?
Não sei. Como podemos saber quem somos? Sou, talvez, a soma de toda a minha escrita. É onde está o meu eu mais verdadeiro. Porque, especialmente na ficção, costumo usar tudo: a pele, as unhas, os olhos, o cabelo. É como se escrevesse com o corpo todo.
Como lidou com as expectativas 
em torno deste romance?
Não me afetaram muito. Se tivesse parado para me preocupar com as expectativas teria escrito outro livro há muito tempo. Por outro lado, o que são as expectativas no meu país? O que são as expectativas das mulheres na Índia? Casar com um homem, ter muitos filhos... Uma vez que se começa a tentar preencher as expectativas, é o fim. Depois de escrever “O Deus das Pequenas Coisas”, esperava-se que eu fosse uma boa cidadã, uma nacionalista indiana modelo que apoiasse tudo o que na altura estava a acontecer. E eu fiz o contrário, e as pessoas — ou melhor, o establishment — ficaram muito zangadas e desiludidas.
Tornou-se uma espécie de desgraça nacional.
Sim. Por isso, se eu tivesse ligado ao que esperavam de mim, a minha vida teria tomado um rumo totalmente diferente.
Porque escolheu que Anjum, figura central do livro, fosse transexual?
E porque não? É apenas uma personagem. Ninguém me pergunta porque escolhi ter um agente dos serviços secretos, ou um militante de Caxemira, ou um dalit. São todos seres humanos. Temos de parar de olhar para as pessoas como freaks e de fazer perguntas sobre elas. É certo que todas as personagens têm uma fronteira: Anjum tem a fronteira do género, Tilo a da casta, Saddam Hussein a da tensão indomuçulmana, Musa a do nacionalismo, Garson Hobart a da pertença ao establishment. Teria sido fácil transformá-lo num idiota, mas preferi que fosse inteligente e pensante.

Ativisto. Nos 20 anos que separam os seus dois romances, Arundhati Roy escreveu oito ensaios. Juntou-se ao movimento social contra a construção de barragens, militou pela independência de Caxemira e contra a política nuclear do seu país, e tem sido das poucas vozes a denunciar o sistema de castas que a Índia moderna ainda pratica
Ativisto. Nos 20 anos que separam os seus dois romances, Arundhati Roy escreveu oito ensaios. Juntou-se ao movimento social contra a construção de barragens, militou pela independência de Caxemira e contra a política nuclear do seu país, e tem sido das poucas vozes a denunciar o sistema de castas que a Índia moderna ainda pratica
FOTOGRAFIAS SARAH LEE / EYEVINE

A dada altura, alguém diz a Anjum que Deus fez uma experiência com 
os transexuais: “Ele decidiu criar 
algo, uma criatura viva incapaz 
de felicidade.” O que é ser incapaz 
de felicidade?
Quem diz isto pensa que todos os demais são felizes. Na verdade, ninguém é totalmente feliz, todos temos conflitos com os quais estamos a lidar. Porém, Anjum tem um conflito primordial, que acontece dentro do seu próprio corpo. E, numa era em que olhamos para a sociedade pelo filtro dos direitos — legais, humanos, de género — temos de pensar se, ao dividir e ao categorizar as pessoas, estamos a dar liberdade ou a retirá-la. Ambas as coisas estão a acontecer. Podemos dizer que há três géneros, ou dois, ou 57, mas no fundo trata-se de um espectro no qual todos nos situamos algures.
Está a dizer que os direitos não são 
o mesmo que a justiça?
Os direitos são importantes mas não são a única forma de olhar para a liberdade. Nas sociedades tradicionais houve, por vezes, mais liberdade. Por exemplo, tradicionalmente a homossexualidade masculina não era uma coisa descabida. Depois transformou-se em algo fora da norma. A seguir concluiu-se que os homossexuais devem pelo menos ter direitos. E isto é complicado e interessante, porque os direitos não lhes restituem automaticamente a justiça.
Posto isto, a principal personagem do livro é a própria Índia?
Eu diria antes o subcontinente e os conflitos que criaram nele divisões insanáveis. Bangladesh, Paquistão, Caxemira, Índia, o nacionalismo hindu, o nacionalismo islâmico, as castas, tudo isto. Este é um livro sobre a atmosfera que se respira nestes lugares e em mais nenhum. E vou dizer-lhe uma coisa: acho incrível que haja tantos escritores, académicos e ativistas de esquerda a escreverem sobre a Índia sem mencionar o sistema de castas. Sendo as castas o motor que faz mover a Índia moderna. É como escrever sobre a África do Sul e esquecer o apartheid.
Num artigo intitulado “India’s Shame”, diz que as castas conseguiram escapar à censura, 
mais do que o apartheid, o sexismo 
ou o racismo. Porquê?
Primeiro, é mais complicado do que o racismo. E porque é mais complicado? Porque a divisão ou o conflito entre negros e brancos é visível, enquanto a divisão em castas não é assim tão fácil de detetar para quem não for indiano.
É algo subterrâneo?
Não é subterrâneo. Mas é invisível para um estrangeiro. E a razão reside também no facto de a própria esquerda liberal na Índia — mesmo os comunistas — ter sempre evitado abordar o assunto. Todos eles ficaram zangados com “O Deus das Pequenas Coisas” justamente por quebrar esse silêncio. Temos grandes intelectuais que nunca escreveram uma linha sobre castas, e isto apesar de vivermos numa sociedade onde existe toda uma comunidade de pessoas a quem se apelida de ‘intocáveis’. Mesmo hoje, num país com uma economia moderna, eles estão lá em baixo e são linchados, espancados até à morte, queimados na rua. Aconteceu na semana passada, em Deli. Está a acontecer agora, enquanto temos esta conversa. De que falam os nossos intelectuais? De igualdade, de identidade, de classes, não de castas. E falam porque podem, pois pertencem às castas mais altas. Mas outro grande motivo para este silêncio é o próprio Gandhi.
Tem criticado o maior herói nacional. Porquê?
Não o critiquei, na verdade citei-o. Nem sequer tentei interpretá-lo, apenas reproduzi as suas palavras, e não as que disse uma vez ou duas, mas as que repetiu de 1897 a 1948. Citei uma vida inteira a partir dos escritos do próprio Gandhi: o que disse sobre as castas, sobre as mulheres, sobre a raça, sobre o que fizeram em África. Ora, o que o mundo sabe sobre Gandhi é o que está no filme de Richard Attenborough. E todos — você e eu também — aprendemos que Gandhi foi à África do Sul, estava sentado no comboio, num compartimento só para brancos, foi posto dali para fora e assim se tornou ativista político. Isto é uma mentira. A primeira coisa que Gandhi fez na África do Sul foi bater-se por uma entrada especial nos correios de Durban. Disse: os indianos de castas altas não deveriam usar a mesma entrada dos negros. Quando esteve na prisão, não parava de pedir um cárcere separado para os indianos. “Os indianos não podem partilhar o mesmo cárcere com estes selvagens.” Quando criou a satyagraha [filosofia em que assenta o protesto não-violento na Índia], não foi para lutar pelos direitos dos pobres, mas pelos direitos dos comerciantes indianos de negociar no Transvaal, onde não tinham permissão de ir.
Portanto, Gandhi não se opunha 
ao sistema de castas.
Não, era justamente neste sistema que, para ele, residia o génio da civilização indiana. Ele era contra a prática da ‘intocabilidade’, no sentido em que todos devemos fazer aquilo que está definido para a nossa casta e ninguém deve ser considerado ‘impuro’. Os dalits limpam a merda, os vaixás são os mercadores e os brâmanes os sacerdotes, mas devemos pensar em todos como iguais. Gandhi nunca disse que todos têm direito à sua própria terra ou a auferir salários justos. E sem isso não há igualdade. Os seus debates com B. R. Ambedkar, o grande líder dalit, mostram exatamente qual foi a sua atitude.
Fez a introdução à edição crítica do livro de B. R. Ambedkar, “The Annihilation of Caste”. Concorda com ele?
Claro. É a posição que apoia a igualdade de oportunidades, os direitos, a redistribuição da riqueza baseada na “aniquilação da casta”. É um debate brilhante e Ambedkar nem sequer aparece no filme de Attenborough! Nem como uma personagem menor.
Ele disse que, para os intocáveis, 
o hinduísmo é uma verdadeira câmara de horrores.
Converteu-se ao budismo e incitou os intocáveis a fazer o mesmo, ou a converterem-se a qualquer outra religião que, pelo menos nas escrituras, apregoe a igualdade.
A Índia está preparada para mudar?
Neste momento, estamos a fazer o oposto, a recuar em termos dos direitos dos hindus. É uma situação muito séria, em que os dalits e os muçulmanos estão a ser linchados, espancados e ‘postos no seu lugar’. Na época do império, ainda antes da chegada dos britânicos, milhões de intocáveis converteram-se ao islamismo, ao cristianismo, ao sikhismo, para escapar à intocabilidade. E não houve grandes problemas, ninguém se importou, porque não havia uma democracia. Porém, quando no século XX se começou a falar de representação política, as pessoas começaram a ficar ansiosas com quantidades, com eleitorados, com percentagens. Com quantos hindus havia na Índia. O nacionalismo hindu ficou muito preocupado com a grande população de intocáveis. Queriam que se identificassem como hindus, mas não tratá-los como iguais. Houve uma grande campanha sobre como trazê-los de novo para o campo hindu — e Gandhi fez parte disto. E a pergunta foi sempre: como atrair os hindus mantendo o sistema de castas? Nunca se viu nisto qualquer discrepância.
Cresceu numa comunidade onde este sistema estava profundamente arreigado e lutou para sair dela. Como é sentir-se no sítio errado?
Como pessoa e como indiana, eu sou muito estranha. E escrevo a partir de um lugar estranho. A minha mãe era cristã, o meu pai era hindu e eles divorciaram-se. Desde cedo percebi que viver fora da casta é não ter comunidade — isso era claro quando as pessoas diziam: “Ninguém se vai casar com ela”, ou frases do género. Faz-nos começar a olhar para as coisas de uma forma muito básica. Porém, eu não provenho de uma família dalit pobre. Tive uma educação e hoje tenho a possibilidade de ver, de viajar, de expressar-me e de escrever. Muitos dalits não conseguem sequer aceder à educação.
O que é que a opção da sua mãe pelo divórcio representou para si? Como é que isso a moldou?
Afetou-me de uma forma muito séria. Boa e má. Não apenas pelo facto de ela se ter divorciado num país onde isso é visto como uma vergonha, ou por ter voltado a viver numa comunidade que a excluiu, mas também pelo tipo de pessoa que ela era. Houve muita violência mas também muitas dádivas da sua parte, e tudo isso fez-me ser quem hoje sou. E agora sou demasiado crescida para culpar quem quer que seja.
Qualificou-a de “incomum” 
e de “selvagem”. O que herdou 
da sua mãe?
Penso que talvez tenha herdado essa qualidade atípica. Mesmo que não me pareça muito com ela e que, nalguns aspetos, até sejamos o oposto. Ela fundou uma escola, geriu uma grande instituição, com imensas pessoas, sempre foi muito responsável, e eu sou uma pessoa completamente livre e sem compromissos. Provavelmente, ela ensinou-me a não apenas aceitar uma coisa, mas a perguntar porquê. A dizer não. A pensar desde o início, a questionar de onde vêm as práticas. Ainda hoje, se me disser para fazer uma coisa, não consigo: primeiro tenho de saber para quê e de onde vem.
Fez as pazes com o passado?
Não sei se posso dizer isso, mas certamente é um conflito que alimenta o meu trabalho.
Uma vez disse que, em criança, 
foi muito duro ter sido forçada 
a perceber o mundo dos adultos. Porquê?
Quando a minha mãe voltou para Kerala, nós éramos muito pequenos. Ela era uma doente asmática grave e divorciada, e as pessoas tratavam-na mal. Isso enfurecia-a e fazia virar-se contra nós. Dizia-nos coisas terríveis, e mesmo sendo muito novos, nós sabíamos ou intuíamos que ela agia assim porque estava a ser maltratada por alguém. Nós percebíamos, e isso era horrível.
A família pode ser um lugar violento.
Totalmente. Mas a minha situação era diferente da de milhões de meninas na Índia. Pelo menos, a minha mãe nunca fez discriminação entre mim e o meu irmão. Em 90% dos lares indianos as meninas até recebem menos comida. Ainda hoje existe o infanticídio feminino ou o aborto mal se sabe que o feto é uma menina.
Isso lembra uma frase do livro: “Nada aqui pertence às mulheres.”
Se olhar para o que acontece hoje na Índia, o que esta nova economia significa é que milhares de pessoas estão a perder as suas terras, a sua água, e a migrar para as cidades. E mesmo quando são dadas compensações por deixarem as vilas que ocupam há milhares de anos para aí construírem barragens, por exemplo, esse dinheiro é dado aos homens. Os homens gastam-no em dois meses, em álcool, em motos, e as mulheres ficam na estrada. Por vezes os homens suicidam-se — como fizeram 300 mil agricultores no espaço de 20 anos — e as mulheres são deixadas com as crianças numa vida que será de quase total indigência.
Disse que a Índia globalizada “foi construída nas costas dos pobres”. No romance, Anjum constrói a sua casa num cemitério, literalmente sobre os mortos. O que é este lugar?
Disse isso e continuo a dizê-lo. Mas hoje existe uma grande polémica na Índia sobre cemitérios. Por um lado, o cemitério é um costume muçulmano, uma vez que os hindus recorrem à cremação. Depois há a questão de Caxemira, que é um paraíso transformado num cemitério. Anjum constrói uma casa de hóspedes num cemitério [em Nova] Deli. O cemitério é um lugar para onde todas as minorias estão a ser forçadas a retirar. Na verdade, dado o estado de coisas no mundo, toda a raça humana está a viver num cemitério.
A região de Caxemira está fortemente presente no romance. Descreve-a como o local onde “podemos ser assassinados apenas por termos sobrevivido”.
Esta é a razão por que não se pode escrever um livro de não-ficção sobre Caxemira. Porque quando uma guerra com estas características dura há 20 anos, não basta apenas contar os factos. São duas décadas de ocupação militar, com uma extensa rede de informadores, de agentes duplos, de dinheiro a entrar dos dois lados da fronteira. A suspeita entre as pessoas é constante e venenosa — os rumores de que este ou aquele é informador somente porque ainda não foi morto.

Atípica. Filha de uma cristã e de um hindu, a escritora nasceu em Shillong mas passou a infância em Kerala, para onde a mãe regressou após o divórcio, sendo mal recebida pela família. Ali, Arundhati percebeu até que ponto, na Índia, “viver fora da casta é não ter comunidade”. Aos 16 anos fugiu para Nova Deli. Estudou arquitetura, viveu num bairro de lata, deu aulas de aeróbica. Casou-se com o cineasta Pradip Krishen, de quem agora está separada
Atípica. Filha de uma cristã e de um hindu, a escritora nasceu em Shillong mas passou a infância em Kerala, para onde a mãe regressou após o divórcio, sendo mal recebida pela família. Ali, Arundhati percebeu até que ponto, na Índia, “viver fora da casta é não ter comunidade”. Aos 16 anos fugiu para Nova Deli. Estudou arquitetura, viveu num bairro de lata, deu aulas de aeróbica. Casou-se com o cineasta Pradip Krishen, de quem agora está separada
FOTOGRAFIAS SARAH LEE / EYEVINE

“Se aquele sobreviveu, algo 
se passa.” É isto?
Sim. Esta é a natureza do horror: não saber se a pessoa com que falas hoje vai matar-te amanhã. Conheci pessoas que, sem o saberem, tinham o informador dentro da própria casa.
Depois de “O Deus das Pequenas Coisas” escreveu “The End of Imagination”, onde critica a política nuclear do seu país. E doou o Booker Prize a um movimento social. Foi o fim do seu conto de fadas enquanto ídolo nacional. Porque escolheu este caminho?
Quando ganhei o Booker, o meu rosto estava na capa de todas as revistas. Claro que houve pessoas que adoraram o livro, mas também houve quem apenas gostasse do prémio, do facto de ter sido atribuído à primeira mulher indiana. Tive a ligeira sensação de estar a ser promovida como um ícone internacional indiano e que isso tinha sobretudo que ver com o prémio. Até porque o livro fala de castas, toca em temas tabus, e isso não foi esquecido: cheguei a ser levada a tribunal por obscenidade. Depois, em 1998, subiu ao poder o grande partido da direita, BJP [Bharatya Janata Party], e foram feitos os testes nucleares. A natureza do discurso público na Índia mudou. Todo aquele ideário nacionalista e feroz veio ao de cima. E a partir desse momento não fui capaz de manter uma posição neutral. Se me calasse, estava do lado deles. Então escrevi “The End of Imagination” — e foi mesmo o fim.
O silêncio tem um significado político.
Sim, especialmente o meu silêncio naquela altura, em que todos os holofotes estavam apontados para mim.
Não teve a vida facilitada desde então, com processos judiciais uns a seguir aos outros — por obscenidade, por desacato...
Mesmo agora estou a ser novamente julgada por desacato, devido a um ensaio que escrevi há dois anos, intitulado “Professor, P.O.W.”. É sobre um professor, por acaso meu amigo, que está numa cadeira de rodas e tem um deficiência de 90%. Foi acusado de ser maoísta e atirado para a prisão. Destruíram-lhe a cadeira de rodas e andou a arrastar-se pelo chão da cela como um animal. Escrevi um artigo a pedir que saísse sob fiança, o que acabou por acontecer, mas então fui indiciada por desacato ao tribunal. E agora ele voltou para a prisão, sentenciado a prisão perpétua. Portanto, respondendo à sua pergunta, sim, tem sido difícil, mas é também estimulante em termos da construção de um espaço em que podemos ter um ponto de vista discordante, e que é público e ouvido.
Ao denunciar o massacre 
de Gujarat em 2002 ou ao defender a independência de Caxemira acusaram-na de trair o seu país. 
Não é uma contradição?
Claro que é. Mas este é o grande debate na Índia atual: nacionalismo versus antinacionalismo. O Supremo Tribunal decretou que, de cada vez que um filme é exibido no cinema, temos de ouvir o hino nacional e pôr-nos de pé. E quem não se levantar é espancado ali mesmo. Não pela polícia, atenção, mas pelo resto do público. Por aquele que se senta ao teu lado. Num festival de cinema, onde são vistos 20 filmes por dia, foi pedido para passar por cima desta norma. E o tribunal disse que não. Se alguém numa vila qualquer denunciar que a indústria mineira está a roubar-lhe a terra, vai para a cadeia por ser contra o desenvolvimento nacional. Por isso, neste momento, há milhares de pessoas na prisão.
Quando defendeu que Caxemira “nunca foi uma parte da Índia”, teve pessoas a atirar-lhe pedras à porta de casa. Como ativista, e sobretudo como mulher, sentiu-se em perigo?
A última vez que lancei um livro de ensaios na Índia, veio um gangue e partiu tudo, a gritar: “Ela é uma traidora.” O homem que liderou este ‘incidente’ pertence ao partido no poder. Mas esqueça o meu problema, as pessoas estão a ser assassinadas nas estradas, nas ruas. Há tanta gente a passar pelo mesmo ou pior, que é até embaraçoso contar o que se passou comigo. Não quero armar-me em mártir.
Mas sente-se em perigo?
Sim, mas é mesmo assim, não há outra maneira. Há uma semana, alguém pôs a circular online uma notícia falsa, a dizer que eu estava em Caxemira e que tinha declarado que o exército indiano nunca irá derrotar o povo caxemirense. Eu não vou a Caxemira há muito tempo, portanto era tudo falso. Mas veio em todos os jornais e websites de direita. Um ator de Bollywood, que é também membro do Parlamento, escreveu um tweet a dizer: “Amarremos esta mulher a um tanque e usemo-la como escudo humano.” E milhares de pessoas responderam que sim, é isso mesmo, façamos isso. Houve também muita gente que assumiu a minha defesa. Mas tive as câmaras de televisão à minha porta a pedir-me comentários, a mostrar a minha imagem nos noticiários, a nutrir-se da polémica. O que se faz numa situação assim?
O que se faz?
Fica-se quieto, à espera que tudo passe. Porque se falares sobre o assunto, se deres a cara, tudo volta a começar. É um pouco como no livro, quando uma das personagens pergunta: “O que é que eles fazem quando apanham as mulheres?” Ora, quando eles apanham as mulheres não as matam apenas, mutilam-nas também. Portanto, qualquer mulher na Índia que diz alguma coisa contra a ordem estabelecida sofre de imediato as consequências, sejam elas a violação, a morte ou a difamação na internet. O poder tornou-se muito consciente da influência da internet e paga para que as reações se multipliquem. Assim, no minuto em que as coisas acontecem, dezenas de milhares de pessoas gostam, desgostam, partilham ou fazem comentários intimidatórios.
Disse uma vez sobre si própria: 
“A coisa menos indiana em mim 
é quão sozinha me encontro.” 
Quer comentar?
Todos fazem parte de uma comunidade ou de uma família. Eu não. Não sou solitária, mas estou sozinha, como as personagens do meu livro. Na Índia, existem mulheres terrivelmente oprimidas, existe o infanticídio feminino, mas também existem as mulheres mais livres que se possa imaginar. Eu não sou com certeza uma mulher tradicional. E conheço muitas como eu, que vivem nos seus próprios termos, que não quiseram ter filhos ou que não quiseram casar-se para os ter.
Porque ficou na Índia?
Porque sou uma árvore. Não posso ser transplantada. As minhas raízes são profundas e eu pertenço ao meu país. Sentiria saudades das outras árvores se me fosse embora. Faço parte daquele clima, daquele solo, e não sei porque haveria de o deixar. Eles que o deixem. Eles que se vão embora.
Que mudanças vê no seu país? Esse “amanhã” com que “O Deus das Pequenas Coisas” termina aconteceu?
Houve grandes mudanças, a maioria muito perturbadora. Este novo mundo com 24 horas por dia de televisão e internet mudou muito o mundo das mulheres. Elas estão a ver novas possibilidades, mas pagam um preço por isso. Se por um lado estão as jovens urbanas, com mais oportunidades e mais liberdade, por outro há um enorme grupo de mulheres que foram deslocadas pelos grandes projetos nacionais, que perderam as suas vilas e que enfrentam a violência, a fome e a pobreza. A devastação do ambiente na Índia é sobretudo violenta para as mulheres, que andam quilómetros para obter água, que têm de mudar-se para sítios que desconhecem e que são previsivelmente hostis. A violência contra elas aumentou imenso, em proporção direta com a raiva e a insegurança dos homens.
A questão é sempre a mesma: 
que felicidade pode construir-se 
na infelicidade?
“O Deus das Pequenas Coisas” falava sobre uma família com o coração despedaçado. Mas este livro é sobre aqueles que foram postos fora do sistema. Há duas coisas que quero dizer: primeiro, que há pessoas no Ocidente a falarem dos meus livros como manifestações de ‘realismo mágico’, mas eu não sei o que isso significa; segundo, que este não é um livro sobre os que foram abandonados, mas sobre os que foram empurrados para fora, excluídos. E que conseguiram juntar-se, como peças perdidas de um puzzle, num certo lugar de relativa felicidade. Há felicidade nos lugares mais estranhos e inesperados. E, por mais frágil que seja, tem a sua integridade.
No final do livro, vemos Anjum 
e a pequena Jabeen a caminhar 
à noite, na rua. A criança faz xixi e, depois, vê “as estrelas e a cidade com mil anos refletidas na poça” que 
acabou de se formar. A felicidade pode ser isso?
A primeira aparição desta criança no livro abre um capítulo que se intitula ‘Natividade’. Porque ela é o oposto do que nos ensinaram ser o ‘salvador’ — o grandioso salvador branco. É uma pequena bebé negra, filha de uma violência atroz, criada por um conjunto de pessoas perdidas e quebradas que se juntam como uma manada de elefantes em seu redor para a proteger. Penso que temos de redefinir ou mudar a receita de felicidade que nos têm tentado impingir. Repensar o que há de verdadeiro quando nos dizem “isto é progresso”, “isto é civilização”, “isto é felicidade” ou “isto é família” — e isso requer muita, muita coragem.
O Expresso viajou a convite da ASA/LeYa



n: jornal "Expresso"


sexta-feira, 28 de julho de 2017

Rui Knopfli_"naturalidade"


NATURALIDADE 

Europeu, me dizem.
Eivam-me de literatura e doutrina
européias
e europeu me chamam.
Não sei se o que escrevo tem raiz de algum
pensamento europeu.
E provável... Não. E certo,
mas africano sou.
Pulsa-me o coração ao ritmo dolente
desta luz e deste quebranto.
Trago no sangue uma amplidão
de coordenadas geográficas e mar Indico.
Rosas não me dizem nada,
caso-me mais à agrura das micaias
e ao silêncio longo e roxo das tardes
com gritos de aves estranhas.
Chamais-me europeu? Pronto, calo-me.
Mas dentro de mim há savanas de aridez
e planuras sem fim
com longos rios langues e sinuosos,
uma fita de fumo vertical,
um negro e uma viola estalando.


Velho Colono

Sentado no banco cinzento
entre as alamedas sombreadas do parque.
Ali sentado só, àquela hora da tardinha,
ele e o tempo. O passado certamente,
que o futuro causa arrepios de inquietação.
Pois se tem o ar de ser já tão curto,
o futuro. Sós, ele e o passado,
os dois ali sentados no banco de cimento.
Há pássaros chilreando no arvoredo,
certamente. E, nas sombras mais densas
e frescas, namorados que se beijam
e se acariciam febrilmente. E crianças
rolando na relva e rindo tontamente.
Em redor há todo o mundo e a vida.
Ali está ele, ele e o passado,
sentados os dois no banco de frio cimento.
Ele a sombra e a névoa do olhar.
Ele, a bronquite e o latejar cansado
das artérias. Em volta os beijos húmidos,
as frescas gargalhadas, tintas de Outono
próximo na folhagem e o tempo.
O tempo que cada qual, a seu modo,
vai aproveitando.
 
..... 
"Rui Knopfli. Há uma cadeira vazia à mesa do poeta
DIOGO VAZ PINTO28/07/2017 13:53

Duas décadas depois do desaparecimento de Knopfli, uma pequenísima editora de Coimbra traz de volta do exílio e da morte um poeta desta língua que Moçambique não quis e Portugal não soube merecer



Habitante das escassas memórias ou testemunhos daqueles que com ele conviveram, do retrato tremido que nos chega de Rui Knopfli percebe-se essa “figura prematuramente frágil”, onde a ira se apaziguou  pelo desgaste. É difícil dizer exactamente onde, mas o mesmo banco de pedra que um dia ergueu nos versos, ainda lá está, sujeito à vaga inclinação das lembranças. E nele o poeta, “pendurado num eterno cigarro”, fazendo do castigo um gosto, ainda que lhe pese a própria voz. E se o acento lírico não cedeu  à ferrugem, em consequência da sua “linguagem castigada com desvelo de amante”, transparece dolorosamente “uma mágoa de naufrágios, e derrotas cruéis, que impõem o exílio do espaço habitado e bem amado”.

Nascido em plena savana de Moçambique, Rui Knopfli viveu a oclusão do período colonial, e acabaria “colhido na engrenagem da contradição histórica”, mesmo se assumiu desde sempre uma postura muito crítica face aos desmandos da administração colonial. Nada disso impediu que viesse a sentir-se escorraçado do seu país – já em 1959, o seu primeiro livro, “O País dos Outros”, recortava esse sentimento –, em 1975: “Quando a FRELIMO tomou conta do poder, o inimigo era o português, estou convencido disso. Claro que havia um certo racismo, aliás compreensível mas, mesmo aí, os brancos eram identificados com os portugueses”, disse o poeta numa entrevista à revista “Ler”, um ano antes de morrer.

Knopfli perfila-se assim na galeria dos poetas que nenhum território sente a obrigação ou o orgulho de reivindicar. Mas essa é uma desafeição sentida de parte a parte, uma vez que ele próprio nunca sentiu grandemente o apelo de uma pátria. “Eu nunca reivindiquei a nacionalidade moçambicana, só reivindiquei um facto, que ainda hoje reivindico, de ser africano”, registou num testemunho no volume “Vozes Moçambicanas”, organizado por Patrick Chabal (Vega, 1994). De resto, e em linha com o que Pessoa viera afirmar, num dos seus versos também foi avisando: “pátria é só a língua em que me digo”.

Este poeta cuja apresentação a Portugal só veio tardiamente – sendo que, depois da independência das colónias, culturalmente o país não soube evitar uns amuos de dondoca ofendida, rejeitando até o que ainda era seu, ou lhe dizia respeito –, teve de admirar-se muito, em 1982, quando a Imprensa Nacional-Casa da Moeda (INCM) recolheu a sua obra em “Memória Consentida”. Este foi um dos mais primorosos volumes de poesia portuguesa da segunda metade do século XX, e o poeta veria distinguido com o prémio de Poesia Pen Clube, “O Corpo de Atenas”, em 1984. Antes, portanto, de esta instituição ser tomada por uma pandilha que não faz outra coisa senão utilizá-la para insinuar-se lá fora, indo os próprios em viagem a tudo o que é festival para fazer o país representado pelos seus versinhos, que nem para lixo dos que cá dentro vão dando continuidade ao diálogo milenário desta língua.

Além do eco que sempre recobra forças nesta obra, tão prenhe das vozes que, solitária e arrastadamente se respondem entre épocas e neste balanço do fulgor à ruína, enquanto perseguem o alvo em movimento que as “coloca no trilho seguro e exigente da autodescoberta”, Knopfli ganhou com aquela edição um estudo que, sendo breve, é um dos grandes actos de justiça feito por um poeta tão desirmanado na experiência e cultura de uma época, na difusa rede da sensibilidade e consciência que uma língua tece.

Luís de Sousa Rebelo, ensaísta que dirigiu uma cátedra no King’s College – tendo ali trabalhado ao longo de quase quatro décadas, antes de vir morrer, em 2010, a este cemitério de elefantes em que Lisboa se tornou, pela ignorância em relação às figuras que podiam ter coroado uma elite por haver –, assina um prefácio que só precisa de ser lido para deixar-nos absolutamente convencidos da tão peculiar grandeza de Knopfli: “O seu lirismo antilírico, a sua ironia comovida, o seu sarcasmo – bem menos iconoclasta do que, à primeira vista, poderá parecer – aparentam-no, umas vezes, com João Cabral de Melo Neto ou Carlos Drummond de Andrade. Outras vezes, no apuro torturado da forma, Knopfli lembra essoutro maneirista, Gerard Manley Hopkins (1844-1889), o que o não faz menos poeta do seu tempo do que este o foi do dele, e é e continuará ainda a ser do nosso. A poesia de Rui Knopfli é uma poesia dramática, de alusão maliciosa e de ritmos subtis, sinuosa e sedutora na sondagem dos fundões da psique, e deve ser lida sem prevenções de leituras anteriores (...)”.

Agora, 35 anos após aquela edição, coube a uma editora de Coimbra – um desses tão discretos como decentes projectos que, fora de Lisboa, têm sido o sal da terra depois dos consórcios editoriais terem varrido a autonomia e diversidadas espécies no campo das letras – fazer-nos recordar Rui Knopfli, trazê-lo de volta e ao seu ofício de mil cerimónias com a linguagem e nenhumas com a vida: “eu trabalho, dura e dificilmente,/ a madeira rija dos meus versos,/ sílaba a sílaba, palavra a palavra”.

Do lado esquerdo, a editora de Maria Sousa e Nuno Abrantes, publicou já uma série de originais de poetas portugueses, e, ao mesmo tempo, levaa a língua muito além do bilhar grande, com traduções de autores de outras línguas – Pablo García Casado, Hal Sirowitz, Jesús Jiménez Domínguez entre outros – que, sem dificuldades, chegam à nossa e envergonham as associações de bairro e os clubes recreativos em que se divide hoje o mapa da nossa poesia, mostrando-lhes que para “melhores do mundo” ainda lhes falta terem mundo. Ainda assim, tem sido votada ao geral desinteresse (no que também nos penitenciamos) e ao silêncio a que se condena tudo o que se faz do outro lado da cerca, numa estratégia que, ao invés de procurar alargar a caderneta cultural e incitar as trocas, se vale do sufoco para fazer passar por ícones aqueles cromos mais repetidos. A este respeito, será curioso comparar as atenções que serão dadas a uma antologia de Knopfli que, logo depois desta, começou a ser elaborada para sair na colecção de poesia dirigida por Pedro Mexia para a Tinta-da-China.

“Uso Particular” é uma selecção pessoal dos editores da do lado esquerdo que, feita a partir da edição da INCM, e que, sem se ater muito a critérios de representatividade, é extensa o bastante para nos dar uma visão da globalidade da obra poética de Knopfli. A pecha da edição é o seu lado material, o objecto. Os livros desta editora denunciam excessivamente a sua modesta condição, e é a própria imagem da capa – uma fotografia de João Francisco Vilhena que, reproduzida em melhores condições, revela uma poderosíssima carga evocativa, mostrando “as mãos aracnídeas” do poeta segurando um caderno manuscrito – que vê esbaterem-se excelentes intenções. A fazer as vezes de prefácio, o depoimento de António Cabrita não chega de apresentação para quem não conheça já Knopfli, mas dá um lamiré que cumpre a função, se a ideia era somente lançar umas coordenadas e abrir o apetite.

Quanto ao resto, e superando os aspectos gráficos, a selecção revela uma pontaria danada, dá a sensação de que não lhe escapou nenhum dos poemas que figurariam na nossa lista, fazendo um rapto feroz de uma obra que, já de si, soube esperar e esperar pelos versos, e, por isso, não fez lixo. (“Como fazer versos?/ Sentar/ numa cadeira à secretária,/ papel à frente, caneta em punho./ Esperar. Esperar em vão. Esperar./ Esperar mais ainda. Esperar sempre./ Se é fumador, fumar então/ antes, depois ou no decurso./ Se não, continuar a esperar./ Se ao fim de um certo tempo/ o dito tempo exceder o tempo/ que se achou ser justo esperar,/ desistir.”) 

“Poeta êxul em terras africanas, onde bebe os ares da cultura europeia e sonha esse Norte longínquo, enquanto escreve uma poesia sem os exotismos gratos ao gosto do leitor metropolitano, ele começa um novo exílio no dia em que vagueia pelas ruas das grandes cidades cosmopolitas, ao ar frio desse abril em que se ‘engendram flores’”, refere Sousa Rebelo no prefácio de “Memória Consentida”. Esta poesia, que se demarcou dos “discursos poéticos vigentes na língua portuguesa”, não estava por outro lado alheada dos sinais de fumo que eram trocados, não entre grupos e grandes movimentações, mas entre os que desenham as fugas ao pelotão, e encontrou, assim, na tradição anglo-americana e, particularmente, na poesia e nos ensaios de T.S.Eliot, um correlegionário tão mais instigante quanto radical face aos entusiasmos que Lisboa, então, ainda ia decalcando de Paris. Note-se que, se pôde falar-se de um certo ânimo cosmopolita gozado em Lourenço Marques, isto deveu-se à proximidade das colónias anglófonas, e em especial da África do Sul.

Hoje, é natural que Rui Knopfli surja como um poeta tão original no quadro da poesia portuguesa, pelo modo como a sua poesia não ficou à espera que certas noções que capturaram e deram caminho à sua intuição se tornassem assunto nos cafés onde a tristeza provinciana portuguesa ia pôr-se em dia. Se a “vaga e subliminal resistência” à sua obra nunca foi inteiramente vencida, pode ser este um momento propício, não só pela dispersão de influências que têm alargado o horizonte dos novos poetas portugueses (que como se sabe estão em maior número entre os leitores de poesia), como pelo afrouxamento da guarda pretoriana que, até há uns anos, dominava a crítica. Esta, além de recomendar a dieta literária, obrigava os poetas que quisessem o nome no jornal a formar na linha, batendo a continência, ou beijando a mão, o pé, quando não outras coisas. Ninguém fala disso, mas muitos ouviram as histórias de um distinguido crítico e professor universitário que, aqui há não muitos anos, não poucas vezes prometia fazer deste ou daquele efebo o Rimbaud da sua geração se... pois. 

Na sua “subjectividade lúcida e autovigiada”, Knopfli não foi só um poeta desinteressado das questiúnculas que fazem a intriga nas pequenas messes da literatice. Os que com ele conviveram recordam que aparecia sempre com um livro novo, algum autor recém-descoberto, era também um magnífico fotógrafo, um apaixonado do jazz, e o seu empolgamento era infeccioso, de tal modo que Eugénio Lisboa, o seu grande cúmplice na dinamização da cultura de Lourenço Marques, reconhece o quanto ele e outros lhe ficaram a dever essa e outras iniciações.

No capítulo das lembranças, onde hoje podemos recolher as impressões necessárias para pôr a carne sobre os ossos que os versos nos dão, vale a pena abrir aqui espaço ao retrato que Eugénio Lisboa deixa de Knopfli no terceiro volume das suas Memórias, “Act Est Fabula” (Opera Omnia, 2013), referentes ao período entre 1955 e 1976. “Foi nessa altura que afinei contactos com os amigos do ‘Kremlin’ (‘Café Nicola’). Um deles, foi o Rui Knopfli, que aparecia com ar de pássaro predador, boné nada proletário e palavra afiada e maldosa. Adorava dizer coisas que ofendiam a ortodoxia do ‘Kremlin’, mas tudo lhe era perdoado. Gostava de praticar um humor ultrajante, com uma espécie de grosseria de grand seigneur. Se alguém elogiava muito as qualidades de carácter e de trabalho de um bomzo qualquer, o Knopfli interrompia, brutal: ‘Toma pouco banho!’ Se alguém embasbacava, liricamente, para os filmes de Chaplin, o Knopfli cortava, rente: ‘Prefiro, de longe, o Bucha e Estica.’ Adorava ferroar os neo-realistas, sobretudo em dias de missa de esquerda bem pensante. O cúmulo do gozo era, para si, destoar.”

Vale a pena, ainda, citar mais uma passagem, em que um desses episódios servem de testemunho simples e onde o fantasma mostra a raça que o faz perambular distintamente daqueles que se esbatem no fundo das memórias que se compõem sem esforço: “Para os esquerdistas burros, e bem-intencionados, o Knopfli afectava uma indomável intolerância. Um dia, estávamos sentados no Nicola, em conversa desataviada, aparece, pesadote e opaco, o notário Camilo Sequeira. Era um oposicionista inofensivo, e quase inocente, e um implacável purista da língua. Chato como a potassa. O Knopfli não tinha paciência. Quando o Camilo fez menção de se sentar, junto a nós, o Rui avisou: ‘Ó Camilo, se V. se senta, vou-me eu embora...’ O Camilo sorriu, com ternura: ‘Este Rui é um brincalhão...’ Sentou-se e o Knopfli levantou-se, de rompante, e, muito sério: ‘Eu avisei. Adeus, meus senhores!’ E largou a grande velocidade, desaparecendo porta fora.”

Também na sua poesia Sousa Rebelo sinaliza “uma estratégia da desfiguração do discurso instituído”, e é fácil dar com o homem nas coisas que diz de si, nos lugares a que ainda regressa, onde ainda encontra os outros e convive com a mesma impaciência, um desejo de que a vida furasse o tédio, mesmo com o risco de cair tantas vezes do lado da amargura, da fatal tristeza que, mesmo se não tem razão, aparece como esses “restos de inverno mordendo o ar primaveril”. 

Eis um “Fim de tarde no cáfe: Na tarde cor de azebre/ falávamos de coisas amargas./ Ali, na mesa triste do café/ com moscas adejando/ sobre restos de açúcar/ e um copo de água/ morna de esquecida,/ falávamos da amargura das coisas,/ entre rostos graníticos e enxovalhados,/ entre estranhos e estranhos/ de estranhos e com os que,/ nada tendo de estranhos,/ cuidam de cuidar/ o que se passa entre estranhos./ Na tarde comprida e silenciosa/ tecíamos gestos inúteis/ e palavras entre dentes,/ mergulhados na paisagem geométrica/ do café. Do café tão cheio de gente/ e fumo e moscas e caras tristes/ e afinal tão profundamente,/ tão desesperadamente     vazio.”

Esta é uma poesia que não tem da vida uma grande opinião, o que lhe dá para servir a angústia na pele de poderosos exercícios de sarcasmo, aliviado pela ironia. Knopfli, como recordou o diplomata Francisco Seixas da Costa, que com ele se cruzou, em 1990, quando o poeta cumpria os anos do exílio “eternizado em posto em Londres”, recorda um tipo que, aos 58 anos, estava no fio: “Vergado e cansado, pendurado num eterno cigarro, tinha o mais caótico gabinete de que tenho memória. Homem de vícios que o foram debilitando, mantinha uma ironia cáustica e, sendo de trato fácil, era de condução diária difícil, pelos corredores da rotina diplomática a que nunca se acomodara verdadeiramente.”

De resto, essa fraca opinião que a vida lhe merecia já antes levara o poeta a declarar que padecia de uma certa “Mania do Suicídio: Às vezes tenho desejos/ de me aproximar serenamente/ da linha dos eléctricos/ e me estender sobre o asfalto/ com a garganta pousada no carril polido./ Estamos cansados/ e inquietam-nos trinta e um/problemas desencontrados./ Não tenho coragem de pedir emprestados/ os duzentos escudos/ e suportar o peso de todas as outras cangas./ Também não quero morrer/ definitivamente./ Só queria estar morto até que isto tudo/ passasse./ Morrer periodicamente./ Acabarei por pedir os duzentos escudos/ e suportar todas as cangas./ De resto, na minha terra/ não há eléctricos.”

“Uso Particular” é uma excelente senha para que nos tentemos sentar àquela mesa, incorrendo no risco de o poeta se levantar e desaparecer ou, inversamente, de ficar ali, e se dar a entender. E é aqui que a poesia de Knopfli tem algo mais para nos oferecer do que as energias do sublime a lançar os dardos, a tentar prender alguma borboleta a qualquer que seja o alvo. Há uma respiração que consome o ar inteiro, um não ter lugar nenhum onde ir, nenhuma outra pá para escavar uma saída do exausto quotidiano senão o convívio. Essas palavras trocadas sobre uma mesa, e que têm uma experiência e um peso, o de um poeta que disse que todos os seus poemas eram, afinal, poemas de amor. As suas palavras não são ditas por acaso, existem dentro de um pacto e, como notou Sousa Rebelo, “dessa cinza diluída, vão emergir com geométrica nitidez os traços de um rosto, de uma mão ou de um ombro”. E mais à frente, sublinha como estes poemas se organizam “numa recuperação de cariz alquímico, que restitui o gesto ao acto, o movimento à forma e o amor à vida”."
in: jornal i

domingo, 23 de julho de 2017

A Voz da Dor





"O silêncio do fogo na voz da dor...

Carta de uma mãe que perdeu o filho em Pedrógão Grande.

Daniel Rocha
Foto
DANIEL ROCHA











Estamos tão cansados, mas não podemos estar. Os mortos não se calam e não nos deixam cansar. Gritam por Justiça! Exigem Mudança!
A Associação das Vítimas do Incêndio de Pedrógão Grande, o grande, brutal e devastador incêndio que lavrou do dia 17 a 24 de Junho de 2017, nos concelhos de Pedrógão Grande, Figueiró dos Vinhos e Castanheira de Pêra, é um movimento cívico que partiu dos familiares e amigos das vítimas mortais desta tragédia. Uma associação cujo mote é apurar responsabilidades e ajudar a construir um futuro em que tal tragédia e crueldade não volte a acontecer!
Esta é a descrição do que pretendemos ser, com a ajuda de todos e a lembrança de todos aqueles que partiram. Porque hoje somos uma comunidade traumatizada. Uma comunidade sujeita a uma tal brutalidade que não se nos apaga da memória... O cheiro a terra ardida é algo que nos envolve, que nos macilenta e que se entranhou em cada um de nós.
A perda de dezenas de vidas e de forma tão trágica que roça a loucura deixou uma sociedade e todo o seu contexto à volta num luto imposto. A vida acabou ali, naquela estrada para muitas pessoas. Inocentes. E acabou também parte de uma vida para os que ficaram. Os que ficámos, ficámos mais pobres, mais sós, apenas com o alento das memórias, mas com a revolta de toda esta situação. São filhos sem pais. São pais sem filhos... são casas sem gente, é gente sem gente, não é natural!
Olho à volta e as pessoas não se riem, choram sozinhas, acanhadas, não se olham nos olhos, com vergonha pela sua impotência, com medo; o cenário é deprimente e não nos ajuda a superar com dignidade a tragédia. O Inverno não tarda e com ele as ruas despidas de vida. Despidas de ainda mais vida.
Há rancor, ressentimento com o território e com as entidades públicas. O Estado falhou. A Nação não existiu.
Mas não falhou apenas nesta tragédia. O Estado vem falhando ao longo de décadas. O Estado padece de uma cegueira crónica, está enfermo de um tal sentimento de negação de si próprio. Nega o seu estado de país rural, um país orgulhosamente rural e por isso mesmo rico.
Enquanto Estado é um conceito frio, masculinizado, distante, de um ente que impõe tributos e leis aos seus súbditos, um amontoado de entidades supostamente hierarquizadas, com dirigentes supostamente competentes, e que supostamente deveriam cumprir e fazer cumprir um conjunto de leis e regras que se vão aprovando (ou não!) conforme as vontades políticas da estação. Assim se vai governando Portugal. Sem pactos de regime e visão a longo prazo. Vão-se puxando o tapete uns aos outros, não se apercebendo que, por fim, só restam cacos, dor e tristeza para governar.
Nação, por sua vez, é um conceito acolhedor, integrador, feminino, belo, quase maternal, que agrega o seu Povo e o seu Território. É o que dá sentido à reunião das pessoas num determinado território a que chamamos “a nossa terrinha”, “o nosso cantinho a beira-mar plantado”, a proa desta “jangada de pedra”. Portugal.
O Estado falhou nesta tragédia levando consigo o sentimento de pertença de Nação que tínhamos. O Estado não protegeu a sua Nação. Não assegurou o seu Território e com ele o seu Povo...
Fomos vítimas desta ausência insuportável de Estado. Ontem e hoje. Mas não amanhã. Porque já chega de incêndios que ceifam vidas. Incêndios como os de 2003, 2005 e Junho de 2017, e que contabilizam, até a data, 100 vítimas mortais em solo português, não podem voltar a acontecer. É hora de todos dizermos “Basta!”. Este Estado que não quer ver secou uma parte importante da sua Nação, aquela que moveu este país por séculos, o Interior.
A primeira muralha e frente de defesa do País no passado contra as invasões estrangeiras, o celeiro do País em tempo de vacas magras, o emissor de soldados nas guerras ultramarinas, o mercado de mão-de-obra barata em tempos de construção europeia... Quando o Interior e os seus recursos já não eram precisos, substituídos pela oferta de bens e serviços mais baratos, o Povo e o Território do Interior foram abandonados À sua sorte. Emigrem! E assim o fizeram, abandonados à sua sorte.
Não houve solidariedade em tempos de vacas gordas, não houve estratégia para o Território quando os dinheiros dos Fundos Estruturais Europeus chegavam a rodos. Foram anos de esquecimento, de esvaziamento progressivo e consistente das instituições regionais e locais, depois seguiram-se as empresas e, por fim, as pessoas. Sobreviver é preciso.
Foram sucessivas décadas de descaso com o Interior, de negligência com o Território, com a Floresta e a Agricultura. Tendo como consequência a emigração das pessoas em idade ativa, restando uma população envelhecida e empobrecida a exigir cuidados redobrados do pouco Estado que restou e que nos foi esventrado e sobretudo das autarquias locais e misericórdias.
Parecia propositado... o Interior tornou-se terra de ninguém, envergonhado de o ser, abandonado e, assim, por fim, vergado.
Deveríamos dar graças por nos termos tornado a maior região eucaliptizada da Europa... Fomos “agraciados” pela falta de oportunidade! O Território estava a saldos e ninguém quis saber.
O Interior tornou-se um canteiro de ervas daninhas, sem jardineiros — as suas gentes. Um barril de pólvora em que se soma a indústria do fogo institucionalizada e um qualquer ano eleitoral. Os ingredientes ideais para a tempestade perfeita.
A tragédia de 17 a 24 de junho de 2017 estava mais que anunciada. Foi apenas uma questão de tempo... e o tempo não pára! E com ele foram muitas vidas abreviadas. Cedo demais... Cedo demais!
Por ti, meu filho...
Nádia Piazza, mãe de uma criança de cinco anos que morreu a 17 de Junho de 2017 em Pedrógão Grande"