quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Ana Moura *Desfado #08* A Fadista



Letra de Manuela de Freitas

A Fadista
Ana Moura

Vestido negro cingido
Cabelo negro comprido
E negro xaile bordado
Subindo à noite a Avenida
Quem passa julga-a perdida
Mulher de vício e pecado
E vai sendo confundida
Insultada e perseguida
P'lo convite costumado

Entra no café cantante
Seguida em tom provocante
P'los que querem comprá-la
Uma guitarra a trinar
Uma sombra devagar
Avança para o meio da sala
Ela começa a cantar
E os que a queriam comprar
Sentam-se à mesa a olhá-la

Canto antigo e tão profundo
Que vindo do fim do mundo
É prece, pranto ou pregão
E todos os que a ouviam
À luz das velas pareciam
Devotos em oração
E os que há pouco a ofendiam
De olhos fechado ouviam
Como a pedir-lhe perdão

Vestido negro cingido
Cabelo negro comprido
E negro xaile traçado
Cantando pra aquela mesa
Ela dá-lhes a certeza
De já lhes ter perdoado
E em frente dela na mesa
Como em prece a uma deusa
Em silêncio ouve-se o fado

sábado, 3 de janeiro de 2015

Mãe, os Meninos Andam Distraídos _Maria do Rosário Pedreira


Mãe, os Meninos Andam Distraídos

Mãe, os meninos andam distraídos junto
ao rio e tu não queres saber de os perder.
Sentaste-te a pensar nesse homem que
apareceu e a desfolhar os malmequeres
da tua bata nova — e não viste que te
largaram a mão nem para onde fugiram
com a pressa do vento. Mãe, os meninos

saíram da tua beira para a beira do rio
e tu não queres saber de os chamar. Eles
estendem agora os braços pequeninos
para o sol que brilha sobre as águas
como um punhado de moedas que nunca

hão-de ter — mas tu hoje só conheces
um nome nos teus lábios e nem sequer te
lembras que esse nome não é o que puseste
a nenhum deles. Mãe, os meninos

são tão pequenos e já vão tão longe que
a luz pode cegá-los para sempre. Andam
perdidos no rio há tanto tempo que será
tarde de mais quando gritarem por ti —
porque a ideia do amor é hoje muito maior
do que a voz deles. Mãe, se tu quiseres, eu

posso tomar conta dos meninos, sento-me
com eles na margem a desenhar o sol e
havemos de fazer horas para o teu sonho:
depois de tanta dor e tanto luto, eu não
vou deixar que percas os teus meninos
nem pedir-te que sejas viúva para sempre.


Maria do Rosário Pedreira, in 'Antologia Poética'

Vieste como um Barco Carregado de Vento _ Maria do Rosário Pedreira


Vieste como um Barco Carregado de Vento
Vieste como um barco carregado de vento, abrindo
feridas de espuma pelas ondas. Chegaste tão depressa
que nem pude aguardar-te ou prevenir-me; e só ficaste
o tempo de iludires a arquitectura fria do estaleiro

onde hoje me sentei a perguntar como foi que partiste,
se partiste,
que dentro de mim se acanham as certezas e
tu vais sempre ardendo, embora como um lume
de cera, lento e brando, que já não derrama calor.

Tenho os olhos azuis de tanto os ter lançado ao mar
o dia inteiro, como os pescadores fazem com as redes;
e não existe no mundo cegueira pior do que a minha:
o fio do horizonte começou ainda agora a oscilar,
exausto de me ver entre as mulheres que se passeiam
no cais como se transportassem no corpo o vaivém
dos barcos. Dizem-me os seus passos

que vale a pena esperar, porque as ondas acabam
sempre por quebrar-se junto das margens. Mas eu sei
que o meu mar está cercado de litorais, que é tarde
para quase tudo. Por isso, vou para casa

e aguardo os sonhos, pontuais como a noite.


Maria do Rosário Pedreira, in 'O Canto do Vento nos Ciprestes'


sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Rui Veloso - Concerto Acustico

Rui Veloso . Luísa Sobral . Doismileoito . Boss AC . MTV Linked - natal





Presépio De Lata
Rui Veloso


Três estrelas de alumínio
A luzir num céu de querosene
Um bêbedo julgando-se césar
Faz um discurso solene

Sombras chinesas nas ruas
Esmeram-se aranhas nas teias
Impacientam-se gazuas
Corre o cavalo nas veias

Há uma luz branca na barraca
Lá dentro uma sagrada família
À porta um velho pneu com terra
Onde cresce uma buganvília

É o presépio de lata
Jingle bells, jingle bells,

Oiçam um choro de criança
Será branca negra ou mulata
Toquem as trompas da esperança
E assentem bem qual a data

A lua leva a boa nova
Aos arrabaldes mais distantes
Avisa os pastores sem tecto
Tristes reis magos errantes
E vem um sol de chapa fina
Subindo a anunciar o dia
Dois anjinhos de cartolina
Vão cantando aleluia

É o presépio de lata
Jingle bells, jingle bells,

Nasceu enfim o menino
Foi posto aqui à falsa fé
A mãe deixou-o sozinho
E o pai não se sabe quem é

É o presépio de lata
Jingle bells, jingle bells


Composição: Carlos Tê / Rui Veloso

Ana Moura e Camané | Sociedade Portuguesa de Autores | Prémio Autores 2011




ANA MOURA E CAMANÉ

Porque te vestes de preto
Que dor é que te habitua
Quando dobras o gaveto
Ao cimo da minha rua

Que sina escondes no peito
Guardada num xaile antigo
Se é o fado que eu suspeito
Guarda-me a sina contigo

Eu nunca vesti de luto
Este vestido é o fruto
Do que a vida me tem dado
Deu-me o negro do queixume
A escuridão do ciúme
E eu pago com a luz do fado

Até a vida sombria
Deve ter uma estrela guia
Olho o céu e não a vejo
Mas as vidas são vielas
E ao descermos por elas
Vamos sempre dar ao Tejo

Não tenhas dó de nós, não vale a pena
Nenhum se vai esquecer, não tenhas medo
A lágrima perdida é tão pequena
Ao pé do que lembramos em segredo

Não quero, já te disse que não quero
Voltar àquele tempo que foi nosso
Às vezes minto quando sou sincero
É quando quero aquilo que não posso

Foste sincero
Quando te ouvi
Que não podias
Ainda te espero
Porque senti
Que me mentias

Quem nos ditou
Quem nos destina
O fim da estrada
Foi deus que errou
A nossa sina
Foi mal traçada

Disseste adeus
E bateste a porta devagar
Para ninguém notar
Que a vida nos traía
Disseste adeus
Ainda vi que tu sorriste
Vi no teu sorriso triste
Meu amor, até um dia