quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Rodrigo Costa Félix - Amigo Aprendiz




POEMA  AMIGO APRENDIZ de Fernando Pessoa.



Quero ser o teu amigo.
Nem demais e nem de menos.
Nem tão longe e nem tão perto.
Na medida mais precisa que eu puder.
Mas amar-te sem medida e ficar na tua vida,
Da maneira mais discreta que eu souber.
Sem tirar-te a liberdade, sem jamais te sufocar.
Sem forçar tua vontade.
Sem falar, quando for hora de calar.
E sem calar, quando for hora de falar.
Nem ausente, nem presente por demais.
Simplesmente, calmamente, ser-te paz.
É bonito ser amigo, mas confesso: é tão difícil aprender!
E por isso eu te suplico paciência.
Vou encher este teu rosto de lembranças,
Dá-me tempo de acertar nossas distâncias



se o mar te falasse...



Se o mar te falasse..

Como se o mar talvez te daqui levasse...
levasse o corpo ou até te encharcasse...
a alma num imenso oceano de água fria
Oceano de dor que até aqui te trazia
Fustigado pelos ventos, em areias adormecidas
Enterraste as mãos num pedido escondido
E afogaste teus olhos nas águas macias
Numa mesma praia, sem corpo vestido!
Vestes apenas tu...
Com esse fato negro escuro de cegueira
Num corpo sem forma trespassado pela claridade
Quase abandonado pela alma, já sem piedade!,
Definas como a erosão de uma rocha costeira
Ninguém quer reparar quando a desgraça magoa
Ninguém parece sequer saber que ali um homem sofre só
Talvez nem num único pensamento te soubesses pessoa
Ou que há sempre quem "reze" por nós!
Nada nem ninguém saberá o que ate aqui te traz
Ou o que trazes em ti que te roubou toda a paz
Mas cada Ser tem por direito uma nova porta, merecida!
Desejo que a tenhas atravessado com vida!

in: -* Jardim de palavras *- 27 de agosto de 2014



Jacques Brel - La chanson des vieux amants





a mais doce, a mais terna, a mais bela canção de amor.

Cette chanson est un compte-rendu mélancolique tenu par un amant et adressé à celle qui partagea sa vie durant deux décennies.
Le texte est guidé par les souvenirs et étoffes de sentiments que le chanteur a su conserver de cette histoire.


La Chanson des vieux amants Lyrics Jacques Brel



[Couplet 1]
Bien sûr, nous eûmes des orages
Vingt ans d'amour, c'est l'amour fol
Mille fois tu pris ton bagage
Mille fois je pris mon envol

Et chaque meuble se souvient
Dans cette chambre sans berceau

Des éclats des vieilles tempêtes
Plus rien ne ressemblait à rien
Tu avais perdu le goût de l'eau
Et moi celui de la conquête


[Refrain]
Mais mon amour
Mon doux, mon tendre, mon merveilleux amour
De l'aube claire jusqu'à la fin du jour
Je t'aime encore, tu sais, je t'aime

[Couplet 2]
Moi, je sais tous tes sortilèges
Tu sais tous mes envoûtements
Tu m'as gardé de piège en piège
Je t'ai perdue de temps en temps

Bien sûr tu pris quelques amants
Il fallait bien passer le temps
Il faut bien que le corps exulte

Mais finalement, finalement
Il nous fallut bien du talent
Pour être vieux sans être adultes


[Refrain]

[Couplet 3]
Et plus le temps nous fait cortège
Et plus le temps nous fait tourment

Mais n'est-ce pas le pire piège
Que vivre en paix pour des amants
Bien sûr tu pleures un peu moins tôt
Je me déchire un peu plus tard
Nous protégeons moins nos mystères
On laisse moins faire le hasard
On se méfie du fil de l'eau
Mais c'est toujours la tendre guerre

[Refrain]







domingo, 23 de agosto de 2015

Caminho da manhã


Vais pela estrada que é de terra amarela e quase sem nenhuma sombra. As cigarras cantarão o silêncio de bronze. À tua direita irá primeiro um muro caiado que desenha a curva da estrada. Depois encontrarás as figueiras transparentes e enroladas; mas os seus ramos não dão nenhuma sombra. E assim irás sempre em frente com a pesada mão do Sol pousada nos teus ombros, mas conduzida por uma luz levíssima e fresca. Até chegares às muralhas antigas da cidade que estão em ruínas. Passa debaixo da porta e vai pelas pequenas ruas estreitas, direitas e brancas, até encontrares em frente do mar uma grande praça quadrada e clara que tem no centro uma estátua. Segue entre as casas e o mar até ao mercado que fica depois de uma alta parede amarela. Aí deves parar e olhar um instante para o largo pois ali o visível se vê até ao fim. E olha bem o branco, o puro branco, o branco da cal onde a luz cai a direito. Também ali entre a cidade e a água não encontrarás nenhuma sombra; abriga-te por isso no sopro corrido e fresco do mar. Entra no mercado e vira à tua direita e ao terceiro homem que encontrares em frente da terceira banca de pedra compra peixes. Os peixes são azuis e brilhantes e escuros com malhas pretas. E o homem há-de pedir-te que vejas como as suas guelras são encarnadas e que vejas bem como o seu azul é profundo e como eles cheiram realmente, realmente a mar. Depois verás peixes pretos e vermelhos e cor-de-rosa e cor de prata. E verás os polvos cor de pedra e as conchas, os búzios e as espadas do mar. E a luz se tornará líquida e o próprio ar salgado e um caranguejo irá correndo sobre uma mesa de pedra. À tua direita então verás uma escada: sobe depressa mas sem tocar no velho cego que desce devagar. E ao cimo da escada está uma mulher de meia idade com rugas finas e leves na cara. E tem ao pescoço uma medalha de ouro com o retrato do filho que morreu. Pede-lhe que te dê um ramo de louro, um ramo de orégãos, um ramo de salsa e um ramo de hortelã. Mais adiante compra figos pretos: mas os figos não são pretos: mas azuis e dentro são cor-de-rosa e de todos eles corre uma lágrima de mel. Depois vai de vendedor em vendedor e enche os teus cestos de frutos, hortaliças, ervas, orvalhos e limões. Depois desce a escada, sai do mercado e caminha para o centro da cidade. Agora aí verás que ao longo das paredes nasceu uma serpente de sombra azul, estreita e comprida. Caminha rente às casas. Num dos teus ombros pousará a mão da sombra, no outro a mão do Sol. Caminha até encontrares uma igreja alta e quadrada.

Lá dentro ficarás ajoelhada na penumbra olhando o branco das paredes e o brilho azul dos azulejos. Aí escutarás o silêncio. Aí se levantará como um canto o teu amor pelas coisas visíveis que é a tua oração em frente do grande Deus invisível.

Sophia de Mello Breyner, Livro Sexto, 1962