terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Suzete Brainer_ conto/poesia


A Menina de Cabelos de Sol...
























Depois de saboroso lanche feito com seus doces caseiros e o bolo da vovó, sentávamos, na cadeira grande de balanço, eu com 7 anos, no seu colo, à hora das histórias inventadas por ela, como música na construção do meu imaginário e na marcação do som, a cadeira de balanço no ritmo da minha curiosidade infantil acelerada ...






“Era uma vez uma menina dos cabelos de sol, loiros e longos até a cintura. Morava no mundo do Sol, tudo lá era dourado e brilhante... Não existiam brigas, todo mundo falava pelo pensamento e no pensamento, as palavras são mansas, moram bem perto do coração. A menina e sua família viviam felizes e lá todas as famílias eram felizes. Todas as casas tinham jardins de rosas de todas as cores e perfumes. Não tinha noite, pois o Sol é que regia sempre; uma vez a um ano tinha uma Lua cheia que ficava por 7 dias e ela e o Sol ficavam juntos, como uma dança. Alguns momentos ficavam noite com clarão da Lua e outros dia com o Sol regendo. Um dia o Sol brigou com a Lua cheia e todos foram atingidos por essa briga. Ninguém mais entendia o outro. As famílias começaram a brigar todos os dias. Quem foi mais atingida foram as rosas e todas morreram: algumas queimaram, outras murcharam e se despetalaram... A menina, que era muito amiga das rosas, ficou muito triste e nunca tinha conhecido a tristeza. Os seus olhos ficaram sem brilho, a sua voz sem o canto e não queria mais dançar. Enquanto todos brigavam, ela, a única que ficava calada e triste num canto do jardim sem rosas... “






Eu queria saber o que aconteceu com a menina e a minha avó me fazia esperar para outra tarde de sessão de histórias inventadas e contadas por ela. Eu aguardava esta tarde com os meus olhos brilhando de curiosidade, imaginava que o tempo era muito chato e não gostava de histórias, pois demorava tanto para chegar o dia... Ficava perguntando as horas para minha mãe e ela, intrigada, me dizia: "que tanto eu queria saber das horas?...”






Quando cheguei à casa da minha avó, de imediato fui para cadeira de balaço, argumentando que precisava saber da menina dos cabelos de sol e o lanche ficaria para depois da história contada... Ela riu, dizendo que eu tinha fome de história imaginada!...






“A menina dos cabelos de sol estava muito fraquinha, não queria mais abrir os olhos para o mundo desmantelado daquele... Nem a mãe dela notava que a tristeza nela, estava sugando a sua luz-vida, todos continuavam na animação para as brigas de dia e de noite, de noite e de e dia... Foi quando o Sol resolveu se separar de vez da Lua cheia e, assim: os dias ficaram com o Sol e as noites com a Lua, mas a Lua muito contrariada com a decisão do Sol, resolveu se expressar por períodos, os seus sentires femininos na oscilação das vibrações. Ela passou a influenciar as marés e o mundo do Sol nunca mais ficou o mesmo. Todos se acostumaram com o mundo do Sol desfeito, mas ela não. Um dia bem cedinho, antes de o Sol nascer, ela fugiu para dentro dele e hoje aqueles raios do Sol, fininhos, são os cabelos dela!...”






Enquanto comia o meu lanche, não parava de pensar na menina e






perguntei a minha avó:


- A menina ficou alegre lá. Naquele lugar a tristeza nunca mais vai entrar nela, né isso, minha avó?


- Ela pode ser maior que a tristeza! (minha bonequinha...)


-A senhora devia contar essa história para Mainha e meu Pai pararem de brigar. Os adultos brigam muito! Nós, crianças, quando brigamos, fazemos as pazes logo...


-É, minha querida, as crianças sabem brincar com a vida!...


-Vou brincar com as minhas bonecas e todas irão morar no mundo do Sol, quando não foi desfeito...


-Vó, quando tiver bem chato lá em casa, eu voo até o Sol e fico com os meus cabelos junto com os cabelos da menina!...


- Sim. A menina era parecida com você!...


- Você sabe como voar?


- Sei, Vó. É fechando os olhos e imaginando!...


- Isso, minha bonequinha!...






Suzete Brainer


(Direitos autorais registrados)





domingo, 26 de fevereiro de 2017

KarlaSuaréz_entrevista



#entrevista #KarlaSuaréz

LIVROS»CORRENTES D'ESCRITAS
CORRENTES D'ESCRITAS

Karla Suárez: “Estávamos em permanente estado de guerra”
25/2/2017, 15:09

Em "Um lugar chamado Angola" Karla Suárez traz para a literatura as consequências que a participação de Cuba na Guerra Civil de Angola teve na sociedade cubana. "O comunismo é como uma religião", diz.

Fidel Casto "vai ficar sempre com um dos grandes políticos do século XX"., diz Karla Suárez. Já Trump pode pôr em risco a aproximação com os EUA.


Sara Otto Coelho

ANGOLACORRENTES D'ESCRITASCUBAENTREVISTAGUERRA FRIAÁFRICAMUNDOLIVROSLITERATURACULTURAAMÉRICAOBSERVADORHISTÓRIA
11 mil quilómetros e um oceano separam Cuba de Angola. O país latino-americano nunca declarou guerra à ex-colónia portuguesa. E, no entanto, na década de 1980, mais de dois mil cubanos morreram a combater em território angolano. O pai da escritora Karla Suárez esteve lá, assim como muitos outros pais, tios, filhos e irmãos de mulheres cubanas. “Nessa altura, a guerra fazia parte do dia-a-dia. Era normal perguntar pelo pai de alguém e ouvir como resposta ‘está em Angola'”, recorda, em entrevista ao Observador.

Recordar foi algo que Karla Suárez fez muito no seu novo livro, Um lugar chamado Angola. A história começa com Ernesto, que aos 12 anos recebe a notícia de que o pai morreu na guerra. Já adulto, e obcecado com a história do seu país, em particular com a presença militar de Cuba em África, decide viajar para Luanda para esclarecer todas as dúvidas que ainda lhe restam. No entanto, ao tentar reconstruir a morte do pai, percebe que nem tudo se passou tal como ele imaginara.

Um lugar chamado Angola narra o impacto que a participação de Cuba nesse conflito — que mais não foi do que o último tabuleiro de xadrez da Guerra Fria com peças americanas, russas, chinesas e muitas outras — teve nos cubanos nascidos sob o signo da Revolução. As descrições da infância e da vivência de Ernesto são tão fiéis à realidade porque Karla Suárez está, na verdade, a partilhar com o leitor como foi crescer sob o regime de Fidel, em permanente ameaça de invasão, obrigada a fazer o serviço militar e a saudar a bandeira, o comunismo e Che Guevara a cada manhã na escola. Naquela altura, muitas crianças tinham o nome do guerrilheiro. É o caso do protagonista da história.

Quando a escritora cubana começou a escrever romances, no final dos anos 1990, queria contar ao mundo sobre a Cuba onde nasceu e cresceu. O primeiro livro, Os Rostos do Silêncio, é mais focado na família. A Viajante, a seguir, aborda o tema da emigração. Havana, Ano Zero concentra nas suas quase 300 páginas os difíceis anos 1990, período de declínio económico, apagões de eletricidade e todas as carências que aparecem quando o dinheiro falta. Por fim, Angola.

“Agora que já reconstrui o meu país, não sei o que se segue”, diz no final da entrevista que deu ao Observador no festival Correntes d’Escritas, na Póvoa de Varzim. Di-lo a rir-se, e não com um ar preocupado. O sorriso e a joie de vivre parecem ser características indissociáveis da mulher que nasceu em Havana, em 1969. Além disso, não há razão para alarme: não pensa voltar a escrever sobre Cuba tão cedo, mas isso não significa que já não esteja a criar outras histórias. Está.

Karla Suárez deixou Cuba em 1998. Viveu em Roma, depois Paris e, desde 2010, vive em Lisboa, com o marido. “Quando cheguei pela primeira vez à cidade, alguma coisa me fez lembrar Havana. O ritmo, o número de habitantes, não sei.” Queria aprender português e já o fala quase na perfeição.


“Um lugar chamado Angola” foi editado pela Porto Editora em janeiro. Tem 232 páginas e custa 16,60€.

Ernesto, o personagem que criou para o romance, nasceu no mesmo ano que a Karla, 1969. E, a certa altura, também se muda para Lisboa. Quanto há de si neste protagonista?
Tudo o que descrevo sobre a vida em Havana é autobiográfico. A forma como vivemos a guerra, a forma como eu e Ernesto crescemos, é igual. Fizemos as mesmas coisas, acenávamos as bandeirinhas na rua quando Fidel recebia algum presidente, andámos no mesmo liceu e na mesma universidade — ele é engenheiro civil, eu fiz engenharia eletrónica. Há muita coisa em comum, exceto a vida pessoal familiar e tudo o que aconteceu ao pai dele.

O seu pai também foi chamado a combater em Angola?
Sim, ele esteve lá dois anos, mais como assessor militar e não propriamente na frente de batalha, e voltou. Eu estava no liceu quando ele partiu. Nessa altura, a guerra fazia parte do dia-a-dia. Era normal perguntar pelo pai de alguém e ouvir como resposta “está em Angola”. Foram 300 mil cubanos, entre militares, reservistas e civis.

Fez o serviço militar?
Claro, tive preparação militar, com espingarda, kalashnikov, tudo. Quanto tínhamos 17 anos éramos chamados a fazer o serviço: três anos se fosse feito em Cuba, ou dois anos se fosse em Angola. Um dos meus amigos escolheu ir para Angola, para acabar mais rápido, mas quando chegou lá… Ali era a sério, era a guerra! Há uma coisa que me impressionou e que está no romance. O Ernesto está a falar com um amigo, Baby Ranger, a contar como fez a sua preparação militar na universidade. E esse amigo conta como foi a sua preparação antes de ir para Angola. E era a mesma. Só que depois disso, o Ernesto voltou para a universidade e o outro foi para a guerra. Pensas: será que com aquela preparação que recebi podia ir combater?

Chama aos combates em Angola a última grande guerra da Guerra Fria.
Sim. Participaram ali todas as potências: Estados Unidos, União Soviética, China, África do Sul, França, quase todos tinham lá um pé ou com a UNITA, ou com o MPLA, FNLA… Todos tinham interesses diferentes, sendo que, às vezes, faziam guerra entre eles. Há um personagem no romance que descreve esta guerra como um jogo de xadrez. Acho que o fim começou a chegar quando saíram os cubanos. Assinámos o acordo de paz em 1988 e a retirada terminou em 1991. Precisamente o ano em que terminou a Guerra Fria.

Em Portugal fala-se muito sobre a Guerra Colonial, mas muito pouco sobre a presença de todas essas nações na Guerra Civil Angolana. Notou isso? E em Cuba, essas memórias ainda estão muito presentes?
Em Cuba, toda a gente que tenha mais de 30 anos sabe. Mas recentemente falei com jovens de 20 anos e eles só sabiam que os cubanos tinham estado num conflito, mas pouco mais. Temos canções que ajudam a recordar o tema. No início do romance está a letra de uma canção de Frank Delgado: “Angola era, para mim, só um nome estranho na geografia dos meus primeiros anos.” Há uma cena na história em que eles estão num concerto e ele canta esta canção, que é lindíssima. O cantor tem 50 anos, estamos a falar de uma coisa recente, mas que mesmo assim começa a ser esquecida.


Esta proximidade à guerra em Angola esteve sempre presente na sua vida. Porque decidiu pegar no tema agora? Morar em Portugal influenciou de alguma forma?
Com o meu primeiro romance, de 2002, que em Portugal se chama Os Rostos do Silêncio, há um personagem que vai a Angola. Era, de facto, uma coisa que já estava presente. Sempre me interessou, até porque eu não percebia muito sobre o tema. É uma guerra muito, muito complicada, eu costumava dizer que quanto mais lia e me informava, menos entendia. Há muitas vozes e pontos de vista. Então eu queria perceber, porque quando o meu pai foi para Angola eu era muito jovem e o que lia no jornal era quem era o inimigo e contra quem temos de estar, pouco mais. Era uma curiosidade pessoal. A presença dos cubanos em África, começando na Argélia e passando pelo Congo com Che Guevara, é um tema importante na história recente de Cuba. Já se escreveram contos e romances que falam de algumas experiências, mas eu queria fazer algo mais extenso, mais abrangente.

Depois da guerra cada país tem as suas feridas e Portugal também tinha de as sarar. Foi um trauma para os portugueses toda a questão da guerra e dos retornados. Seguramente ninguém tinha vontade de continuar a acompanhar a situação. Mas já falei com muitos portugueses que conheceram cubanos, que depois da Revolução continuaram a trabalhar em Angola. Para mim foi interessantíssimo estar aqui a escrever este romance porque estava sempre a encontrar pessoas relacionadas com o tema. Eu apanhava um táxi e o taxista dizia-me: “Eu estive lá!” Havia sempre uma história. Eu andava sempre com bloco e uma caneta a escrever as histórias. Com toda a informação que recolhi dava para escrever 10 romances! [risos]. Mas não vou escrever mais.

Tem uma frase no livro que me chamou a atenção: “[Renata], talvez por ser peruana, sempre teve dificuldade em perceber que, no meu país, jantamos, almoçamos e tomamos o pequeno-almoço com a História, que a História se enfiou nas nossas camas, nas famílias, nas brincadeiras infantis, que se nos colou à pele.”
Agora talvez não seja tanto mas, quando eu cresci, a política e a ideologia estavam sempre presentes. Tudo era política, tudo, tudo. Quando íamos para a escola, a primeira coisa que tínhamos de dizer, em frente à bandeira, era “Pioneros por el comunismo, seremos como el Che“. Mesmo se algo não era dito diretamente, a ideologia estava em todas as formas do discurso. “Temos de fazer isto porque existe a ameaça dos Estados Unidos.” Estávamos em permanente estado de guerra, sem guerra. Sempre preparados para defender o país. Tínhamos os domingos da defesa, na universidade tínhamos aulas de defesa, era normal. Para quem não cresceu assim, pode ser difícil perceber algumas obsessões com a História. Não é obsessão, é educação. O comunismo é como uma religião.


“Quando íamos para a escola, a primeira coisa que tínhamos de dizer, em frente à bandeira, era ‘Pioneros por el comunismo, seremos como el Che'”. © Porto Editora

Isso fez dos cubanos um povo mais letrado politicamente? Mais interessado?
Não sei até que ponto é mais politicamente educado.O excesso também acaba por fartar as pessoas. A certa altura, há pessoas que dizem: “Basta. Eu já não quero saber de mais nada.” Aconteceu muito na minha geração, nos anos 1990, quando tínhamos 20 anos. Isso também se notou na literatura. Como a minha geração estava mais afastada da política, queria falar de outras coisas. Também nos anos 1990 tivemos uma grande crise económica, então, na hora de escrever, as pessoas queriam abrir a janela e voar.

Foi por causa da crise económica que deixou Cuba em 1998?
Eu nunca tive problemas em Cuba, é preciso dizê-lo. Mas era um país que não tinha muito futuro. Eu tinha 28 anos, o país cada vez me dava menos possibilidades… E mesmo quando era mais nova e o país estava bem, eu sempre quis viver em países diferentes.

Pensa em voltar definitivamente?
Agora não. Não sei amanhã, mas agora não.

O futuro do país ainda está muito indefinido.
Sim, é um país que ainda se está a formar. O país onde eu cresci já não existe. No fim do romance, o Ernesto fala um pouco do país de agora, porque a família continua a morar lá. É um país que eu às vezes não reconheço. Muita gente da minha geração, grandes amigos, também se foram embora, não estão lá. Eu encontro-os no Facebook [risos]. Gosto da minha vida aqui em Lisboa.

Houve muitas mudanças com a ascensão de Raul Castro ao poder.
Não grandessíssimas mudanças, mas importantes, sim. Ele fez coisas que parecem simples, mas que são grandes avanços. Os cubanos não podiam ter telemóveis, não podiam comprar nem vender casas nem carros. Coisas que aqui são normais, mas que para nós constituem grandes mudanças. Isso mudou a vida de muita gente, para melhor. Agora é possível fazer mais negócios privados.

Outra mudança muito importante foi na política de emigração. Há quatro anos, os cubanos tinham de pedir permissão ao Governo para sair do país, nem que fosse para ir de férias. Depois ainda era preciso pedir o visto para entrar noutro país, como é normal, mas a permissão de saída era um problema porque demorava muito. Um profissional tinha de pedir permissão ao chefe, o chefe tinha de pedir permissão ao chefe dele, era uma coisa… Facilmente se passavam quatro meses até se conseguir a permissão. Também era preciso pagar e não era pouco. Com isto, muitas pessoas passaram a viajar e outras começaram a voltar, porque ficam mais livres para saírem quando quiserem.


Como é que sentiu a morte de Fidel Castro?
Era algo que esperava, mais dia menos dia. Não fiquei nem feliz, nem triste. Morreu. Ele vai ficar sempre com um dos grandes políticos do século XX, mas, pessoalmente, não tive um sentimento especial. Foi como se tivesse acabado o mundo da minha infância, porque eu cresci sempre com Fidel. Quando eu nasci ele estava no poder, eu cresci e ele sempre esteve lá, tínhamos a sensação de que ele nunca iria morrer. Em Cuba dizem-me que houve muita gente em silêncio, num luto prolongado. Ele era querido por muita gente, mas também houve quem tivesse ficado contente. Foi uma pessoa que criava sempre grandes ódios e grandes paixões.

Obama fez um trabalho de aproximação entre os Estados Unidos e Cuba. Agora com Trump, pode haver um retrocesso?
Antes de ser eleito ele já disse que ia voltar atrás em algumas coisas. Ainda não o fez, mas vamos ver… É um homem muito perigoso. O romance acaba precisamente com o retomar das relações entre Cuba e os Estados Unidos. Para mim foi um momento fantástico, eu fiquei muito surpreendida, acho que ninguém esperava! Ver Obama visitar Cuba foi um avanço enorme. Finalmente, porque é uma situação absurda. Vamos ver agora o que fará Trump."
in: "observador"




sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Vasco de Lima Couto_Retrato


Fui só eu que estraguei as alvoradas
- presas suaves nos plúmbeos céus!,
e dei água aos ribeiros da minha alma
e fiz preces de amor e sangue, a Deus...

Fui só eu que, sabendo da tormenta
que o vento da nortada me dizia,
puz meus lábios no sonho incompleto
e rasguei o meu corpo na poesia.

Vieram dar-me abraços e contentes
viram que me afundava sem remédio
- nem um grito subia do horizonte
há mil anos deitado sobre o tédio!

Quando chamaram por mim do imenso rio
que a noite veste para se entreter
vi que os barcos andavam cheios de almas
buscando sonhos para não sofrer.

Cantavam doidas como a dor e a morte
parando, a espaços, para ver montanhas
e eram luzes mordidas pelas sombras,
corajosas, infelizes - mas tamanhas!

Eu fugi de as ouvir (que ardentes vozes...)
de navegar nas mesmas ansiedades
e fui sozinho semear as luas
e a natureza inculta das idades.

Parti, negando à vida o seu direito,
recalcando os meus sonhos e os meus medos...

sei agora que matei o meu destino
e quebrei o futuro nos meus dedos.

Vasco de Lima Couto,
in: "Os Olhos e o Silêncio" - 1952


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Manuel Veiga_FESTIVO FREIXO e Sua Sombra

terça-feira, fevereiro 21, 2017


FESTIVO FREIXO e Sua Sombra


Hoje a várzea e sobre o rio o festivo freixo e sua sombra
E o cantar do melro no amarelo doirado do sol em fim de dia
E esta pedra no inamovível tempo em que me sento...

Nem sequer a melancólica aragem, nem o restolhar da memória
Como insecto em flor. Nem o mel silvestre da infância.
Nem o vime. Nem a aurora do sonho. Nem o cântico nas igrejas...

Apenas o alvoroço tardio. E esta pedra absurda no caminho
Como trono. E meus dedos desfiando contas. E o mistério
Inaudito das palavras. E o perfume da dor em cada ausência...

Fenecem grinaldas. Que as cores são apenas nevoeiro
Dos sentidos. Agora o vinho é espessura em bocas de desejo
E o corpo é porto. Ardendo. Como lava em que me extingo.

Manuel Veiga



quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Jorge de Sena


Nem sei porque ainda falo em Deus.
Se de mim me afasto e obedeço ao mundo
– traz ele consigo um sonho para levedar
na perspicácia absorta de um farol de angústia –
e não concedo esperança ao que anda em mim
podendo ser volúpia da memória livre;
se Deus partiu para o limite da vida
quando olhámos ambos a realidade das coisas;
se não existe uma barca onde o rumo se invente,
embora as pontes sejam dessas barcas;
se onde estiver um homem não estará outro homem.
Não sei, de facto, porque falo de Deus.

Jorge de Sena


Jorge de Sena nasceu em Lisboa, a 2 de novembro de 1919, e faleceu em Santa Barbara, na Califórnia, a 4 de junho de 1978



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Graça Pires_Inês, o meu nome


13.2.17


Inês, o meu nome

CNB

Para sempre o teu olhar interdito. O teu rosto sombrio.
O teu corpo clandestino de mim. Para sempre.
Com que sopro, diz, incendiaste, em meus cabelos,
a luz, tão frágil, do primeiro orvalho da manhã?
Que contenda feriu a clareira de teus braços
onde morri quantas vezes eu pude renascer?
Como silenciar o prazer se ajustaste nele
a prematura paixão de tuas mãos?
Talvez este alvoroço de passos em dança,
em grito, em desespero nos mostre
como errámos todos os voos que rasgaram
o excessivo azul das noites mais perfeitas.
Pelas fendas da morte te escuto agora.
Procuro, no intenso fulgor de teus olhos,
a nitidez da água, antecipando as lágrimas
e só encontro a sede de bicho selvagem que te suplicia.
É de rosas, eu sei, o aroma que acoitas no meu nome.

Graça Pires
In: A CNB e os Poetas, 2016, p. 7
Poema feito em out. 2015 depois de ter assistido ao bailado Pedro e Inês, coreografado por Olga Roriz, a convite da direcção da CNB, através de João Costa.   

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Manuel Veiga_Em Louvor de Lydia III



Em Louvor de Lydia III

Cai a tarde, Lydia, e com ela se recolhem
Os raios de luz fria, simulacro dos dias claros
E quentes. Canto de cotovia suspenso
Na brisa que foi afago e agora queima
No silêncio de nossos dedos festivos
Abandonados no regaço, como pétalas
Que perderam o rumo do caule.

E, no entanto, o sol é o mesmo. E o azul
Tão nítido que fere, de luz, os olhos.

O rio passa, Lydia. Sempre. Com seu caudal
A inundar as margens, indiferente
À cotovia e ao melro.
Ou ao piar desconchavado
Do mocho. E seus augúrios. Em poema
Mal urdido.

Festejemos a glória de sermos. E deixemos que o rio siga.
Sem mágoa. E simulemos o beijo, Lydia! Isso basta,
Neste Agora. E aconcheguemos os corpos transidos
Que das estepes frias, o vento gélido
E a flor da memória
Em chamas.

 Manuel Veiga

Lydia é criação literária de Ricardo Reis



terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

herberto helder / lugar lugares

lugar lugares

Era uma vez um pequeno inferno e um pequeno paraíso, e as pessoas andavam de um lado para outro, e encontravam-nos, a eles, ao inferno a ao paraíso, e tomavam-nos como seus, e eles eram seus de verdade. As pessoas eram pequenas, mas faziam muito ruído. E diziam: é o meu inferno, é o meu paraíso. E não devemos malquerer às mitologias assim, porque são das pessoas, e neste assunto de pessoas, amá-las é que é bom. E então a gente ama as mitologias delas. À parte isso o lugar era execrável. As pessoas chiavam como ratos, e pegavam nas coisas e largavam-nas, e pegavam umas nas outras e largavam-se. Diziam: boa tarde, boa noite. E agarravam-se, e iam para a cama umas com as outras, e acordavam. Às vezes acordavam no meio da noite e agarravam-se freneticamente. Tenho medo - diziam. E depois amavam-se depressa, e lavavam-se, e diziam: boa noite, boa noite. Isto era uma parte da vida delas, e era uma das regiões (comovedoras) da sua humanidade, e o que é humano é terrível e possui uma espécie de palpitante e ambígua beleza. E então a gente ama isto, porque a gente é humana, e amar é bom, e compreender, claro, etc. E no tal lugar, de manhã, as pessoas acordavam. Bom dia, bom dia. E desatavam a correr. É o meu inferno, o meu paraíso, vai ser bom, vai ser horrível, está a crescer, faz-se homem. E a gente então comove-se, e apoia, e ama. Está mais gordo, mais magro. E o lugar começa a ser cada vez mais um lugar, com as casas de várias cores, as árvores, e as leis, e a política. Porque é preciso mudar o inferno, cheira mal, cortaram a água, as pessoas ganham pouco – e  que fizeram da dignidade humana? As reivindicações são legítimas. Não queremos este inferno. Dêem-nos um pequeno paraíso humano. Bom dia, como está? Mal, obrigado. Pois eu ontem estive a falar com ela, e ela disse: sou uma mulher honesta. E eu então fui para o emprego e trabalhei, e agora tenho algum dinheiro, e vou alugar uma casa decente, e nosso filho há-de ser alguém na vida. E então a gente ama, porque isto é a verdadeira vida, palpita bestialmente ali, isto é que é a realidade, e todos juntos, e abaixo a exploração do homem pelo homem. E era intolerável. Ouvimos dizer que numa delas, o pequeno inferno começou a aumentar por dentro, e ela pôs-se silenciosa e passava os dias a olhar para as flores, até que elas secavam, e ficava somente a jarra com os caules secos e água podre. Mas o silêncio tornava-se tão impenetrável que os gritos dos outros, e a solícita ternura, e a piedade em pânico – batiam ali e resvalavam. E então a beleza florescia naquele rosto, uma beleza fria e quieta, e o rosto tinha uma luz especial que vinha de dentro como a luz do deserto, e aquilo não era humano - diziam as pessoas. Temos medo - pensavam. E o ruído delas caminhava para trás, e as casas amorteciam-se ao pé dos jardins, mas é preciso continuar a viver. E havia o progresso. Eu tenho aqui, meus senhores, uma revolução. Desejam examinar? Por este lado, se fazem favor. Aí à direita. Muito bem. Não é uma boa revolução? Bem, compreende... claro, é uma belíssima revolução. E é barata? Uma revolução barata?! Não, senhores, esta é uma verdadeira revolução. Algumas vidas, alguns sacrifícios, alguns anos, algumas. É um bocado cara. Mas de boa qualidade, isso. E o rosto que se perdera, que possivelmente caíra do corpo e rolara debaixo das mesas, o rosto? Lembras-te? Como foi que ficou assim? Não sei: tinha uma luz. Sim, lembro-me: parecia uma flor que apodrecesse friamente. Era terrível. Boa noite. E ela trazia um vestido de seda branca, e nesse dia fazia dezoito anos, e estava queimada pelo sol, e era do signo da balança, e tomou os comprimidos todos, e acabou-se. Não compreendo. E julgas tu que eu compreendo? Quem pode compreender? Ela era a própria força, aquela irradiante virtude da alegria, aquele fulgor radical..., compreendes? Sim, sim. Tinha um vestido de seda, e era nova, e então acabou-se. Para diante, para diante. Não se deve parar. Enforquem-nos, a esses malditos banqueiros. Este vai ter trinta e cinco andares, será o mais alto da cidade. Por pouco tempo, julgo eu. Como? Sim, vão construir um com trinta e seis, ali à frente. Remodelemos o ensino. Cantemos aquela canção que fala da flor da tília. Bebamos um pouco. E outro, o que viu Deus quando ia para o emprego?! Isto, imagine, às 8 h. e 45 m. de uma tranquila manhã de Março. Uma partida de Deus? Boa piada. Não amará Deus essas maliciosas surpresas? Um pequeno Deus folgazão?! Ele ficou doido. Começou a gritar e a fugir. Que Deus vinha atrás dele. E depois? Bem, lá construíram o prédio com trinta e seis andares, e o outro ficou em segundo lugar. Isto é o trabalho do homem: pedra sobre pedra. É belo. Vamos amar isto? Vamos, é humano, é do homem. E então as crianças cresceram todas e andavam de um lado para o outro, e iam fazendo pela vida – como elas próprias diziam. E então as condições sociais? Sim, melhoraram bastante. Mas uma delas começou a beber,  e depois a coração estoirou, e ficou apenas para os outros uma memória incómoda. Parece que sim, que tinha demasiada imaginação, e levaram-na ao médico, e ele disse: aguente-se, e ela não se aguentou. Era uma criança. Não, não, nessa altura já tinha crescido, bebia pelo menos um litro de brandy por dia. Nada mau, para uma antiga criança. A verdade é que era uma criança, e não se aguentou quando o médico disse: aguente-se. E as ruas são tão tristes. Precisam de mais luz. Mas nesta, por exemplo, já puseram mais luz, e mesmo assim é triste. É até mais tristes que as outras. Estou tão triste. Vamos para férias, para o pequeno paraíso. Contaram-me que ele tinha uma alegria tão grande que não podia aguentar um copo na mão: quebrava-o com a força dos dedos, com a grande força da sua alegria. Era uma criatura excepcional. Depois foi-se embora, e até já desconfiavam dele, e embarcou, e talvez não houvesse lugar na terra para ele. E onde está? Mas era uma alegria bárbara, uma vocação terrível. Partiu. E agora chove, e vamos para casa, e tomamos chá, e comemos aqueles bolos de que tu gostas tanto. E depois? Ele era belo e tremendo, com aquela sua alegria, e não tinha medo, e só a vibração interior da sua alegria fazia com que os copos se quebrassem entre os dedos. Foi-se embora.


herberto helder
os passos em volta
assírio & alvim
1980



Ruy Duarte de Carvalho_Chagas de salitre

Chagas de salitre

Olha-me este país a esboroar-se
em chagas de salitre
e os muros, negros, dos fortes
roídos pelo vegetar
da urina e do suor
da carne virgem mandada
cavar glórias e grandeza
do outro lado do mar.
Olha-me a história de um país perdido:
marés vazantes de gente amordaçada,
a ingénua tolerância aproveitada
em carne. Pergunta ao mar,
que é manso e afaga ainda
a mesma velha costa erosionada.
Olha-me as brutas construções quadradas:
embarcadouros, depósitos de gente.
Olha-me os rios renovados de cadáveres,
os rios turvos do espesso deslizar
dos braços e das mães do meu país.
Olha-me as igrejas restauradas
sobre ruínas de propalada fé:
paredes brancas de um urgente brio
escondendo ferros de educar gentio.
Olha-me a noite herdada, nestes olhos
de um povo condenado a amassar-te o pão.
Olha-me amor, atenta podes ver
uma história de pedra a construir-se
sobre uma história morta a esboroar-se
em chagas de salitre. 

Ruy Duarte de Carvalho, 
em "A decisão da idade". 
Luanda: União dos Escritores Angolanos, 1976.



segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Sebastião da Gama_Madrigal

Madrigal

A minha história é simples.
A tua, meu Amor,
é bem mais simples ainda:
"Era uma vez uma flor.
Nasceu à beira de um Poeta..."

Vês como é simples e linda?
(O resto conto depois;
mas tão a sós, tão de manso
que só escutemos os dois).





domingo, 5 de fevereiro de 2017

Maria do Rosário Pedreira

Dorme, meu amor, que o mundo já viu morrer mais este dia e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos.
Fecha os olhos agora e sossega — o pior já passou há muito tempo; e o vento amaciou; e a minha mão desvia os passos do medo. Dorme, meu amor — a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste e pode levantar-se como um pássaro assim que adormeceres. Mas nada temas: as suas asas de sombra não hão-de derrubar-me — eu já morri muitas vezes e é ainda da vida que tenho mais medo. Fecha os olhos agora e sossega — a porta está trancada; e os fantasmas
da casa que o jardim devorou andam perdidos nas brumas que lancei ao caminho. Por isso, dorme, meu amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão, já olhei a morte debruçada nos espelhos e estou aqui, de guarda aos pesadelos — a noite é um poema que conheço de cor e vou cantar-to até adormeceres.

Maria do Rosário Pedreira

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Melody Gardot - So we meet again. Live in San Sebastian Jazz Festival 2012


Patxi Andion








Albano Martins_Glosa para José Gomes Ferreira


O mundo, dizias tu, 
não é só dos pássaros 
e do vento, o mundo 
é também nosso. Foi 
por isso, poeta, 
que encheste 
uma gaveta 
de nuvens com a memória 
das palavras e acendeste 
no chão 
dos dias 
comuns 
algumas estrelas 
com tua mão. 

Albano Martins, in "Castália e Outros Poemas"

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Portugal Second – 5 Para a Meia-Noite - RTP




 


Manuel Alegre_O QUE SEI DE POESIA


Não sei falar de literatura. Não sei falar de poesia. Sobretudo não sei se a poesia tem alguma coisa a ver com a literatura. Talvez esteja antes ou depois da literatura. Sei que a poesia não se explica, a poesia implica, como costuma dizer a minha amiga Sophia de Mello Breyner. Sei que a energia, como diz o meu amigo Herberto Hélder, é a essência do mundo e que “os rit­mos em que se exprime constituem a forma do mundo". Sei, como o poeta russo Mandelstam, que "escrever é um acontecimento cósmico". E que cada palavra é um pedaço de universo. Ou como dizia Klebnikov: "Na natureza da palavra viva, esconde-se a matéria luminosa do universo." Talvez tudo isto seja a poesia. Ou talvez ela não seja mais do que o primeiro verso, aquele que nos é dado, como sempre dizia Miguel Torga, porque os outros têm de ser conquistados. Talvez tudo esteja nesse primeiro verso, que é o instante da revelação e da relação mágica com o mundo através da palavra poética. Talvez o poeta, afinal, não seja muito diferente daquele sujeito que vemos nas tribos primitivas, de plumas na cabeça, repetindo palavras mágicas enquanto dança e pula ao ritmo de um tambor. O poeta é esse feiticeiro. Dança com palavras ao som de um ritmo que só ele entende. Ou é talvez o adivinho.

Como já não pode ler nas vísceras das vítimas, procura decifrar os sinais dos tempos através de múltiplos sentidos ou dos semi-sentidos da palavra. De qualquer modo, como nas sociedades primitivas, que tinham uma concepção mágica do mundo, o poeta de hoje é como esse xamã antigo que, através da repetição rítmica de palavras e imagens, convoca as forças benfazejas ou tenta exorcizar as forcas maléficas.

A poesia é, assim, antes de tudo, uma forma de medição. Um presságio do sul, como diz o meu amigo José Manuel Mendes. Uma encantada, encantatória e desesperada tentativa de captar a essência do mundo e de, através da palavra, "mudar a vida", como queria Rimbaud. Uma forma de alquimia. Que procura o impossível. Ou seja: o verso que não há.

A poesia é também a língua. E para mim a língua começa em Camões, que tinha uma flauta mágica.

A música secreta da língua. A arte e o ofício da língua e da linguagem.. Nem foi por acaso que Dante chamou a Arnaut Daniel "il migiior fabbro". O poeta, dizia Cioran, "é aquele que leva a sério a linguagem". E o que é levar a sério a linguagem? Eu creio que é estar atento aos sinais. Os sinais mágicos da palavra. Os sinais da essência do mundo que por vezes se revelam na palavra poética. Ou talvez o duende e aquela ferida de que falava Lorca. Porque o poeta traz em si uma ferida e o duende por vezes ouve "sonidos negros". É então que a poesia acontece.

Isto é o que sei de poesia. Talvez seja muito pouco. Mas não sei se é possível saber mais.


Manuel Alegre, in “Obra Poética”,
a págs 903/904 (2000)


ana cristina c_marfim

A moça desceu os degraus com o robe monografado no peito: L. M. sobre o coração.
Vamos iniciar outra Correspondência, ela
propôs. 
- Você já amou alguém verdadeiramente?
- Os limites do romance realista; 
- Os caminhos do conhecer;
- A imitação da rosa;
- As aparências desenganam!
- Estou desenganada!

- "Não reconheço você, que é tão quieta, nessa história". 
- "Liga amanhã outra vez sem falta". 
- "Não posso interromper o trabalho agora". 
- "Gente falando por todos os lados". 

Palavra que não mexe mais no
barril de pólvora plantado sobre a torre de marfim.

ana cristina cesar, ana c.



raul_brandão / últimos conselhos de uma mãe a seu filho


«Filho, fui eu que te criei. Sustentei-te de restos, de pobreza, de humildade. Só pensei em ti: tu tens, portanto, obrigação de ouvir os últimos conselhos que te dou. Olha que és o meu filho, o filho que criei de dia, de noite, de fome, de obediência e de sonho amargo. Criei-te para que pudesses um dia pertencer às classes elevadas. Por isso sofri, para isso sonhei, para isso desapareço, agora que cumpri o meu destino.

Filho: mente. Às pessoas ricas é preciso mentir sempre e dizer sempre que sim. Deve-se-lhes consideração, deve-se-lhes obediência. Nunca te ligues com os pobres. Para pobres bastamos nós. A pobreza pega-se, não há nada no mundo pior que a pobreza. Tem cuidado com a língua. Pela boca morre o peixe. Nunca digas o que sentes: o que a gente sente é sempre uma inconveniência. Há pessoas que dizem: - Eu gosto que me contradigam. - Foge delas como o Diabo da cruz. O que toda a gente quer é que os outros sejam da sua opinião. Só os ricos têm direito de contradizer os pobres. Um pobre não deve ter opinião. Guarda as conveniências, acima de tudo guarda as conveniências.

O mundo antigo tinha muito de bom; sabendo-se ser agradável arranjava-se lá um cantinho. A morte é indispensável para as pessoas herdarem, e para nos dias de luto se desanojarem os ricos. Foge do pecado. Sê religioso e temente a Deus. Nunca digas mal de ninguém. E habitua-te filho, habitua-te que é o grande segredo da vida. Habitua-te a cumprir os teus deveres para com a sociedade. O dever acima de tudo, o dever de te subordinares para que te não queiram mal. Não te esqueças também dos pequenos deveres de cortesia. Não te esqueças de que no dia 21 de Julho faz anos o teu padrinho, nem de deixares cartões de visita às pessoas respeitáveis. Há as que fingem que não reparam nessas coisas. São as piores, são as que reparam mais. Respeita. Respeita a lei, os superiores, a Igreja, os ricos. Num caso grave da tua vida chega-te ao pé do conselheiro Pimenta e diz-lhe com humildade: - Eu sou filho da Restituta que era prima de V. Ex.ª - E mais nada. Não sejas causa de desordem nem de escândalo. Fala baixinho, e mente, filho, mentir não custa nada. Nunca digas a verdade porque pode vir a saber-se. Deus nos livre da verdade. Mente para seres agradável aos outros e a ti mesmo. E, sobretudo, repito-te, diz sempre que sim. Não custa nada dizer que sim, dizer a tudo que sim, dizer sempre que sim.

Tua mãe,

Restituta da Piedade Sardinha »


raul brandão
húmus
frenesi
2000


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

António Lobo Antunes - Bolero do coronel sensível que fez amor em Monsanto


António Lobo Antunes -
Bolero do coronel sensível
que fez amor em Monsanto
Pintura: Madame Bell, de Picasso

Eu que me comovo
Por tudo e por nada
Deixei-te parada
Na berma da estrada
Usei o teu corpo
Paguei o teu preço
Esqueci o teu nome
Limpei-me com o lenço
Olhei-te a cintura
De pé no alcatrão
Levantei-te as saias
Deitei-te no banco
Num bosque de faias
De mala na mão
Nem sequer falaste
Nem sequer beijaste
Nem sequer gemeste,
Mordeste, abraçaste
Quinhentos escudos
Foi o que disseste
Tinhas quinze anos
Dezasseis, dezassete
Cheiravas a mato
À sopa dos pobres
A infância sem quarto
A suor, a chiclete
Saíste do carro
Alisando a blusa
Espiei da janela
Rosto de aguarela
Coxa em semifusa
Soltei o travão
Voltei para casa
De chaves na mão
Sobrancelha em asa
Disse: fiz serão
Ao filho e à mulher
Repeti a fruta
Acabei a ceia
Larguei o talher
Estendi-me na cama
De ouvido à escuta
E perna cruzada
Que de olhos em chama
Só tinha na ideia
Teu corpo parado
Na berma da estrada
Eu que me comovo
Por tudo e por nada

António Lobo Antunes (Escritor e Poeta português, 1942- )