quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Manuel Veiga_Em Louvor de Lydia III



Em Louvor de Lydia III

Cai a tarde, Lydia, e com ela se recolhem
Os raios de luz fria, simulacro dos dias claros
E quentes. Canto de cotovia suspenso
Na brisa que foi afago e agora queima
No silêncio de nossos dedos festivos
Abandonados no regaço, como pétalas
Que perderam o rumo do caule.

E, no entanto, o sol é o mesmo. E o azul
Tão nítido que fere, de luz, os olhos.

O rio passa, Lydia. Sempre. Com seu caudal
A inundar as margens, indiferente
À cotovia e ao melro.
Ou ao piar desconchavado
Do mocho. E seus augúrios. Em poema
Mal urdido.

Festejemos a glória de sermos. E deixemos que o rio siga.
Sem mágoa. E simulemos o beijo, Lydia! Isso basta,
Neste Agora. E aconcheguemos os corpos transidos
Que das estepes frias, o vento gélido
E a flor da memória
Em chamas.

 Manuel Veiga

Lydia é criação literária de Ricardo Reis



4 comentários:

  1. Obrigado, Luís

    além de grato,
    fico também sensibilizado com a gentileza
    que me muito honra.

    caloroso abraço, meu amigo

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  2. Lindíssimo poema! A música ainda enobrece mais (das minhas preferidas!). Parabéns ao autor.

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  3. O Manuel Veiga cada vez me surpreende mais com a poesia que faz. Não só as palavras. É a sensibilidade, a lucidez e a harmonia.
    Uma boa semana.
    Um beijo, meu amigo.

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