sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Teresa Salgueiro _ a solo





O novo Horizonte de Teresa Salgueiro

Quatro anos depois de "O Mistério", Teresa Salgueiro regressa com "O Horizonte"
Teresa Salgueiro apresenta o novo álbum a solo O Horizonte em concertos hoje na Casa da Música, no Porto, e amanhã no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Conversámos com a antiga vocalista dos Madredeus num hotel lisboeta.
Com nove anos de percurso em nome individual, Teresa Salgueiro está a viver o início de uma nova etapa a solo com o álbum O Horizonte, editado na semana passada. Hoje e amanhã, na Casa da Música e no Centro Cultural de Belém, Teresa Salgueiro vai interpretar os temas do novo disco, promete recuperar algum do reportório do longo antecessor O Mistério, e vai cantar "algumas versões de temas da cultura portuguesa", sem esquecer os Madredeus.
Teresa Salgueiro passa a assumir no novo disco o comando de todos os aspetos da sua música - letras, composição, interpretação e até produção a meias com o seu multi-instrumentista Rui Lobato. "De facto, este disco foi uma grande luta, porque começou a ser composto logo depois de O Mistério, o disco que gravei em 2012. Entretanto, houve muitas alterações. O Horizonte representa aquela linha que está ali [Teresa aponta ao fundo], sempre longe. É o limite daquilo que conseguimos ver e que nos convida a fazer um caminho. À medida que caminhamos, o horizonte muda mas o sonho permanece. Nesse caminho vamos encontrando o mundo real. Sendo o sonho de ser músico, este disco teve de passar por várias fases e obstáculos que se tornam oportunidades para melhorarmos as coisas. Acredito que o disco é melhor agora. Se tivesse sido feito há quatro anos, o disco teria sido outro. Acho que a música está mais profunda do que a de O Mistério. Mudaram pessoas, saiu o guitarrista que queria fazer um masterclass em Nova Iorque. Há dois anos saiu a acordeonista. É uma muito maior responsabilidade, a de gerir esta atividade para a qual colaboram pessoas cujas vidas dependem disto."
 
Nesta nova formação, além de Rui Lobato, o coletivo de Teresa Salgueiro conta com o contrabaixista Óscar Torres, o acordeonista Marlon Valente e o guitarrista Graciano Caldeira. "Os músicos que vieram trouxeram a sua linguagem. Se calhar, o tempo que levou podia ter sido um pouco menor. Mas o percurso que tem sido feito tem sido muito enriquecedor para mim."
A curiosidade é que Teresa Salgueiro continua a ser acompanhada por mais quatro instrumentistas, o que aconteceu em vários períodos dos Madredeus. "É uma coincidência mas também uma procura. Aquilo que eu quis era um som que fosse novo, que não me fizesse repetir. Pensei no acordeão porque era um instrumento que tinha estado no meu início. E é um instrumento bastante versátil, parece uma orquestra. E é muito português. O contrabaixo é um instrumento também bastante versátil. Ainda por cima, o contrabaixo do Óscar é elétrico e permite o uso de pedaleiras e de uma série de recursos. A ideia era encontrar uma música que fosse ao encontro da minha voz e de um som com o qual me identificasse."
Na comparação inevitável de O Horizonte com os Madredeus, notam-se algumas diferenças substanciais, nomeadamente na secção rítmica. Mas há associações evidentes, como o ar do acordeão. "Poderá haver uma proximidade sonora nalgumas coisas e até de inspiração, pois sou a mesma pessoa. Passei muitos anos a cantar o meu amor a Portugal e continuo a fazê-lo. Mas a música é muito diferente. Nos Madredeus, os temas são mais canções, com uma estrutura clássica. Nós hoje não fazemos bem isso. Há pontualmente canções, mas o que fazemos são essencialmente peças, as letras raramente se repetem. É outra fórmula de música. Mas se me compararem aos Madredeus, só posso ficar contente, estive lá tanto anos. Gostei muito dos Madredeus quando lá estive."
Outra das razões que ajudam a diferenciar o novo álbum de Teresa Salgueiro do legado dos Madredeus prende-se com o facto de a cantora lisboeta passar a assinar as letras. "Estes temas que tocamos sabemos que vão suportar a voz e as palavras cantadas e um pensamento - tanto n"O Mistério como n"O Horizonte. Acho que este disco é muito pessoal mas não num sentido autobiográfico. É pessoal porque representa o meu pensamento e a minha visão sobre a realidade. Quando estou a escrever, estou a imaginar quem vai ouvir-me. Claro que imagino uma plateia, mas também imagino um a um. Nesse sentido, é um disco dirigido a cada um."
Nessa escrita de letras, Teresa Salgueiro conseguiu inspirar-se para o tema mais interventivo que jamais cantou: chama-se Êxodo. "Esse tema já tem quatro anos. E sempre se chamou Êxodo mas só escrevi as letras há pouco tempo. O Êxodo inspirou-me sempre a falar nos povos excluídos. Há séculos que cruzam o planeta, expulsos por outras comunidades. Isso é uma coisa que me faz muita confusão. Portugal é também um país de diásporas, se bem que a emigração foi muitas vezes forçada, de que temos casos recentes. Quando comecei a escrever este tema, aconteceu a guerra da Síria que tem provocado este êxodo terrível. Estava a lembrar-me de povos, que para além de perderem as suas casas não têm para onde ir. Se houvesse vontade política, nós poderíamos estar a viver num mundo extraordinário. Mas o pior da natureza humana ainda está a vencer. É assustador. Temos de lutar."
Durante vinte anos, Teresa Salgueiro habituou-se ao amparo de uma retaguarda altamente profissional chamada Madredeus. Mas Teresa Salgueiro não se sente hoje mais desamparada: "Sinto-me livre. E tenho outra retaguarda, de músicos extraordinários que me acompanham. Há um núcleo duro na banda, formado por mim, pelo Rui Lobato e pelo Óscar Torres, e há um trabalho de equipa que me faz sentir apoiada. Tenho a sorte de contar com estas pessoas, com quem consigo falar, e que se preocupam tanto quanto eu com a qualidade. Há muita liberdade criativa em que eu sou o filtro."
Saída pacífica dos Madredeus
O que será mais difícil: uma rapariga de 17 anos a enveredar pela carreira de cantora no início dos Madredeus ou uma mulher com mais vinte anos em cima a decidir aventurar-se num percurso a solo? Para a cantora, a decisão de sair dos Madredeus não foi "nada difícil porque foi pacífica e a única possível. E a decisão de ingressar nos Madredeus também não foi nada difícil porque foi uma alegria, ninguém sabia no que aquilo ia tornar-se. Eu era ainda miúda. O grupo depois profissionalizou-se mas no início foi um encontro feliz. Saí por um desentendimento de agenda. Tínhamos combinado um tipo de ocupação e estava a ser-me exigido outro. "Ou é este ou é nada!". Neste caso, escolhi o nada. Era a única opção possível, não ia ficar a fazer uma coisa que não tínhamos combinado e que não me ia permitir estar de corpo e alma no projeto como sempre estive ou como sempre tentei estar. Nesse sentido, foi pacífico. Somos responsáveis pelos sonhos que escolhemos. Claro que isso tem consequências. No meu caso, o meu sonho era continuar a cantar."
E para continuar a cantar, Teresa Salgueiro tem os cuidados normais com a voz, como explica: "Tentar ter uma vida regrada a nível de dormidas, não fumar, não beber. Já fumei no passado mas já deixei há muito tempo porque não me faz bem nenhum. Bebo muita água, gosto muito de gengibre, mascado e por vezes em chá. E faço o aquecimento normal de voz antes de cantar."
in: "DN"

domingo, 18 de setembro de 2016

domingo, 11 de setembro de 2016

Geraldo Vandré_Caminhando e Cantando



(Esta é daquelas canções que vêm do  passado lembrar-nos que, ontem como hoje, há dias cinzentos a entristecer o Brasil.)

Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores
(Caminhando e Cantando)
Geraldo Vandré

Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não
Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Caminhando e cantando
E seguindo a canção

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Pelos campos há fome
Em grandes plantações
Pelas ruas marchando
Indecisos cordões
Ainda fazem da flor
Seu mais forte refrão
E acreditam nas flores
Vencendo o canhão

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Há soldados armados
Amados ou não
Quase todos perdidos
De armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam
Uma antiga lição
De morrer pela pátria
E viver sem razão

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Somos todos soldados
Armados ou não
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não

Os amores na mente
As flores no chão
A certeza na frente
A história na mão
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Aprendendo e ensinando
Uma nova lição

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Do medo e do milhafre_Ana Paula Tavares _conto

PALAVRAS DO DESERTO
Do medo e do milhafre
por Ana Paula Tavares

Do medo e do milhafre

O cacimbo é o tempo prolongado, o sonho que custa a ser sonhado, a casca da árvore presa por fios, as palavras contidas no silêncio dos velhos, denso como a pele que lhes marca os ossos nos dias que descontam a vida colhendo o sol com as mãos magras e finas. Ficam voltados para dentro, descobrindo nas muitas camadas depositadas as vidas que foram vivendo entre bois e filhos desatentos, enfim, a tudo o que mexe cá fora e tem peso e desce por gravidade a encontrar lugar na terra que tudo acolhe. A morte próxima é neles uma busca de dores maiores e desencontros e longos caminhos percorridos alinhados aos que nunca foram trilhados. Caminhos de pé posto e outros mais cortados das catanas, sempre escolhas — este e não o outro –, entre a curva da montanha e o desenho das estrelas. No cacimbo, enquanto as aves fogem da tempestade e do frio, como quem anuncia barcos e novos portos de abrigo, as mulheres mais velhas com as mãos vazias de ninho devolvem o sentido da vida inscrevendo provérbios nas novas cabaças da família. Sabem que todo o processo envolve três nós: nascimento, vida e morte e o ponto de convergência só se adivinha vivendo a separar e a adivinhar cada um dos caminhos que se apresentam em cruz. AnaNaPalavra chegou por esse tempo com poucas palavras: “há um tempo para chorar e um tempo para rir, o nosso tempo para chorar chegou e veio para ficar”. O rosto parecia velado, tantas eram as escarificações e as marcas dos anos na pele azulada, e o corpo parecia parado, tão lentos eram seus movimentos de barco ancorado no deserto de uma solidão antiga. Perdera a qualidade de fazer perguntas com que nos tinha iniciado para a vida. Vinha do seu último ritual de passagem onde devolvera a sua qualidade de mulher para assumir o ser em toda a sua espessura. Ainda parecia um de nós, mas nada na forma como se movia nos deixava perceber a memória partilhada de uma anterior figura que nos amparara o crescimento, levara pela mão até à casa redonda e ensinara o segredo dos silos e dos remédios mais sagrados. Estava ali para desatar nós, ausente e a mostrar-se num processo de transformação que nos deixava inquietos. O medo desceu sobre a montanha e a nossa vida ficou pequena, tanto era o tempo que perdíamos a olhar AnaNaPalavra e a adivinhar a eternidade que trazia para contar: “depois das mortes vieram mais mortes, há que saber os segredos”.

Voltámos às tarefas dos dias, avaros dos nossos e dos novos pastos, crentes em que o prodígio das sementeiras e das colheitas nos faria viver a vida que o chão da nossa terra nos pedia. As mulheres novas amamentavam os monas e as cabras pariam filhos no curral. Todos nós queríamos alargar os dias para que a hora da vergonha tardasse a chegar. A noite era dura e transparente e jogava connosco o jogo da vergonha. O segredo (pensávamos) estava escondido nos lugares sagrados e embora estivéssemos destinados a viver sem sonhar (estava-nos interdito o sonho), o guardião do sino e o mais velho de todos os ferreiros tinham pelo fogo conseguido proteger a aldeia de todos os castigos. Estávamos entre o céu e a terra (pensávamos), no universo ideal da eternidade diária. Não pensávamos.

AnaNaPalavra não era a pessoa por quem esperávamos. É verdade que ela era dos nossos. Tinha as marcas da linhagem. Tinha o segredo da linguagem. Não sabíamos porque tinha voltado agora, quase transparente e sobretudo sem a dupla face que a fazia ser uma de nós.

Foi tecendo à sua volta um último cesto: sepultura e berço de um chão e de uma vida longe da eternidade. As palavras ácidas caíram sobre nós como a chuva de Março: intensas, como se todas as estrelas do céu resolvessem apressar o nosso destino. A morte de Garita, a faca do crime, os amores selvagens e fora das regras foram punidos assim, pela mão de AnaNaPalavra e o regresso dos sonhos mais antigos. Antes de fechar o cesto disse:

“Eu vivi aí, há muito tempo, com os pastores e os camponeses. Vivi, portanto, nesse reino, vi com os meus próprios olhos e ouvi com as minhas orelhas os seres fabulosos por detrás das coisas: os espíritos guardiães das fontes, as sereias que cantam no rio, os mortos das aldeias dos antepassados que me falavam iniciando-me nas verdades alternativas dos dias e das noites. É-me portanto suficiente nomear as coisas, os elementos…”1







1 De um poema de Leopold Sedhar Sengor / Léopold Sédar Senghor

in: RedeAngola

domingo, 4 de setembro de 2016

quase um fado_Rodrigo Maranhão e António Zambujo




Quase Um Fado
Rodrigo Maranhão


(partic. Antonio Azambujo)  

Trago no peito segredos 
Amores confessos, 
ocultos desejos 
O tempo apressado, 
o beijo partido 
Inteiro aos pedaços 
da vida eu duvido 
Trago no peito um segredo 
Dos mares que desafio.   

Trago no peito o meu mundo Fagulha, 
centelha, 
amor vagabundo 
Que bate calado o seu bate fundo 
E sempre navega pro mesmo lugar
 Trago no peito um segredo  
Dos mares por navegar